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Leandro Vilar

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Li Ching-Yun: o homem que viveu mais de 250 anos?

"Manter o coração calmo,
sentar como uma tartaruga,
andar alegre como um pombo
e dormir como um cão".
Li Ching-Yun

Introdução:

Os relatos sobre vidas seculares não é algo recente, desde os tempos antigos encontramos relatos que contam-nos a respeito de pessoas (principalmente homens) que viveram mais de duzentos, trezentos, quinhentos, setecentos e oitocentos anos. Se tomarmos o Livro do Gênesis na Bíblia e no Torá, o qual foi escrito por Moisés como atesta a tradição judaica, o profeta já nos contara no Gen. 5:1-32 o nome de vários homens descendentes de Sete, terceiro filho de Adão e Eva até chegar a Noé. Todos estes homens viveram centenas de séculos, o próprio avô de Noé, Matusalém é dito ter sido o homem que viveu mais tempo na história, tendo vivido 969 anos. O próprio Noé teria vivido 950 anos. 

Mas, não é apenas nesses livros sagrados que encontramos essas datas seculares, se retrocedermos no tempo até a Suméria no sul da Mesopotâmia, o Livro Real Sumeriano (escrito por volta do século XXIV a.C) nos traz a datação do reinado de alguns reis antes do dilúvio e após este. Antes do dilúvio, os reinados se estendiam por milênios, após esse catástrofe os reinados desceram para a casa dos séculos e das décadas, mas um ou outro ultrapassava os mil anos. O famoso semilendário rei de Uruk, Gilgamesh é dito que teria governado por 123 anos. O problema destes relatos além de serem considerados lendários, não se sabe ao certo como era feita a datação, será que esses vários séculos seriam de uma única pessoa, ou representaria a soma do reinado de vários reis que governaram com o mesmo nome?

Alguns imperadores chineses temendo a morte, ordenaram que seus alquimistas procurassem fabricar o elixir da longa vida ou imortalidade. O primeiro imperador da China, Qin Shin Huang Di (260-210 a.C) foi um desses soberanos que procuraram pelo segredo da imortalidade. A medida que caminhamos através da História, voltamos a ouvir relatos de anciãos que ultrapassaram os cem anos, vivendo em locais na África, Ásia e Américas.

A Fonte da Juventude, lenda procurada pelos exploradores da Idade Moderna, motivou nobres e plebeus a se aventurar até o Novo Mundo atrás dessas águas milagrosas que garantiriam rejuvenescimento e prolongariam a vida. Na Idade Média e Moderna havia supostos elixires que prolongariam a vida e restaurariam a juventude e a beleza. A alquimia europeia nessa época procurou criar tais elixires e até mesmo fabricar a Pedra Filosofal, embora tal pedra transformaria metais comuns em ouro, mas alguns diziam que poderia fabricar o elixir da imortalidade. 

Quando chegamos na Europa do século XVIII, em plena fase do Iluminismo, um misterioso homem deu o que falar em alguns países. Ele era conhecido como Conde de Saint-Germain. Diziam que era alquimista, ourives,  artista, filantropo, um homem bastante inteligente e sábio e conhecia segredos antigos, aprendidos em viagens feitas a Índia. Dizia-se que o Conde era mais velho que aparentava e supostamente ele envelhecia de forma lenta. Embora alguns relatos atestem que ele teria morrido ainda no século XVIII, há relatos de pessoas que dizem terem visto o Conde no século XIX e XX. Algumas pessoas disseram que o Conde sabia contar histórias com riquezas de detalhes, que parecia que ele havia testemunhado tais acontecimentos ou vivido naquelas épocas.

O longevo Li Ching-Yun

Depois dessa breve introdução mostrando que a busca para prolongar a vida e até mesmo recobrar a juventude, a beleza e se conquistar a imortalidade é algo antigo na História, assim como relatos de pessoas que teriam vivido bastante tempo. Mas no caso desse chinês chamado Li Ching-Yun ou Li Ching-Yuen o que o fez se tornar uma figura curiosa e misteriosa? Na China e no Oriente, o consideram como tendo sido a pessoa que mais tempo viveu segundo provas documentais. 
Foto de Li Ching-Yun (1927?), o homem que teria vivido 256 anos. 
Em 1933 a Revista Time (Time Magazine) publicou um artigo intitulado Tortoise-Pigeon-Dog (Tartaruga-Pombo-Cachorro), onde nesse artigo contava a respeito de um misterioso chinês que teria vivido 256 anos, tendo se casado 23 vezes e tido mais de 180 filhos. A matéria havia sido escrita pelo professor Wu Chung-chieh o qual interessado na vida desse respeitado e velho homem teria descoberto documentos datados de 1827, os quais parabenizavam Li Ching-Yun por seus 150 anos. Na época que Wu realizara essa pesquisa, Li ainda estava vivo, pois ele morreu em 6 de maio de 1933 de causas naturais. No entanto, Wu não conseguiu conhecê-lo, mas ficou sabendo que o velho homem dizia ter nascido em 1736, tendo morrido aos 197 anos. 

Contudo, Wu Chung-chieh continuou a investigar o passado desse velho mestre taoísta e herbalista, e chegou a data que Li teria nascido em 1677 em Qi Jiang Xian na província de Szechuan. Seria que Li teria se esquecido do ano que teria nascido? Sim, isso é possível, todavia não corrobora que ele teria vivido tanto tempo assim, mas seguimos com a explanação. 

No livro Ancient Secrets of Youth escrito por Peter Kelder, o qual contou com o depoimento do mestre de Tai Chi Chuan, Da Liu o qual foi discípulo de Li, revelara alguns detalhes da vida desse velho homem e como ele teria chegado a essa longeva idade bicentenária. Neste livro, Kelder procurou ensinar formas saudáveis para se seguir ao longo da vida, a fim de ter uma boa saúde, disposição e longevidade. 

Os relatos nos conta que a partir dos dez anos de idade Li começou a colher ervas medicinais e a aprender a cultivá-las. Anos depois viajou pela China até se mudar para Kai Hsien onde conhecera mestres taoistas que começaram a lhe ensinar os Tao e alquimia. Foi a partir dessas práticas alquímicas e da Medicina Tradicional Chinesa, que Li começou a doutrinar seu corpo e mente, passou a fazer exercícios físicos com regularidade, passou a praticar meditação, aprender filosofia, medicina, etc., a ter uma alimentação saudável e saber usar plantas medicinais. Dizia-se que ele realizava sua alimentação em horários regulares, dormia cedo e acordava cedo, e não consumia bebidas alcoólicas e nem fumava.

Ele aprendeu a arte do chi kung, a qual se dizia de como manter uma boa saúde e prolongar a vida. Alguns relatos do depoimento de Da Liu dizem que Li teria conhecido um velho mestre de chi kung o qual lhe ensinara o pa-kua, na época Li já estaria com seus 130 anos. 

Os hábitos de vida de Li podem muito bem ter contribuído para prolongar sua vida, contudo não são certeza de terem possibilitado ele chegar a essa idade bicentenária. Os médicos recomendam que tenhamos uma dieta balanceada,  pois comer muito não significa ter boa saúde, pois se comermos apenas determinados tipos de alimentos, mas esquecermos de comer outros que contenham nutrientes essenciais, acabaremos engordando, ficando com anemia ou desenvolvendo alguma doença. Os nutricionistas recomendam que consumamos calorias adequadas aos nossos esforços diários e estilo de vida, logo, um atleta não terá a mesma alimentação de uma pessoa que trabalha num escritório, passando horas sentado; assim como um pedreiro, não poderá ter a mesma alimentação de um motorista de ônibus, que também passa o expediente sentado; o consumo calórico é diferente, mas em ambos os casos as pessoas devem manter uma boa alimentação.

Não sabemos se Li era totalmente vegetariano ou consumia carne de peixe ou de aves, mas é provável que tenha abolido a carne vermelha de sua dieta. Mas, pelos relatos, sabemos que ele consumia muitas plantas e raízes, assim como bebia muito chá, como além de água e provavelmente deveria consumir leite e até mesmo queijo e coalhada, pois os mesmos ajudam na manutenção do cálcio para os ossos. 

Contudo, os relatos nos apontam que Li foi um dos primeiros a dá atenção ao consumo de duas plantas: a fruta goji (Lycium barbarum), chamada na China de gou qi zi e da planta gotu kola (Centella asiatica) conhecida por lá como fo-ti-tieng, a qual se produz chá. Essas duas plantas são ricas em nutrientes, algo que Li chamava a atenção pois consumi-las garantia adquirir as quantias necessárias para determinados nutrientes, os quais em outros alimentos ou se encontravam de forma escassa ou inexistiam.

A goji é conhecida por ser uma fruta rica em aminoácidos contendo pelo menos 18 deles, além de possuir 21 minerais dentre eles, ferro, zinco, cálcio, germânio, selênio, fósforo, etc. Ela também é rica em beta-caroteno (possuindo tal substância em maior quantidade do que as cenouras), possui grande quantidade de vitaminas C, B1, B2, B3 e E, além de possuir 8 tipos de polissacarídeos que beneficiariam no fortalecimento do sistema imunológico. Na Medicina Tradicional Chinesa tal planta é amplamente recomendada para o consumo, principalmente na velhice. Hoje tais plantas são exportadas para outros cantos do mundo, e pesquisas médicas realizadas nas últimas décadas atestam os benefícios do consumo dessa planta que há séculos é consumida na China. 
Goji (Lycium barbarum) recém colhidas. 
Acerca da segunda planta o gotu kola ainda está sendo pesquisada, embora que no Ocidente tenha aumentado seu consumo, principalmente através de medicamentos com base natural. Em algumas farmácias especializadas, pode-se encontrar frascos com extrato de gotu kola. Na Ásia tal planta é conhecida e cultivada é vários países, de forma que é utilizada na culinária e na medicina. No campo da medicina tal planta foi utilizada para se tratar diversas doenças e males, embora que hoje não se tem certeza da sua total eficácia contra alguns destes males, mas sabe-se que o gotu kola possui propriedades cicatrizantes e de fortalecimento imunológico. Tal planta pode ser consumida crua, ou misturada em sucos, saladas, fazer-se chá, etc.


Vaso com gotu kola (Centella asiatica).
No Ocidente usa-se tal planta para se tratar problemas de varizes, insuficiência venosa, tratamento de ferimentos leves, tratamento de problemas de ansiedade, insônia, esclerodermia, etc. No entanto a Universty of Maryland Medical Center aconselha que o gotu kola não deverá ser consumido em caso da pessoa ter problemas de fígado, problemas de pele ou estar com câncer, pois alegou-se que tal planta poderia "curar" câncer, mas as pesquisas ainda não comprovaram tal veracidade. O gotu kola pode ser consumido em chá, sucos, misturado a saladas, raspado até virar um pó e acrescido em molhos, temperos, sopas, leite ou ingerido em cápsulas. 

Somando-se essa boa alimentação que Li Ching-Yun teria, havia o fato do mesmo praticar exercícios físicos regularmente além de praticar meditação, para manter o cérebro saudável. O sedentarismo e a falta de exercícios nos dias de hoje é um problema que a sociedade contemporânea enfrenta. A vida agitada nas cidades nos retira tempo para dedicarmos a cuidar de nossa saúde e de nossos assuntos privados. Além disso, soma-se a questão da preguiça para se exercitar ou praticar esportes. E por fim um terceiro elemento que entra nessa equação é que no Ocidente em geral pratica-se atividades físicas mais por uma questão estética do que uma questão de saúde, é claro que nem todo mundo pensa assim, mas muitos o pensam. 

Na China, a prática de exercícios é uma tradição secular, fosse estando relacionada ao treinamento militar ou para a saúde. Para os chineses praticar exercícios é adquirir força, resistência, disposição, bem-estar, disciplina, concentração e alegria. Em algumas cidades chinesas, vemos adultos e idosos se exercitando nas praças, muitos se divertindo em fazer aquilo. Os gregos antigos também foram um povo que valorizava o esporte e as atividades físicas. Exercitar-se com regularidade era algo que fazia parte do currículo escolar e da cultura grega, embora os gregos dessem também atenção ao lado estético da boa forma corporal. 

No caso da meditação esse é outro ponto a ser avaliado. Os relatos nos falam que era dessa forma que Li mantinha suas faculdades cerebrais saudáveis. No passado pensávamos que quando chegássemos a velhice, deveríamos descansar, nada de fazer exercícios físicos e ficar pensando muito. Hoje a medicina nos aponta o contrário, é na velhice que devemos nos preocupar mais com atividades físicas e mentais, pois o corpo estar em estado de deterioração, e isso nos leva a redobrar os cuidados com o mesmo. Além da meditação, outras formas de manter a atividade cerebral é: ler, escrever, conversar, viajar, contar, estudar, ver televisão, navegar pela internet, jogar, ouvir música, cantar, tocar, praticar esportes, etc. Tais hábitos contribuem para diminuir a perda da velocidade de raciocínio e aprendizado, e podem manter ativa a memória e a lucidez. 

Além de se exercitar e meditar, o mestre também realizava exercícios de respiração. Em algumas artes marciais ensina-se algumas técnicas de respiração para ajudar no bom funcionamento do sistema respiratório. O monge Lobsang Rampa (1910-1981) em alguns de seus livros recomendava uma série de exercícios respiratórios que não apenas ajudariam no sistema respiratório  mas circulatório, na parte muscular do ventre, etc. 

No âmbito de se alimentar em horário regulares e dormir cedo para acordar cedo, pesquisas apontam que isso contribui para o bem-estar. Não ter um horário definido para fazer as refeições, leva o organismo a sentir mais fome, e consequentemente acabar se comendo mais ou optar por lanches. No caso do Ocidente, é comum acabarmos optando por comer fast-food ou consumir comidas congeladas, que colocamos no microondas. O problema desses alimentos é que em geral os fast-food são bastante calóricos, gordurosos e pouco nutritivos (há exceções) e acerca das comidas congeladas, diz respeito aos produtos químicos usados para conservá-la.

No caso de dormir, esse é outro problema. Nossas vidas agitadas nos leva ir dormir tarde por causa de ter que cuidar de afazeres domésticos ou de trabalho e estudo, e no dia seguinte levantarmos cedo para ir trabalhar, estudar, etc. O recomendado é dormir-se oito horas diárias. O mestre Li deitava-se cedo para acordar cedo, isso é algo necessário, pois quanto mais tarde for dormir, mais tarde terá que se levantar, mas se quebramos essa delimitação de oito horas, isso gera problemas de saúde: insônia, sonolência, impaciência, preguiça, falta de apetite, dores musculares, raciocínio lento, etc. Os meus avós maternos tem o hábito de dormirem cedo e se levantarem cedo. Meu avô fará 84 anos em breve, e no caso da minha avó paterna ela tem 86 anos.

Por fim, outro fato a ser considerado a partir dos relatos conhecidos, era que o mestre não consumia bebidas alcoólicas e nem fumava. Estes dois produtos geram sérios problemas de saúde. O grande problema não é consumir bebidas alcoólicas, mas é a embriaguez, a qual poderá levar a pessoa a desenvolver o alcoolismo, e o alcoolismo é uma doença. 

A embriaguez atesta o estado que o organismo está saturado de álcool, e a constância disso levará a problemas no fígado, estômago, pâncreas, rins, sistema circulatório, coração, além de afetar o cérebro, retardando as capacidades motoras, os reflexos e o raciocínio; como também gera problemas sociais. Se as pessoas bebessem sem se embriagar não teríamos alcoólatras, acidentes automobilísticos, crimes, etc. Infelizmente a sociedade ainda está atrasada nessa questão.

Quanto ao fumo, esse pode desenvolver o tabagismo, ou seja a dependência do consumo de tais substâncias. No caso do cigarro, charutos, etc., a grande quantidade de elementos químicos que o compõem, geram não apenas danos ao sistema respiratório, mas afetam o sistema circulatório, cardiovascular, digestivo, imunológico, neurológico, etc. Meu avô materno por algumas décadas fumou, até que ele teve um problema pulmonar e o médico foi bem claro para ele: "ou o senhor para de fumar, ou não irá viver mais tempo". Meu avô paterno morreu por decorrência de problemas cardiovasculares devido ao grande consumo de cigarros. 

Já adulto, Li passou a comercializar plantas medicinais até que aos 71 anos de idade foi convocado para servir no Exército Provincial de Yeuh Jong Chyi, onde passou a atuar como mestre de artes marciais e conselheiro tático. Posteriormente não se sabe quanto tempo ele ficou no cargo ou para onde foi depois. Além disso, não temos certeza se realmente ele serviu no exército de Yeuh Jong Chyi devido a falta de documentos que corroborem sua presença lá e as datas.

Mas no século XX o general Wu Pei-Fu um dos "senhores da guerra" que governou algumas províncias entre 1916 a 1927 numa fase turbulenta da história republicana chinesa, onde tais senhores queriam retomar a monarquia ou depor a então república, Pei-Fu escreveu sobre o velho mestre Li de quem ouvira falar, admirando suas qualidades e sua longa vida. 

Yang Sen
Em 1927 o general Yang Sen (1884-1977) o qual foi um dos "senhores da guerra", interessado em conhecer esse homem que diziam ter mais de 200 anos, o convocou a sua casa em Wann Hsien na província de Szechuan, terra natal do velho mestre. Na ocasião da visita de Li, tiraram sua foto, a qual pode ser vista mais acima neste texto. O general ficou surpreso ao conhecer esse homem, segundo seu relato e pela foto, dizia-se que Li não aparentava ter nem 70 anos de idade e do que dizer mais de 200 anos. Além disso o general relatara que esse homem bicentenário tinha uma boa visão, passadas rápidas, tez corada e uma disposição e vigor surpreendentes para uma pessoa da idade que se dizia ter. Outro aspecto eram suas longas unhas, como se pode ver na foto. Tais características foram escritas pelo general Yang Sen num relato que ele chamou de: Um relato factual sobre o "homem de boa sorte" de 250 anos

O general nos conta também que o velho mestre dizia que um dos segredos para sua longa vida era: manter o coração calmo, ou seja evitar se enraivecer e no caso dos dias de hoje, evitar o estresse; sentar como uma tartaruga, andar alegre como um pombo e dormir como um cão. Esses três últimos aspectos são complicados de se compreender, pois os mestres chineses sempre gostaram de falar em metáforas.

Tartarugas não se sentam, pelo menos nunca vi nenhuma fazer isso. A forma física das tartarugas não as permitem fazê-lo, mas como eu havia dito. Contudo, acredito que o mestre quis dizer que "sentar como uma tartaruga" seria sentar com a postura correta. A carapaça das tartarugas não as permitem dobrar o corpo, logo não deveríamos nos sentar curvados, mas retos. Dores de coluna e nas costas são males que afligem grande parte da população mundial, e muitos ocorrem devido a má postura ao se sentar e até em se deitar. 

No caso dos pombos, eu já vi tais aves andando, eles andam com passadas regulares e bem pisadas. Além disso andam com as cabeças sempre eretas, sem olhar para o chão, e se movimentam com os peitos estufados. Aqui podemos entender que deve-se manter uma boa postura, e andar com confiança, pois acredito que o mestre achasse o andar dessas aves algo peculiar e engraçado, daí ele dizer "andar alegre como um pombo". Também podemos entender essa metáfora como forma de se dizer que devemos levar uma vida com bom-humor, andarmos alegremente e de forma suave, mas constante. Sorrir e gargalhar fazem bem a saúde, algo que o médico americano Patch Adams alega em seu trabalho. Sorrir faz bem ao organismo, desde que não seja de forma forçada. 

A respeito do cachorro, eu já vi vários cães dormindo, eles dormem de diferentes posições, mas sempre procuram ficar numa posição confortável, para manter um sono tranquilo, contudo, em qualquer sinal de barulho estranho, eles rapidamente despertam. Entretanto não sei explicar a metáfora do mestre, pois os cães geralmente não dormem na mesma forma. Seria que ele referiria-se a dormir tranquilamente, mas manter-se em alerta? Ou diria respeito que os cães conseguem dormir facilmente?

Em 2002 Stuart Alve Olsen escreveu o livro Ensinamentos de Qigong de um Imortal Taoista: Os oito Exercícios Essenciais do Mestre Li Ching-Yun. Nessa obra Olsen ensina algumas práticas de chi kung como os Oito Panos de Seda, o qual teria sido ensinada por Li ao general Yang Sen, e esse por sua vez a transmitiu ao mestre de Tai Chi Chuan, Liang Tsung Tsai (1900-2002), o qual a partir de seus relatos, Olsen escreveu parte de seu livro. 

O mestre taoista e de Tai Chi Chuan, Liu Pai Lin (1907-2000) o qual dissera que conheceu Li Ching-Yun e com ele aprendeu algumas de suas artes, mudou-se para o Brasil, e morando em São Paulo foi responsável por introduzir a medicinal tradicional chinesa no país e a difundir o taoismo e o Tai Chi Chuan. Sua academia ainda existe e ainda se ensina algumas das artes do velho mestre Li. 
Mestre Liu Pai Lin foi um dos discípulos de Li Ching-Yun. 
Considerações finais:

Devido a falta de fontes para aprofundar o estudo sobre este caso, isso me causou problemas na hora de poder arguir sobre o assunto, mas irei criticar essas informações até onde pude fazer devido a disponibilidade de material e conhecimento sobre o mesmo.

Primeiramente, se Li Ching-Yun casou-se 23 vezes e teve pelo menos 180 filhos, onde estão seus netos, bisnetos e trinetos? Ele morreu em 1933, é bem provável devido a essa suposta prole, que seus descendentes ainda estejam vivos, mas porque nenhum se manifestou desde a morte do mesmo? Simplesmente esqueceram de seu antepassado que viveu 256 anos? Ou existe algo a mais por trás disso. Onde estão seus parentes para comentar acerca desse assunto?

Segundo, não sabemos ao certo quais os documentos que Wu Chei-Ching procurou e utilizou para chegar as suas conclusões. Embora ele diga que tenha encontrado um "documento" que parabenizava Li pelos seus 150 anos, onde está esse documento hoje? Seguindo ainda essa questão documental, Wu disse que chegou a conclusão que Li nasceu em 1677, embora Li teria dito que nascera em 1736, mas porque dessas discrepâncias de datas? Eu havia comentado que será que o velho mestre bicentenário teria esquecido a própria data que nasceu?

E mesmo que Wu tenha encontrado esse "documento" que provaria o nascimento em 1677, onde exatamente ele encontrou isso? Documentos imperiais são muitos, o império chinês durou por mais de dois mil anos, e o grande problema é que até antes do século XX as nações não tinham costume de realizar censos populacionais e nem armazenar certidões de nascimento, casamento, óbito, batismo, adoção, herança, etc., nem todos os países possuíam cartórios e arquivos, e além disso, num país das dimensões da China e sua vasta população, ainda hoje há pessoas sem documentos civis, do que dizer no século XVII, ainda se considerarmos que quanto mais distante a vila ou aldeia das cidades, isso impossibilitava funcionários do governo para lá viajarem para realizar o levantamento populacional. 

Oficialmente o ser humano que viveu mais tempo, tendo se como base comprovação documental e testemunhas, foi a francesa Jeanne Louis Calment (1875-1997) a qual faleceu aos 122 anos. Jeanne se encontra no Guines Book como a mulher e a pessoa mais velha conhecida. No caso de Li Ching-Yun não temos acesso aos documentos usados por Wu para apoiar seus argumentos, embora sabemos que por testemunhas, Li realmente foi uma pessoa real, embora seu passado e vida seja misterioso ainda. 


Jeanne Calment em seu aniversário de 121 anos em 1996. Até o momento, Jeanne é o ser humano que mais tempo viveu, oficialmente conhecido.
Um problema que envolve a pesquisa documental é que não conhecemos nenhum parente de Li, seja parente morto ou vivo, além disso, os documentos que Wu encontrou poderiam se referir a outra pessoa com o mesmo nome, algo que não é impossível de ter acontecido.

Se tomarmos o âmbito argumentativo da medicina, a medicina ocidental não nos comprova de nenhuma forma a possibilidade de se viver tanto tempo, pois biologicamente o corpo humano não possui condições de viver tanto tempo assim, embora hoje saibamos que a barreira dos cem anos já é possível de ser transposta. Países como Japão, China, Itália e Grécia possuem vários centenários. A alimentação e os hábitos de vida são questões preponderantes para se chegar a tal idade e com saúde. No entanto não nego que o estilo de vida do mestre Li não possa ter contribuído para sua vasta idade, de fato seus hábitos muito bem podem ter contribuído para ele viver bastante tempo, mas dizer que chegou aos 197 anos ou 256 anos, acho algo difícil de ter acontecido. 

Contudo, se algum historiador chinês ou de qualquer outro país, vim ler tal texto, peço que ele ou ela se se interessar por esse assunto vá atrás de descobrir a verdade, investigue, procure os documentos, fontes, relatos, testemunhas, parentes, etc. O próprio Conde de Saint-Germain embora tenha sido citado por várias pessoas e até por jornais, ainda hoje há dúvidas se ele foi um homem ou vários homens que se passaram por ele, ao ponto de se construir uma lenda urbana sobre seu aspecto, saberes e feitos. Teria o mesmo acontecido como o velho mestre Li Ching-Yun, ele teria se tornado uma "lenda" ou seus feitos foram distorcidos ao longo da sua vida? Isso é algo que não temos resposta. 

NOTA: Atualmente o boliviano Carmelo Flores Laura alega ter 123 anos. O governo boliviano está analisando o caso.
NOTA 2: O estilo marcial Jiulong Baguazhang supostamente foi desenvolvido a pelo mestre Li. Isso pode ser até mesmo possível, pois Li era conhecido por ser um mestre em artes marciais além de um mestre em herbologia. 

Referências:

2 comentários:

Andrei Barros disse...

Gostei do seu artigo. Na minha opinião pessoal, como você mesmo levantou a questão documental e os possíveis equívocos que podem ter sido cometidos, a idade deste senhor não passa de uma lenda. Abraços

Ricardo Rodeia disse...

Muito interessante e inspirador... pois parte de nós está no que nós sabemos ser, e que duvidamos quando nos confrontamos com a realidade. Como dizer que... uma mentira repetida várias vezes, torna-se verdade, ... porém uma verdade eternizada, mantém-se na dúvida,,, "Se queres ter o mundo inteiro à tua altura, tens de olhar para fora sem esquecer que dentro á que é o teu lugar." JP