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Leandro Vilar

domingo, 11 de dezembro de 2016

Os heróis gregos

Hoje é comum ouvirmos falar de heróis na vida real, aqueles que surgem durante as tragédias que acometem a humanidade a cada dia, ou nas artes (romances, poemas, filmes, desenhos, videogames etc). Todavia, ainda fica restrito ao cinema e as histórias em quadrinhos (hqs) o lar dos mais cultuados e venerados heróis dos últimos cem anos. No século XX através destas histórias vimos o surgimento dos super-heróis e dos anti-heróis, além de várias heroínas, algo que outrora não era bem visto, já que essencialmente o heroísmo era algo masculinizado. 

Nesse estudo apresentei alguns conceitos para palavra herói, termo de origem grega, e a partir deste realizou-se um estudo das características dos heróis gregos, do formato de seus mitos, suas ações, histórias, feitos, tragédias e algumas das funções que estes mitos possuíam, pois os gregos antigos cultuavam seus heróis. 



Alguns heróis da Guerra de Troia. 
Conceito de herói: 

Herói s.m. (Do gr. e lat. heros) 1. Nome dado pelos gregos aos grandes homens divinizados. - 2. Aquele que se distingue por seu valor ou por suas ações extraordinárias, principalmente por feitos brilhantes durante a guerra. - 3. Principal personagem de uma obra literária (poema, romance, peça de teatro, etc.) ou cinematográfica; protagonista. - 4. Principal personagem de uma aventura, de um acontecimento. (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, p. 2954).


“A etimologia, a origem e a estrutura ontológica de herói ainda não estão muito claras. Talvez se possa falar com certa desenvoltura acerca de "suas funções" e, assim mesmo, tomando-se como ponto de partida sobretudo a Grécia. É claro que todas as culturas primitivas e modernas tiveram e têm seus heróis, mas foi particularmente na Hélade que a "estrutura", as funções e o prestígio religioso do herói ficaram bem definidos e, como acentua Mircea Eliade, ‘apenas na Grécia os heróis desfrutaram um prestígio religioso considerável, alimentaram a imaginação e a reflexão, suscitaram a criatividade literária e artística’”. (BRANDÃO, 1987, p. 15).

“Etimologicamente, ήρωας (héros) talvez se pudesse aproximar do indo-europeu servä, da raiz ser-, de que provém o avéstico haurvaiti, "ele guarda" e o latim seruäre, "conservar, defender, guardar, velar sobre, ser útil", donde herói seria o "guardião, o defensor, o que nasceu para servir"”. (BRANDÃO, 1987, p. 15).  

Para Jean-Pierre Vernant (1990, p. 431) os heróis seriam homens notórios, podendo ser de origem divina ou não, os quais destacaram-se em vida pelos seus feitos, normalmente como guerreiros, aventureiros e líderes. Necessariamente os heróis gregos não possuíam superpoderes, característica comum hoje em dia, em geral, o que se destacavam neles era sua coragem, determinação e ambição. Tais homens acabaram ganhando fama e glória ao ponto de serem cultuados e até mesmo divinizados em alguns casos, por exemplo, Héracles (Hércules na versão romana), recebia culto tanto de gregos e romanos, como também possuía templos. AgamemnonMenelau e Helena recebiam ritos fúnebres, nos supostos túmulos que lhe foram atribuídos.  

Pierre Grimal (2009, p. 82) cita a teoria do filósofo Evêmero (c. 330-c.250 a.C), o qual alegava que os deuses e os heróis na verdade foram pessoas reais, que em dado momento foram divinizados, deificados. A concepção de Evêmero conhecida como evemerismo, procurou racionalizar o mito. Ela obteve adeptos, mas também fortes opositores. Todavia, Grimal menciona que enquanto essa ideia de divinizar homens para que se tornassem deuses é problemática, no caso dos heróis talvez pudesse ser mais plausível, embora ele faça várias ressalvas em dizer que não concordava com o evemerismo.

Por exemplo, após a morte de Alexandre, o Grande (356-323 a.C) lendas surgiram ao seu respeito, inclusive algumas lhe atribuindo façanhas que nunca realizou em vida, e outras até mesmo debatendo se sua origem era realmente humana ou divina, pois em vida, o próprio Alexandre chegou a dizer que era filho de Zeus. Sem contar que ele mesmo se comparava a Aquiles e a Héracles. 

“O termo herói, comenta Brelichpermaneceu nas línguas modernas sobretudo com o sentido de guerreiro, de combatente intrépido. E talvez tenha sido este o significado mais antigo da palavra e é principalmente esta a conceituação que Homero empresta aos bravos da Guerra de Tróia. À mesma conotação se deve a heroização em massa dos que tombaram em Maratona contra os bárbaros de Dario (Paus. 1,32,4)”. (BRANDÃO, 1987, p. 41-42). 

O psicólogo Otto Rank (1884-1939) em sua monografia intitulada The Myth of the Birth of the Hero (1914), analisou vários heróis a partir de um viés psicológico. Para Rank (1914, p. 80-82) as histórias de heróis no mundo antigo tinham certas coisas em comum: eram no geral homens, os quais nasceram de uma relação conturbada, as vezes proibida ou até mesmo profética e milagrosa. Após nascerem alguns desses heróis foram abandonados ou sofreram tentativas de serem mortos na infância. Durante a adolescência começaram a apresentar características físicas, mentais e outras habilidades que o distinguiam dos outros meninos da sua idade. Alcançando a maturidade iniciam suas aventuras. Os heróis enfrentam tiranos, monstros, fundam cidades, dinastias, reinos, impérios etc. Realizam grandes feitos. 

Não obstante, Rank também procurou analisar os heróis a partir do subconsciente tomando como referência os trabalhos de Sigmund Freud (1856-1939) acerca do mito de Édipo. Pelo fato de pouco conhecer da área de psicologia e psicanálise, optei em não adentrar esses estudos de psicologia da religião e do mito, todavia, ainda nesse âmbito se faz necessário mencionar a teoria do arquétipo, bastante difundida nos estudos de mito e religião devido ao psiquiatra Carl Gustav Jung (1875-1961). 


Em termos gerais e simples, Jung dizia que haveriam certos comportamentos, ideias e projeções inatas, ou seja, qualquer indivíduo humano em plena capacidade das faculdades mentais, teria gravado em seu subconsciente esse roteiro primordial. Partindo de tal teoria alguns mitólogos como Joseph Campbell (1904-1997) começou a estudar o mito do herói em diferentes culturas, observando muitas similaridades e até mesmo esboçou uma teoria na qual quase todas as histórias de heróis seguiriam etapas narrativas em comum. Campbell salientava que a ideia de arquétipo fosse uma forma de explicar como povos de diferentes lugares e épocas, os quais nunca se conheceram, possuíam histórias em comum. (CAMPBELL, 1995, p. 17-22).



“Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas — forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes”. (CAMPBELL, 1995, p. 18). 

Características centrais dos heróis gregos:


Tendo explicado de forma razoável algumas noções sobre o conceito de herói, aqui apresentados conceitos também referentes aos heróis gregos, mas também a heróis no geral, passemos para comentar alguns aspectos centrais que caracterizavam os heróis dos gregos antigos. Boa parte dessas noções já foram delineadas na citação de Angelo Brelich, especialista na religião e mitologia grega. Por sua vez o mitólogo Junito Brandão baseado em Brelich escreveu acerca dessas características centrais, as quais apresento a seguir. 


a) Nascimento:


Os heróis gregos possuem um "nascimento complicado" ou um nascimento marcado por determinados acontecimentos que misturam o trágico, o proibido e o profético. (BRANDÃO, 1987, p. 22). Soma-se a isso o fato de que alguns heróis eram filhos de deuses e deusas, o que lhes concedia o fator de serem semideuses, seres situados entre o divino e o mundano. 



“Perseu, Teseu, Héracles e muitíssimos outros. Descendem de um deus com uma simples mortal: Minos, Sarpédon e Radamanto, filhos de Zeus e Europa; Castor, Pólux, Clitemnestra e Helena, do mesmo Zeus e Leda; Asclépio, de Apolo e Corônis; ou de uma deusa com um mortal: Enéias e Aquiles, frutos respectivamente dos amores de Afrodite e Anquises e de Tétis e Peleu ou, por vezes, lhe é atribuída uma "dupla paternidade": Teseu é filho de Posídon e "Egeu"; Héracles, de Zeus e "Anfitrião"”. (BRANDÃO, 1987, p. 22). 

Dânae e a chuva de ouro. Adolf Ulrik Wertmüller, 1787. Segundo o mito, o rei Acrísio temendo que sua filha tivesse um filho, o qual de acordo com o oráculo iria matá-lo, ordenou que a princesa fosse trancafiada numa caverna ou masmorra. No entanto, Zeus transformado em chuva dourada adentrou o recinto e engravidou Dânae. 
“Os heróis podem ter ainda um nascimento irregular, em conseqüência de um incesto: Egisto é fruto do incesto de Tieste com sua filha Pelopia, e a "ninhada tebana", Etéocles, Polinice, Antígona e Ismene, provém de Édipo com sua própria mãe Jocasta...; acrescente-se, ademais, que muitos heróis, além do nascimento difícil ou irregular, são expostos, por força normalmente de um Oráculo, que prevê a ruína do rei, da cidade, ou por outros motivos, caso o recém-nascido permaneça na corte ou na pólis. É assim que Páris, Édipo e Egisto são expostos num monte. O primeiro o foi porque sua sobrevivência, como sonhara sua mãe Hécuba, ameaçava Tróia; Édipo, porque, segundo o oráculo, estava condenado a cometer parricídio e casar-se com a própria mãe; e Egisto, porque Pelopia fora violada; outros são expostos nas águas do mar, como Perseu, que punha em perigo a vida de seu avô, o rei Acrísio, conforme se verá no capítulo seguinte”. (BRANDÃO, 1987, p. 22). 

Laio e Édipo. De acordo com o mito, o rei Laio ao saber pelo oráculo que seu filho estava amaldiçoado, decidiu se livrar dele. Assim, ele prendeu o menino de cabeça para baixo numa árvore. 
Um fato não comentando por Brandão, diz respeito que vários heróis gregos eram nobres: Héracles era príncipe, pois seu padrasto era o rei Anfitrião de TirintoPerseu era filho da princesa DânaeTeseu era filho do rei Egeu de AtenasJasão era filho do rei Esão de Iolco. Odisseu era filho do rei Laerte de Ítaca. Os heróis troianos Heitor e Páris eram filhos do rei Príamo, e Eneias era filho de Anquises, o qual era primo de Príamo. Um dos motivos para que muitos heróis pertencerem a nobreza se dava pela condição genealógica, bastante apreciada pelos gregos; pois estes heróis não apenas eram descendentes de nobres, mas também geraram uma descendência nobre. Logo, não era incomum algumas famílias tradicionais reivindicassem ser descendentes destes heróis. (FUNARI, 2002, p. 17). 

b) A instrução:

Outra característica que marca os heróis gregos é a fase que eles são educados. Fase na qual recebem treinamento militar, aprendem a caçar, a ler, escrever, tocar instrumentos musicais entre outros saberes. Normalmente os heróis eram instruídos por mestres contratados pelos seus pais ou padrastos, onde a instrução ocorria em casa. Em outros casos os heróis eram enviados até os mestres, o que consistia na fase de "desprendimento do lar", algo comentando por Joseph Campbell. Neste caso, um dos grandes professores dos heróis foi o centauro Quíron

“Vários foram os mestres dos heróis, como Lino, Eumolpo, Fênix, Forbas, Cônidas…, mas o educador-modelo foi o pacífico Quirão, o mais justo dos Centauros, na expressão de Homero, Il. XI, 832. Muitos heróis passaram por suas mãos sábias, na célebre gruta em que residia no monte Pélion: Peleu, Aquiles, Asclépio, Jasão, Actéon, Nestor, Céfalo… lista que é enriquecida por Xenofonte, em sua obra Cinegética, 1,21 (Tratado sobre a Caça) com mais catorze nomes! Quirão era antes do mais um médico famoso, donde sua arte primeira era a Iátrica, mas seu saber enciclopédico, como aparece nos monumentos figurados e literários, fazia do educador de Aquiles um mestre na arte das disputas atléticas, Agonística, e talvez praticasse e ensinasse ainda a arte divinatória, Mântica. Não pára aí, todavia, a versatilidade de Quirão: ministrava igualmente a seus discípulos conhecimentos relativos à caça, Cinegética; à equitação, Hípica, bem como lhes ensinava a tanger a lira e o arremesso do dardo”. (BRANDÃO, 1987, p. 26). 

Quíron ensinando Aquiles a tocar lira. Afresco romano encontrado em Herculano, datado do século I a.C. 
Junito Brandão (1987) e Joseph Campbell (1995) consideravam que essa parte da instrução também estava associada aos ritos iniciáticos, algo comum na sociedade grega antiga, embora também visto em outras sociedades. Os ritos iniciáticos em geral no caso grego estavam associados a fatores sociais e cívicos, como o menino e a menina entrarem na fase de puberdade; o adolescente (efebo) tornar-se adulto e depois cidadão. O casamento real e simbólico (ou a tentativa de casamento). Havia casos de iniciações em em grupos religiosos (mistérios). 

“A esse respeito, com o respaldo da obra já citada de Angelo Brelich, Mircea Eliade faz as seguintes ponderações: "Certos heróis (Aquiles, Teseu etc.) são associados aos ritos de iniciação dos adolescentes, e o culto heróico é freqüentemente executado pelos efebos. Muitos episódios da saga de Teseu são, na verdade, provas iniciatórias: o seu mergulho ritual no mar, prova equivalente a uma viagem ao outro mundo, e precisamente no palácio submarino das nereidas, fadas kourotróphoi (quer dizer, em grego, 'nutridoras dos jovens') por excelência; a penetração de Teseu no labirinto e seu combate com o monstro (Minotauro), tema exemplar das iniciações heróicas; e, finalmente, o rapto de Ariadne, uma das múltiplas epifanias de Afrodite, no qual Teseu conclui a sua iniciação por meio de uma hierogamia”. (BRANDÃO, 1987, p. 27). 

c) A jornada:

O herói tendo completado sua formação e instrução ele estava mais ou menos apto para iniciar sua jornada. A jornada do herói nos dizeres de Campbell (1995) marca a etapa na qual ele será testado de diferentes formas, assim como, é a oportunidade dele fazer seu nome, e assim conquistar fama e glória. Embora que essa jornada também possa ser marcada por tragédias. 

Perseu tendo alcançado a maior idade decidiu participar do desafio proposto pelo rei Polidecto, o qual cobiçava Dânae, mas via que o jovem filho da princesa não permitiria o relacionamento com a mãe, decidiu se livrar do rapaz. Assim, Polidecto desafiou os jovens da sua ilha a irem em busca da terrível górgona Medusa. Perseu como outros heróis, possuía grandes ambições, então decidiu se arriscar nessa difícil empreitada de matar a Medusa. (MÉNARD, 1991a, p. 213). 


Teseu cansado de Atenas se humilhar perante Creta, pois anualmente pagava um tributo de sangue, tendo que enviar sete rapazes e moças virgens, os quais eram oferecidos em sacrifício ao Minotauro. O jovem herói decidiu ser um dos sete rapazes, então seguiu para Creta. Lá ele acabou conquistado o amor da princesa Ariadne, filha do rei Minos. Ariadne ajudou Teseu a não se perder no labirinto e por sua vez, o herói matou a terrível criatura com cabeça de touro e corpo de homem. (MÉNARD, 1991b, p. 276-277). 



Estátua de Teseu matando o Minotauro. Etienne Jules Ramey, 1827. Jardim das Tulherias, Paris. 
“Jasão, tão logo abandonou a corte de Iolco, foi entregue ao grande educador de heróis, o Centauro Quirão, de que já se falou no Vol. II, p. 90. Aos vinte anos organizou a célebre Expedição dos Argonautas. Navegou com seus cinqüenta e cinco heróis através das "rochas azuis", as Ciâneas, também denominadas Simplégades, "as rochas que se fecham", chegou à Cólquida, venceu as "provas" impostas por Eetes, enganou o dragão que guardava o Velocino de Ouro e regressou com o mesmo, para disputar com o usurpador Pélias o trono que a ele Jasão cabia de direito e de fato”. (BRANDÃO, 1987, p. 24). 

Aquiles e Odisseu foram convocados pelo rei Agamemnon de Micenas para ajudar seu irmão o rei Menelau de Esparta, na missão de resgate e vingança contra os troianos, pois o príncipe Páris havia levado a rainha Helena, dita a mais belas das mulheres. Por tal pretexto Agamemnon convocou os reis da Grécia e declarou guerra aos troianos, dando início a Guerra de Troia, história contada em diversos poemas, mas principalmente na Ilíada, atribuída a Homero


Héracles após um ataque de loucura e fúria causado pela deusa Hera, acabou assassinando seus filhos (em algumas versões sua esposa Megara também). Em busca da expiação de seu crime involuntário e da redenção ele procurou o Oráculo de Delfos, o qual o aconselhou procurar sua reabilitação através de trabalhos. O oráculo sugeriu o herói procurar pelo rei Euristeu, o qual era seu primo. Euristeu incumbiu Héracles de realizar Doze Trabalhos


A jornada do herói consiste nos feitos que o tornam reconhecido, ou melhor dizendo que lhe garantiram fama e glória. 


d) A ajuda dos deuses:


Nem todo herói contou com a ajuda e a proteção divina, e em alguns casos os próprios deuses causaram problemas aos heróis ou o contrário ocorreu, os heróis desafiaram e causaram problemas aos deuses. Neste caso as principais divindades que auxiliavam os heróis eram Atena, Afrodite, Ares e Hermes. Existem vários ocasiões que esses deuses auxiliaram os heróis, vou comentar algumas delas, mas destacarei o caso de Atena e de Perseu. 



“A epopeia grega pretende essencialmente engrandecer os debates dos homens e, através do mito, ampliá-los às dimensões do universo. Seus relatos, tomados à letra, manifestam uma fé religiosa: Zeus e as divindades do Olimpo intervêm nas questões humanas de modo concreto; é preciso honrá-los com sacrifícios, acalmar seus ressentimentos, ganhar suas boas graças por todos os meios”. (GRIMAL, 2009, p. 7). 

Na Guerra de Troia como visto na Ilíada, os deuses indiretamente e diretamente participam do grande conflito. Atena e Hera reprovando a atitude de Afrodite em ter incentivado Páris a raptar Helena, causa que gerou a guerra, decidiram fornecer apoio aos gregos, incentivando-os a se reunirem e atacarem os troianos. Afrodite que tinha apresso pelos troianos devido a Páris e a Eneias, ficou ao lado deles. 


“É curioso, aliás, como os deuses se dividiram, militarmente, nessa refrega, tendo cada um, evidentemente, seus motivos e interesses pessoais. Se ao lado dos Aqueus se alinharam Atená, Hera, Tétis, Posídon, nas fileiras troianas pelejavam Afrodite, Ares, Apoio, Ártemis. Alguns deles foram até mesmo feridos em combate, como Ares e Afrodite. Tem-se, não raro, a impressão, na leitura da Ilíada, de que a Guerra de Tróia, em determinados momentos, foi mais uma teomaquia, uma luta de deuses, do que uma andromaquia, um confronto de heróis. Zeus posicionou-se como árbitro, não de todo isento: dependia, por vezes, do tom da voz feminina que lhe chegasse aos ouvidos. . . Em todo caso, pesava os destinos, confundindo-se, muitas vezes, com a própria Moîra e, no fundo, sabedor de que a vitória final seria dos Aqueus, soube retardá-la, para dar-lhe um brilho maior”. (BRANDÃO, 1986, p. 109). 

Ares e Atena se enfrentado durante a Guerra de Troia. Pintura numa ânfora grega, c. VI a.C. Durante a guerra Atena ficou ao lado dos gregos, por sua vez, Ares apoiou os troianos. Em determinada ocasião os deuses da guerra se desentenderam e partiram para o combate. 
A mãe de Aquiles, a deusa Tétis havia banhado o menino quando pequeno nas águas do rio Estiges para lhe conceder invulnerabilidade, embora um de seus calcanhares havia ficado de fora. Além disso durante a guerra Tétis solicitou que Hefesto o deus da forja, do fogo e da ferraria fizesse nova armadura para Aquiles. A própria deusa Atena chegou a repreender Aquiles devido a sua selvageria no campo de batalha. Por outro lado a deusa incentivou heróis como MenelauAjaxDiomedes Odisseu

Afrodite protegeu seu filho Eneias em algumas ocasiões. Páris contou com a proteção de Apolo até certa época, antes do deus abandonar de vez os troianos. O sacerdote troiano Laocoonte tentou alertar seu compatriotas em não levar o cavalo de madeira deixado pelos gregos para dentro da cidade. De acordo com uma versão, Apolo o puniu, enviando serpentes para matá-lo. Outra versão diz que Poseidon enviou serpentes-marinhas que mataram o sacerdote. 


Hermes instruiu Odisseu em como não cair no feitiço de Circe. Éolo o deus dos ventos ajudou Odisseu a retornar para casa, mas os companheiros do herói puseram tudo a perder, postergando em mais alguns anos o retorno. Héracles em seu trabalho para capturar Cérbero, segundo uma versão, contou com a ajuda de Hermes e Atena para poder entrar e sair do HadesTeseu contou em algumas ocasiões com o apoio de Poseidon, a quem considerava ser seu verdadeiro pai. Medeia foi instruída pela deusa da magia Hécate a auxiliar Jasão a conseguir o Velo de OuroAtena auxiliou os argonautas na construção do navio ArgosCadmo foi instruído por Atena em como derrotar um dragão. Posteriormente Zeus em recompensa pelo feito do herói, lhe deu em casamento Harmonia

Existem várias outros momentos nos quais os deuses ajudaram os heróis, mas falarei de um caso excepcional, a jornada de Perseu. O herói foi um dos poucos a ter contando com a ajuda de vários deuses, além do fato de ter recebido equipamentos destes para poder cumprir com seus trabalhos. 


O traiçoeiro rei Polidectes tinha interesse na bela Dânae, mãe de Perseu, mas sabia que com o filho presente, suas chances de casamento eram zero. Assim Polidectes sabendo que o jovem rapaz era impulsivo e almejava glória lhe desafiou a matar a Medusa. Todavia, Perseu não sabia onde ficava a ilha da Medusa, então recorreu aos deuses. Zeus seu pai ordenou prontamente que Hermes e Atenas guiassem o meio-irmão até a terra sombria das Greias, três irmãs velhas e horrendas as quais possuíam um único olho, que era compartilhado entre elas.


As três deusas não quiseram dar a resposta a Perseu, então ele roubou o olho delas e barganhou em troca de devolvê-lo apenas após elas lhe contarem o que sabiam a respeito da Medusa. As irmãs disseram que para poder derrotar terrível monstro ele precisaria voar para chegar até a distante ilha, precisaria de um saco especial para guardar a cabeça do monstro, pois deveria levá-la como prova que havia matado a criatura; e terceiro, ele necessitaria do elmo da invisibilidade de Hades, pois só assim conseguiria adentrar o covil da górgona sem ser percebido. 


De posse de tais informações, Perseu contou a Hermes e Atena a respeito. Hermes lhe deu uma espada e lhe emprestou suas sandálias aladas. Atena lhe deu um escudo de bronze, bastante polido que parecia um espelho. Além de fornecer de acordo com algumas versões um saco para poder pôr a cabeça da Medusa. Por fim, os dois deuses foram conversar com Hades e lhe convenceram a emprestar seu elmo da invisibilidade. Equipado, Perseu voou até a ilha da Medusa. 



Perseu e a cabeça da Medusa. Benvenuto Cellini, 1554. Florença, Itália. 
“Não podendo, por isso mesmo, fixar Medusa, Perseu pairou acima das três Górgonas adormecidas, graças às sandálias aladas; refletiu o rosto de Medusa no polido escudo de Atená e, com a espada que lhe deu Hermes, decapitou-a. Do pescoço ensangüentado do monstro nasceram o cavalo Pégaso e o gigante Crisaor, filhos de Posídon, que foi o único deus a se aproximar das Górgonas e ainda manter um comércio amoroso com Medusa. Posteriormente a cabeça do monstro foi colocada no escudo de Atená e assim a deusa petrificava a quantos inimigos ousassem olhar para ela”. (BRANDÃO, 1987, p. 82). 

Apresentando alguns momentos onde deuses e deusas auxiliaram os heróis, comentarei um pouco da principal divindade que ajudava os heróis gregos, a deusa Atena. Filha de Zeus e Métis, nasceu já adulta, empunhando armas e soltando um grito de guerra. Atena embora seja principalmente lembrada como a deusa da sabedoria, ainda assim, ela era sobretudo também a deusa da guerra. Uma divindade marcial ao lado de seu meio-irmão Ares. 



Ilustração da deusa Atena. 2013. 
Antes da época dos homens, Atena lutou contra o gigante Palas, o matando. Sua primeira grande vitória lhe fez usar o nome do inimigo, passando também a ser conhecida como Palas Atena. Na guerra contra os titãs, lutou e venceu o titã Encélado, e lutou ao lado de seu pai e irmão contra o abominável Tifão, o mais poderoso dos titãs. (GRIMAL, 2005, p. 53). Após se firmar como uma deusa guerreira, Atena passou a zelar pelos heróis, os auxiliando em distintas histórias. 

Na Ilíada e na Odisseia, o nome da deusa é mencionado várias vezes. Vimos que Atena participou do Julgamento de Páris (algo que voltarei a abordar adiante), a partir de tal julgamento, a deusa desaprovando a ação de Páris e de Afrodite que o apoiava, decidiu ficar ao lado dos gregos na Guerra de Troia, inclusive chegou a lutar no campo de batalha, confrontando seu irmão Ares, como comentando acima. Durante a guerra a deusa aconselha AquilesMenelauOdisseuDiomedes e outros heróis. Pelo fato de ser mais cautelosa, prudente e sábia do que seu irmão Ares, o qual personifica a guerra inconsequente e brutal, Atena representava a guerra estratégica


Todavia, a participação da deusa é mais recorrente na Odisseia. Admirada pela inteligência e nobreza de Odisseu, a deusa o auxilia em várias ocasiões, mesmo que o herói não saiba que tenha sido ela. É a deusa que faz a princesa Nausícaa encontrar Odisseu no dia que ele chegava a ilha dos Feácios. A deusa incentiva o rei Alcínoo dos Feácios a fornecer um navio para levar Odisseu de volta a Ítaca. Atena também influencia na decisão de Calipso em permitir que Odisseu fosse embora. Já em Ítaca a deusa continua a ajudar o herói até o final da narrativa. Além disso, Atena também zela por Penélope e o filho do casal, Telêmaco


Atena transforma Odisseu num velho. Giuseppe Bottani, 1775. Ao retornar para Ítaca, Odisseu solicitou a ajuda da deusa para lhe aconselhar no que fazer a seguir. Atena sugeriu que o herói retornasse disfarçado ao palácio, a fim de sondar a situação antes de tomar alguma medida precipitada. 
Depois de Odisseu, o herói que mais recebeu apoio e ajuda da deusa foi seu meio-irmão Héracles. Durante o trabalho para matar as perigosas aves do algo Estínfalo, a deusa deu ao herói um sinete ou instrumento parecido, com o qual ele fez barulho para fazer o bando deixar os ninhos e sobrevoar o lago. Dessa forma ele alvejou todas as aves, as exterminando. Em outra ocasião, a deusa acompanhou o irmão até o Hades, no trabalho de se capturar Cérbero, o cão de guarda do inferno. No trabalho que o herói teve que conseguir as maçãs douradas do Jardim das Hésperides, Héracles deu as maçãs a sua irmã, a qual as devolveu ao jardim. Além dos Doze Trabalhos a deusa auxiliou Héracles em outros momentos também. 

Todavia, a predileção dos heróis para a Atena, devia-se a algo que Junito Brandão comentou bastante, a chamada hýbris, que pode ser traduzido como arrogância exacerbada, falta de controle, soberba, prepotência desmedida, falta de prudência. Brandão (1987, p. 66) comenta que todos os humanos eram passíveis da hýbris, mesmo os deuses em alguns casos se descontrolavam, mas isso era mais comum entre os humanos. Neste caso, os heróis em determinadas situações eram tomados pelo hýbris, e isso lhe trazia sérios problemas. Atena pelo fato de ser uma deusa prudente, racional e sábia, procurava orientar os heróis evitando que cometessem excessos, embora nem sempre ela estivesse presente para aconselhá-los. 


e) A tragédia:

Uma das grandes características dos heróis gregos era a tragédia. Em determinadas épocas de suas vidas eles passavam por momentos conturbados, perigosos, violentos, dramáticos e trágicos.


Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet (1996, p. 23-24) especialistas na mitologia e religião grega, comentaram que ainda hoje a origem da tragédia entre os gregos não é exata. Aqui o historiador e mitólogo se referia a tragédia não no acontecimento, mas a tragédia no sentido de performance e gênero literário. Vernant diz que no Período Clássico (VI-IV a.C) da história grega, surgiu o teatro e as tragédias como gênero literário se popularizaram. Para Vernant a tragédia como encenação teatral originou-se a partir de ritos civis e religiosos, nos quais as pessoas encenavam acontecimentos míticos. Inclusive ele assinalava para o fato de que os atores gregos usavam máscaras no teatro, como forma de incorporar os personagens. 


Nesse sentido, a tragédia seria uma dramatização de um rito, de um mito, de uma história. O fenomenologista e hermeneuta da religião Mircea Eliade trabalhou muito com essa questão de performance do mito, em seu livro O mito do eterno retorno, dizendo o seguinte: 



“Un objeto o un acto no es teoría real más que en la medida en que imita repite un arquetipo. Así, la realidad se adquiere exclusivamente por repetición o participación:, todo lo que no tiene un modelo ejemplar está “desprovisto de sentido”, es decir, carece de realidad. Los hombres tendrán, pues, la tendencia a hacerse arquetípicos y paradigmáticos. Esta tendencia puede parecer paradójica, en el sentido de que el hombre de las culturas tradicionales no se reconoce como real sino en la medida en que deja de ser él mismo (para un observador moderno) y se contenta con imitar y repetir los actos de otro. En otros términos, no se reconoce como real, es decir, como “verdaderamente él mismo” sino en la medida en que deja precisamente de serlo”. (ELIADE, 2001, p. 25). 

De fato, o teatro não era apenas uma forma de arte e entretenimento, mas também consistia numa forma de ensinar as pessoas acerca de seus mitos e histórias, como também de resgatar o passado, a memória, além de inspirar e ensinar sobre os ritos, as leis, os costumes e as consequências de seus atos. (VERNANT;VIDAL-NAQUET, 1996, p. 25-28). 

Richard Buxton (2008, p. 167-168) comenta que um dos traços expressivos dos mitos gregos sobre os heróis é a presença da tragédia. A tragédia para os gregos antigos era algo quase que dependente do heroísmo. Basicamente toda a história de herói teria algum momento trágico, pois nesse sentido tal momento era o fator desencadeador da jornada, da missão, das consequências. Essencialmente era o fator da mudança. A tragédia no mito do herói é o momento no qual ele se via confrontado. É o momento dele fazer escolhas. 

Um dos mitos que narra a origem da Guerra de Troia, remonta a origem dessa contenda ao príncipe renegado, Páris. O jovem era filho de Príamo e Hécuba, senhores de Troia. De acordo com um sonho profético tido pela rainha, o filho que ela carregava no ventre, traria a ruína de Troia. Hécuba contou isso ao marido, e quando o pequeno Páris nasceu, Príamo ordenou que o bebê fosse morto. A rainha entregou a criança para o pastor Agesilau, o qual abandonou a criança no Monte Ida. Todavia, dias depois passando por lá Agesilau descobriu que o bebê estava vivo. Uma ursa havia se compadecido da criança, e passou amamentá-lo e protegê-lo. Agesilau tomou a criança e lhe criou como se fosse seu filho, lhe dando o nome de Alexandre. Páris (Alexandre) passou a infância e a adolescência criado por uma família de pastores. Foi nessa vida na qual ele ainda não sabia ser um príncipe de Troia, que o prenúncio da tragédia teve início. (BRANDÃO, 1986, p. 107).

Enquanto Páris levava uma vida simples na Troade, na Grécia, Tétis e Peleu (os pais de Aquiles) estavam oficialmente se casando. Vários deuses foram convidados, mas Éris, a deusa da discórdia não foi convidada. Indignada com a desfeita, ela compareceu como intrusa no casório e ofereceu um pomo dourado (o Pomo da Discórdia), para que esse fosse dado de presente as três deusas presentes ali: Hera, Atena e Afrodite. Todavia os deuses relutaram em atender a isso, então Zeus ordenou que Hermes pegasse o pomo e escolhesse um homem justo, neste caso, o rei do Olimpo sugeriu o pastor Páris. Hermes atendendo as ordens de seu pai e rei, viajou ao Monte Ida com as três deusas. 

O julgamento de Páris. Enrique Simonet, c. 1904. A partir de um simples julgamento de beleza, a discórdia se imperou e o destino de um povo foi traçado. 
Hermes contou a história para Páris e o obrigou a ser árbitro daquele "concurso de beleza". O mortal teria que escolher quem era a mais bela das deusas e lhe dar como prêmio a maçã dourada de Éris. Cada deusa lhe prometeu algo: Hera prometeu que se fosse escolhida, lhe daria o domínio da Ásia. Atena lhe prometeu sabedoria e vitória em todas as suas batalhas. Afrodite lhe prometeu que a mulher mais bela do mundo se apaixonaria por ele. Páris ao contemplar o belo corpo desnudo de Afrodite lhe elegeu a vencedora do concurso. Afrodite em recompensa lhe disse para ele viajar a Esparta, pois lá vivia Helena, a mais bela das mulheres. Com isso teve-se início a Guerra de Troia, pois Helena apaixonada por Páris, decidiu fugir para se casar com este. 

Por mais que o Julgamento de Páris não represente uma tragédia propriamente falando, ele desencadeia uma. O adultério de Helena desencadeou a fúria e a vingança de Menelau, o qual aliado ao seu irmão Agamemnon, declararam guerra a Troia. Durante os dez anos de conflitos vários heróis morreram no combate. Pátroclo, amigo e amante de Aquiles foi morto por Heitor, o que levou Aquiles a se vingar, matando Heitor. E em um dos momentos trágicos da história, o rei Príamo vai até a tenda de Aquiles, suplicar que esse entregasse o corpo de seu filho amado. Eneias escapa de Troia que ardia em chamas, guiando um grupo de sobreviventes e carregando nas costas seu velho pai Anquises

Posteriormente Aquiles também acabou morrendo no conflito. Além dele SárpedonAjax e outros heróis são mortos. Por sua vez, Troia é arrasada e incendiada. Príamo é assassinado e sua família quase aniquilada. Odisseu que sobrevive a longa guerra acaba encontrando problemas com Poseidon o qual o pune a nunca retornar mais para casa, o que dá origem a longa jornada de dez anos de Odisseu. 

Menelau retornou vitorioso para casa com sua esposa e espólios de guerra, mas por sua vez Agamemnon teve um final trágico. Sua esposa Clitemnestra (irmã de Helena), nunca perdoou o marido por ter sacrificado a filha Efigênia aos deuses, a fim de pedir boa viagem à Troia. Com o auxílio de seu amante Egisto, eles mataram o rei. Os demais filhos do casal, Electra e Orestes sabendo do ocorrido se revoltaram contra a mãe, e Orestes influenciado pela irmã, assassinou Clitemnestra e Egisto. O seu ato o levou a ser atormentado pelas Erínias, deusas da vingança e da punição. 

O remorso de Orestes. William-Adolphe Bouguereau, 1862. Nessa pintura vemos as Erínias atormentando Orestes, o qual havia acabado de assassinar a própria mãe. 
Se tomarmos outras histórias de heróis fora do Ciclo Troiano, também notamos a presença da tragédia. Teseu indignado com o sacrifício de sangue que Atenas tinha que pagar para Creta, decidiu agir. Embora que após triunfar ao matar o Minotauro e escapar da ilha em companhia da princesa Ariadne, o herói abandonou ela e retornou para Atenas. 

Jasão motivado pela doença de seu pai e a usurpação do seu trono pelo seu tio Pelias, se arriscou a conseguir o Velo de Ouro, passando por vários perigos. Ao retornar para casa, além do Velo de Ouro ele retornou casado com a princesa Medeia, mas anos depois a abandonou por uma esposa mais jovem. Medeia inconsolada, assassinou os próprios filhos. Héracles devido ao assassinato de seus filhos decidiu buscar a redenção e essa veio através dos Doze Trabalhos. Embora que o herói teve uma morte trágica, motivada pelo ciúmes de sua esposa Dejanira

O herói Beleforonte realizou grandes façanhas ao lado de Pégaso, mas tais feitos elevaram seu orgulho ao nível da soberba. Beleforonte tentou subir o Olimpo, e Zeus o puniu. Segundo uma versão o deus do trovão o fulminou com um raio pela sua ousadia. Édipo derrotou a traiçoeira Esfinge que matava os viajantes nos arredores de Tebas, todavia, ele descobriu sua maldição, então furou seus próprios olhos. Orfeu desceu ao Hades para resgatar sua esposa Eurídice, a qual morreu picada por uma cobra, enquanto tentava escapar de um sátiro que tentou estrupa-la. 



Orfeu chorando a morte de Eurídice. Ary Scheffer, 1814. 
Para os gregos antigos a tragédia tinha mais a ensinar do que a comédia. A comédia estava mais relacionada com a ironia, a sátira, o deboche, a crítica social, a diversão e o deleite. Por sua vez a tragédia também entretia, mas ela apresentava questões e assuntos que levavam não apenas a compaixão, a tristeza, a empatia, a desaprovação ou admiração, a tragédia ensinava que a vida não era perfeita, que mesmo os heróis os quais diziam ser os homens mais próximos dos deuses no sentido de virtude, eram passíveis de sofrer e sentir dor. Até mesmo os deuses também sofriam e sentiam dor, embora não pudessem morrer. 

"O herói é uma personagem especial, que sempre deve estar preparado para a luta, para os sofrimentos, para a solidão e até mesmo para as perigosas catábases à outra vida. As iniciações da efebia servem-lhe de escudo e de respaldo para as grandes gestas nesta vida, mas a iniciação nos Mistérios parece predispô-lo para a última aventura, para a derradeira agonia: a morte, que, na realidade, o transformará no verdadeiro protetor de sua cidade e de seus concidadãos. E fato curioso, como se verá, alguns heróis, após a morte, passam a ter igualmente direito a um culto mistérico!". (BRANDÃO, 1987, p. 51). 


Através das tragédias diz Vernant e Vidal-Naquet (1996, p. 27) as pessoas aprendiam a responsabilidade que seus atos e escolhas tinham. E dependendo do que faziam ou não faziam, isso poderia acarretar em problemas para si. Além disso a tragédia ia além dos mitos dos heróis. Em vários outros mitos encontramos momentos trágicos: Narciso se afogando após em vão tentar agarrar seu próprio reflexo; Prometeu roubou o fogo dos deuses e foi preso por Zeus; a rainha Níobe insultou a titânide Leto, então seus filhos Apolo e Ártemis defenderam a honra da mãe e exterminaram os 14 filhos de Níobe; O rei Sísifo temia morrer, então por duas vezes enganou Tânatos, o deus da morte. Na terceira vez ele foi pego, então foi condenado a sofrer no Tártaro; o rei Licaão serviu carne humana para um estrangeiro, o qual era Zeus disfarçado. O deus ao perceber que aquilo era carne humana, assassinou Licaão e seus filhos, os quais eram tão cruéis quanto o pai. 


No caso dos heróis também temos alguns exemplos nos quais as atitudes deles lhes trouxeram consequências graves. Os heróis gêmeos Castor e Pólux sequestraram Hiléria e Febe, as quais eram noivas de Idas e Linceu, isso gerou uma batalha entre eles, no que resultou na morte de Castor, pois Pólux era imortal. Héracles em seu trabalho no qual deveria limpar os estábulos do rei Augias, cobrou em troca de fazer aquilo, que o rei lhe desse como pagamento 1/10 de seu rebanho. Augias se negou a cumprir com o trato, e o herói lhe declarou guerra, invadindo o reino de Augias e o levando a morte. 

Aquiles ao se desentender com Agamemnon se retirou do campo de batalha, isso causou sérias derrotas aos gregos, então Pátroclo vestiu a armadura de Aquiles e fingiu ser ele, a fim de motivar os soldados, mas o jovem herói foi morto por Heitor, causando grande dor e raiva para Aquiles, o qual chegou a se culpar por aquilo ter ocorrido. Ajax, o Grande, considerado um dos maiores heróis durante a Guerra de Troia, acabou cometendo suicídio após passar vergonha. Por sua vez, Ajax, o Menor foi amaldiçoado por Atena, por ter profanado seu templo em Troia. A deusa o fez cair no mar e se afogar. 


Por outro lado a tragédia como dito, consistia num momento no qual o herói era confrontado, era testado, era desafiado. Em geral muitos heróis após passarem por uma tragédia buscavam superá-la. Aqui temos uma moral em alguns mitos: a superação. O maior exemplo disso são os mitos dos Doze Trabalhos de Héracles, o qual ao realizá-los ele procurou se redimir a si mesmo, mas também perante a sociedade pelo crime que cometeu (mesmo tendo sido algo involuntário). A superação de alguns heróis servia de inspiração. 



Hércules atirando flechas em suas crianças. Antonio Canova, 1799. Enlouquecido por Hera, Héracles matou a própria família. 
Vernant e Vidal-Naquet (1996, p. 27) também salienta que a tragédia era uma forma de conhecer a punição divina pelos seus atos, pois os gregos acreditavam em destino, inclusive possuíam três divindades específicas para isso, as chamadas Moiras. As deusas que teciam o destino dos homens. 

Além disso muitos heróis tiveram finais trágicos. Embora não seja algo determinante, já que grande heróis como PerseuCadmo, Menelau, Nestor foram alguns que não morreram de forma trágica. 



“Se o herói tem um nascimento difícil e complicado; se toda a sua existência terrena é um desfile de viagens, de arrojo, de lutas, de sofrimentos, de desajustes, de incontinência e de descomedimentos, o último ato de seu drama, a morte, se constitui no ápice de seu páthos, de sua "prova" final: a morte do herói ou é traumática e violenta ou o surpreende em absoluta solidão. Afirma Brelich que ainda não se fez uma estatística, e é pena, mas acrescenta que a maioria dos heróis morre tragicamente”. (BRANDÃO, 1987, p. 63). 

Héracles teve sua pele queimada devido a um veneno dado pelo traiçoeiro centauro Nesso a Dejanira, esposa do herói. Na época Nesso tentou raptar Dejanira, mas Héracles o feriu mortalmente. Antes de morrer ele enganou Dejanira lhe entregando um frasco de veneno dizendo que era uma poção do amor. Outra versão diz que ele falou que seu sangue tinha poderes mágicos, e pediu para a pobre mulher colhê-lo, mas o sangue estava envenenado pelas flechas de Héracles. Independente da versão, Dejanira molhou uma manta com o veneno ou sangue e deu para o marido, a manta começou a queimar a pele do herói. A dor era tão grande que Héracles cometeu suicídio ao se jogar numa fogueira. Embora tenha sido poupado da morte e ganho a imortalidade. 


Aquiles morreu sendo atingido por Páris, com uma flecha no calcanhar, logo o seu único ponto fraco! Posteriormente os gregos vingaram o grande guerreiro, matando Páris. Heitor foi morto por Aquiles e seu corpo foi arrastado ao redor da cidade até ficar quase desfigurado. Agamemnon como dito, foi assassinado pela esposa. O rei estava se banhando numa banheira, quando Clitemnestra o teria degolado segundo uma versão. Teseu já próximo da velhice, foi traído pelo rei Licomedes, seu parante, o qual o abrigava no exílio voluntário do herói. Licomedes temendo que Teseu planejasse lhe usurpar o trono, o atirou de um penhasco. 


Jasão após muitas aventuras, certa ocasião descansava a sombra de seu navio Argo, quando uma viga teria despencado e esmagando o herói. Odisseu já idoso foi assassinado por Telégono, o qual era o filho que teve com Circe. A tragédia se dá no fato de que nenhum dos dois sabia que eram pai e filho. Telégono que nunca conheceu o pai, foi à Ítaca procurá-lo, mas ao ver um velho moribundo que se desentendeu com ele, o assassinou. O gigante caçador Órion teria tentado estuprar a deusa Ártemis ou uma de suas escravas, aquilo atiçou a ira de Apolo que ordenou a morte do caçador. 


Édipo quando descobriu que havia matado seu pai Laio e casado com sua mãe Jocasta, furou os próprios olhos e renunciou ao trono. Édipo morreu velho, solitário e profundamente amargurado. Belerofonte devido a sua arrogância, desafiou os deuses e foi morto por causa disso. Orfeu o qual havia prometido não amar outra mulher, acabou sendo assassinado pelas Mênades as quais consideraram que Orfeu as havia repudiado. Assim elas o mataram e lhe cortaram a cabeça. 



Ninfas observando a cabeça de Orfeu. John William Waterhouse, 1899. 
“É a morte, no entanto, que lhe confere e proclama a condição sobre-humana. ‘Se, por um lado, diz Eliade, não são imortais como os deuses, por outro os heróis se distinguem dos seres humanos pelo fato de continuarem a agir depois da morte. Os despojos dos heróis são carregados de temíveis poderes mágico-religiosos. Os seus túmulos, relíquias, cenotáfios atuam sobre os vivos durante longos séculos’”. (BRANDÃO, 1987, p. 64). 

f) A falha:


Enquanto em algumas histórias narram as aventuras de heróis virtuosos, imaculados, justos, íntegros, os quais são o exemplo de boa conduta, os heróis gregos eram bem mais mundanos e realistas. Assim como qualquer pessoa, os heróis cometiam seus erros e crimes. Eles eram tomados por suas paixões, pelo ciúmes, a cobiça, a ambição, a vingança e a cólera. Existem várias histórias que narram esse lado "menos digno" do heroísmo grego. A maioria dos erros mais comuns envolvendo os heróis estavam: adultério, luxúria, vingança, arrogância e ódio. 


Junito Brandão (1987, p. 66-67) diz que quatro características centrais cercavam os heróis: timé (honra), areté (superioridade, grandeza), métron (limite) e hýbris (falta de controle, arrogância, insolência). Quando o herói ultrapassava o limite de seus atos (métron) ele caía num estado de arrogância, insolência, prepotência, raiva etc., podendo alcançar o até (fúria, soberba). E chegando a tal estado, o herói não apenas punha em risco os outros, mas também poderia cometer crimes que gerariam consequências desastrosas. 


Héracles descontente pela reprovação de Lino, seu instrutor de música, o assassinou. Além disso o herói era conhecido por ser mulherengo e infiel. Todavia seu papel como mulherengo tem uma explicação, a qual comentarei no próximo tópico. O já mencionado caso da desfeita do rei Augias com Héracles, levou o herói a se vingar, declarando guerra a ele e pilhando um reino. Em outra ocasião que o herói foi tomado de raiva, ocorreu em Troia, antes da guerra. Após matar um monstro que assolava a cidade, o rei Laomedonte (pai de Príamo) não acatou com sua parte do acordo. Héracles indignado assassinou Laomedonte e quase todos os seus filhos, poupando Príamo devido a intervenção de sua irmã Hesíone que consentiu se tornar escrava, caso o irmão fosse poupado da escravidão.  



Héracles assassinado Laomedonte seus filhos. Arte em terracota, c. I e II d.C. 
Teseu enganou Ariadne a qual se apaixonou por ele e o ajudou a sair do labirinto. Embora tenha fugido de Creta com a princesa, a abandonou numa ilha. Em outra ocasião, o herói ateniense sequestrou Helena, enquanto essa era apenas uma menina (outra versão diz que ela era adolescente). Todavia a jovem princesa foi resgatada por seus irmãos Castor e Pólux, os quais aproveitaram para saquear o reino de Teseu, fazendo seu povo o detestá-lo. Posteriormente Teseu em companhia de Héracles e outros heróis confrontaram as amazonas. 

De acordo com algumas versões o herói sequestrou Hipólita ou Antíope, e a tornou sua esposa. Outras versões dizem que elas se ofereceram para ser sua mulher. O sequestro das amazonas geraram uma guerra entre amazonas e atenienses, embora Teseu conseguiu vencer a batalha com seu exército. Teseu ao lado de Pirítoo chegaram a se aventurar no Hades, no intuito de sequestrar a deusa Perséfone, mas falharam nisso. Héracles conseguiu resgatar Teseu, mas não pôde fazer o mesmo com Pirítoo. 



O rapto de Perséfone. Autor desconhecido, séc. XVI. Uma das ideias mais loucas de Teseu foi tentar raptar a deusa do submundo. 
Aquiles era bastante orgulhoso e prepotente. Sequestrou algumas mulheres, sendo uma das mais conhecidas a troiana Briseis, a qual foi feita sua escrava. Também acerca da guerra, o herói Diomedes se mostrou bastante arrogante ao ponto de afrontar os deuses Ares e AfroditeOdisseu fez o mesmo com Poseidon. Inclusive enquanto sua esposa Penélope se manteve resguardada até o retorno do marido, Odisseu tomou algumas mulheres como amante, principalmente a feiticeira Circe e a ninfa Calipso. Por fim, quando ele retornou à Ítaca, declarou guerra aos outros senhores, pois alegava que tentaram lhe usurpar o trono. 

Páris seduziu Helena e a forçou a cometer adultério. Ajax, o Menor ao invadir Troia, estuprou a princesa CassandraOdisseu ordenou que Astíanax o bebê de Heitor fosse atirado do alto das muralhas de Troia, para que não viesse vingar a morte do pai. O filho de Aquiles, Neoptólemo sacrificou Políxena ao seu pai, para pedir bons ventos na viagem de volta. Além disso conta uma versão que Neoptólemo levou a esposa de Heitor, Andrômaca como escrava, vindo a se casar com ela depois. Ele também foi responsável por assassinar o rei Príamo


O herói Pelóps em conflito com Estinfalo, o convidou para um banquete e na ocasião o assassinou traiçoeiramente. O rei Éaco teve três filhos PeleuTélamon e Foco, sendo que Foco era um filho bastardo. A esposa de Éaco, Endeis incentivou os filhos Peleu e Télamon a assinarem Foco, e os dois cumpriram com a tarefa. Jasão traiu Medeia, a trocando por Gláucia, a qual era bem mais jovem e bela. Medeia ressentida e amargurada matou os próprios filhos e foi embora, retornando para sua terra natal.

Além de serem mulherengos e adúlteros (em alguns casos), de matar, de vingar, de raptar e de estuprar, os heróis também mentiam, roubavam, enganavam e trapaceavam. Héracles em certa ocasião era hóspede de Ífito; cobiçando uma manada de éguas que ele possuía, o matou e roubou os animais. Um dos trabalhos impostos ao herói por Euristeu, era o de roubar os bois vermelhos do gigante Gerião. O herói não mediu esforços para isso. Assassinou todos que estavam em seu caminho para conseguir levar os raros bois até Euristeu. 


Pélops a fim de conquistar a princesa Hipodâmia para casamento, teria que vencer o seu pai Enomau numa corrida de carros. Todavia o rei possuía um excelente auriga chamado Mirtilo. Para vencer a corrida, Pélops sabotou o carro do rei, o que lhe concedeu a vitória, mas Enomau acabou se acidentando e veio a morrer. 


Jasão e Medeia montaram uma emboscada para se livrar da frota enviada pelo rei Eetes da Cólquida para recuperar sua filha que decidiu abandonar sua pátria. Na ocasião um dos irmãos de Medeia, Apsirto acabou sendo assassinado por eles e esquartejado. Seus pedaços distraíram os soldados colquidianos. Teseu se valendo da ingenuidade e da paixão avassaladora que Ariadne possuía por ele, a usou para conseguir sair do Labirinto do Minotauro e depois abandonou a pobre princesa apaixonada na ilha de NexosMenelau enganou Ajax na disputa pelos espólios de Aquiles. 


Ariadne abandonada por Teseu. Angelica Kauffmann, 1773. 
O caso de Odisseu é emblemático. O herói era conhecido por ser sagaz e astuto. Com base num ardil ele projetou um imenso cavalo de madeira que permitiu os gregos terem a vitória na Guerra de Troia. Em outra ocasião, na jornada de volta para casa, ele e seus companheiros foram feitos prisioneiros pelo ciclope Polifemo. Para tentar escapar, Odisseu brilhantemente mentiu para o tolo ciclope. Polifemo ao perguntar como Odisseu se chamava, o rei respondeu que seu nome era Ninguém. O ciclope se convenceu que aquilo era verdade. 

Posteriormente Odisseu e seus companheiros conseguiram furar o olho de Polifemo, enquanto esse dormia. O gigante com dor e fúria abriu a caverna e gritou por ajuda dizendo: "Ninguém me feriu", "Ninguém mentiu para mim", "Ninguém me enganou", "Ninguém tenta me matar". Os outros ciclopes zombaram de Polifemo e não foram ao seu auxílio. Os gregos para escaparem da caverna teriam que passar pelo gigante cego que mantinha guarda na entrada. Odisseu recomendou que todos se prendessem de baixo das ovelhas e assim conseguiram sair, pois ao perceber que eram seus animais, o grande pastor os deixaria sair. 


Para alguns mitólogos as mentiras e trapaças de Odisseu são justificáveis. O Cavalo de Troia foi um brilhante estratagema para invadir a cidade. As mentiras contadas a Polifemo foram uma saída esperta para que eles conseguissem escapar. 



“O herói é, pois, o que é: uma complexio oppositorum. E assim sendo, talvez se pudesse encerrar o presente capítulo com uma outra "conjugação dos opostos": se de um lado a "idealização é um apotropismo secreto, porque se idealiza, quando se quer conjurar um perigo", de outro, não se pode abandonar por completo a "idealização heróica", porque "quando o homem perde a capacidade de idealizar, sobrevém fatalmente a morte do mundo heróico", um mundo que faz falta, porquanto "uma das grandes crises do mundo moderno é a esterilização da imaginação"”. (BRANDÃO, 1987, p. 71). 

A função dos heróis: 

Raffaele Pettazzoni (1921, p. 45-46) sublinha que os heróis possuíam um papel importante de legitimação de dinastias e famílias (um valor genealógico), assim como, a legitimação histórica, acerca da origem dos lugares (cidades, vilas, reinos, regiões etc.). Neste caso falamos do chamado "herói civilizador", o qual consiste naquele herói que instaura alguma característica de civilidade; seja fundando centros urbanos, tornando uma área selvagem habitável, seja ensinado técnicas, a escrita, as artes, as leis etc. 


Pelo fato dos heróis terem sido homens superiores (artré) e de fama (timé), na sociedade grega antiga, isso consistia em aspectos bastantes valorizados por eles. Além disso, no pensamento religioso grego, o mundo foi criado pelos deuses e tudo que havia nele, fosse bom ou ruim, era oriundo da vontade de alguma divindade. Até mesmo as cidades seriam indiretamente fruto deles, pois temos reis e heróis semideuses fundando cidades. 

Perseu fundou Micenas, e originou a Dinastia Perseida. O rei Lacedemônio ao lado de Esparta, fundou a cidade de EspartaCadmo fundou TebasÉaco fundou EginaTros fundou TroiaArgos fundou ArgosOdisseu segundo mitos romanos, teria fundado pelo menos 30 cidades na ItáliaAscânio, filho de Eneias, teria fundado Alba Longa, cidade na qual nasceram Rômulo e Remo

Remontar sua origem familiar ou dinástica a um herói ou deus, foi bem comum entre os gregos. Alguns reis espartanos diziam ser descendentes de filhos de Héracles, os chamados Héraclidas. O próprio Héracles era descendente de Perseu por parte de mãe (por parte de pai eles eram meio-irmãos). Nesse ponto é preciso comentar que a impulsividade sexual de Héracles, o qual foi o herói que teve o maior número de filhos, dezenas ou até mesmo mais de cem, devia tal fato a condição de que dizer que um indivíduo ou família descendia de um herói ou deus era um grande status social entre os gregos antigos. Pelo fato de Héracles ser o mais popular dos heróis, não foi incomum em que cada canto da Grécia e até em outros locais onde os gregos habitavam, haver histórias de filhos e netos do heróis. 


Detalhe da pintura As filhas de Téspio. Gustave Moreau, 1853. Segundo um mito, o rei Téspio incentivou suas filhas engravidarem de Héracles. O herói gerou um filho com cada uma das 50 princesas. 
Alexandre, o Grande se comparava a Aquiles e Héracles, e como ele dizia que era filho de Zeus, ele se considerava meio-irmão de Héracles. Mesmo em Roma isso foi percebido. A família de Júlio César dizia ser descendente de Rômulo, por sua vez, do herói troiano Eneias. No entanto essa ideia de remontar sua genealogia a deuses e heróis não foi algo apenas dos gregos e romanos, outros povos também faziam isso. Consistia numa forma de legitimar sua origem e autoridade.

“Na Grécia do período arcaico, a economia baseava-se na agricultura e na criação; terras e rebanhos pertenciam a grandes proprietários, os chefes dos clãs que diziam descender dos heróis lendários. Esses "nobres", conseguindo reduzir o papel do rei, tornaram-se de fato os dirigentes das cidades. Formavam um conselho soberano e administravam a justiça em nome de um direito tradicional pautado por regras mantidas em segredo. Somente eles eram suficientemente ricos para obter cavalos, servos e equipamentos de guerra. De suas incursões guerreiras dependia a sorte da cidade em um tempo em que as batalhas se davam em uma série de combates singulares. Proprietários do solo, detentores dos poderes político e judiciário, defensores da região, os nobres eram os verdadeiros "donos" das cidades — num regime aristocrático, ou oligárquico”. (FUNARI, 2002, p. 17). 

Junito Brandão (1987, p. 42-43) diz que uma das funções dos heróis era de proteger as cidades (póleis) em épocas de guerra. Algumas cidades possuíam seus heróis patronos: Teseu em Atenas, Héracles em Tebas, Perseu e Agamemnon em Micenas, Castor e Pólux em Esparta etc. Mesmo na época de guerras reais como a Batalha de Maratona (490 a.C), historiadores como Heródoto Pausânias relataram que os soldados que ali lutaram, disseram terem vistos heróis no campo de batalha. Os soldados sabiam que aqueles heróis haviam morrido há muito tempo, mas ele diziam que o espírito deles havia vindo ajudá-los naquela luta. 



“Não é, porém, apenas sob forma de visões ou mito que se manifestava na Grécia a convicção de que os heróis protegiam efetivamente as tropas de sua pólis, mas essa mesma persuasão alimentava um culto real e verdadeiro. Assim, antes da grande batalha de Salamina, os gregos, comandados por Temístocles, invocaram os dois famosos heróis locais, Télamon e Ájax Telamônio, pai e filho, pedindo-lhes proteção e ajuda (Heród. 8,64), e mandaram "prender a ambos", isto é, suas estátuas, as quais, no passado, os eginetes, quer dizer, os habitantes da ilha de Egina, haviam emprestado aos tebanos em guerra contra Atenas! (Heród. 5,80). Nas guerras, os Cretenses sacrificavam a seus heróis Idomeneu e Meríones (Diod. 5,79,4). Antes da batalha de Platéias, que baniu os persas do território grego, celebrou-se um solene sacrifício em honra dos sete heróis epônimos, os "arquéguetas" locais (Plut. Aristides, 11)”. (BRANDÃO, 1987, p. 43). 

Os heróis também teriam sido responsáveis por instituir alguns jogos esportivos. No último canto da IlíadaAquiles em memória de Pátroclo realizou jogos fúnebres. Segundo diferentes mitos, as Olimpíadas teriam sido criadas por Pélops ou por Héracles. Jogos foram celebrados na ilha de Rodes para os gêmeos Castor e Pólux. Héracles teria instituído também os Jogos Nemeus em Corinto. Os Jogos Istrícos, celebrados em Istimia, teriam sido fundados por Melicertes ou outros heróis. Os Jogos Pan-Atenienses segundo uma versão teriam sido organizados por Teseu


O funeral de Pátroclo. Jacques Louis David, 1778-1779. 
Neste caso o esporte era algo bastante importante na sociedade grega em determinadas épocas, pois para os gregos antigos treinar o corpo era tão importante quanto treinar a mente. Além disso, os gregos consideravam um corpo atlético um ideal de beleza, como também viam nos esportes meios para conquistar disciplina, treinamento militar, conquistar prêmios e fama (FUNARI, 2002, p. 29). O esporte era considerado algo civilizado ao ponto dos gregos dizerem que os bárbaros não praticavam esportes. Sobre essa associação dos heróis com os esportes, Junito Brandão escreveu o seguinte: 


“O culto heróico se encontra nos locais onde treinavam os heróis para as disputas atléticas: as palestras e os ginásios, já que inúmeros dentre estes eram dedicados a heróis. Embora Hermes se tenha consagrado como protetor inconteste das palestras, a seu lado sempre se encontra Héracles, concebido como o ideal atlético. A consistência religiosa de consagração desses locais aos heróis aparece bem nitidamente na cidade de Messena, em cujo ginásio figuravam, além de Hermes, Héracles e Teseu (Paus. 4,32,1). O ginásio de Argos estava construído em torno do túmulo do herói Quilárabis e de seu pai Estênelo (Paus. 2,22,8sq.). O ginásio de Craníon, em Corinto, tinha como titular a Belerofonte (Xen. Helênicas, 4,4,4). Em Trezena, ginásio e estádio estavam sob a proteção de Hipólito (Paus. 2,32,3). O de Delfos recordava um fato acontecido a um herói célebre: estava construído exatamente no local em que Ulisses fora ferido na caçada ao javali (Paus. 10,8,8) deixando-lhe uma cicatriz, que marcará na Odisséia, XIX, 467-475, um momento dramático para o herói. Em Esparta, onde a educação física era levada muito mais a sério que no restante da Grécia, a rua que conduzia ao estádio, além de ser marcada pelo túmulo do herói Eumedes, possuía uma estátua de Héracles, a quem os sphaireîs, os jovens próximos da maturidade, sacrificavam antes de seu combate ritual. Junto ao estádio se encontravam os locais de culto dos Dioscuros Afetérios e mais adiante o templo do herói Álcon, filho de Hipocoonte, e no espaço reservado ao combate ritual havia as estátuas de Héracles e Licurgo (Paus. 3,14,6sqq.; 3,15,lsq.)”. (BRANDÃO, 1987, p. 45). 

Além da genealogia, da linhagem nobre, da proteção militar, da inspiração marcial e desportiva, os heróis em alguns casos também estavam relacionados com a medicina. O mais famoso herói-médico foi o deus Asclépio (Esculápio para os romanos) filho de Apolo. Quanto a mãe de Asclépio, existem distintas versões, as mais comuns dizem que ele seria filho de Corónis ou Arsione. Asclépio foi enviado por seu pai para ser educado pelo centauro Quíron. Foi com o mais talentoso e sábio dos centauros que o futuro herói aprendeu medicina. Não obstante é preciso salientar que nessa época Asclépio era um semideus. Apenas depois da morte é que seu pai o transformou num deus. (GRIMAL, 2005, p. 49).



Estátua de Asclépio, o deus da medicina e da cura. 
Asclépio não foi um herói que participou de muitas aventuras, mas destacam-se três casos especiais: um mito diz que o herói havia descoberto como ressuscitar os mortos, e isso irritou Hades, o qual se queixando a Zeus, este matou Asclépio. Apolo revoltado pela decisão do pai e do tio, tornou Asclépio um deus. Outra história diz que Asclépio viajou com os Argonautas, sendo o médico da expedição. 

Asclépio teve vários filhos os mais famosos são: Poladírio e Macaón, ambos foram heróis que lutaram na Guerra de Troia. Macaón é conhecido por ter curado os ferimentos de Menelau diversas vezes. Entre suas filhas mais conhecidas estão Hígia e Panaceia, ambas eram deusas da medicina. Os filhos de Asclépio geraram vários herdeiros, os quais difundiram a medicina entre os gregos. Todavia, Brandão (1987, p. 51) assinala que além de Asclépio é preciso destacar o papel de Quíron como instrutor dos heróis. O centauro não apenas ensinou medicina a Asclépio, mas para todos os heróis que ele treinou dentre os quais Aquiles e Jasão, estes também aprenderam as artes curativas. 



Aquiles tratando dos ferimentos de Pátroclo. c. 500 a.C. 
Antes da medicina grega torna-se algo mais habitual e surgir escolas de medicina, as artes curativas eram vistas pelos gregos como algo mágico e de origem divina. Não sendo a toa que eles possuíam um deus da medicina. Não obstante, pelo fato dos heróis serem homens excepcionais (artré), alguns deles saberem como tratar ferimentos e até mesmo curar doenças, conotava um motivo a mais para serem superiores, admirados e até mesmo cultuados e requisitados em orações. 

Por fim, as histórias sobre heróis eram motivacionais também. Servindo de modelo social e de inspiração, algo comentando acerca do papel da tragédia e do teatro na sociedade grega antiga. 


Considerações finais:

“Para o pesquisador italiano assim poderia ser descrita a estrutura morfológica dos heróis: "virtualmente, todo herói é uma personagem, cuja morte apresenta um relevo particular e que tem relações estreitas com o combate, com a agonística, a arte divinatória e a medicina, com a iniciação da puberdade e os mistérios; é fundador de cidades e seu culto possui um caráter cívico; o herói é, além do mais, ancestral de grupos consangüíneos e representante prototípico de certas atividades humanas fundamentais e primordiais. Todas essas características demonstram sua natureza sobre-humana, enquanto, de outro lado, a personagem pode aparecer como um ser monstruoso, como gigante ou anão, teriomorfo ou andrógino, fálico, sexualmente anormal ou impotente, voltado para a violência sanguinária, a loucura, a astúcia, o furto, o sacrilégio e para a transgressão dos limites e medidas que os deuses não permitem sejam ultrapassados pelos mortais. E, embora o herói possua uma descendência privilegiada e sobre-humana, se bem que marcada pelo signo da ilegalidade, sua carreira, por isso mesmo, desde o início, é ameaçada por situações críticas. Assim, após alcançar o vértice do triunfo com a superação de provas extraordinárias, após núpcias e conquistas memoráveis, em razão mesmo de suas imperfeições congênitas e descomedimentos, o herói está condenado ao fracasso e a um fim trágico". (BRANDÃO, 1987, p. 15 apud BRELICH, 1978, p. 336). 


NOTA 1: Quíron era filho bastardo de Cronos com uma mortal, sua mãe o repudiou e o abandonou, o centauro foi criado e educado por Apolo. Quíron se tornou o mais sábio e respeitado entre os centauros. Quando Quíron morreu, ele foi transformado na Constelação de Sagitário.
NOTA 2: Castor e Pólux foram os grandes heróis de Esparta, eram filhos de ZeusLeda, e eram irmãos também de HelenaClitemnestra. Quando morreram, foram transformados na Constelação de Gêmeos.
NOTA 3: A Constelação de Héracles, era um motivo pelo qual os antigos gregos diziam que o herói passou a viver no céu entre os deuses.
NOTA 4: Pégaso e seu irmão o gigante Crisaor nasceram do sangue da Medusa, após Perseu ter cortado a cabeça dela.
NOTA 5: Alexandre, o Grande quando chegou a Ásia Menor, visitou as ruínas da cidade de Troia, onde fez oferendas aos antigos heróis gregos. De fato, ele próprio se comparava a Aquiles e a Héracles.
NOTA 7: Entre os bizantinos os poemas homéricos eram a literatura mais lida, sendo ensinada nas escolas, onde as crianças tinham que decorar e recitar versos de cada obra.
NOTA 8: Uma das maiores proezas sexuais de Héracles, ocorreu quando ele tinha por volta de seus 17 ou 18 anos. Na ocasião ele foi caçar um leão nas terras do rei Téspio. O monarca sabendo que Héracles possuía sangue divino, almejava isso aos seus netos. Assim, Téspio o qual possuía 50 filhas, as incentivou engravidar do herói. Segundo uma versão do mito, Héracles passou 50 dias nas terras do rei Téspio; a cada noite ele engravidava uma das filhas. Outra versão diz que isso ocorreu durante uma semana. Posteriormente já adultos, os filhos de Héracles com as Téspias participaram de missões de colonização. Um dos mitos diz que alguns desses filhos colonizaram a Sardenha na Itália. 
NOTA 9: Embora os heróis recebessem culto, apenas dois heróis foram propriamente divinizados ao ponto de se tornarem deuses: Héracles e Asclépio.

Referências Bibliográficas:
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega, vol. 1. Petrópolis, Vozes, 1986. 3v 
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega, vol. 3. Petrópolis, Vozes, 1987. 3v 
BRELICH, Angelo. Gli Eroi Greci. Roma, Edizioni dell Ateneo e Bizzari, 1978. 
BUXTON, Richard. Tragedy and Greek Myth. In: WOORDARD, Roger D. (ed.). The Cambridge Companion to Greek Mythology. New York, University Cambridge Press, 2008. 
CAMPBELL, Joseph. O herói das mil faces. São Paulo, Cultrix, 1995.
ELIADE, Mircea. El mito del eterno retorno. Traducción Ricardo Anaya. Buenos Aires, Emecé, 2001. 
FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo, Editora Contexto, 2002.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural, vol. 12São Paulo, Nova Cultural, 1998. 24v
GRIMAL, Pierre. Dicionário de mitologia grega e romana. Tradução de Victor Jabouille. 5a ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2005. 
GRIMAL, Pierre. Mitologia grega. Tradução de Rejane Janowitzer. Porto Alegre, L&PM Pocket, 2009. 
MÉNARD, René. Mitologia greco-romana, vol. 1. Tradução de Aldo Della Nina. São Paulo, Opus, 1991a. 3v
MÉNARD, René. Mitologia greco-romana, vol. 3. Tradução de Aldo Della Nina. São Paulo, Opus, 1991b. 3v
PETTAZZONI, Raffaele. La religione nella Grecia Antica. Bologna, Nicola Zanichelli Editore, 1921. 
RANK, Otto. The myth of birth of the heroe. New York, The Journal of Nervous and Mental Disease Publishing Company, 1914. 
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos. 2a ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990. 
VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Myth and Tragedy in Ancient Greece. New York, Zone Books, 1996. 

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