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domingo, 23 de janeiro de 2011

O mundo latino

O latim é uma das línguas mais versáteis e de expressividade na história humana. Mesmo que nos dias de hoje o latim seja tido como uma língua morta, seu legado histórico é incontestável. E neste simples texto esboçarei um pouco de sua história. O latim é uma língua de origem da família indo-europeia, uma das famílias linguistas mais abrangentes do mundo, vários idiomas e dialetos se originaram da Índia até a Europa, por isso o termo indo-europeu, todavia, ao longo destes séculos, línguas surgiram e outras se perderam, contudo o latim conseguiu sobreviver na península Itálica. A língua latina pertence ao ramo itálico.

"Juntamente com o osco, o úmbrio e os dialetos sabélicos, o latim pertence ao ramo itálico, do grupo ítalo-celta, do tronco indo-europeu". (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, v. 14, p. 3513).

Localização da região do Lácio na Itália.
O latim era a língua falada na região do Lácio ou Latium, assim seus habitantes eram chamados de lácios ou latinos. Essa pequena região por muito tempo não esboçou grande expressividade, na verdade desconhece-se em que período o latim surgiu, os documentos mais antigos apontam para o século VII a.C, um século depois da lendária fundação de Roma. O latim só viria a ganhar destaque através do povo romano que se desenvolveria na região do Lácio.

"Seu domínio, a princípio, limitava-se ao N, pelo Tibre, a E pelos Apeninos, ao S pela região montanhosa dos volscos e a O pelo mar. Com o tempo, aí se ergueria Roma, que seria o centro linguístico mais importante do domínio". (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, v. 14, p. 3513).

Durante a época do Reino de Roma (753-508 a.C), o domínio romano se limitou apenas ao Lácio, contudo os romanos mantinham contatos com os etruscos ao norte, que passaram a governar Roma no reinado dos últimos três reis (na tradição romana, houveram sete reis, sendo os três últimos de origem etrusca), os umbros a oeste e os sabinos a sudoeste, contudo isso mudaria no século III a.C, no período da República (508-27 a.C).

No século III a.C, Roma se despontava como uma poderosa nação, grande parte da península estava sob seu controle, e o latim era a língua oficial. Contudo ao sul da península, o grego predominava, devido as colônias gregas que ali se encontravam, todavia a grande ilha da Sicília, era disputada pelos gregos e pelos cartagineses, os principais rivais dos romanos pela conquista da hegemonia do mar Mediterrâneo. Três guerras foram travadas entre os romanos e os cartagineses, e por longos anos estes conflitos perduraram, tais conflitos passaram a ser conhecidos na história como as Guerras Púnicas. Os romanos saíram vitoriosos nas três guerras, mesmo sob pesada derrota no campo de batalha, mas com a total vitória sobre Cartago no século II a.C, todas os seus domínios passaram a pertencer a Roma, e o latim a ser a língua oficial.

"Assim, o latim estendeu-se da península Itálica, para a Sicília, Sardenha, Córsega, norte da África, península Ibérica, Gália, Récia, Dácia". (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, v. 14, p. 3513).

Domínio romano após a vitória nas Guerras Púnicas, da conquista da Macedônia, Grécia e parte da Ásia Menor.

Nos séculos seguintes, os domínios de Roma cresceram durante seu período como império. Seus domínios iam da Bretanha a Pérsia, da Lusitânia (Portugal) a Judéia (Israel), da Germânia superior ao Egito, mais de 4 milhões de km2 de terras estavam sob o controle de Roma, e fora neste tempo que o latim se expandiu por grande parte da Europa, mas não fora qualquer latim em si, mas sim o chamado latim vulgar

O latim vulgar era diferente do latim clássico, a qual seria a língua como estar na gramática em si, contudo apenas os escritores, poetas, filósofos, historiadores, e pessoas eruditas e cultas, é que escreviam e falavam o latim corretamente, quanto ao restante do povo, este falava uma língua com variações populares, que passou-se a chamar de vulgar. Pelo fato de a grande maioria das legiões romanas serem formadas por plebeus, o latim vulgar fora o mais difundido nas outras terras, e de tal difusão surgiriam séculos depois, após a queda de Roma em 476 e as invasões bárbaras, surgiriam do latim vulgar as chamadas línguas românicas ou neolatinas.

Dentre estas línguas as mais faladas são: o português, espanhol (castelhano), francês, italiano e o romeno. A partir dessas línguas, em regiões especificas destes países, outras formas surgiram, como o catalão, falado na Catalunha na Espanha, o galego, falado na Galiza, também na Espanha e em parte do norte de Portugal; o provençal ou occitano, falado em algumas partes do sul da França e no norte da Itália, e uma outra gama de dialetos como o sardo, falado na Sardenha, o corsa, falado na Córsega, o piemontês, em Piemonte, o siciliano, na Sicília, o vêneto em Veneza, o lígure, o napolitano e o romanche, falado em parte da Suíça, além destes outros dialetos se formarem de ramificações destas idiomas menores.

Disposição das línguas neolatinas na Europa

Cada língua desta levou séculos para se aprimorar, e séculos de influências, vindas das línguas germânicas durante as várias invasões bárbaras, do grego, do árabe, etc. Tomemos como exemplo o caso da língua portuguesa. Até o século V quando Roma se encontrava em seu fim, falava-se o latim vulgar na Lusitânia, a qual viria se tornar Portugal, séculos depois, contudo após a queda do império romano, uma variação do latim vulgar passou a ser cada vez mais falado, esta língua era chamada de romanço ou romanço português, tal idioma permaneceu sendo falado até o século IX, quando passou a sofrer novas modificações, advindas do latim bárbaro, o latim falado pelos povos bárbaros.
A partir do século XII encontra-se os primeiros textos escritos em português arcaico ou galego-português, devido a influência vinda do galego da Galiza, a qual fica ao norte de Portugal. Tal idioma perdurou até o século XVI quando ocorrem reformas gramaticais na língua portuguesa, dando origem ao chamado português clássico, o qual não perdurou por muito tempo, já no século XVIII, temos uma variação deste português, chamado de português pôs-clássico, o qual perdura até os dias de hoje, com suas variações é claro.

Mas, deixando a Europa de lado, partamos para ganhar o mundo. No século XV os portugueses desbravaram ilhas no oceano Atlântico, como o Arquipélagdos Açores, o Arquipélago da Madeira, Cabo Verde, etc. Percorrendo a costa oeste da África eles fizeram contatos com os distintos povos africanos, as regiões da antiga Costa da Mina, Congo e Angola, no século seguinte, Vasco da Gama desbravaria o oceano Índico em sua viagem para as Índias, chegando a Moçambique, a qual sofreria influência de Portugal. Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, permaneceriam como colônias portuguesas até o século XX. 

Em contra partida, a Espanha, a segunda grande desbravadora dos mares não tivera uma grande influência sobre o continente africano, em compensação, grande parte das Américas passaram e ainda falam o espanhol. Os italianos também chegaram a possuir colônias na África por pouco tempo, mas quem de fato expandiu a influência das línguas neolatinas, foram os franceses.

No século XVII os franceses fundaram uma colônia no Senegal e daí eles partiram para expandir seu domínio sobre o centro-oeste do continente, chegando também ao Sudão e a ilha de Madagascar. Dentre algumas colônias que pertenceram aos franceses até o século XX estavam, Argélia, Nigéria, Camarões, Senegal, Mali, Marrocos, Mauritânia, Togo, Tunísia, Costa do Marfim. Até mesmo o Egito permaneceu poucos anos sob o domínio francês, após ser conquistado por Napoleão I.

Já no caso das Américas a situação fora diferente em relação a África e a Ásia, neste continente houve um movimento de colonização bem mais acentuado e "agressivo" em relação aos outros continentes, dessa forma, os portugueses conquistaram grandes porções de terras na América do Sul, que resultou no Brasil de hoje, contudo o restante da América do Sul e praticamente quase toda a América Central, passou a se submeter ao domínio espanhol. O México, que hoje faz parte da América do Norte, engloba as possessões espanholas desde o século XVI quando se tornou uma colônia desta. Por mais, que milhares de povos indígenas já vivessem nestas terras e falassem milhares de dialetos e centenas de línguas, o que prevaleceu fora a língua do colonizador.

Espanha e Portugal representam a totalidade nas conquistas das Américas, contudo quanto as franceses estes não chegaram a possuir grande conquistas se comparados a seus vizinhos, inclusive os ingleses. No Brasil, os franceses fundaram duas colônias, a primeira, chamada de França Antártica, na Baía de Guanabara, perdurou por pouco mais de uma década, até ser destruída pelo governador-geral Mem de Sá. A segunda colônia, mais duradoura, fora fundada no estado do Grão-Pará e Maranhão, chamada de São Luís, hoje atual capital do Maranhão. Talvez sua maior conquista na América do Sul fora a Guiana Francesa, a qual permaneceu como colônia até o século XX. Todavia, na América Central algumas pequenas ilhas foram colonizadas pelos franceses, a mais importante fora o Haiti, a qual não permaneceu muito tempo sob o domínio francês.

Na América do Norte no século XVII os franceses disputavam as terras do oeste com os índios e os ingleses e seus colonos das Treze Colônias, mas seu grande legado fora a formação da colônia da Nova França, chamada posteriormente de Canadá. Ainda hoje por mais que no Canada se fale o inglês, o francês é a segunda língua mais falada, principalmente nas regiões leste do país, tendo como maior referência a província de Quebec.

Partindo-se para a Ásia, as línguas neolatinas tiveram pouca expressividade neste continente. O português se resumiu aos portos de Goa, Diu e Damão na Índia, Timor Leste na Indonésia e Macau na China. Os espanhóis tiveram como colônia o arquipélago das Filipinas, contudo a língua oficial do país é o filipino e o inglês, já que os espanhóis perderam as Filipinas para os ingleses. Já os franceses estes tiveram interações com algumas cidades, mas sua maior expressividade fora na região da Indochina Francesa, que compreendia parte do Vietnã, Camboja, Laos e outros pequenos territórios, isso desde o fim do século XIX até meados do século XX, antes da Guerra do Vietnã (1959-1975).

Na Oceania praticamente a única expressividade que temos de uma língua neolatina, seja o francês, falado na Polinésia Francesa e ilhas adjacentes. Além disso em algumas outras pequenas ilhas dos Oceanos Atlântico, Pacífico e Índico se fala ou português, espanhol e francês.

Distribuição das línguas neolatinas no mundo (português - laranja; francês - azul; espanhol - verde; italiano - amarelo; romeno - vermelho)

Até agora vimos como as línguas neolatinas prevaleceram e se espalharam pelo mundo, mas e quanto ao latim em si? Hoje ele é tido como uma língua morta, mas será isso verdade?

Na realidade, chamam o latim de língua morta, porque ele não é falado por quase ninguém nos dias de hoje, e não é mais utilizado diariamente como forma de comunicação, no entanto ele ainda permanece vivo em determinadas áreas.
Com a queda do Império Romano do Ocidente no século V, o Império Romano do Oriente que viria se chamar Império Bizantino, prevaleceria por quase mais mil anos, todavia a língua oficial dos bizantinos era o grego, legado deixado por Alexandre, o Grande. Quanto ao latim, este sobreviveu através da religião cristã, a qual adotou Roma como sua capital, e passou a usar o latim como língua oficial do clero. Todavia, o catolicismo ortodoxo tem como língua oficial o grego e depois o russo, e a Igreja Copta também não usa o latim como língua oficial, nesse caso eles adotam a língua copta. Mesmo assim apenas a Igreja Católica Apostólica Romana fora forte o suficiente para perpetuar o latim até os dias de hoje, por mais que seja raro em ver-se padres rezando missas em latim, mas até meados do século passado em alguns países como no caso o próprio Brasil, alguns padres ainda rezavam as missas em latim.

Quando os jesuítas portugueses começaram a pregar nas terras da América Portuguesa, eles ensinavam aos indígenas tanto o português como o próprio latim, de fato, alguns índios mais prendados, sabiam ler e escrever em português e latim. No século XIX na época do Império Brasileiro, nas escolas religiosas e no ensino secundário, haviam aulas de latim. 


Na Europa o latim também sobrevivera na literatura, na filosofia e nas ciências, os eruditos do séculos XV ao XVIII escreviam em latim. Contudo a partir do século XIX a língua latina fora perdendo forças, até ficar restrita ao meio eclesiástico católico, ao direito, a história, a filosofia, e até mesmo na biologia, já que todo o estudo da taxonomia é baseado na formulação de nomes de origem greco-latina, sendo que hoje há algumas variações, em respeito aos nomes dados pelos seus descobridores. Algumas outras ciências também utilizam expressões do latim.

Por fim, por mais que não falamos latim no cotidiano, seu legado ainda esta bem vivo no mundo.

NOTA: As línguas neolatinas ou românicas também podem ser chamadas de: romanços, romances ou novilatinas.
NOTA 2: Entre os séculos II e III surgiu o latim imperial, como uma variação do latim clássico, mas este predominou no meio literário, até mais ou menos o século V.


Referências Bibliográficas:
Grande Enciclopédia Larousse Cultural. v. 14, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
SARMENTO, Leila Lauar. Gramática em textos. São Paulo, Moderna, 2000. (Capítulo I, pp. 8-10).

Sobre as mudanças na ortografia da língua portuguesa:
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?typePag=novaortografia
http://www.atica.com.br/novaortografia/index_.htm
http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/

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