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Leandro Vilar

sábado, 31 de outubro de 2015

Uma breve história sobre as origens do Halloween

Celebrado no dia 31 de outubro, o Halloween hoje é uma popular festa em países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Irlanda. Embora se ache manifestações na Alemanha, Espanha, Brasil e em alguns outros países. Todavia, curiosamente o Halloween, mais conhecido nos países de língua portuguesa e espanhola com os nomes de "Dia das Bruxas" e "Dia de las Brujas", na verdade pouco tem haver com bruxas. Tal festejo como será visto adiante, esteve relacionado com cultos agrícolas, passando para o culto aos mortos e antepassados. 

As origens celtas:

Um dos motivos para que os festejos do Halloween sejam principalmente celebrados no Reino Unido e na Irlanda, e por sua vez nos EUA e no Canadá, se deve ao fato de que uma das origens dessa festividade antiga advenha da cultura celta bretã. Sendo assim, as tribos celtas bretãs foram as principais tribos que colonizaram o arquipélago bretão, neste caso, as atuais ilhas da Grã-Bretanha e da Irlanda, assim como, parte das ilhas menores. 

Os historiadores que defendem que as origens do Halloween venham da cultura celta, apontam para o festival de Samhain, Samani, Samanios etc., algo como "Final do verão", como sendo o principal rito o qual teria influenciado a origem do Halloween na Idade Média. Neste caso é preciso conhecer alguns aspectos do Samhain o qual por si só é bem distinto da ideia que hoje temos de Halloween. 

De acordo com o Calendário Coligny, um calendário celta datado por volta do século II a.C, descoberto em Coligny na França; nesse calendário que está em fragmentos, percebe-se duas datas importantes para os celtas: o começo do verão (Beltaine), celebrado em 1 de maio, e o fim do verão (Samhain), celebrado em 1 de novembro. Neste caso, o festival de Samhain marcava o final do verão, mas também o começo do inverno. O festival era celebrado no dia 1 de novembro, embora os preparativos começassem no dia 31 de outubro (KONDRATIEV, 1998). É preciso lembrar que tais datas foram adaptadas para o calendário gregoriano, o calendário habitualmente usado em grande parte do mundo, pois o calendário celta era lunar, logo, possuía menos de 365 dias. 

Se o Samhain era o festival realizado para marcar a transição do verão para o inverno, pois os celtas não consideravam a primavera e o outono como estações independentes, mas como estações conjuntas ao verão e inverno, quais eram as formas de ritos praticadas para se celebrar essa transição? 


Pintura retratando o festejo celta do Samhain. 
O Samhain era um festejo no qual os celtas celebravam o fim das colheitas, promovendo banquetes e a distribuição de alimentos, assim como, acendendo fogueiras durante o dia e a noite, onde ao redor se comia, bebia, conversava, dançava e cantava. Alguns estudiosos consideram tal festejo como uma espécie de "Ano Novo", pois na concepção celta, o ano começaria no inverno e terminaria no verão. No entanto, o Samhain também estaria associado a outra prática religiosa: a relação ao culto dos mortos.

De acordo com as crenças celtas, a época do Samhain era um período propício para que o Mundo dos Vivos e o Mundo dos Mortos se conectassem, e assim, os mortos poderiam vir em forma de "fantasmas" e visitar os vivos. Daí uma característica daquele rito, deixar no lado de fora das casas, durante à noite, alimentos e vinho, pois acreditava-se que era durante a noite que os mortos passeavam, e assim deixando comida e vinho para eles, os mortos se contentariam com tais oferendas e talvez não viessem a causar algum mal aos vivos. 

Alguns autores chegaram a sugerir que durante o Samhain, sacrifícios humanos seriam realizados. Isso talvez não tenha sido incomum, pois se sabe que os celtas realizavam sacrifícios humanos. Sendo assim, de acordo com Rogers (2002, p. 17) durante o Samhain uma criança seria sacrificada aos deuses, embora não se saiba exatamente que deus seria esse. O sacrifício humano era considerado a maior forma de se ofertar uma oferenda aos deuses entre alguns povos antigos. Para nós pode parecer sombrio, macabro e abominável, mas na concepção deles, ofertar uma criança seria como uma forma de agradecer pelas boas colheitas e pedir aos deuses que o inverno não fosse implacável. 

Powell (1974, p. 145) salienta que durante a celebração do Samhain sacrificavam-se animais, embora ele não mencione se sacrifícios de pessoas também seriam feitos. Além disso, ele chama a atenção para a celebração do casamento simbólico entre o deus tribal e a deusa Morrigan, chamada de "Rainha dos Demônios" entre outros epítetos, pois Morrigan era uma deusa ou divindade com vários atributos. Aqui se percebem características da religião celta a qual era bastante animista e dualista. Neste caso, os celtas acreditavam que toda a tribo possuía um deus guardião, as vezes chamados pelo nome genérico de Dagda, e durante o Samhain esse deus tribal deveria casar-se simbolicamente com a deusa Morrigan, no intuito de celebrar a união entre os vivos e os mortos, entre o natural e o sobrenatural. 

Assim, aqui percebemos algumas características do Samhain: era uma festividade celebrada em uma data importante para os celtas, que marcava o final e começo de um novo ano; assim como, também possuía características de ritos agrícolas e de ritos aos mortos. Logo, se percebe que não havia nenhuma bruxa envolvida nesses festejos, mas o motivo da associação a bruxaria foi algo que surgiu posteriormente, o qual será comentado adiante.

O imaginário cristão medieval sobre os mortos: 

A ideia de que em determinados momentos do ano os mortos estariam mais propensos a atravessarem as barreiras entre o seu mundo e o Mundo dos Vivos, não foi uma crença particular aos celtas, vários povos tinham concepções de que o mundo dos vivos e dos mortos não estivesse tão distante assim. Enquanto alguns chegaram a defender que a crença de que os mortos voltariam a se comunicar com os vivos ou até mesmo a se materializar neste plano era coisa de pagão, sendo crendice e superstição de povos atrasados, os próprios cristãos, judeus e muçulmanos acreditavam (e alguns acreditam) nisso também. 

Logo, ao longo da Idade Média, o cristianismo medieval foi adepto de tais crenças. E para se entender como o Samhain foi absorvido pelo cristianismo é preciso entender um pouco como eram as crenças medievais sobre os vivos e os mortos.

"Os mortos têm apenas a existência que os vivos imaginam para eles. Diferentemente segundo sua cultura, suas crenças, sua época, os homens atribuem aos mortos uma vida no além, descrevem os lugares de sua morada e assim representam o que esperam para si próprios. A esse título, o imaginário da morte e da evolução dos mortos no além constitui universalmente uma parte essencial das crenças religiosas das sociedades. Ele adquire formas diversas mas muito amplamente atestadas, entre as quais as visões e os sonhos ocupam sempre um lugar de primeiro plano. Aqui é reconhecida a capacidade de certos homens, como os xamãs siberianos, de viajar para o além em sonho ou em estado de transe. Alhures, seres de exceção, como Cristo ou, depois dele, os santos do cristianismo, teriam tido o poder de ressuscitar os mortos. Universalmente, está presente também o que se costuma chamar de "crença nos fantasmas"". (LE GOFF, 1999, p. 14). 


"Na sociedade medieval, assim como em muitas outras sociedades tradicionais, a forma particular de existência que se atribui aos defuntos depende do transcurso do "rito de passagem" da morte: os mortos voltam, de preferência, quando os ritos dos funerais e do luto não puderam efetuar-se normalmente, por exemplo, se o corpo de um afogado desapareceu e não pôde ser sepultado segundo o costume, ou ainda se um assassinato, um suicídio, a morte de uma mulher no parto, o nascimento de uma criança natimorta apresentam para a comunidade dos vivos o perigo de uma mácula. Esses mortos são geralmente considerados maléficos. Essa dimensão antropológica e universal do retorno dos mortos está presente, entre outras, na tradição ocidental, desde a Antiguidade, na Idade Média e até no folclore contemporâneo". (LE GOFF, 1999, p. 16).

As pessoas da Europa medieval como em outras épocas e lugares, temiam a assombração do mortos, mas também os respeitavam. Se hoje há gente que tem medo de passar diante de um cemitério, e muito menos iria a este durante a meia-noite, por temer ver uma alma penada, na Idade Média isso não era diferente, embora que nem todo mundo acreditasse em fantasmas ou possuísse medo deles. 

Na Idade Média os cristãos acreditavam que após morrerem suas almas iriam a três lugares: o Paraíso, o Purgatório (isso a partir do século XII, pois antes não havia ideia de Purgatório) e o Inferno. Todavia, em alguns casos, a alma mesmo tendo partido, ela poderia regressar ao mundo humano para pedir socorro, dizer algo ou assombrar. O historiador Jacques Le Goff na citação acima mencionou alguns casos nos quais as almas poderiam ficar presas entre a vida e a morte, mas além destes casos havia vários outros, variando de região para região e de acordo com a época. 

Não obstante, havia também a crença de que os mortos poderiam voltar através não apenas como fantasmas, mas como "zumbis" (embora que o zumbi daquele tempo seja diferente da visão atual que temos dos mortos-vivos, pois o zumbi necessariamente não estaria deteriorado e perdido o raciocínio), no caso de serem convocados por necromantes, ou voltarem como sugadores de sangue, como no caso dos vampiros. Embora que necromantes e vampiros não foram algo comum no medievo, sendo no final desse período que suas lendas começaram a se difundir, mas de qualquer forma, alguns cristãos medievais tinham medo de sair à noite pois temiam esses seres e outros monstros pudessem acometê-los. 


Gravura medieval retratando quatro mortos com instrumentos musicais. No imaginário medieval, não era incomum encontrar histórias de mortos em dadas épocas do ano, perambulando por aí e fazendo coisas de vivos, como tocar música. 
No entanto, os mortos nem sempre eram vistos como seres maléficos que saíam de seus túmulos para ir perturbar os vivos, a Igreja acabou difundido a crença de que alguns desses mortos eram pessoas que retornavam do Além para pedir ajuda, para que assim pudessem sair do Purgatório e prosseguirem para o Paraíso. 

"Doravante todo cristão podia esperar ser salvo, mas com a condição de sofrer depois da morte castigos reparadores cuja duração e intensidade dependiam, de um lado, de seus méritos pessoais (suas boas e más ações e seu arrependimento no momento da morte) e, de outro lado, dos sufrágios (missas, preces e esmolas) de que seus parentes e amigos lançavam mão para sua salvação. Na falta deles, o morto podia aparecer a um parente ou amigo para reclamar-lhe os sufrágios de que tinha a maior necessidade e pedir-lhe que cumprisse em seu lugar as obras pias necessárias à sua salvação. Preocupada em afiançar e organizar a solidariedade dos vivos e dos mortos, a Igreja deu então ampla repercussão aos relatos de fantasmas. Estes, longe de ser apenas esses mortos maléficos que se encontram em todas as culturas em razão das perturbações ou da ausência fortuita do rito de passagem dos funerais. longe de ser apenas produto de velhas crenças pagãs, exprimiram mais amplamente. por seu retorno nos fantasmas, nos medos e nos relatos dos vivos, as múltiplas disfunções possíveis da boa morte cristã". (LE GOFF, 1999, p. 17-18). 

Logo, para poder ajudar os mortos em sua trajetória para passar pelo Purgatório ou ir diretamente para o Paraíso (isso dependeria da integridade e da índole do indivíduo(a) em vida), a Igreja criou uma liturgia específica no intuito de ajudá-loas, mas também de promover a lembrança aos mortos, algo que se assemelha ao culto dos antepassados vistos em várias outras religiões. 


Na Idade Média após o século XII, surgiu a crença de que se deveria orar aos mortos para ajudá-los a saírem do Purgatório e ascenderem ao Paraíso. No caso daqueles que haviam ido ao Inferno, só Cristo ou Deus poderiam salvá-los.
Assim, ainda hoje a Igreja Católica realiza a missa do sétimo dia, a missa de trinta dias e a missa de um ano, como forma de lembrar a partida do morto. Além de ter um dia específico para se recordar dos mortos, o chamado Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, do qual voltarei a falar adiante. 

No entanto, embora a Igreja tenha instituído essas medidas litúrgicas para se celebrar a memória dos antepassados, não significa que ela tolerasse algumas práticas associadas com a morte. Por exemplo, convocar os mortos, falar com eles ou ouvi-los, começou a ser considerado bruxaria e feitiçaria, pois o cristão de bem no máximo poderia ver um morto, mas deveria evitar conversar com ele, e muito menos atender seus pedidos. Tal noção viria a contribuir para um retorno da imagem negativa do Halloween. 

O Dia de Todos os Santos:

Ainda nos primeiros séculos do Cristianismo, algumas comunidades cristãs prestavam homenagens aos mártires da sua religião, os saudando por mesmo perante o perigo e a ameaça de morte, não terem abjurado de sua fé. Por outro lado, também os saudavam pela dedicação que tiveram em propagar a palavra do Senhor e lutar para defender seus irmãos de fé; assim começou a surgir a celebração aos mártires, todavia, foi apenas no século VII, com o papa Bonifácio IV (608-615), o qual converteu o templo romano do Panteão, em igreja dedicada a Virgem Maria e os santos mártires, passando a atribuir a data de 13 de maio, como data litúrgica ao culto de Todos os Santos. 


O Panteão em Roma. Antigo templo romano dedicado a todos os deuses romanos, foi convertido em igreja no século VII, desde então é a Igreja de Santa Maria e os Mártires. 
Todavia, um século depois, o papa Gregório III (731-741) durante seu pontificado, alterou a data do Dia de Todos os Santos a retirando do dia 13 de maio, e passando-a para o dia 1 de novembro. Os motivos pelos quais o papa Gregório III mudou a data de celebração de Todos os Santos não são totalmente conhecidos, mas os historiadores do tema apontam que tal mudança deve ter sido influenciada pela celebração do Samhain, que era feita nessa mesma data. 

É preciso pensar que quando o cristianismo chegava a uma terra, não significava que de um dia para o outro, ou nos próximos meses e anos, sua população teria abandonado completamente suas antigas crenças. As vezes alguns ritos perduravam por séculos, mesmo numa comunidade já cristianizada. No caso do arquipélago bretão, o cristianismo chegou ao que hoje é a Inglaterra, ainda na época do Império Romano, todavia, foi a partir do século VI em diante que os missionários começaram a difundi-lo para a Escócia, País de Gales e a Irlanda. 

Mesmo com essa difusão, conversão e criação de igrejas, mosteiros e capelas, parte da população ainda continuava pagã, assim, os ritos celtas continuaram a coexistir ao lado dos ritos cristãos, e mesmo os celtas cristãos não abandonaram totalmente suas antigas crenças. No século VIII, o Samhain ainda era celebrado naquelas ilhas. Assim, o papa teria mudado a data para 1 de novembro como forma de inserir o rito de Todos os Santos no lugar do rito do Samhain, isso não foi nem a primeira e última vez que a Igreja alterou datas e adaptou crenças pagãs ao cristianismo; um dos maiores exemplos é a data do Natal

Na Bíblia não informa a data de aniversário de Jesus, todavia, no século IV alguns papas começaram a sugerir que o Natal deveria ocorrer no dia 25 de dezembro, pois era um período importante no calendário romano e de outros povos. Os romanos comemoravam por essa época as Saturnálias, festas dedicadas ao deus Saturno; os mitraístas, seguidores do Mitraísmo, celebravam o nascimento de Mitra no dia 25 de dezembro; neste caso, o mitraísmo era uma religião popular entre a elite romana, sem contar a versão derivada, o culto ao Sol Invictus, que era popular entre os militares, os quais também celebravam o nascimento do Sol Invictus no dia 25 de dezembro. O imperador Constantino, o Grande responsável por participar das principais reuniões para estabelecer o dogma cristão no século IV, foi antes de se converter ao cristianismo, um adorador do Sol Invictus e talvez do mitraísmo. 

Assim, retornando ao caso do Samhain e do dia de Todos os Santos, fica a hipótese de que o papa Gregório III querendo impedir que os celtas cristãos e os celtas não cristianizados ainda continuassem a manter suas práticas antigas, acabassem por optar em escolher o culto aos santos. Mas o que se celebra no dia de Todos os Santos?

De acordo com o site Catolicismo Romano, no Dia de Todos os Santos celebra-se:

"Segundo o ensinamento da Igreja, a intenção catequética desta celebração que tem lugar todo o mundo, ressalta o chamamento de Cristo a cada pessoa para o seguir e ser santo, à imagem de Deus, a imagem em que foi originalmente criada e para a qual deve continuar a caminhar em amor. Isto não só faz ver que existem santos vivos (não apenas os do passado) e que cada pessoa pode ser, mas sobretudo faz entender que são inúmeros potenciais santos que não são conhecidos, mas que da mesma forma que os canonizados igualmente veem Deus face a face, têm plena felicidade e intercedem por nós. O papa João Paulo II foi um grande impulsionador da "vocação universal à santidade", tema renovado com grande ênfase no Segundo Concílio do Vaticano".

Nota-se aqui que a ideia no século VIII era transferir o foco da atenção dos cristãos celtas para se aprofundarem ainda mais na devoção da sua nova fé. Se antes no Samhain celebrava-se os mortos no geral, agora com o dia de Todos os Santos, os mortos celebrados eram os santos e mártires conhecidos e desconhecidos. A diferença é que você passaria a celebrar homens e mulheres que foram cristãos devotos, os quais serviriam de modelo para sua boa conduta, assim como, inspiração de fé. 


Todos os Santos. Autor: Fra Angelico. Ano: 1423-1424.
Todavia, a medida do papa Gregório III não resultou em mudanças imediatas. Os celtas cristãos passaram a celebrar os santos como mandava a liturgia daquela data, indo as igrejas para assistir a missa, todavia, na véspera desse 1 de novembro, havia alguns que realizavam os antigos ritos do Samhain, e isso deu origem ao Halloween.

A véspera do Dia de Todos os Santos:

No século VIII, no dia 1 de novembro era celebrado como já dito o Dia de Todos os Santos (All Saints Day), todavia, alguns na véspera desse feriado litúrgico continuavam a realizar ritos associados ao Samhain, assim, passou a se chamar o dia 31 de outubro pelo nome de All Hallows Eve (Véspera do Dia de Todos os Santos). A palavra hallow significa venerar, consagrar, mas também é entendida como sinônimo para santo neste contexto. (BONWICK, 1984, p. 87). 

O problema que o venerar e consagrar que aquelas pessoas tinham em mente no século VIII e posteriormente, não dizia respeito aos santos católicos propriamente, mas ainda eram reminiscências das antigas crenças de culto aos mortos e aos ancestrais. Logo, não era incomum as pessoas acenderem fogueiras, realizarem banquetes, cantarem e dançarem e até mesmo deixarem oferendas aos mortos. O fato de hoje no Halloween as pessoas irem pedir comida ou se fazer doces para distribuir é algo que tem haver com essas práticas antigas. 

Sendo assim, os cristãos celtas ainda continuavam a manter antigas práticas pagãs, logo, qual foi a medida que a Igreja tomou para combater isso? Quase um século depois, o papa Gregório IV (828-844) instituiu como sendo rito universal do cristianismo, a celebração de Todos os Santos, após dedicar a Basílica de São Pedro, a todos os santos. No entanto, a medida do papa foi importante, pois antes disso o feriado não era regularmente celebrado. Após seu decreto todos os clérigos teriam obrigação de realizá-lo. Mas além dessa mudança, o papa também na prerrogativa de combater as práticas pagãs realizadas na véspera, instituiu uma vigília.

Com a instituição da vigília vespertina ou da madrugada, o intuito era manter os cristãos ocupados na vigília, onde eles realizariam orações e participariam de uma procissão pelas fazendas, vilas, feudos e cidades, indo em direção a igreja ou igrejas para assistir a primeira missa do dia 1 de novembro (DOUGLAS, 1948, p. 741). Como as principais celebrações do All Hallows Eve eram feitas durante à noite, os cristãos estariam ocupados com a vigília, logo não poderiam sair desta para participar daquelas práticas pagãs, ou pelo menos se pensava assim, mas na prática, algumas pessoas conseguiam se ausentar por algum momento e realizar os antigos ritos.

O Hallontide da Idade Moderna: 

No século XV, se conhece o termo Allhollawtide, posteriormente chamado Hallontide ou Hallowtide, que segundo Rogers (2002, p. 24) seria um termo anterior a Halloween, mas já apresentando-se como uma contração do termo All Hallows Eve. De acordo com Rogers, o Hallontide era um festejo celebrado do dia 31 de outubro ao dia 2 de novembro, percebe-se que as atividades do dia 31 eram estendidas por mais dois dias, o que revela a popularidade desse festejo. Neste caso o Hallontide na Idade Moderna, matinha algumas características interessantes, ainda influenciadas pela tentativa medieval de expurgar a influência pagã.

Em uma nova tentativa de combater o paganismo durante o All Hallow Eve, a Igreja no século XIII, instituiu o Dia de Finados (All Souls Day), em 2 de novembro. Ao longo da história do cristianismo percebe-se a manifestação religiosa de se orar aos mortos como comentado anteriormente neste texto, todavia, nunca houve uma data específica para se fazer isso. No século XI alguns papas recomendaram que os mortos fossem lembrados pelo menos uma vez ao ano. 

Todavia, apenas dois séculos depois é que começou a se instituir um dia específico para isso, e de acordo com os historiadores do tema, a data de 2 de novembro teria sido uma influência advinda do mosteiro beneditino de Cluny, na França; local administrado por São Odilo de Cluny (c. 969-1049) ao longo de 54 anos. São Odilo teria sido o responsável por designar o dia 2 de novembro como data para se prestar homenagem aos mortos. A escolha do dia 2 devia-se como forma de aproveitar o intuito de celebrar os santos e mártires no dia primeiro, e no dia seguinte continuaria-se com essa celebração, mas agora voltada principalmente para os familiares falecidos. 

Embora demorou tempo para se oficializar tal data, isso acabou ocorrendo ainda no medievo. Logo, Quando o Hallontide surge ainda no final da Idade Média, ele estava relacionado não apenas com o dia 31 de outubro, mas também com os dias 1 e 2 de novembro. No entanto, quais seriam as características dessas festividades?

Por exemplo, no Hallontide as pessoas realizavam vigílias, como também acendiam velas e fogueiras, além do fato dos sinos das igrejas tocarem de noite. O fogo, a luz e o badalar dos sinos seriam formas de amedrontar os maus espíritos, pois a crença de que durante aquela época os fantasmas poderiam aparecer ou os mortos poderiam sair de seus túmulos ainda existia em alguns lugares. Outras medidas também observadas eram se fazer uma visita ao cemitério, no qual o padre jogaria água benta e benzeria as lápides no intuito de impedir que os mortos se levantassem; neste caso, as pessoas que o acompanhavam também poderiam deixar flores, água, pão e até leite. Aqui se percebe que mesmo tendo sido cristianizado tal rito, ainda mantinha-se características pagãs como ofertar comida aos mortos (ROGERS, 2002, p. 23-24). 

Pelos séculos XVI e XVII outras práticas do Halloween foram surgindo, embora algumas fossem exclusivas de certas localidades. Por exemplo, os adolescentes usarem máscaras de pano para ir pedir pão, vinho e dinheiro, alegando que aquilo seria ofertado aos mortos ou seria dado a Igreja, embora que na maioria das vezes ficasse com eles mesmos. Em outros casos, homens mascarados aproveitavam para cantar, dançar e declamar poesia ou contar histórias, ver-se aqui reminiscências as práticas celtas do Samhain. No entanto, alguns desses mascarados poderia causar problemas ou confusão agindo de forma travessa, embora que as travessuras só começaram a ser algo habitual no final do século XIX. Na Inglaterra moderna, observava em alguns locais a peculiar prática de que durante o Hallontide, os amigos pediam dinheiro para ajudar um dos amigos que iria casar. (ROGERS, 2002, p. 25). 

Ao longo dos séculos outras práticas foram sendo desenvolvidas e outras foram sendo esquecidas, de qualquer forma, observa-se um sincretismo religioso, mas também uma laicização desse festejo. Pois com o tempo o rito aos mortos foi sendo deixado de lado, sendo substituído pela festa e depois as brincadeiras. Inclusive é preciso salientar que não foi apenas a Igreja Católica que criticou o Halloween, mas as igrejas protestantes também. 

Durante o século XVI, na Inglaterra, a Igreja Anglicana tentou abolir o Hallontide, inclusive alguns reis como Henrique VIII e Eduardo VI tentaram abolir o Hallontide, o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados, porém, tais práticas estavam tão impregnadas na sociedade que mesmo os éditos de proibição não surtiram efeito desejado, e a realização do Hallontide continuou pelos séculos seguintes, inclusive sendo levada pelos colonos ingleses para a América do Norte, de onde no século XIX, tornou-se o popular Halloween naquelas terras. 

Por que Dia das Bruxas?

Para os falantes de línguas anglo-saxãs, Witch's Day não é algo que soe como sinônimo de Halloween, mas como dito anteriormente, para os falantes do português e do espanhol, Dia das Bruxas é a interpretação dessa data, pois nem se pode falar em tradução, pois não consiste numa tradução. De qualquer forma a associação do Halloween com algo pernicioso data ainda do começo da Idade Média, pois vimos que a Igreja procurou formas de combater as práticas celtas do Samhain as adaptando para sua liturgia. Só que tais práticas ainda continuaram a serem realizadas e no final da Idade Média, elas passaram a serem interpretadas como manifestações associadas a bruxaria e o mal. 

Não se sabe exatamente quando o Halloween passou a ser visto como estando associado as bruxas, mas podemos aqui tentar trilhar esse caminho tomando como referência o contexto do final da Idade Média e do começo da Idade Moderna quando a caça às bruxas começou a se tornar algo mais comum. 

De acordo com Rogers (2002, p. 16-18) as práticas ritualísticas e mágicas celebradas durante o Samhain, em alguns casos eram feitas ou conduzidas pelos druidas, os sacerdotes celtas. Neste caso, existe um debate se as druidesas também participavam daqueles ritos, pois alguns consideram que a presença de druidesas possa ter inspirado a associação do Halloween com as bruxas. Por outro lado, existem historiadores que defendem que druidesas nunca existiram. Apenas os homens poderiam ser druidas. 


Druidas e talvez druidesas presidiam as celebrações do Samhain, mas será que eles continuaram a fazer isso durante o medievo, e teriam inspirado a associação do Halloween com as bruxas?
O problema dessa hipótese é que os druidas e druidesas praticamente despareceram da História antes da metade da Idade Média, e mesmo em vários locais o número desses sacerdotes e sacerdotisas era pequeno devido a conversão dos celtas ou a perseguição imposta pela Igreja, pois os druidas e druidesas foram associados com a bruxaria, feitiçaria e magia negra. 

Não obstante, outro motivo que põe em dúvida essa hipótese é o fato de que o Samhain foi sendo substituído pelo dia de Todos os Santos, mas algumas de suas práticas se mantiveram na véspera, o All Hallows Eve, entretanto, não podemos pensar que tais práticas seriam as mesmas no século I, ou no século VI, ou no século VIII, ou no século XV. O Halloween que hoje conhecemos é um produto do século XX, por sua vez sua versão no século XIX era diferente, e nos séculos anteriores também. Assim, não podemos atribuir necessariamente que a associação com a bruxaria deva-se a presença de druidas e druidesas nos ritos do Samhain vistos no final da Idade Antiga e começo da Idade Média. 

Por outro lado, provavelmente um dos fatores que levou a associar-se o Halloween com as bruxas advenha do preconceito, fanatismo e superstição cristãs com práticas pagãs. E um dos caminhos para entender isso, diz respeito ao misterioso ritual do sabá. A palavra shabbat é de origem hebraica e significa "descanso", "repouso", "cessar" etc. Tal palavra era usada para se referir ao último dia da semana, o Sábado. De fato o cristianismo adotou essa noção judaica de sete dias e até o termo shabbat passou a ser usado em alguns casos, porém em dado momento no século XV, ainda no medievo, a palavra sabá foi associada com bruxaria.

Além da palavra sabá, havia várias outras expressões que se referiam aos encontros noturnos de bruxas e bruxos: sagarum synagoga, strigiarum conventas, striaz, barlòtt, akelarre, etc (GINZBURG, 1986, p. 11). O curioso é que os termos sabá e sagarum synagoga visivelmente possuíam ligação com a cultura judaica, a qual era vista de forma perniciosa, pois em diferentes épocas da Idade Média, os judeus eram vistos com desconfiança, assim como os ciganos, ambos eram considerados trapaceiros, enganadores e místicos. E geralmente esse misticismo era visto como sendo bruxaria. 



Gravura retratando o imaginário cristão sobre o Sabá. Aqui se ver bruxas, demônios e animais como sapos e cobras, criaturas associadas a bruxaria. 
No final da Idade Média e começo da Idade Moderna, em alguns locais não era incomum ouvir as pessoas falarem que nas noites de Lua Nova e Lua Cheia, eram momentos nos quais as bruxas iriam se reunir para celebrar o sabá. O imaginário cristão sobre o sabá é demasiadamente sombrio e macabro, envolvendo rituais de magia negra, sacrifícios de animais e de pessoas, sangue, orgias, torturas, invocação do mortos e até mesmo oferendas ao Diabo.(DUNWICH, 2000, p. 120).

James Bonwick (1984, p. 87-90), menciona um relato de um homem rico que em 1610, diz ter visto várias bruxas se reunirem num casarão, onde passaram o restante da noite em balbúrdia. Em 1691, o reverendo R. Kirk diz ter visto vários demônios surgirem durante à noite e falarem línguas estranhas. Kirk apontou que as bruxas eram culpadas de convocá-los durante suas profanas celebrações. Ambos os acontecimentos ocorreram na Irlanda, estando relacionados com o começo de novembro, ou seja a época do Hallontide, pois ainda naquele tempo acreditava-se que os mortos e maus espíritos saíssem à noite naquelas datas, fosse por conta própria, ou por invocação do Diabo ou de bruxas e bruxos. 

O problema é que o sabá como descrito e imaginado pelos cristãos necessariamente não era aquilo que ocorria. A Igreja sempre procurou associar aquilo considerado por ela como sendo errado, tratando-se de obra do Diabo. Neste caso a "magia branca" era tolerada, mas a "magia negra" era manifestação de Satanás, logo, deveria ser combatida (LOYN, 1990, p. 137). Assim, durante o Hallontide medieval e moderno, oferendas aos mortos ainda eram prestadas, além do fato das pessoas saírem de noite para fazer isso. A própria condição de fazerem isso à noite já conotava tratar-se de ser algo ruim, suspeito e pernicioso.

"A Bíblia já expressara essa desconfiança em relação às trevas comum a tantas civilizações e definira simbolicamente o destino de cada um de nós em termos de luz e escuridão, isto é, da vida e da morte". (DELUMEAU, 1989, p. 97).

Neste caso, o Hallontide chegou a ser mal visto pelos cristãos, estando associado ao sabá. E para embasar tais argumentos, alguns clérigos chegaram a remeter as Sagradas Escrituras para fundamentar que a bruxaria era algo malévolo.

"Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; Nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti". (Deuteronômio 18:10-12)

Dependendo da tradução da Bíblia, palavras como mágico e encantador são traduzidas como bruxas e feiticeiras, mas na prática observa-se todos aqueles que estivessem associados as artes mágicas da adivinhação, da comunicação com os espíritos e a "magia negra" eram condenáveis. O problema é que na prática isso nunca foi uma regra, pois como mencionado, a "magia branca" era tolerada, e havia cristãos que eram videntes, e nem por isso sofreram perseguição.

Todavia, não podemos considerar que o Hallontide sempre fosse mal visto; em alguns locais o Hallontide era celebrado e até mesmo realizado como uma brincadeira, como comentado anteriormente, porém essa ideia de bruxaria começou a ficar mais forte na Idade Moderna com o surto a caças às bruxas (LOYN, 1990, p. 136). Ainda assim não tem como se precisar quantas mulheres e homens foram acusados de bruxaria porque participavam do Hallontide.

O problema disso se deve ao fato de que o Hallontide estava restrito ao arquipélago bretão, e em alguns locais na França e na Alemanha. Nestas regiões não havia inquisição na Idade Moderna, o que resulta em falta de documentos, pois nas terras que a inquisição prevaleceu: Portugal, Espanha e Itália, existem milhares de relatórios inquisitoriais provenientes dos séculos que essas instituições estiveram em funcionamento. Muitos casos de bruxaria foram julgados pelas inquisições, mas devido ao Hallontide está fora dessa jurisdição, não dispomos de tais relatórios, pois mesmo as autoridades locais fossem clérigas ou laicas, não mantinham necessariamente registros sobre os casos de bruxaria. 

Não consegui identificar em que época o uso do termo "Dia das Bruxas" e "Dia de las Brujas" foram a primeira vez usados em Portugal e Espanha, mas é importante mencionar que o próprio Halloween americano acabou absorvendo tais noções no final do XIX, logo, em propagandas do Halloween no século XX, vemos imagens de bruxas.

De qualquer forma, é importante dizer que na prática, ao longo de séculos, o Halloween esteve mais associado aos mortos e fantasmas do que com bruxas, e no século XIX ele perdeu totalmente seus últimos resquícios religiosos referentes ao culto aos mortos. Desde então o Halloween é uma mera festa a fantasia.

Referências Bibliográficas:
BONWICK, James. Irish druids and old Irish religions. New York, Dorset Press, 1984. 
DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 1989. 
DOUGLAS, George William. The American Book of Days. New York, H.W. Wilson Company, 1948. 
DUNWICH, Gerina. The Pagan Book of Halloween. Pensilvania, Penguin Books, 2000. 
GINZBURG, Carlo. História nocturna. Traduzido por Alberto Clavería Ibáñez. Barcelona, Muchnik Editores SA, 1986. 
KONDRATIEV, Alexei. Samhain: Season of Death and Renewal. An Tribhis Mhór: The IMBAS Journal of Celtic Reconstructionism, vol. 2, n. 1/2, 1998. 
LE GOFF, Jacques. Os Vivos e os Mortos na sociedade medieval. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo, Companhia das Letras, 1999. 
LOYN, H. R. (org.). Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990. 
POWELL, T. G. Os Celtas. São Paulo, Editora Verbo, 1974. 
ROGERS, Nicholas. Halloween: From Pagan Ritual to Party Night. New York, Oxford University Press, 2002. 

Fontes da internet:
All Hallows Eve - BBC
History of Halloween - History Channel
Catolicismo Romano

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