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Leandro Vilar

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Al-Andalus: da conquista árabe ao fim do Califado de Córdova (VIII-XI)

A proposta desse trabalho é contar um pouco da história da invasão, conquista e colonização árabe da Península Ibérica, percorrendo desde a chegada dos primeiros exércitos árabes no século VIII até a formação do Emirado de Córdova e posteriormente o Califado de Córdova, o qual chegou ao fim nos idos do século XI. Sendo que durante o governo do califado, a cultura hispano-moura viveu seu apogeu no âmbito político, social, econômico e cultural. 

Fato este que deixou um profundo legado cultural na sociedade hispano-lusa, onde alguns destes aspectos serão abordados ao longo do texto, pois embora o recorte para esse estudo abarcará um pouco mais de dois séculos, a ocupação moura se estendeu até o século XV, quando o último bastião mouro rendeu-se aos Reis Católicos em 1492, em Granada

Antecedentes:

A Península Ibérica, chamada de Ibéria pelos gregos antigos e de Hispânia pelos romanos, por milênios foi uma região bastante abatida, tendo sido um dos pontos de confluência entre povos e culturas na Europa: celtas, gregos, cartagineses, romanos, visigodos, fenícios, vândalos, bizantinos, francos, árabes, berberes, eslavos, vikings, etc., foram alguns dos povos que ali passaram. Todavia, após a queda do Império Romano em 476, a Hispânia ainda continuou a manter os costumes romanos, como também a língua latina, mas passou a ser controlada pelas tribos germânicas dos Visigodos

Guerreiros visigodos.
Os Visigodos surgiram da cisão interna que houve no povo Godo, originando os visigodos e ostrogodos. No caso dos primeiros, estes migraram para a península Ibérica. Além dos visigodos outros povos de origem germana também migraram e se fixaram naquelas terras:

"As diferentes tribos que desceram os Pirineus alastraram a Península, fixando-se os Vândalos e Suevos na Galiza e na Castela Velha; os Álanos na Lusitânia e na Catalunha, que tomou o nome (Goth-alani, Cataulani); os Silingos na Andaluzia". (OLIVEIRA, , p. 68).

Ainda no século V, em 415 os visigodos proclamaram um rei chamado Wália, o qual tomou para si parte das terras da península, tirando dos romanos a autoridade sobre as províncias da Hispânia e da Lusitânia, embora o rei Wália procurou firmar um pacto com o imperador Honório, a fim de manter uma relação de paz, onde os visigodos ajudariam os romanos e vice-versa. A partir desse momento até o século VIII, os visigodos controlariam grande parte dos territórios da Ibéria. 

O Reino dos Visigodos por volta do ano 500.
Quando os árabes chegaram nos idos do século VIII, a população já estava bastante miscigenada e cristianizada. No século VI tivemos um processo massivo de cristianização das tribos visigodas, algo visto na vida e obra de São Leandro de Sevilha (c. 534-600) e de seu irmão São Isidoro de Sevilha (c. 560-636). Logo, no século VII a população visigótica estava quase totalmente cristianizada e já adaptada aos costumes locais. 

Quando os árabes chegaram, eles se depararam com uma península fragmentada politicamente, resultado da ruptura do Reino Visigótico em Estados menores e cidades rebeldes; com exércitos enfraquecidos, devido aos longos anos de conflitos internos; uma população predominantemente de cristãos, embora houvesse muitos judeus nas cidades. Um comércio enfraquecido, embora a agricultura e a pecuária fosse a principal fonte de renda. Por outro lado, os reis visigodos procuraram manter algumas das estruturas administrativas dos romanos e até algumas das suas leis, como foi o caso da reelaboração da legislação hispano-romana e visigótica, no que resultou na publicação do Código Visigótico (659). Tal menção é interessante pois rompe com a ideia de que quando os árabes chegaram, se depararam com um bando de bárbaros e com uma cultura atrasada.

"O código visigótico não contém as leis de um povo conquistador e bárbaro: é o corpo de leis gerais do reino, comuns aos vencedores e vencidos, hispano-romanos e godos. É um sistema: promulga-se num dia fixo e de modo adequado a uma nação estabelecida: ao passo que as leis dos francos e dos burguinhões, são anteriores ao seu estabelecimento em território romano. Isto prova que uma influência especial dirigiu a redação dessas leis: foi o clero". (OLIVEIRA, , p. 77-78). 

Por esse viés podemos delinear que diferente do que se apresentava antigamente na história espanhola, o Reino Visigótico não foi um estado de decadência, embora não tenha vivenciado o mesmo esplendor como visto sob o governo romano e posteriormente árabe. 

A invasão árabe:

Nos idos do século VIII, fazia mais de setenta anos desde a morte do Profeta Mohammed, e daquela época em diante os seus sucessores diretos, chamados de califas, iniciaram a expansão territorial de um "império da fé islâmica". Passado essas mais de sete décadas o então Califado Omíada com capital em Damasco, na Síria, era dono de um império que se estendia do Afeganistão ao Marrocos, do Uzbequistão ao Iêmen, e agora estava as vésperas de ganhar novos territórios. 


No ano de 710 o Magreb (atual Marrocos) foi conquistado pelos exércitos árabes, embora ainda demoraria algumas décadas para que os Berberes (povos falantes da língua berberes que habitam o Norte da África, principalmente o Marrocos e a Argélia) fossem totalmente subjugados, no entanto, com exceção do Egito que já estava a mais tempo sob o domínio da Dinastia Omíada, as demais regiões africanas por hora estavam sob controle, então ainda naquele ano o ex-escravo berbere de nome Tarik ibn Ziyad (c. 670-720) com o consentimento do general Musa, empreendeu uma campanha não de invasão mas de socorro ao sul da Hispânia. 


Tarik  ibn Zayid segundo imaginado pelo pintor Theodor Hoseman (1807-1875).
"No ano 710, o chefe berbere Tarif, com a conivência de um dignitário visigodo rebelde de nome Julian, conduziu uma força invasora através do Estreito até Tarifa, que conserva ainda o seu nome. Encorajado por este êxito, Tariq, um antigo escravo berbere liberto de Musa ibn Nusair, governador árabe no Noroeste da África, preparou uma expedição ainda menor, e na Primavera de 711 - com auxílio da frota de Julian - desembarcou cerca de 7000 homens em Gilbratar (Jabal Tariq)". (LEWIS, 1996, p. 136-137).

No ano de 710 o então rei visigodo Vitiza faleceu, sucedendo-se uma disputa pelo trono entre aqueles que apoiavam o príncipe Áquila II, herdeiro de Vitiza e o pretendente Roderico (as vezes também chamado de Rodrigo). Julian ou Olban o qual era de origem bizantina, e vivia no Magreb, estava apoiando o príncipe Áquila II o qual buscava ajuda militar para derrotar seu adversário, logo, essa ajuda foi buscada do outro lado de Gilbraltar, e ainda em 710, Tarik ou Tarif cruzou a entrada do Mediterrâneo com cerca de 400 homens. Todavia, vendo que aquele contigente não seria o suficiente para vencer aquela guerra, Tarik retornou ao Magreb para que no ano seguinte voltasse com um exército. Ainda em 710, Roderico foi proclamado na cidade de Toledo, rei dos visigodos, algo que enfureceu Áquila ainda mais.

Tendo retornado a região do Tânger, de onde o governador Musa ibn Nusair governava, ele viu nessa possibilidade de ajuda espaço para iniciar a expansão do império omíada sobre a península ibérica. Logo, no ano de 711 no final do mês de abril, Tarik retornava a Hispânia com um exército de cerca de 7 mil homens, números esses ainda questionáveis hoje. 

O rei Roderico estava refugiado com seu exército na cidade de Córdova, enquanto Áquila II montou acampamento próximo a Nova Cartago. Entre 19 e 26 de julho ocorreu o confronto dos dois exércitos na Batalha de Guadalete, próxima ao rio homônimo, nas cercanias de Cádiz, Andaluzia. O exército de Tarik composto na sua maioria de berberes conseguiu subjugar após esses sete dias de conflitos o exército de Roderico, o qual contava com um contigente um pouco maior. 

Batalha de Guadalete. Mariano Barbasán (1881).
A vitória foi derradeira, pois Roderico foi destronado e faleceu na ocasião. Ainda em 711, as cidades de Toledo e Cordóva foram sitiadas e conquistadas por Tarik. No ano seguinte, o governador Musa chegou a península a frente de um exército de pelo menos 10 mil homens. Ainda naquele ano, Musa conquistou Sevilha e Mérida. Assim se iniciava a invasão e conquista da península pelas forças árabes da Dinastia Omíada. Com a morte do último rei visigodo Roderico, e o rompimento da aliança com o príncipe Áquila, os árabes estavam agora interessados em anexar o Reino Visigodo ao Califado Omíada.

A conquista de Al-Andalus:

De 711 a 713 quase toda a península Ibérica, a qual passou a ser chamada pelos árabes de Al-Andalus (etimologia ainda incerta) foi conquistada. Algo bastante interessante e intrigante, pois em cerca de três anos, os domínios árabes se estediam por mais da metade da península, embora não significasse que na prática todas essas terras estava sujeitas ao domínio Omíada, ainda assim, a rapidez que os exércitos árabes fizeram para conquistar esse território de mais de 584 mil km2 e uma das regiões mais motanhosas do continente europeu, além de dispor de um exército de cerca de 20 mil guerreiros contra uma população de centenas de milhares de habitantes, isso foi algo ímpar na História. Daí como Aziz (1978) chegou a mencionar, houve historiadores que constestaram se a conquista árabe foi um milagre ou uma lenda, devido a forma de como ocorreu.

Para o historiador e palenotólogo espanhol Ignacio Olagüe, autor de Os Árabes Jamais invadiram a Espanha (1969) também conhecido como A Revolução Islâmica do Ocidente, esse renomado estudioso defendeu entre uma série de hipóteses e argumentos de que a conquista árabe de Al-Andalus não se deu propriamente pelas armas, mas por uma via diplomática. 

"Tratando-se precisamente da conquista da Espanha, Olague mostra a raridade, a precariedade e, sobretudo, a incoerência das fontes tradicionais sobre as quais os historiadores se apóiam para descrever esta conquista. Depois, o autor examina as dificuldades da empreitada. Como um punhado de árabes pôde vencer, no espaço de três anos, um país imenso, tão montanhoso e tão dividido, que as legiões romanas, militarmente supoeriores às tropas muçulmanas, levaram três séculos para conquistar e, ainda assim, parcialmente: algumas regiões, particularmente inacessíveis, sempre escaparam, de fato, à autoridade de Roma". (AZIZ, 1978, p. 20).

Por tal perspectiva, Olagüe defendeu uma outra interpretação, logo, surgiu o viés de caráter diplomático, algo que outros historiadores passaram a estudar e a desenvolver. Sendo assim, apresentarei aqui alguns dos aspectos sugeridos por Olagüe e outros historiadores que defendem que a conquista árabe ocorreu de forma rápida e eficaz não pelo uso da força bruta e da ameaça, mas pela tolerância e boas relações. 

Oliveira Martins (1987, p. 94) salientou que consistiu parte da política Omíada o uso da diplomacia e da tolerância religiosa. A Pérsia (atual Irã), Israel, o Norte da África foram locais onde os zoroastrianos, judeus, cristãos e pagãos receberam o direito de manter sua fé, desde que não parassem de pagar os impostos ao califado. Quando Al-Andalus foi conquistada, tal direito foi aplicado aos visigodos. Logo, os cristãos e judeus da região não foram obrigados a se converterem, como também foi autorizado que os ritos cristãos e judaicos fossem mantidos. Igrejas não foram destruídas ou saqueadas, e até mesmo os bispos mantiveram suas funções nas dioceses da península. 

No ano de 713 o general Abd Al-Aziz ibn Musa, o filho do governador Musa firmou um acordo como Teodemiro, governante da província de Múrcia. Nesse acordo, Abd Al-Aziz assegurava a manuntenção das tradições e leis visigóticas, assim como proporcionaria segunraça e paz, desde que os visigodos de Múrcia reconhecessem obediência ao califado e passassem a pagar tributos a esse. Parte do conteúdo desse tratado diz o seguinte:

"Em nome de Alá, o Clemente, o Misericordioso! Escrito endereçado por Abd Al-Aziz ibn Musa ibn Nusair a Tudmir ibn Abdus. Este último obtém a paz e recebe o compromisso, sob a garantia de Alá e a de seu Profeta, de que nada mudará em sua situação, nem na dos seus; que seu direito de soberania não lhe será constestado; que seus súditos não serão mortos, nem reduzidos ao cativeiro, nem separados de seus filhos e de suas mulheres; que eles não serão incomodados na prática de sua religião; que suas igrejas não serão incendiadas nem os objetos de culto que aí se encontram serão roubados; e isto por tanto tempo que compensará os encargos que nós lhe imposos. A paz lhe é concedida mediante a entrega das sete praças fortes seguintes: Orihuela, Baltana, Alicante, Mula, Vilhena, Lorca e Ello. Por outro lado, ele não deverá dar asilo a nenhuma pessoa que tenha fugido de nossas terras ou que seja nossa inimiga, nem fazer mal a todo aquele que tenha sido beneficiado por nossa anistia, nem guardar segredo de informações relativas ao inimigo que tenham chegado a seu conhecimento. Ele e seus súditos deverão pagar a cada ano um tributo poessal composto de um dinar em espécie, quatro alqueires de trigo e quatro de cevada, quatro medidas de mosto, quatro de vinagre, duas de mel e duas de óleo. Esta taxa será reduzida pela metade para os escravos. Escrito em radjab do ano 94 da héjira (abril de 713)". (AZIZ, 1978, p. 154-155).

O tratado proposto por Abd Al-Aziz foi aceito e serviu de modelo para outros tratados propostos na mesma época e nos anos seguintes. Ainda naquele ano o general se casou com a viúva do rei Roderico. Ele se tornou governante temporário da península até o ano de 716 quando foi denunciado por abuso de poder e corrupção, o que levou o califa a retirá-lo do cargo e executá-lo. Abd Al-Aziz foi decapitado e sua cabeça exposta no palácio em Damasco.

Para Olagüe essa "política da boa vizinhança" na qual os árabes apresentaram tolerância religiosa e liberdade de culto, foi um dos aspectos das medidas que eles tomaram. Além desse fator religioso, o governo Omíada procurou manter muitos dos funcionários em seus cargos, procurou não alterar o quadro legal e administrativo das cidades conquistadas, ordenou que os exércitos não cometessem crimes como: saque, invasão, assassinato, sequestro, aprisionamento, estupro, incêndio e destruição. Embora houve casos que tais atos foram cometidos.

Agindo dessa forma, os árabes conquistaram o apoio de parte da população tanto cristã quanto judia, e no caso dos judeus merece um destaque a ser comentado. 

"De fato os Visigodos, invasores germânicos, maltratavam-nos rudemente. As primeiras perseguições de judeus remontam à época da aliança da Igreja com o Estado no seio do reino de Toledo. Diversos concílios, reunidos nesta cidade, progressivamente agravaram a precariedade de sua condição. Em 654, o Rei Recesvinto adotou uma série de disposições extremamente rigorosas contrárias a eles. Mais tarde em 681, no reinado de Ervig, os judeus foram constrangidos a exilar-se ou a converter-se ao cristianismo. Finalmente, em 693, quase às vésperas da invasão árabe, o Rei Egica proibiu-lhes qualquer comércio com os cristãos do reino". (AZIZ, 1978, p. 162).

Se antes havia uma restrição ao judaísmo por parte do governo visigodo, essa restrição e ameaça foi suspensa pelos conquistadores árabes. As mesmas propostas que foram apresentadas aos cristãos também valeram para os judeus, e assim as comunidades judias mais do que os cristãos, aceitaram de bom grado o novo governo que se instaurava na península.

Por outro lado, a permanência do quadro dos funcionários visigodos em suas funções, evitava revoltas por parte destes, como também garantia que a administração não se alteraria diante de se colocar novos funcionários. Todavia, gradativamente tal funcionalismo foi sendo substituído por gente árabe.

"O novo regime era liberal e tolerante, e mesmo os cronistas espanhóis descrevem-no como sendo preferível ao domínio franco no Norte. O maior benefício que trouxe para o país foi a supressão da antiga classe dominante da nobreza e do clero e a distribuição de suas terras, criando uma nova classe de pequenos proprietários, grandemente responsáveis pela prosperidade agrícola da Espanha muçulmana. Os servos viviam melhor, enquanto a burguesia encontrava um refúgio para as suas preocupações na conversão em grande escala ao Islamismo e na sua identificação com os árabes". (LEWIS, 1996, p. 137-138).

Diante dessa breve apresentação de algumas das características de Al-Andalus por uma via diplomática, é importante dizer que mesmo assim, não significa que a força e o exército não foram usados, Toledo, Sevilha e Córdova foram invadidas e saqueadas, e algumas das suas construções foram destruídas, o que incluiu igrejas. Após a vitória em 712, Musa e Tarik seguiram com seus exércitos para efetuar a conquista. Tarik partiu para o leste e Musa seguiu para o norte, posteriormente oeste e noroeste. Algumas cidades que não aceitaram se render foram tomadas a força, além do fato de algumas vilas e aldeias terem sido saqueadas, ainda assim, a conquista pelo que as fontes hispânicas e árabes relatam, ela não se deu de forma sangrenta, mas também não foi totalmente pacífica.

Tendo Musa e Tarik comprido com suas campanhas, os dois voltaram a se desentender, ambos possuiam uma rixa que durava alguns anos, e ameaçava eclodir num confronto que poderia atrapalhar o processo de conquista. Então o califa os convocou urgentemente a Damasco para resolver tais problemas. Com a partida deles, se iniciou a ocupação da terra, os soldados passaram a receber lotes de terra, como também o direito de se casarem com cristãs ou judias. Tal aspecto de ocupação, foi bastante importante, pois isso fortaleceu os laços entre os conquistadores e os conquistados.

Após os soldados árabes se estabeleceram, foi a vez do exército berbere fazer o mesmo, embora que os berberes optaram em colonizar as regiãos montanhosas por lembrarem a geografia das suas pátrias.  

"Instalados principalmente na extremidade sudoeste do atual Portugal até o vale inferior do Ebro, nas mesetas (altos planaltos) de cada lado do Guadiana e do Tejo, os Berberes tornaram-se agricultores. Nas cidades, eles geralmente exercem humildes profissões mas alguns escalam os degraus sociais". (AZIZ, 1978, p. 168).

Em três gerações já tinhamos famílias hispano-árabes e famílias hispano-bérberes com raízes fincadas profundamente, onde a tradição árabe e islâmica passou a prevalecer. Famílias hispanos, judias e berberes que se converteram ao islão, passaram a adotar sobrenomes árabes.

Por esse viés podemos chegar a algumas sucintas conclusões: embora os árabes tenham contado com uma força militar formada por eles mesmos, por berberes e posterioremente sírios, os quais foram enviados pelo califa, estima-se que o exército árabe fosse de cerca de 20 mil combatentes presentes em Al-Andalus, e embora o exército visigodo estivesse enfraquecido, ainda assim, os visigodos eram um povo bastante ligado a tradição da arte da guerra, por esse aspecto, os historiadores anteriormente mencionados preferem o argumento de que o êxito da conquista se deu mais devido a política de aliança e tolerância proposta pelo califado. 

Nos últimos anos do governo visigodo, parte da população estava descontente com o governo, e o assassinato do rei Vitiza pelo usurpador Roderico ocorreu em uma hora bastante errada. A população estava contrária a presença de um usurpador no trono; os judeus como dito, sofriam repressão, a economia estava em baixa, a nobreza explorava a classe baixa.

Quando os árabes chegaram eles mudaram tal realidade. Destronraram a nobreza visigótica abusiva, mataram o usurpador, decreteram tolerância religiosa, mantiveram os funcionários em seus cargos, mantiveram as leis, redestribuíram as terras para a população. Por tais aspectos aos olhares dos hispanos os invasores não se apresentavam de forma tão cruel assim, além de serem considerados por alguns, como "restauradores" da ordem. 

Não se pode dizer "salvadores", pois os árabes não vieram com esse intuito, mas estavam ali para a conquista de fato. Além de que nem todo mundo apreciou o que eles fizeram com a monarquia visigótica. Os partidários da nobreza eram contrários a intervenção estrangeira, e isso gerou conflitos nos anos seguintes. Em 718 ocorreu a Batalha de Covadonga no norte da Espanha, no que resultou na vitória cristã, que por sua vez impediu que a região caísse sob o governo árabe. Como será visto adiante, por mais que a conquista não tenha se dado a custa de muito sangue e mortes, não significa que ocupação se deu de forma totalmente tranquila. Pelas décadas seguintes haveria conflitos entre os hispanos e os árabes, algo que perduraria por anos, principalmente no norte da península. 

A influência da cultura árabe:

Antes de prosseguir para abordar o Emirado de Cordóva e depois o califado, optei em contar um pouco acerca das principais mudanças culturais que ocorreram nessas primeiras quatro décadas de colonização árabe em Al-Andalus. Embora hoje em Portugal e Espanha não se fale árabe e o islamismo é uma minoria, ainda assim, certos aspectos da cultura árabe permaneceram nas culturas desses dois países. 


As influências da cultura árabe foram várias: influências na língua, vestimenta, hábitos, comportamento, alimentação, arquitetura, literatura, ciência, tecnologia, urbanismo, leis, administração, etc. Todavia, abordarei de forma breve algumas delas, pois há livros que tratam especificamente desse legado cultural. 

"O Islão espanhol trouxe contributos valiosos para todos os ramos de tradição árabe clássica, à qual, apesar da distância e das suas características locais, pertencia definitivamente". (LEWIS, 1996, p. 146).

a) nomenclatura:

Primeiramente começaremos com a nomenclatura, ou seja, como os árabes passaram a chamar os povos conquistados e como os hispanos passaram a chamar os árabes. 

Os hispanos passaram a chamar de mouros (moro em espanhol) os berberes e os árabes-berberes que eram provenientes do Magreb. A palavra mouro vem do latim maurus (mauri no plural), que por vez deriva do grego máuros. Tais palavras eram usadas para designar os habitantes nativos do que hoje é o Marrocos, Mauritânia e Argélia. A palavra máuros além de ser uma designação para os povos que habitavam o noroeste da África, também era usada no significado de pessoa negra, e tal significado foi mantido pelo latim e as línguas derivadas dele.

Por exemplo, em espanhol, a palavra moro originou a palavra moreno, a qual era utilizada para se referir as pessoas negras, já que embora a maioria dos árabes fossem brancos, os berberes eram na maioria negros, e a misceginação entre os dois, gerou descendentes pardos, mas os quais eram considerados negros pelos hispanos. Ainda hoje, na língua portuguesa e espanhola de forma coloquial, chama-se os negros de morenos. 

Por outro lado, mouro também era uma forma pejorativa de se referir aos árabes-berberes ou aos africanos em geral, pois atuava como uma forma de generalização, na qual classificava tais indíviduos como sendo gente negra e mulçumana. Embora que nem todo africano fosse negro ou muçulmano.

Se por um lado os hispanos chamavam os invasores de mouros e também de sírios, pois uma leva de sírios chegou a Al-Andalus e ali se fixou, os árabes chamavam os povos conquistados de acordo com a condição deles diante da fé islâmica. A população que não havia se convertido ao islamismo era chamada de musta'rib ("arabizado"), palavra essa que foi traduzida para o português como moçárabe e para o espanhol como mozárabe. Inicialmente os moçárabes referiam-se as pessoas que se mantiveram cristãs ou judias, mas por volta do século IX, tornou-se uma expressão específica para se referir aos cristãos que não aceitaram a se converter ao islão.

Outro termo que foi utilizado pelos árabes para se referir a população conquistada era muwallad ("adotado"). Muladi como foi traduzido para o português e espanhol, poderia se referir ao cristão ou judeu que se converteu ao islão, como também passou a adotar a língua árabe e os costumes árabes ou poderia se referir a um indíviduo que fosse de mãe muçulmana, mas de pai cristão ou judeu, um indíviduo mestiço, hispano-árabe. 

b) alimentação:

No que diz respeito a alimentação, os árabes introduziram vários tipos de plantas na península: laranjas, limões, bananas, tâmaras, ameixas, cana de açúcar, plantas de chá, arroz, beringelas, alcachofras, grão de bico, etc., em uma série de plantas usadas como tempero como o cuminho, alçafrão, tomilho, coentro, garança, hena, etc. É interessante perceber que a cana de açúcar uma das grandes fontes de riquezas que Portugal dispôs entre os séculos XV e XVIII foi um legado árabe, pois foram eles que a trouxeram e ensinaram os hispanos como cultivá-la e posteriormente como fazer açúcar. No entanto, foram os portugueses que aperfeiçoaram o fabrico do açúcar e criaram os engenhos.  

Os árabes desenvolveram a agricultura hispânica, ampliando os campos de cultivo, como além de introduzir essas novas espécies vegetais na península, ampliaram o cultivo de trigo, cevada, feijão, figos, uvas, cerejas, maçãs, peras e azeitonas. Como também ampliaram o mercado de azeite, vinho e cidra. Embora o Profeta Mohammed tenha recomendado não consumir bebidas alcoólicas, os muçulmanos de Al-Andaluz entre os séculos VIII até o XI bebiam vinho, cerveja, cidra, etc. A partir da Dinastia dos Almorávidas (1090-1146) o consumo de álcool passou a ser estritamente proibido. 

Gravura árabe comentando acerca do cultivo da berinjela.
Ainda no campo da alimentação, com a introdução das novas alimentos, os moçárabes e muladis passaram a apreciar tais frutas e os alimentos árabes.  Os hispanos passaram a gostar do cheiro e do sabor dos temperos, alguns passarem a apreciar o chá, e até mesmo a consumir carne de codorna e de coelho, que eram apreciados pelos árabes. A carne de vaca, de ovelhas, galinha e pescado eram bastante consumidos pela população. No entanto, o consumo de carne suína caiu bastante, pois os judeus não comem carne de porco, prática também adotada pelos muçulmanos. 

Não podemos pensar que a culinária árabe se limite apenas ao kibe e a esfirra, havia diferentes pratos que utilizavam essas plantas estrangeiras, as plantas nativas e os diferentes tipos de carnes. Por sua vez, a alimentação variava de acordo com a condição social da população. 

"A alimentação popular é muito simples. Os pratos mais apreciados são a harisa, sopa grossa de ervilhas; o isfidbaj, sopa com leite; e o asida, mingau de farinha e leite". (AZIZ, 1978, p. 202).

Para completar a alimentação da população pobre, estavam as frutas, o pão, queijo, ovos, o pescado, legumes, bolos, arroz, feijão, etc. Lembrando que não era hábito consumir carne diariamente, pois a carne era uma iguaria cara. No entanto, não significa que os pobres não a consumissem. Seu consumo se dava principalmente na época dos festejos ou na celebração de acontecimentos importantes, ou durante as épocas de verão e primavera, quando a quantidade de gado estava grande e alguns poderiam ser abatidos, pois a população rural dependia do leite, queijo, manteiga e ovos para sua subsistência, já que em geral a população do campo sobrevivia a partir do que produzia e criava.

No que diz respeito a população mais abastada a alimentação variava, tendo uma maior presença de iguarias, temperos, doces e carnes a disposição. Logo, vemos sopas de carnes, peixes salgados ou em conserva, pratos especiais feitos de frango ou de carne de carneiro, vaca, codorna, coelho, carne de caça; almôndegas, salsichas, presuntos, picadinhos, doces de amêndoas, cerejas, limões, mel, biscoitos, bolos, pastéis, massas, etc. 

Alguns exemplos de pratos da culinária árabe.
Parte desses alimentos ainda hoje são consumidos em Espanha e Portugal, embora tenham passado por variações e adaptações ao longo dos séculos. Com a colonização portuguesa e espanhola ao longo da Idade Moderna, alguns desses pratos e plantas trazidos pela colonização árabe, foram difundidos nas colônias desses dois países. 

c) vestimanta:

Com a migração árabe, foi introduzido na península o linho, o algodão, a seda, o brocado, e outros tipos de tecidos, assim como, outros tipos de cortes, costuras, peças de roupas e acessórios, mas em geral a população rural manteve sua vestimenta baseada no modelo nacional, por sua vez a população urbana foi quem mais aderiu a moda árabe. 

"Muito requintada, a moda relativa à roupa é profundamnete influenciada pela de Bagdá, desde o século IX. É o célebre cantor Siryab que, no reinado de Abd al-Rahman II, introduz na Espanha importantes inovações na moda, imediatamente adotadas pela khassa". (AZIZ, 1978, p. 195).

Khassa era o termo árabe que designava a elite muladi. Alguns historiadores consideram os khassa como a aristocracia. Embora tal termo também fosse aplicado aos próprios árabes. Logo, foi essa aristocracia quem mais aderiu a moda árabe, de forma a se aproximar cada vez mais da cultura dos conquistadores.

A elite passou a fazer uso dos novos tecidos que chegaram a região, os já mencionado algodão, mas principalmente o linho, a seda, o brocado, etc., estes últimos tecidos mais caros e considerados de luxo. Embora a lã, cetim e o couro ainda continuaram a ser usados também por eles. 

Mulheres em um jardim.
 "A moda no trajar variou evidentemente com o decurso do tempo. Limitemo-nos aqui a algumas breves considerações baseadas em Mazaheri: "Interiormente, uma senhora elegante vestia calças de cetim, tufando no tornozelo, e terminando numa espécie de peúgas cosidas por cima, e socos ou babuchas de marroquim ou de pano, mais ou menos luxuosas e com saltos. No seus aposentos, uma dama envergava calças curtas e, por cima, uma saia muito larga de cetim ou de tafetá, guarnecida de rendas ou de bordados, além de um bolero e de peúgas de algodão multicores. Ninguém usava babuchas nem espécie alguma de calçados no interior da casa, cujo chão estava coberto por um tapete ou até por vários, sobrepostos". (GIORDANI, 1976, p. 206).  

A descrição mencionada por Giordani com base em Mazaheri, nos revela um fato curioso, pois diferente do que se pensa sobre a vestimenta árabe onde se acredita que tanto homens como mulheres trajavam comumente túnicas, ou no caso das mulheres o uso de vestidos; nota-se que o uso de calças foi bem difundido, embora em muitos casos, fosse usada como roupa de baixo. Por outro lado, a maioria da população usava sandálias ou sapatos, as botas eram reservadas para se cavalgar, o período de inverno ou o trabalho no campo. 


Trajes femininos árabes entre os séculos quatro e sexto.
Ainda acerca da moda feminina, o uso de véus diferente do que se pensa, não era algo obrigatório naquele tempo, logo, muitas mulheres muçulmanas necessariamente não o usavam diariamente ou todo o tempo. Por outro lado, as mulheres também usavam lenços para cobrir apenas os cabelos e alguns tipos de chapéus, principalmente as mulheres rurais, as quais os chapéus ajudavam a se proteger da luz do sol, da chuva e do vento forte e do frio. 

No caso das mulheres moçárabes o véu foi adotado em alguns ocasiões, como o fato de ir-se a missa aos domingos, onde as mulheres usavam um véu que cobria os cabelos, ou no caso das viúvas, as quais usavam um véu negro que cobria o rosto. Lembrando que as cristãs da Antiguidade já usavam o véu, e tal prática foi mantida pelas freiras, mas tal costume foi deixado de lado com a população laica. No entanto, com a colonização árabe, parte da população feminina moçárabe passou a usar o véu.

Além das luxuosas roupas usadas pelas mulheres ricas, o uso de joias era abundante. Colares, anéis, brincos, pulseiras, braceletes, broches, etc., feitos de ouro, prata, esmeraldas, safiras, rubis, diamantes, etc.. Além do uso de maquiagem para exaltar o contorno dos olhos, a forma das bochechas e dos lábios. As mulheres ricas tinham o costume de sempre estarem bem arrumadas e belas. 

No caso da vestimenta masculina, era comum o uso de camisas e calças, ambas feitas de linho ou algodão, que por sua vez eram presas por um cinto de couro, de algodão, linho, etc. Sobre esse traje básico usava-se uma saia, uma blusa, túnica ou capa. Essas roupas sobrepostas poderiam ser feitas de seda e poderiam trazer adornos como fios de ouro e bordados. Os homens usavam turbantes, toucas e diferentes tipos de chapéus, todavia dependendo da época não era algo obrigatório o uso de turbantes. 


Exemplos de alguns trajes árabes masculinos e um traje feminino.
Com a chegada de Siryab (789-857) entre as mudanças estilísticas que ele introduziu, esteve o uso  de roupas brancas durante a celebração do Mihridjan o qual celebrava o solstício de verão (21 de junho), logo, toda a população muçulmana passava a trajar simples roupas brancas, algo que se mantinha em prática de junho a outubro quando ocorria o Ramadã. Com exceção desse período de fins de junho a começo de outubro, no restante do ano, as pessos usavam roupas de várias cores e diferentes tecidos e estilos. 

Em compensação a roupa dos pobres eram bastante simples:

"Traço característico dos trajes dos pobres: as roupas femininas e masculinas são parecidas, sendo do mesmo tecido e tendo a mesma forma e o mesmo nome. O homem urbano veste uma camisa de linho ou de algodão, o khamis, assim como um par de calças ajustadas ao corpo por um cinto ou um cordão. Às vezes, o khamis é substituído por uma ampla tunica de tela branca, a zihara. No inverno, cada um acrescenta a essa leve roupa uma peliça acolchoada ou um casaco de pele de coelho. Meias de lã e um par de botas em couro ou, no inverno, botinas forradas de feltro protegem os pés e as pernas". (AZIZ, 1978, p. 199). 

"No campo, o traje é ainda mais simples: camisa de algodão ou túnica de lã aberta na frente e coberta de burel grosseiro. Para o inverno, junta-se uma espécie de colete sem mangas, o tashmir. Calçam-se patins ou galochas de madeira. No verão, protegem-se do sol com chapéus de palha trançada". (AZIZ, 1978, p. 199-200).

d) língua, leitura e conhecimento:

Embora o latim foi mantido principalmente pelos moçárabes e os clérigos, ainda assim a medida que os anos iam passando tornava-se cada vez mais comum, que os moçárabes fossem bilingues, e em alguns casos passassem a falar mais em árabe do que em latim. Mas a mudança não se deu apenas na fala, mas também na leitura e na escrita.

"Em meados do século IX, Álvaro, um cristão de Córdova, observa com mágoa: "Muitos dos meus correligionários lêem a poesia e os contos dos Árabes, estudam os textos de teólogos e filósofos maometanos, não com o propósito de os contestarem, mas para aprenderem a exprimir-se na língua árabe com maior correcção e elegância. Onde podemos encontrar hoje um laico que leia os comentários em latim às Sagradas Escrituras? Querem, de entre eles, estuda os Evangelhos, os Profetas, os Apóstolos? Todos os jovens cristãos notados pelos seus dotes conhecem apenas a língua e a literatura dos Árabes, lêem e estudam com zelo os livros árabes, construindo grandes bibliotecas, muito dispendiosas, e proclamando em voz alta por toda a parte que esta literatura é digna de admiração. Entre milhares é difícil encontrar um que saiba redigir sofrivelmente uma carta em latim para um amigo, enquanto são inúmeros os que sabem exprimir-se em língua árabe e compor poesia nessa língua com mais arte do que os próprios Árabes". (LEWIS, 1996, p. 140). 

Lewis (1996, p. 140) também comenta brevemente o caso de um arcebispo de Sevilha que no século IX, ordenou que comentários e trechos da Bíblia fossem traduzidos do latim para o árabe, não necessariamente no intuito de evangelização, mas para a própria comunidade, que estava deixando de compreender o latim. 

Mulheres em um jardim, ouvindo um poeta. Lembrando que antigamente era comum recitar poesia ao som de música.
Se por um lado essa mudança não agradou a todos, principalmente os moçárabes, por outro lado, ela trouxe bons resultados para a população de Al-Andalus. A sociedade árabe medieval no que dizia respeito a leitura, escrita e conhecimento, eram mais tolerantes e afeitos a tais saberes do que a sociedade europeia cristã. Enquanto em grande parte da Europa, apenas os clérigos eram os principais letrados, no "mundo árabe", havia um número maior de letrados. O islamismo não era tão intolerante com o conhecimento filosófico, histórico e científico, como era o cristianismo na época.

Em algumas das maiores cidades do califado, havia escolas, nas quais as crianças da elite e da "classe média" eram alfabetizadas a partir dos estudos do Alcorão. Além de aprenderem a ler, escrever e a doutrina corônica, as crianças também aprendiam um pouco de matemática, história e geografia. Posteriormente, elas poderiam continuar a seguir os estudos ou deixarem ele de lado. Normalmente, seguiam pela segunda opção, pois o ensino naquele tempo não tinha a mesma importância de hoje em dia.

Mas a existência dessas escolas não significou que o número de alfabetizados fosse grande. Aziz (1978) diz que não há como se saber com exatidão quantas pessoas sabiam ler e escrever em Al-Andalus, mas ele estimou que pelo menos 10% da população urbana fosse alfabetizada. E nesses 10% se encontravam os escritores, poetas, clérigos, funcionários do Estado, professores, estudiosos, leitores, etc. 

Esse gosto pela leitura que alguns árabes possuíam se revela bem, na quantidade de escritores e poetas que havia nas cidades e na corte, além dos relatos sobre os mais diversos assuntos como: agricultura, pecuária, natureza, medicina, astronomia, história, filosofia, matemática, física, química, gramática, música, retórica, geografia, mineralogia, metalurgia, etc. Parte do conhecimento dos árabes foi adquirido a partir das traduções de autores mais antigos, como os gregos, bizantinos, persas, hebreus e egípcíos. Ironicamente, muitas obras de autores gregos e algumas de autores romanos, chegaram ao público de Al-Andalus, não pela tradução latina, mas pela tradução árabe. Graças a essas traduções, hoje temos acesso a importantes obras antigas que poderiam ter desaparecido.

Essa apreciação pela leitura, literatura e conhecimento, reflitiu-se no gosto pelos livros, como assinalou Giordani (1976, p. 227), o qual disse que em toda grande cidade em domínios árabes, os mercados possuíam livrarias. 

"O comércio de livros alcançou um grande desenvolvimento. O autor medieval Ibn al-Mubarrad, descrevendo os cento e cinquenta bazares de Damasco, cada qual reservado a uma única profissão, fala-nos do bazar de livros. Vendiam-se aí, diz-nos ele, livros, papel, tinta, penas etc. Em cada cidade existia, alías, um bazar de livreiros. Al-Yaquibi afirma que no seu tempo (séc. IX) existia na capital mais de cem negociantes de livros reunidos em uma só rua. Muitas vezes os livreiros eram também calígrafos, copistas e até literatos. Compreende-se assim que as livrarias se tornassem também locais de reuniões de intelectuais que discutiam assuntos literários". (GIORDANI, 1976, p. 227). 

Três árabes numa biblioteca ou livraria?
Além do aumento de livrarias pelos mercados urbanos, a apreciação e interesse pela leitura e o conhecimento, também fez prosperar as bibliotecas públicas e particulares. Alguns homens ricos se tornaram verdadeiros colecionadores de livros, reunindo e suas bibliotecas privadas, coleções de milhares de manuscritos. 

"Na Espanha muçulmana havia dezenas de bibliotecas públicas. A maiz famosa das bibliotecas públicas de al-Andalus e uma das melhores do mundo muçulmano foi a de Al-Hakam II". (GIORDANI, 1976, p. 228).

O califa Al-Hakam II, que voltará a ser comentado adiante, foi um verdadeiro bibliofilo, tendo ordenado a construção de uma das maiores bibliotecas em Al-Andalus (alguns autores sugerem que foi a maior). O califa ordenou que copistas e livreiros viajassem pelo "mundo árabe" para comprar livros dos mais diversos assuntos, e principalmente obras raras. Estima-se que sua biblioteca chegou a possuir cerca de 400 mil manuscritos.

Embora hoje em Portugal e Espanha não se fale mais o árabe há séculos, todavia, a língua árabe deixou uma vasta contribuição para as línguas portuguesa e espanhola. Centenas de palavras que se fala normalmente nessas línguas, são de origem árabe. O jornalista e escritor libanês, naturalizado brasileiro, Assaad Zaidan publicou o livro Letras e História: Mil palavras árabes na língua portuguesa (1a ed, 2004, 2a ed, 2011), onde como o próprio título deixa bem explícito, o autor enumerou mil palavras de origem árabe que hoje fazem parte do vocabulário português. 

Para se ter um exemplo, faço menção as seguintes palavras com letra "A" da língua portuguesa que são de origem árabe: azul, azulejo, armazén, alvará, alforria, alvoroço, ama, amo, amargo, amostra, andaime, arabesco, argola, arroz, arsenal, álcool, açúcar. No livro de Zaidan ele enumera exemplos de todo o alfabeto.  

e) higiene e beleza:

Uma novidade trazida com os árabes foi o retorno dos banhos diários e dos banhos públicos. Na época da dominação romana quase toda cidade possuía banhos públicos, onde diariamente as pessoas se dirigiam para se lavar, conversar, relaxar e se entrenter, pois os banhos ofereciam outros tipos de serviços. Mas com o fim do Império Romano, tal costume foi abandonado, então os banhos públicos foram fechados e as pessoas deixaram de banhar-se com regularidade. 

É costume do islã realizar os ritos de purificação diários. Por exemplo, toda vez que um muçulmano for realizar uma das cinco orações obrigatórias diárias, ele deve está pelo menos com o rosto, as mãos e a boca limpos. Em alguns casos, as pessoas banham-se antes de fazer tais orações, de forma a purificar o corpo das impurezas mundanas. Por esse viés religioso, se tornou hábito dos muçulmanos banhar-se todos os dias, prática essa que outros povos como os romanos, gregos, egípcios, etc.

Sendo assim, o governo árabe inaugurou novos banhos públicos, chamados de "hammam". Tais locais eram baseados na estrutura das termas romanas, possuíndo vestíbulos, piscinas, saunas, salas de massagem, salas de recreação, etc. Dependendo do tamanho do hammam, os serviços prestados variavam. Todavia, tanto ricos quanto pobres frequentavam tais locais, pois em alguns casos os hammam eram gratuitos. 

Entrada da sala de banhos mornos num hammam em Granada, Espanha.
Homens e mulheres não se misturavam, pois havia horários específicos para que cada um frequenta-se estes espaços públicos. Normalmente os homens iam de manhã e as mulheres à tarde. No entanto, não significa que não houvesse mulheres ou homens em ambos os horários, havia sim, na presença dos escravos. Como no hammam oferecia-se serviços de massagens, havia escravas e escravos que faziam as massagens. No caso dos escravos, todos eram eunucos. 

Nestes banhos além de lavar-se, fazer a barba, cortas as unhas, cortas os cabelos e receber massagem, os homens e mulheres aproveitavam para conversar, relaxar, jogar, se distrair, pois ir aos banhos públicos, era quase como ir hoje a praia ou a um clube no sentido de espaços de lazer.

No caso das mulheres havia os tratamentos de beleza. Massagistas, manicures, pedicures, depiladoras, cabeleireiras, maquiadoras, etc. Nesse aspecto, o hammam também atuava como uma espécie de "salão de beleza", mas lembrando que apenas a elite dispunha desses caprichos da beleza. As mulheres de condições inferiores se arrumavam em casa. 

Pintura retratando mulheres num hammam.
Ainda sobre o quesito beleza, diferente do que hoje é imposto por alguns países muçulmanos onde as mulheres são obrigadas a usarem burcas e outros tipos de véus para ocultar os rostos, assim como, trajar roupas pretas e longas, de forma a ocultar sua beleza, curiosamente na Idade Média isso não era uma tendência e uma prática. Era hábito das mulheres muçulmanas sempre estarem bem arrumadas e belas para os maridos, e no caso das damas da alta sociedade, elas sempre estavam impecáveis. 

As mulheres árabes medievais se vestiam com roupas coloridas e de diferentes estilos, embora que a sensualidade fosse reservada as dançarinas, prostitutas ou nos momentos privados do casal. O uso de roupas sensuais não era algo comum tanto para muçulmanas, quanto para judias e cristãs.

No caso dos homens, o cuidado com os cabelos, as barbas e as unhas também era algo corriqueiro, pois embora fosse moda deixar a barba grande ou os bigodes, dependendo da forma de como eles eram cortados e tratados, era sinal de condição social, pois os ricos dispunha de produtos de beleza para a barba e os cabelos, os quais os pobres não tinham acesso. 

Por fim, com a diminuição da autoridade árabe sobre a península e posteriormente com a expulsão destes, os banhos públicos voltaram a serem banidos de Portugal e Espanha e o hábito de banhar-se diariamente perdeu-se novamente. 

e) sexualidade e sensualidade:

O caso da sexualidade é bastante interessante. Tanto no cristianismo, judaísmo e islamismo naquele tempo o homossexualismo era considerado um pecado, um tabu, no entanto, havia gente que o praticava, em geral secretamente. Os cronistas árabes de Al-Andalus mencionam histórias de aventuras homossexuais de gays e lésbicas. 

Mas é importante ressalvar que o homossexualismo não era algo público, as pessoas que eram homossexuais ou bissexuais se comportavam normalmente como heterossexuais, apenas em locais reservados é que eles tinham suas relações e comportamentos desse gênero. Na prática do dia a dia, os gays e lésbicas eram heterossexuais na convivência pública e particular, apenas nas suas intimidades é que eles agiam conforme sua opção sexual. 


No caso da prostituição por mais que tal prática seja condenada pelas religiões abraâmicas, ela sempre conseguiu se manter viva e ainda hoje existe. Com a chegada dos árabes não foi diferente. Se antes já havia prostíbulos na Ibéria, mesmo com o conservadorismo muçulmano, os prostíbulos se mantiveram principalmente nas cidades. Em alguns casos, era comum tavernas, albergues e hospedarias também disporem de prostitutas. Aziz (1978, p. 210) assinala que a prostiuição em Al-Andalus era legalizada, onde por sua vez, as prostitutas pagavam um imposto chamado kharadj.


Outra mudança que surgiu para os hispanos-visigodos foi a legalização da poligamia e o concubinato. O cristianismo e o judaísmo não toleram a bigamia e a poligamia, mas o islamismo a permite, logo, cristãos e judeus que se converteram ao islão passaram a dispor do direito da poligamia e do concubinato, entretanto, havia algumas condições para isso.


Diferente do que se pensa, a maioria dos muçulmanos são monogâmicos, pois para se ter mais de uma esposa é preciso pagar além do dote, ter condições financeiras de manter de forma igualitária ambas as esposas. Logo, normalmente são os homens ricos quem possuem mais de uma esposa e no caso do concubinato o mesmo é válido. 

Escolhendo a favorita. Giulio Rosati (1858-1917).
Para se ter um harém, o homem precisava dispor de dinheiro para comprar as escravas do sexo e manter toda a mordomia que elas recebiam. Sendo assim, apenas os muito ricos dispunham de haréns. Quanto mais mulheres um homem dispuse-se em seu harém, era sinal de quão rico ele era, pois além de ter que manter em alguns casos dezenas de concubinas, as escravas mais belas custavam caro e dependendo das exigências do futuro dono, elas eram trazidas de longe, o que encarecia ainda mais os custos da viagem e da mercadoria.

Um último aspecto ainda a ser comentado sobre a sexualidade, diz respeito ao erotismo. Já foi comentado que as mulheres muçulmanas não precisavam esconder sua beleza, mas havia posturas de como se comportar publicamente, onde elas não poderiam fazer olhares sensuais e gestos com a boca, trajar roupas com decotes, mostrar as pernas e até mesmo os tornozelos, além do fato que as mulheres não andavam sozinhas pelas ruas, normalmente eram acompanhadas de familiares ou por escravos. 

No entanto, os árabes introduziram em Al-Andalus a chamada dança do ventre, uma dança de origem asiática que existe a milhares de anos, e que acabou sendo adotada pela cultura árabe. A dança do ventre se modificou ao longo dos séculos, logo, não podemos pensar que na Idade Média as mulheres se vestiam igual a hoje em dia. As roupas que elas usavam mudaram com o tempo, assim como, também encurtaram-se. 
 
Dançarinas da dança do ventre.

Com essa dança, o sensualismo artístico deixou de ser um tabu, pois entre os cristãos e judeus na região, mulheres que dançavam sensualmente era vistas como prostitutas ou vadias. No entanto, a cultura árabe embora tornou a dança do ventre numa dança aceitável em sua sociedade, mas não infere em dizer que as mulheres que dançavam tal tipo de dança, fossem bem vistas por toda a população. 

f) A arte hispano-mourisca: 

Falar de arte hispano-mourisca é um assunto bastante extenso e complexo, por abordar o campo da literatura, música, dança, arquitetura, pintura, escultura, etc. No entanto, para esse tópico, busquei focar alguns aspectos gerais relacionados a arte arquitetônica, a qual é mais conhecida e estudada nos livros de história, pois embora a literatura, música e dança árabes tenham influenciado a cultura hispano-visigótica, hoje em dia tais influências são poucas, mas no que se refere a arquitetura, por mais que seu estilo propriamente não influencie mais a arquitetura espanhola contemporânea, as construções se perfazem como monumentos desse legado.

"O Islã espanhol desenvolveu sua civilização e suas artes lentamente. Este moderado crescimento estava em proporção às forças da dinastia omíada: as tradições visi-góticas, as lembranças sírias e, cada vez mais, as contribuições de Bagdá faziam uma eficaz e original síntese. No século X, com o califado, este lento esforço conhece uma prodigiosa aceleração. Toda uma jovem civilização desabrocha-se, e mais do que nunca lembra o mundo abácida e, por vezes, Bizâncio. Mas ela jamais foi absorvida por seus empréstimos: ela consegue, com uma espantosa facilidade, elaborar sínteses perfeitas". (AZIZ, 1978, p. 223 apud Henri Terrasse, A Espanha da Idade Média). 

Durante os séculos da ocupação árabe, fortalezas, portos, casas, pontes, estradas, jardins, palácios e mesquitas foram construídos, no entanto, muito desse legado se perdeu nos séculos após o fim da dominição árabe em Al-Andalus. As mesquitas e alguns palácios e fortalezas foi o que sobrou desse tempo áureo do islão ibérico. 

"O primeiro vínculo entre a arte do Mundo Árabe e a religião se traduz na necessidade de preparar-se um local apropriado para o culto. Podemos pois afirmar que a arte muçulmana, em seu mais importante ramo, a arquitetura, tem a sua origem num imperativo prático de ordem religiosa: assegurar aos muçulmanos a possibilidade de se reunirem para a prece em comum às sextas-feiras. Desse imperativo nasceu o objeto principal da arquitetura islâmica, a mesquita, masdjid, o lugar de prosternação". (GIORDANI, 1976, p. 295-296).

Os árabes construíram ou transformaram igrejas em mesquitas, erguendo dezenas pela península, embora muitas acabaram sendo destruídas ao longo do tempo ou foram convertidas em igrejas, de qualquer forma, a mais famosa de todas ainda contínua sendo a outrora Grande Mesquita de Córdova, atual Catedral de Córdova, o monumento religioso máximo da arte hispano-mourisca. 

Vista área da Grande Mesquita de Córdova, Espanha.
A Grande Mesquita de Córdova, foi a maior mesquita erguida em Al-Andalus, além de ter sido uma das maiores do mundo muçulmano, embora hoje seja uma catedral católica. A mesquita começou a ser construída em 785, ocupando parte da antiga Basílica de São Vicente Mártir, construída no século VI. Após a conquista moura de Córdova, algumas igrejas foram destruídas, mas no caso da basílica foi fechado um acordo, no qual parte do prédio seria destinado ao culto islâmico, enquanto a outra metade ficaria de posse dos cristãos. 

Logo, cristãos e muçulmanos compartilhavam do mesmo local, separados por paredes. O emir Abd al-Rahman I comprou a outra metade da basílica em 785, então ordenou que todo a estrutura fosse ampliada e ganhasse definitivamente traços de uma mesquita. Nas décadas seguintes a mesquita seria ampliada.

"Na Espanha os invasores muçulmanos sentiram a influência da artes hispano-visigótica. É curioso notar aqui na grande mesquita de Córdova percebe-se quão fecundo foram os árabes num sincronismo artístico que não deixa de apresentar um cunho original e inconfundível. Com efeito, nessa famosa mesquita verificamos um encontro das principas influências sofridas pela arquitetura do Mundo Medieval: A Síria fornece os telhados de empenas, a nava central mais larga do que as vizinhas, a almenara quadrada; Bizâncio os mosaicos e, por intermédio da Tunísia, as abóbadas dos zimbórios; o Irã os seus arcos lobados; Roma as suas colunas arrancadas dos velhos monumentos e certas alternâncias de pedra e tijolo , o conjunto marcado por uma poderosa originalidade: menos do que o arco de ferradura, frequente sem dúvida na Hispânica visgótica, mas conhecido também no Oriente, é o sistema de arcos sobrepostos dois a dois que chama aqui a atenção do visitante. Decalque dos jogos de arcadas dos aquedutos romanos? Talvez...". (GIORDANI, 1976, p. 298).


Um dos salões da Grande Mesquita de Córdova.
"A grande Mesquita de Córdova, que em seu conjunto oferece um exemplo único na arquitetura islâmica, mede 178 metros de comprimento por 124 de largura e apresenta, entre outras, as seguintes características: 

1) As paredes externas contêm numerosas portas e estão consolidadas por múltiplos contrafortes.
2) Internamente encontram-se arcos em ferradura dispostos em dois andares, o que empresta à mesquita uma nota marcante de originalidade. 
3) Na construção do mihrab, Hakam teve a colaboração do basileu de Constantinopla que não só enviou um técnico em mosaico mas igualmente uma grande quantidade desse elemento decorativo.
4) As portas laterais que dão para o exterior chamam também a atenção por sua originalidade. É digno de nota a ornamentação constituída pelo arco em ferradura inscrito em retângulo.
5) Na decoração encontramos elementos epigráficos, motivos vegetais e desenhos geométricos". (GIORDANI, 1976, p. 304-305).


A Portão do Perdão na Mesquita de Córdova.
Outra construção arquitetônica marcante da arte hispano-mourisca foram os jardins. Infelizmente muitos não existem mais, mas os que ainda mantiveram o estilo mourisco, consistem em alguns dos mais belos jardins da Espanha. Os árabes além de trazerem plantas alimentícias e textêis para a península, trouxeram também plantas aromatizantes e de adorno como palmeiras, palmeiras anãs, roseiras, jasmins, etc., além de novas formas de organização do espaço, tendo influência dos jardins bizantinos, persas e egípcios, onde tais estilos se fundiram formando o estilo de jardim hispano-mouro. 

A Aljaferia em Saragoça.
Outra influência artística no campo da arquitetura, mas adentrando também a pintura, estava a produção de azulejos. Os árabes admirados com os mosaicos bizantinos, assimilaram para si essa arte e a desenvolveram. Por sua vez, a introduziram em Espanha e Portugal, um legado duradouro de ambas as culturas, principalmente dos portugueses, os quais se tornaram exímios produtores de azulejos. 

Como mencionado, as palavras azulejo e azul são de origem árabe, e tal fato se deve que originalmente os árabes usavam azulejos de cor azul e branca, com  motivos geométricos, abstratos ou vegetais; neste caso, as imagens representavam plantas ou folhas, pois a religião islâmica é contrária a representação de formas humanas, de animais e de paisagens, daí que nas mesquitas não haverem tais imagens, estando essas mais reservadas a literatura, pois a pintura e a escultura, não foram artes que tiveram grande desenvolvimento na cultura árabe devido a essa prerrogativa árabe.

Exemplo de azulejo estilo mudéjar ou hispano-mouro. Nota-se o uso de motivos geométricos e vegetais.
"A pedra, o mármore e o tijolo são os principais materiais de decoração; se encontramos gesso, não passam de ligações ou acréscimos posteriores ao século X. As cavilhas coloridas  dos arcos, a pintura em madeira e o mosaico oferecem aos olhos uma policromia cintilante". (AZIZ, 1978, p. 239-240).

Pelo fato de não se poder utilizar pinturas ou mosaicos com imagens de pessoas e animais como os bizantinos faziam, os árabes passaram a empregar azulejos para ornamentar o interior das mesquitas e dos palácios, o que levou a adoção de mosaicos chamados de arabescos

Tais mosaicos não foram um estilo inventado propriamente pelos árabes, mas sofreu alterações sob a arte islâmica. Seguindo o princípio de não retratar imagens de pessoas, animais e de paisagens, os arabescos representavam formas geométricas e vegetais. Os arabescos poderiam ser tanto pintados nos azulejos, nas paredes, em pratos, vasos, caixas, baús, tapetes, etc.; esculpidos na pedra ou no mármore, e até mesmo talhados na madeira. É comum encontrar arabescos nas mesquitas antigas e em alguns palácios, adornando janelas, portas, colunas, o teto e até o chão. A arte arabesca foi empregada em vários tipos de suportes ao longo dos séculos. 

Janelas em Alhambra, Granada, Espanha. Nota-se a junção de azulejos em baixo e arabescos em cima. O nome de Alá e de Mohammed estão grafados na parte dos arabescos.
Os arabescos também se fundiram com a caligrafia. No lugar de representar imagens, os muçulmanos preferem representar os nomes, logo, é comum encontrar em mesquitas os nomes de Alá e do profeta Mohammed, além de trechos ou citações do Corão. 

"O elemento epigráfico é igualmente muito importante. As letras árabes, sobretudo os caracteres kúficos são de um modernismo espantoso e de um grande efeito decorativo, e nenhuma escrita, nem mesmo a escrita síria, oferece os mesmo recursos: os versículos do Corão servem de motivos de ornamentação". (AZIZ, 1978, p. 240).

Economia em Al-Andalus:

Sob o governo árabe a economia andaluza cresceu significativamente, pois sob o novo governo, os mercadores hispanos passaram a ter acesso as mercados no norte da África e no Oriente Médio, o que facilitou o intercâmbio de mercadorias. Mas no que tange o campo da economia agropecuária, essa também sofreu mudanças com a inserção de novas culturas. Por mais que o comércio tenha crescido bastante, a principal renda do Estado ainda advinha do setor agropecuário. 

Quando os árabes iniciaram seu período de conquista que vai de 711 a 718 e posteriormente a fase de estabilização que chegue de 719 a 755, de início mantiveram os funcionários judeus e cristãos em seus cargos, mas a medida que a colonização foi se desenvolvendo, tais funcionários foram substituídos por funcionários árabes, embora alguns moçárabes se mantiveram em cargos importantes, no entanto, os principais cargos políticos e administrativos do emirado e do califado pertenciam a árabes.

Além dessa mundança no quadro do funcionarismo público como citado, a própria estrutura econômica, legislativa, administrativa e burocrática se modificou. O governo árabe passou a empregar em Al-Andalus sua moeda, novos pesos e medidas, leis, impostos, tributos, organização burocrática, etc. Se antes o governo visigótico baseava sua organização administrativa no Estado romano, isso foi substituído pelo modelo do Estado Omíada. 

Além dessa substituição é importante mencionar que o Reino Visigótico nunca foi uma monarquia centralizada e unificadamente forte. Os reis visigodos não eram hereditários propriamente, eles poderiam ser eleitos, além do fato que alguns governadores de províncias possuíam grande autoridade. Com o governo muçulmano principalmente na época do Califado de Córdova, o califa era o chefe supremo de Al-Andalus. A autoridade estava concentrada nele, o Estado era centralizado. Os ministros e governadores eram funcionários que trabalhavam para o califa, mas não eram "senhores" dos locais e regiões que administravam. 

Mas passando para o campo da produção econômica, comecemos com a agricultura. O setor agrário hispano era bem desenvolvido, mas os árabes o ampliaram com a introdução de novas culturas, técnicas de plantio e irrigação, e a ampliação do mercado consumidor, pois alguns produtos eram exportados. Entre as técnicas de irrigação estiveram a criação ou ampliação de canais, barreiras e reservatórios; a introdução do moinho de água ou roda d'água.

Grande parte da produção agrícola se concentrava no que hoje é a província espanhola de Andaluzia, a qual por sua vez consiste numa espanholalização do nome Al-Andalus. As terras baixas e férteis da Andaluzia eram ideias para o cultivo de culturas arbustivas, hortenses e leguminosas; daí proliferarem na região plantações de uva, azeitona, algodão e um pouco de cana de açúcar, além do cultivo dos legumes.


Localização da Andaluzia.
Já a leste da Andaluzia, na região da Múrcia, o cultivo de cereais e plantas tropicais era mais abundante devido a facilidade de irrigação, pois tais cultivos demandam maior quantidade de água. No caso das regiões de planalto e montanhosas a produção agrícola era menor, e voltada mais para subsistência dos pecuaristas, pois as terras elevadas se tornaram centros da criação de ovinos e caprinos. E devido ao crescimento do setor têxtil a base de lã, a quantidade de ovelhas e carneiros eram grandes, além do fato, de serem uma carne apreciada pela população.

No setor pecuário, a criação de ovelhas e carneiros, vacas e cavalos era a principal. Os árabes trouxeram novas raças de cavalos, vacas, ovelhas, etc., introduzindo-os na fauna local. A criação de cavalos, algo que já possuía certa fama na Hispânia da época romana, continuou a manter essa fama durante o governo árabe. Nobres de outros cantos do continente, enviavam representantes e compradores para ir comprar esses cavalos. 

Todavia, há uma ressalva a fazer. Algumas regiões montanhosas e de planalto tinham terras pouco férteis e eram pouco povoadas, além do fato de que havia uma grande porção de terreno coberto por florestas, que por sua vez proporcionou uma indústria madereira relativamente próspera, principalmente voltada para a construção naval, a fabricação de móveis e a marcenaria. Alguns cronistas árabes relataram essas terras desoladas, mas por outro lado, ficaram encantados com as florestas e as terras férteis, daí haver muitos trabalhos sobre agricultura, além de poemas exaltando a naturaza hispânica.

Sobre a vida rural e a natureza, Aziz nos forneceu com base no Calendário de Córdova para o ano de 961 algumas informações de como procedia os afazeres rurais, revelando que ao longo dos doze meses do ano, a atividade agrícola era constante, pois devido a abundância de culturas, a época para o cultivo e colheita variavam, e assim, ao longo do ano, os afazeres rurais sempre se mantinham.

"Em março, faz-se enxertor nas figueiras, o que o povo chama tarki; os cereais precoces desenvolvem-se sobre seus talos; a maior parte das árvores frutíferas iniciam sua folheatura. É o momento em que as fêmeas dos falcões da espécie valenciana põem seus ovos nas ilhas fluviais e os chocam durante 30 dias. Planta-se cana-de-açúcar. As rosas prematuras e os lírios desabrocham. Nas hortas, os pés de fava medram. As codornas começam a se mostrar; os bichos-da-seda saem dos ovos; do mar, mugens e arenques sobem aos rios. Plantam-se pepinos, semeiam-se o algodão, o açafrão, a beringela. É no curso deste mês que são enviadas aos agentes provinciais do fisco cartas ordenando a compra de cavalos para o governo. Semeiam-se erva-cidreira e manjerona. Os pavões, as cegonhas, as rolas e vários outros pássaros acasalam-se". (AZIZ, 1978, p. 85).

"Sempre de acordo com o calendário, em janeiro e em fevereiro o camponês coloca estacas nas oliveiras e nas romãzeiras, poda as videiras, empilha as canas-de-açúcar, enxerta as pereiras e as macieiras, enquanto sua mulher ocupa-se da incubação dos ovos dos bichos-da-seda. Em abril, ele planta as mudas de jasmim, semeiam a hena, a alfavaca, o arroz e os feijões. Em maio é a colheita de alguns grãos oleaginosos. Em seguida vem o verão, quando se procede à safra e à colheita de frutas. O outrono (setembro e outubro) é a estação da paração das lavouras. Novembro é o mês da colheita do açafrão e da apanha das bolotas e das castanhas nas florestas. Dezembro, enfim, é o mês das semeaduras nas hortas". (AZIZ, 1978, p. 85-86). 

No que se refere ao comércio, esse ficou bastante focado nas cidades, pois no campo as feiras eram bem simples ou inexistiam, sendo mais comum os camponeses irem as cidades e vilas venderem seus produtos.

"A importância do mercado urbano aparece muito cedo. De fato, o mercado abastece as necessidades da população urbana em produtos manufaturados e em provimentos, mas também é um local de encontro e de troca para a população rural dos arredores. A Espanha omíada parece, efetivamete, ter ignorado o mercado rural. Segundo a narração dos geógrafos árabes, o mercado estabelece-se em geral, às portas das cidades". (AZIZ, 1978, p. 73).

Além do fato do mercado urbano (souk) ser o principal ponto de comércio no Al-Andalus árabe, outro fato que conotava a supremacia da cidade sobre o campo, dizia respeito que em algumas cidades passaram a concentrar um grande número de artesãos e outros trabalhadores. As oficinas se espalhavam por cidades como Sevilha, Córdova, Toledo, Saragoça, etc. Eram nessas oficinas que se produziam tecidos, roupas, calçados, chapéus, joias, cerâmicas, utensílios de cozinha, móveis, tapetes, esteiras, ferramentas, talheres, armas, materiais de construção, etc. 

Pintura de um mercado (souk).
Algo também interessante da economia andaluza árabe, foi a especialização na produção. Certas cidades e regiões ficaram conhecidas por produzirem ou comercializarem determinados tipos de mercadorias. 

"O Islão espanhol, no seu apogeu, ofereceu um espectáculo soberbo. Os Árabes enriqueceram a vida da Península de muitas maneiras: na agricultura introduziram a irrigação científica e muitas novas culturas, incluindo citrinos, algodão, cana-de-açúcar e arroz. As alterações que operaram no regime da propriedade raural foram grandemente responsáveis pela situação próspera da agricultura espanhola sob o domínio árabe. Desenvolveram inúmeras indústrias - têxteis, faiança, papel, seda e refinação de açúcar, e exploraram importantes minas de ouro, prata e outros metais. A lã e a seda eram fabricadas em Córdova, Málaga e Almeria, a faiança em Málaga e Valência, armas em Córdova e Toledo, trabalhos em couro em Córdova, tapetes em Beza e Calcena, papel - importação árabe do extremo Oriente - em Jativa e Valência". (LEWIS, 1996, p. 144).

A cidade de Coimbra (Portugal) era famosa pelo cultivo das cerejeiras, a cidade de Sintra (Portugal) era conhecida pelo cultivo de maçãs e peras. Em Silves (Portugal) havia abundância de romãs; sem contar que a costa portuguesa era conhecida pela pesca do bacalhau. De volta a atual Espanha, Saragoça era famosa pela produção de linho, Córdova pela produção de brocados e joias, Baza e Finana pela produção de seda. Em Málaga, o fabrico de cerâmicas e objetos de cristais, e em Sevilha, o cultivo de oliveiras.

Sem contar que muitas minas de prata, ferro, cobre, etc., se concentravam no atual território espanhol, o que favorecia o desenvolvimento da metalurgia e da joalheria nas cidades atualmente espanholas. Outro aspecto dizia respeito a pesca, pois se o litoral português era conhecido pelo bacalhau, o litoral sul espanhol, era conhecido pela pesca de anchovas e sardinhas, além de outros frutos do mar como mariscos, camarões, polvos, lulas, etc. 

Até aqui delineamos alguns aspectos da produção agropecuária, da pesca e da produção manufatureira, entretanto, resta-nos falar sobre o comércio de escravos, um negócio que foi bastante rentoso por vários anos. 

Diferente do que se pensa, a escravidão não foi abolida totalmente da Europa durante a Idade Média. De fato em algumas regiões ela deixou de existir, mas no leste europeu, os povos eslavos a praticaram por séculos; na Escandinávia, ela ainda era praticada, os próprios vikings comercializavam escravos com os eslavos. E no caso de Al-Andalus a situação não foi diferente.

"Outro setor importante da economia omíada: o comércio de escravos. A Espanha, conta em sua população, com uma proporção bastante considerável de escravos dos dois sexos, brancos e negros, de origem européia ou sudanesa. Eles são fornecidos pelas razzias efetuadas em territórios cristãos, pelo trafégo de negros, pela pirataria marítima e pelos mercadores especializados neste gênero de comércio, principalmente judeus". (AZIZ, 1978, p. 77).

O comércio de escravos em Al-Andalus como assinalado por Aziz, não fazia distinção de cor, tanto brancos quanto negros eram escravizados, no entanto, normalmente se escravizava cristãos e pagãos, que posteriormente eram convertidos ao islão. 

Quanto a procedência dos escravo, no caso europeu, a maioria deles vinham do leste do continente, das terras eslavas. Daí os autores antigos denominarem os cativos procedentes dessas áreas pelos nomes de eslavões, eslavos e esclavões, que eventualmente originou as palavras escravo (português), esclavo (espanhol), slave (inglês), etc. A região que os eslavos habitavam era chamada de Esclavônia pelos autores árabes e depois luso-espanhóis. No entanto, tratava-se de uma região génerica, sem definição territorial própria, pois abrangia uma série de território e tribos eslavas.

Países europeus de origem eslava.
Os escravos eslavos eram gente de cor branca e poderiam ser de cabelos e olhos claros. As mulheres eram apreciadas pela beleza e os homens apreciados pela estatura e força, logo, muitos eslavos eram vendidos para serem eunucos, guardas e soldados. Os que não fossem aptos ao combate, eram vendidos para trabalhar no campo ou em outros afazeres.  

No caso dos escravos negros, a maioria procedia da região chamada de Sudão (não confundir com os atuais Sudão e Sudão do Sul), outro termo generalizante para designar as terras que ficavam ao sul do Magreb e do Egito, que por sua vez os árabes chamavam todos aqueles povos de sudaneses ("pessoas de cor negra"). As mulheres eram apreciadas pela beleza e os homens pela resistência e força. No mesmo caso que os eslavos eram usados, também era válido para os sudaneses.

Mercadores árabes num mercado de escravos.
Nos mercados de escravos (ma'rid) os escravizados eram separados por cor, sexo e idade. Os comerciantes de escravos (nakhkhas) faziam relatórios nos quais descreviam a aparência física e algumas habilidades que o cativo possuísse. Por exemplo, no caso das mulheres, se elas sabiam cozinhar bem, costurar, arrumar a casa, cuidar das crianças, etc. No caso dos homens, se eles sabiam plantar e criar de animais, lutar, fabricar algo, etc. 

Em respeito das escravas, segundo Aziz essas além de serem separadas por cor e idade, eram também separadas por "beleza". As mais belas eram reservadas para serem escravas de sexo, já as feias ou pouco belas, seriam vendidas para outras atividades.

"As escravas brancas e negras, muito apreciadas como concubinas, integram-se rapidamente a célula familiar, sobretudo se elas dão à luz crianças do sexo masculino". (AZIZ, 1978, p. 178).

A escravidão não era indissolúvel, pois o escravo ou escrava poderia receber de seu dono a liberdade, passando a dispor dos mesmos direitos de um homem ou mulher livres. Em certos casos, alguns escravos conseguiram conquistar posições de prestígio no serviço público ou na guarda pessoal do califa, passando a dispor de mordomias que nem os homens livres tinham. 

Emirado de Córdova (756-932):

No ano de 750 o último califa omíada Marwan II foi assassinado em 5 de agosto, então a Dinastia Abássida apossou-se do poder. A capital posteriormente foi transferida de Damasco na Síria, para Bagdá no Iraque. Todavia, alguns membros da família Omíada que conseguiram escapar da retaliação promovida pelos Abássidas, deixaram a Síria, e entre esses foragidos estava Abd al-Rahman I (731-788), também conhecido pela versão hispanizada de seu nome, Abderramão

Estátua de Abd al-Rahman I, em Almuñecar, Espanha.
O príncipe fugiu em direção ao Ocidente, chegando  a Al-Andalus, na esperança de poder resistir a perseguição dos Abássidas, mas para seu infortúnio o então emir ("comandante") de Al-Andalus, Yusuf al-Fihri era partidário dos Abássidas. Ao chegar em 755 em Almuñecar na península, Abd al-Rahman foi bem recebido pelo então emir e sua família, no entanto, o príncipe sabia que seu anfitrião possuía ligação com os inimigos de sua família. O emir Yusuf tentando ganhar o apoio do príncipe omíada, sugeriu um casamento dele, com uma de suas filhas, mas Abd al-Rahman preferiu pensar acerca disso. 

Ainda em 755 uma revolta estorou em Saragoça, o que obrigou o emir Yusuf e seu exército seguir até a cidade no centro da península, para acabar com a revolta, o que acabou dando tempo para que al-Rahman pudesse por seus planos em jogo. Com o apoio daqueles que eram partidários aos Omíadas, al-Rahman conseguiu formar um exército e tomou para si, Sevilha. No ano seguinte ocorreu o conflito. 

Em 756 ocorreu diante do rio Guadalquivir nos arredores de Córdova o confronto entre os dois exércitos. Na ocasião as forças de Abd al-Rahman saíram vitoriosos, obrigando Yusuf e seu exército bater em retirada. No dia 15 de maio daquele ano, Abd al-Rahman entrou triunfante em Córdova, e se proclamou novo emir de Al-Andalus, mas com a diferença de está fundando um emirado com sede na cidade. 


O rio Guadalquivir em Córdova. Cenário do confronto entre Abd al-Rahman e Yusuf al-Fihri.
Antes de proclamar Córdova como capital de Al-Andalus, os emires da península não possuiam uma capital fixa, por sua vez, alguns chegaram a morar em Córdova, Toledo, Sevilha entre outras cidades. De 756 até 1031 Córdova seria a capital árabe de Al-Andalus, tornando-se a maior e mais próspera cidade da Ibéria e da Europa por vários anos, pois os cronistas árabes nos relatam que a população da cidade chegou a ultrapassar mais de 100 mil habitantes, um número bastante grande para a Europa, já que em geral as cidades europeias mal chegavam aos 20 mil habitantes. 

"Em 755, o fundador do império de Córdova, o Omíada Abd al-Rahman, desembarca nas costas da Espanha, 45 anos após a conquista da península. A dinastia dos Omíadas durará nas Espanha mais de 250 anos. Apesar dos problemas políticos, das dissensões internas, das incessantes ofensivas dos cristãos do Norte, das pretensões de seus terríveis vizinhos marroquinos, apesar também de seu extremo afastamento dos epicentros do islã, esta dinastia edificará sobre o solo ibérico uma incomparável civilização". (AZIZ, 1978, p. 225-226). 

Por mais que Abd al-Rahman tenha governado por cerca de 32 anos, seu reinado foi bastante complicado em vários momentos. Ao fundar um novo emirado ele passou a dispor de vários inimigos: Yusuf não havia desistido totalmente, e em 759 voltaria a confrontar o emir, mas novamente seria derrotado. Além do emir destronado, havia todo os seus partidários que se opunham ao governo omíada. Por outro lado, havia ameaça do Reino de Léon no norte da península, onde os cristãos tentavam expulsar os árabes. Do Marrocos vinha as conspirações entre os berberes, onde alguns almejavam o controle de Al-Andalus, e do Iraque vinha a ameaça do próprio califa Abássida. 

De início Abd al-Rahman tentou manter as boas relações com os Abássidas, onde na prática o Emirado de Córdova ainda consistia numa província do Califado Abássida, mas possuíndo autonomia administrativa, mas isso não foi o bastante. Em 763 o então califa al-Mansur enviou um exército e designou um novo emir para que este destronasse Abd al-Rahman do poder, no entanto, o exército abássida e o emir designado foram derrotados em Carmona naquele ano, e em 764 as forças abássidas que se encontravam em Toledo, foram derrotadas. O emir al-Rahman enviou a cabeça dos derrotados para o califa. 

Anos depois novos problemas surgiram. A cidade de Saragoça voltou a se rebelar e declarar-se indepente do governo do emirado, embora o governante árabe o autoproclamado governante de Saragoça, Suleyman Ibn al-Arabi decidiu procurar ajuda não no Reino de León, tradicionais inimigos, mas buscou ajuda no outro lado dos Pirineus, na França. Lá ele enviou embaixadores solicitando apoio do poderoso rei franco, Carlos Magno (742-814), o qual aceitou a aliança. 

A expedição de Carlos Magno a Espanha acabou sendo um malogro. Suleyman rompeu com o acordo, negando de última hora apoiar o exército franco que se aproximava de Saragoça. Logo, Carlos Magno temendo que o exército do emir pudesse ser mais forte do que se supunha, decidiu se retirar da Espanha, mas na travessia dos Pirineus, as tribos bascas atacaram o exército franco em Roncesvalles, um duro golpe a retaguarda franca, que acabou destruíndo parte do exército, como também vitimou Rolando, parente do rei, que por sua vez deu origem a icônica Canção de Rolando (datada por volta do século XI), o cavaleiro cristãos que morreu com honra. 

Pintura retratando o encontro de Carlos Magno com o falecido Rolando, morto na Batalha de Roncesvalles, 778. A pintura data de alguns séculos após os eventos históricos, e se encontra empregnada pelo romanceamento que surgiu sobre tal acontecimento.

Em 780, o emir Abd al-Rahman conseguiu contornar os problemas em Saragoça, reconquistando a cidade e massacrando as tribos bascas. Todavia a partir de 785 os francos voltariam a causar problemas ao emirado, pois embora Carlos Magno nunca mais retornou a Espanha, seus generais continuaram a seguir aos Pirineus e a conquistar territórios, o que levou a criação da Marca da Espanha, região vassala ao Reino Franco, ao mesmo tempo, oposta ao Emirado de Córdova. A Marca da Espanha existiria até o ano de 810, quando os árabes conseguiriam reconquistá-la. 

Após a morte de Abd al-Rahman I, seu filho Hisham governou de 788 a 796, fazendo um governo breve, mas relativamente tranquilo. O segundo emir concluiu as obras na Grande Mesquita de Córdova, embora como dito, ela seria ampliada nas décadas seguintes. Enviou novas expedições ao reino cristão no norte de Al-Andalus, confrontou em vão o exército franco para reaver os territórios perdidos. 

O segundo filho de Hisham, Al-Hakam (c. 770-822) assumiu o cargo de emir, mas sob seu governo, ele teve que enfrentar traições e conspirações familiares, pois sendo ele filho de uma concubina e não de uma das esposas de Hisham, seus tios Suleyman e Abdallah não reconheceram sua autoridade. Tendo conseguido derrotar as pretensões de seus tios de tomarem o poder, o emir se viu diante de novos problemas: o exército franco invadiu e tomou Barcelona, ampliando os domínios da Marca da Espanha, no entanto, o principal perigo não estava nos francos, mas era interno.

O emir entrou em conflito com os Fuqaha (faqih no singular) os homens versados no direto corônico (fiqh). Os fuqaha representavam uma classe poderosa na sociedade islâmica, eles estudavam e propunham as leis, possuindo grande influência sobre o Legislativo. Quando o emir Al-Hakam cortou alguns de seus privilégios, eles decidiram incitar uma revolta contra o emir.

"Os fuqaha, indignados por haverem perdido a influência de que gozavam no governo, incitaram contra o emir as classes inferiores da população constituídas em grande parte pelos muwallad, isto é, aqueles que haviam abandonado sua religião para converter-se ao Islã, e seus descendentes. Córdova e Mérida foram abaladas com revoltas. Em Toledo, cidade habitada em grande parte por moçárabes (...), o emir tomou drásticas medidas mandando decapitar as pessoas mais influentes (807)". (GIORDANI, 1976, p. 108). 

Posteriormente, o emir ordenou que os fuqaha envolvidos nas revoltas fossem banidos de Córdova e do emirado. Os que se recusaram, foram presos ou executados. Entretanto, é importante perceber que no governo dos três primeiros emires, o Estado vivenciou uma crise política, alternando entre guerras, invasões, revoltas, conspirações e traições. A situação só mudou durante o governo de Abd al-Rahman II (792-852).



"O reinado de Abd ar-Rahman II (822-852) foi um período de paz relativamente longo. Abd ar-Rahman reorganizou o reino cordovês segundo os modelos abássidas, introduzindo uma adminstração centralizada e burocrática e a estrutura abássida da corte. Sobressaiu como protector das letras, tendo trazido muitos livros e estudiosos do Oriente, reforçando grandemente os laços culturais entre o Islão espanhol e os centros da civilização islâmica no Oriente. Uma das figuras mais notáveis foi Ziryab, músico persa afastado da corte de Harun ar-Rashid pela inveja do seu professor. Foi refugiar-se na corte de Córdova. Ziryab tornou-se árbitro incontestado do gosto e da moda na capital espanhola, introduzindo muitos requintes novos e desconhecidos da civilização oriental, desde os estilos musicais do Oriente até ao uso de belas túnicas e aos espargos". (LEWIS, 1996, p. 140-141). 


Embora seu governo prospera-se, Abd al-Raham teve que conter alguns problemas, como uma revolta em Toledo, revoltas de moçárabes e a pirataria viking. No ano de 844 o emirado viria a conhecer a fúria viking. Vindos do Norte da Europa, os vikings no ano de 844 atacaram e pilharam locais Gijón e Lisboa, depois seguiram para o sul e atravessaram o Estreito de Gibraltar, onde subiram pelo rio Guadalquevir, indo saquear Cádiz, Sevilha e Córdova. Só a cidade de Sevilha foi alvo de um cerco de sete dias, feito pelos invasores vikings. 

Com a surpresa das invasões, saques, mortes e destruição, o governo árabe reforçou suas defesas e a vigilância de suas águas. Os vikings retornariam anos depois em mais algumas inscursões a Espanha, mas sem causar grandes problemas ao emirado, mesmo assim, eles ainda conseguiram atacar e saquear algumas cidades. 

O emir também tentou firmar laços de união com os bizantinos, na tentativa de ganhar proteção das ameaças do Califado Abássida, assim como, também ajudar o Império Bizantino a confrontar o califado e o Emirado dos Aglábidas no norte da África.

Após Abd al-Rahman II os dois emires que o sucederam, colocaram o Estado em desequilíbrio novamente. Muhammad I (852-886), conhecido por sua avareza e intolerância religiosa, pois em seu governo houve ondas de perseguição aos moçárabes, o que enfureceu a população moçárabe, os colocando contra o governo do emir. Algumas revoltas eclodiram ao longo de seu extenso reinado, mesmo assim, ele conseguiu se manter no poder. No entanto, essas revoltas levaram a quebrar a autoridade do emir e a centralização do Estado, pois alguns governadores passaram a proclamar independência do emirado. 


Sucedendo Muhammad I, esteve seu filho Al-Mundir (886-888), o qual governou por dois anos, e acabou sendo envenenado pelo seu próprio irmão Abd Allah, o qual governaria até 912. Em seu governo de 24 anos, o emir Abd Allah tratou de pacificar as províncias rebeldes, massacrando os revoltosos e negociando com os tolerantes. Após a sua morte, lhe sucedeu seu neto Abd al-Rahman III (912-929) o último emir de Córdova, o qual se tornou o primeiro califa de Córdova. 

A extensão máxima do Emirado de Córdova no ano de 929.
"Ao assumir o governo, Abd al-Rahman III encontra o emirado interiormente minado pelos movimentos separatistas e exteriormente ameaçado por poderosos adversários. O neto de Abd Allah revelou-se à altura das circunstância e nos longos anos de seu reinado conseguiu tamanho êxito que sua época é considerada o apogeu do domínio muçulmano na Espanha". (GIORDANI, 1976, p. 109).

Califado de Córdova (929-1031):

No ano de 929, o então emir Abd al-Rahman III (891-961) assumiu o título de califa, passando a ser o chefe político, militar e religioso supremo de Al-Andalus. Se antes o emirado de Córdova ainda possuía ligações políticas com o Califado Abássida, agora o Califado de Córdova era oficialmente um Estado independente. As relações com os Abássidas ainda se manteriam, mas não da condição de província para império, mas agora de Estado para Estado.

Abd al-Rahman III, o primeiro califa de Córdova.

"O título de califa foi assumido em 929: Em resposta aos fatímidas que criaram um califado na Ifríqiya, Abd al-Rahman fez-se também proclamar califa e amir al-muminin, colocando-se assim como defensor da ortodoxia sunita e igualmente como soberano poderoso, continuador da dinastia omíada. Como caliufa, ele se torna juiz supremo, o imam infalível e se reveste de uma dignidade religiosa que até então lhe fazia falta". (GIORDANI, 1976, p. 109).

"O Califado de Abd al-Rahman III deu início ao apogeu Umayyad. O seu reinado foi um período de estabilidade política e de paz interna, durante o qual tanto os chefes feudais árabes como os montanheses berberes se encontravam submetidos firmemente ao governo central. As influências do Oriente enfraqueceram e começou a emergir uma civilização hispano-árabe característica, em que a tradição árabe clássica se submetia às subtis influências da ambiência local. Ao mesmo tempo, matninha-se as relações comerciais com o Oriente e a abertura de relações diplomáticas com Bizâncio testemunha o poder e o prestígio que gozava o Estado omíada". (LEWIS, 1996, p. 141). 

Algumas das principais reformas e decisões feitas pelo califa Abd al-Rahman III estiveram segundo Giordani (1976, p. 109-110):
  • Respeitar os direitos dos moçárabes e encerrar a perseguição aos mesmos;
  • Por fim as revoltas de grupos oposicionistas radicais e separatistas. Em 933, a cidade de Toledo foi invadida, e os últimos rebeldes foram derrotados.
  • Para evitar conspirações e traições palacianas, o califa passou a se manter cercado apenas das pessoas mais leais que possuía, além de formar uma guarda real composta de escravos eslavos, fortemente submissos e leais a sua autoridade. 
  • Ordenou a construção de bibliotecas, banhos públicos, mesquitas, casas, estradas, pontes, etc. A cidade de Córdova cresceu muito durante seu reinado, tornando-se a segunda maior cidade da Europa, ficando atrás apenas de Constantinopla (atual Istambul), capital do Império Bizantino. 
  • Ordenou a construção de uma nova capital nas proximidades de Córdova, chamada Madinat al-Zahra ou Medina al-Zahra, como parte de seu projeto de segurança. A nova residência oficial do califa, seria um suntuoso palácio guarnecido. 
  • Empreendeu entre 920 e 939 campanhas contra os reinos cristãos no norte da Espanha. Obtendo algumas vitórias e derrotas.
  • Para evitar uma invasão do Califado Fatímida que governava o Norte da África, o califa ordenou a construção de uma poderosa armada, assim como, invadiu e tomou para si algumas regiões do Magreb, o que incluiu a cidade de Ceuta. Dessa forma ele assegurava controle do Estreito de Gibraltar, mantinha tropas no continente africano, e incitava os berberes a se oporem aos fatímidas. 
  • Enviou embaixadores para Constantinopla e até para o Sacro Império Romano-Germânico, onde na ocasião o imperador Otão I, enviou uma embaixada de volta a Córdova, em agradecimento a diplomacia ofertada pelo califa.
Vista aérea das ruínas de Medina al-Zahra, a capital construída pelo califa Abd al-Rahman III.
Sucedendo Abd al-Rahman III, esteve seu filho Al-Hakam II (915-976). Al-Hakam governou por 15 anos, um reinado bem curto se comparado ao de seu pai, mesmo assim, foi um governo próspero, pois muito das reformas que seu pai realizou, foram mantidas. 

Como já dito, Al-Hakam II foi um ávido colecionador de livros, montando para si possívelmente a maior biblioteca da península; ordenou a expansão da Grande Mesquita de Córdova e a conclusão das obras de Medina al-Zahra. Seu governo ficou mais conhecido pela realização de grandes obras, incentivo a cultura e as artes, e melhorias no desenvolvimento econômico. 

Com a sua morte em 976, seu filho Hisham II se tornou o novo califa, mas por ser bastante jovem, ele passou a ser tutelado pelo vizir Amir Mohammed Ibn Abi Amir, homem que ganhou a confiança do califa Al-Hakam II. No entanto, na prática era o vizir Amir quem governava o país.  

Busto de Amir Mohammed Ibn Abi Amir, mais conhecido como Almançor.
Durante vários anos, Amir organizou o cenário político e militar para atender aos seus interesses. Dispensou a guarda eslava, e acolheu uma guarda de berberes, os quais eram mais fiéis a ele. As pessoas que eram contrárias as suas medidas ou suspeitavam que ele pretendia usurpar o poder, foram afastadas, banidas ou mortas. Amir ordenou que administração do califado que se mantinha ainda em Córdova, fosse transferida para Medina al-Zahira ou Medinat al-Zahira, cidade que mandou construir aos moldes da cidade feita pelo califa Abd al-Rahman III. A nova cidade se tornou o centro político do califado.

Impulsionado por seus interesses expansionitas, empreendeu campanhas militares no Magreb e nos reinos cristãos hispânicos de 979 a 1002, o que totalizou mais de vinte anos de constante movimento militar nas fronteiras do norte do califado. Cidades como Zamora, Barcelona, Coimbra, Lisboa, Pamplona, Salamanca, entre outras, foram invadidas, saqueadas e incendiadas. Parte da população foi executada ou escravizada.  

Mapa com as cidades e datas das campanhas militares de Almançor.
A região da Galícia foi conquistada em 997, e na ocasião os exércitos de Amir, o qual passou a ser conhecido como Al-Mansur billah ou Almançor ("o vitorioso por favor de Alá"), ordenou o saque da região, mas poupou de pilhar e destruir a Catedral de Santiago de Compostela. No entanto, ordenou que as portas fossem arrancadas e escravos cristãos as carregassem até Córdova.

"Apersar dos êxitos bélicos, a posição de Ibn Abi Amir estava sujeita a contestação, pois o pode de fato que ele exercia revestia, aos olhos de muitos, o aspecto de verdadeira usurpação. Entretanto o usurpador aliava à capacidade de guerreiro a habilidade de político, o que lhe permitiu manter-se no poder até sua morrte ocorrida em 1002. A partir dessa data inicia-se a inexorável decadência do califado de Córdova. Lutas de partidos e deposições de califas caracterizam essa época. Enquanto ao norte os cristãos recuperavam as terras perdidas, os bandos berberes destruíam para sempre as belas cidades de Madinat al-Zahra e Madinat al-Zahira. Desta não resta mais que a lembrança". (GIORDANI, 1976, p. 111). 

Com a morte e Almançor, Hisham II pode finalmente governar por direito, mas iniciava-se a fase de instabilidade no poder do califado, no que gerou uma guerra civil, conhecida como fitna de Al-Andalus. Em 1009 o filho de Almançor, Abd al-Rahman Sanchuelo foi assassinado e o califa Hisham II foi deposto num golpe de Estado dado por um de seus sobrinhos, Muhammed II (bisneto de Abd al-Rahman III). 

No ano seguinte, Muhammed II passou a ser confrontado por Hisham II na tentativa de recuperar o poder, mas também foi confrontado por Solimão I, o qual estava interessado no título de califa. Muhammed II foi assassinado em 1010, passando a disputa a ficar entre Hassim II e Solimão I, os quais se alteram no governo. Ao mesmo tempo, que essa guerra pelo califado ocorria, novas inscursões no norte recobravam os territórios anteriormente perdidos para Almançor; revoltas de berberes e moçárabes eclodiam pela península, e para piorar, o crescente grupo de escravos eslavos se tornava uma ameaça. 

Após a morte de Solimão I em 1016, mais nove califas o sucederam, tendo estes governados em um curto espaço de tempo, variando de um ano a três anos. O curto mandato de tais califas se deu ao prolongamento da guerra civil, que levava a constantes golpes de Estado, conspirações, traições e assassinatos. Finalmente em 1031 com a morte de Hisham III, o califado de Córdova foi abolido, sendo dividido em pequenos reinos. Em menos de três décadas a Dinastia Omíada de Al-Andalus que governou por quase três séculos, ruiu de vez. 

"A desintegração do califado de Córdova resultou em numerosos e pequenos estados independentes cujos chefes foram chamados pelos árabes "muluk al-Tawaif", reis de taifas". (GIORDANI, 1976, p. 112).

"Os mais importantes reinos de taifas foram os de Sevilha, Saragoça, Valença, Granada, Málaga, Dênia, Badajoz e Almeria. É curioso notar que, apesar da decadência política do Islã espanhol, profundamente fracionado e até atomizado, as pequenas cortes desses reis de taifas se convertem em focos magníficos de cultura literária, artística e científica". (GIORDANI, 1976, p. 112). 

Considerações finais:

Após o primeiro período dos Reinos de Taifas (1031-1090) outros dois períodos de taifas se sucederam, no entanto, entre eles houve o domínio dos Almorávidas (1090-1146) e o Califado Almoáda (1146-1228), todavia foram Estados não de origem hispânica, mas de origem berbere, que por sua vez expandiram seus territórios para Al-Andalus. Todavia, o Reino Nasrida de Granada (1238-1492) foi o mais duradouro destes novos Estados que sucederam os Reinos de Taifas. Os nasrida foram o último esplendor do islão espanhol, refugiados no sul da península e resistindo por mais de dois séculos de conflitos com os espanhóis, portugueses e outros povos. 

De qualquer forma, o legado árabe surgido no século VIII perpertuou-se mesmo após a quedade de Granada em 1492, e embora muito da cultura árabe tenha sido abolida (língua, literatura, música, religião, costumes, roupas, etc.,) ainda assim, alguns aspectos já mencionados anteriormente se mantiveram e ainda se mantém legados nas culturas portuguesa e espanhola. Por mais que alguns reis cristãos tentaram apagar da história da península os vestígios da colonização muçulmana, não é fácil se extinguir uma cultura que se impregnou por séculos, e foi bastante forte.

NOTA: As famílias Mouro, Moura, Mourão, Morão e Moreno possuem um legado árabe visível em seus nomes. Além disso, é importante mencionar que algumas famílias com nomes aparentemente de origem portuguesa e espanhola, na verdade são variações de nomes árabes e até judios. Alguns exemplos são: Almodóvar, Azevedo, Albuquerque, Azeredo, Alvres, Bareda, Cahral, Feijó, Fogaça, Fragoso, Luzarte, Marçal, Manganês, Moreira, Mouzinho, Moraes, Munhoz, etc. 
NOTA 2: O nome Maurício significa "aquele que tem pele negra". 
NOTA 3: Originalmente o título de califa dizia respeito ao sucessor do profeta Maomé, neste caso, o sucessor era detentor da autoridade política e religiosa. Todavia, acabou perdendo essa função de "sucessão" para se tornar um título de poder como o título equivalente a rei em outras nações.  
NOTA 4: A cidade de Medina al-Zahra começou a ser construída em 936, no entanto, não há certeza de quanto tempo durou as obras. Alguns cronistas falam que 10 mil homens trabalharam por dez anos para concluir toda a cidade; outros dizem que as obras ao todo duraram vinte anos. De qualquer forma, sabe-se que o califa utilizou uma grande mão de obra de escravos e trabalhadores livres para erguer sua nova capital, se tornando o mais suntuoso palácio de toda Al-Andalus.

Referências bibliográficas:
AZIZ, Phillipe. A civilização hispano-moura. Rio de Janeiro, Editions Ferni, 1978. (Grandes Civilizações Desaparecidas). 
ECO, Umberto (org.). Idade Média - Bárbaros, cristãos e muçulmanos. Alfragide, Dom Quixote, 2010.
GIORDANI, Mário Curtis. História do Mundo Árabe medieval. Petrópolis, Voezes, 1976. 
HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo, Companhia de Bolso, 2011.
LEWIS, Bernard. Os Árabes na História. Tradução de Maria do Rosário Quintela. 2a ed, Lisboa, Editorial Estampa, 1996.
LYON, H. R (org.). Dicionário da Idade Média. Tradução de Álvaro Cabral e revisão de Hilário Franco Júnior. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997. 
OLAGÜE, Ignacio. La Revolución Islámica in Occidente. Paris, Flammarion, 1969.
MANTRAN, Robert. A expansão muçulmana: séculos VII-XI. Tradução de Trude von Laschan Solstein. São Paulo, Pioneira, 1977. 
NARTINS, Oliveira. História da civilização ibérica. Lisboa, Círculo de Leitores, 1987. (A Geração de 70 - volume VII). 
MIQUEL, André. O Islame e a sua civilização: séculos VII-XX. Tradução de Francisco Nunes Guerreiro. Lisboa/Rio de Janeiro, Edições Cosmos, 1971.

Links relacionados:
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A Saga Viking
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