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Leandro Vilar

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vinte de Novembro: história e conteúdo



 Vinte de Novembro: história e conteúdo


Oliveira Silveira


A evocação do dia Vinte de Novembro como data negra foi lançada nacionalmente em 1971 pelo Grupo Palmares, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Mas quem lê o manifesto nacional do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR), divulgado em novembro de 1978 e designando a data como dia nacional da consciência negra, não encontra no texto nenhuma referência a essa iniciativa gaúcha ou ao trabalho continuado pelo grupo nos anos seguintes.

Resultante do MNUCDR, o Movimento Negro Unificado (MNU) (1978, p. 75 e 78), em livro sobre seus dez anos de luta contra o racismo, não vai nesse sentido além do que havia escrito a saudosa Lélia Gonzalez (1982, p. 31): "E é no início dos anos setenta que vamos ter (...) o alerta geral do Grupo Palmares, do Rio Grande do Sul, para o deslocamento das comemorações do treze de maio para o vinte de novembro..." Ou ainda, a mesma autora:

Graças ao empenho do MNU, ampliando e aprofundando a proposta do Grupo Palmares, o 20 de novembro transformou-se num ato político de afirmação da história do povo negro, justamente naquilo em que ele demonstrou sua capacidade de organização e de proposta de uma sociedade alternativa... (p. 57).

Interessante é que, por outro lado, a história do Vinte teve espaço e foi contada em outras publicações do MNU pelo mesmo componente do Grupo Palmares (Oliveira Silveira) ou com sua participação: revista do MNU, boletim do MNU-RS, jornal Nêgo, Jornal do MNU.

Surgindo em 18 de junho de 1978 como convergência de várias entidades, algumas das quais já celebravam o Novembro, o MNUCDR encontra a evocação do vinte de novembro com um longo caminho trilhado. Para enfocar primeiros passos, acompanhar trajetória, examinar contexto, potencial e significado, vai ser importante um flash-back, recuando no tempo uns sete anos ou mais.

Do Treze ao Vinte

Treze de maio traição.
liberdade sem asas
e fome sem pão.

Embora esses versos tenham sido escritos em 13 de maio de 1969 – Oliveira Silveira (1970, p. 9) –, o crítico mais veemente dessa data, da abolição e da lei chamada Áurea, era Jorge Antônio dos Santos. O grupinho de negros se reunia costumeiramente em alguns fins de tarde na Rua da Praia (oficialmente, dos Andradas), quase esquina com Marechal Floriano, em frente à Casa Masson. Eram vários esses pontos de encontro, havendo às vezes algum deslocamento por alguma razão. Pontos negros.

Na roda, tendência à unanimidade. O treze não satisfazia, não havia por que comemorá-lo. A abolição só havia abolido no papel; a lei não determinara medidas concretas, práticas, palpáveis em favor do negro. E sem o treze era preciso buscar outras datas, era preciso retomar a história do Brasil.

Nas conversas, a República, o Reino, o Estado, os quilombos de Palmares (Angola Janga) foi o que logo despontou na vista d'olhos sobre os fatos históricos. Antônio Carlos Cortes, Vilmar Nunes e o citado Jorge Antônio vinham de experiências no Grupo de Teatro Novo Floresta Aurora, na então quase-quase centenária Sociedade Floresta Aurora (de 1872, ou 1871).

Esse grupo, criado em dezembro de 1967 por iniciativa de Mauro Eli Leal Pare, apresentara o monólogo da paz "Contra a guerra" é juntamente com o Grupo de Teatro Marciliense (GTM), coordenado por Luiz Gonzaga Lucena no Clube Náutico Marcílio Dias (negro como o Floresta Aurora), ousara encenar no Teatro São Pedro o Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes.

O fato é que esses três freqüentadores do ponto na Rua da Praia falavam em Arena conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri. E eram bem conhecidas as músicas "Estatuinha", de Edu Lobo, "Upa, neguinho", de Edu Lobo e Guarnieri, ou aquela que fala em Ganga Zumba e Zambi, composições integrantes da trilha nessa peça famosa.

Circulava na época o fascículo Zumbi, o n° 6 na série Grandes Personagens da Nossa História, da Abril Cultural. Essa publicação fortaleceu no freqüentador Oliveira Silveira a idéia de que Palmares fosse a passagem mais marcante na história do negro no Brasil. Um século de liberdade e luta contra o escravismo imposto pelo poder colonial português era coisa muito significativa e animadora. E lá estava o dia 20 de novembro de 1695, data da morte heróica de Zumbi, último rei e líder dos Palmares, marco assinalando também o final objetivo do Estado e país negro.

Não podia, porém, um fascículo (ele trazia copyright de 1969) ser considerado fonte absoluta de consulta, mas O quilombo dos Palmares, livro de Édison Carneiro publicado em 1947 pela Editora Brasiliense, de São Paulo, oferecia-se como a referência adequada e segura, parecendo ter sido base para a elaboração do fascículo. Confirmava o 20 de novembro como data da morte de Zumbi, o que foi corroborado mais adiante pela obra As guerras nos Palmares, do português Ernesto Ennes, editado em 1938 pela Companhia Editora Nacional, de São Paulo, numa coleção valiosa, a Brasiliana. Transcrevendo documentos, o autor inclui cartas alusivas à morte de Zumbi e aceita a informação de Domingos Jorge Velho dando conta de que ela ocorreu em 20 de novembro de 1695, conseguida por um terço comandado por André Furtado de Mendonça. Tinha-se uma data, e ela foi sugerida, como possibilidade de celebração em contraponto ao treze de maio, no momento em que se concretizou a idéia de formar um grupo.

Foram quatro os participantes da primeira reunião, iniciadores da agremiação ainda sem nome: Antônio Carlos Cortes, Ilmo da Silva, Oliveira Silveira e Vilmar Nunes. Um quinto, de nome Luiz Paulo, assistiu mas não quis fazer parte do trabalho. A idéia era um grupo cultural com espaço para estudos e para as artes, notadamente literatura e teatro. Afinal estavam bem presentes e atuantes os exemplos do Teatro Experimental do Negro (TEM), a militância de Abdias do Nascimento, os exemplos do poeta Solano Trindade e do Teatro Popular Brasileiro.

Era preciso conhecer mais a história, debater as questões raciais, sociais. Vinham do exterior instigações como capitalismo versus socialismo, negritude, independências africanas e movimentos negros
estadunidenses. A reunião foi por volta de 20/7/1971.

Já na próxima ou em alguma das reuniões seguintes ingressaram Anita Leocádia Prestes Abad e Nara Helena Medeiros Soares (falecida), também consideradas fundadoras. O local da primeira reunião foi a casa dos professores José Maria Vianna Rodrigues (falecido no ano anterior), Maria Aracy dos Santos Rodrigues, Julieta Maria Rodrigues, Oliveira Silveira e da menina Naiara Rodrigues Silveira, futura docente, e residência também da professora Jovelina Godoy Santana, guardiã de lições de vida (longa), situada na Rua Tomás Flores nº 303, bairro Bonfim. Ali haviam sido corroborados os estudos do vinte de novembro, e de Palmares, com a leitura do livro de Ernesto Ennes, num esquecido e mal folheado exemplar cedido ainda em vida pelo professor José Maria. Lembrado e retomado em momento oportuno, o volume passou a ser devidamente reconhecido como valioso. Casa de professores negros.

A segunda reunião e algumas das seguintes foram em casa de Antônio Carlos Cortes e seus familiares, no prédio da Loteria estadual sito à Rua da Praia, quase esquina com a Rua João Manuel. Foi onde e quando o trabalho nascente recebeu o nome de Grupo Palmares. Tinha sido combinado convidar outras pessoas, e algumas compareceram para conferir a proposta (na segunda ou em outras reuniões), mas não se integraram. Foi, por exemplo, o caso do ator Aírton Marques, vindo da experiência exitosa do Teatro Saci, grupo vencedor de um Festival Martins Pena em 1965, ano de sua fundação, presidido por Eloy Dias dos Angelos (militante histórico, advogado e jornalista), tendo como vice-presidente a professora Horacilda do Nascimento e contando, entre outros valores, com a excelente atriz Eni Maria das Neves. Em Orfeu do carnaval, 1969, Aírton encarnara Orfeu, enquanto Eurídice era representada por Marilene Paré. As negativas de gente do teatro, por motivos de cada pessoa, devem ter determinado o fato de o Palmares nunca ter realizado um trabalho próprio na área da dramaturgia.

A denominação Grupo Palmares nasceu do conjunto de participantes da segunda reunião devido às considerações de que Palmares parecia ser a passagem mais marcante na história do negro no Brasil ao representar todo um século de luta e liberdade conquistada e sendo também um contraponto à "liberdade" doada no treze de maio de 1888, etc. Outras propostas de nome praticamente não tiveram espaço.

Ao expor brevemente essas considerações já compartilhadas desde as reuniões informais do ponto na Rua da Praia, o componente que vinha estudando Palmares e tentando uma vista d'olhos sobre a história (Oliveira Silveira) – estudos impulsionados por aqueles encontros e diálogos – sugeriu a adoção e evocação do dia 20 de novembro, morte heróica de Zumbi e final de Palmares, justificando:

– não se sabia dia e mês em que começaram as fugas para os
Palmares (lá por 1595);

– não havia data do nascimento de Zumbi ou outras do tipo
marco inicial;

– Tiradentes também era homenageado na data de morte, 21 de
abril.

A homenagem a Palmares em 20 de novembro foi incluída pelo
grupo na programação elaborada para aquele ano.

O primeiro Vinte

Programando 1971, o grupo listou três atividades a serem desenvolvidas: homenagem a Luiz Gama em 21 de agosto, a José do Patrocínio em 9 de outubro (aniversário de nascimento) e a Palmares em 20 de novembro. A atividade Luiz Gama teria de ser em torno do dia 24, morte do poeta e abolicionista, porque a do nascimento já havia passado

– 21 de junho. Enfim, era a questão das datas ligada à idéia de que, além do vinte de novembro, várias outras deviam estar à disposição, importantes e significativas. Homenagem era a forma considerada mais ou menos atraente para motivar o estudo e disseminar as informações sobre fatos e vultos históricos.

Parece lícito dizer que estava delineada uma precária, mas deliberada ação política no sentido de apresentar, à comunidade negra e à sociedade em geral, alternativas de datas, fatos e nomes, em contestação ao oficialismo do 13 de maio, abolição formal da escravatura, princesa dona Isabel.

Com base no press-release enviado pelo grupo, o jornal Folha da Tarde de 23/8/1971, página 54, noticiou a homenagem a Luiz Gama como ocorrida dia 21. Foi, na verdade, transferida para início de setembro. A nota já anunciava o ato de outubro, sobre Patrocínio, e o de novembro, Palmares. Anita ainda não constava entre os cinco componentes citados pelo jornal. Nara então era a única mulher. Individual vinculado é, aqui, o designativo de matéria jornalística de um integrante do grupo publicada paralelamente ao evento, visando à ampliação e difusão através da imprensa.

Assim, o Correio do Povo de 22/8/1971 trouxe artigo de um componente (Oliveira) sob o título "Luiz Gama e as Trovas Burlescas". Já o ato em começos de setembro foi realizado na Sociedade Floresta Aurora com pequeno público. Rua Curupaiti, bairro Cristal, à época. Vida e obra de Luiz Gama; leitura e distribuição de texto mimeografado: seu poema "Quem sou eu?", o conhecido Bodarrada. Na grafia com z, o presente texto acompanha Ligia Fonseca Ferreira em seu excelente trabalho estudando e reeditando Luiz Gama (2000).

Sobre o ato de homenagem a José do Patrocínio, o empresário e abolicionista, jornalista, intelectual negro do século 19, o mesmo de Luiz Gama, não estão sendo encontrados registros, mas consta que ele ocorreu de forma um tanto incompleta, parece que limitada a uma troca entre os componentes do grupo quanto aos dados coletados e talvez na mesma Sociedade Floresta Aurora. Matéria da Folha da Manhã (23 ou 24/6/1972?) o inclui entre as realizações do Grupo Palmares, concretizado em outubro de 1971.

A homenagem a Palmares ocorreu no dia 20 de novembro de 1971, um sábado à noite, no Clube Náutico Marcílio Dias, sociedade negra sita à Avenida Praia de Belas nº 2300, bairro Menino Deus, em Porto Alegre. O Marcílio, fundado em 4/7/1949, foi um importante espaço físico, social e cultural perdido nos anos 80. Público reduzido, conforme o esperado, mas considerado satisfatório. "Zumbi, a homenagem dos negros do teatro" foi o título da Folha da Tarde para a nota publicada dia 17. E nessa época de ditadura, em que os militares eram chamados de "gorilas", o teatro era muito visado. O grupo foi chamado à sede da Polícia Federal para, através de um de seus integrantes, apresentar a programação do ato e obter liberação da Censura no dia 18.

No evento, dia 20, usando técnica escolar, os participantes do grupo se espalharam no círculo, entre a assistência, e contaram a história de Palmares e seus quilombos com base nos estudos feitos, defendendo a opção pelo 20 de novembro, mais significativo e afirmativo na confrontação com o treze de maio. Anita já estava no grupo e Ilmo não participou, licenciado, vindo, na seqüência, a afastar-se totalmente. Mas assistiram ao ato Antônia Mariza, Helena Vitória e Leni. As três ingressariam mais adiante.

Como individual vinculado, expressão utilizada linhas atrás, um artigo de componente (Oliveira), encaminhado previamente, foi publicado no dia 21, domingo, no Correio do Povo, à página 23, sob o título "A epopéia dos Palmares", enfocando o aspecto histórico e citando o fascículo Zumbi junto aos livros de Édison Carneiro e Ernesto Ennes, além de algumas outras fontes. A abordagem literária de Palmares esteve presente em fragmentos poéticos de José Bonifácio, o Moço, Castro Alves e Solano Trindade, assim como na referência ao trecho de Jubiabá, de Jorge Amado. Parte mais interpretativa tratava da mensagem de Palmares, e um quadro cronológico registrava o auxílio de Anita Abad para sua elaboração.

A homenagem a Palmares em 20 de novembro de 1971 foi o primeiro
ato evocativo dessa data que, sete anos mais tarde, passaria a ser referida como dia nacional da consciência negra. A programação feita para 1971 precisou ter uma adenda. O repórter negro Lúcio Flávio Bastos iniciara em 19 de novembro no jornal Zero Hora uma série intitulada "Saiba por que Você é Racista", com matérias diárias. Ao final, o grupo achou oportuno promover uma palestra em que ele falasse a respeito da série, o que aconteceu no dia 4 de dezembro, também no Marcílio Dias.

Sobre a evocação do vinte de novembro, uma questão em destaque é o fato de muitas pessoas, militantes até, na causa negra, pensarem que tudo começou em 1978 com o MNUCDR. Informações no texto em curso talvez possam ajudar. Outra questão refere-se ao historiador branco gaúcho Décio Freitas.

O escritor e jornalista Márcio Barbosa (1996, p. 39), de São Paulo, oportunizava ao entrevistado (Oliveira Silveira) dizer se o livro de Décio Freitas sobre Palmares havia sido fonte de consulta para se chegar ao Vinte de Novembro. Preocupação similar revelava o historiador negro Flávio Gomes, do Rio de Janeiro, ao gravar em Porto Alegre, meados de 2003, informações do mesmo depoente.

Em 16/12/1975, à página 35, a simpática Folha da Manhã, de Porto Alegre, publicava matéria com declarações dos coordenadores do Grupo Palmares. A propósito, nessa época, após períodos em que se sucederam coordenação masculina e feminina, homem e mulher partilhavam a coordenação, no caso os componentes Oliveira e Helena Vitória dos Santos Machado – e não era ao influxo de debates por questões de gênero. Constou na FM:

Foi ao encontrar Décio Freitas que eles (os integrantes do Palmares) receberam um grande apoio para o trabalho que vinham desenvolvendo. Conta Silveira que a aproximação se deu quando ele pesquisava alguns aspectos do escravismo para um artigo a ser publicado em jornal. Encontrei o livro de Décio – Palmares – numa edição em espanhol. Logo observei que era a obra que tratava com mais profundidade o assunto. Depois o autor foi a uma de nossas palestras e nunca mais se desligou do Grupo. Em entendimentos com a editora Movimento em 1973 finalmente conseguimos editar o livro em português.

Caso de matéria em que o declarante ou entrevistado, após a leitura, se pergunta: eu falei assim, eu disse isso? eu bebi? No caso, a conclusão foi pela necessidade de melhor preparo, a fim de evitar declarações que pudessem levar a interpretações diferentes do que foi dito, ou que se pensou ter dito.

O historiador Décio Freitas compareceu ao ato de 20 de novembro de 1971 movido pela notícia na imprensa. Assistiu anonimamente, em completo silêncio. Só ao final dirigiu-se a um dos componentes do grupo (Oliveira), identificou-se e ofereceu um exemplar de Palmares – la guerrilla negra, editado naquele ano em Montevidéu por Editorial  Nuestra América. Voltava do exílio no Uruguai e não lhe convinha aparecer. Informou que a obra era resultado de estudos iniciados algum tempo atrás (1965). Assim Décio Freitas testemunhou o primeiro Vinte.

Só a partir daí é que o historiador e sua obra passaram a ser conhecidos do Grupo Palmares. E na semana seguinte apareceria matéria sobre ele na série já citada "Saiba por que Você é Racista", de Lúcio Flávio Bastos. Em agosto de 1971, quando seu livro em espanhol acabava de ser impresso em talleres gráficos uruguaios, o Grupo Palmares, formado em julho, já definira e anunciava na imprensa a celebração do dia 20 de novembro através da homenagem a Palmares. Esse anúncio ocorria em nota citada – Folha da Tarde, em 23/8/1971 –, decorrente das deliberações de julho: assinalar o 20 de novembro, destacando Palmares.

Quando a nota da Folha da Manhã, em 1975, diz que o historiador "nunca mais se desligou do Grupo", pode estar suscitando a necessidade de uma explicitação. É bom dizer, então, que Décio Freitas nunca esteve assim tão ligado ao grupo e nunca fez parte dele. O mencionado "apoio ao trabalho que vinham desenvolvendo" deve ser entendido, primeiro, como proveniente da qualidade da obra e melhor seria dizer reforço aos conteúdos já dominados pelo grupo em termos de história palmarina; e, em segundo lugar, o apoio deve ser visto como colaboração ao aceitar fazer palestras em eventos do grupo, três ao que consta, sendo duas em parceria com o Clube de Cultura, da comunidade judaica, essas em 1975.

Livro e autor, é bom repisar, só foram conhecidos no ato de 20 de novembro, em 1971. Quanto à edição do livro em português, é verdade que houve intermediação do Grupo Palmares. Depois de a obra ter sido utilizada como referência principal na parte histórica de matéria especial utilizada como forma de celebrar o Vinte de Novembro em 1972 através da imprensa, por iniciativa do grupo, o Palmares decidiu consultar e propor ao autor a edição em português. Um componente designado (Oliveira) reuniu-se com ele e o editor Carlos Jorge Appel, surgindo a edição brasileira em 1973 pelo Movimento, de Porto Alegre.

A programação do Vinte em 1973 incluiu palestra de Décio Freitas, motivada pela publicação da obra. Artigo assinado por componente (Oliveira, no esquema "individual vinculado") foi publicado como saudação à nova edição agora intitulada Palmares, a guerra dos escravos, como se tornou conhecida nas sucessivas edições continuadas em outras editoras. O grupo contribuiu, à sua maneira, para a promoção da obra, e se estabeleceram boas relações de amizade entre alguns componentes e o autor. Entre os componentes, o signatário deste relato.

Se Palmares, a guerra dos escravos era marcante não tanto pelos fatos narrados ou dados históricos abordados, em geral conhecidos já através de Ernesto Ennes e Édison Carneiro, mas pelo estilo cativante de Décio Freitas, a agudeza de sua análise e interpretação, passou a contar, desde a quinta edição, com um acréscimo especialmente importante: a biografia de Zumbi. São dados novos trazidos de Portugal pelo autor. O aprofundamento desse estudo sobre Zumbi dos Palmares – e sobre o Estado negro – afigura-se como um desafio à pesquisa.

Virada histórica e construção

A partir de meados de 1972, a formação do grupo contava com Antônia Mariza Carolino, Helena Vitória dos Santos Machado e Marli Carolino, além de Anita e Oliveira. Um dos principais locais de reunião passou a ser o bar da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que na época era URGS.
Anita Leocádia Prestes Abad, que em 1973 já não estava mais no grupo, Helena Vitória dos Santos Machado e, a partir de 1976, Marisa Souza da Silva foram integrantes cuja participação contribuiu decisivamente para o ajuste do trabalho ao contexto das lutas sociais. Uma cronologia pode demonstrar o esforço continuado, marcando o Vinte de Novembro ano a ano até a sua total implantação no País.

1971 – Primeiro ato evocativo do Vinte de Novembro, a homenagem a Palmares em 20/11 no Clube Náutico Marcílio Dias.

1972 – Sete páginas dedicadas a Palmares na revista ZH do jornal Zero Hora em 19/11. Histórico de Palmares, depoimento do grupo, redigido por Helena Vitória dos Santos Machado, poema de Solano Trindade com ilustração de Trindade Leal, um conto, capa e ilustração da artista plástica negra Magliani (Maria Lídia), além da ilustração de Batsow, imagens aproveitadas do fascículo Zumbi da Editora Abril e fotos. Material organizado e redigido pelo componente Oliveira e editado por Juarez Fonseca, de Zero Hora.

1973 – De 6 a 20/11, exposição Três pintores negros (Magliani, J. Altair e Paulo Chimendes), palestra de Décio Freitas e o espetáculo Do carnaval ao quilombo (música, texto). Local: Teatro de Câmara. Em 13 de maio fora publicada no Jornal do Brasil uma entrevista concedida pelo Grupo Palmares. Segundo informações, uma síntese da matéria apareceu no jornal francês Le Monde. Nesse e noutros anos, televisão e rádio ajudaram na difusão da proposta.

1974 – Divulgação de manifesto através do Jornal do Brasil, em matéria assinada por Alexandre Garcia (repórter também na entrevista de 13/5/1973). No texto, breve histórico de Palmares, sugestão expressa de reformulação dos livros didáticos quanto a Palmares "e outros movimentos negros" e indicação de bibliografia. No Rio de Janeiro, Maria Beatriz Nascimento (2002, p. 48), atenta, registrou.

1975 – Encontro Grupo Palmares e grupo Afro-Sul, de música e dança, no Clube de Cultura, associação judaica. A seguir, em 10 e 16 de dezembro, foram realizadas, em parceria com o clube, duas palestras de Décio Freitas.

1976 – Lançamento do livreto Mini-história do negro brasileiro, na sociedade negra Nós os Democratas. Da tentativa de reformulação surgiu posteriormente História do negro brasileiro: uma síntese, outro livreto editado pela Prefeitura de Porto Alegre, através da SMEC, em 1986, assinado por Anita Abad e outros. Nesse ano, em novembro, semanas do negro em Campinas-SP com o Grupo Teatro Evolução e em São Paulo com o Cecan e o Cecab. No Rio de Janeiro, conferir ações do IPCN, por exemplo, entidade nova já atenta ao Vinte de Novembro. Meses antes, em 1976, o Grupo Palmares recebeu a visita de Orlando Fernandes, vice-presidente cultural do IPCN, e Carlos Alberto Medeiros, vice-presidente de relações publicas. O Vinte ganhava adesões.

1977 – Ato na Associação Satélite-Prontidão, sociedade negra, com exposição da minibiblioteca do Grupo Palmares e a presença do escritor negro paulista Oswaldo de Camargo, convidado especial. O grupo Nosso Teatro, depois Grupo Cultural Razão Negra, fez apresentação demonstrativa (não a caráter) de sua montagem para a dramatização de "Esperando o embaixador", conto de Oswaldo.

Além de assinalar o Vinte de Novembro, o Grupo Palmares realizou outras atividades, como visita, estudo e divulgação da Congada de Osório-RS em 1973, aproximação com sociedades negras (clubes), mural na sociedade Nós, os Democratas, interação e intercâmbio com outros grupos ou entidades. Motivado pelo exemplo de Porto Alegre, foi criado em 4/8/1974, em Rosário do Sul (RS), o Grupo Unionista Palmares – data de registro para a fundação ocorrida em 21/7. A partir de 20/11/ 2001, o nome mudou para Grupo Palmares de Rosário do Sul.

A primeira fase do Grupo Palmares, de Porto Alegre, encerrou em 3 de agosto de 1978. Viriam outras duas, mais adiante. Mas o Vinte de Novembro já estava implantado no País - já estava estabelecida a virada histórica e construído, ao longo de sete anos, um novo referencial para o povo negro e sua luta. Para o indivíduo negro, homem ou mulher, sua auto-estima, sua identidade. Criança ou adulto. Novo referencial para o Brasil, com atenções até do exterior, verificadas mais tarde.

E o Vinte de Novembro logo receberia a adesão importante do MNUCDR com o manifesto de 1978 e a denominação Dia Nacional da Consciência Negra. Receberia, na figura do rei e herói, o Festival Comunitário Negro Zumbi (Feconezu), para cidades do Estado de São Paulo. E estava, através da imagem de Zumbi ou explicitamente, como data negra, no grupo Tição (1977-1980), de Porto Alegre, em sua revista n° l, de março de 1978; na seção "Afro-Latino-América" do jornal ou revista Versus em outubro de 1978, São Paulo; na literatura negra, em Cadernos Negros n° l, São Paulo, o primeiro de uma grande série, e com versos de Cuti, Eduardo de Oliveira e Jamu Minka falando em Zumbi, em Éle Semog e José Carlos Limeira juntos em "O arco-íris negro", no Rio em 1978, ou em Abelardo Rodrigues de "Memória da noite", no mesmo ano em São Paulo. O Vinte de Novembro e seu espírito já estavam muito bem incorporados à vida e à luta.

O espírito do Vinte

O historiador negro mineiro Marcos Antônio Cardoso (2002, p. 47-48 e 66-67) faz justiça ao Grupo Palmares e sua iniciativa de marcar o 20 de novembro, destacando a atuação do grupo no conjunto de ações do movimento negro, objeto de sua preciosa dissertação.

Cumprida a primeira fase encerrada em 1978, o Grupo Palmares volta nos anos 80 como grupo de trabalho do MNU. Aparentava beirar o ineditismo esse fato de um grupo com história própria se dispor a funcionar como braço de uma nova organização, mas parece que tal experiência já havia sido tentada por outras entidades na formação do MNUCDR. O fato é que em 1981 formou-se o MNU-RS. Nele um novo grupo de trabalho, divergente, surge em 1983: o GT Lima Barreto, que chamava o grupo inicial de Grupão. Percebendo-se que no Grupão a maioria tinha sido integrante do Palmares, foi adotado o nome GT Palmares.

Mais adiante ocorre a desvinculação do GT Palmares em relação ao MNU e começa a terceira fase com o Grupo Palmares novamente autônomo. Como tal, o Palmares foi um dos criadores da Associação Negra de Cultura em 8/12/1987, mas teve outras ramificações: grupo Coisapreta, pelo menos até a divisão ocorrida nesse trabalho, e grupo Kuenda. Se no GT Palmares da segunda fase Ceres Santos foi um novo valor vindo do grupo Tição, também as ramificações ao final da terceira fase ficaram ligadas a nomes palmarinos: Oliveira na ANdeC, Hilton Machado (terceira fase) no Coisapreta, de onde saíram Helena Vitória dos Santos Machado e Marisa Souza da Silva para criar o trabalho cultural Kuenda.

O Grupo Palmares primou sempre por um detalhe: ser formado exclusivamente por negros. Com isso, a iniciativa, as idéias e a prática do Vinte se constituem criação inequivocamente negra, emergindo da própria comunidade negra e seguindo caminhos próprios, com suas próprias forças e fragilidades. A nominata consagra a importância do individual na composição de um grupo.

Grupo Palmares – Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Fases – 1971 a 1978; GT Palmares do MNU e Autônoma na década de 80. A partir de 1988 ou 1989 dilui-se em ramificações. Iniciadores – Antônio Carlos Cortes, Ilmo da Silva, Oliveira Silveira, Vilmar Nunes, Anita Leocádia Prestes Abad e Nara Helena Medeiros Soares. Em novas formações – Antônia Mariza Carolino, Gilberto Alves Ramos, Helena Vitória dos Santos Machado, Margarida Maria Martimiano, Marisa Souza da Silva e Marli Carolino. Registre-se ainda a passagem, pelo grupo, de Irene Santos, Leni Souza, Luiz Augusto, Luiz Carlos Ribeiro, Maria Conceição Lopes Fontoura, Otalício Rodrigues dos Santos, Rui Rodrigues Moraes e Vera Daisy Barcellos. Na segunda fase (GT Palmares do MNU), Ceres Santos.

Na terceira (Autônoma, pós-MNU), Hilton Machado. Estiveram ligados de alguma forma ao trabalho Luiz Mário Tavares da Rosa e Maria da Graça Lopes Fontoura, além de um grupo de estudantes do ensino médio, entre os quais Eliane Silva (Nany) e Aírton Duarte. O Grupo Palmares contou, paralelamente, com o apoio de um círculo de colaboradores e simpatizantes negros. Aliados, em outros segmentos étnicoraciais, emprestaram também o seu apoio, ocasionalmente.

Ao aderir e adotar o Vinte de Novembro, o movimento negro, no caso de determinados grupos ou entidades, individualizou ressaltando a figura de Zumbi, na linha daquela historiografia que destaca o indivíduo, o herói singular, como se ele fizesse tudo sozinho. Individualismo, coisa tão cara ao sistema capitalista. Mas pode também ter sido positivo começar pela prática usual, corrente, mais familiar, para, então, encaminhar a visão transformadora. Já o Grupo Palmares sempre valorizou e destacou Zumbi como o herói nacional que é, mas preferiu sempre centrar a evocação no coletivo: 20 de novembro – Palmares, o momento maior (slogan em cartaz e convite em 1973). Ou então: Homenagem a Palmares em 20 de novembro, dia da morte heróica de Zumbi. Afinal, o Estado negro foi uma criação coletiva da negrada.

O Vinte de Novembro, em seu primeiro ato evocativo, de 1971, é um marco divisório no período pós-abolicionista, demarcando ao mesmo tempo o início de uma nova época, digamos contemporânea, a do que se convencionou chamar Movimento Negro. Reconhecendo o valor de ações precursoras de entidades, grupos e indivíduos vindas dos anos 60, teríamos a seguinte periodização:

1971-1978 – Fase da virada histórica, de novos rumos, de nova motivação. Grupo Palmares (RS), Cecan, Cecab, Grupo Teatro Evolução (SP), Ilê Aiyê (BA), Sinba, IPCN, Ceba, mais o Grupo de Trabalho André Rebouças, Granes Quilombo (RJ), citados como referência. Literatura negra (Oswaldo de Camargo), imprensa negra (A Árvore das Palavras, Sinba, Boletim do IPCN).

1978-1988 – Fase de articulação nacional, protestos, reivindicações, agitação política, artística, cultural. Instituições oficiais (assessorias, conselhos). Assembléia Nacional Constituinte. Intensifica-se a criação de semanas do negro. Memorial Zumbi. Correntes confessional cristã (Grucon, APNs) e político-partidária (grupos em partidos), a par da corrente ou filão-base que é o Movimento Negro propriamente dito. Antologias literárias, congressos, os Perfis da Literatura Negra, encontros, os negros na Bienal Nestlé de Literatura. MNUCDR e o nome Dia Nacional da Consciência Negra para o Vinte de Novembro, revista Tição nº l, secção "Afro-Latino-América" no Versus, Feconezu, Cadernos Negros n° l (Quilombo hoje assume a série mais adiante), livros de Abelardo Rodrigues, Cuti, João Carlos Limeira e Èle Semog são fatos que marcam bem o início desta fase, num ano "pleno de acontecimentos culturais sob o signo ao negrismo", como observa Oswaldo de Camargo (1988, p. 99). Jornegro, da Feabesp, também abre esta fase do movimento, encerrada no centenário da abolição.

1988 em diante – Fase de conquistas, a partir do espaço no texto da Constituição para o grupo étnico afro-brasileiro, remanescentes de quilombo e legitimação de suas terras, institucionalização, ONGs (organizações não-governamentais), Fundação Cultural Palmares. "Puxada de tapete" neoliberal atingindo em cheio a comunidade negra.

Os parlamentares, secretários de Estado e ministros negros. A cobrança da dívida social: reparações, políticas públicas de ação afirmativa buscando o concreto, o palpável, em tempos de crise aguda. Literatura negra brasileira traduzida e estudada no exterior (Alemanha, Estados Unidos). Obras culturais importantes como A mão afro-brasileira (Emanoel Araújo, organizador) e Negro brasileiro negro (organização de Joel Rufino dos Santos, Iphan). Produção acadêmica, Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros (Recife e São Carlos, SP, na UFSCar), eventos e publicações na área educacional.

O Vinte de Novembro sempre celebrado em semanas, eventos ao longo do mês de novembro, sendo até adotado como feriado em algumas cidades importantes, mais a idéia de feriado nacional, etc. São parciais as citações, não abrangem todas as áreas, são indicativas apenas. Norte-Nordeste. Sul-Sudeste, Centro-Oeste: negros agindo no País.

O espírito do Vinte teme o oficialismo, mas sabe que tudo é uma questão de savoir-faire, com o knowhow adequado, e espera que se faça a coisa certa. Do capitalismo conhece o poder de absorção, esvaziamento, reciclagem e uso a seu favor, dele capitalismo, vigente, globalizante, excludente, contingenciando as lutas negras. O espírito do Vinte é negro, popular e se aninha junto à família negra: homem negro, mulher negra, criança negra. Continuidade étnico-racial com identidade cultural negra e poder político. Uma fórmula, três princípios. No espírito do Vinte. Raça, cultura, poder – em três palavras.

Surgido numa época em que eram internacionais as influências da negritude antilhano-africana, das independências na África, do socialismo europeu e dos movimentos negros estadunidenses, o Vinte de Novembro, com todo o seu potencial aglutinador, era e continua sendo motivação bem nacional. Afro-brasileira. Negra.

Seria, na verdade, o Vinte de Novembro uma data ou evento de maior âmbito e alcance, a par de sua origem brasileira? Referindo-se a um grande momento da história africano-americana e da humanidade, quando escravizados resistiram e se rebelaram contra os seus exploradores, criando na diáspora um território livre ao longo de todo um século, teria, então, o Vinte de Novembro essa maior amplitude?

Porto Alegre, 17 de outubro de 2003.

Referências bibliográficas
BARBOSA, Márcio. A verdade sobre o 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra. Revista Suingando, São Paulo, v. 1, n. 4, p. 39, 1996.
CAMARGO, Oswaldo de. O negro escrito. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura/Assessoria de Cultura Afro-Brasileira, 1988. 216 p.
CARDOSO, Marcos Antônio. O movimento negro em Belo Horizonte: 1978-1998. Belo Horizonte: Mazza Ed., 2002. 240 p.
GAMA, Luiz. Primeiras trovas burlescas e outros poemas. Edição preparada por Ligia Fonseca Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2000. (Coleção poetas do Brasil) .
GONZALEZ, Lélia; HASENBALG, Carlos. Lugar de negro. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1982. 116 p. (Coleção 2 Pontos, v. 3).
MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO. 1978-1988. 10 anos de luta contra o racismo. São Paulo: Confraria do Livro, 1998. 80 p.
SILVEIRA, Oliveira. Banzo saudade negra. Porto Alegre: Ed. do autor, 1970. 54 p.

NOTA: O texto original possui fotografias dos encontros e imagens dos jornais e panfletos, no entanto, não consegui copiá-los para cá.  
NOTA 2: O Dia Nacional da Consciência Negra e o Dia de Zumbi foram estabelicidos oficialmente pela Lei 12.519 de 10 de novembro de 2011, sendo sancionado pela presidente Dilma Rousseff.

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