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Leandro Vilar

terça-feira, 25 de julho de 2017

Joana d'Arc: de bruxa a santa

Santa Joana d'Arc hoje em dia é uma figura internacionalmente conhecida e até admirada, tendo se tornado a Padroeira da França, em homenagem a sua dedicação e bravura durante os acontecimentos da Guerra dos Cem Anos (1337-1453). A proposta desse texto é contar um pouco a respeito dessa mártir que foi executada pela inquisição episcopal de Ruão, condenada por supostamente ter um pacto diabólico, mas quase cinco séculos depois foi tornada santa pela Igreja Católica Apostólica Romana. Com isso, um dos objetivos desse estudo foi entender pelo que exatamente Joana D'Arc foi acusada no tribunal inquisitorial? Tratava-se de um crime de bruxaria? Ou não passou de uma vingação pessoal ou jogada política?

De camponesa a símbolo de esperança:

Joana d'Arc hoje é lembrada pelas imagens de santa, guerreira, donzela, símbolo nacional da França, mas nem sempre foi assim, além do fato de que por certo tempo, Joana foi mal vista e mal falada, sendo comparada a uma aproveitadora, bruxa, embusteira, mentirosa, ignorante, tola e louca. Por trás de toda a imagem idealizada por pintores e escritores principalmente entre os séculos XVIII e XIX, que concederam muito do imaginário de uma Joana guerreira e donzela, sua história ainda hoje é envolta em algumas lendas e lacunas, as quais para um leitor mais atento podem ser alarmantes, vindo a levá-lo repensar suas ideias que possuía sobre Joana d'Arc. 

Joana (Jeanne no original) nasceu em data incerta, por volta de 1412,  no vilarejo de Domrémy (atualmente Domrémy-la-Pucelle), na província de Lorena. Na época a região não fazia parte da França, mas estava sob domínio do Ducado da Borgonha. Joana era a filha caçula de Jacques Darc e Isabelle Romée Darc, tendo mais quatro irmãos: Jacques, Catherine, Jean e Pierre. Os Darc - posteriormente escrito d'Arc - eram uma família de camponeses com poucas posses. Em geral a população de Domrémy era humilde. (MADDOX, 2012, p. 418). 

Se desconhece muito a respeito da infância de Joana, pois os poucos detalhes que se possuem, provém do seu interrogatório pela inquisição, quando foi indagada a respeito do motivo que a teria levado procurar o delfim (herdeiro do trono) Carlos da França. Na ocasião, Joana contou em alguns de seus depoimentos que por volta de seus 13 anos ela teve sua primeira revelação divina. Joana contou que estava cansada após trabalhar no campo, então sentou-se sob uma árvore, lá ela viu um ser de luz aproximando-se, o qual lhe dirigiu a palavra. Joana disse que se tratava de São Miguel Arcanjo, que vinha lhes dar as boas-vindas e perguntar se ela estava sendo uma boa cristã. Posteriormente, Joana narrou que teve contato com Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida da Antioquia. (BANFIELD, 1988, p. 12). 


Joana d'Arc, a Predestinação. Gaston Bussière, 1909. Na imagem, a jovem Joana encontra São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida. 
Nos interrogatórios Joana informou que continuou a ouvir essas vozes pelos anos seguintes, embora não entrou em detalhes a respeito do tema das conversas, mas em geral repetia que os santos a exortavam a sempre cumprir com os ensinamentos de Deus, e seguir regularmente a liturgia da Igreja. Por volta de seus 16 anos, São Miguel lhe teria dado a missão de ir encontrar o delfim. Para isso Joana deveria buscar o apoio de um nobre, que permitisse ela ter contato com a corte. O nobre mais importante nas redondezas de Domrémy, era Robert de Baudricourt (c. 1400-1454), governante da cidade de Vaucouleurs

Joana segundo conta em seu depoimento, saiu escondida de casa e conseguiu carona até Vaucouleurs, a fim de encontrar Robert de Baudricourt. Nessa parte da história há poucas informações. Não se sabe exatamente quando Joana chegou a cidade e por quanto tempo ali permaneceu. Todavia, Baudricourt se negou a conhecê-la e ouvir o que ela tinha a falar, pois a considerava uma louca ou fanática. Joana era uma camponesa analfabeta, pobre e com apenas 16 anos de idade, que de repente apareceu na porta da casa de Baudricourt, dizendo que Deus lhe deu a missão para que ajudasse o delfim Carlos a assumir o trono francês e combater os ingleses. 

A história de Joana logo se espalhou pela cidadezinha, e Baudricourt decidiu ouvir o que ela dizia, mas ainda assim, não se convenceu e a mandou embora. Joana acabou voltando para a casa. Porém, o ano de 1428 lhe traria uma nova tentativa. O vilarejo de Domrémy foi invadido pelos borgonheses, sendo saqueado. Na ocasião, sua população havia dias antes partido para refúgio, mas os d'Arc ao retornarem para casa, testemunharam a destruição deixada para trás. Joana a contra-gosto de sua família partiu novamente para Vaucouleurs, indo mais uma vez tentar falar com Baudricourt. (BANFIELD, 1988, p. 18).  

Joana retornou a Vaucouleurs em janeiro de 1429. Não se sabe ao certo como ela conseguiu abrigo e emprego para se manter na cidade. É provável que sua família lhe enviasse algum tipo de recurso, pois sabe-se que seus irmãos e um primo foram visitá-la antes da partida. Tendo voltado a morar em Vaucoulerus, Joana continuou a pregar sua missão e a pedir que o senhor Baudricourt lhe desse ouvidos. A história daquela jovem camponesa começou a se espalhar, e Joana dessa vez decidiu usar o caso de Domrémy a seu favor, alegando que se ela conseguisse encontrar o príncipe e o convencesse a entrar na guerra contra os ingleses e os borgonheses, novas atrocidades como a que ocorreu em Domrémy, não iriam se repetir. 

Algumas pessoas começaram a se simpatizar pela causa da jovem donzela, entre os quais Jean de Metz, escudeiro de Robert de Baudricourt, tornou-se um dos defensores da causa de Joana. Passado algum tempo, a história da camponesa de Domrémy que queria conhecer o delfim da França, chegou até a corte em Chinon. Joana havia se tornado uma figura pública, era referida como uma gentil, alegre, recatada e devota jovem. Não se sabe ao certo quem autorizou Joana a viajar para Chinon, mas dada a autorização, Robert de Baudricourt a acatou, oferecendo homens, entre os quais Jean de Metz e um amigo seu, Bernard de Poulegnytransporte e mantimentos para a viagem. 

No dia 30 de fevereiro de 1429, Joana d'Arc encontrou-se com o delfim Carlos, em seu castelo em Chinon. Segundo os relatos da época, ela se ajoelhou diante do príncipe e lhe disse: "Deus lhe dê longa vida, bom rei". Depois dessa apresentação o príncipe e a camponesa conversaram, não se sabe o que foi dito, pois a própria Joana não deu detalhes sobre aquela conversa, limitando-se a dizer que ela mostrou ao rei toda a sua fé e crença de que Deus havia reservado um futuro promissor para o monarca e o povo da França. Por mais que a devoção de Joana fosse admirável como confirmam aqueles que com ela conviveram, ainda assim, sabe-se historicamente que o príncipe Carlos não concordou de imediato com Joana. (BANFIELD, 1988, p. 21).


Miniatura do século XV, representando Joana e o delfim Carlos de França. 
Na ocasião da visita a Chinon, Orleans estava tomada pelos ingleses, Joana sabendo disso, informou que o rei deveria enviar seu exército para recuperar Orleans, porém a cidade estava cercada por sete fortes ingleses. Os franceses haviam tentado anteriormente, mas perderam, porém, Joana alegava que dessa vez seria diferente, mas para isso, ela teria que ir junto com o exército. Ainda assim o delfim não se convenceu, segundo consta, ele teria cobrado de Joana alguma prova ou sinal divino de que ela estivesse dizendo a verdade. Joana teria respondido que lhe poderia lhe conceder apenas a verdade de sua palavra. 

Com isso, Carlos a enviou para Poitiers, para que fosse "examinada" pelos clérigos a fim de que comprovassem a veracidade de sua fé. Joana passou semanas sendo interrogada e observada pelo bispo e os padres, sendo confrontada com várias perguntas e até mesmo sujeitada a um teste de virgindade, pois corriam boatos de que ela teria seduzido alguns homens para poder conseguir ajuda em permanecer em Vaucouleurs e até mesmo para viajar a Chinon. No fim os clérigos atestaram que ela era sã, realmente era uma cristã devota, mas não tinham certeza se de fato ela dizia que ouviu os santos e que Deus havia lhe dado a missão de ajudar o delfim. (BANFIELD, 1988, p. 23).

Sendo liberada pelos clérigos, Joana retornou a Chinon, dessa vez o delfim estava um pouco mais convencido, então decidiu arriscar enviar um exército a Orléans. Mas diferente do que se ver em alguns romances e filmes, Joana d'Arc não comandava as tropas, pois ela além de ser mulher, não dispunha de experiência na arte da guerra. O fato de uma camponesa que não possuía sangue nobre, dispor do título de cavaleiro, inclusive recebendo armadura e o brasão de armas de um, além de acompanhar o exército, foi algo não apenas inusitado, mas que não agradou parte do comando militar. 


Pintura de 1505, retratando Joana d'Arc vestida como cavaleiro. 
Durante as campanhas que participou, Joana de início não era bem vista pelos militares, ela os repreendia pela jogatina, a bebedeira, a grosseria, a luxúria, pois era comum algumas prostitutas se estabelecerem próximas a acampamentos militares. Por outro lado, os comandantes não davam ouvidos a Joana, a consideravam um estorvo. De fato o papel de Joana em Orléans foi mais simbólico do que de comando. Alguns dos seus companheiros de armas, relatam que Joana era deixada fora dos planos de guerra, pois os comandantes não confiavam na falta de experiência dela e tão pouco estavam seguros em sua fé. (BANFIELD, 1988, p. 25).

Todavia, a medida que os franceses tomavam os fortes dos ingleses, a confiança em Joana foi aumentando, pois ela desde o começo da campanha havia dito que os franceses recuperariam Orléans. O forte de Saint-Loup foi tomado em 4 de maio. Na ocasião Joana chegou depois do começo da batalha, mas teria ficado cavalgando na retaguarda, balançando seu estandarte com a imagem de Cristo e dois anjos, e gritando palavras de motivação. No dia 5 foi a vez do forte Saint-Jean-Le-Blanc ser tomado, no dia seguinte o forte de Les Augustins se rendeu. Os franceses em três dias haviam conquistado três fortificações, algo que não haviam feito em meses de cerco. A crença de que Joana realmente pudesse dar boa sorte ou estivesse falando a verdade se espalhou pelo exército. No entanto, o teste derradeiro ainda estava por vir. 


Mapa do cerco de Orléans, abril de 1429. 
Durante a tomada do forte de Les Tourelles, o qual se revelou a batalha mais difícil daquele cerco, muitos homens morreram e Joana foi ferida. Alguns relatos dizem que ela foi flechada no ombro, outros dizem que ela foi atingida por uma lança. Graças a armadura ela não teve um ferimento mais grave, mas isso obrigou-a ser socorrida por seus escudeiros. A frente de ataque francesa recuou, após a frustração da primeira investida. Les Tourelles resguardava o acesso a ponte que os levaria direto a cidade. Joana conta que devido ao ferimento não ser grave, ela retornou ao campo de batalha após os primeiros-socorros e novamente empunhando sua bandeira exortou os homens para um novo ataque. No final do dia 7 de maio de 1429, Les Tourelles se rendeu. 

A tomada de quatro dos sete fortes ingleses, incluindo o resistente Les Tourelles, levou o exército inglês optar pela retirada. Orléans não deveria custar tanto sangue assim para ser mantida. No dia 8 de maio, os sinos da cidade badalavam celebrando a retirada do exército invasor e saudando o exército francês. Joana havia se tornado um símbolo de esperança. As pessoas cantavam hinos e uma procissão foi realizada para dar boas-vindas ao exército, Joana foi recebida como uma heroína. Posteriormente ela foi chamada de a Donzela de Orléans (La Pucelle d'Orleans). (MADDOX, 2012, p. 429). 


Joana d'Arc e o Cerco de Orléans. Jules Eugène Lenepveu, 1890. 
A fama de Joana d'Arc começou a se espalhar após a vitória em Orléans, tanto entre os franceses, quanto entre seus inimigos, os ingleses e borgonheses. Ao retornar a Chinon, Joana recebeu vários presentes do delfim e de outros nobres, em retribuição a sua motivação e determinação em sempre incentivar os homens a acreditarem no esforço e na vitória. 

A primeira missão de Joana d'Arc estava completa, agora ela partia para a segunda: coroar Carlos como rei da França. Tradicionalmente a coroação dos reis franceses era realizada em Reims, pois o rei Clóvis I do Francos (c. 466-511), foi ali coroado em 496, por São Remígio. Pelo fato de ter sido o primeiro soberano franco a unificar a Frância e a se converter ao cristianismo, tornou-se costume que todos os reis cristãos francos fossem coroados em Reims. Porém, a cidade apesar de estar sob domínio francês, a estrada de Chinon até lá, estava ocupada por tropas inglesas. Joana teria que abrir caminho. (MADDOX, 2012, p. 419). 

Três poderosos comandantes ingleses se encontravam no caminho para Reims, o cavaleiro Sir John Fastolf, William de la Pole, o 4o Conde de Suffolk e Lorde John Talbot. Após a vitória em Orléans, a população estava confiante e o exército também, acreditavam que realmente Joana possuía uma aura misteriosa que lhe concedia proteção e sorte na guerra, com isso, Carlos ordenou que suas tropas se preparassem para abrir caminho até Reims, cidade que distava 25 milhas (40 quilômetros). As batalhas se desenrolaram entre 11 a 17 de junho de 1429. Os franceses obtiveram vitórias consecutivas em Jargeau, Meung, Beaugency e Patay. (MADDOX, 2012, p. 432). 

O conde Suffolk e lorde Talbot foram feitos prisioneiros, e durante a batalha de Patay (17 ou 18 de junho), grande parte do exército inglês foi morto e feito prisioneiro. Talbot foi capturado, mas Fastolf conseguiu fugir. Tal feito foi tão grande que lendas surgiram a respeito, pois na época os três comandantes dos franceses, Le Hire, Joana d'Arc e Jean de Xaintralles dispunham de 1.500 homens, mas os ingleses comandados por John Talbot e John Fastolf contavam com 5 mil soldados. Desse total, quase 3 mil foram feitos prisioneiros, enquanto que os franceses tiveram apenas 100 baixas. (BANFIELD, 1988, p. 35). 

Após a vitória em Patay, a coroação de Carlos VII pôde ser realizada na Catedral de Reims. Joana na ocasião trajava vestes militares, uma armadura e ostentava sua bandeira de guerra. Sua segunda missão havia sido cumprida, Carlos havia sido coroado rei da França. Esse era o ponto alto da sua rápida carreira e ascensão. Joana era na época vista como uma heroína. 


Coroação de Carlos VII da França. Jules Eugène Lenepveu, 1890.
Traição e aprisionamento:

Após a coroação do rei, Joana aguardava as ordens para dar continuidade a sua missão, no caso seu terceiro objetivo era reunificar o Reino da França. Para isso ela teria que conquistar uma vitória definitiva sobre os ingleses e os borgonheses que ainda ocupavam o noroeste e norte do país. Mas para a surpresa e insatisfação de Joana, Carlos VII não era dado a guerras, era um líder frágil ainda naquele tempo, e após ser coroado tornou-se acomodado. 

Uma das medidas que o novo monarca decidiu tomar, ocorreu em 3 de agosto de 1429, Carlos VII assinou um armísticio com seu primo, o rei Filipe III de Borgonha. Neste caso, Filipe de Borgonha era um soberano pomposo, extravagante, admirado, firme e mulherengo. Enquanto seu primo Carlos era acomodado, Filipe era mais engajado na guerra e na política, o acordo entre os dois soberanos era vantajoso, ninguém atacava o território oposto, mas as cidades que estavam sob domínio borgonhês ainda permaneciam sob seu controle. Aquilo não agradou Joana, a qual por um mês permaneceu na corte desanimada pelo fato de seu rei não acreditar em sua missão. 

Entretanto, a cidade de Paris, antiga capital francesa, não entrou no acordo do armísticio, com isso, Joana solicitou ao rei que lhe permitisse libertar a cidade. A contragosto, Carlos VII deu a autorização. O ataque a Paris ocorreu entre 7 e 8 de setembro, quando ainda no dia 8, Joana que haviam perdido um de seus pajem, e foi ferida em uma das pernas, recebeu a mensagem que o rei ordenava suspensão do cerco e retorno a Reims. Joana deve ter ficado zangada ou bastante aborrecida, inclusive é também um fato contraditório o por que exatamente o rei decidiu abortar o ataque? Os motivos não são conclusivos, mas talvez tenham ligações políticas. (BANFIELD, 1988, p. 47). 

Ao retornar para a corte, Joana passou os meses seguintes no ócio, tendo saído apenas a campo em novembro, para participar de algumas campanhas para conter pequenas revoltas, mas visivelmente os planos do novo monarca de lutar para restaurar a França, estavam perdidos. Carlos tentou acalmar o descontentamento de Joana, apesar de parecer não querer mais seus serviços, tê-la por perto era manter todo seu simbolismo ainda ativo. Afinal Joana d'Arc havia se tornado de uma mera camponesa de Lorena, na heroína da França. 

Em dezembro de 1429, o rei concedeu a Joana o título de nobre e lhe deu a autorização para portar brasão de armas e o sobrenome de Lys, passando-a a designá-la Joana de Lys. Os irmãos de Joana, Jean e Pierre foram convidados pela irmã a se unir a sua corte, e adotaram o sobrenome de Lys. (MADDOX, 2012, p. 419). Embora que na prática Joana não costumasse a usar o novo sobrenome. Inclusive durante seu interrogatório na prisão, ela se nomeava como Joana d'Arc. 


Brasão de armas de Joana d'Arc

Meses se passaram, e chegando em maio de 1430, Joana decidiu tomar uma medida drástica. Não se sabe ao certo os motivos de ela ter desobedecido o rei Carlos VII, porém, Joana contratou uma tropa de mercenários e convocou alguns de seus amigos. Se o rei não estava disposto a ir à guerra, ela iria por conta própria. A missão era atacar os territórios sob domínio dos borgonheses. A cidade alvo era Compaigne. Segundo uma lenda, Joana e sua tropa, enquanto passavam a Páscoa em Melun, cidade no caminho para Compaigne, lá Joana teria tido uma revelação de um dos santos, que lhe disse que ela seria capturada antes do dia de São João, celebrado na França em 24 de maio. (BANFIELD, 1988, p. 48).

Se Joana teve essa revelação ou não, ainda assim, ela decidiu seguir com sua campanha. No dia 22 de maio eles chegaram a Compagnie, e no dia seguinte ocorreu o conflito contra os borgonheses. A pequena tropa de mercenários de Joana era insuficiente para confrontar o poderio inimigo. Após uma batalha dentro dos muros da cidade, Joana foi derrubada de seu cavalo e feita prisioneira. Era o dia 23 de maio de 1430. Nesse ponto sua história tomou uma reviravolta.

Tradicionalmente os nobres quando eram feitos prisioneiros, isso se devia ao fato de que se pediria um gordo resgate para libertá-lo. Pelo fato de Joana independente de ser um cavaleiro e uma heroína, era antes de tudo uma nobre, logo, ditava a cordialidade cavaleiresca em se acatar o pedido de resgate, porém, o rei Carlos VII negou-se a pagá-lo. Dizem que ele mesmo recebendo críticas de outros nobres e até do povo que admirava Joana, ainda assim, manteve-se insensível ao caso. Os motivos pelos quais o rei negou-se a resgatar Joana, ainda hoje não são totalmente conclusivos. 

Joana d'Arc foi mantida prisioneira dos borgonheses por um ano. Devido a ser uma nobre, foi mantida em prisão domiciliar no castelo de Beaurevoir, sob custódia do duque João de Luxemburgo. Nesse ponto a história da prisão de Joana é mal explicada. Sabe-se que ela foi tratada bem durante o período que permaneceu no castelo de Beaurevoir, porém, o fato de nenhum nobre francês se dispor a pagar o seu resgate é estranho. No fim, o responsável por libertar, mas também por condenar Joana foi Pierre Cauchon, bispo de Beauvais. (MADDOX, 2012, p. 437).

Enquanto a corte francesa não apresentava consenso pela soltura de Joana, pois houve tentativas de pagar o resgate, a corte inglesa decidiu tomar a frente: ofereceram na época 10 mil francos para ter Joana não livre, mas como prisioneira da Inglaterra. A ideia era mandá-la a julgamento, afinal, Joana era inimiga dos ingleses, tendo participado de batalhas que levaram a sua derrota. No caso, o bispo Cauchon também tinha interesse em julgar Joana, pois considerava ela uma farsante e talvez uma bruxa. Joana havia conquistado notoriedade com base na fé, e até mesmo subestimado a autoridade eclesiástica, principalmente durante as semanas que esteve em Poitiers. Com isso, foi acordado que os ingleses receberiam a custódia de Joana, mas ela seria julgada pela inquisição. 

O processo inquisitorial:

Joana foi retirada da custódia do duque de Luxemburgo e enviada para Ruão, capital da Normandia, na época, território francês ocupado pelos ingleses. Ela chegou no começo de dezembro, tendo sido enviada para uma cela suja e escura, sua nova morada pelos meses seguintes. Em 9 de janeiro de 1431 o processo inquisitorial contra Joana foi iniciado. Nessa primeira fase colheu-se provas e testemunhos. Os interrogatórios se iniciaram em 21 de fevereiro. Consistindo em um de sete dias de julgamento, os quais chegavam a levar horas. No caso, um dos inquisidores que a julgaram, foi o próprio bispo Pierre Cauchon, que fez questão de solicitar autorização a inquisição para participar do processo de Joana. Cauchon representava os franceses, do lado dos ingleses estava o cardeal Henrique Beaufort. Apesar de ter havido outros inquisidores, o bispo e o cardeal foram os principais deles. (BANFIELD, 1988, p. 59).

Muito do que se conhece da história de Joana adveio durante estes dias de julgamento, pois os inquisidores lhe indagavam a respeito de sua vida e detalhes sobre as vozes que ouvia, sua viagem a Vaucouleurs, a viagem até Chinon, sua participação nas batalhas, a vida na corte etc. Porém, o que irritava os juízes era o fato de que quando pediram que Joana lhe contasse a respeito das suas conversas que possuía com os santos, ela respondeu que Deus não a havia autorizado revelar a aqueles homens o teor dessas conversas. Joana apenas limitou-se a confirmar suas três missões: libertar Orléans, coroar Carlos VII, unificar a França. 

O fato de Joana negar-se a revelar o teor das conversas que dizia ter com os santos Miguel Arcanjo, Catarina de Alexandria e Margarida de Antioquia irritou os inquisidores, pois consideravam demasia prepotência da ré em desafiar a autoridade eclesiástica e inquisitorial. De fato, uma das acusações feitas a Joana foi o desrespeito a autoridade inquisitorial, algo que na época era considerado uma ofensa que recebia pena. 

Outro fator que pesou contra Joana, que também estava relacionado com as vozes que ela dizia ouvir dos santos, alguns inquisidores acusaram de que na verdade se tratavam de vozes de demônios, pois os santos mortos não se comunicavam com os vivos. No século XV a ideia de que ouvir os mortos, ou ver supostamente anjos ou santos, era considerada ou charlatanice, mentira ou pacto diabólico. 

Desde 1326 a Igreja através da bula Super Illius Specula, associava a feitiçaria com Satanás. Neste caso, boatos advindos inicialmente dos franceses, mas principalmente dos ingleses, sugeriam que as vitórias conquistadas contra eles se deveria ao fato de que supostamente Joana teria usado algum tipo de magia para conseguir tal feito. Apesar de a Caça às Bruxas só ter se iniciado propriamente na segunda metade do século XV, na primeira metade, casos de bruxaria já estavam sendo julgados ocasionalmente. Acreditava-se que uma bruxa era a mulher que renegava a sua fé (apostasia) e fazia um pacto com o Diabo, passando a servi-lo (idolatria), em troca de receber informações, conhecimento e poderes. (VILAR, 2015). 

Nesse sentido, em dados momentos dos interrogatórios de Joana, os inquisidores a indagaram se as vozes que ela ouvia eram mesmo de santos, ou não seriam demônios? Joana em todas as ocasiões negou tal acusação, dizendo que ela era uma cristã e católica devota, que as vozes eram dos santos de Deus. Apenas isso não bastaria para acusa-la de bruxaria, já que ele negava que soubesse magia ou fosse devota de Satã, porém, a condição de ela sempre dizer que conversava diariamente com os santos, intrigava os juízes. Se Deus havia reservado planos para ajudar o povo francês, por que não procurou pelo cardeal, bispos ou algum outro clérigo, mas justo foi escolher uma camponesa analfabeta e pobre, dos cantões da Lorena? 

"De acordo com a teologia da época, os ministros da Igreja recebiam poder e inspiração diretamente de Deus. Assim, para amar e obedecer a Deus era preciso amar e obedecer à Igreja e a seus ministros. A evidência de que Joana colocava sua lealdade a Deus acima da lealdade à Igreja, tornou-se clara desde o primeiro dia do julgamento. Mostrou-se pela primeira vez em sua recusa de prestar juramento para revelar tudo o que suas vozes lhe haviam dito". (BANFIELD, 1988, p. 61).

Joana além de tais acusações, também foi acusada de supostamente ter matado alguns soldados, porém, ela relutou em confirmar isso, dizendo que apesar de usar armadura e ir para o campo de batalha, ela jamais matou alguém. Alguns de seus companheiros de luta confirmaram tal condição. Além disso, até onde se sabe, Joana não recebeu treinamento militar. Outra crítica feita dizia respeito que enquanto esteve presa em Ruão, ela se negou a vestir trajes femininos, usando as vestes masculinas de um pajem, um tipo de serviçal. 

Aqui temos três problemas: um, o fato de ela se recusar a obedecer uma ordem dos juízes; trajar vestes masculinas, que era algo imoral na época, apesar de que ela só usasse armadura no campo de batalha e em alguns festejos, mas normalmente ela trajava vestidos. Joana era conhecida por apreciar o requinte, ela mesmo confirma isso em seu depoimento. O terceiro problema era o fato de que ela era uma nobre, logo, era indecoroso está vestida como uma serviçal, embora Joana nunca rejeitou sua origem humilde, alegando que tal fato não a incomodava. 

Como Joana negava-se a confirmar culpa ou a dar explicações mais satisfatórias, no dia 9 de maio, ela foi ameaçada de ser torturada. No caso, a tortura era utilizada pela inquisição desde o século XIII, embora não fosse aplicada sempre e houvesse normas para seu uso. Mas mesmo sob ameaça de tortura,  Joana negou-se a confessar alguma culpa, pois se declarava inocente. Nas semanas seguintes os inquisidores decidiram torturá-la de outra forma, deixando-a a passar fome e sede na prisão, no intuito de enfraquecê-la. Em alguns casos eles iam até a cela e tentavam tirar-lhe uma confissão. No sistema de julgamento inquisitorial, a sentença de pena somente poderia ser emitida se o réu ou ré confessasse sua culpa. (MADDOX, 2012, p. 438-439). 

Falhado as tentativas de pressioná-la no cárcere, Joana foi levada no dia 24 de maio, até o cemitério de Saint-Ouen, onde foi acusada publicamente diante de várias pessoas, além de ser severamente ofendida. O padre Guillaume Erard proferiu um mordaz sermão contra Joana. Ele se encontrava sobre um palanque usado para enforcar prisioneiros e condenados. De cima do palanque ele acusava Joana e cobrava sua retratação e culpabilidade. Joana resistiu a aquela tortura psicológica por algum tempo, até que acabou cedendo. Ela se retratou, dizendo que abandonava suas vozes e perdia perdão a Deus e a Igreja. Todavia, no dia 28 de maio, Joana voltou atrás e recusou sua retratação. Segundo ela, os santos criticaram sua atitude de ter vacilado naquele momento, em vergonha a estes, ela retirou sua retratação. (MADDOX, 2012, p. 439). 

O fato de Joana ter voltado atrás, era considerado demasiadamente problemático  para ela. Um criminoso que havia confessado a culpa, voltar atrás e dizer que era inocente, era tachado de sem vergonha, canalha, mentiroso etc. Tal fato foi o motivo final para que Joana definitivamente fosse acusada a pena de morte. O bispo Pierre Cauchon leu a sentença final, acusando Joana de heresia grave por mentir sobre a procedência das vozes que dizia ouvir, por ter enganado a muitos, por ter desobedecido e insultado os ministro de Deus e a autoridade da Igreja e da Inquisição; por ter supostamente renunciado a sua fé, e se submeter as tentações demoníacas. (BANFIELD, 1988, p. 74). 

Joana d'Arc foi condenada a pena de morte na fogueira, em 30 de maio de 1431, aos 19 anos de idade. Uma pira foi erguida na velha praça do mercado, no centro de Ruão. Trajada com uma batina branca, veste comum dada aos culpados, e usando uma insígnia na cabeça com a imagem de dois demônios e contendo quatro palavras, que estavam relacionados com os crimes de que era acusada: heresia, relapsa, apóstata e idolatria


Execução de Joana d'Arc. Jules Eugène Lenepveu, 1890. 
Joana foi conduzida até a fogueira, onde foi amarrada ao mastro, teve seu traje embebido em enxofre ou óleo, para queimar mais rápido. Segundo o relato, ela teria solicitado duas cruzes: um crucifixo que foi dado por um dos soldados ingleses que fazia a guarda, e uma cruz que foi segurada por um dos funcionários da inquisição. Sua sentença foi lida e as chamas acesas. Segundo uma lenda, o coração de Joana não teria sido queimado, tendo permanecido intacto, aquilo foi considerado um milagre, uma prova de sua santidade. Outro relato diz que enquanto era queimada viva, ela gritava o nome de Jesus Cristo, pedindo misericórdia para si e para seus algozes. (MADDOX, 2012, p. 440).

Apesar de ter supostamente considerada uma bruxa, a acusação final não lhe sentenciou propriamente pelo crime de bruxaria, inclusive o fato de queimar pessoas vivas era adotado para outros crimes e não apenas o de bruxaria. A própria noção de bruxaria ainda estava em desenvolvimento na década de 1430, apenas na década de 1480 é que ela seria formalizada e oficialmente decretada pela Igreja Católica. (VILAR, 2017). Logo, dizer que Joana d'Arc foi queimada na fogueira por ser uma bruxa, não está correto, já que na sua sentença final não constava tal crime, mas sim o de heresia, como comentado acima. 

Legado: 

A família de Joana passou os anos seguintes tentando provar que o julgamento havia sido arbitrário, que Joana havia sido condenada injustamente. A absolvição dela somente se deu em 1456, quando o papa Calisto III reconheceu que o processo inquisitorial que condenou Joana d'Arc em 1431 havia agido de forma irresponsável e imprudente. Mas embora ela tenha sido inocentada e desculpas tenham sido emitidas aos d'Arc, a má fama de Joana ainda continuou pelos séculos seguintes. No século XIX, motivado pelo Romantismo, Joana volta a ganhar destaque como símbolo nacional francês, fosse através das pinturas ou da literatura, ela volta a encarnar a virgem, a guerreira e a mártir. 

Em 1909 o papa Pio X com base na investigação de três milagres realizados com freiras francesas, Teresa de Santo Agostinho, Julie Guthier e Marie Sagnier, as quais foram curadas de úlceras e cânceres, atribuiu a beatificação a Joana. Em 1920 o papa Bento XV com base em dois outros milagres ocorridos com Thérèse Belin, em Orléans, que foi curada de um grave tipo de tuberculose em 1909, e de Miss Mirandele, que possuía uma ferida profunda no pé, já infeccionada, mas foi curada. Joana d'Arc foi oficialmente feito santa em 16 de maio de 1920, atribuindo-se a data de 30 de maio, dia de sua morte, como seu dia litúrgico. 

Ainda no mesmo ano de 1920, o governo francês celebrou a canonização da santa, atribuindo-lhe o dia 8 de maio como feriado nacional, em memória ao seu valor em lutar pela nação. Posteriormente o feriado também passou a celebrar o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, tornando-se o Dia da Vitória. Joana também passou a vigorar civicamente no panteão dos heróis nacionais da França, inclusive tornando-se padroeira do país. 

NOTA: Margaret Joan Maddox (2012, p. 418) comenta que em documentos medievais e modernos encontram-se diversas variações de grafia e até de pronúncia quanto ao sobrenome da família de Joana. Maddox cita as variações de Dart, Day, Dai, Darx, Dars, Tarc, Tard etc. Assim como, diz que a atual grafia vigente, d'Arc se popularizou no XIX.
NOTA 2: Joana d'Arc ao longo dos séculos foi tema de pinturas, poemas, contos, canções, filmes, livros, jogos, séries etc. Em geral a maioria da produção artística a partir do XIX, exalta seu lado heroico e devoto, porém, antes do XIX, temos poemas, canções e escritos a degradando, acusando-o de farsante, louca, bruxa etc. 
NOTA 3: Foram produzidos alguns filmes sobre a santa, entre os quais se destacam: A paixão de Joana d'Arc (1928), Joana d'Arc (1948), e Joana d'Arc de Luc Besson (1999). Ainda no ano de 1999 também foi lançado um filme para a televisão. 
NOTA 4: Em Age of Empires 2 (1999) existe uma campanha baseada na história de Joana. A santa também é tema de outros jogos como War and Warriors: Joana of Arc (2004) e  Jeanne D'Arc (2007). 
NOTA 5: O famoso escritor brasileiro Érico Veríssimo (1905-1975) escreveu uma biografia romanceada sobre Joana. A obra publicada em 1935 adaptava a história da santa mártir para o público infanto-juvenil. 
NOTA 6: A vida de Joana também foi romanceada pelo famoso escritor americano Mark Twain (1835-1910) em sua novela Personal Recollections of Joan of Arc (1896). 

Referências bibliográficas: 
BANFIELD, Susan. Joana d'Arc. São Paulo, Nova Cultural, 1988. (Coleção Grandes Líderes). 
MADDOX, Margaret Joan. Joan of Arc (ca. 1412-1431). In: MATHESON, Lister M. (ed). Icons of the  Middles Ages: rules, writers, rebels, and saints, vol 2. Santa Barbara, CA, Greenwood Icons, 2012. p. 417-450. 2v

Referência da internet:
VILAR, Leandro. A Caça às Bruxas. Disponível em: http://seguindopassoshistoria.blogspot.com.br/2017/05/a-caca-as-bruxas-xv-xviii.html. 2017

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