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Leandro Vilar

sexta-feira, 12 de março de 2010

O Primeiro Imperador

Na história da China Antiga, por longos séculos o seu povo viveu dividido em vários reinos ou Estados, os quais se digladiavam para conquistarem uns aos outros. Tais confrontos perduraram por muito tempo, até se poder haver uma estabilidade. Essa história se passa antes da fundação do Império Chinês. Foi no século III a.C que um jovem rei, decidiu levar a cabo a mais ousada empreitada já feita entre os reis de seu tempo. Este conquistou os Estados rivais, e fundou um único e grande império, que duraria mais de dois mil anos. Este homem fora Qin Shi Huang.

Qin Shi Huang nasceu por volta de 260 a.C, suas origens são obscuras, sabe-se que seu pai, fora prisioneiro no palácio da Corte do Reino de Zhou (Chou), onde possivelmente conheceu a mãe de Qin Shi Huang. Essa época se passou durante o período dos Reinos Combatentes (século V a.C ao III a.C), uma conturbada era na qual outrora o grande Reino de Zhou se encontrava enfraquecido e tendo perdido províncias e terras para seus inimigos e revoltas internas, que levaram a separação de seus feudos, os quais acabaram se tornando pequenos reinos. Neste caso, o Reino de Qin, fora antigamente, um feudo vassalico de Zhou, mas devido a sua crescente influência em questões militares e políticas, este acabou se separando de Zhou, como outros também vieram a fazer. No entanto era comum os nobres das diferentes cortes serem mantidos prisioneiros em reinos rivais, algo confuso, mas no entanto, servia de forma para que o reino rival pudesse está de olho no que o inimigo estava fazendo. O próprio rei Qin, foi mantido refém na juventude no Reino de Zhou.

No Período dos Reinos Combatentes ou Reinos Guerreiros, este era formado por sete Reinos ou Estados feudais. Os reinos de: Han, Zhao, Wei, Qin (Chin), Yen, Chu e Qi (Chi). Sendo que na época do rei Qin, os reinos de Chu, Han e Zhou eram os mais poderosos. Mesmo com a ameaça de tais inimigos os reis de Qin nunca se intimidaram. Por cinco gerações seus governantes tentaram a unificação dos Estados. Porém somente com Qin Shi Huang isso veio de fato ocorrer. Mas antes de eu explicar como se deu este longo processo, irei contar um pouco da ascensão do jovem rei ao trono.

Aos 12 anos, Qin assumia o trono do Reino de Qin (nessa época era comum o rei levar o nome de seu reino). Possivelmente seu pai fora assassinado, no entanto, o jovem rei contou com o apoio de sua mãe e do chanceler Liu Bewei. Entretanto, enquanto o jovem rei era manipulado por ambos, já que a sua mãe se tornara amante do chanceler, quando Qin chegou a maioridade, sua mãe tentou planejar o próprio assassinato do filho, e por Liu Bewei no trono. Porém, o rei descobriu os planos e agiu antes. Ele condenou sua mãe ao exílio, ordenou a morte de Liu Bewei, de seus dois filhos (os quais eram seus meio-irmãos) e outros cúmplices do chanceler. Tendo pondo fim a este terrível plano de traição, ele nunca mais confiou em outra mulher.

Por tal fato ele nunca chegou a se casar. Seus filhos nasceram de concubinas, mas nunca de uma esposa. Com a solução deste impasse, Qin decidira escolher um novo primeiro-ministro ou chanceler, o escolhido fora Li Si o qual era um homem sábio e ambicioso. De fato fora o responsável pela política militar e o comando do Estado durante a época das guerras de unificação. Qin decidiu agir o quanto antes para unificar os reinos antes que outro o fizesse. E para isso ele começou a adotar e a investir em uma forte política armamentista. Muitos homens foram convocados e treinados; além de haver um grande produção de armas, e nesse caso fora descoberto durante escavações na década de 70, restos de pontas de setas, e os arqueólogos chegaram a conclusão que tais pontas eram fabricadas em massa, em um processo industrial. De fato, descobriu que o exército de Qin, usava bestas como armas de artilharia. Tal arma só seria vista na Europa muitos séculos depois.

Dispondo de um grande exército, de suprimentos e armamentos em massa, Qin iniciou suas campanhas de conquista. O primeiro alvo fora o reino vizinho de Han, o qual ficava no centro de todos os outros. Com a conquista de Han, este seria um ponto de partida para conquistar os demais reinos do Norte, já que ao sul o Reino de Chu era o mais poderoso da época. Em 230 a.C cerca de um ano de guerra, Han caí a mercê do exército de Qin, com sua conquista, o rei decidira dar o próximo passo, e o alvo dessa vez era o Reino de Zhao. Nesse ponto, alguns historiadores costumam dizer que o ataque a Zhao fora muito além do fato de ser conquistado, mas fora um motivo de vingança. Como eu havia dito no começo, Qin fora mantido refém na Corte de Zhao, nesse tempo ele foi humilhado e agredido pelos seus membros. Com isso ele iniciara o ataque à Zhao após invadirem e destruírem quase toda a capital do reino, o próprio rei vai em pessoa até a cidade, e indica à dedo, as casas de todos aqueles que o humilharam e o agrediram na infância. Todos os homens e mulheres que fizeram isso foram arrancados de suas casas e executados no meio da rua. Em alguns casos, ele ordenara a execução de toda a família dos acusados.

Em 228 a.C Zhao finalmente sucumbira ao poder de Qin. Em 225 a.C chegara a vez de Wei. Com isso metade do território estava sob seu comando, e agora só restavam três reinos a serem conquistados, os dois pequenos reinos de Yen e Qi, e o gigantesco e poderoso reino de Chu. Qin decidiu atacar Chu, seu maior inimigo naquele momento. No entanto ele estava em dúvida de como proceder, para isso ele convocou a ajuda de dois generais, um veterano de guerra e um jovem general. O veterano aconselhou que fossem enviados 600 mil homens para o ataque, porém o jovem, disse que bastava apenas 200 mil para efetuar um ataque rápido e mortal. O rei se deixou persuadir pelo jovem, e o escolheu para liderar suas forças. No entanto tal escolha se revelou em um grande erro. Dos 200 mil guerreiros enviados, somente 10 mil sobreviveram. Envergonhado com a derrota e o erro que cometera, Qin ordenou que o outro general fosse chamado, e lhe concedeu o exército solicitado. Com isso o Reino de Qin, invadiu Chu com o gigantesco exército de 600 mil guerreiros, o maior da História em seu tempo, e conquistou Chu em 223 a.C.

Com a conquista de Chu, só faltavam os pequenos e fracos reinos de Yen e Qi. O rei Qin Shi Huang, retornou para a capital de Qin, Xianyang, lá no ano seguinte, ele recebeu a visita de um embaixador do Reino de Yen, o qual levava a declaração de rendição, no entanto a verdade era outra. O embaixador fora enviado para assassinar o rei, ele escondera uma faca dentro do mapa o qual iria entregar para o rei Qin. Neste mapa contia os planos de batalha de Yen, (Entregar o mapa dos planos de batalha e da organização militar do reino era visto como sinal de rendição) porém a tentativa de assassinato fora frustada, e o assassino acabou sendo morto pela guarda real. Qin com raiva de tal ato de traição ordenou a destruição de Yen. Em 222 a.C o Reino de Yen fora conquistado. No ano seguinte, o Reino de Qi declarou sua rendição, e com isso Qin passava a ser o único governante de todas estas terras.

Após dez anos de conflitos, Qin viajou até as margens do Rio Amarelo (Huang He em mandarim), para agradecer aos deuses. De fato os chineses consideravam o próprio rio como sendo um deus-rio. Ele não via a sua vitória como algo do mero acaso dos deuses, mas si como sendo seu próprio destino. Para muitos governantes em diferentes épocas da História o ato de governar era um sinal divino. Feito sua oferenda de agradecimento, este retorna para Xianyang, onde se proclamara imperador. Em 221 a.C, o rei passara a se chamar Qin Shi Huang Ti, adotando o nome Huang Ti ("Augusto soberano" ou "Primeiro Augusto Imperador"). Como imperador, ele passara a se considerar um deus-vivo e a ser respeitado como tal. Ele também passara a ser chamado pela alcunha de o Primeiro Imperador. Então fundara o Império de Qin (Chin), posteriormente chamado de Império da China.

O Império Chinês


Iniciado o seu governo como imperador, Qin o qual teria um breve governo, reinando até 210 a.C, promoveria uma profunda transformação política, administrativa, econômica, social e cultural, levando após a sua morte a revolta de muitos senhores e nobres devido a suas reformas. Porém antes de chegar a este fato, irei esboçar algumas das reformas promovidas pelo imperador.


Em marrom o território do Império de Qin ou Chin. Em pontilhado os atuais territórioa da China e da Mongólia. 
No mapa acima pode se ver o império chinês durante o governo da Dinastia Qin (221-206 a.C), a qual só teve dois imperadores, Qin Shin Huang Ti e seu filho Er Shih Huang Ti. Com a morte dos dois a dinastia chegou ao fim, e o império passou a ser governado pela Dinastia de Han (206 a.C - 220 d.C). Além de ter estendido as fronteiras do império, Qin dividiu o império em 36 províncias  que mais tarde passaram a ser 48. Ele aboliu o sistema feudal usado até então pelos antigos reinos, centralizando o poder nas mãos do imperador. Criou uma única moeda de cobre; Redigiu uma nova norma ortográfica, adotando o mandarim como língua oficial do império; construiu uma série de estradas e canais de irrigação promovendo o aumento da produção agrícola e o comércio tanto interno como externo. Ele também padronizou os pesos e medidas, construiu fortalezas, cidades, etc.

Dentre as mais famosas construções ordenadas por Qin, se encontra a Grande Muralha da China, iniciada no início de seu governo a Grande Muralha seria estendida ao longo dos séculos por dezenas de imperadores. Ela fora originalmente erguida para barrar o avanço dos inimigos do Norte, nesse caso os mongóis e manchúrios, e posteriormente os hunostártaros.



Originalmente a muralha fora construída de tijolos de barro e com argamassa, somente depois é que começaram a se utilizar pedra em sua construção. Grande parte da mão de obra utilizada fora escrava, e muitos morreram na construção desta.

Além da revolta por parte dos camponeses em terem que trabalhar em péssimas condições na construção da Grande Muralha, havia a revolta de várias outras poderosas famílias as quais ficaram sob o olhar atento e cerrado do imperador na capital. Tais famílias foram tidas como possíveis inimigas do império, com isso Qin procurou ficar de olho nelas.

"[...], e também a destruição de poderosas familias (cerca de 120.000 familias são transferidas para a região sob sua fiscalização real)". (YANG, 1977, p. 41).

Além de governar de forma tirânica e altamente autocrática, Qin também combateu com veemência os letrados e os filósofos (principalmente os confucionistas) dos quais discordavam de sua política e forma de governar, a ponto de que em 213 a.C, ele ordenou a queima de uma grande quantidade de livros de história e filosofia os quais ele julgou serem impróprios para a leitura, levando ao desinteresse pela escrita e por tais profissões.

Outro ponto importante a se falar sobre este homem fora sua incessante busca pela imortalidade. Qin viajou por muito tempo pela China procurando sábios que pudessem fazer uma poção da vida eterna. Alguns historiadores sugerem que possivelmente o imperador teria morrido ao beber uma das supostas poções da vida eterna produzida pelos alquimistas.

Qin morreu em 210 a.C, enquanto viajava pelo país. Quando este veio a morrer, seu primeiro-ministro, Li Si, teve medo de contar aos demais sobre a morte do imperador, temendo uma revolta imediata do povo, já que Qin possuía muitos inimigos. Sendo assim o povo chinês passou alguns meses sem saber que na verdade o seu divino imperador já havia falecido há algum tempo. Tal notícia só foi divulgada quando a comitiva do imperador retornou para a capital em Xianyang. Lá, o segundo filho de Qin, Huhai fora persuadido a assumir o trono, passando a se chamar Er Shin Huang Ti (229-207 a.C). Er só permaneceu três anos no poder, quando fora assassinado em uma revolta, que levou ao fim da Dinastia dos Qin.


O imperador Qin Shin Huang Ti fora sepultado em seu mausoléu próximo da atual cidade de Xian, na província de Shaanxi. O imperador Qin fora sepultado em uma grande tumba abaixo de um morro de terra construído na forma similar de uma pirâmide. Até hoje não se sabe realmente quantas pessoas trabalharam em sua construção, de qualquer forma o número de trabalhadores foram de centenas de milhares, já que além de construir a tumba e erguer o morro, fora também construído o famoso Exército de Terracota.


A tumba do imperador Qin Shi Huang Ti.
O exército fora descoberto em 1974 e desde então ainda continuam as escavações nos arredores da tumba, já que o governo chinês proibiu que a tumba fosse aberta. Restando aos arqueólogos a procurarem pelos guerreiros de terracota. Cerca de mais de 8 mil guerreiros já foram escavados, além de algumas centenas de cavalos e algumas carruagens. Cada guerreiro tem a altura de um homem, sendo esculpidos em poses naturais e portando armas de verdade; e curiosamente, cada um dos guerreiros possui o rosto diferente. Alguns sugerem que os próprios artesãos serviram de modelo para as estátuas.


Estátuas de terracota da tumba do imperador Qin Shi Huang.

NOTA: Qin Shi Huang Ti também pode ser grafado como Qin Shi Huangdi.
NOTA 2: A Dinastia Zhou é dividida em dois períodos: Zhou do Oeste (1122-771 a.C) e Zhou do Leste (771-221 a.C).
NOTA 3: Oficialmente o império chinês durou de 221 a.C à 1912.
NOTA 4: A Grande Muralha se inicia no Deserto de Gobi ao sul da Mongólia e vai até o Mar Amarelo. Na realidade a muralha é a junção de várias outras muralhas que foram construídas ao longo do tempo. Sua extensão é de mais de 7 mil km. No século XIII a imponente muralha fora incapaz de barrar o avanço dos exércitos de Genghis Khan.
NOTA 5: Qin Shi Huang Ti é retratado no filme A Múmia 3: A Tumba do Imperador Dragão, sendo interpretado pelo autor Jet Li. O trono imperial chinês as vezes era chamado de Trono do Dragão.
NOTA 6: Reza a lenda que os Guerreiros de Terracota ou Guerreiros de Xian, fora construídos a fim de se guardar a tumba do imperador, e em caso de seus inimigos decidissem atacá-la as estátuas ganhariam vida e lutariam para defender o corpo do imperador.
NOTA 7: Tanto o Exército de Terracota como a Grande Muralha são Patrimônios Mundiais da Humanidade pela UNESCO.

Referências Bibliográficas:
YANG,
Alexander Chung Yuan. História da China. São Paulo, USP, Série Didática No 5, 1977.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, São Paulo, Nova Cultural, 1998.

Referência audiovisual:
Documentário:
O Primeiro Imperador da China. Assistido no History Channel em 7 de Março de 2010, das 10h às 12h.

2 comentários:

Samara Vieira disse...

Obrigado mesmo eu tava precisando pra fazerum trabalh e encontrei mais do que precisava...

Leandro Vilar disse...

Que bom que lhe foi útil. Estou procurando novas fontes, agora em inglês, pois em português são bastante raras obras que abordem a história chinesa nessa época. Pretendo ampliar esse texto.