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Leandro Vilar

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Boudica: a rainha guerreira celta

A rainha Boudica ainda é uma mulher enigmática em vários aspectos, pois os relatos que mencionam parte de sua história, se encontram em obras de historiadores romanos como Tácito e Dião Cássio; e neste caso, tais relatos apenas se referem aos acontecimentos ocorridos entre os anos de 60 e 61 d.C, os quais estão relacionados ao momento no qual Boudica passou a liderar algumas tribos celtas na Bretanha, a fim de vingar a morte de seu marido e a afronta ao seu povo, cometida pelos romanos. Tudo isso ocorreu durante o governo do imperador Nero (54-68), embora o imperador como sugerem alguns relatos romanos, não deu atenção a esse conflito, pois Nero não foi um imperador interessado em guerras e conquistas, ele até mesmo cogitou abandonar a Província da Bretanha, conquistada pelo seu tio, o imperador Cláudio.

Todavia, hoje em dia já existem livros que abordam de forma mais profunda a história de Boudica, principalmente obras de origem inglesa, que infelizmente não consegui ter acesso, logo, me limitei a contar um pouco sobre essa rainha guerreira, com base nos relatos de Tácito e Dião Cássio.

A rainha celta:

Os povos celtas se espalharam pela Europa a mais de dois mil anos atrás, o que incluiu uma leva de migrações de algumas tribos bretãs para o arquipélago da Grã-Bretanha. É preciso recordar que Bretanha é o nome de uma região hoje localizada na França, e foi a partir dos celtas bretões que seguiram para viver na Grã-Bretanha, que a ilha passou assim a se chamar. 

No caso de Boudica, não se sabe ao certo de que tribo ela pertencia, também se desconhece o nome de seu pai e mãe, e dos demais familiares. Até mesmo não se sabe o ano que tenha nascido, embora haja especulações para a data, dentre as quais é sugerido o ano de 46. No entanto, Boudica quando se tornou rainha, ela passou a governar na tribo dos Icenos. Uma das tribos que vivia no leste da ilha, na região da East Anglia.  


Em vermelho o território dos icenos.
Se por um lado o passado de Boudica é desconhecido, sua história na época como rainha também é pouco conhecida, pois os relatos romanos apenas destacam o momento no qual ela decidiu se revoltar contra Roma, e declarar guerra aos romanos. 

Nesse sentido, Dião Cássio descreveu Boudica um tanto com qualidades de guerreira, embora contestáveis por alguns. Já que não era comum mulheres celtas participarem de batalhas ou serem governantes, na descrição de Dião Cássio, Boudica foi descrita como sendo uma mulher alta, de olhar penetrante, voz imponente, longos cabelos ruivos, e portava uma longa lança (CÁSSIO, 1914, p. 85). 

Ilustração da rainha Boudica.
Percebe-se nessa descrição de Dião Cássio, que Boudica possui traços de guerreira, pois era uma mulher alta, de olhar intimidador e voz retumbante, digna de dar comando. Talvez, Cássio possa ter romantizado a aparência da rainha, a fim de reforçar os atributos como uma mulher forte, destemida, determinada a comandar sua tribo contra o Império Romano. No entanto, foi por tal descrição que ela se mantém conhecida. 


"Os escritores da Antiguidade, que escreveram sobre ela, tinham como função contar aos romanos, através de suas narrativas, os grandes feitos do Império. Eles faziam parte de uma sociedade que era desacostumada a ver uma mulher como governante e muito menos como comandante de um exército. Dessa forma, Boudica foi descrita por eles como uma mulher masculinizada, que tinha o tamanho, a voz e as armas de um homem, além da ineficácia de sua liderança". (BÉLO, 2011, p. 46).
  A revolta:

Por volta do ano 60, o marido de Boudica, o rei Prasutagus faleceu. No passado Prasutagus havia confrontado o poderio romano na revolta do ano de 47, mas após ser derrotado, decidiu assinar os termos de rendição e submissão, aceitando tornar-se súdito dos romanos. Nessa época, o império era governado por Cláudio (o tio de Nero). Os anos que se seguem, Prasutagus não voltou a apresentar ameaça a dominação romana na Grã-Bretanha, todavia, com seu falecimento, era de costume, que suas terras fossem passadas de herança ao Estado romano, e assim consolidando o acordo de submissão. Todavia, o rei quis que seus herdeiros (neste caso, duas filhas), fossem legalmente as detentoras daquelas terras. Na prática, as terras ainda se manteriam de posse dos icenos, mas a aliança com Roma, também se manteria. 

No entanto, com a morte do rei, o procurador da ilha, Deciano Cato, aproveitou-se que o governador da província romana da Bretanha, Gaio Suetônio Paulino, estava de viagem no que hoje é o País de Gales, onde o governador combatia na ilha de Mona (atual Anglesey) alguns druidas (Tácito, Anais XIV). Logo, com a ausência do governador, o procurador Deciano Cato reuniu algumas tropas e decidiu atacar a tribo dos icenos, a fim de obrigar que a rainha viúva passasse de vez suas terras para o governo romano. Todavia, Boudica negou-se a obedecer o procurador, então foi ordenado que ela fosse açoitada e suas duas filhas foram estrupadas. A vila foi saqueada, parte da família real foi feita escrava e alguns icenos foram mortos. Todavia, Cato deixou o local e se retirou. 

De acordo com Dião Cássio e Tácito, devido a essa afronta e violência, motivada por grande fúria e sede de vingança, Boudica decidiu declarar guerra aos romanos. Além desse motivo de vingança, Dião Cássio (1914, p. 85-86) transcreveu uma suposta fala da rainha icena, a qual diz que eles não deveriam mais tolerar serem escravos dos romanos, terem que se submeter as leis e a ordem deles; terem que pagar tributos ao império, terem que ceder suas posses, terem que pagar com seus corpos. Tácito também assinalou esse motivo político, no qual alegou que a revolta dos icenos, também teria sido motivada contra a escravidão imposta por Roma. 


Por tal viez, se percebe que além do motivo pessoal de vingança, Boudica teria alegado fatores políticos, incitando os icenos a se rebelarem contra a exploração romana. Na prática, talvez nunca saibamos o que ela realmente disse para incentivar seu povo, e até mesmo a tribo vizinha dos Trinovantes, a se unirem e declarar guerra aos romanos. 

As batalhas: 

De acordo com Dião Cássio (1914, p. 85) Boudica teria reunido um exército de 120 mil homens, provavelmente um número bem exagerado, isso se pensarmos que tais tribos não possuíriam muitos habitantes, além do fato que talvez a população da região não chegasse nem a 200 mil habitantes. Todavia, munida desse grande exército (grande mesmo para a época), a rainha decidiu atacar três cidades romanas. No entanto, embora ele faça tal menção, Dião Cássio, não deu muita atenção a comentar tais ataques, por sua vez, nos resta usar o relato de Tácito para conhecer sobre eles, pois ele também pouco escreveu sobre tais ataques, mesmo assim, forneceu-nos detalhes não vistos na obra de Cássio.

Sob os auspícios da deusa Andraste (a quem os romanos diziam equivaler a sua deusa Vitória), Boudica liderou seus exércitos, guardada pelas bençãos dessa deusa, indo atacar primeiro o acampamento de veteranos romanos em Camulodonum (atual Colchester), como assinalou Tácito. Tal acampamento militar que atuava como uma colônia para os veteranos de guerra (prática comum dos romanos, como forma de fixar colonos), se encontrava em terras dos Trinovantes, e tendo a rainha convecido tal tribo a se unir a sua causa, Camulodonum se tornou o primeiro alvo. 

Mapa com a localização do território dos Icenos e Trinovantes, além da localização de algumas cidades, em destaque Camulodunum.
Tácito também diz que naquela pequena cidade havia um templo erguido ao imperador Cláudio, e tal templo foi considerado pelos bretões como um monumento que representava a "tirania" do imperador romano sobre a Bretanha. Camulodonum era guardada pela Nona Legião Hispania, que deveria contar com cerca de 3 a 5 mil homens, mas de acordo com Tácito, tal número era bastante menor em comparação as forças inimigas, embora não se saiba quantos bretões Boudica levou consigo na ocasião. 

O legato da Nona Legião, Quinto Petilius Cerialis, chegou a enviar um pedido de socorro ao procurador Deciano Cato, pois o governador Suetônio Paulino, ainda estava em campanha; no entanto, Cato teria enviado apenas 200 homens para auxiliar na defesa. O templo foi saqueado e destruído, a cidade foi saqueada e incendiada. Ainda segundo Tácito, a Nona Legião quase foi totalmente dizimada. 

Após a derrota humilhante da Nona Legião e a perda de Camulodonum, o próximo alvo, foi a cidade de Londinium (atual Londres), localizada nas margens do rio Tâmisa, e conhecida como uma importante cidade mercantil da Bretanha. Na ocasião, o governador não pôde ajudar a população, e a cidade foi invadida, saqueada e sua população chachinada. 

Representação da cidade de Londinium.
Após o ataque a Londinium o próximo alvo, foi a cidade de Verulanium (atual Sant Albans), a qual Tácito dizia possuir pelo menos 70 mil habitantes. Segundo seu relato, os bretões (a quem ele se refere como bárbaros) caíram sobre a cidade de forma violenta, não poupondo homem ou mulher. Talvez ele possa ter exagerado, mas por sua narrativa, o ataque foi tão agressivo que a população foi passada a ferro e fogo, e os bretões não tiveram interesse em fazer prisioneiros ou escravos, mas apenas em matar e saquear.

Após o ataque a Verulanium, o governador da Bretanha, Suetônio reuniu as Décima Quarta e Vigésima legiões, para combater o exército de Boudica. A rainha viajando numa biga, em companhia de suas duas filhas, foi convocando outras tribos para se aliar em sua vingança e luta contra a opressão. Assim como Cássio trenscreveu uma suposta fala de Boudica, Tácito, também fez o mesmo, a qual segue o mesmo discurso, no qual a rainha incita as outras tribos celtas a se rebelarem contra os romanos. Neste ponto Dião Cássio (1914, p. 87) diz que Boudica teria reunido um exército de 230 mil homens. 

Estátua de Boudica em Londres. Essa estátua retrata o suposto momento que a rainha junto a suas filhas, partiram para reunir novas tribos na luta contra os romanos.
Tendo reunido as Legiões XIV e XX, o governador Suetônio se pôs em marcha para confrontar o exército de Boudica, em local hoje desconhecido e motivo ainda de pesquisa para tentar localizá-lo. As duas legiões deveriam ter em torno de 10 mil homens, logo, se tomarmos os números citados por Dião Cássio, tal contingente militar não teria a miníma chance contra um exército pelo menos dez vezes maior, no entanto, Tácito diz que isso não foi um empecilho para os romanos, pois segundo ele, os bretões tiveram uma baixa de 80 mil homens, enquanto os romanos perderam algo em torno de 400 soldados. 

Embora que em termos táticos, os romanos fossem superiores, a discrepância numérica e exorbitante. É bem provável que Tácito tenha deliberadamente alterado os valores para exaltar a glória romana, algo comum na História, principalmente na história dos grandes impérios e conquistadores.

De qualquer forma, independente de quanto soldados realmente lutaram nessa batalha, o veredito é que os romanos venceram. O governador Suetônio obteve uma vitória esmagadora, que pôs fim a revolta de Boudica, e qualquer outro possível foco de revolta. Além disso, Tácito disse que um dos motivos para tal derrota, deveu-se ao fato de que Boudica era uma mulher, e "naturalmente" as mulheres não tinham aptidão para a política e a guerra, logo, embora ela tenha conseguido reunir um grande exército, lhe faltava experiência e naturalidade para comandar. Dião Cássio diz que a rainha faleceu no no ano de 61, mas não apontou motivos; já Tácito, diz que a rainha teria cometido suicídio, ao tomar veneno.

Considerações finais:

Embora os romanos tenham conseguido por um fim na revolta das tribos bretãs, de acordo com os relatos de Tácito e Dião Cássio, Roma teve grandes baixas nessas quatro batalhas, principalmente baixas civis, pois estima-se que milhares foram mortos nos ataques, isso se tais relatos não tiverem exagerado em demasia. Por outro lado, a vitória também contribuiu para reforçar o controle de Roma no sul da ilha, embora que no Norte, no que hoje é a Escócia, os romanos nunca obtiveram sucesso na conquista, a ponto que no governo dos imperadores Adriano (117-138) e Antonino Pio (138-161) foram construídas muralhas para separar a Britannia da terra hostil dos pictos (um dos povos que habitava a Escócia).

Todavia, a vitória além de assegurar essa estabilidade no sul da Bretanha, também evitou um problema maior para o imperador Nero, que no passado chegou a cogitar abandonar a província. Mas se por um lado, Nero não teve maiores problemas com os bretões, ele não pôde dizer o mesmo quanto aos judeus, pois na província da Judeia, passaram a eclodir revoltas que durariam pelo menos dez anos.

Não obstante, embora Boudica seja lembrada na história romana como uma traidora e insurgente, na história britânica, ela passou a ser vista como uma heroína, principalmente através da literatura, pintura e escultura e da iniciativa de algumas rainhas, como Elizabeth I e Vitória, a quais tomaram a antiga rainha celta como fonte de inspiração.


"Logo depois que a rainha Vitória foi coroada, o artista Herry Courtney Selous, em 1843, pintou um retrato de Boudica para ela. A heroína aparece na pintura vestida com uma túnica, um xale esvoaçante e com o busto à mostra, gesticulando no campo de batalha como se chamasse pela presença da força dos guerreiros antes da batalha. Como a rainha Elizabeth I, a rainha Vitória utilizou da força dessa personagem como símbolo de liderança feminina, solicitando a construção de uma estátua em homenagem à guerreira, a qual foi levantada em Londres pelo artista Thomas Thornycroft, próxima à ponte de Westminster, às margens do rio Tâmisa, em frente ao parlamento britânico, em oposição ao Big Ben". (BÉLO, 2014, p. 109).



Sobre a representação de Boudica na memória, arte e história britânica, a historiadora brasileira Taís Pagoto Bélo, escreveu alguns artigos sobre o assunto, inclusive sua tese de doutorado foi sobre tal tema. Aos interessados sobre essa representividade e uso da imagem de Boudica, inclusive recentemente para atos políticos e sociais, como o movimento feminista, recomendo os trabalhos da historiadora Taís Bélo. Por sua vez, quem tiver interesse sobre a história de Boudica por outro viés metodológico, a melhor opção são as obras inglesas, algumas lançadas na década passada.
 
NOTA: A aparência de Boudica, segundo descrita por Dião Cássio, inspirou a criação da personagem Merida do desenho Valente (Brave), produzido pela Pixar e lançado em 2012.
NOTA 2: O nome da rainha Boudica ao longo da História foi escrito de distintas formas: Boudika, Buduica, Bonduica, Boadicea, Boadiceia, etc.
NOTA 3: O filme A Rainha da Era de Bronze (Queen Warrior) de 2003, consiste numa obra baseada na história de Boudica. 
NOTA 4: A rainha bretã é personagem na série Civilization, aparecendo em Civilization IV: Beyond the Sword (2007) e Civilization V: God & Kings (2012). 
NOTA 5: A rainha Boudica é uma vilã no jogo Ryse: Son of Rome (2013). 
NOTA 6: Boudica fez uma aparição especial no seriado Xena: a princesa guerreira (1995-2001), no episódio The Deliver, na terceira temporada em 1997. 



Referências Bibliográficas:
BÉLO, Taís Pagoto. Boudica e o uso de sua figura feminina. Arqueologia Pública, n. 4, 2011, p. 45-51.
BÉLO, Taís Pagoto. Um estudo preliminarsobre Boudica e a memória coletiva britânica. Cadernos da Lepaarq, vol. IX, n. 21, 2014, p. 105-121. 
CÁSSIO, Dião. Dio's Roman History - VIII. Translation Earnest Cary. London, William Heinemann, 1914. 9v
FRANZENO, Carlo M. Vida e Época de Nero. Tradução de Geir Campos e Moacyr Werneck de Castro. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1958. 
ROSTOVZEFF, R. História de Roma. Tradução de Waltenair Dutra. 5a ed, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1983. 
TÁCITO. The Annals, vol. XIV. Translation Alfred John Church and William Jackson Brodibb. Disponível em: http://classics.mit.edu/Tacitus/annals.html.

Link relacionado:
Nero, o difamado?
Os Povos Celtas

LINKS:
Download da tese Boudica e as facetas femininas ao longo do tempo (2014) de Tais Pagoto Bélo (é preciso se cadastrar para realizar o download)

Um comentário:

António Jesus Batalha disse...

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