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Leandro Vilar

sábado, 12 de outubro de 2013

Loki: uma análise dos mitos nórdicos desse intrigante ser

Para concluir minha trilogia sobre deuses escandinavos ou nórdicos, iniciada com Odin, continuada com Thor, e finalmente concluída com Loki, falarei agora desse icônico e controverso ser. Pelo fato de não se ter embasamento para apoiar se Loki recebia algum culto, falarei apenas do seu papel nos mitos e como as pessoas enxergavam as suas ações, pois Loki é um "deus ambíguo". 

Etimologia:

O nome Loki não possui um significado claro como os nomes de Thor ("trovão") e Odin ("furor"). Entre algumas hipóteses etimológicas o seu nome significaria: lobo, fim, aranha, ar (Loptr), chama (Logi) ou fogo (Lodurr). Tais significados ficam mais claros quando se ler o texto, e ver sua relação com um suposto "deus do fogo", assim como, sua ligação com o Ragnarök, daí a ideia de "fim", e o fato de um de seus filhos ser um lobo gigante. 

Além dessa palavras, na história alemã Nibelungenlied (O Anel do Nibelungo, obra que inspirou Richard Wagner a compor sua famosa versão em ópera dessa história), Loki é chamado de Loge, palavra essa derivada de logi (chama). Há outros relatos em outros poemas, que trazem o nome Logatore e Lopt. Mas, essencialmente não há nada de concreto acerca do significado de seu nome, pois embora esteja ligado a ideia de fogo em alguns casos, não encontramos nos mitos referências a esse seu atributo como deus do fogo, embora o mitólogo Eldar Heide tenha defendido que Loki seria um vätte (espírito do fogo), e os famosos Irmãos Grimm também sugeriram o aspecto ígneo desse ser. 

Nascimento: 

Existe uma questão que ainda intriga parte da comunidade de mitólogos no mundo, Loki seria um deus, um gigante ou um trickster? Sobre tal questão falarei mais adiante, mas devemos ter em mente que o conceito de semideus não era algo considerado entre os escandinavos, assim como visto entre os gregos. Para os escandinavos não havia semideuses, pois deuses tinham filhos com gigantas, e estes filhos eram considerados deuses e não semideuses. No caso de Loki, ele era filho de gigantes. Além disso, há uma ressalva a se fazer: para ser um deus, o indivíduo teria que ter um pai deus, independente da mãe ser uma giganta ou humana. 

Seu pai chamava-se Fárbauti ou Farbanti ("atacante cruel"), sua mãe era chamada Laufey ("cheia de folhas") ou Nál ("agulha"). Além de Loki, o casal tivera mais dois filhos, Býleist e Helblindi. Há uma divisão entre os mitólogos, uns consideram Fárbauti e Laufey como ambos sendo gigantes, mas outros opinam que Laufey seria uma deusa associada a natureza, e embora a linhagem divina fosse paterna, no caso de Loki, seria uma exceção e assim ele seria um deus por parte da linhagem materna, daí ser chamado de Loki Laufeyjerson ("Filho de Laufey"). 
Fárbauti e Laufey. Hellanim, 2012. 
Contudo praticamente nada se sabe sobre seus pais e irmãos, pois seus nomes são brevemente mencionados nas Eddas e nos poemas escaldos. Sua família não possui significância nos mitos, e nem se sabe ao certo quem realmente foram, ou o que aconteceu com eles. 

Esposa e filhos: 

Loki teve apenas uma esposa, uma amante, um amante e filhos. Sua esposa se chamava Sigyn ("vitoriosa namorada") e nas Eddas ela era referida como sendo uma deusa e não uma giganta. Além disso, é importante dizer que nem todos os deuses e deusas possuíam um papel ritualístico ou de culto. Na realidade, Sigyn é uma deusa pouco importante no panteão nórdico, sua maior aparição diz respeito quando essa auxilia seu marido, no período que este ficou preso. O casal tivera dois filhos, Nari ou Narfi (em alguns relatos Narfi seria outro deus e não um outro nome para Nari) e Vali (não confundir com Vali, o filho de Odin com Rind). Mas, de qualquer forma, ambos os deuses são pouco mencionados e expressivos no panteão. 

A deusa Sigyn, esposa de Loki. 
Todavia, os filhos mais conhecidos de Loki não foram os nascidos de seu casamento com Sigyn, mas de seu caso com a giganta Angrboda. Ela era uma giganta da montanha, embora se desconheça suas origens e quem fosse sua família. De fato, Angrboda é apenas mencionada no Voluspá, um dos poemas da Edda poética (coletânea de poemas escritos entre os séculos X e XIII) e na Edda em prosa, livro escrito por Snorri Sturluson no século XIII. A giganta é principalmente lembrada por ser a mãe do gigantesco lobo Fenrir, da colossal serpente Jormungand (chamado também de Serpente do Mundo e Serpente de Midgard) e da deusa dos mortos, Hel. Angrboda é referida como a mãe de monstros, pois embora Hel tenha uma forma humana, metade de seu corpo é de aparência cadavérica (segundo o relato de Snorri) 

Loki's Brood. Emil Doepler, 1905. No quadro pode-se ver a giganta Angrboda olhando para seus filhos, Fenrir, Jormungand e Hel.
O papel desses filhos é bastante importante na mitologia escandinava, pois Fenrir e Jormungand durante o Ragnarök, irão causar sérios problemas para os deuses e as demais criaturas do mundo. Mais a frente tratarei disso mais especificamente, quando falarei sobre o Ragnarök. 

Quando tais seres nasceram, Odin ficou sabendo da existência deles, e decidiu providenciar o que iria se fazer com estas abominações. Num primeiro momento, Fenrir que ainda era pequeno foi levado para morar em Asgard (a terra dos deuses), já Jormungand foi lançado as profundezas do mar, pois começou a crescer rápido de mais, então Odin o lançou no mar. Quanto a Hel, essa foi enviada para a fria e nebulosa terra dos gigantes de gelo, chamada Nilfheim. Lá ela passaria a reger sobre parte dos mortos, num lugar que ficaria conhecido como Helheim, o qual posteriormente, os cristãos associaram a sua ideia de Inferno. 

Loki's Children. Lorenz Frolich, 1906. No quadro pode-se ver Odin segurando Jormungand, onde possivelmente se preparava para arremessá-lo as profundezas do mar, enquanto Loki o observa atônito. Os outros dois deuses que trazem Fenrir e Hel, não são identificados. Talvez fossem Vili e Vé, os irmãos de Odin. 
Outro filho famoso de Loki, foi o cavalo de oito patas chamado Sleipnir. Corcel esse dado a Odin como presente. Embora Sleipnir seja mencionado no Grimnismál, Sigrdrífumál, nos Cantos de Balder e no Hyndlujód, é na Edda em prosa que se tem a melhor descrição sobre a origem desse icônico cavalo de oito patas. Sleipnir era filho de Loki, e a história contada nos narra que os deuses receberam a proposta de um gigante disfarçado, o qual se ofereceu para construir uma imponente muralha ao redor de Asgard, mas em troca de seu árduo trabalho ele exigia o Sol, a Lua e a deusa Freya. Lembrando aqui que o Sol e a Lua também eram deuses, chamados Sól e Mani. Os deuses não gostaram muito dessa ideia de oferecer três de seus entes em troca de uma muralha. 

Contudo, eles concordaram ressalvando que o homem teria apenas o prazo do inverno para terminar a muralha, senão, não iria receber o seu pagamento. E deveria fazer tudo sozinho, mas o homem pediu que pudesse usar seu cavalo Svaldifari, o qual o ajudaria a carregar as pedras. Enquanto os deuses pensavam nisso, Loki com sua língua ardilosa disse que não haveria problema, o homem satisfeito começou seu serviço.

O inverno foi passando e o gigante manteve-se no prazo estipulado, já estava quase terminando as muralhas antes da primavera começar. Os deuses temendo que teriam que entregar Freya, Sól e Mani, cobraram de Loki resolver aquilo, já que foi ele que permitiu que o homem usa-se o cavalo para ajudá-lo. Loki foi ameaçado de morte, então decidiu agir. Ele se transformou em uma égua e começou a relinchar na floresta, Svaldifari ouvindo o som, correu para dentro da floresta. Seu dono foi atrás, mas acabou perdendo o dia inteiro de trabalho procurando por seu cavalo, isso o fez atrasar as obras, e quando a primavera chegou a muralha estava incompleta. 

O gigante disfarçado de humano, segurando as rédeas de seu cavalo Svaldifari, enquanto este tenta se libertar e ir atrás da égua, a qual é Loki transformado. 
O gigante revoltado começou a esmurrá-la, e isso revelou seu disfarce. Nessa ocasião Thor que estava em Jotunheim matando gigantes, havia retornado e vendo um gigante atacar as muralhas de Asgard, sem pensar duas vezes o confrontou, o matando com o seu martelo. Posteriormente, Loki retornou e deu a luz a um cavalo de oito patas, o qual foi chamado de Sleipnir e foi dado de presente a Odin. 

Odin brandindo sua lança chamada Gungnir, enquanto cavalga Sleipnir. Manuscrito islandês do século XVIII. 
Loki entre os deuses:

Como foi visto, Loki é considerado por alguns como um deus e por outros como um gigante, caso ele fosse um deus, ele não pertencia a família dos Aesir e dos Vanir, as duas principais famílias de deuses do panteão nórdico (embora houvessem outros deuses que também não se incluíam nessas famílias), mas os motivos do porque Loki ser aceito pelos Aesir, detendo o direito de conviver com eles e morar em Asgard não são claros. Aqui vemos a questão diacrônica: Fenrir e Jormungand foram destinados a causar males aos deuses durante o Ragnarök, e o próprio Loki, durante esse caótico período, irá se rebelar contra os demais deuses. 

Por essa perspectiva, ele seria um inimigo, contudo, os deuses mesmo assim o mantêm próximo, pois como veremos nos relatos de alguns mitos a seguir, a figura de Loki é ambígua, numa hora ele ajuda os deuses, em outra ele lhe traz problemas, como visto na história da construção das muralhas de Asgard e o surgimento de Sleipnir. Além disso, as Eddas nos indicam que o destino era algo bastante importante a tal ponto que nem os próprios deuses ousavam mudá-lo. Há mitólogos que sustentam a ideia de que Odin já soubesse a respeito de sua morte, mas o que estava determinado teria que se cumprir, daí ele permitir Loki conviver com eles. 

Loki segurando uma rede de pesca. Gravura num manuscrito islandês do século XVIII. Os mitos atribuem a Loki a criação da rede de pesca.
Existe uma pequena passagem na Edda poética, no poema Lokasenna, onde Loki lembra a Odin que eles eram irmãos juramentados pelo sangue, ou seja, no passado eles haviam feito um juramento de sangue, embora que não se saiba que juramento foi este, pois no restante da Edda poética, assim como na Edda em prosa e em outros poemas, não encontramos menção a esse juramento de sangue. A estrofe diz o seguinte (tradução minha):

9. Não te recordas, Odin, 
que outrora nós dois
misturamos nosso sangue?
Jamais experimentarias, disseste, cerveja
que não se oferecesse a ambos. 

Nessa estrofe, Loki convoca o juramento feito a Odin, de forma ao rei dos deuses consentir com sua presença no então banquete no qual os Aesir se encontravam. Mais a frente voltarei a falar desse intrigante poema. Mas, de qualquer forma, podemos ver que por este misterioso juramento e outros motivos a nós desconhecidos, Loki gozava de direito entre os Aesir. Não obstante, ele era considerado o deus do fogo, embora não saibamos detalhes sobre esse seu atributo e se existiu algum culto a sua pessoa por parte disso, já que em outras religiões, havia cultos aos deuses do fogo.

O fato de Loki ser considerado o deus do fogo, ainda é pouco conhecido por nós e questionador. De acordo com algumas interpretações de alguns mitólogos, o pai de Loki, Fárbauti estaria associado ao raio, e por sua vez, sua mãe Laufey estaria associada a vegetação, logo, quando um raio atinge uma árvore, essa acaba se incendiando. Aqui temos a alusão de por que Loki estaria associado ao fogo. 

Não obstante, embora fosse ele ou não o deus do fogo, ele nos mitos praticamente não usa o fogo, mas se apresenta como astuto, criativo, persuasivo e com o poder de se transformar. Ao mesmo tempo, outra questão que marca esse intrigante ser é a sua aparência. Os relatos não descrevem em detalhes sua aparência, como visto com Odin e Thor, mas apenas dizem que ele era bonito. Logo, dependendo do artista, podemos ter inúmeras interpretações sobre a aparência dele.

Loki. Emil Doepler, 1882. Nessa pintura podemos ver Loki caminhando ao lado de fogo e fumaça, algo que remete ao fato de ele ser o deus do fogo. 
Até aqui vimos algumas características desse deus, onde outras características ficaram mais evidentes a partir dos exemplos que darei, e depois destes tratarei da teoria de que ele seria um trickster

O rapto de Iduna e o roubo das maçãs:

Idum, Idunn ou Iduna era a deusa da poesia e guardiã das maçãs do rejuvenescimento. Era esposa de Bragi, o deus da poesia, o qual era filho de Odin e da giganta Gunnlöd. O papel de Iduna estava relacionado com a manutenção da vida dos deuses, pois os deuses nórdicos não eram imortais, logo, eles costumavam comer as maçãs do rejuvenescimento, a fim de prolongarem a sua vida até o dia que o Ragnarök se iniciar. É dito que Iduna guardava tais maçãs em uma caixa de madeira de freixo. 


Bragi tocando harpa, Iduna se encontra em pé atrás dele. Nills Blommér (1846).
No Skáldskaparmál, o qual compreende a segunda parte da Edda em prosa, conta-nos a história de quando Iduna foi raptada e isso preocupou bastante os deuses, pois sem as maçãs dela, os deuses continuariam envelhecendo até morrerem. 

A história nos conta que certa vez, Odin, Loki e Hoenir (um dos irmãos e Odin) estavam viajando pelas montanhas e lugares ermos. Os deuses estavam com fome, então passaram a procurar por comida até que avistaram um rebanho de bois, então caçaram um deles, e o colocaram para assar. Quando acharam que a carne estava bem assada, apagaram o fogo e foram comê-la, mas notaram que estava crua, então acenderam o fogo novamente e colocaram a carne para voltar a assar, esperando por mais tempo, mas quando voltaram a provar a carne, viram que ela ainda continuava crua. Aquilo começou a intrigar os três , até que eles ouviram uma voz.


Manuscrito islandês do século XVIII, retratando Odin, Loki, Hoenir e a grande águia. 
No topo de um carvalho ali perto, se encontrava uma gigantesca águia que falava com eles. A águia disse que se eles dessem alguns pedaços de carne, o restante seria assado. Os deuses concordaram. A grande águia desceu e surrupiou as duas coxas e os flancos, isso deixou Loki furioso, o qual cravou sua lança no corpo da ave, e quando essa alçou voo, ela o levou consigo para bem alto, aquilo deixou com medo (afinal ele era mortal, se caísse, acabaria morrendo).

A águia dissera que só iria deixá-lo voltar para o chão, se Loki prometesse em ajudá-lo, a sequestrar a deusa Iduna. A águia falara que Iduna deveria ser levada para fora das muralhas de Asgard, para que assim ele pudesse raptá-la. Loki sem ter outra opção, acabou concordando, então voltou para o chão e se reuniu com os outros deuses. De volta a Asgard, ele decidiu cumprir com sua palavra.

"No momento conveniente, Loki atraiu Idun para fora de Asgard até um bosque, dizendo que encontrara algumas maçãs que ela adoraria e pedindo-lhe para que levasse as suas para poder compará-las". (STURLUSON, 1993, p. 137).


Loki convencendo Iduna de o acompanhá-lo até um bosque fora de Asgard. John Baeur. 
Quando os dois seguiam em direção ao bosque a gigantesca águia surgiu no céu. Snorri nos conta que a águia na realidade era um gigante chamado Tjazi, o qual possuía o poder de se transformar numa águia (havia gigantes que poderiam se transformar e também sabiam usar a magia). Tjazi desceu até a terra e capturou a deusa, a levando embora, em direção a sua casa em Trymheim. O gigante Tjazi não é desconhecido totalmente, pois se conhece alguns de seus familiares, sabe-se que ele era o pai de Skadi, a giganta/deusa do inverno. 


Tjazi raptando Iduna, enquanto Loki observa a cena. Ao fundo, pode-se ver Asgard. 
Com o rapto da deusa e suas maçãs, os deuses começaram a envelhecer, então foi convocada uma reunião para se apurar o paradeiro da deusa. Durante a sessão, constataram que a deusa foi vista a última vez em companhia de Loki. Os cínico deus foi convocado a se pronunciar, sendo ameaçado de ser torturado ou morto. Loki, acabou confessando sua atuação no crime, e prometeu que iria se redimir diante de todos, se deixassem ele partir e resgatar a deusa. Loki solicitou a deusa Freya (uma das Vanir, a deusa do amor, da beleza, da fertilidade, sensualidade e sexualidade) que lhe emprestasse seu manto de penas de falcão, com o qual ele poderia voar até Jotunheim, onde ficava o lar de Tjazi. Os deuses concordaram, e Loki partiu para resgatar Iduna. 


Loki usando o manto de penas de falcão da deusa Freya. Com isso ele pôde voar até Jotunheim, para ir resgatar a deusa Iduna. 
Chegando a casa do gigante, ele constatou que o mesmo se encontrava ausente. Snorri conta que o gigante havia ido pescar. Ao entrar na casa ele encontrou a deusa. Para tirá-la de lá, ele a transformou numa noz, então a levou consigo. Enquanto voava em fuga, Tjazi havia retornado para casa e viu que a deusa não estava mais ali, então ele se transformou novamente em águia. Enquanto voava, avistou um falcão ao longe, deduzindo que fosse o responsável pelo rapto da deusa, o gigante partiu atrás de Loki. 

Ambos voaram a toda velocidade em direção a Asgard. Os deuses avistaram as duas aves se aproximando, então reuniram uma pilha de lenha e a incendiaram de frente as muralhas de Asgard. Loki e Iduna conseguiram passar pela barreira de fogo, mas Tjazi acabou tendo as asas queimadas e isso o fez cair. No chão, os deuses avançaram sobre ele e o mataram diante dos portais de Asgard.

Aqui nesse mito podemos ver que o que Loki promete, ele cumpre. Independente de for uma promessa para algo ruim ou bom, ele mantém a sua palavra. Tal aspecto é visto em outras histórias na qual ele participa.

Loki e Skadi: 

Loki cumpriu com sua promessa trazendo a deusa sã e salvo. Contudo, com a morte de Tjazi, sua filha Skadi jurou se vingar dos deuses. Ela pegou o elmo, escudo e armas do falecido pai e partiu para Asgard, mas os deuses querendo evitar um novo conflito, decidiram fazer um trato com a giganta. Lhe propuseram que ela escolhesse um dos Aesir para que se torna-se seu marido. Contudo, foi lhe posta uma condição, ela não poderia ver o rosto de seu pretendente, apenas ver os seus pés. 


A deusa Skadi escolhendo o seu marido. Ela teria que escolher aquele que ela achasse que tivesse os pés mais belos. 
Depois e fazer a sua escolha, ela achou que havia escolhido o belo deus Balder (um dos filhos de Odin), mas na realidade escolhera o deus do mar, Njord, um dos Vanir, e considerado feio. Posteriormente os dois acabaram se casando. O segundo trato que foi proposto, era fazê-la sorrir, pois Skadi era conhecida por seu péssimo senso de humor, algo que combina com sua personalidade fria, de deusa do inverno. Loki foi escolhido com a missão de fazê-la sorrir. 

Os poemas não detalham como Loki fizera para que a fria deusa sorrisse, mas na versão de Snorri, ele nos detalha isso. 

"Loki, entretanto, atou a ponta de uma corda em seus testículos e, outro extremo, na barba de um bode, e a cada passo que davam, ambos urravam copiosamente. Logo, Loki se deixou cair no colo de Skadi, e ela riu. Dessa forma foi conseguida a reconciliação de Skadi com os Aesir". (STURLUSON, 1993, p. 138). 


Loki com uma corda amarrada em seus testículos, presa na barba de um bode. Tal cena fez a fria deusa Skadi começar a gargalhar. 
Os cabelos de Sif e os seis tesouros:

Essa história já foi contada no texto que escrevi sobre Odin e Thor, pois esta relacionada também com estes dois deuses. Logo, pelo fato de Loki ter um papel preponderante nesta trama, terei que contá-la novamente. O barbudo deus ruivo Thor, era casado com a bela e loura deusa Sif, conhecida por suas longas madeixas da cor de ouro. Loki certa vez decidiu pregar uma peça de mal gosto. Ele aproveitou que Sif estava dormindo, então foi lá e lhe cortou os cabelos. 


Loki observa Sif dormindo. Na ocasião ele aproveitou para lhe cortar os longos e belos cabelos.
Quando Thor chegou em casa, viu a sua esposa bastante triste, indagando quem poderia ter feito aquilo, Sif dissera que suspeitava que havia sido Loki o responsável por tal ato, pois o deus era conhecido por suas traquinagens. Thor foi procurar Loki e o ameaçou de morte, mas Loki pediu misericórdia e clemência aos outros deuses. Odin e Freyr (irmão de Freya) intercederam no caso, dizendo que Loki teria que encontrar uma solução para a afronta dele perante Sif e Thor, e ao mesmo tempo uma forma de se redimir aos demais deuses (no caso Odin e Frey). 


Loki procurou dois anões chamados Brokk e Eitri, conhecidos como filhos de Ívaldi. Os anões no primeiro momento se recusaram a aceitar o pedido de Loki, mas ele apostou sua vida naquilo, para que os dois fizessem três preciosos tesouros. Os anões disseram que fariam os tesouros que Loki pedira, mas também fariam seus próprios presentes para os deuses. Os dois irmãos aceitaram o trato e começaram a trabalhar, mas o ardiloso Loki se transformou num mosquito e começou a atrapalhar o trabalho de Brokk o qual era responsável por coordenar o fole que aquecia a forja, enquanto Eitri realizava o restante do trabalho. Loki não querendo que os anões o enganassem, fabricando tesouros ruins, começou a ameaçar o serviço de Brokk. A ideia de Loki era impedir que os presentes dos anões fossem melhores dos quais eles faziam para ele. 

Num primeiro momento eles criaram um javali com a crina de ouro, então continuaram a trabalhar enquanto Loki transformado em mosquito picava a mão, o pescoço e as pálpebras de Brokk. No final os anões criaram seis presentes, sendo que três foram dados por Loki e os outros três dados por eles dois.

Loki deu uma majestosa lança chamada Gungnir a qual dizia que jamais erraria o alvo, a presenteando a Odin. Para Thor ele deu os cabelos de ouro para sua esposa, e para o deus Freyr representante dos deuses Vanir, este recebera o navio Skidbladnir o qual dizia-se que nunca faltaria vento para aquele navio, desde que as velas fossem içadas, e além disso o navio poderia ser encolhido, a ponto de ser guardado no bolso ou em uma bolsa. 

Loki mostrando para Thor os novos cabelos de ouro de Sif. 
Por sua vez os anões deram a Odin um anel de ouro chamado Draupnir, o qual a cada nove noites, ele se multiplicava, criando anéis idênticos. Para Freyr eles deram o javali de crina dourada (Gullinbursti), o qual possuía o poder de correr pelos ares e sobre a água. Por fim, os anões deram para Thor um martelo de cabo curto, chamado Mjölnir o qual se tornou a principal arma e símbolo do deus dos trovões e raios. Os três deuses consideraram o martelo o mais precioso dos presentes.

Os anões Brokk e Eitri, Loki, o javali dourado Gullinbursti, o navio Skidbladnir, a lança Gungnir, e em destaque o martelo Mjölnir. 
Os deus consideraram o martelo o mais valioso dos tesouros, e isso pesou contra Loki, o qual aproveitou a distração dos três deuses com os seus presentes, para fugir na ocasião, salvando sua pele. 

O roubo do martelo:

Nesse mito que é contado no poema Thrymskivida (um dos poemas que compõe a Edda poética), Loki não foi o responsável pelo roubo do martelo ou causou algum problema aos deuses, mas pelo contrário, ele foi o responsável por solucionar parte desse grande problema. A história não nos fornece detalhes, mas de alguma forma, o gigante Thrymr conseguiu entrar em Asgard, e seguiu até o Palácio Bilskirnir, o lar de Thor e Sif. 

Lá ele conseguiu roubar o martelo Mjölnir, e quando Thor acordou se deparou com a falta do martelo. Ele revirou todo palácio e não encontrou sua preciosa arma, então foi recorrer a Loki que ele lhe pudesse ajudar neste caso. O astuto deus, acabou tendo um palpite, então os dois seguiram viagem até o Palácio Folksvang, lar de Freya, a fim de solicitar novamente seu manto de penas de falcão, com o qual poderia voar. 


A deusa Freya voando em sua carroça puxada por dois gatos. 
Assim, Loki voou até Jotunheim, onde chegou a casa de um rico gigante, chamado Thrymr. O gigante reconheceu Loki, e desconfiou que o mesmo viera a procura do martelo. Loki lhe perguntou se ele havia roubado o martelo de Thor, Thrymr confirmou que sim, e respondera que só iria devolver o martelo, se em troca os deuses lhe dessem Freya para se tornar sua esposa. 

Loki retornou até Thor e lhe contou tudo. O temperamental deus ruivo, retornou ao palácio de Freya e lhe exigiu que ela se vestisse de noiva e seguisse para Jotunheim. A deusa não gostando daquilo se revoltou com os dois, e disse que não iria aceitar tal acordo. Então uma reunião entre os deuses foi convocada para se tratar sobre este problemático assunto. O deus Heimedall propôs que Thor se disfarçasse de Freya e seguisse para retomar seu martelo. Ele teria que se vestir de noiva. O deus se negou a aceitar isso, seria demasiadamente humilhante, mas Loki com sua persuasão disse que era a melhor alternativa. A contra gosto o deus do trovão aceitou se vestir de noiva. Loki decidiu acompanhá-lo, pois conhecendo Thor, o qual eram impaciente em alguns casos, poderia por tudo a perder, então Loki se transformou numa mulher, o qual diria ser uma serva de Freya. 


Thor e Loki vestidos para o casamento. Loki se encontra ajeitando o véu de noiva. 
Assim, os dois deuses seguiram para a casa de Thrymr a qual estava lotada de gigantes. Lá Thor aproveitou para comer e beber a vontade, enquanto Loki arranjava desculpas para justificar os modos da deusa Freya, que estavam estranhando os convidados. Depois de um tempo, o gigante pediu que sua irmã trouxe-se o martelo a fim de consagrar o casamento. Thor pediu para segurar ao martelo. Com sua arma de volta a sua mão, ele rasgou o vestido e partiu para massacrar Thrymr e todos os gigantes e gigantas no local. 

Nessa história Loki auxilia os deuses, algo também visto na história sobre Útgard-Loki (o nome é parecido, mas ambos são seres diferentes), onde Thor, Loki e os dois servos do deus do trovão, os irmãos Tjálfi e Röskva, seguem até a cidade de Útgard, e lá o rei gigante debocha do deus do trovão, o desafiando a provar seu valor perante aos gigantes. Nessa história, Loki não tem a ajudar muito, mas se propõe a aceitar um dos desafios do rei gigante. No texto que escrevi sobre Thor, detalho melhor essa história, pois ele é o protagonista. 

Loki e os anões:

Tal história é contada no poema Regismál, o qual compõe a Edda poética. Na história, Odin, Loki e Honir (ou Vili, um dos irmãos de Odin) estavam viajando, e passavam ao longo de um rio, quando avistaram um salmão e uma lontra. Loki sem pensar duas vezes, pegou uma pedra e atirou na lontra, a acertando na cabeça e a matando. Honir pescou o salmão. Então os deuses acenderam uma fogueira e se preparam para assar o peixe, enquanto isso, Loki esfolava a lontra, para fazer um casaco. Depois da refeição eles voltaram a seguir viagem até o anoitecer, quando avistaram uma casa. Era o lar do anão Hreidmar. O anão deu as boas-vindas aos deuses e os convidou a passar a noite em sua casa. 

Durante o jantar, Hreidmar achou estranho aquele casaco que Loki usava, dizendo que era lhe familiar, até que ele percebeu o ocorrido. Aquela lontra não era uma lontra de verdade, mas sim o seu filho Otter, o qual podia se transformar em lontra. Hreidmar arrancou a pele de lontra de Loki e começou a chorar a perda do filho, então ele se irou com aquilo; ao mesmo tempo, Odin se voltou para Loki, o fulminando com o seu único olho. Loki se escondeu debaixo da mesa, envergonhado com o que fizera e apavorado diante do olhar do rei dos deuses. 

Hreidmar disse que queria justiça perante aquele assassinato. Sob seus gritos, seus outros dois filhos Fáfnir e Regnir, entraram armados na sala. Embora estivessem diante de deuses, os anões eram conhecidos por sua valentia. Hreidmar sugeriu duas formas de recompensar sua perda: ou Loki seria executado por seu crime, ou os deuses teriam que lhe pagar uma quantia em ouro (a ganância por ouro dos anões, lhe superava a valentia). Odin ponderou sobre o caso, e concordou com o segundo termo. Loki foi obrigado a arranjar o ouro. Hreidmar disse que queria ouro suficiente para encher toda a pele da lontra. 

Loki saiu no meio da noite fria de fim de inverno, a fim de encontrar algum ouro. A melhor chance, era seguir até Nidavellir, a terra dos anões. Contudo, após viajar o restante da noite, já de dia, Loki se encontrava com fome, e diante de um rio cheio de salmões, ele decidiu pescar. Escolheu o peixe mais gordo, e quando conseguiu pegá-lo, ouviu uma voz, e quando percebeu, era o salmão que falava com ele. 

O salmão na verdade era um anão chamado Andvari, o qual se transformava no peixe para poder assim melhor pescar. Ele começou a xingar e insultar Loki, mas este retrucou ameaçando matar o anão, mas o Andvari disse que era o mais poderoso dos anões e bastante rico. Ao ouvir aquilo, o gigante achou bastante interessante tal informação e obrigou o anão a lhe revelar seu tesouro. Para não ser morto, Andvari consentiu. 


Loki discutindo com Andvari. 
Na casa do anão que ficava debaixo da terra, Loki se deparou com uma caverna cheia de riquezas; eram baús e mais baús cheios de joias, ouro e prata. As pilhas de tesouros se erguiam até o teto, e isso atiçou a ganância do gigante. Enquanto os dois percorriam aquelas montanhas de ouro, joias e prata, Loki pegou um carrinho de mão e começou a colocar as melhores peças. Enquanto isso, Andvari o olhava indignado por aquilo, até que o deus notou o anão escondendo algo em seu bolso. Loki intrigado com aquilo perguntou o que era que ele estava escondendo, mas o anão se relutou a falar do que se tratava, então Loki voltou a ameaçá-lo.

O anão achando aquilo péssimo, decidiu revelar o que guardava. Era um belo e puro anel de ouro, do qual emanava uma misteriosa aura. Loki ao contemplar o pequeno anel ficou encantado por sua beleza e o tomou para si, mesmo que Andvari reclamasse e dissesse que coisas ruins viriam. O gigante debochou daquilo, perguntando o que de ruim aquele anel haveria de trazer para um anão que era tão rico? Andvari respondeu que Loki, era a coisa ruim que aconteceu com ele. Mas sem dar mais atenção ao anão, Loki seguiu para fora da casa dele empurrando o carrinho de mão abarrotado com ouro, e levando no bolso o precioso anel. 

Loki se despediu com o anão dizendo que a casa dele agora estava mais espaçosa. Andvari retrucou com insultos e pragas, mas o deus não lhe deu ouvidos e foi embora. Ao retornar a casa de Hreidmar, ele mostrou o ouro que conseguira, mas entregou o anel Andvarinaut, assim como Andvari o chamava, para Odin. Hreidmar obrigou Loki a cobrir a pela da lontra com ouro, mas no fim acabou faltando o pouco, então o anão disse que queria também o anel que ele havia trazido consigo. 


Hreidmar cobra de Odin que lhe entregasse o anel que Loki havia lhe dado as escondidas. 
Odin relutou em entregar o preciso anel, mas acabou o dando para o anão, o qual ficou encantado com a aquela preciosidade. Então ele falou que a compensação havia sido feita, e os deuses poderiam ir embora de sua casa e nunca mais voltarem. Ao saírem  os dois filhos de Hreidmar, começaram a discutir com o pai acerca da divisão do tesouro trazido por Loki. A maldição do anel havia se iniciado. Fáfnir acabou matando o pai e lhe roubou o anel e o tesouro. Regnir que era medroso fugiu do local. Fáfnir escondeu o tesouro numa caverna e posteriormente acabou se transformando num dragão. A história de Fáfnir voltaria a ser contada em outro poemas, quando o herói Sigurd ou Siegfried foi atrás do tesouro guardado por este dragão. 

Essa história do Regismál inspirou o compositor Richard Wagner a compor sua famosa ópera, O Anel dos Nibelungos, assim como também inspirou o escritor e professor de línguas, J.R.R. Tolkien a criar a história do Um Anel, que embasa o Hobbit e o Senhor dos Anéis

O roubo do colar:

Essa história é contada no poema Sottr Thattr, onde a bela deusa Freya era conhecida por ter um belo colar chamado Brisingamen, considerado o mais belo dos colares já feito. Tal joia rara foi forjada por quatro anões, Allfrigg, Berling, Dvalin e Grer. Mas para ter esse precioso colar, cada um dos anões pediu em troca, poder passar uma noite com a deusa. Freya aceitou o acordo, embora a contra-gosto, teve durante quatro noites, um caso com cada um dos anões. Achando que os demais deuses não saberiam disso, ela se sentiu segura, no entanto, Loki havia descoberto tal promíscuo acordo. 


A deusa Freya e seu colar Brisingamen. 
Posteriormente Loki foi contar ao rei dos deuses, Odin o fato que testemunhou. A adorável Freya, estava tendo um caso com vários anões, se vendendo como uma prostituta por causa de um colar. Odin, vez ou outra era amante de Freya, e aquilo o irritou ao saber que a deusa, estava agindo dessa forma, então Odin pediu para Loki rouba-se o colar da deusa, pois com o roubo do colar, isso causaria grande lamento em Freya. 

Durante a noite ele viajou até o palácio dourado da deusa, conhecido por sua monumental porta, que diziam ser impossível de se abrir se as chaves. Loki, pensou em se transformar num dragão ou num gigante para tentar arrombar as portas, mas aquilo causaria muito barulho, então após um tempo averiguando o portão e as possibilidades de se passar por suas brechas, decidiu se transformar numa formiga e entrar pela fechadura. 

Conseguindo passar pela fechadura, Loki voltou a sua forma normal e adentrou o grande palácio, até finalmente chegar ao quarto da deusa. A porta não estava trancada, então ele a abriu silenciosamente e entrou no grande e luxuoso quarto. Ao centro, a deusa dormia tranquilamente, tendo o corpo parcialmente coberto com uma pele de urso polar, embora usasse um fino vestido quase transparente, que lhe revelava os seios e parte das curvas de seu corpo. Loki por um momento ficou hipnotizado com aquela bela visão, então tratou de procurar o colar, mas acabou notando que o corpo seminu da deusa o distraiu, pois o colar Brisingamen estava em seu pescoço o tempo todo. 

Loki começou a pensar como iria conseguir tirar o colar sem fazer a deusa acordar. Então ele se transformou numa pulga, mas acabou cometendo o erro de logística, pois tinha que ter se transformando mais próximo dela. Então começou a saltar até a cama, e quando percebeu estava na perna direita da deusa, ele seguiu caminho pelo corpo dela, caindo no umbigo, posteriormente saiu deste, subiu pela barriga, passou entre os seios, até se ver diante do colar. 


A deusa Freya dormindo, enquanto Loki transformado em pulga se encontra no rosto dela.
Loki teria que fazer a deusa se virar, de forma que ele pudesse alcançar a sua nuca e desatar o colar. Para isso, ele picou um dos seios dela, o que fez a cochá-lo, e depois virou-se de lado. O deus saltou para fora da cama, voltou a forma normal, então desatou o colar, e fugiu dali. 


Loki consegue o colar, e olha uma última vez para Freya, antes de ir embora. 
O resto dessa história possui duas versões, como apontara Bernandez [2010], pois o Sottr Thattr, o qual foi escrito por volta do final do século XIII ou começo do XIV, seria uma reinterpretação de um mito mais antigo, possivelmente do século IX ou X. Onde tal mito foi contando nas histórias do rei norueguês, Olaf Tryggvason

Na versão mais antiga, Loki entrega o colar para Odin, e quando Freya acorda no dia seguinte, dá conta da falta de seu colar. Logo, ela acredita que Loki tenha feito isso, pois ele era conhecido por pregar travessuras. Então a deusa partiu para se encontrar com Odin, lhe indagando sobre sua suspeita, mas o rei dos deuses, retrucou dizendo que foi ele que ordenou o roubo do colar. Aquilo irritou a deusa profundamente. O deus disse que só devolveria o colar, se Freya provocasse uma guerra que perdurasse por vários anos.

A ideia de provocar uma guerra, para nós pode parecer incoerente ou um ato malvado, mas Odin estava associado a guerra, assim como também a morte. Quando os guerreiros morriam em batalha, eles esperavam que seus feitos fossem reconhecidos, para que assim, as valquírias conduzissem suas almas para Asgard, onde metade seguiria para Valhala, o palácio de Odin, e a outra metade seguiria para Folksvang, o palácio de Freya. Sem outra alternativa, a deusa concordou, e assim gerou a discórdia entre dois reis, Högni e Hedinn para que entrassem em guerra por longos anos. Feito isso, a deusa recuperou seu precioso colar. 

A outra versão, conta o seguinte: No lado de fora, achando-se contente por seu êxito e pela bela cena da deusa dormindo seminua, Loki já cantava vitória, mas para seu azar, o deus Heimedall, o guardião de Asgard, o qual dizem que tudo vê e tudo ouve, avistara o salafrário Loki entrando e deixando o palácio. Heimedall atiçou as rédeas de seu cavalo branco e partiu a galope atrás dele que fugia a pé, mas Loki astuto como era, se transformou em fogo, ameaçando queimar Heimedall e seu cavalo. 

Mas o guardião de Asgard, não era um deus tolo, e contra-atacou, se transformando numa nuvem de chuva, e fez chover sobre Loki, apagando as suas chamas. Em resposta o ardiloso gigante se transformou num urso polar, e Heimedall, respondeu da mesma forma, se transformando num urso polar ainda maior. Loki vendo que não teria chances contra a engenhosidade e determinação de Heimedall, decidiu fugir. 

Ele se transformou numa foca e jogou-se ao mar. Heimedall fez o mesmo, e continuou a persegui-lo pelo mar, até chegarem a uma ilha, onde os dois se digladiaram, e no fim, Loki se rendeu ante a força do deus guardião. Recuperado o colar, o deus partiu para devolvê-lo a Freya. 


Heimedall devolve o colar Brisingamen a Freya. As outras duas mulheres talvez fossem servas da deusa, ou as suas duas filhas, Hnoss e Gersimi. 
O rapto de Loki:

Tal história é contada no poema Tórsdrápa, onde Loki novamente traz problemas a deusa Freya e a Thor. Dessa vez, ele roubou o manto de penas de falcão de Freya, e saiu voando, até que depois de algum tempo, ele chegou a casa de um gigante gordo, chamado Geirröd. Tendo parado numa árvore ou na janela. Geirröd avistou o pássaro e o achou estranho e feio, então pediu para que um dos seus criados capturasse a ave. Loki tentou fugir, mas acabou sendo pego pelo pescoço. Ao ver mais perto, o gigante notou que não era um pássaro, mas um homem vestido com uma roupa de penas. Geirröd exigiu explicações, mas Loki ficou calado, então ele ordenou que o falso pássaro fosse trancafiado e deixado sem comida e sem água, até que decidi-se falar, ou acabaria morrendo de fome. 


O gigante Geirröd vendo seu escravo apontando para um falcão. 
Após três meses trancafiado, o gigante Geirröd ordenou que a gaiola fosse aberta, e se deparou com Loki, bastante pálido e esquálido. Ele disse que contaria tudo, e após revelar ser Loki, aquilo alegrou o gordo gigante, o qual lhe fez uma proposta. Geirröd odiava Thor pelo o que ele fazia aos gigantes, logo decidiu confrontá-lo. Para isso, ele propôs libertar Loki e enviá-lo de volta a Asgard levando a mensagem de que Thor havia sido desafiado, no entanto, não poderia usar seu martelo e nem seu cinto de força. Loki concordou em partir, mas o gigante disse que a capa da deusa Freya teria que ficar ali, como garantia que ele voltaria para buscá-la.

Após a longa viagem de volta, Loki foi se encontrar com o deus barbudo, e lhe contou o ocorrido. Thor disse que era forte o bastante para acabar com Geirröd sem precisar usar seu martelo e seu cinto. Assim os dois seguiram de volta a Jotunheim. Enquanto se aproximavam das terras do gigante, eles chegaram a casa da giganta Gridr, onde pediram comida. Contando para ela a missão deles, a giganta disse que eles não poderiam confiar em Geirröd, pois ele era mentiroso e traiçoeiro. Gridr ofereceu para Thor, um novo cinto de força, luvas de ferro e um porrete (algumas versões falam em um cajado). 

Agradecidos, os dois continuaram a seguir viagem, pois a casa do gigante ficava sobre uma colina, mas no caminho havia um rio. Thor disse que iria atravessá-lo a pé, então se meteu por entre as frias águas, sendo seguido por Loki. Na metade do caminho, o nível da água começou a se elevar rapidamente, achando estranho aquilo, os deuses olharam em volta e avistaram uma giganta que estava dentro do rio com a saia levantada. Aparentemente ela estaria urinando, daí o nível do rio ter aumentado. Loki com medo subiu nos ombros de Thor, dizendo que iriam se afogar.

Thor pegou seu porrete e o atirou certeiramente contra a cabeça da giganta, a matando. O sangue que começou a jorrar, tornando as águas vermelhas. Após saírem do rio, Thor pegou o porrete de volta, o retirando da testa da giganta, e os dois voltaram a seguir viagem, tendo que escalar até a casa no topo da colina. 

Ao chegarem, Geirröd os aguardava sentando diante de uma enorme mesa, abarrotada de alimentos e bebidas. Ele deu boas-vindas aos dois e os convidou a compartilhar da refeição. Após comerem, ele os enviou para um estábulo onde guardava as cabras. Isso tudo fazia parte do plano do gigante de ofender o deus do trovão. No estábulo havia apenas uma cama, a qual sobre esta no teto, se encontravam espinhos de ferro. Loki ao ver aquilo, notou de imediato que era uma armadilha, e disse que dormiria de pé. Thor foi conferir os espinhos e concluiu que estavam presos no teto, então decidiu dormir na cama. Pôs diferente de Loki, Thor era corajoso. Outra versão conta que não era uma cama, mas sim uma cadeira. Além disso, tal versão possui outras diferenças na história.

No meio da noite, o deus do trovão sentiu um solavanco e acordou; notou que Loki estava dormindo deitado no chão, e roncava. Contudo, percebeu que os espinhos pareciam está mais próximos. Ele achou que aquilo fosse impressão sua e voltou a dormir. Posteriormente, ele voltou a acordar com um novo solavanco na cama, e notou que os espinhos pareciam está ainda mais perto. Mas, deixou para lá e retornou ao sono. Numa terceira vez, ele ao acordar novamente achou aquilo estranho; os espinhos estavam bem próximos de seu rosto. Então ele notou que o chão parecia ter se afastado, como se ele tivesse subido; Thor se virou e olhou para baixo da cama e avistou duas gigantas, eram as duas filhas de Geirröd, chamadas Gjálp e Greip.

Thor sendo empurrado contra o teto, pelas duas filhas de Geirröd, enquanto Loki chega na ocasião. 
As duas estavam erguendo a cama para que a colidissem com os espinhos no teto, e assim matariam Thor. O deus reagiu imediatamente; pegou seu porrete e o pressionou contra o teto, forçando as gigantas, as quais não aguentaram a pressão e foram esmagadas pela cama. Com o barulho do impacto, Loki acordou abruptamente, se deparando com Thor de pé, e sua cama sobre os corpos ensaguentados de duas gigantas esmagadas. 

O deus furioso com aquele traiçoeiro golpe de Geirröd, pois esperava uma luta justa com ele, embora Gridr tivesse dito que Geirröd era desleal. Thor arrancou as cabeças das gigantas e seguiu até o salão, onde pôs as portas abaixo com um chute e encontrou novamente o gordo gigante sentado a sua mesa, se empanturrando de comida. Já era de manhã naquele momento, quando Thor jogou as cabeças sobre a mesa. Aquilo irou Geirröd ao ver suas filhas mortas, então ele correu até a lareira ou o braseiro, pegou um atiçador e retirou uma barra de ferro incandescente e a arremessou contra Thor, mas este se esquivou e a barra colidiu contra a parede. 

Thor lembrando que usava luvas de ferro, pegou a barra, então Geirröd correu para se esconder atrás de uma das colunas do salão. Mesmo assim, o deus do trovão arremessou com tamanha força a barra de ferro, que esta atravessou a coluna, a cabeça de Geirröd e até mesmo a parede logo atrás. Loki recuperou o manto de penas de falcão, e os dois deixaram o local.

Todavia, devo fazer a ressalva de que existe outro personagem chamado Geirrod, o qual trata-se de um rei humano. Tal personagem aparece no poema Grimnismál

A morte de Balder:

O enredo da morte do deus Balder, Baldr ou Baldur é mencionado nas eddas e em outros poemas, sendo uma história bem conhecida da mitologia escandinava, onde o popular deus que era filho de Odin e Frigga, foi assassinado por seu irmão Hodr ou Hod, por intermédio de Loki. Mas antes de chegarmos a esse clímax da história, vamos conhecer um pouco de Balder. 

"Outro filho de Ódinn é Baldr, e somente boas coisas podem ser contadas a seu respeito. Ele é o melhor de todos [os deuses] e a ele todos [os homens] oram. Sua face é tão formosa e iluminada que dele resplandece um brilho. Existe uma flor tão branca que é comparada às sobrancelhas de Baldr, e esta é a mais alva dentre todas as flores. Desse modo, podes compreender o quanto seu corpo é belo e seus cabelos brilhantes. Ele é o mais sábio dos deuses, o de mais doce eloquência e o mais piedoso. Uma de suas características é a de que sua opinião jamais pode ser alterada. Ele vive em um lugar chamado Breidablik, onde nada impuro pode ingressar". (STURLUSON, 1993, p. 76). 


Balder e a sua esposa, a deusa Nanna.
O início da tragédia se iniciou numa noite quando Balder teve pesadelos. No dia seguinte, assombrado com aqueles pesadelos ele se pôs a comunicar os deuses que previa algo de ruim. O curto poema Baldrs draumar ("Os sonhos de Balder") aborda a reação após este terríveis sonhos. 

Após o deus revelar isso para os Aesir, Odin montou em Sleipnir e cavalgou até Nilfheim, onde foi se encontrar com a deusa Hel, a fim de saber a localização de uma vidente, chamada Végtum. Após a deusa lhe indicar onde ele poderia encontrar a tal mulher, Odin se dirigiu até a localização. A morta não gostou de ser perturbada, então falou brevemente: disse que Hodr seria o responsável pela morte de Balder, e após isso acontecer, Odin teria que viajar para oeste, para encontrar uma giganta chamada Rind, e com ela ter um filho (a criança seria chamada Vali) e este menino iria vingar a morte de Balder. 

Odin retornou para Asgard e contou a sua esposa, Frigga o que ouviu da advinha. Frigga apavorada com o destino do filho, decidiu intervir, a fim de poupá-lo dessa eminente tragédia.

"Frigg tomou o juramento do fogo e da água, do ferro e de todos os outros metais, das pedras, da terra, das árvores, das doenças, dos animais selvagens, dos pássaros, dos venenos e das serpentes, de que não ofenderiam Baldr". (STURLUSON, 1993, p. 118).

Após esses juramentos, uma espécie de encantamento envolveu Baldr o tornando invulnerável. Mas, curiosamente, após Baldr se tornar invulnerável, os deuses passaram a se divertir com ele. O deus era convocado ao Ting, onde fica parado no centro do pátio, para que os demais deuses lhe arremessassem todo o tipo de coisas, assim como também o esbofeteavam, e o batiam com outros objetos. Mas devido ao encantamento de Frigga, Balder não sofria nenhum arranhão, nenhum tipo de ferimento e não sentia dor. 

Enquanto os deuses se divertiam fazendo aquilo, Loki que assistia tudo, começou a se sentir incomodado com aquilo. Sua personalidade vil, as vezes o levava a criar condições que causavam problemas para os demais, como forma de se divertir. Talvez nesse aspecto Loki possa ser considerado como um psicopata, embora o mitos atestem que ele não fosse louco. 

Assim, o traiçoeiro deus, se transformou numa mulher e foi conversar com Frigga. Ele indagou a deusa se ela não temia que seu filho pudesse se machucar durante aquela "brincadeira" que os demais deuses faziam com ele. Frigga respondeu que não tinha medo, pois recolheu o juramento de todos os seres e coisas do mundo; Loki curioso com aquilo, perguntou se ela havia feito tal juramento a tudo que havia no mundo. A deusa respondeu que não, pois havia uma pequena planta, um visgo, que vivia nos arredores de Valhala, a qual a deusa não lhe fez jurar, pois era uma planta jovem ainda, e aparentava ser pura. 

Loki deixou a deusa e partiu para encontrar tal planta. Então ele coletou um ramo do visgo e retornou para o Ting. Algumas versões falam que ele fez uma lança ou uma flecha, mas Snorri conta que ele usou o próprio ramo como projétil. De volta ao Ting, ele avistou o cego deus Hödr e foi falar com ele. Não se sabe porque o deus era cego. Ao se aproximar dele, Loki perguntou porque ele não estava participando da "brincadeira", a resposta foi óbvia: ele era cego, como iria localizar o alvo? Ele poderia ter usado a audição, mas isso não foi pensado na ocasião. Além disso, o deus completou, dizendo que não possuía nada para atirar em seu irmão. Loki lhe entregou o ramo de visgo, e disse que o guiaria e posicionaria seu braço para poder arremessar e atingir Balder. Hod concordou, e quando atirou o visgo, o mesmo acertou o peito de Baldr e o matou. 


A morte de Balder. Eckersberg.
"Enquanto Baldr permanecia caído, os Aesir ficaram mudos, e nenhum deles pôde mover um dedo para levantá-lo. Eles e entreolharam, e todos estavam cientes de quem fora o realizador daquele ato; mas ninguém poderia vingar-se, pois aquele santuário era por demais sagrado. Então, os Aesir tentaram falar; a princípio em prantos, de modo que nenhum conseguia demonstrar ao outro sua dor em palavras. Ódinn, entretanto, foi o mais afetado com essa tragédia, desde que compreendera melhor o que significava a perda e a morte de Baldr para os Aesir". (STURLUSON, 1993, p. 119). 

Após o choque, Frigga se pronunciou, perguntando qual dos Aesir se prestava a viajar até Helheim e ir perguntar a Hel se haveria uma forma de trazer Baldr de volta a vida. Como Baldr não morreu como um guerreiro, logo, sua alma não foi para Valhala ou Folksvang, mas para Helheim, local para onde iam os covardes, desleais, velhos, doentes, assassinados, mortos por desastres, acidentes, etc. O deus Hermód ou Hermodr, um dos filhos de Odin, aceitou o pedido. Odin lhe emprestou Sleipnir, e assim o deus cavalgou até as profundezas do mundo, para se encontrar com Hel. A viagem durou nove dias e nove noites. 


Hermod diante de Hel e Baldr. Gravura de um manuscrito islandês do século XVIII. 
Hermód indagou a deusa se haveria alguma forma de trazer seu irmão de volta a vida. Hel respondeu que havia apenas uma maneira de Baldr voltar a viver: todos os seres no mundo deveriam chorar por sua morte. 

Enquanto Hermód não retornava das profundezas de Nilfheim, os Aesir preparavam o grande navio de Balder, chamado Hringórni para ser seu túmulo, pois a tradição dizia que os nobres eram postos em seus navios com suas riquezas, e o mesmo era queimado. Contudo, o navio era tão grande e pesado, que os Aesir não conseguiram movê-lo como nos conta Snorri (o fato é intrigante, pois Thor era considerado o mais forte dos deuses, e depois dele vinha seu irmão Vídar, e ambos se encontravam na ocasião, e não conseguiram mover o navio?), então os Aesir foram chamar a giganta Hyrrokkin, a qual chegou montada num gigantesco lobo, e usava como rédeas, duas cobras unidas pelas bocas e caudas. 


A giganta Hyrrokkin se aproximando do navio de Baldr. 
A giganta desceu de seu lobo e se pôs a empurrar o grande navio. Enquanto fazia isso, Odin colocou quatro guerreiros para vigiar o grande animal, mas como este não ficava quieto, eles tiveram que matá-lo. A giganta empurrou com tamanha força o navio que dizem que isso gerou um terremoto. Thor considerou uma ofensa com a embarcação de seu irmão, e ameaçou de matá-la, mas os demais deuses o impediram. Devemos nos lembrar que Thor era conhecido por ser temperamental, "pavio curto". 

"O corpo de Baldr foi carregado até o barco e quando sua esposa, Nanna, filha de Nep, presenciou tal cena, seu coração partiu-se em amargura e ela morreu; foi, então, levada e posta ao fogo com ele. Thor estava em pé, consagrando [o fogo] com o martelo Mjölnir, ao que um anão chamado Litr correu à sua frente. Thor o alcançou, chutando-o ao fogo, e ele queimou até a morte". (STURLUSON, 1993, p. 120).

Thor chuta o anão Litr para dentro das chamas. 
Snorri não nos conta de onde veio esse anão chamado Litr, o qual Thor o matou. Mas, sabe-se que durante o funeral, vários outros convidados vieram se despedir de Balder, o que incluiu alguns gigantes de gelo e gigantes da montanha, pois embora os gigantes fossem inimigos dos deuses desde o início dos tempos, nem todos eram considerados como ameaças. 

Enquanto, Hermód não retornava com a resposta de Hel. Odin e Frigga seguiam com os ritos fúnebres de seu filho. Os dois monarcas eram seguidos por um cortejo de valquírias e dos dois corvos de Odin, Munin e Hugin. Freyr vinha atrás em sua carruagem conduzida pelo javali, Gullinbursti; Heimedall cavalgava seu cavalo chamado Gulltopp, e Freya seguia em sua carruagem puxada por seus dois gatos. 

Após quase vinte dias depois da morte de Baldr, Hérmod retornou de Nilfheim, trazendo o anel Draupnir enviado por Baldr para ser dado a Odin; Nanna enviara algumas telas de linho para Frigga, e um anel de ouro para Fulla (era uma das deusas serviçais de Frigga, e sua confidente). O deus contou que para que seu irmão e cunhada pudessem retornar de Helheim, todos os seres do mundo teria que chorar a morte do bondoso Balder. Assim, os Aesir enviaram mensageiros para todos os cantos do mundo, cobrando que todos e tudo chorassem por pelo adorável deus. 

Os mensageiros foram coletando os prantos de todos os seres, até que encontraram uma giganta chamada Tökk que vivia numa caverna. Após saber sobre o ocorrido, ela disse que não iria chorar pelo deus, e que ele ficasse em Helheim. 
"Tökk verterá lágrimas secas
pelo barco de Baldr,
pois nem vivo nem morto
vale a mim o filho do velho.
Que Hel preserve o que possui". 
(STURLUSON, 1993, p. 123).


Tökk responde ao mensageiro dos Aesir, que não iria chorar por Baldr. 
Snorri e outros poetas, sugeriram que a giganta na realidade fosse Loki disfarçado, pois ele temia que Baldr realmente pudesse voltar a vida, então teria assumido a forma da giganta e se negado a cumprir. Assim, a alma do deus continuou em Helheim, onde permaneceria até o início do Ragnarök. O corpo de Baldr, de Nanna, e os demais pertences foram queimados no grande navio. 

Nesse mito vimos que Loki agiu cruelmente, tanto usando o ingênuo Hödr para ser instrumento de seu traiçoeiro ato, e por a culpa nele, pois Odin seguindo a profecia, foi procurar a tal giganta Rind, com que teve um filho. Vili em um dia chegou a idade adulta, e foi matar o assassino de Baldr, logo, ele matou o pobre Hödr. Neste caso, Loki foi responsável indiretamente por matar dois deuses, e tendo sido ele a giganta Tökk, ele também evitou que Baldr e Nanna voltassem a vida. Para alguns dos leitores, ele realmente agiu de forma hedionda, mas a traição de Loki aos deuses só estava apenas começando. 

Lokasenna:

O poema Lokasenna o qual consiste em um dos poemas que compõe a Edda poética, é bastante peculiar, pois nesse poema, Loki durante uma reunião, insulta vários dos deuses, e de acordo com tal obra, ele no final foi sentenciado a ser preso e pagar por suas ofensas. Mas antes de chegarmos a esse desfecho, vamos conhecer alguns dos insultos que ele proclamou diante dos demais deuses. 

Na reunião se encontravam Odin e Frigga; Sif, Bragi e Iduna; Tyr, Njörd e Skadi; Freya, Freyr e Vídar. O anfitrião era Égir, também chamado Gymir Algumas fontes o mencionam como sendo um gigante e outras dizem que ele seria um deus do mar, contudo não há exatidão acerca da procedência desse homem. Ele possuía dois escravos, chamados Fimafeng e Éldir, os quais estavam auxiliando no banquete daquela reunião junto a outros escravos. Além disso, Freyr também levou dois escravos seus, Býggvir e Beyla. O poema também conta que além destes deuses havia outros Aesir, Vanir e até mesmo elfos. Na ocasião Thor não se encontrava pois estava em Jotunheim, matando gigantes. 

Enquanto todos comiam, bebiam e conversavam em meio aquele salão resplandecente em ouro, aquilo começou a incomodar Loki. O local estava em festa e alegrias, e os deuses e elfos parabenizavam Gymir e seus escravos pela boa hospedagem, aquilo acabou irritando Loki ao ponto dele assassinar Fimafeng. Aquilo irritou os Aesir, estes começaram a bater em seus escudos e a gritar contra Loki, o qual deixou o salão e foi se esconder numa floresta nos arredores. Os Aesir se acalmaram-se e voltaram a beber. 

Loki retornou algum tempo depois e encontrou Éldir na porta, então falou com ele, indagando como estava a situação ali. O escravo respondeu que os deuses e elfos continuavam a festejar, mas haviam ficado furiosos com a o ato de Loki, e o melhor não seria ele retornar mais ali. Contudo Loki decidiu retornar. Ao entrar de volta no salão, todos ficaram em silêncio, o observando. Ele de forma sonsa disse que estava com sede e queria hidromel. Os deuses não responderam, então Loki questionou porque estavam calados e sendo severos. Ele exigiu um lugar a mesa e uma bebida, Bragi foi o primeiro a falar (tradução minha):

"Nunca na festa  assento e lugar
te darão os Aesir
que em suas festas os Aesir  sabem muito bem
a quem eles recebem". 

Loki respondeu convocando o seu misterioso juramento feito com Odin, como mencionado nesse texto. A partir desse juramento que é apenas mencionado nesse poema, Odin acabou consentido, e pediu que seu filho Vídar se levanta-se e se senta-se em outro lugar, cedendo seu antigo lugar para Loki. Vídar ainda serviu hidromel a Loki o qual ergueu a caneca e saudou os deuses, e aproveitou para debochar de Bragi, dizendo que todos deveriam ser saudados, até mesmo aqueles que estavam no final do banco (nesse caso era Bragi). Entre os vikings, havia a tradição de que quando um senhor se encontrava numa longa mesa, os homens mais próximos dele, eram os que recebiam honrarias, e os que se sentavam afastado eram os insignificantes. 


Loki e Bragi discutem. 
Bragi retrucou dizendo que possuía cavalo, espada e um anel de ouro. Loki debochou daquilo e disse que entre os Aesir, Bragi era o mais covarde. O deus da poesia se irou e disse que se os dois estivessem lá fora, ele mostraria sua braveza. Loki continuou a comer e beber e retrucou dizendo que Bragi era bravo enquanto estava sentado, ou seja, que ele estava mentindo; além disso ele completa, dizendo que o deus era um "adorno de banco". Tal expressão era usada para se referir as mulheres, pois as mulheres sentadas a mesa não tinham direito de se intrometer em questões importantes, apenas estavam ali por fazer companhia. Ao mesmo tempo, era uma forma de dizer que o deus detinha uma posição inferior aos demais Aesir. 

Em defesa do marido, Iduna disse (tradução minha):


"Pela prole de filhos te rogo, ó Bragi,
e por toda a gente adotada,
que não digas tu na sala de Égir
coisa que a Loki ofenda". 

Iduna pedia que seu marido ignorasse as ofensas de Loki, pois na casa de Égir foi determinado que nenhuma discórdia e briga seria feita ali. A ideia de Loki era levar Bragi a perder o controle e romper com a paz do lugar, de forma que isso seria um insulto ao anfitrião e aos convidados. 

O ardiloso gigante respondeu, insultado dessa vez Iduna. Ele mandou ela calar a boca e insinuou que ela teria um amante, e que esse amante seria o assassino de seu irmão. O problema é que tais informações são apenas mencionadas neste poema, logo não sabemos quem seria esse irmão da deusa e o responsável por matá-lo, pois não se encontra menção a esse fato em nenhum outro escrito, talvez tenha se perdido no tempo.

Iduna disse que não iria rebater as ofensas. Nesse momento a deusa Gefiun (uma Vanir) disse porque de continuarem com aquelas ofensas. Ela indaga se Loki estaria delirando ou embriagado. Mas o deus respondeu insinuando que a deusa teria um caso com um homem que lhe presenteou com uma joia e que a carregava nos braços. O problema é que Gefiun ora era dita sendo casta, mantinha sua virgindade, logo, se ela estaria de caso com este tal homem, ela estaria mentindo aos demais deuses. Contudo, no poema Heimskringla diz que ela era casada com o rei humano Skjöldr. Sendo assim, ela estaria traindo o marido. 

Odin se enfureceu com aquela ofensa feita a Gefiun, e decidiu por um basta em toda aquela discussão, mas Loki respondeu mandando ele calar a boca e dizendo que Odin não sabia comandar os homens na batalha, nem ao menos o pior de todos eles. Além disso, ele dissera que Odin agia de forma injusta, dando a vitória para alguns. De fato, o deus fazia isso, ao ponto de consentir com a declamação dada por Loki, mas ele completa sua fala dizendo que ele viveu oito anos sob a terra, vivendo como uma vaca leiteira e parindo como uma mulher. Tal história é desconhecida, não sabemos o que teria forçado Loki a viver como uma mulher durante oito anos, embora saibamos que ele se transforma em mulheres como foi visto. 

Odin ofende Loki chamando ele de afeminado, de "mulherzinha" por se transformar em mulheres, mas o mesmo responde na mesma moeda, acusando Odin de praticar feitiçaria de mulheres. O seidr que era uma prática mágica, era associada as mulheres, nesse caso Loki diz que Odin seria também uma "mulherzinha" por realizar esta prática mágica. 

Frigga entra na conversa, pedindo que os dois parassem com aquilo, e que Loki se lembra-se do passado, das aventuras que teve ao lado de Odin, da amizade que eles tinham. Mas o insolente deus mandou ela calar a boca dizendo que ela foi amante de Ve e Vili. 


Loki acusa Frigga de adultério. 
No poema Saga ds Ynglingos, no capítulo 3, conta-se que certa vez Odin partiu em suas costumeiras viagens, mas passou tanto tempo longe, que os deuses pensaram que ele não iria voltar mais. Vé e Vili foram até Frigga e a pediram em casamento, de forma que assim oficializassem como novos soberanos. A deusa aceitou o casamento duplo, mas Odin retornou pouco tempo depois, e o matrimônio foi cancelado. Mas, a lógica do insulto a Frigga é que ela aceitou se casar com os dois. 

Frigga disse que seria incapaz de desonrar seu marido, pois era mãe do nobre Baldr. Loki aproveita e completa dizendo que o "nobre filho" se encontrava em Helheim e não iria voltar. Aqui é visível que essa história se passa após a morte de Baldr, como anteriormente eu contei aqui. 

Freya entra em defesa de Frigga, dizendo que ela conhecia o destino de todos inclusive o dele. Aqui Freya tenta dizer que Frigga era uma boa esposa e mãe, e alerta Loki acerca de seu futuro. O mesmo responde da seguinte forma (tradução minha):


"Cala-se, Freya, que eu te conheço muito bem;
tu também possui erros:
ninguém que está aqui entre os Aesir e elfos
que tu não tenha tomado como amante".

Loki insulta Freya a chamando de promíscua, de uma verdadeira vagabunda. A deusa se irrita e diz que ele está mentindo, que o que proferes são mentiras, são palavras baixas e vis. Que os deuses estavam todos furiosos com ele. Loki mandou ela calar a boca novamente, a chamando de bruxa cheia de maldades e a acusando de incesto com seu irmão Freyr. Snorri fala que entre os Vanir, o incesto era permitido, mas parece que os Aesir não concordavam com isso. 

Nesse momento, Njörd, o pai de Freya e Freyr entra na discussão. O mesmo acusa de Loki agir como uma mulher durante oito anos, acontecimento desconhecido para nós e sem informação em outras fontes. Loki responde dizendo que as filhas do gigante Hymir faziam da boca de Njörd um penico. Aqui talvez não fosse literalmente mais figurativamente, pois Njörd era o deus do mar, talvez aqui, o mar estivesse associado com a boca do deus, e as gigantas urinavam nele. 

Njörd disse que era um deus honrado, era pai de Freyr, o qual era bastante respeitável entre os Aesir e os Vanir, mas Loki retruca, dizendo que Freyr era fruto de incesto, assim como todos os Vanir eram incestuosos. 

Tyr entra na discussão, defendendo a honra de Freyr, mas Loki manda ele calar a boca, e zomba dele, lembrando do fato dele ter perdido a mão direita, a qual foi arrancada por Fenrir, um de seus filhos. Tyr diz que embora tenha perdido a mão, o lobo estava preso, logo, Loki, tinha de certa forma perdido seu filho. Freyr também lembra essa condição de que Fenrir ficaria preso até o dia do Ragnarök. 

Loki retruca que o tão valente e honrado Freyr foi incapaz de tomar uma esposa para si, ao ponto de mandar seu escravo Skírnir comprar a peso de ouro a gigante Gerd, filha de Gýmir. E ainda deu sua espada como dote, arma essa mágica. Tal história é contada no Skírnismál, e se diz que Freyr será morto pelo gigante de fogo Surt, por não ter em mãos sua espada mágica que poderia lhe salvar a vida. 

O escravo de Freyr, Býggvir se pronuncia, dizendo que se tivesse a força, fama e o palácio de Freyr, saiba que não tardaria a matar Loki por suas ofensas e moer seus ossos. Loki meio que rir daquilo, da ousadia daquele escravo defendendo o seu senhor, dizendo que Býggvir é um mero bajulador e servo do deus, não passa de nada. Býggvir replica falando que ele era o responsável pela fabricação da cerveja (nesse caso o processo de fermentação), bebida essa adorada por todos os deuses que estavam ali. Loki diz que o escravo era mesquinho e um covarde. Nesse momento Heimedall se pronunciou (tradução minha):

"Bêbado estás, perdesse o senso.
Por quê não te acalmas, Loki?
Muita bebida a um homem pode, 
faze-lo não parar de falar". 

A ideia aqui é que Loki estaria realmente embriagado, e logo estaria falando asneiras e tais ofensas devido a embriaguez. Ao mesmo tempo, Heimedall questiona se ele não estaria embriagado. Aqui notamos que o deus estaria sendo ingênuo a esse ponto, de não reconhecer o verdadeiro caráter de Loki?

Loki manda Heimedall calar a boca e diz que ele tinha uma péssima vida, pois pelo fato de ser o guardião de Asgard, o vigia dos deuses, passava o tempo todo vigiando a ponte arco-íris Bifrost. Skadi fala nesse momento dizendo que o descaramento dele logo teria fim, e a uma pedra os deuses o prenderiam por sua infâmia e ofensas. Ele responde, dizendo que quando Tjazi o pai de Skadi foi atacado, como vimos neste texto, ele fala que foi o primeiro a apunhalar o gigante. Aqui ele afronta Skadi, a lembrando da morte de seu pai, e ainda diz que foi o primeiro a atacá-lo. Skadi amaldiçoa ele. 

Loki responde dizendo com desdém, alegando que teve um caso com Skadi, falando que certa vez eles dividiram a mesma cama. Nesse momento, a deusa Sif se aproxima com uma taça de hidromel e oferece a Loki, o saudando. Ele pega a taça e bebeu o hidromel, então disse para que Sif saísse da frente dele, pois ela também guardava seus terríveis segredos. Era uma adúltera, havia traído Thor. Loki sugerira que teria tido um caso com Sif. 

A mulher de Býggvar, Beyla dissera que as montanhas estavam tremendo, que isso seria um sinal de que Thor estava chegando. Loki manda ela calar a boca, dizendo que seu marido havia cometido grandes males, que ela era medrosa e uma ninguém, uma insignificante. Nesse instante Thor chegou e entrou pela porta e falou (tradução minha):

"Cala, indecente, ou o terrível martelo,
Mjölnir, te fará calar-se: 
rodará de teu pescoço a cabeça dos ombros,
acabada estará tua vida". 

Loki indaga porque Thor estava tão irritado. E onde estaria toda aquela braveza, quando Fenrir matasse Odin. Aqui podemos sugerir que Thor teria sido incapaz de salvar seu pai e também de vingá-lo, pois será Vídar que matará o gigantesco lobo. Contudo, Thor não foi ajudar Odin, pois estaria enfrentado Jomurgand. 

O deus do trovão disse que iria atacar Loki e ninguém o impediria de fazer isso. Mas Loki responde lembrando o deus, da ocasião a viagem a Útgard, quando eles dois e os dois humanos Tjálfi e Röskva, os quais se tornaram criados de Thor, se alojaram no que parecia ser uma grande caverna ou gigantesco palácio, mas na realidade era a luva do gigante Skrýmir. Ele disse que Thor teve medo naquela noite, diante de estranhos e altos sons, que na realidade era o gigante roncando. 


"Cala, indecente, ou o terrível martelo, 
Mjölnir te fará calar-se:
Com a minha mão direita, a qual matei Hrúngnir,
quebrarei todos os seus ossos". 

Loki relembra novamente a viagem a Útgard, onde Thor não conseguiu abrir a bolsa de Skrýmir para pegar comida, e assim passou fome. Na ocasião com raiva, ele deu três marteladas na cabeça do gigante, tentando matá-lo, mas não conseguiu fazer isso. Embora que no final do mito, é dito que o gigante usou magia para enganar o deus. O que Loki quis dizer é que o poderoso Thor foi facilmente engando pelas mágicas de um gigante. Thor volta a ameaçá-lo, dizendo que irá matá-lo e mandar sua alma para Helheim. 

Loki cinicamente oferece uma taça de cerveja para Thor, dizendo que diante de todos ali, a única coisa que deixaria era o fato que aquela seria a última festa feita na casa de Égir, pois tudo ali seria consumido pelo fogo. E ele diz também que a bunda de Thor queimaria. Após dizer isso, ele saiu as pressas do salão e fugiu. Os deuses foram atrás dele. 


Loki atira fogo contra Thor e os demais deuses e elfos, enquanto aproveita para fugir. 
A punição de Loki:

A punição ou prisão de Loki possui duas versões mais conhecidas, nas quais dizem respeito de como ele chegou a tal condição. Contudo, no aspecto de sua captura e sentença, ambas são praticamente iguais, apenas difere-se o momento que ela ocorre. 

Na Edda poética, no poema Lokasenna, tratado anteriormente aqui, em um breve parágrafo a prisão de Loki é referida. O texto que desponho está em espanhol, mas traduzirei para o português, por se tratar de uma passagem curta.

"Depois disto, Loki se escondeu na cascata Fránag sob a forma de um salmão. Ali os Aesir o encurralaram. O amarraram com as tripas de seu filho Nari; o seu outro filho Narfi o transformaram em um lobo. Skadi capturou uma cobra venenosa e a colocou sobre o rosto de Loki e sobre ele gotejava veneno. Sigyn, a esposa de Loki, estava ali sustentando uma jarra abaixo do veneno, porém quando a jarra se enchia ela levava o veneno, e então o veneno gotejava sobre Loki. Ele se remexia com tanta força que a terra toda tremia. E és isto que agora chamamos de terremoto". (2004, p. 129). 

Na Edda em prosa, Snorri detalhou melhor essa captura e prisão de Loki. No seu livro, Loki foi perseguido pelos deuses após estes suspeitarem que ele foi o responsável pela morte de Balder. Neste ponto, Snorri ignora os acontecimentos ocorridos no poema Lokasenna, pois como foi visto, a história do Lokasenna se passa após a morte de Balder.

De acordo com o relato de Snorri, após os deuses desconfiarem de Loki, este fugiu para uma montanha onde construiu uma casa com quatro portas, uma para cada ponto cardeal, de forma que se os deuses se aproximassem, ele poderia avistá-los. Além disso, durante o dia, Loki se transformava em um salmão e ficava nadando na Cascata Fránag. De acordo com o relato de Snorri, os deuses demoraram algum tempo para encontrar Loki, e nesse intervalo ele criou uma rede pesca, porém, Odin sentado em seu trono Hlidskjálf, do qual se dizia que dele se podia enxergar todo o mundo, Odin localizou Loki em sua pequena cabana com quatro portas. 

Loki ouvindo o barulho da aproximação dos Aesir, jogou a rede no fogo e saltou no rio, voltando a se transformar em salmão. O primeiro a chegar foi o deus Kvasir, considerado o mais sábio dos deuses. Ele encontrou as cinzas da rede de pesca, e mostrou aos demais deuses (Snorri não especifica quem estavam lá, mas sabemos que além de Kvasir, estavam Odin, Thor e Skadi), então eles confeccionaram uma rede de pesca e foram atrás de Loki no rio. 


Loki transformado em um salmão. 
Thor segurava uma das pontas da rede, enquanto os demais Aesir seguravam a outra ponta. Ao descê-la na água, Loki saltou e fugiu de ser pego, indo se esconder entre duas pedras. Os Aesir jogaram a rede novamente, mas Loki conseguiu fugir uma segunda vez, nadando em direção ao mar, contudo os deuses o avistaram, e seguiram até a desembocadura do rio no mar, enquanto Thor permaneceu no rio com a rede. Loki decidiu ir contra a correnteza e retornar a cascata, nadou em direção a Thor e saltou sobre a rede, mas o deus conseguiu pegá-lo. Loki tentou se soltar, mas as mãos poderosas de Thor o mantiveram preso. 

Os deuses o jogaram dentro de uma cova e colocaram três pedras, nos cantos dela, de onde cavaram no lugar. Os filhos de Loki, Vali e Nari se encontravam no local. Nari foi transformado em lobo, e este matou Vali, do qual os deuses pegaram suas tripas e amarraram Loki as três pedras. Uma foi colocada sob seu ombro, a segunda sob seus rins e a terceira sob seus calcanhares. Com as pedras presas ao solo, as tripas de Nari se tornaram correntes de ferro. 

A deusa Skadi se aproximou trazendo consigo uma serpente venenosa e a colocou sobre ele, de forma que o veneno gotejasse sobra a sua face. Sigyn com pena do marido, sentou-se ao seu lado, e passou a segurar uma jarra a qual coletava o veneno, de forma a amenizar o tormento de seu marido. Mas quando a jarra se enchia, Sigyn se levantava e ia derramar o veneno, mas neste intervalo de tempo, o veneno queimava o rosto de Loki, lhe causando grande dor, e este se remexia de tal forma que fazia a terra tremer. 


Sigyn segurando uma tigela para coletar o veneno, enquanto Loki se encontra preso. 
Tanto na Edda poética, especificamente mencionado no Voluspá e na Edda em prosa, dizem que Loki ficaria preso até o dia do Ragnarök. Contudo, há mais um detalhe a ser mencionado, especialmente em referência a versão contada por Snorri.

Loki e o Ragnarök:

Finalmente chegaremos ao Ragnarök ("Crepúsculo dos Deuses"), o qual marca a batalha final entre deuses, elfos, homens, anões, elfos escuros e gigantes. O mundo será destruído, mas das cinzas uma nova era se iniciará, pois o Ragnarök não é o fim derradeiro, mas um momento de mudanças profundas. Contudo, o meu foco será dado a Loki, pois falar dos acontecimentos do Ragnarök demandaria um texto exclusivo para isso. Talvez futuramente eu possa retornar para tratar deste assunto.

"Primeiro, chegará o inverno chamado Fimbulvetr. Neve cairá de todas as direções, haverá fortes geadas e ventos cortantes e o sol não terá mais valia. Três invernos como este haverá, sem que haja verões entre eles. Mas estes três outros invernos virão acompanhados de grandes guerras, ao redor de todo o mundo. Irmãos matarão irmãos por avareza e ninguém poupará pai ou filho de assassínio ou incesto". (STURLUSON, 1993, p. 126). 

Os lobos Skoll e Hati, ambos filhos de Fenrir, irão correr pelo céu atrás respectivamente da deusa Sól e do deus Mani. Ambos os deuses e seus cavalos serão devorados pelos dois lobos. O dia se tornará noite e as estrelas ficaram ofuscadas. Fenrir se libertará das suas correntes e sangrará o céu e a terra. Jormungand cuspirá veneno sobre o mar e a terra. Terremotos e inundações assolaram o mundo, quando a gigantesca serpente das profundezas surgir. 

O céu voltará a se iluminar com a chegada dos gigantes de fogo, liderados por Surt, o qual marchará com seu flamejante exército até o campo Vígrid, onde os gigantes da montanha e os gigantes de gelo, estarão lá, sob a liderança de Loki. A deusa Hel sairá das profundezas de Nilfheim seguida por um exército de mortos, e se unirá ao seu pai em Vígrid. 

"Quando estes fatos se sucederem, Heimedall se levantará e soprará com magnificência a trombeta Gjall, despertando todos os deuses, que entrarão em assembleia. Então, Ódinn cavalgará até a Fonte de Mimir e pedirá a Mimir conselhos para si e suas hostes. O freixo Yggdrasil estremecerá e nada nos Céus e na Terra estará livre do terror". (STURLUSON, 1993, p. 128). 


Heimedall tocando a trompa Gjallarhorn. Lorenz Frolich, 1895. 
Odin liderará seu exército de einherjars e valquírias. O mesmo confrontará o grande lobo Fenrir. Por sua vez Thor combaterá o gigantesco Jormungand, enquanto Freyr estará lutando contra o flamejante Surt. No caso de Loki, esse será desafiado pelo próprio Heimedall. 


A Batalha dos Deuses condenados. Friedreich Wilhelm Heine, 1882. 
Os relatos não nos fornecem detalhes sobre as lutas, mas sabe-se que Loki e Heimedall travarão uma difícil batalha até que ambos acabarão morrendo devido aos ferimentos. Heimedall que aparentemente nunca deu muita confiança a Loki, partiu para confrontá-lo, após testemunhar que estaria certo acerca da confiança sobre ele, afinal, Loki retornou liderando os gigantes. Dessa forma a vida do ardiloso e trapaceiro deus ou gigante Loki, chega ao fim. 

Loki o trickster

Em 1933 o linguista e mitólogo holandês, Jan de Vries (1890-1964) propôs que Loki não seria nem um deus e nem um gigante, mas sim um trickster. De acordo com suas pesquisas, Vries chegou a conclusão que as características de Loki se assemelhavam muito aos trickster, tanto vistos em mitologias europeias, como também visto em mitologias ameríndias da América do Norte, de onde surgiu o conceito para esse ser. 

O trickster é uma criatura que possui o poder de se transformar, podendo assumir várias formas; geralmente formas de animais. O trickster ele pode ter a sua forma original sendo animalesca ou humana. Entre os indígenas norte-americanos, os trickster são descritos geralmente tendo a aparência de raposas. Mas dependendo a localização geográfica e do povo, tal ser pode ser parecer com um castor, corvo, aranha, coelho, etc. 


O trickster, Reynard the Fox. Segundo descrito em um livro infantil de 1869. Michel Rodange.
Além de possuir o poder de se transformar, os trickster também são descritos como seres sagazes, as vezes mentirosos, enganadores, travessos; as vezes eles são bons, e agem de forma a ajudar as pessoas. Possuem também outros tipos de poderes, como voar, desaparecer, transformar objetos. Em geral, eles vencem seus inimigos ou perseguidores, através da astúcia e não do uso da força. As vezes são enigmáticos e imorais. 

"El caso es que el trickster es una figura sobrenatural pero al mismo tiempo no es un dios propriamente dicho". (BERNADEZ, 2010, p. 247).

Os trickster também são conhecidos por serem inventores. No caso de Loki ele inventou a rede de pesca. Mas, tal fator inventivo está associado a sua sagacidade ou sabedoria; eles podem usar sua esperteza para ajudar ou para causar problemas. Isso fica claro quando vemos os mitos onde Loki aparece; ora ele ajuda os deuses, ora ele lhe traz problemas. Outro ponto que é curioso sobre tais seres, é que as vezes eles são do sexo masculino, mas tendem a se transformar em mulheres ou criaturas femininas, nesse ponto, o trickster apresenta uma dualidade, uma ambiguidade de gênero, chegando ao ponto de alguns acharem que tal ser seria hermafrodita. 

Bernandez [ ] nos fala que algumas histórias sobre trickster possuem um viés puramente cômico e irônico, onde o mesmo prega peças ou no fim, após suas travessuras, acaba sendo capturado e punido por seus atos imorais. Mas, uma outra característica que os trickster possuem é o fato de poderem regenerar parte dos corpo e até mesmo reviverem. Ambas características não são vistas em Loki, o qual durante o Ragnarök morrerá de fato. 

"Propongo ver a Loki de esta manera: un trickster formaba parte de las creencias religiosas más antiguas de los pueblos germánicos y escandinavos. Quizá en el norte de Europa ya existía un personaje parecido antes de que empezaran a formarse los pueblos germánicos, y Loki sería fruto de la fusión de ambos componentes". (BERNADEZ, 2010, p. 250).

Recapitulando, Loki pode se transformar em mulher, assume formas de animais; é medroso e covarde, tendo ao seu favor a esperteza de enganar os outros, embora que as vezes acabe sendo enganado; ele possui uma demasiada curiosidade, senso de humor irônico; é mentiroso em alguns casos; é travesso; é cruel; é um solucionador de problemas, mas também pode ser o causador destes; as vezes age como amigo, as vezes age por inveja e cobiça. A partir de tudo isso, fica claro que de fato podemos considerar Loki um trickster, e não um deus, mas sim um gigante, devido aos seus pais. 

Para Bernadez [2010] e outros mitólogos como Vries, Davidson, Dumézil, etc., Loki originalmente seria uma divindade travessa, mas não necessariamente maléfica. Teria sido os cristãos que passaram a associar as travessuras de Loki com as atividades de Satã e seus demônios, e isso acabou tornando Loki um ser mais diabólico. De fato, nas representações dele nas histórias em quadrinhos de Thor, Loki é um vilão de fato. Talvez não seja tão cruel como outros vilões, mas possui um lado mais maléfico do que irônico, embora ele em algumas histórias possui um humor malicioso. 

Pelo fato de não se ter encontrado vestígios que apontem para um culto a Loki, isso reforça a ideia dele não ter sido um deus. Além disso, alguns mitólogos sugerem que os vikings as vezes consideravam que quando estavam com azar ou má sorte, isso seria causado por alguma ofensa aos deuses, ou eles estariam sendo influenciados por uma maldição ou por Loki. As vezes quando algo saía errado, dizia-se que Loki estava por trás daquilo, que havia trazido problemas. Não obstante, há também a questão que nem todos os deuses nórdicos eram cultuados, alguns eram apenas mitológicos, pois mito e religião não são a mesma coisa.  

NOTA: Nas histórias em quadrinhos da Marvel Comics, Loki é retratado como irmão adotivo de Thor, e considerado por alguns como um deus de fato. As vezes chamado o deus das travessuras, da trapaça, da mentira, etc. 
NOTA 2: O trickster está ligado ao arquétipo do malandro, como aponta alguns psiquiatras. Nesse caso, o malandro é uma pessoa que utiliza sua desenvoltura, astúcia e lábia para conseguir o que quer, seja de forma honesta ou desonesta. E ao mesmo tempo o malandro pode ser engraçado, irônico, sarcástico e malicioso, podendo ajudar, como também podendo causar problemas. 
NOTA 3: O vilão Coringa nas histórias do Batman, possui o arquétipo de um trickster. Embora o Coringa não possua poderes, seu comportamento, beira entre a ironia, malícia, sarcasmo, indo para a travessura, crueldade e psicose.

Referências Bibliográficas: 
EDDA Mayor. Tradução e notas de Luis Lerate. Madrid, Alianza Editorial, S.A, 1984.
STURLUSON, Snorri. Edda em prosa. Tradução, apresentação e notas de Marcelo Magalhães Lima. Rio de Janeiro, Numen, 1993. 
DAVIDSON, Hilda. O mundo dos deusesEscandinávia. Lisboa, Editorial Verbo, 1987, p. 109-114. 
CANDIDO, Maria Regina (org.). Mitologia germano-escandinava: do caos ao apocalipse. Rio de Janeiro, NEA/UERJ, 2007.
NIEDNER, Heinrich. Mitología Nórdica. Traducción de Gloria Peradejordi. Barcelona, Olimpo, 1997. 
LINDOW, John. Norse Mythology: A guide to the gods, heroes, rituals, and beliefs. New York, Oxford University Press, 2001.
FRANCHINI, A. S; SEGANFREDO, Carmen. As melhores histórias da mitologia nórdica. 5ª ed, Porto Alegre, Artes e Ofícios, 2006.
BERNÁDEZ, Enrique. Loki el tramposo. Los mitos germânicos. Madrid: Alianza, 2010, p. 243-252.
BERNÁRDEZ, Enrique. De Frigga/Nuestra señora Freya. Los mitos germânicos. Madrid, Alianza, 2010, p. 159-178.
DUMÉZIL, Geroges. Balderus e Hotherus. Do mito ao romance. São Paulo, Martins Fontes, 1992, p. 201-221.

Links relacionados: 
Thor: uma análise dos mitos e crenças sobre o deus nórdico do trovão
Odin: uma análise dos mitos e crenças do rei dos deuses escandinavos
Vida após a morte na mitologia escandinava
A Saga Viking

14 comentários:

Amanda M. disse...

Sensacional! Deve ter dado um trabalhão juntar todas as histórias e resumi-las. Parabéns e obrigada por publicar isso!

Leandro Raliv disse...

Obrigado. Realmente foi trabalhoso fazer os textos de Odin, Thor e Loki. Embora escolhi as histórias mais conhecidas, pois existem várias outras, das quais algumas até mesmo desconheço.

Nevermore disse...

Cara, vc está de parabéns, ótimo trabalho, realmente muito bom, com muito conteúdo.

Lara Sofia disse...

Olha, eu queria agradecer. Você contou tudo de uma forma simples de compreender, colocou imagens, juntou todas essas histórias sensacionais. Meus parabéns, de verdade. E valeu, obrigada mesmo.

Unknown disse...

Maravilhoso, até agora a melhor fonte, deu bastante detalhes, coletou informações, está de parabéns !

Ligia Raido disse...

Inevitável não perceber o verniz cristão em várias passagens dos Eddas.
Creio que Loki seja um Deus no mínimo incompreendido, rsrs.
Parabéns pela coletânea de informações.

Leandro Vilar disse...

Lídia, as influências cristãs são mais marcantes na Edda em Prosa, pois Snorri Sturlusson era cristão. Ainda assim, não podemos dizer que tudo que ele escreveu sofreu alteração mediante a suas crenças, Snorri procurou coletar relatos antigos e histórias orais para redigir sua obra.

Se você se interessa por tais estudos, acesse o blog do NEVE (Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos) o único do Brasil. Há bastante material mitológico e histórico por lá.

Ligia Raido disse...

Olá Leandro, uma pequena correção, meu nome é Ligia. Com G e sem acento.

Bem, eu não disse que tudo o que ele escreveu sofreu alteração, disse que o verniz cristão se faz presente. Nota-se isso claramente na passagem do Brisingamem, colar de Freyja, quando a mesma é chamada de prostituta. Enfim...

O NEVE é excelente. Já acompanho tem algum tempo. Aliás o estudo dos mitos nórdicos é fascinante.

Abraços!

Leandro Vilar disse...

Desculpe Ligia por ter errado seu nome. E eu também não quis dizer que você disse que tudo parecia ser influência cristã, acho que me expressei errado nesse ponto.

Quanto ao mito do roubo do colar da Freyja a qual você disse que ela é comparada a uma prostituta, não é o único mito que sugere isso. No poema do Lokasenna, Loki acusa Freyja de ter fornicado com vários deuses, elfos e homens. Nesse poema, ele também insinua que ele próprio teria um caso com Sif, a esposa de Thor.

De fato, se você procurar em outras mitologias, vai perceber que as deusas do amor, as vezes são chamadas de fornicadoras, como no caso de Afrodite para os gregos e de Inanna para os sumérios. Ambas também padecem desse problema, enquanto que deuses como Zeus, conhecido por vários casos amorosos, não é difamado.

Isso também é reflexo das culturas machistas de antigamente: o homem pode "pular a cerca", mas a mulher não.

Quanto ao NEVE, conheço os fundadores e já fui aluno do professor Johnni Langer em três ocasiões.

Ligia Raido disse...

Olá Leandro, sem problemas.
Sim as Deusas do Amor padecem deste problema. Como você disso reflexo das culturas machistas, infelizmente ainda presentes nos dias atuais.Cito novamente o cristianismo como fator importante para esse comportamento.

Abraços.

muryllo motta disse...

Nossa história fascinante de Loki , não estudo nada mais curto mitologias como essa tive curiosidade de saber realmente quem era Loki

Amanda Rosa de Bittencourt disse...

Obrigada pelo seu estudo incrível! Muito me elucidou as características de Loki. Gratidão!

Leandro Vilar disse...

Obrigado, Amanda. Inclusive estou para atualizar o texto sobre Loki, Odin e Thor. Consegui material novo em minhas pesquisas.

Steph ! disse...

Meus parabéns pelo post, cheio de conteúdo sem se tornar cansativo. Iluminou muitos fatos que eu tinha interesse. Novamente, Parabéns!