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Leandro Vilar

domingo, 1 de agosto de 2010

A Epopeia de Gilgamesh

A Epopeia de Gilgamesh ou o Ciclo de Gilgamesh, como é mais conhecido em versões antigas, consiste num conjunto de poemas épicos escritos em tabuletas de argila em diferentes línguas. Geralmente os poemas são divididos em 12 tabuletas, podendo haver versões com 10 ou 11 tabuletas. A história narra as aventuras do rei semideus Gilgamesh, soberano da cidade de Uruk, localizada na antiga Suméria, no sul da Mesopotâmia, atual território do Iraque. Não se sabe ao certo em que século estas histórias começaram a ser escritas, a versão mais famosa e completa, data do século VII a.C, encontrada na biblioteca de Nínive antiga capital do Império Assírio. A biblioteca foi construída pelo rei Assurbanípal, último soberano do império.

No entanto, as tabuletas que lá se encontravam, estavam escritas em idioma semítico. Antes disso já existia versões em idioma acádio, babilônio e as mais antigas, foram escritas em cuneiforme sumério. Algumas das versões mais antigas datam do século XX a.C, no entanto os historiadores não negam o fato de que estas histórias sejam bem mais antigas, numa época em que eram passadas oralmente, antes de serem escritas.

Mas, uma questão ainda perdura no ar, qual é o interesse desta epopeia para a História? Se vendo pelo lado literário, a Epopeia de Gilgamesh é considerada por muitos como a obra literária mais antiga conhecida. Para a historiografia, a epopeia possibilita não somente entender alguns costumes dos povos desta época, como também compreender sua visão do mundo que eles tinham, já que Gilgamesh viaja por muitos lugares; além de entender alguns aspectos da religião suméria, como também alguns aspectos de ordem política e social. Já que se desbravando os versos do poema, pode-se retirar uma análise da sociedade daquela época. E por fim, outro ponto interessante a se analisar neste poema, é a sua versão do Dilúvio. Versão esta que antecede a versão biblíca em alguns séculos.

Sendo assim, irei apresentar um pouco das características de três personagens importantes deste poema, Gilgamesh, Enkidu, e por fim em uma análise do Dilúvio, o Noé dessa história; Utnapishtim,Longínquo.

Mas, antes de começar a falar sobre a epopeia, farei uma rápida introdução a respeito de quem foram os Sumérios. A região que compreendia a Suméria se estendia do centro ao sul da Mesopotâmia como pode ser vista no mapa abaixo. Não se sabe ao certo quando foi que os sumérios se estabeleceram nestas terras baixas e férteis, mas, indícios arqueológicos sugerem o estabelecimento de cidades a pelo menos uns 5000 a.C.

Em amarelo a localização da Suméria, no território da antiga Mesopotâmia. Hoje a região pertence ao atual território do Iraque. 
A Suméria consistiu em uma região política e cultural descentralizada de poder e autoridade. Não havia um governo hegemônico, cada cidade-Estado possuía seu próprio governante e em alguns casos dispunham de leis próprias. Contudo a religião e a cultura eram compartilhadas por todas as cidades, tendo cada cidade um deus padroeiro, sistema semelhante visto entre os gregos, fenícios e os maias. 

Os sumérios ficaram conhecidos como tendo sido uma das civilizações mais avançadas da Antiguidade, tendo se destacado nos campos da matemática, engenharia, irrigação, agricultura, astronomia, medicina e na escrita. O alfabeto mais antigo conhecido pelo homem tem origem suméria; a escrita cuneiforme (alguns historiadores defendem que os hieroglifos egípcios sejam mais antigos). Estimasse que a escrita cuneiforme tenha sido inventada por volta de 4000-3500 a.C, mas foi sendo aperfeiçoada pelos séculos seguintes, tendo sido uma escrita usada ao longo de pelo menos 3 mil anos. 

Gilgamesh:

De antemão muitos devem pensar que Gilgamesh não passa de um personagem mitológico, como tantos outros, no entanto, existe um documento semi-histórico, chamado a Lista dos reis sumérios, na qual descreve a duração dos reinados de diferentes cidades antes e depois do Dilúvio, até mais ou menos o século XX a.C. De acordo com tal lista, Gilgamesh foi o quinto rei de Uruk, da Segunda Dinastia, tendo governado por 126 anos. De acordo com a lista ele teria governado entre os séculos XXVIII a.C e XXVII a.C. Para a historiadora Gwendolyn Leick (2003, p. 170), Gilgamesh possa ter sido um governante real, que acabou sendo mitificado. Segunda a historiadora, ele teria vivido na época do Período Dinástico II (c. 2700-2550 a.C), o que bate com a Lista dos Reis, pois existe um documento desta época, chamado de "Inscrição Tummal", uma referência ao templo da deusa Ninlil na cidade de Nippur. Neste documento, de origem eclesiástica pelo que parece, fala-se sobre Gilgamesh e outros monarcas da época. Por sua vez, o historiador Pierre Lévêque (1987, p. 30), assinala que existem inscrições que mencionam que Gilgamesh restaurou um templo em Nippur, tornou-se senhor de Kish a pós vencer uma batalha sobre Aka. A "Inscrição de Tummal" informa que Gilgamesh mandou fazer obras em Nippur, o que confere com a pesquisa de Lévêque. Neste caso, para o historiador francês, Gilgamesh foi um homem real, cujos feitos tornaram-se lendas, inclusive 400 anos depois, ele era considerado um semideus. 

Neste ponto é importante assinalar que para os antigos naquela época, não havia uma divisão nítida entre o que era mito, lenda e história como hoje possuímos. Hoje para alguns, mito e lenda referem-se a histórias fictícias e fantasiosas, mas para os antigos sumérios, tudo era história, pois o sobrenatural e o natural não eram planos afastados, mas que confluíam em si. Ademais, não se falava em "mito" ou "lenda" de Gilgamesh, mas falava-se em seus feitos, aventuras e histórias. 

Gilgamesh, segundo nos conta sua epopeia, era filho da deusa Ninsun, uma deusa menor da cidade de Uruk, com um mortal. No entanto seu pai nunca foi definitivamente definido. Em algumas versões se fala que seu pai foi um sacerdote do templo da deusa; em outras que ele teria sido um fantasma ou um demônio, e em outras, que ele teria sido filho do rei Lugulbanda, o qual foi o segundo soberano de Uruk, da Segunda Dinastia, tendo governado por 1200 anos. Sendo assim, Gilgamesh era descrito como sendo 2/3 deus e 1/3 humano. Por isso ele possuía uma grande beleza e força herdada de sua mãe, e a mortalidade de seu pai.

"Proclamarei ao mundo os feitos de Gilgamesh. Eis o homem para quem todas as coisas eram conhecidas; eis o rei que percorreu as nações do mundo. Ele era sábio, ele viu coisas misteriosas e conheceu segredos. Ele nos trouxe uma história dos dias que antecederam o dilúvio. Partiu numa longa jornada, cansou-se, exauriu-se em trabalhos e, ao retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história". (OLIVEIRA, 2001, p. 60).

"Quando os deuses criaram Gilgamesh, deram-lhe um corpo perfeito. Shamash, o glorioso Sol, dotou-o de grande beleza; Adad, o rei da tempestade, deu-lhe coragem; os grandes deuses tornaram sua beleza perfeita, superior à de todos os outros seres, terrível como um enorme touro selvagem". (OLIVEIRA, 2001, p. 60).

Com tais trunfos ele tinha tudo para ser um herói, mas, de fato não fora assim no começo. O rei se vangloriava em dizer que foi o responsável por ter erguido as muralhas de Uruk, na qual de fato, no poema a cidade tem o epíteto de "Uruk, a das grandes muralhas" ou "Uruk, a de poderosas muralhas"

"Uns 9 quilômetros de muralhas cercaram a cidade, fechando não só a sua parte mais central, mas incluindo também subúrbios e baldios (para a fabricação de tijolos), hortas e, provavelmente, algumas terras de pastagem. A muralha tinha, de fato, fundações, fundações de tijolo cozido. Sua altura era de mais de 7 metros e os portões eram protegidos por torres salientes". (LEICK, 2003, p. 79).  
No entanto, se por um lado o rei dispunha de força, beleza e coragem, ele era um soberano orgulhoso e devasso. Nas primeiras partes do poema, conta-se como o povo da cidade estava desgostoso com o governo de Gilgamesh, o qual arranjava brigas, corria atrás de qualquer mulher que lhe chama-se a atenção e vivia em festas.

Revoltados com tal devassidão do rei, os habitantes de Uruk suplicaram aos deus An (Anu para os babilônios) que fizesse algo. An e Inanna (Ishtar para os babilônios) eram as principais divindades cultuadas em Uruk. An era o deus do céu e do firmamento, em versões mais antigas tido como o rei dos deuses. E Inanna era a deusa do amor e da guerra, considerada a rainha dos deuses (embora fosse filha e An). Ouvindo as súplicas dos mortais, An pediu para a deusa Araru que criasse um ser que pudesse desafiar o orgulhoso Gilgamesh. Assim surgiu Enkidu.

"Os deuses escutaram o lamento do povo. Os deuses do céu gritaram para o Senhor de Uruk, para Anu, o deus de Uruk: "Uma deusa o fez forte como um touro selvagem; ninguém pode opor-se à força de seus braços. Não há pai a quem tenha sobrado um filho, pois Gilgamesh os leva todos; e é este o rei, o pastor de seu povo? Sua luxúria não poupa uma só virgem para seu amado, nem a filha do guerreiro nem a mulher do nobre". (OLIVEIRA, 2001, p. 61).

Enkidu: 

Enkidu e Gilgamesh
Araru obedecendo as ordens de An, moldou no barro a imagem e essência de An, um ser no qual ela o batizou de Enkidu. Enkidu personificava a força oposta a Gilgamesh. Enquanto este simbolizava o homem "civilizado" e "corrupto", Enkidu simbolizava o homem "selvagem" e ao mesmo tempo "puro". Enkidu é descrito como sendo um homem forte, robusto, de longos cabelos emaranhados, barba longa, e pelos espalhados pelo corpo. Em algumas das retratações dele, ele possui chifres.

"A deusa então concebeu em sua mente uma imagem cuja essência era a mesma de An, o deus do firmamento. Ela mergulhou as mãos na água e tomou um pedaço de barro; ela o deixou cair na selva, e assim foi criado o nobre Enkidu. Havia nele virtudes do deus da guerra, do próprio Ninurta. Seu corpo era rústico, seus cabelos como os de uma mulher; eles ondulavam como o cabelo de Nisaba, a deusa dos grãos. Ele tinha o corpo coberto por pelos emaranhados, como os de Samuqan, o deus do gado. Ele era inocente a respeito do homem e nada conhecia do cultivo da terra". (OLIVEIRA, 2001, p. 62).

Enkidu vivia correndo pelas florestas e campos junto com os animais selvagens, se alimentando de grama e bebendo água. Ele não era um ser totalmente bestial como alguns pensam. Ele sabia falar a língua dos homens, e desarmava as armadilhas dos caçadores para salvar os animais.


Sua história se entrelaça com a de Gilgamesh quando este é avistado por um caçador. Este intimidado pela criatura, fala com seu pai, no qual diz para ele ir procurar a ajuda do poderoso Gilgamesh, rei de Uruk e senhor de Kullab. O caçador vai em busca do rei e lhe conta seu relato. Gilgamesh intrigado com tal ser, decide desafia-lo, mas, para isso, ele teria que "humanizá-lo". Ele lhe envia uma prostituta com este, dizendo que a luxúria da prostituta corromperia a pureza de Enkidu, o enfraquecendo. Dito isso, o caçador retorna com a prostituta, a qual leva a cabo sua missão. Após sete dias com a prostituta, Enkidu deixa de ser totalmente selvagem, passa a comer pão e a beber vinho, a usar roupas e a untar o pelos com óleo.

"Mas agora, ao vê-lo, as gazelas punham-se em disparada; as criaturas agrestes fugiam quando delas se aproximava. Enkidu queria segui-las, mas seu corpo parecia estar preso por uma corda, seus joelhos fraquejavam quando tentava correr, ele perdera sua rapidez e agilidade. E todas as criaturas da selva fugiram; Enkidu perdera sua força, pois agora tinha o conhecimento dentro de si, e os pensamentos do homem ocupavam seu coração". (OLIVEIRA, 2001, pp. 64-65).

Enkidu passa a viver um tempo entre
os camponeses e aprende a cultivar a terra. Depois de algum tempo, ele é avisado que Gilgamesh realizaria um ritual de casamento em Uruk e o povo estava revoltado com este. Enkidu decide seguir para a cidade.

"Irei à cidade cujo povo Gilgamesh domina e governa; vou desafiá-lo au-dazmente para um combate e gritarei por Uruk: 'Vim para mudar a velha ordem, pois sou o mais forte daqui." (OLIVEIRA, 2001, p. 67).

Lá Enkidu se encontra com Gilgamesh
e os dois partem para a luta. Gilgamesh sendo orgulhoso não aceitava que houvesse um homem mais forte que ele. Mas, durante a luta ele descobre que Enkidu era mais forte que ele, sendo derrotado ele esperava por sua morte, mas, no fim Enkidu poupa-lhe a vida, e Gilgamesh passa a ser eternamente grato a ele.

Diferente de Gilgamesh que possuem relatos que indicam sua existência como monarca real, Enkidu carece de fontes que corroborem se realmente foi um homem real. Encontram-se poemas dedicados a ele, mas cujas histórias datam depois da Epopeia. Teria sido Enkidu um conselheiro, general, amigo do rei Gilgamesh, ou um personagem introduzido em sua história? Pois a Epopeia não foi escrita na época do rei, mas foi escrita séculos depois, inclusive possuindo distintas versões. Os relatos mais antigos que foram até hoje descobertos dessa história, em forma escrita, datam por volta do século XX a.C, o que revela um texto proveniente de cinco ou seis séculos depois da vida de Gilgamesh, o que bate com a hipótese de Lévêque, que o rei possa ter se tornado uma "figura lendária", séculos depois. 

Enredo:

Após a união de Gilgamesh e Enkidu os dois iniciam suas aventuras. Dessa parte em diante a epopeia se divide em quatro partes principais: a viagem para a Floresta de Cedros, a Vingança de Inanna e a morte de Enkidu, e por fim a busca pela imortalidade e a história do dilúvio.

A Floresta de Cedros ou a Terra dos Cedros, era um lugar sagrado no qual se encontrava uma montanha associada a morada dos deuses e em alguns casos era tida como o trono da deusa Inanna. A gigantesca floresta, retratada na epopeia, era guardada por um gigante chamado Humbaba ou Huwawa. Gilgamesh e Enkidu acabam matando Humbaba e conquistando o almejado tesouro.


Possível representação de Gilgamesh (direita) e Enkidu confrontando Humbaba (ao centro). 
De fato na Mesopotâmia sempre houve uma escassez de madeira, sendo assim, a madeira era algo raro e muito valioso. Por isso que ambos viajam para tal lugar. No campo historiográfico, alguns historiadores associam a localização de tal floresta no Líbano, ou na Síria, ou no Elam, ou até mesmo na Turquia.

Na segunda parte da história, os heróis retornam para Uruk e erguem um grande e majestoso portão feito com os cedros da floresta. E é neste acontecimento que a deusa Inanna declara sua paixão, tentando Gilgamesh.

"Vem comigo, Gilgamesh, e seja meu consorte; infunde-me a semente de teu corpo; deixa-me ser tua mulher e serás meu marido. Arrearei para ti uma carruagem com ouro e lápis-lazúli; as rodas serão de ouro, as trompas de cobre; em vez de mulas, terás para puxá-la os poderosos demônios da tempestade. Ao entrares em nossa casa, envolvida na fragrância do cedro, terás a soleira e o trono a beijar-te os pés. Reis, tiranos e príncipes se curvarão à tua presença; eles te trarão tributos das montanhas e das planícies. Tuas ovelhas darão à luz gêmeos e tuas cabras trigêmeos; teus burros de carga serão mais rápidos do que as mulas; nada se igualará a teu gado, e os cavalos de tua carruagem serão conhecidos em terras distantes por sua velocidade." (OLIVEIRA, 2001, p. 81).

No entanto ele acaba resistindo a traiçoeira tentação da deusa do amor e da guerra. Com isso ele a repudia.

"Gilgamesh abriu a boca e respondeu à gloriosa Ishtar: “Se vos tomar como esposa, que presentes poderei oferecer em troca”? Que vestes e perfumes poderia te dar? De bom grado dar-vos-ia pão e todo tipo de comida à altura de um deus. Dar-vos-ia de beber um vinho digno de uma rainha. Eu abarrotaria vosso celeiro de cevada; mas fazer de vós minha esposa, isso não. O que seria de mim? Fostes para vossos amantes como um braseiro que arde sem chama no frio, como uma porta que não protege do vento cortante ou da tempestade, uma fortaleza que esmaga sua guarnição, uma jarra que enegrece o ombro de quem a carrega, um odre que escorre e esfola a pele de seu portador, uma rocha que cai do parapeito, um aríete vindo do inimigo, uma sandália que faz tropeçar aquele que a veste. Qual de vossos amantes chegastes alguma vez a amar para sempre?". (OLIVEIRA, 2001, p. 81).

Inanna revoltada com o repúdio de Gilgamesh parte para o céu a procura de An. Lá ela lhe pede que este lhe de o Touro do Céu para poder castigar Gilgamesh. An acaba cedendo e lhe dá o touro, no entanto os dois heróis matam o touro. A raiva de Inanna cresce ainda mais. Porém, em meio ao tumulto, o deus dos ventos e da terra, Enlil fica a parte dos fatos. Enlil fora quem escolhera Humbaba como guardião da floresta, e este era irmão de Inanna. Zangado com a morte de Humbaba, com a morte do Touro do Céu e a tristeza de sua irmã, ele decide amaldiçoar Gilgamesh.

"Por terem matado o Touro do Céu e por terem morto Humbaba, que tomava conta da Montanha de Cedro, um dos dois tem de morrer". (OLIVEIRA, 2001, p. 84).


Possível representação de Gilgamesh (direita) e Enkidu, confrontando o Touro do Céu. 
Como Gilgamesh considerava Enkidu como um irmão, a maior dor não seria perder sua própria vida, mas perder seu irmão. Com isso Enlil amaldiçoa Enkidu, e por 12 dias ele sofre as dores da enfermidade, morrendo com grande sofrimento. Com a morte de Enkidu, Gilgamesh passa temer ainda mais o fardo dos mortais, então decide buscar uma solução, procurar a vida eterna.

Utnapshitim:

Utnapshitim para os babilônios, ou Ziusudra para os sumérios, foi o homem escolhido pelos deuses para salvar a humanidade da fúria do Dilúvio. Mas, antes de falar a relação deste homem com a busca da imortalidade por Gilgamesh, irei expor a seguir algumas citações da Bíblia e da Epopeia, que mostram semelhanças entre ele e Noé, e dos acontecimentos do Dilúvio.


Epopeia:

"Naqueles dias a terra fervilhava, os homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem. Este tumult
o despertou o grande deus. Enlil ouviu o alvoroço e disse aos deuses reunidos em conselho: 'O alvoroço dos humanos é intolerável, e o sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.' Os deuses então concordaram em exterminar a raça humana". (OLIVEIRA, 2001, p. 100).

Bíblia:

"Deus vendo que era grande a malícia dos homens sobre a terra e que todos os pensamentos do seu coração estavam continuamente aplicados ao mal, 'arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra. E tocado de íntima dor de coração, disse: "Exterminarei da face da terra o homem que criei, desde o homem até aos animais, desde os répteis até às
aves do céu". (Gênesis 6: 5-6).

Epopeia:

"Foi o que Enlil fez, mas Ea, por causa de sua promessa, me avisou num sonho. Ele denunciou a intenção dos deuses sussurrando para minha casa de colmo: 'Casa de colmo, casa de colmo! Parede, oh, parede da casa de colmo, escuta e reflete. Oh, homem de Shurrupak, filho de Ubara-Tutu, põe abaixo tua casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco". (OLIVEIRA, 2001,
pp. 100-101).

"Eis as medidas da embarcação que deveras construir: que a boca extrema da nave tenha o mesmo tamanho que
seu comprimento, que seu convés seja coberto, tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a semente de todas as criaturas vivas". (OLIVEIRA, 2001, p. 101).

"O barco tinha um acre de área e
cada lado do convés media cento e vinte côvados, formando um quadrado. Construí abaixo mais seis conveses, num total de sete, e dividi cada um em nove compartimentos, colocando tabiques entre eles. Finquei cunhas onde elas eram necessárias, providenciei as zingas e armazenei suprimentos". (OLIVEIRA, 2001, p. 101).

Bíblia:

"disse a Noé: O fim de toda a carne chegou diante de mim; a terra, por suas obras, está cheia de iniquidade  e eu os exterminarei com a terra. "Faze uma arca de madeiras aplainadas; farás na arca uns pequenos quartos, e calafetá-la-ás com betume por dentro e por fora.
"E hás de fazê-la do seguinte modo: o comprimento da arca será de trezentos côvados, a largura de cinquenta côvados, e a altura de trinta côvados". (Gênesis 6: 5-6).

Nota: 1 côvado = 45 cm (existe diferentes variações para o tamanho de um côvado. Sendo assim, escolhi uma m
edida utilizada pelos egípcios).

Cumprimento da arca: 300 côvados = 135 metros

Largura da arca: 50 côvados = 22,50 metros

Altura da arca: 30 côvados = 13,50 metros

Epopeia:

"Foi com muita dificuldade então que a embarcação foi lançada à água; o lastro do barco foi deslocado para cima e para baixo até a submersão de dois terços de seu corpo. Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus par
entes, os animais do campo — os domesticados e os selvagens — e todos os artesãos". (OLIVEIRA, 2001, p. 102).

Bíblia:

"Mas contigo estabelecerei a minha aliança; e entrarás na arca tu e teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. "E, de cada espécie de todos os animais, farás entrar na arca dois, macho e fêmea, para que vivam contigo". (Gênesis 6: 6-8).

Epopeia:

"Ao primeiro brilho da alvorada chegou do horizonte uma nuvem negra, que era conduzida por Adad, o senhor da tem
pestade. Os trovões retumbavam de seu interior, e, na frente, por sobre as colinas e planícies, avançavam Shul-lat e Hanish, os arautos da tempestade. Surgiram então os deuses do abismo; Nergal destruiu as barragens que represavam as águas do inferno; Ninurta, o deus da guerra, pôs abaixo os diques; e os sete juizes do outro mundo, os Anunnaki, elevaram suas tochas, iluminando a terra com suas chamas lívidas. Um estupor de desespero subiu ao céu quando o deus da tempestade transformou o dia em noite, quando ele destruiu a terra como se despedaça um cálice. Por um dia inteiro o temporal grassou devastadoramente, acumulando fúria à medida que avançava e desabando torrencialmente sobre as pessoas como os fluxos e refluxos de uma batalha; um homem não conseguia ver seu irmão, nem podiam os povos serem vistos do céu. Até mesmo os deuses ficaram horrorizados com o dilúvio; eles fugiram para a parte mais alta do céu, o firmamento de Anu, onde se agacharam contra os muros e ficaram encolhidos como covardes". (OLIVEIRA, 2001, pp. 102-103).

Bíblia:

"E, passado sete dias, caíram sob
re a terra as águas do dilúvio. "No ano seiscentos de vida de Noé, no segundo mês, aos dezessete do mês romperam-se todas as fontes do grande abismo, e abriram-se as cataratas do céu". (Gênesis 7: 6-8).

Epopeia:

"Por seis dias e seis noites os ventos sopraram; enxurradas, inundações e torrentes assolaram o mundo; a tempestade e o dilúvio explodiam em fúria como dois exércitos em guerra. Na alvora
da do sétimo dia o temporal vindo do sul amainou; os mares se acalmaram, o dilúvio serenou. Eu olhei a face do mundo e o silêncio imperava; toda a humanidade havia virado argila. A superfície do mar se estendia plana como um telhado. Eu abri uma janelinha e a luz bateu em meu rosto. Eu então me curvei, sentei e chorei. As lágrimas rolavam pois estávamos cercados por uma imensidade de água. Procurei em vão por um pedaço de terra". (OLIVEIRA, 2001, p. 103).

Bíblia:

"E caiu chuva sobre a terra durante qu
arenta dias e quarenta noites". (Gênesis 7: 6-8).

"E veio o dilúvio sobre a terra durante quarenta dias; e as águas cresceram, e elevaram a arca muito alto por cima
da terra. Inundaram tudo com violência, e cobriram tudo na superfície da terra". (Gênesis 7: 6-8).

"Toda a carne que se movia sobre a terra foi consumida; as aves, os animais, as feras, e todos os répteis que andam de rastos sobre a terra, e todos os homens". (Gênesis 7: 6-8).

Epopeia:

"A quatorze léguas de distância, porém, surgiu uma montanha, e ali o barco encalhou. Na montanha de Nisir o barco ficou preso; ficou preso e não mais se moveu". (OLIVEIRA, 2001, p. 103).

"Na alvorada do sétimo dia eu soltei uma pomba e deixei que se fosse. Ela voou para longe, mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei uma andorinha, que voou para longe; mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei um
corvo. A ave viu que as águas haviam abaixado; ela comeu, voou de um lado para o outro, grasnou e não mais voltou para o barco". (OLIVEIRA, 2001, p. 103).

Bíblia:

"E no sétimo mês, no vigésimo sétimo dia do mês, parou a arca sobre os montes da Armênia". (Gênesis 8: 8-9).

"E tendo-se passado quarenta dias, abriu Noé a janela, que tinha feito na arca e soltou um corvo, o qual saiu e não tornou mais, até que as águas secaram sobre a terra. "Mandou também uma pomba depois dele, para ver se as águas teriam já cessado de cobrir a face da terra. "E el
a não encontrando onde pousar seu pé, tornou a vir a ele para a arca". (Gênesis 8: 8-9).

"Depois de ter esperado outros sete dias, novamente deitou a pomba fora da arca. "E ela voltou a ele pela tarde,
trazendo no bico um ramo de oliveira, com as folhas verdes. Entendo pois Noé que as águas tinham cessado sobre a terra". (Gênesis 8: 8-9).

Epopeia:

"Eu então abri todas as portas e janelas, expondo a nave aos quatro ventos. Preparei um sacrifício e derramei vin
ho sobre o topo da montanha em oferenda aos deuses. Coloquei quatorze caldeirões sobre seus suportes e juntei madeira, bambu, cedro e murta. Quando os deuses sentiram o doce cheiro que dali emanava, eles se juntaram como moscas sobre o sacrifício". (OLIVEIRA, 2001, p. 104).

Bíblia:

"E Noé edificou um altar ao Senhor e, to
mando de todos os animais e de todas as aves puras, ofereceu-os em holocausto sobre o altar. "E (com isto) recebeu o Senhor um suave odor". (Gênesis 8: 8-9).

Ilustração hipotética da Arca de Utnapishtim.


Réplica hipotética da Arca de Noé.

Deste ponto em diante retornarei a epopeia. Noé e sua família foram abençoados por Deus, e tiveram o dever de repovoar a terra e reconstruir as cidades. 

Quanto a Utnaspishtim este e sua mulher receberam da súplica do deus Enlil, a imortalidade por seu feito. Além disso, ele e sua mulher foram levados pelos deuses a habitarem uma terra distante, por isso o epíteto de "o Longínquo". O nome desta terra vária de acordo com as versões; uns chamam de: "a foz dos rios" (seria o local onde nasceria todos os rios do mundo); outros chamavam de Dilmun, nome dado a este lugar na versão sumeriana; a "Terra dos Vivos", etc.

De qualquer forma este lugar ficava localizado além do Oceano, no extremo do mundo. Tendo Gilgamesh cruzado campos, rios, florestas, montanhas, mares, até chegar finalmente ao jardim dos deuses depois da Montanha Mashu, e de lá ser tentado por Siduri (uma mulher que fazia vinho), a permanecer neste jardim, ele é ajudado por esta, e vai em busca do barqueiro Urshanabi, o qual o leva até a Utnapishtim.

Chegando lá ele ouve de Utnapishtim o relato do dilúvio, e então pede para ele, se este poderia lhe conceder a imortalidade. De primeiro momento, o homem se recusa, mas, depois de tanta persuasão, ele acaba cedendo, porém com uma condição, Gilgamesh teria que ficar seis dias e sete noites sem dormir. Sendo assim, ele aceita o desafio e começa sua batalha contra o sono. No entanto, o poderoso herói acaba cedendo ao sono, e Utnapishtim disse que com isso ele não poderia ajudá-lo e o melhor seria que ele voltasse para casa.

Desolado, Gilgamesh retorna para o barco de Urshanabi, no entanto, antes de partir, a mulher de Utnapishtim disse que poderia ajudá-lo. Ela disse que havia última tentativa. Nas profundezas do mar existia uma flor da qual quem come-se suas pétalas se tornaria eternamente jovem e imortal. Gilgamesh decide ir atrás desta flor, e mergulha nas profundezas do mar, até encontrar esta flor. Com ela em mãos ele decide retornar para Uruk.

No entanto, ele teve no momento a oportunidade de comer da flor e se tornar logo imortal, porém a comoção e alegria eram tantos, que ele decidiu desfrutar de tal benção com os idosos de Uruk, e decidiu não comer da flor até estar de volta. Durante a viagem de volta, Gilgamesh parou para se banhar em um poço d'água, e enquanto se banhava uma serpente atraída pelo odor da flor, a rouba, lhe levando para sempre a esperança da vida eterna. Com isso Gilgamesh retorna para Uruk, e passa a viver como todos os homens, temendo a velhice e a morte.

NOTA: Na versão assíria, a parte da morte de Gilgamesh é retirada do poema, tendo nesta versão, um final um tanto banal. Ou seja, Gilgamesh retorna como um tolo por ter perdido a flor.
NOTA 2: Assurbanipal (690-627 a.C)  governou de 668-627 a.C.
NOTA 3: Enkidu posteriormente passou a ser adorado como uma divindade ligada a natureza e aos pastos e rebanhos. Ele é também protagonista de uma outra história, chamada de os Contos de Enkidu. Infelizmente relatos desta história são muitos raros de se encontrar.
NOTA 4: Atualmente a Epopeia de Gilgamesh não se encontra totalmente traduzida devido ao fato de que as tabuletas que a compõem foram encontradas fragmentadas. Sendo assim, nas dezenas de traduções feitas, os tradutores procuraram juntar citações e passagens de outras versões em outros idiomas, para compensar a falha que havia.
NOTA 5: De acordo com a Bíblia, a arca de Noé atracou no Monte Ararat, localizado na Armênia. Quanto a arca de Utnapishtim, ela atracou no Monte Nisir. Entretanto os historiadores ainda não souberam definir que monte seria este.
NOTA 6: Na Bíblia, Deus avisa diretamente a Noé que ele foi o escolhido para se salvar do dilúvio. Já na epopeia, Utnapishtim é avisado pelo deus Enki (Ea para os babilônios). Enki o qual era o deus das águas doces e da sabedoria, era considerado o protetor da humanidade. Ele avisa Utnapishtim através de um sonho, porém este fica incrédulo num primeiro momento, se relutando a acreditar em tal sentença.
NOTA 7: Os sonhos são algo muito referentes em toda a epopeia. Tanto Gilgamesh como Enkidu sonham. Gilgamesh sonha com a chegada de Enkidu, com sua viagem, com sua luta contra Humbaba. Já Enkidu acaba sonhado com a própria morte.
NOTA 8: No jogo Final Fantasy XII, existem personagens chamados Gilgamesh, Enkidu e Humbaba. Gilgamesh é um espadachim com seis braços; Enkidu é um cachorro e Humbaba é um gigante parecido com um lobisomem.
NOTA 9: Gilgamesh (Girugamesshu) é o nome de um anime/mangá, no qual a história se passa em um futuro apocalíptico  onde a trama, que mistura drama, fantasia e ficção científica, tem como uma das bases, a Epopeia de Gilgamesh.

NOTA 10: Gilgamesh é o nome de algumas personagens de alguns jogos e animes.
NOTA 11: Gilgamesh possuí algumas semelhanças com o herói grego Héracles (Hércules) devido a ambos serem semideuses, possuírem grande força e terem viajados por terras distantes e enfrentado monstros. Não obstante, a epopeia possuí ligação também com o poema homérico a Odisseia, onde Odisseu (Ulisses) se ver ao mesmo tempo protegido e amaldiçoado pelos deuses, como também viaja por lugares desconhecidos e tem que sobreviver a tormentos.
NOTA 12: Shamash é o nome do deus-sol para os babilônios, conhecido entre os sumérios pelo nome de Utu. Na epopeia ele ajuda protegendo Gilgamesh e Enkidu.
NOTA 13: A cidade de Uruk é chamada na Bíblia de Erech e atualmente é chamada pelo seu nome árabe de Warka.
NOTA 14: As tabuletas da Biblioteca de Assurbanipal foram descobertas em meados do século XIX pela expedição do arqueólogo inglês Austen Henry Loyard. No entanto, as centenas de fragmentos de tabuletas encontrados passaram um tempo no depósito do Museu Britânico, até ser iniciado sua decifração por Henry Rawlinson.
NOTA 15: Gilgamesh é retratado no jogo Civilization IV: Beyond the Sword.
NOTA 16: Em uma das versões da epopeia, Gilgamesh é capturado por uma águia gigante enviada por An, que o leva pelos céus, a medida que ele vai subindo, An pede para que ele descreva o que vê. Gilgamesh faz um relato assombroso, ao ponto de dizer que o mundo é azul e redondo.  

Referências Bibliográficas:
ANÔNIMO. A Epopeia de Gilgamseh. Tradução de Carlos Daudt de Oliveira.  2a ed. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
BÍBLIA Sagrada. São Paulo, Edições Paulinas, 1975. 
CONTENEAU, Georges. A civilização de Assur e Babilônia. Rio de Janeiro, Ferni, 1979.
LEICK, Gwendolyn. Mesopotâmia: A invenção da cidade. Rio de Janeiro, Imago Ed, 2003.
LÉVÊQUE, Pierre. As primeiras civilizações: a Mesopotâmia e os hititas, vol, II. Tradução de Antônio José Pinto. Lisboa, Edições 70, 1987. 2v. 
WERNER, Keller. E a Bíblia tinha razão. São Paulo, Circulo do Livro S. A, 1978. (Capítulo 4: Narrativa de inundação na antiga Babilônia).

Link relacionado: 
Mesopotâmia: o berço das cidades

Um comentário:

Caio disse...

está muito bom, me ajudou muito numa pesquisa
obrigado