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Leandro Vilar

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nota sobre o ato de celebrar o 7 de setembro

No Brasil, o dia 7 de setembro se comemora a Independência do Brasil, ou seja, a separação político do Reino do Brasil do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1816-1822), que fomentou o surgimento de um Estado-nação regido por um governante próprio, que no caso foi o imperador D. Pedro I e sua corte, estabelecida no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Todavia, Portugal negou-se a reconhecer essa independência que era vista como um golpe de Estado, uma rebelião, revolta, uma afronta. 

Parte da população das capitanias da Bahia, Pernambuco, Ceará, Piauí e Maranhão se manifestaram contrários a independência. As outras capitanias também se manifestariam depois. Essa oposição se deveu ao fato de que alguns defendiam a permanência do Brasil no reino unido, outros por sua vez, queriam a fundação de uma grande república, ou repúblicas regionais. Somando a essas dissidências havia o fato de que os indígenas e negros não eram cidadãos, mesmo durante a colônia, e com o advento do Estado-nação do Império do Brasil, não ganharam nenhuma promoção, continuaram a serem deixados de lado da vida política, e até da dignidade social. E para completar, D. Pedro I de 1823 e 1825 ordenou campanhas militares para derrotar e silenciar os focos de oposição e resistência, de forma a consolidar o processo de emancipação político de Portugal. 


Entretanto, se de fato sabemos que a Independência do Brasil foi um movimento orquestrado pelas elites especialmente do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, que almejavam uma ruptura de dependência político-econômica com Portugal, pois na prática, manter-se como reino unido, a vista deles não estava sendo favorável para seus negócios, seria válido celebrar essa data que marca o nascimento do conceito de pátria brasileira?

Na presente data de hoje, fui confrontado de forma até mesmo afrontosa por outros historiadores que me acusaram de celebrar o 7 de setembro, pois fazer isso era celebrar um golpe de Estado; era celebrar a escravidão; era celebrar a opressão; era celebrar a monarquia; era compactuar com a manutenção de práticas coloniais desumanas; além disso, era ser imparcial, tolo, ignorante, alienado, pois o historiador antes de celebrar algo deve ser crítico, e quando for, não deve tomar partido. Deve manter-se neutro. Essas últimas palavras soaram da boca de alguém que diz que a monarquia não prestou e não merecia nem se quer ser lembrada. Mas isso não é tomar partido? Onde está a neutralidade?

Fiquei espantado com o nível e conservadorismo desses historiadores em dizer que o 7 de setembro não teve nenhuma utilidade histórica! Foi um golpe para criar uma monarquia escravocrata. Nesse ponto, a neutralidade do historiador torna-se hipocrisia, e aqueles que não dizem ter preconceitos, revelam os seus, como feras raivosas para rasgar a garganta daquele que quer cantar o hino nacional, ou participar do desfile cívico, ou dizer para o filho que somos hoje um país independente, com uma constituição, com leis, com tradições, com símbolos nacionais, com costumes, com culturas, como problemas etc., mas ainda sim, somos um país livre. Mesmo que a nossa liberdade, nosso Estado de direito, tenham começado sobre os ombros da escravidão, de genocídios, do colonialismo, do mercantilismo, de revoltas e guerras. 

Mas me indago: que país no mundo nasceu de forma pacífica? Que país do mundo não possui em sua história momentos de violência, ódio, sangue, morte, guerra, desordem, miséria, corrupção, desigualdade, crise? Israel, uma nação criada em 1948 é reflexo de três mil anos de conflitos! Embates estes que ainda hoje continuam, mas para muitos que ali vivem, é o seu lar, sua identidade, sua pátria, sua esperança, seu sonho, suas tragédias, seus pesadelos. E no âmbito religioso é um lugar santo!

Seria demasiadamente querermos sermos utópicos em pensar que o Brasil se não tivesse se tornando independente em 1822, poderia anos depois ter se tornado uma honrada e justa república? Nunca saberemos. A história não é feita de projeções futuras. 

Independência ou Morte, Pedro Américo, 1888. Neste quadro o pintor paraibano retratou de forma romanceada a proclamação da independência. Segundo alguns historiadores isso é a representação de um golpe fomentado pelas elites cariocas, paulistas e mineiras, sem a participação de outros segmentos da sociedade, e sem levar em consideração os escravizados. 
De fato, a monarquia brasileira não foi aquilo que milhões de brasileiros esperavam. A monarquia não aboliu a escravidão logo de início; manteve o poder moderador, ao invés de tê-lo suprimido; D. Pedro I não foi um bom governante, D. Pedro II foi um governante razoável até certa época; não houve desenvolvimento industrial, tecnológico, educacional, científico, social como esperado de outras monarquias da época. A pátria brasileira nasceu em berço de ouro, mas cresceu de forma mimada. 

Diante de tudo isso, poderíamos dizer que é inválido celebrar a nossa independência? E segundo, querer celebrá-la é compactuar com a monarquia, com a escravidão, com o colonialismo explorador? Se for assim, celebrar o 14 de julho na França, data de início da Revolução Francesa (1789-1799) não é apenas defender a democracia, o republicanismo, os direitos civis, a constituição, a modernidade etc., mas também é compactuar com o autoritarismo dos revolucionários, a arbitrariedade nos julgamentos, os complôs, as traições, os crimes, as perseguições políticas, a violência, as execuções em massa nas guilhotinas, a manutenção de colônias e da escravidão. 

Celebrar o 4 de julho de 1776, Independência dos Estados Unidos não é apenas comemorar a origem de uma república, a formação de uma nação, a criação de uma constituição, mas também é compactuar com a guerra, o genocídio indígena, as perseguições, complôs, traições e até mesmo com a escravidão negra, afinal, essa somente foi abolida em 1865. E nesse ponto é algo curioso, pois os historiadores que me disseram que não era válido celebrar o 7 de setembro, por ser um golpe de Estado, que legitimava um governo monárquico escravocrata, dizem que o 4 de julho foi uma revolução digna, e revoluções devem ser celebradas. Então eu me pergunto: mesmo revoluções que perpetuam a escravidão? O problema era a escravidão (que realmente é algo terrível), ou o problema é não ter sido uma república revolucionária?

Declaração de Independência dos Estados Unidos, John Trumbull, 1818. Segundo os historiadores que condenam a Independência do Brasil,  por ter sido fruto de um golpe que instaurou uma monarquia escravocrata, no caso americano, isso foi um ato revolucionário que contou com a participação de vários segmentos da sociedade. Mas nessa pintura só vemos a elite branca reunida, sem contar que neste momento, não houve abolição da escravidão. Os EUA nasceram como uma república escravocrata. O problema era só a escravidão ou foi o Brasil ter surgido como uma monarquia?
Acredito que devemos sim celebrar o 7 de setembro, tenha sido ele um triunfo, ou um golpe, ou uma farsa, ou um complô ou uma discórdia. Devemos celebrá-lo mesmo que ele não tenha sido a esperança que se esperou na época, mesmo que ele tenha mantido em funcionamento desigualdades, preconceitos, injustiças, opressões, sistemas políticos-econômicos-sociais-ideológicos que hoje são abomináveis e não deveriam voltar a se repetir. Porém, cada tempo é único. O nascimento do Brasil é fruto de sua época. Uma época em vários aspectos ainda em desenvolvimento e de transformações sociais, científicas, religiosas, morais, culturais, econômicas etc. 

Seria demasiadamente prepotência nossa condenar o surgimento da nação brasileira, por discordamos de como ela surgiu e como ela se manteve? Eu também não concordo como a independência foi feita, ou muito menos concordo com certas decisões, políticas e escolhas que foram feitas e mantidas durante o império. Mas é preciso reconhecer que a História não é um conto de fadas que mesmo com os perigos e problemas, nos aguarda com um final feliz e reconfortante. Se queremos aceitar o 7 de setembro, que o aceitemos junto aos seus horrores, e não negá-los, porque eles nos incomoda. Agir assim é similar a aqueles que dizem que a Ditadura Militar (1964-1985) não teve problemas e não foi um período ruim, mas tempos dourados de imaculada justiça e democracia. É querer enxergar apenas um lado, no caso, aquele que lhe convém, que lhe conforta, o seu "conto de fada". 

Por mais que você diga que não concorde com a independência feita por D. Pedro e os demais, com a criação do império e suas políticas, isso é direito seu. Mas dizer que devemos ser neutros, mesmo que você já tenha claramente tomado seu partido, e ainda mais, dizer que não tomou partido, mas condena aquele que o fez, é ser no mínimo hipócrita, desonesto. É mais sensato dizer que você odeia a colônia e o império, mas louva a república (mesmo com seus problemas), do que falar que está sendo neutro, imparcial, crítico. Ou é mais sensato dizer que você admira o império (mesmo como seus problemas), mas não gosta da atual república brasileira de hoje. 

Por fim, eu digo, se queres celebrar o 7 de setembro, celebre-o, mas seja bravo suficiente para aceitar toda a bagagem histórica que essa data, esse marco histórico traz consigo. Não queira entoar o hino e achar as mil maravilhas, negando que o país nasceu sobre genocídio de povos indígenas, a escravidão negra e indígena, guerras, invasões, revoltas, conspirações, traições, corrupção, crimes e outros problemas sociais. Seja valente em querer erguer a bandeira verde e amarela é dizer que "o meu país passou por terríveis momentos, tanto na época da colônia, do império e da república, mas é meu dever lutar por um presente e um futuro melhores, que as tragédias e horrores do passado não voltem a ocorrer!". 

Penso que isso seja ser patriota, e não ficar tentando esconder a sujeira debaixo do tapete como alguns fazem, ou ficar de verborragia contra aqueles que denunciam as mazelas, ou ser hipócrita, dizendo que não toma partido, se já o fez desde o início. Reconhecemos nossa história e lutemos para fazer um país melhor e não ficar em aporia porque o passado foi assim, e não do jeito que eu queria. 








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