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Leandro Vilar

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Vida após a morte na mitologia grega

Os gregos antigos são hoje mais conhecidos por sua mitologia do que sua religião, inclusive pelo fato de não terem possuído textos sagrados e pouco escreveram sobre seus próprios ritos, a melhor forma de conhecer o pensamento religioso grego antigo acerca da vida após a morte é estudando sua mitologia, pois em alguns mitos existem elementos religiosos presentes. Sendo assim trago esse texto reescrito, pois originalmente o publiquei há alguns anos, mas de maneira bem simples. Mas passados estes anos e aprofundando meus estudos decidi que o melhor era reescrevê-lo por completo. 

Breve introdução a religião grega antiga: 

Antes de descrevermos quais seriam os locais da morte para os antigos gregos, se faz necessário comentar a respeito de sua religião e algumas de suas características. Nos textos anteriormente publicados neste mês de dezembro de 2016, os quais abordei o mito dos Doze Trabalhos de Héracles e os mitos dos heróis gregos já vimos algumas características da religião grega, logo iremos rever algumas delas e acrescentar outras. 

A religião grega antiga como várias outras religiões do mundo, era uma religião étnica, o que consistia na fé e crenças de um povo específico, neste caso, os povos falantes da língua grega. Os gregos herdaram parte de suas crenças de outros povos, em especial dos Micênicos e dos Cretenses, civilizações que já viviam seu esplendor no século XVI a.C.

Para alguns historiadores os micênicos devam ser considerados gregos, correspondendo a um período histórico daquele povo. De qualquer forma, areligião micênica era mais próxima da antiga religião grega do que a religião cretense. O nome dos principais deuses gregos como Zeus, Poseidon, Hera, Hermes, Dionísio e Ares foram achados escritos no antigo alfabeto micênico, isso há mais de três mil anos, o que revela a antiguidade do culto dessas divindades. Por sua vez, deusas como Deméter, Perséfone e Atena eram de origem cretense. (SCARPI, 2000, p. 61).

Nesse ponto é preciso recordar que a ideia de Grécia que normalmente temos é às vezes equivocada. A Grécia Antiga era um aglomerado de cidades-estados espalhadas pelo sul da Península Balcânica e a Península do Peloponeso, além de incluir várias outras ilhas no Mar Egeu e algumas no Mar Adriático. Não obstante, os gregos também colonizaram outras terras, fazendo surgir a chamada Magna Grécia (nome dado ao território das cidades-estados gregas e suas colônias). Devido a esse território vasto, heterogêneo e ao mesmo tempo influenciado por outros povos e crenças, não é de se imaginar que a cultura grega não apenas influenciou, mas também foi influenciada. Os gregos absorveram tradições e crenças dos fenícios, dos egípcios, dos persas e de outros povos. 

"A religião grega arcaica e clássica apresenta, entre os séculos VIII e IV antes da era cristã, vários traços característicos que é necessário lembrar. Assim como outros cultos politeístas, é estranha a toda forma de revelação: não conheceu nem profeta e nem messias. Mergulha suas raízes numa tradição que engloba a seu lado, intimamente mesclados a ela, todos os outros elementos constitutivos da civilização helênica, tudo aquilo que dá à Grécia das cidades-Estado sua fisionomia própria, desde a língua, a gestualidade, as maneiras de viver, de sentir, de pensar, até os sistemas de valores e as regras da vida coletiva". (VERNANT, 2006, p. 13). 

O historiador italiano Angelo Brelich (1985, p. 39), estudioso da Grécia antiga apontou que a religião grega não possuía uma literatura sacerdotal, nem livros sagrados, nem dogmas e nem uma classe sacerdotal. Era uma religião politeísta a qual se cultuava várias divindades, havendo os grandes deuses e outras divindades diversas, inclusive de culto regional e local. Era uma religião fundamentada em ritos domésticos e ritos públicos, algo que ficou em evidência com o surgimento das póleis. Era uma religião relacionada com a ideia de destino, oráculos, mistérios, iniciação, sacrifícios de animais e até de humanos. Os deuses eram responsáveis por tudo no mundo e até mesmo pelo destino dos homens. 

Brelich (1985, p. 40) comentava que embora não houvesse uma literatura sacerdotal e nem livros sagrados, ainda assim encontrava-se na poesia expressões religiosas. Nesse ponto ele comenta que isso era algo problemático de ser definido, pois a ideia de literatura sagrada e profana parece não ter existido entre os gregos. Um poema de teor mitológico poderia ser considerado uma obra de cunho religioso, pois abordava os deuses e a criação divina. Lembrando que mito e religião não são iguais. O mito é uma narrativa fantástica que pode ter influência com o religioso ou não.

“Os mitos, para nós, servem como importante fonte de conhecimento sobre o pensamento grego e as características de seu culto. Além disso, embora muitas das histórias dos heróis e suas aventuras sejam imaginárias, revelam aos historiadores, também, como os gregos se relacionavam com a natureza, suas ocupações, seus instrumentos, seus costumes e os lugares que visitaram e conheceram. Os mitos servem, também, para que possamos entender melhor a nós mesmos. Por quê? Por tratarem de sentimentos humanos, como o amor e o ódio, a inveja e admiração e, muitas vezes, traduzirem ou procurarem responder a indagações morais e existenciais que rondam a mente humana. Por isso, ainda hoje, essas histórias mitológicas gregas falam à nossa sensibilidade, milhares de anos depois. A maneira de tratar as questões e os sentimentos humanos mais profundos continua atual, suas narrativas ainda nos emocionam”. (FUNARI, 2002, p. 37). 

Na ausência de uma literatura sagrada, de dogmas, de normatizações litúrgicas e clericais, os gregos viam na sua mitologia, principalmente retratada através da poesia, na oralidade e até nas artes, uma forma de expressar suas crenças quanto aos deuses e suas noções de mundo, vida e existência. Nesse ponto, outro historiador italiano Paolo Scarpi (2000, p. 62), sublinhou que devido a essa flexibilidade na religião grega antiga, isso permitiu que diferentes formas de cultos, ritos e crenças coexistissem nos territórios habitados pelos gregos. 

Existência da alma e de vida após a morte: 

O historiador das religiões Raffaele Pettazzoni (1921, p. 4) comenta que os gregos antigos possuíam a noção de que todos os seres vivos possuíam uma anima (alento, vento, respiração, alma, espírito). O historiador assinala que para a concepção grega, a alma seria como um alento divino, um sopro de vida. Quando a pessoa falecia, sua alma sairia do corpo como se fosse expirada. Todavia, a alma continuava a viver, pois era imortal como os deuses. Pettazzoni comenta também que os gregos costumavam representar a alma simbolicamente como sendo um pássaro ou uma borboleta. 

Junito Brandão (1986, p. 169-170) comenta o mito das idades relatado por Hesíodo em seu livro O Trabalho e os Dias. Nessa obra Hesíodo diz que no mundo houve cinco eras, nas quais viveram cinco tipos de humanidades diferentes. Na primeira, chamada de Idade do Ouro a humanidade não envelhecia, vivia de forma pacífica e próspera. Quando morriam suas almas continuavam a existir, mas sem irem para o submundo. Eles continuavam a viver na Terra, embora que num plano espiritual. Na Idade de Prata o mesmo ocorria com as almas humanas, a principal diferença é que o clima havia mudado e os homens começaram a envelhecer e viver menos. 

Na Idade de Bronze os homens passaram a viver menos, e se tornaram mais arrogantes e violentos. Quando morriam suas almas desciam para o Hades. Na Idade dos Heróis na qual ocorreu a Guerra de Tebas e a Guerra de Troia, teriam vivido os grandes heróis gregos que os mitos narram suas histórias. A humanidade continuava a ir para o Hades, mas os heróis após morrerem habitavam as ilhas dos Bem-Aventurados. Por fim, chegamos a quinta era, a Idade do Ferro que é o atual período em que vivemos, sendo o mais violento, corrupto, nocivo, traiçoeiro e vergonhoso. Os grandes heróis já não são mais vistos entre nós. 


“Na estrutura das quatro primeiras raças distinguem-se dois planos diferentes: ouro e prata de um lado, bronze e heróis de outro. Cada um dos planos se divide em dois aspectos antitéticos, um positivo, outro negativo: são duas raças associadas, mas que se opõem, como a Díke (Justiça) contrasta com a Hýbris (Violência). O que diferencia o plano das duas primeiras raças do plano das duas seguintes é que ambos se relacionam com funções distintas, que representam tipos de agentes humanos, formas de ação, hierarquias sociais e psicológicas opostas. Há, de saída, uma primeira dissimetria: no primeiro plano (ouro e prata), a Díke (Justiça) é o valor dominante e a Hýbris (Violência) tem valor secundário; no segundo (bronze e heróis), sucede o contrário, a Hýbris predomina”. (BRANDÃO, 1986, p. 170). 

“Isto explica, aliás, o destino diferente que aguarda, após a morte, as almas das duas primeiras raças daquelas pertencentes às duas seguintes. Os que nasceram sob a égide do ouro e da prata têm realmente uma promoção post mortem: convertem-se em daímones, "demônios" (intermediários benéficos entre os deuses e os homens). Esses daímones, todavia, agem diferentemente sobre os mortais, tanto quanto se diferenciaram na vida terrestre: os primeiros (da idade de ouro) são os daímones epictônios, quer dizer, continuam a viver e a agir na terra; os segundos (da idade de prata) são os daímones hipoctônios, isto é, vivem e agem sob a terra, na outra vida. Ambos são objetos das "honras" que lhes tributam os mortais: "honras" maiores para os primeiros e inferiores para os segundos. Muito diferente é o destino póstumo daqueles que viveram as idades do bronze e dos heróis. Como raça, nenhum deles tem direito a uma promoção. Os da idade de bronze, após perecerem na guerra, convertem-se no Hades em "mortos anônimos", nónymoi. Somente alguns heróis privilegiados conservam, por desígnio de Zeus, um nome e uma existência individual no além: levados para a ilha dos Bem-Aventurados, têm uma vida isenta de preocupações. Apesar desse prêmio, porém, esses heróis privilegiados não são objeto de veneração alguma, nem de culto, por parte dos homens. Contrariamente aos daímones, os heróis carecem de qualquer poder ou influência sobre os vivos”. (BRANDÃO, 1986, p. 171). 

Independente da questão da memória, algo que voltarei a comentar novamente, os gregos de fato possuíam uma noção de alma e de vida após a morte. Na Ilíada e na Odisseia, poemas atribuídos a Homero e provavelmente escritos no século VIII a.C, em ambas as obras, mas principalmente na segunda fica atestado que o mundo dos mortos é o Hades. É para lá que até mesmo os heróis seguiriam, de acordo com Homero. No canto I da Ilíada, 1-7, Aquiles envia vários troianos para o Hades. No canto XVI, Pátroclo lamenta por morrer jovem e diz que sua alma voa para o Hades. No canto XXIII, a alma de Pátroclo aparece para Aquiles e pede para que o amigo realize os ritos fúnebres para ele, para que assim pudesse efetivamente adentrar o Hades. 

No canto XI da OdisseiaOdisseu desceu ao Hades para falar com o vidente Tirésias, e na viagem subterrânea ele se deparou com Aquiles, Pátroclo, Antíloco Ajax e outros heróis gregos que morreram na Guerra de Troia

Aqui nessa citação mitológica redigida num poema, temos a menção da imortalidade da alma, do mundo dos mortos e da outra vida. Além disso os gregos também acreditavam em destino como já mencionado por Brelich e Vernant. Na própria Ilíada em algumas estrofes menciona-se a ação das Moiras, as deusas do destino. Brandão (1986, p. 140) sugere que inicialmente possa ter havido apenas uma divindade genericamente chamada de Moira, posteriormente em época desconhecida passou-se a falar em três deusas: Láquesis, Cloto e Átropos. Conhecidas como as fiandeiras, elas fiavam os destinos dos homens e dos deuses. 

No poema, Homero deixa bem claro essa questão do destino quando fala da morte de alguns heróis e até de outros acontecimentos. Por exemplo, as moiras contam a Tétis, mãe de Aquiles, que o destino de seu filho possui dois caminhos: permanecer na Grécia, viver até a velhice e constituir família, mas não conseguir fama e glória. Ir para a Guerra de Troia, já sabendo que não voltará da guerra, pois estava destinado a ali morrer, mas conquistaria glória eterna. Quando Tétis conta isso a Aquiles, ele opta pela glória eterna. Outro acontecimento que faz menção ao destino, envolve o nascimento de Páris, o qual havia sido profetizado que a criança um dia traria a ruína para Troia. E isso se confirmou. Édipo é outro exemplo de como o destino pode ser terrivelmente cruel. Ele foi destinado a matar o pai, torna-se rei e casar com a própria mãe. 

O deus Hades:

Hades (Plutão para os romanos) não era apenas o nome do submundo, mas também é o nome de seu governante. Logo se faz necessário comentar acerca do deus dos mortos, o senhor do submundo. Hesíodo em sua Teogonia menciona que Hades era o filho mais velho dos titãs Cronos e Reia. Sendo um de seis filhos: Zeus, Poseidon, Hera, Héstia e Deméter. Embora fosse o primogênito, Hades como os seus demais irmãos, exceto Zeus, foram ainda bebês engolidos por Cronos, o qual temia uma profecia que dizia que um de seus filhos iria destroná-lo, algo que ele havia feito com seu próprio pai, Urano. Com isso, Cronos aprisionou seus filhos em seu estômago, porém quando nasceu seu caçula, Zeus, Reia decidiu poupar a criança, escondendo-a numa caverna em Creta, e entregando uma pedra envolta em panos, a qual sem pestanejar, Cronos engoliu.


Busto de Hades. Cópia romana do original grego. 
Muitos anos depois, Zeus já adulto, posteriormente conseguiu libertar seus irmãos e declarou guerra ao seu pai e tios, no que ficou conhecido como Titanomaquia. Deuses, titãs, ciclopes-ferreiros e hecatônquiros (gigantes de cem braços e cinquenta cabeças) se digladiaram pelo controle do mundo. Os deuses saíram triunfantes. Os ciclopes-ferreiros forjaram objetos para os três poderosos deuses, como retribuição por os terem ajudado na guerra. Zeus ganhou os raios, Poseidon o seu tridente, e Hades recebeu um elmo que quando usado, o deixava invisível. (MÉNARD, 1991, p. 41). 

Posteriormente os três deuses decidiram dividir os domínios de seus reinos. Zeus por ter sido o comandante na luta contra os titãs, ficou com os domínios do céu e da terra. Poseidon recebeu os mares, e Hades recebeu os domínios do submundo. Tendo que reinar sobre os mortos. (BRANDÃO, 1986, p. 311). 

Tempo depois já como governante do submundo, Hades decidiu arranjar uma esposa. Incitado pela beleza de sua sobrinha Perséfone, filha de Deméter e Zeus, Hades certo dia a sequestrou e a levou ao submundo. Isso gerou sérios problemas entre os Olimpianos, e Deméter desesperada pelo sumiço de sua filha, entrou em profundo pranto, fazendo a natureza começar a se esvaecer, causando o outono e o inverno, pois Deméter era a deusa da agricultura e das estações do ano. Todavia após um acordo entre Zeus, Hades e Deméter, além do fato que Perséfone efetivamente se apaixonou por Hades, o casamento foi reconhecido, e ela tornou-se a rainha do submundo e dos mortos. (MÉNARD, 1991, p. 269-272). 


Hades e Perséfone retratados num vaso grego. Datado de cerca de 440-430 a.C. 
O caminho dos mortos: 

Hoje em dia é bastante conhecida a história do barqueiro Caronte, responsável por conduzir as almas recém-mortas, através do rio Aqueronte até a entrada do Hades. A partir do século V a.C encontram-se referências escritas acerca do Óbolo de Caronte, termo usado para se referir a moeda que se colocava acima ou dentro da boca do defunto, para servir de pagamento a Caronte. Curiosamente vemos em alguns filmes tal rito ser realizado com duas moedas sobre os olhos, mas todos os relatos conhecidos sejam de origem grega e romana, falam de apenas um óbolo (tipo de moeda) posto na boca. 


Ilustração de Caronte para a Divina Comédia. Gustave Doré, 1861.  
O poeta romano Virgílio (70-19 a.C) no seu mais famoso livro a Eneida, no canto V, no qual ele narra os jogos fúnebres realizados por Eneias em memória de seu pai Anquises, o qual morreu um ano antes, Virgílio diz que realizar os ritos fúnebres eram imprescindíveis para que a alma pudesse chegar ao Hades, caso contrário, o morto corria o risco de ser barrado por Caronte, e ficaria preso as margens do Aqueronte, em profundo lamento. O também poeta romano Luciano (c. 125 - c. 181) em tom irônico comenta o rito fúnebre do óbolo de Caronte, dizendo que não importava de onde fosse a moeda, o que interessava é que o defunto antes de ser enterrado ou cremado, deveria estar de posse dela para poder pagar sua condução no Aqueronte, caso contrário, Caronte poderia negar-se a levá-lo e mandar sua alma de volta. (MÉNARD, 1991, p. 141).

Todavia, a ideia de que Caronte fosse o encarregado de transportar as almas até os portões do Hades não foi uma invenção romana, os próprios gregos já mencionavam isso. Por exemplo, em um dos Doze Trabalhos, Héracles teve que ir ao Hades para buscar Cérbero. Quando chegou ao Aqueronte, Caronte se negou a transportá-lo, pois ele estava vivo. O herói indignado, deu uma surra no velho barqueiro e o obrigou a levá-lo. 

No entanto, a ideia de Caronte como condutor dos mortos nem sempre foi pensada assim. Hesíodo e Homero os quais mencionam o mundo dos mortos, não fazem menção ao barqueiro ou ao pagamento do óbolo, embora no caso de Homero ele descreva o funeral de Pátroclo com detalhes, mencionando que vários animais foram sacrificados na ocasião, além de que os pertences e presentes foram queimados juntos com o corpo. Neste caso, estes dois poetas deixam a entender que os mortos seguiriam diretamente ao Hades, sem necessidade de serem transportados por Caronte.

Junito Brandão (1986, p. 312) nos fornece uma importante observação: a vida após a morte na mitologia grega não era formada por uma única estrutura ou um único mito, pelo contrário, era uma concepção advinda de vários mitos, sincretismos religiosos, influências literárias e filosóficas. Sendo assim, veremos vários mitos que representavam estes distintos pensamentos sobre o mundo dos mortos. 


“Assim sendo, não se pode falar de uma escatologia grega, mas houve na Hélade tantas escatologias quantas as fases e momentos histórico-sócio-culturais por que passou a Grécia. Houve tantas escatologias quantas as correntes literárias e filosóficas que medraram na pátria de Homero e de Sócrates. Já se falou de "escatologias" em Homero e Hesíodo: ambas muito diferentes... Poderíamos falar de outras: nos Órficos, nos Pitagóricos, em Platão e nos Neoplatônicos, nos Estóicos e até na ausência de escatologia no Epicurismo”. (BRANDÃO, 1986, p. 313). 


Caronte e Psiquê. John Roddam Spencer Stanhope, 1883. Na pintura vemos Caronte tirando da boca de Psiquê o seu óbolo. 
Dando continuidade ao "caminho dos mortos", em várias histórias narra-se a jornada de heróis ao Hades. Héracles já foi mencionado, mas além dele, outros heróis como Odisseu, Orfeu, Teseu e Pirítoo também desceram ao submundo e não passaram por Caronte. Isso conota que: 1) é visível a diversidade de relatos sobre o mundo inferior; 2) o Aqueronte não era o único caminho para se chegar ao Hades, pois com exceção de Héracles, os demais heróis tomam outros caminhos, na maioria das vezes, adentrando por cavernas específicas que os conduziriam até lá. 

Um outro ponto a ser mencionado neste caso é o fato que o deus Hermes as vezes era considerado o responsável por conduzir a alma dos mortos ao Hades. Hermes era filho de Zeus e a plêiade Maia, era um deus com várias funções: mensageiro, patrono do comércio e do roubo, protetor dos viajantes, dos pastores, ajudante dos deuses e dos heróis, mas Hermes também segundo alguns relatos, conduziria as almas dos mortos para a outra vida, tornando-o um psicopompo. (GRIMAL, 2005, p. 224). É Hermes quem guiou Héracles até o submundo em seu trabalho para capturar o cão Cérbero. 

O julgamento dos mortos:

Inicialmente o deus responsável por julgar os mortos era Hades, mas posteriormente em dada época essa atribuição foi lhe retirada, e passou a ser o dever de três homens: Éaco, Minos e Radamanto, os juízes do inferno. 


Pintura retratando os três juízes. Da esquerda para direita: Radamanto, Minos e Éaco. 
Primeiro é preciso discernir julgamento de punição. No caso do segundo, vários deuses detinham o direito de punir os mortais ou até outros deuses por seus atos. Zeus como soberano era o mais conhecido por decretar sentenças, depois vinha Hera, como rainha, que em geral punia as amantes do marido. Nêmesis era a deusa da vingança, incumbida de executar a vingança dos deuses sobre os mortais. Têmis e Astreia eram deusas da justiça, personificando a justiça, a moral, a ética e as leis, mas não tinham a função de julgar os mortos. Havia outras divindades também associadas a punição e a justiça, como as Erínias (Fúrias para os romanos), divindades que habitavam o Hades e eram responsáveis por punir, torturar e atormentar os criminosos. Todavia, quem efetivamente julgava os mortos era Hades em determinadas épocas e depois seus três juízes. 

Brandão (1986, p. 315) menciona que o Orfismo (culto relacionado ao herói Orfeu e outras tradições religiosas), surgido entre os séculos VII-VI a.C, proporcionou novas interpretações acerca do mundo inferior, uma delas foi a divisão do Hades em três partes, algo que voltarei a comentar adiante. Para Junito Brandão essa reinterpretação promovida pelo Orfismo possa ter abrido espaço para retirar de Hades o papel de juiz dos mortos e introduzir os três mortais no lugar, assim como, mudar a própria noção de vida após a morte. 

Em concepções anteriores sobre o Hades, os bons e maus dividiam o mesmo local, porém, os grandes criminosos e aqueles que afrontaram os deuses iriam para o Tártaro. Hesíodo e Homero mencionam tal fato de que o Tártaro seria o local de tormento, porém os demais viveriam nos campos sombrios do Hades. Inclusive na Odisseia, quando Odisseu visita o submundo ele avista vários de seus companheiros de guerra vagando por aquele deserto sombrio. Mas eles não sofriam, mas também não estavam alegres, eles viviam uma vida mórbida. No entanto, ainda no mesmo poema, Homero cita Radamanto, o qual viveria ao lado dos bem-aventurados. Aqui Homero não deixa claro se Radamanto já era considerado um juiz ou o governante das ilhas dos Bem-Aventurados. 

Com a inserção da crença que as almas fossem julgadas fosse por Hades ou pelos juízes, conotava a condição de que os bons e maus não dividiriam exatamente o mesmo espaço. Crença essa pregada pelo Orfismo, segundo conta Brandão (1986, p. 315). 

Mas retomando aos três juízes, cada um era filho de Zeus, sendo que Minos e Radamanto eram filhos com Europa e Éaco era filho com Egina. Cada um dos três homens possuíram virtudes pelas quais permitiu que fossem nomeados juízes do Hades. Éaco era conhecido como um homem honrado e um bom governante. Radamanto segundo algumas versões teria escrito o código de leis de Creta, tendo sido um homem justo e comprometido com o direito e a justiça. 

Todavia, Minos é um caso a parte. Devido a inveja que tinha da popularidade de Radamanto, forçou o irmão a se exilar. Sua desfeita a Poseidon gerou como consequência o surgimento do Minotauro, o qual ele mandou prender no labirinto construído por Dédalo. Inclusive manteve Dédalo e seu filho Ícaro como seus prisioneiros. Além disso, quando os dois fugiram, Minos enviou uma expedição para encontrá-los e trazê-los presos. O rei também era conhecido por ser infiel e promíscuo (embora fosse um comportamento comum de muitos reis gregos nos mitos). Por motivos não claros, Minos recebeu a honra de se tornar um dos juízes.


“O tribunal era formado por três juízes integérrimos: Éaco, Radamento e Minos. Esse tribunal, no entanto, é bem recente. Homero só conhece como juiz dos mortos a Radamanto. Éaco aparece pela primeira vez em Platão.  Radamanto julgava os Asiáticos e Africanos; Éaco, os Europeus. Em caso de dúvida, Minos intervinha e seu veredicto era inapelável.  Infelizmente quase nada se sabe acerca do conteúdo desse julgamento e a maneira como era conduzido, embora na Eneida, VI, 566-569, Vergílio nos fale, de passagem, que Radamanto supliciava as almas, obrigando-as a confessar seus crimes ocultos. Julgada, a alma passava a ocupar um dos três compartimentos: Campos Elísios, Érebo ou Tártaro”. (BRANDÃO, 1986, p. 318). 

Como comentando por Brandão, de fato não é possível comentar mais a respeito do julgamento das almas, pois se desconhece detalhes acerca. Enquanto no Egito, temos alguns mitos e até mesmo relatos religiosos contidos no Livro dos Mortos, o qual descreve o julgamento realizado por Osíris, na religião e mitologia dos gregos isso nunca foi encontrado. Conhecesse os nomes dos juízes, mas se desconhece como seria executado o julgamento. 

Érebo e Tártaro:

Como comentado por Junito Brandão talvez tenha sido por volta do século VIII-VII a.C, que a concepção geográfica do submundo começou a mudar. O poeta Hesíodo em sua Teogonia é lacônico ao dizer que Hades governava o mundo inferior, porém o que ele menciona de mundo inferior é basicamente o Tártaro e suas redondezas, inclusive o Tártaro nem parece ser exatamente um abismo como ficaria conhecido. Mas antes de prosseguir é preciso falar sobre a origem de Érebo e Tártaro, que embora seja o nome de locais, trata-se também da personificação de divindades. 

De acordo com Hesíodo, o qual escreveu um dos mais significativos trabalhos sobre a genealogia dos deuses desde a criação até a ascensão dos Olimpianos, Hesíodo reuniu em seu longo poema, referências de vários mitos na época para formalizar essa sua genealogia divina. De acordo com seu relato o primeiro deus foi Caos, o qual criou o universo. A partir dele surgiu a escuridão Érebo, a noite Nix, as profundezas abissais Tártaro, a mãe-terra Gaia, e o divino amor Eros (outras versões dizem que Eros era filho de Afrodite). Nyx deu à luz (literalmente) a Éter (substância universal) e a Hemera (o dia). Gaia originou Urano (o céu) e casou-se com ele, tendo gerado vários filhos, sendo os titãs, os ciclopes-uranianos e os hecatônquiros. (Teogonia, est. 115-125). 

Nota-se que Érebo e Tártaro são divindades primordiais, considerados por alguns mitólogos como deuses, lembrando que alguns deuses somente existiam na mitologia, na faziam parte da religião. De fato, os deuses primordiais não recebiam culto, exceto Eros. Tais divindades tratavam-se de seres que personificavam os elementos da natureza como visto: terra, céu, noite, dia etc. 

Se desconhece a época exata que Érebo e Tártaro deixaram de ser simples divindades primordiais associas a escuridão, para se tornar no nome de locais do submundo. Ainda na Teogonia, Hesíodo não menciona um local chamado Érebo, mas cita que o submundo governado por Hades era o Tártaro. 

Hesíodo (est. 720-740) descreve o Tártaro como sendo uma região incrustada nas profundezas da terra. Em seu relato Hesíodo diz que o Tártaro é tão distante que do topo do Olimpo até ele, levaria-se 20 dias para chegar. Nesse caso ele faz uma analogia com a queda de uma bigorna, a qual levou nove dias e nove noites para cair do topo do Olimpo até a terra, e depois levou mais nove dias e nove noites para atingir o Tártaro. Em seguida ele diz que o Tártaro é tão profundo que nem um ano de viagem seria o suficiente para alcançar o fundo. 


A Queda dos Titãs. Cornelis van Haarlem, 1588. 
O Tártaro é descrito por uma região escura e nevoenta, cercada por três imensas muralhas de pedra com portões de bronze, construídos por Poseidon. Giges, Coto e Briareu (os hecantônquiros) atuam como sentinelas de cada um dos portões, impedindo que os titãs ali aprisionados tentem escapar. 

Adiante, nas estrofes 745-760, Hesíodo diz que Atlas, o titã que sustenta o céu nas costas, metade de seu corpo ficaria no submundo a outra ficaria na superfície. Na abóboda celeste viajariam Nyx (noite) e Hemera (dia), mas também Hipnos (o sono) e Tânatos (a morte). Não obstante sem definir com clareza, Hesíodo diz que Hades e Perséfone habitam um palácio no submundo, e nos portões da entrada do submundo estaria o cão de guarda de três cabeças Cérbero. Ali embaixo também estaria o palácio da oceânide Estige, que possui um rio com seu nome, o qual é um dos cinco rios do Hades. Para alguns intérpretes da Teogonia, o local onde vive Hades e as demais divindades ficaria acima do Tártaro. 


Desenho representando Cérbero guardando o portão do Hades, enquanto algumas almas caminham em sua direção. 
De qualquer forma o que podemos extrair do relato de Hesíodo é que o Tártaro é um abismo tenebroso e nevoento, local de castigo e sofrimento aos inimigos dos deuses, inicialmente os titãs, mas outros mitos narram a história de alguns homens como Tântalo, Sísifo e Íxion que também foram parar no Tártaro. Não obstante, Érebo não consiste num local físico, os Campos Elísios não são mencionados e nem se quer Hesíodo diz para onde iriam as almas daqueles que não afrontaram os deuses. 

Por sua vez, Homero nos fornece outras informações a mais. Na Ilíada e na Odisseia, Homero já se referia ao submundo pelo nome de Hades, e o enxergava como um local tendo dois níveis: um era um deserto sombrio para onde iria a maioria dos mortos, o Érebo, independente de serem bons ou maus. Sendo este o local no qual Odisseu na Odisseia (canto XI) visitou para encontrar o vidente Tirésias. Por outro lado Homero cita brevemente na Ilíada (canto VIII) a existência do Tártaro, local de tormento e sofrimento. Nesse canto, Zeus indignado pelo fato dos deuses estarem intervindo mais do que deveria na Guerra de Troia, ameaços de que caso o desobedeçam novamente, os jogaria ao Tártaro. 

Para Junito Brandão (1986), Érebo como sendo o deserto escuro pelo qual alguns heróis passaram como Héracles, Odisseu, Teseu etc., mas também como local onde perambulavam as sombras dos mortos (eidolon), além de ser o local onde residem Hades e outros deuses ctônicos, consistiu numa concepção posterior ao século VIII a.C, quando em determinado momento decidiu-se reimaginar a geografia do Hades. 

As sombras e os condenados: 

Vimos o caminho pelo qual os mortos fazem para chegar ao submundo, seja sendo conduzido por Hermes ou por Caronte através do rio Aqueronte até chegar aos portões do Hades, guardados por Cérebro. Vimos o mito que menciona os três juízes responsáveis por julgar as almas dos mortos. E agora a pouco acabamos de comentar a respeito do Érebo e do Tártaro. Assim vamos falar a respeito da ideia de existência na outra vida, como os gregos imaginavam essa pós-vida. 

Os gregos concebiam a existência da alma e sua imortalidade como já comentado, embora alegassem que os mortos poderiam cair no esquecimento fosse esse esquecimento induzido ao se beber as águas de algum rio, ou o esquecimento proporcionado pelos vivos. Mas independente deste esquecimento, a morte não era o fim. Hesíodo no mito das idades mencionou que os homens das Eras de Ouro e de Prata se tornaram daímôns, seres espirituais que ajudavam as pessoas. Sócrates segundo alguns relatos, dizia que conseguia conversar com seu daímôn. Todavia, os homens das Era de Bronze, dos Heróis e de Ferro, foram lançados a escuridão do Hades. 

Homero na Ilíada e na Odisseia usa o termo eidolon ("sombra") para se referir ao espírito do morto. Em vida a alma é normalmente chamada de psiqué, porém psiqué também é entendido como alento, ar, sopro da vida. Logo, quando essa deixa um corpo vivo, torna-se um eidolon


“Com a morte do corpo, a psiqué torna-se um eídolon, uma imagem, um simulacro que reproduz, "como um corpo astral", um corpo insubstancial, os traços exatos do falecido em seus derradeiros momentos”. (BRANDÃO, 1986, p. 145).

É essa "sombra" que passa a vagar na Terra como espírito atormentado (o que chamamos as vezes de fantasma), mas também é essa "sombra" que habita o Hades. Tal noção é mais clara na Odisseia, canto XI, quando Odisseu desce ao Hades e se depara com os eidolon de várias pessoas. E como mencionado, o herói reencontra seu companheiro de guerra, Aquiles. E numa breve conversa na qual Odisseu indaga Aquiles como era viver lá embaixo, o falecido herói em desânimo responde que sentia falta do Sol, da beleza do mundo, que preferia ser um simples agricultor lá em cima, do que ser um "rei" lá em baixo. Além de Aquiles, Odisseu ao conversar com Ajax, Pátroclo e outros, percebe essa melancolia. 

Entretanto, por mais que Homero já mencionasse essa noção de melancolia relacionada ao Érebo, um dos locais do Hades, o sofrimento propriamente falando continuava a estar ligado com o Tártaro. Hesíodo já havia mencionado isso e Homero confirma que o Tártaro era o local de dor e punição após a morte.

Odisseu em sua jornada pelo Hades (Canto XI, 460-470), comenta que avistou os condenados Tântalo e Sísifo. Ele não menciona Íxion. De qualquer forma, Odisseu enquanto diz que os outros vagueiam como moribundos pela escuridão do Érebo, Tântalo e Sísifo eram castigados. Para entender isso é preciso se fazer um breve comentário acerca do que eles fizeram em vida. 

Tântalo era filho de Zeus, e rei na Frígia ou Lídia. Era bem quisto pelos deuses, porém ele se valeu desse respeito para atentar contra os imortais. Na primeira vez Tântalo divulgou segredos divinos aos homens (o mito não específica que segredos eram esses). Na segunda vez ele num banquete realizado no Olimpo, roubou ambrosia e néctar, a comida e bebida dos deuses. Seu terceiro crime foi testar os deuses. Num banquete que ele ofereceu as divindades, Tântalo assassinou seu filho Pélops e mandou oferecer sua carne no banquete. O rei duvidava da onisciência dos deuses, mas para sua surpresa exceto Deméter que abalada pelo sequestro de Perséfone, todos os outros deuses notaram que se tratava de carne humana. Zeus furioso fulminou Tântalo e seus outros filhos que eram cruéis. Posteriormente o pobre Pélops foi ressuscitado. Tântalo por ter afrontado os deuses três vezes, mas acima de tudo, por ter matado o próprio filho e tentado enganar os deuses foi enviado ao Tártaro. 

Desenho representando a condenação de Tântalo. Sentenciado ao Tártaro, o infame rei foi condenado a passar a eternidade com sede e fome, sem jamais saciar a nenhum. 
“Tântalo foi lançado no Tártaro, condenado para sempre ao suplício da sede e da fome. Mergulhado até o pescoço em água fresca e límpida, quando ele se abaixa para beber, o líquido se lhe escoa por entre os dedos. Árvores repletas de frutos saborosos pendem sobre sua cabeça; ele, faminto, estende as mãos crispadas, para apanhá-los, mas os ramos bruscamente se erguem. Há uma variante de grande valor simbólico: o rei da Frígia estaria condenado a ficar para sempre sobre um imenso rochedo prestes a cair e onde ele teria que permanecer em eterno equilíbrio”. (BRANDÃO, 1986, p. 79). 

No caso de Sísifo esse foi o rei-fundador de Corinto, era conhecido por ser muito sagaz, inclusive sua arrogância o levou a tentar enganar a morte. Em duas ocasiões Sísifo enganou Tânatos o deus da morte, mas seus atos também prejudicaram Zeus e Hades. Na terceira vez ele foi pego e banido para o Tártaro, sendo condenado pela eternidade a ter que carregar uma pedra, morro acima, mas quando chegava próximo ao topo, já fraco e cansado ele cedia e a pedra o derrubava morro abaixo. Então Sísifo se levantava e voltava a fazer tudo de novo, isso pela eternidade. (BRANDÃO, 1986, p. 226).


Sísifo. Tiziano, 1549. 
No caso de Íxion, esse não é mencionado na Odisseia, mas seu mito foi incorporado ao Tártaro, tornando-o terceiro grande condenado mortal a ser sentenciado ao sofrimento eterno. Íxion era o rei dos Lapitas, um povo que habitava a Tessália, no centro da Grécia. Íxion é conhecido por dois terríveis crimes: o primeiro foi enganar e assassinar seu sogro, o queimando vivo. O segundo crime foi desonrar os deuses durante um banquete, no qual tentou estuprar a deusa Hera, mas na verdade era uma nuvem no formato de Hera. Zeus suspeitava da honestidade de Íxion, então fez uma armadilha para ele. Vendo que o infame rei realmente achava que era Hera, Zeus o matou e baniu ao Tártaro, condenando-o a girar numa roda de fogo pela eternidade. (BRANDÃO, 1986, p. 282). 


Pintura retratando a condenação de Íxion. Sentenciado a girar numa roda de fogo ou sobre o fogo, pela eternidade. 
Embora alguns mitos destaquem estes três reis desonestos, outros mitos relatam que no Tártaro haveria vários outros condenados. Na Eneida, canto VI, Virgílio quando descreve o Hades, diz que no Tártaro residiam todos os criminosos e pecadores. É evidente que Virgílio fornece outra interpretação ao mito, mas quando ele escreve o livro no século I a.C, o Tártaro ainda era encarado por gregos e romanos como um lugar de grande tormento, embora não saibamos exatamente em termos religiosos como se definia o que podemos chamar de "pecador". 

Em si como contam os historiadores Angelo Brelich, Raffaele Pettazzoni e Jean-Pierre Vernant, tentar definir uma única concepção sobre vida após a morte para os gregos é equivocada. Seitas como os Mistérios de Eleusis, o Orfismo e o Epicurismo possuíam outras interpretações sobre a alma e a vida após a morte; não obstante, nem todo mito reflete plenamente o pensamento religioso. Pode-se falar em Tártaro e no Érebo como repouso dos mortos, mas não significa que todo grego acredita-se piamente que não pudesse haver outros locais para onde suas almas iriam, ou tão pouco vissem o Érebo da mesma forma. Uma das críticas feitas pelo Orfismo dizia respeito a concepção pessimista de vida após a morte.

Os seguidores do Orfismo eram contrários a ideia de que a alma estaria definitivamente destinada as sombras eternas do Érebo, eles acreditavam que haveria uma diferença de local para onde iriam os bons e os maus. A partir dessa concepção começou a se delinear a ideia de "paraíso". 

As ilhas dos bem-aventurados:

A ideia de paraíso para os gregos antigos ainda hoje é uma concepção problemática. Há poucas referências mitológicas acerca do que poderíamos chamar de paraíso, pois como dito a maioria dos mitos referem-se a existência mórbida no Érebo, no Hades. Apenas os grandes criminosos e "pecadores" iriam para o Tártaro. Na Odisseia, no canto XI, Odisseu enquanto comenta a respeito dos heróis troianos que ele viu lá em baixo, comenta que Héracles o grande herói grego, não se encontrava ali, pois ele recebeu dos deuses a imortalidade e direito de viver no radiante Olimpo, tendo se casado com a deusa Hebe, a de belos tornozelos. 

É na Odisseia, no canto IV que encontramos uma das mais antigas menções ao juiz Radamanto e a ilha dos bem-aventurados, e até mesmo aos Elísios, os quais posteriormente se tornariam campos. No canto IV, estrofe 430, Homero menciona que Radamanto já havia morrido e sua alma (psiqué) habitava uma distante terra situada no Ocidente. Aqui devemos lembrar que para os gregos antigos, o mundo era concebido de forma plana, então o Ocidente era concebido como um vasto oceano sem fim (ou com fim), cheio de ilhas habitadas por povos estranhos e monstros. Mas em meio a esta miríade de terras estranhas, estaria um local onde as pessoas viveriam alegremente. Não haveria temporais e nem invernos. A brisa marinha sopraria suavemente sobre aquela terra iluminada. Homero se referia a tal lugar como Elísio

O Elísio nesse caso era concebido como uma ilha o arquipélago, situado em algum local do Ocidente longínquo. Seria neste caso um paraíso terreno, para onde os heróis, os justos e os puros seguiriam para o descanso na outra vida. O problema é que Homero não diz claramente como ocorria o julgamento das almas para ir ao Elísio, pois como dito, Aquiles, Pátroclo, Ajax entre outros, foram todos enviados ao Érebo. 

Além de Homero, Hesíodo também fez menção ao Elísio, como se este fosse alguma ilha. Em Trabalhos e os Dias (170), o poeta conta o mito sobre uma terra bela, próspera e alegre, situada no distante oceano ocidental. Ali os alimentos floresciam em abundância e havia safras três vezes ao ano. Não havia frio, fome e pestes. Os "abençoados" teriam um descanso pacífico ali, diferente da melancolia do Érebo e do sofrimento no Tártaro. Não obstante, Hesíodo dizia que o guardião do Elísio era o titã Cronos

No século V a.C, o poeta Píndaro (c. 522 - c. 443 a.C) em suas Odes, 2. 59-75 menciona a Ilha dos Abençoados. Um local paradisíaco sem nenhum mal. Vigiado por Cronos e governado por Radamanto. Aquelas ilhas ensolaradas eram observadas pelo próprio Zeus. Para lá seguiam os bons.  

As obras de Homero e Hesíodo não possuem datação precisa, mas acredita-se que suas versões mais antigas datem do século VIII a.C, embora se refiram a mitos que datem de muitos anos antes. Todavia, ainda no século V a.C, o poeta Píndaro, como vimos, mantinha essa noção que o Elísio seria uma ilha ou arquipélago, também conhecido como Ilhas Afortunadas, Ilhas dos Bem-Aventurados ou Ilhas Abençoadas. Seria um paraíso terrestre situado em algum local do Oceano Atlântico, o limite ocidental do mundo para os antigos gregos. 

O filósofo e matemático Pitágoras (c. 570-495 a.C) concebia que o mundo fosse redondo, e inclusive defendia que as Ilhas dos Bem-Aventurados não fossem ilhas terrenas, mas uma metáfora para se referir a planos celestiais localizados no Sol e na Lua. Tal fato se devia a condição que na época havia o pensamento que a alma era feita de Éter, a substância primordial que envolvia o universo. Sendo assim, acreditava-se que quando a alma deixasse o corpo, ela retornaria para o "oceano de Éter", que seria o universo. 

Quase um século depois, o filósofo Platão (428-348 a.C) questionou a interpretação tradicional religiosa e mitológica acerca do Hades. Para Platão, o Érebo e os Elísios seriam locais temporários. Inclusive ele considerava

Os Campos Elísios: 

A concepção dos Elísios é antiga como vimos no tópico acima. Tendo surgido como paraíso terrestre insular. Não se sabe exatamente quando ele passou as ser referido como parte do Hades. Brandão (1986) sugere que isso tenha começado por volta do século VII a.C com o Orfismo, mas caso isso seja verdadeiro, consiste numa variação do mito, podendo-se dizer que haveria duas noções sobre onde se localizaria o paraíso grego: numa versão esse seria situado em ilhas no Atlântico, na outra, que acabou se tornando bastante popular com a Eneida (I a.C), o Elísio deixa de ser ilhas para se tornar campos verdejantes sem fim, estando situado no submundo, que desde os tempos antigos era concebido como local da morte. René Ménard resumiu a descrição dos Elísios feita por Virgílio: 


"Deliciosos campos, risonhas planícies, bosques eternamente verdes, formam a morada dos bem-aventurados. Ali, um ar mais puro reveste os campos de uma luz purpurina; as sombras têm ali o seu sol e os seus astros. Umas exercem, em jogos de relva, a sua força e a sua flexibilidade ou lutam sobre a areia dourada; outras batem o chão cadenciadamente e entoam versos. Orfeu, em longa veste de linho, faz ressoar harmoniosamente as sete vozes da sua lira. Dardos fixados na terra, carros vazios, cavalos que pastam em liberdade, exercem sempre a mesma atração nos que, durante a vida, amaram as armas, os carros e os cavalos, pois todos conservam os mesmos gostos depois da morte. Vêem-se também sombras deitadas à sombra de uma floresta de loureiros, às margens de um rio límpido, que entoam alegres coros. Ali estão os guerreiros feridos em luta pela pátria, os sacerdotes cuja vida sempre foi casta, os poetas que Apolo inspirou, os que pela invenção das artes civilizaram s homens, e aqueles cujos benefícios fizeram viver a memória; todos têm a cabeça cingida de faixas brancas como a neve". (MÉNARD, 1991, p. 156). 


Os Campos Elísios. Arthur B. Davies, 1928. 
Na concepção na qual os Elísios se encontravam no subterrâneo, uma característica a mais que foi acrescentada diz respeito ao rio Lete. Os mitos gregos nos informam a existência de cinco rios infernais: o Aqueronte o qual é o rio que separa o Hades do mundo dos vivos; o Estige, que consiste no rio das promessas; o Cócito, um rio congelado; e o Flegetonte um rio de fogo; por fim, temos o Lete, o rio do esquecimento. Destes cinco rios, os mais importantes são o Aqueronte, o Estige e o Lete, os outros dois são pouco comentados nos mitos gregos. (MÉNARD, 1991, p. 140). 

Junito Brandão nos fornece outra interpretação para os rios infernais:


“Os próprios nomes, diga-se de passagem, por que são designados os rios do Hades, expressam simbolicamente os tormentos que aguardam os condenados: Aqueronte, o rio das dores; Cocito, o rio dos gemidos e das lamentações; Estige, o gélido rio dos horrores; Piriflegetonte, o rio das chamas inextinguíveis; e Lete, o rio do esquecimento”. (BRANDÃO, 1986, p. 266). 

Todavia, falaremos neste caso do rio Lete e seu papel como rio do esquecimento. Já vimos anteriormente no texto que havia a ideia de que os mortos ao chegarem ao Hades, perderiam sua memória. Sobre isso Jean-Pierre Vernant fez alguns comentários. 

Comenta que a morte era encarada como o eterno esquecimento. Os heróis conseguiam escapar desse "esquecimento", pois seus feitos eram cantados e declamados. Vernant sugeriu que essa ideia de esquecimento fosse uma concepção bastante antiga e que foi sendo alterada, pois quando lemos os relatos mitológicos entre os séculos VIII e IV a.C, percebemos variações nesse pensamento. (VERNANT, 1990, p. 146). 



Entretanto Vernant (1990, p. 133, 431) chama atenção que o esquecimento dos mortos não significava que eles deixavam de existir propriamente. Pois parece ter havido diferentes concepções nesse sentido. Para alguns autores gregos que mencionaram o assunto, os mortos quando adentravam o Hades eles beberiam das águas do esquecimento no Aqueronte ou no Lete, a fim de esquecer suas vidas terrenas e darem início a uma nova vida após a morte. No entanto, ao mesmo tempo em que os mortos perdiam sua memória, os vivos também poderiam esquecê-los. Isso consiste também num motivo para diferenciar os heróis, os quais eram "mortos ilustres", pois embora pudessem esquecer suas vidas terrenas, os vivos não os esqueceriam. O próprio Odisseu quando encontra Aquiles no Hades, menciona tal fato, dizendo que embora o herói estivesse morto, seus feitos eram cantados. 

“Qual e então a função da memoria? Não reconstrói o tempo: não o anula tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e o do além ao qual retorna tudo o que deixou a luz do sol. Realiza para o passado uma “evocação” comparável ao que efetua para os mortos o ritual homérico. O apelo entre os vivos e a vinda a luz do dia, por um breve momento, de um defunto que volta do mundo infernal; comparável também a viagem que se mira em certas consultações oraculares: a descida de um ser vivo ao pais dos mortos para ai aprender — para ai ver o que quer saber. O privilegio que Mnemosyne confere ao aedo e aquele de um contato com o outro mundo, a possibilidade de ai entrar e de voltar dele livremente. O passado aparece como uma dimensão do além”. (VERNANT, 1990, p. 143). 


As águas do rio Lete. Thomas Benjamin Kennington, 
Brandão (1986, p. 319-320) comenta um aspecto bastante interessante acerca do rio Lete. O fato do esquecimento gerado ao se beber das suas águas não era apenas uma forma de expurgar o sofrimento e dores dos mortos que ali viveriam em paz, mas também consistia numa forma de purgá-los para a reencarnação. 

A reencarnação:

A concepção religiosa da reencarnação entre os gregos antigos era pautada em duas perspectivas: a ensomatose (reencarnação em corpo humano) e a metempsicose (reencarnação em corpo animal). Tais concepções religiosas originaram-se a partir de seitas e das crenças dos "mistérios". Inclusive havia até mesmo filósofos que debatiam esse assunto. 


“Diga-se, logo, que é, até o momento, muito difícil detectar a origem e a fonte de tal crença. Na Grécia, o primeiro a sustentá-la e, possivelmente, a defendê-la foi o mitógrafo e teogonista Ferecides de Siros (séc. VI a.C), que não deve ser confundido com seus homônimos, o genealogista Ferecides de Atenas (séc. V a.C.) e Ferecides de Leros, posterior e muito menos famoso que os dois anteriores. Apoiando-se em crenças orientais, o mitógrafo de Siros afirmava que a alma era imortal e que retornava sucessivamente à Terra para reencarnar-se. No século de Ferecides, somente na Índia a crença na metempsicose estava claramente definida. É bem verdade que os egípcios consideravam, desde tempos imemoriais, a alma imortal e suscetível de assumir formas várias de animais vários, mas não se encontra na terra dos faraós uma teoria geral da metempsicose. Caso contrário, por que e para que a mumificação? De qualquer forma, as teorias de Ferecides não surtiram muito efeito no mundo grego. Os verdadeiros defensores, divulgadores e sistematizadores da "ensomatose" e da metempsicose foram o Orfismo, Pitágoras e seus discípulos, e o filósofo Empédocles. A alma, pois, não quite com suas culpas, regressava para reencarnar-se. O homem comum percorria o ciclo reencarnatário dez vezes e o intervalo entre um e outro renascimento era de mil anos, cifras que, no caso em pauta, são meros símbolos, que expressam não quantidades, mas sim idéias e qualidades, o que, aliás, se constitui na essência do número”. (BRANDÃO, 1987, p. 167). 

A partir dessas crenças religiosas surgiram novas interpretações para a ideia do Érebo e dos Campos Elísios. Ambos seriam entendidos como locais passageiros. No Érebo iriam as pessoas que não eram tão boas para ir aos Elísios, mas também não tão más para caírem no Tártaro. Ainda assim, nessa nova concepção, o Érebo deixava de ser um local de melancolia para se tornar um local de punição e purgação. Por sua vez os Elísios também era um local de purgação, embora não sofrível como o Érebo. Todavia, a condenação ao Tártaro era tida como definitiva. (BRANDÃO, 1986, p. 320). 

“Com efeito, para os mitos de reencarnação, a impureza que proporciona a água de morte, com a queda em uma nova existência corporal, e o esquecimento das vidas anteriores e a ignorância do destino da alma; a purificação que a água da vida consagra e a memoria infalível do iniciado, concernente as coisas do além, essa sabedoria que vai permitir a sua evasão definitiva do ciclo do devir. Assim, pelo mito, encontrava-se aberto o caminho no qual ia orientar-se a reflexão filosófica. Se Lethe significa volta a geração, se a Vida impura e aquela do devir, e porque o próprio fluxo temporal e uma forca de ruína semelhante ao Styx arcádico, a irremediável força de destruição que aniquila todas as coisas aqui da terra, o monstruoso fluir que nada pode reter”. (VERNANT, 1990, p. 184). 

Para os seguidores do Orfismo entre os séculos VI a.C e IV a.C, nenhuma das duas formas de reencarnação eram algo desejáveis. Os seguidores do Orfismo preferiam alcançar a estabilidade na outra vida e evitar o tortuoso ciclo das reencarnações. 


“Se para os gregos "os mortos são aqueles que perderam a memória", o esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida. Desse modo, na doutrina de Orfeu, o rio Lete teve parte de suas funções prejudicadas. Bebendo na fonte da Memória, a alma órfica desejava apenas lembrar-se da bem-aventurança”. (BRANDÃO, 1987, p. 166). 

Brandão comenta que foram encontrados escritos órficos em lamelas de ouro, os quais instruíam os órficos quando chegassem ao Hades, deveriam evitar beber das águas do Lete, pois assim esqueceriam suas vidas e entrariam no processo para reencarnar. Eles deveriam procurar a fonte da Memória, para que assim preservassem suas memórias e alcançassem a sabedoria, estando finalmente livres dos pensamentos inferiores, ignorantes e maldosos. 

Platão que foi influenciado pelo pensamento órfico-pitagórico, na República e no Fédon dizia que ao chegar ao Hades, a alma deveria ter cuidado, pois os bons deveriam tomar o caminho da direita, e os maus tomariam o caminho da esquerda. No caminho da esquerda os maus seriam punidos por seus atos no Érebo, inclusive estariam passíveis de sofrer reencarnação através de metempsicose. Todavia, os bons seriam recebidos por Perséfone e conduzidos ao descanso eterno. (BRANDÃO, 1987, p. 165-166). 

O descanso eterno era descrito em alguns textos órficos como o Palácio dos Bem-Aventurados e pelo que parece, talvez ficasse no Hades, embora Platão sugerisse que ficasse num plano celeste. Na época de Virgílio, século I a.C, a ideia de reencarnação ainda continuava a existir, pois ele próprio a menciona na Eneida, quando fala que os mortos em Érebo e nos Elísios poderiam ter uma nova vida. No entanto, nesse período tais crenças já estavam perdendo adeptos. 

Nota-se por essa breve introdução que a ideia de reencarnação não era vista totalmente de forma positiva pelos gregos antigos. Os órficos não eram a favor de terem que reencarnar. O próprio Platão também pensava o mesmo, acreditando que fosse melhor seguir uma vida correta e assim evitar ser punido no Érebo ou no Tártaro, assim como evitar de ter que reencarnar também. Pois enquanto algumas religiões indianas proclamavam e proclamam a reencarnação como uma forma de aperfeiçoamento do espírito, para os gregos esse aperfeiçoamento não era encarado da mesma forma. Alguns consideravam a reencarnação como uma forma de punição. 

Considerações finais: 

Vimos que a religião grega não consistia numa crença homogênea e dogmática, havia diferentes interpretações quanto a vida após a morte, mas algumas delas foram gerais ao longo dos séculos. O Hades era o mundo dos mortos por excelência; o Tártaro era o local de punição e sofrimento; havia vida após a morte; a alma era imortal; o destino era real e poderia ser cruel. 

Todavia surgem as concepções diferentes, algumas dessas alavancadas pela seita do Orfismo, surgida talvez na Arcádia ou em Creta por volta do século VII a.C, a qual influenciou bastante a religiosidade grega nos séculos seguintes, adotando um viés de iniciação, comunidade, ritos secretos e privados, uma reinterpretação da vida após a morte etc. O orfismo ao se unir a outras seitas de mistérios e concepções filosóficas foram de encontro a religiosidade cívica e os ritos agrários que imperavam na Grécia desde pelo menos o século VIII a.C.

A partir desse pensamento místico e filosófico adentrou-se na cultura grega a ideia de reencarnação (ensomatose e metimpsicose), a ideia de que cada um era responsável pelos seus próprios atos, algo que rompia com a antiga noção de maldição familiar, algo que é narrada em alguns mitos, nos quais diziam que toda uma família e suas descendência estava condenada a tragédia. Com a percepção órfico-filosófica, essa ideia de maldição é abandonada e o homem passa a ser responsável por suas escolhas, embora a concepção de destino ainda se mantém. 

No entanto, a grande diferença que surge com isso tudo é a noção de punição. Pois embora o Tártaro seja uma concepção bem antiga, para lá iam apenas os grandes criminosos, em geral a população independente de seus atos estava fadada a melancolia do Érebo. Com essas mudanças o Érebo tornou-se um local de punição também, embora menos severo do que o Tártaro, e na perspectiva da reencarnação, o Érebo e os Elísios tornam-se locais de passagem, para que a alma expiasse seus pecados e pudesse reencarnar. 

Todavia, vimos que em determinadas épocas o paraíso era derradeiro, estaria situado na Terra, em alguma ilha perdida no Oceano Atlântico, antes de ser levado para o subterrâneo e posteriormente até pensado que se encontraria no céu. Mas mesmo com a noção de reencarnação vinculando, por mais que os Elísios deixassem de ser o paraíso definitivo, havia outro local que exercia essa função. 

NOTA: A palavra grega daímôn usada pelos gregos para designar espíritos humanos que poderiam influenciar as pessoas para o bem ou para o mal, a palavra foi latinizada para daemon, que por sua vez foi reinterpretada pelos autores cristãos, passando a significar demônio.  


NOTA 2: O fato de Hermes em algumas crenças mitológicas e religiosas dizerem que o deus estava associado com a condução dos mortos para o Hades, o levou a ser comparado com o deus egípcio Anúbis, mensageiro da morte e o deus da mumificação. Inclusive encontramos escritos gregos com o nome Hermanúbis

Referências bibliográficas:
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