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Leandro Vilar

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Jacob Fugger, o Rico

No século XVI um dos homens mais ricos da Europa, não era um rei e nem nobre, mas um burguês alemão do ramo bancário e mercantil, que se tornou tão rico, que diziam que sua fortuna era superior a de alguns monarcas europeus. E ele a usou para crescer na vida, conquistando autoridade, dinheiro, influência e poder. Chamado por alguns de "o homem mais rico do mundo", ou o "homem mais rico da Europa", ou "o banqueiro dos reis e papas", Fugger ao longo de sua carreira como mercador, empresário e banqueiro contribuiu não apenas nas finanças, mas em assuntos de ordem política e militar. Nesse texto, comentei um pouco a respeito de alguns momentos importantes da sua vida. Além disso, os dados biográficos sobre sua vida pessoal são escassos. Muito que se sabe da sua história tem relação com sua carreira como banqueiro e mercador. 


Retrato de Jacob Fugger II, o Rico. Século XVI. 
Introdução: 

Os Fugger eram uma próspera família de comerciantes de tecidos, que viviam na cidade Augsburgo, na província da Baviera. Um dos estados que formavam na época o Sacro Império Romano-Germânico. No século XV, Augsburgo apresentava-se como um polo econômico promissor, especialmente para negócios de tecidos e roupas, do qual faziam parte os Fugger. Estes compravam a matéria-prima de fazendeiros e artesãos das vizinhanças e os vendiam em feiras em Frankfurt, Colônia e até mesmo os exportavam para as regiões alpinas e Veneza. O negócio de tecidos da família teve início por volta de 1379, quando Hans Fugger, o qual já vivia na cidade desde 1367, decidiu abrir uma loja de tecidos. O negócio deu certo e seus filhos e netos deram continuidade. (STEINMETZ, 2015, p. 12-14).


Jacob Fugger I, o Velho
Jacob Fugger II nasceu em 6 de março de 1459, sendo o décimo filho que o casal Jacob Fugger I, o Velho (1398-1469) e Barbara Bäsinger Fugger (1419-1497) tiveram. Jacob era comerciante de tecidos, seguindo o ofício do pai. Por sua vez, Barbara era filha de Ulrich Bäsinger, um próspero ourives e vendedor de prata. (GRAULAU, 2008, p. 556). O casal Jacob I e Barbara tiveram sete homens e três mulheres. Dos filhos homens, dois morreram ainda jovens, mas os demais chegaram a fase adulta, destacando-se Ulrich, Peter e George nos negócios, e Markus como padre. Quando completou dez anos de idade, Jacob, o Velho faleceu. Os negócios da família passaram a ser administrados por sua esposa. Como Jacob II era o mais novo de sete homens, sua mãe decidiu dar outro rumo a ele. Enquanto seus irmãos cuidavam dos negócios comerciais da família, Barbara queria que o filho caçula seguisse carreira na Igreja. (STEINMETZ, 2015, p. 12, 16).

Apesar de não querer se tornar padre, Jacob II nada pode fazer nada a respeito. Foi enviado para estudar num seminário beneditino, na vila de Herredien, perto de Nuremburgo. Um dos seus irmãos, Markus Fugger era clérigo também, logo, esperava-se que ele seguisse os passos desse irmão, porém, Jacob tinha seus próprios interesses. E sua mãe percebeu isso. Após cerca e dois anos estudando no seminário de Herredien, Barbara Jacob desistiu da ideia da carreira clerical, então enviou o filho para Veneza, onde se encontravam seus irmãos Ulrich (1441-1510) e George (1453-1506), que trabalhavam lá como revenderores de tecidos importados. (STEINMETZ, 2015, p. 17). 

Na época, a cidade de Veneza já possuía uma população acima dos 200 mil habitantes, o que tornava Augsburgo numa cidadezinha. Mas além da grande população para a época, a cidade era polo financeiro e comercial do sul da Europa. Mercadorias vindas da África e Ásia passavam por ali. Vinhos franceses, italianos, portugueses, brocado persa, seda chinesa, marfim de elefantes, joias, ébano, especiarias árabes e indianas, ouro, prata, cobre, ferro, armas, pólvora, etc. Devido a essa profusão de mercadorias, Veneza também era o local que não apenas circulava o dinheiro, mas interesses, luxo, poder e contatos. Os irmãos Fugger, Ulrich e George souberam usar isso bem. Em 1473, os Fugger conseguiram fechar alguns contratos com a poderosa família real dos Habsburgs da Áustria. O êxito nesses acordos, renderam aos Fugger um brasão familiar. 


Brasão de armas dos Fugger.
As minas de prata de Tirol: 

Enquanto seus irmãos mais velhos dirigiam os négocios de família, Jacob estudava finanças, matemática e comércio. Porém, ainda na adolescência começou a se envolver no comércio de tecidos da família. Aprimorando sua experiência nos anos seguintes, já que viveu em Veneza até 1487, antes de retornar para Augsburgo. Na década de 1480 um plano ousado foi posto em prática pelos irmãos Fugger, o investimento no ramo minerador. A Europa daquele tempo estava expandindo-se, era necessário metais para suprir essa demanda. No caso, haviam regiões do continente que possuíam estes metais, embora ainda fossem pouco exploradas. Os Fugger começaram a comprar pequenos lotes de terras. Primeiro nas regiões independentes da Saxônia, Tirol e Boêmia, onde diziam haver minas de prata e cobre. Posteriormente compraram terras nas Montanhas dos Cárpatos, em território eslovaco e polonês. Nessa região encontraram mercúrio e cinabarita (sulfeto de mercúrio), usada para fabricar pigmentos vermelhos. Algo útil na indústrial têxtil para o tingimento. (GRAULAU, 2008, p. 556). 


Sigismundo de Tirol
Mas o grande negócio de mineração para os Fugger estava centrado em Tirol. O senhor daquele Estado, o arquidueque Sigismundo de Tirol (1427-1496) era chamado de Duque das Minas. A região possuía minas de prata, cobre e até mesmo de óleo bruto. Mercadores judeus austríacos e alemães, além de mercadores venezianos já investiam em Tirol há alguns anos. A situação complicou-se quando em 1484, o arquiduque Sigismundo tentou controlar o direito de mineração em suas terras. Isso desagradou principalmente os venezianos por terem muitas propriedades e dinheiro investido ali. Em 1487 houve uma revolta contra o duque, temendo que se torna-se uma guerra civil, Sigismundo solicitou do papa Inocêncio VIII um acordo de paz. Os mercadores venezianos aceitaram em não mais se revoltar e mudar os termos de exploração e tributos exigidos pelo arquiduque, mas sob a compensação de que ele os pagasse uma indenização de 100 mil gulden (bastante dinheiro na época). Sigismundo não tinha esse dinheiro, então teve que recorrer a um empréstimo. 

Naquele ano surgiu uma solução para o arquiduque Sigismundo. Os Fugger que estavam encaminhando no ramo bancário, se ofereceram em emprestar o dinheiro. O empréstimo foi feito em florins, em duas parcelas, totalizando mais de 170 mil florins. O arquiduque teria cinco anos para quitar a dívida. Fora isso, o contrato exigiu calções, como as minas de Schwaz e impostos mais baratos sobre a prata de Tirol. Isso favoreceu os Fugger, pois passaram a comprar prata mais barata para revender. Na ocasião desse acordo, Jacob Fugger II estava presente, inclusive se mudou de Veneza para Tirol, para poder administrar mais de perto os negócios nas minas. Cinco anos se passaram e o arquiduque não quitou o empréstimo, porém, o direito de compra mais barato da prata de Tirol, já havia compensado isso. Além da condição que os Fugger compraram pequenas empresas e minas, expandindo sua influência no Tirol. (GRAULAU, 2008, p. 557).


Imperador Maximiliano I
A fortuna adquirida com a mineração de prata, cobre e mercúrio, aumentaram consideravalmente as posses dos Fugger. Na década de 1490, o imperador Maximiliano I (1459-1519), governante do Sacro Império Romano-Germânico, estava com o intuito de retomar territórios de seu império, no norte da Itália, que haviam sido conquistados pelos franceses. Além disso, corriam boatos que talvez o imperador organizasse uma cruzada contra os Otomanos. De qualquer forma, a cruzada nunca ocorreu, mas o embate para reaver territórios perdidos foi algo que aconteceu. Mas para se fazer guerra é necessário ter dinheiro. O imperador que estava no trono sem ter sido coroado oficialmente, não dispunha de prestígio de parte de seus vassalos, assim, era necessário ter dinheiro para contratar mercenários, armar camponeses e patrocinar seus vassalos, lhes fornecendo recursos. Para isso, o imperador Maximiliamo recorreu ao Banco Fugger. Na época Jacob que vivia no Tirol, mais próximo da corte do imperador, organizou os tramites do empréstimo, sendo emprestado uma quantia de 121.600 florins. O acordo foi fechado em 1496. (GRAULAU, 2008, p. 558).

Nos anos seguintes Jacob Fugger continuou a manter acordos com o imperador, incluindo a condição de se tornar quase que seu banqueiro exclusivo, além de ter ganho direitos e benefícios para exploração de jazidas e minas de prata e cobre em seu império, o que continuou a fazer o negócio minerador crescer. Após a morte de Jacob II, seus sobrinhos deram segmento a administração das minas e do mercado de prata e cobre por vários anos depois. 

O negócio das Índias: 

Após o estabelecimento da Rota das Índias, feito realizado pelo capitão Vasco da Gama e sua tripulação entre 1497-1499. O acesso as especiarias orientais agora poderia ser feito por via marítima, não mais dependendo do monopólio de importação controlado pelos árabes, turcos e venezianos. Embora fosse uma viagem mais longa, demorada e arriscada, os riscos valiam apena. O lucro obtido por Gama ao retornar com apenas um navio abarrotado de especiarias foi astronômico na época. 


“Na primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, os lucros atingiram a 6.000o%! Pouco surpreende que os outros navios tenham empreendido a mesma perigosa e lucrativa viagem. O comércio se intensificou aos saltos. Se Veneza comprava 420 mil libras de pimenta por ano ao sultão do Egito, agora um único navio, em sua viagem de regresso a Portugal, transportava um carregamento de 200 mil libras! Não mais importava que a antiga rota para o Oriente tivesse sido conquistada pelos turcos; não mais importava que os venezianos cobrassem preços exorbitantes; o caminho para o Oriente, via Cabo da Boa Esperança, tornou os mercadores independentes da benevolência com que os turcos os tratavam e rompeu o monopólio veneziano”. (HUBERMAN, 1981, p. 84-85).

“Modificou-se, então, a direção das correntes de comércio. Se anteriormente a posição geográfica de Veneza e das cidades do Sul da Alemanha lhes proporcionava vantagens sobre os demais países situados mais a oeste, agora eram esses países da costa atlântica que contavam com vantagens. Veneza e as cidades que a ela se ligavam comercialmente passam, então, a ficar de fora da principal via de comércio. O que antes constituía estrada principal agora não é senão um atalho. O Atlântico tornou-se a nova rota mais importante, e Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra e França ascenderam à eminência comercial”. (HUBERMAN, 1981, p. 85).

Pela condição de que no começo do século XVI, Portugal e Espanha eram os pioneiros nas navegações pelo Atlântico, fosse para as Américas ou para a Ásia, Jacob Fugger decidiu instalar contatos e negócios nesses dois reinos.  No caso português, o então rei D. Manuel I (1469-1521), foi procurado por mercadores, empresários e investidores alemães, principalmente de Nuremburgo e Augsburgo, o que incluiu os Fugger. A petições iniciadas por volta de 1502, clamavam do monarca direito de investimento e patrocínio nas expedições portuguesas. A ideia era fornecer recursos, navios e se fosse o caso, tripulantes, para armar navios e os enviá-los às Índias. O rei Manuel I decidiu acatar a proposta, desde que parte dos lucros fosse revertida a ele. Isso gerou o Privilégio dos Alemães (1503-1511). 

Retrato de D. Manuel I, rei de Portugal entre 1495 e 1521. 
“D. Manuel I era-lhes muito favorável, sabendo que estes mercadores-banqueiros alemães poderiam desempenhar um papel fundamental como investidores e fornecedores de metais, sobretudo em relação à prata e ao cobre. Estes metais eram imprescindíveis para efetuar as trocas comerciais em África e na Índia. O denominado Privilégio dos Alemães, que contemplava os privilégios que lhes foram concedidos pelo rei de Portugal entre 1503 e 1511, evidencia o estatuto excecional que as empresas alemãs possuíam em terras portuguesas. Tornaram-se, temporariamente, a par dos mercadores-banqueiros italianos, nos parceiros comerciais mais relevantes da monarquia portuguesa. O Privilégio dos Alemães superou os direitos e liberdades outorgados a comerciantes de outras nações estabelecidas em Portugal e foi, como salientaram Virgínia Rau e Maria Valentina Cotta do Amaral, o mais cobiçado por mercadores estrangeiros no século XVI. Virgínia Rau sublinha que, através dos privilégios concedidos, a Coroa portuguesa visava atrair os mais poderosos banqueiros e mercadores europeus de modo a que se integrassem no projeto expansionista e, ainda, garantir a presença de várias nações mercantis concorrentes na praça comercial de Lisboa”. (POHLE, 2015, p. 22).

Porém, Jacob Fugger II não chegou de imediato a Portugal. Os alemães já faziam negócios com os portugueses há mais de um século. Antes de Fugger chegar, outros mercadores e banqueiros já estavam por lá como Lucas Rem, Sebald Kneussel, representantes das famílias Welser, Imhoff, entre outros. A casa comercial dos Welser em fevereiro de 1503 havia enviado um representante, Simon Seitz, para negociar com o rei D. Manuel I. As negociações foram produtivas, e o rei criou o privilégios para os alemães. No mesmo ano, os Fugger sabendo disso, decidiram correr atrás, enviando representantes e conquistando o mesmo direito, o qual predizia que: 

“Tinham, portanto, o direito de fazer negócios em Portugal e no ultramar português. Os privilegiados encontravam-se isentos de pagar tributos e impostos pela prata que trariam. Em relação a outros produtos importados, como cobre, latão, vermelhão, mercúrio, mastros, pez, alcatrão e munições, pagavam apenas a dízima. Além disso, foram dispensados de «colacoenz ou pagamentos de peitas ou pedidos, que pellos Reynos ou Prouincias se costumão muitas pedir e por». Tinham o direito de assentar casa dentro e fora dos muros de Lisboa para armazenar mercadorias. Estas deveriam ser preferencialmente despachadas nas alfândegas e na Casa da Moeda pelos funcionários reais. Aqueles mercadores que investissem na construção naval em Portugal deviam receber privilégios alargados. A carta de privilégio de 1503 teve um prazo de 15 anos e valia em princípio para todas as empresas e mercadores alemães que estivessem dispostos a investir em Portugal um mínimo de 10.000 cruzados. No que respeita à compra dos produtos ultramarinos por parte dos alemães, os Welser deveriam pagar inicialmente um tributo não superior a 5%, enquanto os restantes mercadores tinham de pagar 10% de sisa”. (POHLE, 2015, p. 23). 

Os Welser e os Fugger conquistaram esse direito em 1503, nos anos seguintes outras famílias alemães como Höchestetter e  os Hirschvogel aderiram ao privilégio. E além dos alemães, italianos também se interessaram pelos negócios dos portugueses. No caso, vale sublinhar que o Privilégio dos Alemães garantia não apenas a exploração de produtos e negócios na Ásia, mas também na África, que já contava com várias feitorias e algumas colônias portuguesas. No tocante a América Portuguesa, representada pelo Brasil, a exploração de pau-brasil ainda era exclusiva dos portugueses, embora os franceses agissem ilegalmente na região, contrabandeando a preciosa madeira. De qualquer forma, o acordo com os banqueiros e mercadores alemães foi bom para o desenvolvimento econômico de Portugal, mas atiçou a concorrência e conflito entre os alemães que tentavam desbancar seus concorrentes e conquistar monopólio. 


“Na altura em que Sebald Kneussel se encontrava em Lisboa, a colónia dos mercadores alemães passou por uma fase muito complicada, repleta de conflitos internos66. Existiram várias razões por detrás das discordâncias, que inquietaram a vida dentro da nação mercantil. Segundo Kneussel, as inimizades tinham começado em 1511, quando chegou à cidade do Tejo Hans von Schüren, o designado feitor da célebre casa comercial dos Fugger, para substituir Marx Zimmermann. Este último recusou-se a entregar a feitoria a Hans von Schüren e foi apoiado na sua disputa privada por Calixtus Schüler e outros colegas estabelecidos há mais anos na capital portuguesa. Jacob Fugger reagiu e colocou, na pessoa de Jörg Herwart, um segundo responsável no topo da feitoria lisboeta até à solução dos problemas com Marx Zimmermann”. (POHLE, 2015, p. 31). 

Mesmo com o término do Privilégio aos Alemães em 1511, os Fugger mantiveram negócios em Portugal nos anos seguintes, inclusive durante a vigência do privilégio, a tentativa de controlar a colônia alemã em Lisboa, gerou conflito com as outras casas mercantis. Porém, se comparado a influência ocorrida na Espanha, os Fugger tiveram um papel mais determinante no reino espanhol, do que no português. 

O preço de um rei: 

Assim como ocorreu em Portugal, com a exploração das rotas comerciais marítimas, os espanhóis também fizeram o mesmo, e os Fugger chegaram a investir dinheiro nesse comércio ultramarítimo. Porém, o grande destaque da influência dessa família na Espanha, girou em torno na crise sucessória do trono do Sacro Império Romano-Germânico. O imperador Maximiliano I faleceu em 1519. Seu filho Filipe, o Belo (1478-1506) havia morrido em 1506, porém, ele em seu casamento com Joana I de Castilla, legou descendência de 4 filhas e 2 filhos. Sendo o filho varão Carlos (1500-1558), o herdeiro legítimo. No entanto, um outro pretendente ao trono alemão surgiu, tratava-se do rei da França, Francisco I (1494-1547). Entronado rei da França em 1515, ainda recente no trono, ambicionava conquistar para si o Sacro Império. 

Embora Carlos fosse o herdeiro legítimo, ele teria que disputar com Francisco I o direito ao trono. Para isso era necessário muito dinheiro para poder assegurar a posse de um império. O dinheiro valeria a afirmação de sua autoridade frente os príncipes alemães, frente os credores, o papa Leão X, e asseguraria poder financiar uma guerra pelo trono, caso fosse necessário. Como o jovem rei Carlos I da Espanha necessitava de dinheiro, ele decidiu procurar um dos banqueiros de seu avô, Jacob Fugger II. 

Em 1520 o monarca espanhol viajou para o Sacro Império a fim de tratar da sua sucessão. Como o Tirol, região que era o polo das minas de prata da Europa, e estava praticamente sob monopólio dos Fugger, era território de Maximiliano I, agora passaria a ser de seu neto. Além disso, os Fugger já mantinham negócios com Maximiliano há vários anos, e tinham negócios em Espanha também. Jacob viu que o mais viável era apoiar Carlos I e não Francisco I. Naquele ano de 1520 Jacob Fugger emprestou ao jovem rei uma volumosa quantia de 543 mil florins. O restante necessário foi conseguido pelo rei a partir de outras fontes, totalizando 850 mil florins. Todavia, mais da metade desse valor foi emprestado apenas pelo Banco Fugger. (HUBERMAN, 1981, p. 87-88). 


O rei Carlos I da Espanha, e Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico. 
“Jacob Fugger, o homem por trás dos bastidores, pelo tom de uma carta que escreveu a Carlos quando este atrasou o pagamento da dívida. E apenas devido ao tremendo poder que lhe provinha de sua fortuna, teve Fugger a audácia de escrever tal carta: ... Além disso, adiantamos aos emissários de Vossa Majestade uma grande quantia, parte da qual nós mesmos tivemos que levantar, através de amigos. É bem sabido que Vossa Majestade Imperial não teria obtido a coroa do Império Romano sem a minha ajuda, e posso prová-lo com os documentos que me foram entregues pelas próprias mãos dos enviados de Vossa Majestade. Neste negócio, não dei importância à questão de meus próprios lucros. [Não acredita nisso!] Porque, tivesse eu deixado a Casa da Áustria e me decidido em favor da França, muito mais teria obtido em dinheiro e propriedades, tal como, então, me ofereceram. Quão graves desvantagens teriam, nesse caso, resultado para Vossa Majestade e a Casa da Áustria, bem o sabe Vossa Real Inteligência”. (HUBERMAN, 1981, p. 88). 


“Pouca coisa de importância se passou no século XVI, sem que a sombra dos Fuggers se projetasse, de uma forma ou de outra. Iniciaram seus negócios no século XV com um estabelecimento comercial de lã e especiarias. Mas foi como banqueiros que fizeram fortuna. Emprestavam capital a outros mercadores, a reis e príncipes e, em troca, recebiam proventos de minas, de especulações comerciais, de terras da coroa, de praticamente todo tipo de empreendimento que desse lucro. Quando os empréstimos não eram repostos tornavam-se donos de propriedades, minas, terras - o que tivesse sido dado como garantia. Até o papa devia dinheiro aos Fuggers. Estes tinham ramificações e agentes em toda parte. O balancete dos Fuggers, em 1546, mostra débitos do imperador alemão, da cidade de Antuérpia, dos reis da Inglaterra e Portugal, e da Rainha da Holanda. Seu capital, naquele ano, se elevou a 5 milhões de florins. A História que datasse esse período, não como o reinado do rei Fulano de Tal, mas como a Idade dos Fuggers, estaria muito mais próxima da verdade”. (HUBERMAN, 1981, p. 88).

O empréstimo dado pelo Banco Fugger ao rei Carlos I de Espanha deu certo. Em 26 de outubro de 1520, o papa Leão X reconheceu o rei espanhol como novo monarca dos alemães, coroando como Carlos V do Sacro Império.  O novo monarca permaneceu no Sacro Império até 1522, quando retornou a Espanha, deixando seu irmão Fernando como co-imperador. Anos depois Fernando assumiria exclusivamente o governo do Sacro Império. Todavia, a vitória de Carlos V lhe rendeu uma volumosa dívida com Jacob Fugger, a qual seria incessantemente cobrada nos anos seguintes. A carta citada acima revela a cobra do banqueiro alemão. Mas apesar da sua fala em dizer que teria ganho mais em supostamente ter apoiado o rei francês, na prática, os rendimentos de Fugger cresceram muito devido aos cauções dados pelo rei Carlos I (V).

O fim de um banqueiro: 

Jacob Fugger II dedicou sua vida aos negócios. Após a morte de seus irmãos Ulrich e Georg em 1510, ele comandou os negócios da família sozinho, embora contasse com a ajuda de primos e sobrinhos, para questões burocráticas, diplomáticas, etc. mas a frente das decisões era dele. No caso, na década de 1520, devido a prosperidade alcançada pelo Banco Fugger e outros negócios realizado pela família, ele já era reconhecido como Jacob, o Rico. 

Jacob casou-se com Sibylla Artzt (1480-1546), filha de William Artzt e Sibylla Artzt Sulzer. Os Artzt eram bastantes ricos, apesar que nem de longe chegavam perto da fortuna de Fugger. Ainda assim, eles possuíam ligações na política e no exército, algo que interessava Jacob, pela condição de eles pertencerem a algumas das tradicionais famílias burguesas de Augsburgo. O interesse se devia ao fato que os Fugger embora ricos, não eram uma família tradicional. Eles poderiam ter enriquecido com o comércio de tecidos e de metais, mas não possuíam terras, imóveis, títulos, ou terem exercido cargos públicos ou reais. Por outro lado, a riqueza e contatos de Fugger interessavam bastante os Artzt, logo, era um casamento economicamente bem vantajoso. O casamento ocorreu em 9 de janeiro 1498, na época Fugger tinha 39 anos e Artzt estava com seus 18 anos. (STEINMETZ, 2015, p. 46-47). 


Retrato de Jacob Fugger II e sua esposa Sibylla Fugger. 
Embora tenham passado 27 anos casados, o matrimônio não gerou herdeiros. Os motivos não são claros. Além disso, a vida do casal é pouco conhecida. Sabe-se que Fugger comprou joias para a esposa, e até construiu um palacete para morarem. Mas embora ela fosse uma das suas herdeiras, sete meses após o falecimento dele, em 30 de dezembro de 1525, Sibylla casou-se com Konrad Rehllinger (1470-1556), rico mercador que era amigo de Fugger, que na época estava viúvo. Ao se casar com Rehllinger ela perdeu o direito a herança. Logo, o restante da fortuna foi em boa parte transmitida para Anton Fugger (1493-1560), sobrinho predileto de Jacob, sendo Anton o terceiro filho de Georg. Jacob Fugger II faleceu aos 66 anos de causas imprecisas, tendo deixado talvez a maior fortuna da Europa em seu tempo. (STEINMETZ, 2015, p. 48).

Anton Fugger casou-se em 1527 com Anna Augsburger, com quem teve dez filhos, quatro homens e seis mulheres. Ele ao lado dos irmãos, sobrinhos e filhos deram continuidade ao Banco Fugger e seus negócios. Anton como herdou a maior parte dos negócios e investimentos do tio, por vários anos comandou o banco, os negócios em Portugal, Espanha e no Tirol, além de prestar dinheiro para o rei Carlos V, o irmão dele Fernando I, e outros nobres. Anton Fugger foi cognomado o "Príncipe dos Mercadores"


Anton Fugger, sobrinho herdeiro de Jacob Fugger II. 
NOTA: Jacob Fugger II patrocinou a reforma da Igreja do Salvador, em Asunción de Calatrava, Espanha. Como ele manteve negócios naquele país e até ajudou o rei Carlos I a ser coroado imperador do Sacro Império, decidiu reformar essa igreja, e ainda deixar uma dedicatória em agradecimento a Deus, por ele, seus irmãos e sobrinhos. As obras somente foram concluídas após sua morte. 
NOTA 2: Embora tenha ganho o brasão familiar em 1473, Jacob Fugger e os irmãos nunca receberam títulos de nobreza. 
NOTA 3: Durante a gestão de Anton e seus irmãos, sobrinhos e filhos, os negócios dos Fugger se expandiram para as Américas e a Ásia. 
NOTA 4: Após a morte de Anton Fugger em 1560, os negócios da família começaram a desandar, em parte atrapalhados pela má gestão, rixas familiares, devedores que não pagavam, guerras, revoltas, etc. No século XVII os Fugger quase faliram algumas vezes. Após a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), os negócios da família com tecidos, especiarias, exploração colonial e o banco quase faliram de vez. Muita coisa foi vendida para quitar dívidas. Mas os Fugger ainda se mantiveram graças as suas minas, e por terem ingressado na nobreza e na política. A família Fugger ainda hoje existe. 
NOTA 5: Os Fugger ainda possuem um banco atualmente, apesar de ser um banco pequeno, chamado Fürst Fugger Privatbank, fundado em 1954, em Augsburgo. 

Referências bibliográficas: 

GRAULAU, Jeannette. Finance, Industry and Globalisation in the Early Modern Period: the Example of the Metallic Business of the House of Fugger. RSPI, n. 300, v. 4, 2008, p. 554-598. 

HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. 16a ed. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981. 
POHLE, Jürgen. Rivalidade e cooperação: algumas notas sobre as casas comerciais alemãs em Lisboa no início de Quinhentos. Cadernos do Arquivos Municipal, 2 série, n. 3, jan/jun, 2015, p. 19-38. 
STEINMETZ, Greg. The richest who ever lived: the life and times of Jacob Fugger. New York, Simon & Schuster, 2015. 


sexta-feira, 6 de julho de 2018

Almirante Tamandaré, o patrono da Marinha brasileira

Tão importante quanto o general Duque de Caxias, patrono do Exército brasileiro, encontra-se na história do Brasil as ações do Almirante Tamandaré, militar e nobre que viveu na época do império e participou de guerras, revoltas e conflitos decisivos para a história daquele período. O Dia do Marinheiro é celebrado no Brasil na data de 13 de dezembro, aniversário de nascimento do almirante, o qual no fim da vida ganhou entre algumas alcunhas a de Velho marinheiro, referência a sua vida dedicada a marinha. No presente texto decidi contar um pouco da história desse importante homem que em geral é esquecido.

Joaquim Marques Lisboa, o Almirante Tamandaré, em 1873. 
Introdução: 

Joaquim Marques Lisboa nasceu em 13 de dezembro de 1807, na Vila de Rio Grande, na Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul, era o sexto filho do casal de portugueses Francisco Marques Lisboa e Eufrásia Joaquina de Azevedo e Lima, imigrados para o Brasil em 1800. Em Rio Grande, Francisco Marques passou a trabalhar no comércio marítimo que crescia na localidade. Com os anos Francisco passou a exercer atividades navais, tornou-se proprietário de embarcações e ingressou na marinha, chegando ao posto de capitão, e recebendo títulos honoríficos de Segundo Tenente Honorário da Marinha e Comendador da Marinha. A dedicação de Francisco Marques a marinha brasileira influenciou o filho caçula a seguir seus passos. (ALVES, 2007, p. 4). 

Em 1813 com seis anos de idade, Joaquim viajou com seu pai de navio para a capital imperial, o Rio de Janeiro. Ali deu início aos seus estudos laicos e religiosos, pois tornou-se católico. Retornou para casa em 1819, e depois voltou para concluir os estudos escolares em 1820. Devido a convivência com os ofícios náuticos, mostrou logo cedo interesse em seguir a carreira do pai. Todavia, Francisco Marques era receoso de que o filho caçula torna-se militar, pois dois de seus irmãos mais velhos, foram militares e morreram em combate. Apesar desse receio, o senhor Lisboa aceitou a escolha do filho. Em 1822, ano da Independência do Brasil, Joaquim Marques se voluntariou para lutar pelo nascente império. Na ocasião, se voluntariava também Francisco Manuel Barroso (1804-1882), seu amigo de longa data. (MAIA, 1936, p. 129-130).

Voluntário na Guerra de Independência (1822-1825)

A proclamação da Independência do Brasil a 7 de setembro de 1822, pelo príncipe-regente D. Pedro I não foi aceita de forma unânime. Primeiro, isso pegou de surpresa seu pai, o rei de Portugal, D. João VI e sua corte; segundo, a proclamação da independência foi repentina, sem consulta popular do reino. Assim, várias regiões só tomaram conhecimento semanas depois do ocorrido, e a população devota a monarquia lusitana não viu com bons olhos o ato decidido pelo príncipe e seus ministros. Isso gerou revoltas. Assim, o futuro imperador D. Pedro I convocou as forças armadas para sufocar tais revoltas e fazer valer sua decisão. (CALMON, 2002, p. 188-189). 

Como o Brasil não dispunha de uma marinha propriamente naquele momento, a opção foi pedir ajuda. O ministro José Bonifácio, um dos importantes nomes por trás do processo de independência, solicitou apoio urgente de Thomas Cochrane (1775-1860), Conde de Dundonald, experiente militar da marinha inglesa. Cochrane aceitou o pedido de ajuda ainda em 1822. Antes de chegar ao Brasil, a bordo do navio Pedro I, o primeiro-almirante ordenou que soldados e voluntários fossem recrutados para formar uma esquadra. No dia 21 de novembro de 1822, o jovem Joaquim Marques Lisboa com seus 15 anos de idade, se voluntariou para servir na esquadra. O almirante Cochrane chegou ao Brasil em 1823, em março daquele ano. Os primeiros navios partiram do Rio de Janeiro, rumo as províncias da Bahia e Maranhão. Na ocasião, abordo do navio Niterói, Joaquim Marques partiu para lutar na Bahia. (ALVES, 2007, p. 5).

A Niterói (Nictheroy na grafia original) era uma veloz fragata brasileira, capitaneada por João Taylor (1796-1855), marinheiro inglês designado pelo próprio Cochrane para comandar a Nitéroi. Sendo um de seus oficiais, o jovem Joaquim Marques. Neste caso, a fragata atuou na perseguição e combate na costa e no alto mar, contra os navios portugueses que estavam dando suporte aos rebeldes da Bahia e Pernambuco. Inclusive uma das perseguições os levaram rumo a Portugal. (MAIA, 1936, p. 55-56). Além de servir na Nitéroi, durante o mês de maio, Joaquim esteve a serviço do próprio almirante Cochrane, enquanto passou algum tempo no navio Pedro I. (COSTA, 1944, p. 16). 



Thomas Cochrane, Conde de Dundonald, Primeiro-Almirante do Brasil. 
Retornou ainda em 1823 ao Rio de Janeiro, sendo dispensado da marinha. No mesmo mês ingressou na Academia Imperial, estava decidido a se tornar oficial da Marinha. Entretanto, as revoltas continuavam pelo país, e isso levou Joaquim a tentar retomar seu posto como voluntário, mas o então Ministro da Marinha, Francisco Vilela Barbosa, Marquês de Paranaguá, não queria convocar voluntários, preferia manter o efetivo oficial. Porém, o almirante Cochrane alegava que todo o apoio era necessário, pois as revoltas ainda se mantinham. Todavia, Joaquim Marques devido aos seus bons serviços prestados na fragata Nitéroi, conseguiu uma carta de recomendação. Em 27 de julho de 1824 ele recebeu autorização para retomar a marinha. Embarcou no navio Pedro I e zarpou para Alagoas. Naquele ano eclodira a Confederação do Equador (1824). (ALVES, 2007, p. 6). 

Em 25 de março de 1824 foi aprovada a Constituição Imperial que outorgava poderes quase absolutistas ao imperador, o chamado Poder Moderador. Embora o absolutismo tivesse decaído em grande parte da Europa, em outros lugares do mundo como Rússia, China, Coreia, e outras nações asiáticas e africanas ideias similares se mantinham. Porém, adeptos do republicanismo encararam essa constituição como algo ofensivo e descabido. A América do Sul vivenciava um cenário de emancipação de suas colônias, as quais lutavam para se tornarem repúblicas, mas o Brasil seguia o caminho oposto, tornando-se uma monarquia. Assim, eclodiu em Pernambuco uma revolta com preceitos revolucionários, a Confederação do Equador. (PEIXOTO, 1944, p. 208). 

O nome Equador era referência a Linha do Equador, devido a proximidade de Pernambuco com essa faixa geográfica. Após a aprovação da constituição em março, alguns jornais pernambucanos como o Tamoio, Sentinela da Liberdade e o Tifís Pernambucano começaram a publicar matérias críticas a aprovação da constituição e a retomar ideias republicanas, lembrando que anos antes em 1817, houve uma tentativa de proclamar Pernambuco em uma república independente. Assim, idealistas daquele tempo como Manuel de Carvalho e Frei Caneca estavam de volta para comandar uma nova tentativa de revolução que teve início a 2 de julho. (FAUSTO, 1995, p. 153). 


Bandeira da Confederação do Equador. 
Tomando conhecimento da formação dessa confederação que uniu Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Alagoas, o imperador D. Pedro I enviou novamente o exército e a marinha para conter essa tentativa revolucionária separatista. Na ocasião, o jovem Joaquim Marques partiu em missão. A Confederação do Equador conseguiu ser derrotada ainda em 1824. Ao retornar ao Rio de Janeiro, Joaquim Marques ainda não era oficial de marinha, porém, seu irmão José Marques Lisboa decidiu ajudá-lo, enviando cartas ao almirante Cocharen e o capitão Taylor, solicitando recomendações dos mesmos. Para felicidade de Joaquim Marques, ambos os militares responderam as cartas, elogiando o serviço do rapaz. Cochrane ordenou que o adolescente fosse designado oficial da marinha imediatamente. No dia 29 de julho é autorizado a embarcar no navio Pedro I, já como oficial. (COSTA, 1944, p. 19-20).

Maia (1936, p. 95-97) conta que o almirante Cochrane em encontro com o imperador D. Pedro I, no Rio de Janeiro, no ano de 1824, teria dito que sua decisão de nomear imediatamente como oficial, o jovem Joaquim Marques Lisboa, na época por completar seus 18 anos de idade, devia-se ao testemunho do bom serviço prestado pelo rapaz, e que ele era promissor na Marinha. Ele seria o "Nelson brasileiro". Uma alusão ao Visconde Horatio Nelson (1758-1805), notório comandante da marinha inglesa, entre seus feitos esteve de derrotar a frota de Napoleão Bonaparte

A Guerra da Cisplantina (1825-1828)

Já efetivado na Marinha, Joaquim Marques Lisboa no final do ano de 1825, foi designado a servir na fragata Paula, a qual tinha como missão, participar da Guerra da Cisplatina. Quando Joaquim Marques partiu para à Cisplatina, atual Uruguai, contava na época com seus 18 anos, e aguardando ser efetivado como segundo-tenente, algo que ocorreu em janeiro de 1826. (COSTA, 1944, p. 24). Outro importante contemporâneo seu, Luís Alves da Lima e Silva (futuro Duque de Caxias), contava com 22 anos e já era capitão. Tendo seguido também para a Cisplatina. O amigo de Lisboa, Francisco Barroso também estava presente naquela guerra. O motivo central para o início dessa guerra deveu-se a condição de que a Província da Cisplatina sob controle brasileiro, iniciou uma revolta pela sua emancipação. Apoiada pelos argentinos e os paraguaios, que junto formavam as Províncias Unidas do Rio da Prata, tinham o intuito de ajudar a libertar a Cisplatina do controle monarquico brasileiro, e os três territórios formariam uma grande república. 


“Marques Lisboa participava assim de seu primeiro conflito na região platina, lugar em que ele voltaria às lides bélicas em várias outras ocasiões de sua vida. Na Leal Paulista, ele participou da Batalha Naval de Corrales, em maio de 1826, vindo depois a embarcar na Niterói, na qual atuou no bloqueio aos portos de Buenos Aires e Montevidéu, e pouco depois, em julho de 1826, foi nomeado comandante da escuna Constança. Durante a Guerra da Cisplatina, o 2º Tenente participaria de expedições à Patagônia, no encalço de corsários que atacavam embarcações brasileiras. No comando da Constança, atuou no salvamento de 280 companheiros da corveta Duquesa de Goiás, que encalhara e se partira ao meio. A expedição à Patagônia acabaria por não ter êxito, com a perda de navios e vidas, além do que muitos brasileiros foram feitos prisioneiros, dentre eles o jovem militar nascido no Rio Grande. O 2° Tenente Lisboa participaria de um grupo de resistência a seus carcereiros, o qual conseguiu a recuperação da liberdade e do brigue Anna, depois de meses de prisão, voltou a Montevidéu em agosto de 1827, onde embarcaria na corveta Maceió e partiria para nova expedição à Patagônia. Em abril de 1828, Marques Lisboa assumia o comando da escuna Bela Maria, na qual atuaria no combate e aprisionamento do Ocho de Febrero. Quase três meses depois, em julho de 1828, como a Bela Maria parou para reparos, Lisboa assumiu o comando da escuna Rio da Prata, a qual compunha a divisão naval que visava a liquidar os pontos controvertidos da convenção de paz. Em outubro do mesmo ano regressou a Montevidéu, onde encontrou sua promoção a 1º Tenente (estabelecida por Decreto de 12 de outubro de 1827), e embarcou na fragata Príncipe Imperial, em novembro de 1828”. (ALVES, 2007, p. 9-10). 

Os três anos de conflito não foram bons para o Brasil. O imperador D. Pedro I decidiu aceitar uma trégua e posteriormente cedeu o direito de domínio sobre a Cisplatina, vindo essa a se tornar o Uruguai. Após três anos de guerra o saldo de perdas de homens, gastos e a insatisfação popular eram grandes. Isso abalou o governo do imperador brasileiro. 


“A Guerra da Cisplatina constituiu um momento de inflexão para o I Reinado, agravando uma crise que resultaria na abdicação de D. Pedro I. Era o primeiro conflito internacional no qual participava o recém-criado Estado Nacional Brasileiro, mas advinha um processo histórico bem mais antigo, ainda da época colonial, em que Portugal e Espanha digladiaram-se pelas terras no sul da América do Sul”. (ALVES, 2007, p. 9).

A situação para D. Pedro I foi se agravando, levando o imperador perder interesse pelo seu país e voltar os olhos para o outro lado do Altântico. Assim, em 1831, ele abdicou do trono brasileiro, retornando para Portugal, a fim de se tornar rei daquele país. Luís Alves da Lima e Silva naquele momento, testemunhou o processo de abdicação, estando ele na patente de major. Quanto a Joaquim Marques Lisboa, esse permaneceu no Uruguai até abril de 1831, atuando como primeiro-tenente e comandante do navio Rio da Prata. Sua participação na Guerra da Cisplatina foi um grande aprendizado, pois naquele período, ainda com menos de 20 anos de idade, mas já na patente de segundo-tenente, teve que tomar decisões difíceis, foi capturado, conseguiu libertar-se, recuperou e perdeu embarcações, além de ter comandado navios. A experiência naquela guerra havia preparado Joaquim Marques para os conflitos que estavam por vir, dessa vez, em território brasileiro. 

A crise regencial (1831-1840)

Ao retornar ao Rio de Janeiro em 1831, o tenente Joaquim Marques chegou em momento contubardo para a capital. D. Pedro I abdicou em 7 de abril, pressionado por seus ministros e chefes militares, desgostosos com sua falta de tato e irresponsabilidade com o país. Para evitar uma possível abdicação forçada que viesse a se tornar um escandâ-lo público, Pedro I aceitou abdicar, mas passando a sucessão ao seu filho Pedro II, na época com seus cinco anos de idade. Porém, a abdicação do imperador bem vista por alguns, foi mal vista por outros, e abriu espaço para novas revoltas de ordem civil e militar. O major Luís Alves cuidou de algumas dessas revoltas na capital imperial, e como Joaquim Marques estava de retorno ao país, foi convidado para tratar dessas revoltas também. 

"O período regencial foi um dos mais agitados da história política do país e também um dos mais importantes. Naqueles anos estava em jogo a unidade territorial do Brasil, e o centro de debate político foi dominado pelos temas da centralização ou descentralização do poder, do grau de autonomia das províncias e da organização das Forças Armadas". (FAUSTO, 1995, p. 161).

“Mas, nas províncias, a anarquia caminhava: na Bahia, uma sedição militar; em Pernambuco soldados rebeldes, e, logo depois, outra, que dura quatro anos; no Pará os rebeldes depõem o presidente antigo, matam o novo presidente nomeado e o novo comandante das armas, só subjugados depois de tropelias, em 37; é a Cabanagem no Maranhão, tropa e povo são reacionários, querem o poder absoluto, e são vencidos; no Ceará apareceu um partido “restaurador”, que o General Labatut reprimiu, sendo executado, em 34, o chefe, o coronel Joaquim Pinto Madeira; em Minas, em 33, sedição militar, sem maior importância; no Amazonas outro levante de soldados em 32, 33, com morticínio e crimes; em Mato-Grosso revolta de alguns meses. Foi um andaço: contágio vindo do Rio”. (PEIXOTO, 1944, p. 215).


Joaquim Marques Lisboa. Desenho em data desconhecida. 
O tenete Joaquim Marques Lisboa foi designado a prosseguir em 1831 para Pernambuco, a fim de conter pequenas revoltas. Permaneceu atuando entre Pernambuco e Ceará até 1833. O tenente Lisboa participou diretamente dos conflitos envolvidos contra a Abrilada (1832), uma revolta iniciada por comerciantes, a qual contou com a participação de soldados. Embora tenha começado em abril de 1832, a revolta contagiou outros movimentos locais que levaram ao surgimento da Cabanada (1832-1835). No caso, o tenente Lisboa conseguiu conter a Abrilada, mas devido a ter ficado doente, teve que se retirar para tratamento em Salvador, na Bahia. Posteriormente já recuperado, se desentendeu com seus superiores quanto a questões burocráticas, tendo pedido exoneração do comando de duas escunas e quase sofrido um processo interno por desacato de ordem. Porém, retornou a ativa em 1835, a bordo da corveta Príncipe Imperial e depois do Cacique. Ainda no ano de 1835, foi designado ir para o Pará, a fim de combater os insurretos da Cabanagem (1835-1840). (ALVES, 2007, p. 11). 

No Pará, o tenente Lisboa reencontrou seu amigo o tenente Barroso, lá cada um comandou seu próprio navio. Lisboa ficou ao encargo do Cacique e Barroso do BrazileiroA situação de Belém do Pará era problemática na ocasião. Os cabanos, como eram chamados os moradores que viviam a beira de rios, em cabanas, se uniram a escravos negros rebeldes, alguns índigenas e juntos invadiram o palácio do governador do Pará, assassinando-o. Na ocasião, o comandante das armas também foi morto, e os cabanos tiveram acesso ao paiol de armas e munição. Porém, desentendimentos internos levaram a uma cisão do grupo, apesar de não ter contribuído para seu fim imediato. Quando o tenente Lisboa chegou semanas depois, deparou-se com a cidade de Belém tomada pelos cabanos. Joaquim Marques se uniu ao comando do brigadeiro Francisco José de Sousa Soares de Andrea, o qual ordenou bloqueio naval de Belém, o que pressionou os cabanos perante a fome e um surto de varíola, começaram a abandonar seus postos. Apesar da fuga destes, os cabanos ainda resistiram no interior da província até 1840. (COSTA, 1944, p. 36). 

O brigadeiro Francisco José foi nomeado novo governador da província, e Joaquim Marques recebeu a patente de capitão-tenente em 22 de outubro de 1836. Adoeceu novamente em 1837, retornando ao Rio de Janeiro. Devido a eclosão da Sabinada (1837-1838) na Bahia, foi convocado para ali servir. Tendo partido em fevereiro de 1838. A Sabinada foi a tentativa de se implantar uma pequena república em Salvador e arredores, embora contasse com outras pautas em jogo. A revolta durou alguns meses. Concluído seu serviço na Bahia, permaneceu na região até maio, quando recebeu aviso convocando-o para ir lutar na Guerra dos Farrapos (1835-1845), que se desenrolava nas províncias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. (COSTA, 1944, p. 38). 

A Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha foi outra iniciativa emancipatória e republicana, sendo que obteve êxito, especialmente no Rio Grande do Sul, onde entre 1835 e 1845 foi instituída a República Rio-Grandense ou República Piratini. Por sua vez, uma tentativa similar foi promovida na província de Santa Catarina, no ano de 1839, no que resultou na República Juliana, mas essa teve duração curta, sendo desbaratada ainda no mesmo ano. 


Proclamação da República Piratini. Antônio Parreira, 1915. 
Embora tenha recebido a convocação, a ordem efetiva tardou a ser decretada. O capitão Lisboa permaneceu alguns meses no Rio de Janeiro, aguardando as ordens específicas. Na ocasião realizou seu casamento com sua noiva, Maria Eufrásia Lisboa (1817-1869), vindo a se casar em 19 de fevereiro de 1839. Na época, Joaquim contava com seus 32 anos, sendo que sua esposa era dez ano mais nova. Da união matrimonial o casal teve seis filhos: Joaquim, Maria Izabel, Maria Eufrásia, Fernando de Borja, Fernando, e uma outra criança que faleceu prematuramente. (ALVES, 2007, p. 12).

Em março de 1839 foi designado comandante do brigue 29 de Agosto, cuja missão era patrulhar as águas do Uruguai, a fim de interceptar apoio naval para os farroupilhos. Permaneceu naquela missão até agosto, quando foi convocado de volta a capital imperial, pois necessitava-se de um capitão experiente para enfrentar uma revolta no Maranhão, tratava-se da Balaiada (1838-1841), revolta iniciada por Manoel Francisco dos Anjos Ferreira, conhecido pelo apelido de o Balaio, devido a sua condição de confeccionar cestos de palha, chamados de balaio. Indignado com a opressão do governo e dos fazendeiros, Balaio reuniu homens pobres e escravos para se sublevar, e a revolta foi ganhando proporções, escapando do controle das autoridades locais. (FAUSTO, 1995, p. 167).

O capitão Lisboa no comando da brigue 3 de Maio, seguiu ao Maranhão, onde residiu em serviço por dois anos, até que a província fosse definitivamente pacificada, algo que somente ocorreu nos primeiros meses do ano de 1841. O bom serviço prestado por Joaquim Marques lhe rendeu a promoção a patente de capitão de fragata em 1840, e a condecoração de Oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro, em 18 de julho de 1841. (ALVES, 2007, p. 12). Por sua vez, o coronel Luís Alves da Lima e Silva também participou da repressão aos balaios, obtendo mais fama do que outros militares. Seu bom desempenho e comando lhe renderam o título de Barão de Caxias. (AMORA, 1968, p. 14). 

Mares calmos (1840-1849)

Por quase uma década o capitão de fragata Joaquim Marques Lisboa praticamente não esteve envolvido mais em conflitos no Brasil ou no exterior. Ainda entre 1840 e 1842, comandou os navios 2 de Julho e Patagônia, na região do Rio do Prata, onde passou a chefiar a Força Naval Brasileira. Pediu baixa do cargo, retornando ao Rio, onde foi designado a fazer parte da comissão que transportaria a imperatriz D. Teresa Cristina, na época, em visita a Itália. Lisboa recusou o convite. Foi enviado de volta ao sul do Brasil, onde permaneceu até 1844. Retornando ao Rio de Janeiro, foi enviado como Comandante da Divisão do Centro, passando a atuar na Bahia, onde permaneceu por dois anos. Seu bom serviço lhe rendeu em 1847, a promoção de Capitão de Mar e Guerra Graduado. (ALVES, 2007, p. 13).

Entre 1847 e 1848 foi designado para supervisionar questões burocráticas, passando a fazer parte de comissões ligadas ao Regimento Provisional da Marinha, a Escola de Aprendizes Marinheiros, as obras do Asilo de Inválidos da Marinha, organização do pessoal e do material da Armada e do Arsenal Naval, entre outras atividades. Porém, foi dispensado dessas comissões devido a ser designado a viajar a Inglaterra, para buscar o navio a vapor D. Afonso, do qual se tornara comandante. Na viagem de volta da Inglaterra, o capitão Lisboa e sua tripulação socorreram o brigue americano Ocean Monarch, o qual viajava de Boston para Liverpool. Próximo de chegar ao seu destino, o navio sofreu um incêndio. (COSTA, 1944, p. 42-43).


O incêndio do Ocean Monarch. Samuel Walters, 1850. Detalhe para o navio D. Afonso, o qual exibe a bandeira do Império do Brasil. 
O navio Ocean Monarch contava com mais de 300 passageiros, o que incluía a tripulação. Ele foi socorrido pelo D. Afonso, e dois navios menores, o Queen of the Ocean, e o Prince of the Wales, além de contar com apoio de um barco pesqueiro. Apenas o navio do capitão Lisboa, resgatou pelo menos 156 pessoas. Porém, nem todos a bordo do Ocean Monarch sobreviveram. Pelo menos, metade tenha falecido. O imperador D. Pedro II quando soube do ocorrido, doou 100 libras esterlinas as vítimas. O governo britânico premiou o capitão Joaquim Lisboa com um cronômetro folheado a ouro. (COSTA, 1944, p. 45).

Passada essa tragédia em alto mar, a viagem seguiu tranquila. No entanto, já de volta ao Brasil, Joaquim Marques seria convocado para lutar contra nova rebelião. 

A Revolta da Praieira (1848-1850)

Chamada por alguns de revolta, por outros de revolução, o movimento da Praieira teve início no ano de 1848, na Província de Pernambuco. De caráter liberal e federalista, e até socialista em alguns casos, não atentou propriamente pela luta por uma república, apesar de haver alguns membros que pensanssem assim. Todavia, os praieiros defendiam maior autonomia a província pernambucana e a promulgação de uma nova constituição ou a revisão da mesma. Eles se queixavam das atitudes monopolistas de mercadores e latifundiários, a postura conservadora do imperador, do senado e dos ministros, etc. O movimento da praieira, nome que se devia a localidade do jornal liberal Diário Novo, localizado na Rua da Praia, em Recife, reuniu militares e civis, sendo que entre os militares envolvidos estava o general José Inácio de Abreu e Lima (1794-1869). Figura controversa da história imperial brasileira. Abreu e Lima defendeu por alguns anos os movimentos republicanos na Venezuela e Colômbia, tendo servido ao lado de Símon Bolívar (1783-1830). Porém, de regresso ao Brasil, sugeitou-se ao monarquismo. Sua atuação na Praieira é controversa, pois não se sabe ao certo até onde foi sua influência. Porém, foi inocentado da acusação de traidor. (FAUSTO, 1995, p. 178). 

Os ataques dos praieiros tiveram início em Olinda e depois seguiram para Recife e outras localidades próximas. No ano de 1849, o capitão Joaquim Marques foi designado a participar daquele conflito. Chegando em 1 de fevereiro daquele ano, une-se a outros capitães e chefes militares nos confrontos contra os praieiros. Destacando-se o ataque destes a Recife, em 2 de fevereiro, no qual contaram com uma força de dois mil homens, lideradas pelos capitães rebeldes Pedro Ivo Veloso da Silveira e João Ignácio Ribeiro Roma. A invasão de Recife teve início as 5h da manhã, e pela tarde havia se findado. Se desconhece o número exato de mortos e feridos. Os praieiros foram derrotados. Joaquim Marques Lisboa e o capitão J. J. Ignácio posteriormente foram honrados por tal façanha. No caso de Lisboa, esse em 14 de março de 1849 foi graduado a Capitão de Guerra. (MAIA, 1936, p. 117-118; COSTA, 1944, p. 46). 

Os praieiros ainda continuaram a resistir por mais um ano, mas agindo de forma bem mais fraca e desorganizada. A grande derrota sofrida em Recife, no dia 2 de fevereiro, praticamente pôs fim ao movimento. Por sua vez, o capitão Lisboa ao retornar ao Rio de Janeiro, recebeu honrarias pelo resgate do Ocean Monarch e sua breve e exitosa ação contra os praieiros. Em 5 de maio de 1849 realizou novo ato de resgate marítimo, ao rebocar o navio Vasco da Gama, encalhado na entrada da baía de Guanabara. Em junho daquele ano pediu exoneração do comando do D. Afonso, indo cuidar de assuntos burocráticos em terra, pelos meses seguintes. (COSTA, 1944, p. 47-48). 

O Barão de Tamandaré (1850-1860)

A década de 1850 foi tranquila para o capitão Joaquim Marques Lisboa, o qual manteve-se longe de revoltas, conflitos e guerras, embora alguns tenha ocorrido nesse período de tempo. Todavia, o capitão nesse período esteve ocupado com obrigações burocráticas, além de ter permanecido de licença com a família por alguns meses. Em 1850, Lisboa foi nomeado para o comando da Divisão Naval do Rio da Prata, região que ele conhecia muito bem. Porém, devido a motivos de saúde, permaneceu menos de um mês no cargo, pedindo licença médica. Retornou ao Rio, e se mudou com a família para a Vila de Nova Friburgo. Permaneceu de licença de setembro de 1851 até março de 1852, quando totalmente recuperado, foi convocado das suas férias para assumir o cargo de Chefe de Divisão. Em setembro daquele ano foi nomeado ao cargo de Capitão dos Portos da Corte e da Província do Rio de Janeiro. (ALVES, 2007, p. 14).

Voltou a participar da comissão de supervisão das obras do Asilo dos Inválidos da Marinha em 1853. No ano de 1854 foi exonerado do cargo de capitão dos portos para assumir o de Inspetor de Arsenal de Marinha da Corte, cargo que ocupou até 1857. No final de 1854 foi graduado como Chefe de Esquadra e depois como Veador do imperador e da imperatriz. Em 1856, na data de de 2 de zembro foi promovido a Vice-Almirante, quando contava com seus 49 anos. Em 1857 sua saúde voltou a se agravar, embora até hoje os biógrafos e historiadores não saibam exatamente os motivos por esses problemas regulares de saúde dele. O vice-almirante Lisboa solicitou dispensa do cargo de inspertor e outras comissões, requerendo tratamento de saúde, dessa vez, na Europa. Lhe foi autorizado. Ele e a família se mudam, permanecendo dois anos no continente europeu. (COSTA, 1944, p. 52). 

Em 24 de julho de 1858 foi nomeado membro efetivo do Conselho Naval, embora somente tomou posse em retorno ao Brasil, quase um ano depois. De retorno ao Brasil, em setembro de 1859, foi nomeado comadante-em-chefe da esquadra que levou o imperador e a família em visita as províncias do Norte do país. A viagem durou meses e contou com quatro navios, Amazonas, Paraense, Belmonte e Apa, sendo a última que transportava o imperador e a imperatriz. Os demais faziam parte da proteção. A esquadra do imperador retornou ao Rio de Janeiro em fevereiro de 1860. Na ocasião, o vice-almirante foi despensado do comando da esquadra e solicitou sua remoção do quadro de membros do Conselho Naval. Em março daquele ano, ele solicitou ir a Europa para trazer sua família de volta. Em 14 de março de 1860, o vice-almirante Joaquim Marques Lisboa foi agraciado com o título de Barão de Tamandaré


“Durante a viagem ao Nordeste, Marques Lisboa solicitara ao Imperador a possibilidade de trasladar para o Rio de Janeiro os restos mortais de seu irmão, Manoel Marques Lisboa, que se encontrava no cemitério da Vila de Tamandaré, em Pernambuco, onde perecera durante a Confederação do Equador, ao que o Imperador aquiesceu. Posteriormente, em 1860, o Governo cogitava dar um título nobiliárquico ao Vice-Almirante Lisboa, como homenagem aos serviços prestados, sugerindo um dos ministros que fosse atribuído o nome de algum lugar de sua província natal, ao que atalhou o Imperador, determinando o título de Tamandaré, como lembrança do irmão tombado em luta. À constatação de que Manoel Marques Lisboa lutara ao lado dos rebeldes, o Imperador argumentou que o mesmo militar, pouco antes, havia lutado como voluntário em prol da independência, permanecendo a denominação de Barão de Tamandaré”. (ALVES, 2007, p. 16).

Brasão de Armas de Tamandaré. Devido a união de seus filhos com outras famílias, o brasão foi recebendo acréscimos. 
Ainda em 1860 foi designado para o cargo de Conselheiro de Guerra, e autorizado a ir a Europa buscar a família. Retornando em novembro daquele ano, onde foi nomeado ao cargo de Encarregado do Quartel-General da Marinha, cargo de chefia que ocupou por menos de um ano, vindo a pedir dispensa em 1861. Todavia, ocupou comissões e comandou embarcações, além de acompanhar o imperador em suas visitas de revista ao porto e navios. Recebe nos anos seguintes condecorações honoríficas por sua dedicação a carreira na Marinha, e suas ações de comando e altruísmo. (COSTA, 1944, p. 57-58).

A Guerra do Uruguai (1864-1865) e a Guerra do Paraguai (1865-1870)

Apesar do nome, a guerra teve como estopim desentendimentos entre o governo brasileiro e o governo uruguaio. No caso, o então presidente uruguaio, Atanasio Cruz Aguirre (1801-1875), do partido conservador dos Blancos, manteve a política de austeridade do seu antecessor, o presidente Berro. Essa política gerou problemas diplomáticos entre os brasileiros e uruguaios. As tentativas de um acordo desandaram, então a guerra contra o Uruguai foi declarada em 1864. O presidente Aguirre recorreu ao ditador paraguaio Francisco Solano López (1827-1870), para auxiliá-lo no conflito. Solano López por sua vez, tomou suas próprias decisões, altuando navios brasileiros que navegavam pelo rio Paraguai, gerando uma crise diplomática contra o Império do Brasil. 

A revolta de Aguirre foi derrotada, porém, isso não impediu que Solano López prosseguisse com suas escolhas erradas, dentre as quais, ordenar a invasão da fronteira da Província do Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul). Tal condição foi encarada pelo governo brasileiro como um ato de guerra, dando início a um conflito que duraria cinco anos. Os uruguaios e argentinos vieram se aliar aos brasileiros e declaram guerra ao Paraguai. O barão de Tamandaré, então vice-almirante, já se encontrava no Uruguai na ocasião, devido a Guerra do Uruguai (1864-1865), participando nos meses de dezembro a fevereiro dos ataques as forças uruguais. Devido a tal feito, foi nomeado Visconde de Tamandaré, em 8 de feveiro de 1865. 

“Sob o comando de Joaquim Marques Lisboa, barão de Tamandaré, divisão naval dominava ameaçadoramente a baía de Montevidéu. Ela era composta pela fragata Amazonas, pelas corvetas Belmonte, Beberibe, Jequitinhonha, Niterói, Parnaíba; pelas canhoneiras Marim, Araguaia, Ivaí, Itajaí e Maracanã e pelo vapor Recife. Força desmedida, considerando-se o quase nulo poderio naval oriental”. (MAESTRI, 2013, p. 10).

“Diante do encerramento da Campanha do Uruguai, ultimavam-se os preparativos para o enfrentamento com o Paraguai, naquele que viria o maior dos confrontos em que o Brasil se envolveu à época. Na preparação para essa guerra, o Vice-Almirante Tamandaré passou a elaborar a planificação da Campanha, numa empreitada que teve grandes obstáculos, tendo em vista razões múltiplas, como as dificuldades impostas pelo terreno, a luta em águas fluviais, que exigia a adaptação e a aquisição de novas belonaves para a esquadra brasileira, além das desinteligências dos procedimentos de natureza política e diplomática para com os objetivos de cunho militar somando-se finalmente aos desacertos entre os próprios aliados. Apesar desses constantes contratempos e intempéries, o avanço inicial dos paraguaios começaria a refluir, como no caso da vitória na Batalha Naval do Riachuelo, empreendida por uma parte da esquadra comandada por Tamandaré, sob as ordens do Chefe de Divisão Francisco Manuel Barroso, em junho de 1865, e da Rendição de Uruguaiana, que marcou o fim da invasão paraguaia no território do Rio Grande do Sul, em setembro de 1865, triunfo no qual Marques Lisboa esteve presente”. (ALVES, 2007, p. 17-18).

A Batalha Naval do Riachuelo. Victor Meirelles, 1882. 
A vitória em Riachuelo, um dos riachos que desagua no rio Paraguai, já em território argentino, foi a primeira grande conquista de Tamandaré no contexto do final da Guerra do Uruguai e começo da Guerra do Paraguai. Porém, a vitória em Riachuelo guardou uma amarga expectativa. Acreditava-se que a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai derrotaria facilmente os paraguaios, mas a história não foi bem assim. O ano de 1866 foi bastante grave, gerando consideráveis perdas para os exércitos da aliados, o que forçou o Ministro da Guerra do Brasil, a pedir socorro, convocando o Marquês de Caxias, na época, afastado de suas funções por motivos de saúde. O já idoso general Caxias seguiu para a guerra, e mesmo ele, condecorado por suas grandes vitórias no passado, não conseguiu pôr fim nesta, pedindo para se retirar em 1869.  

Por sua vez, Tamandaré também não permaneceu para ver o fim da guerra. Após as vitórias obtidas entre 1864-1866, solicitou licença para retornar para casa. Apesar do reforço encaminhado por Caxias, a Marinha brasileira ficava em boas mãos na ausência de Tamandaré, o qual ao retornar ao Brasil em 1867, foi graduado como Almirante, em janeiro daquele ano. Passando a ser conhecido pelos seus títulos de Almirante Tamandaré. (COSTA, 1944, p. 76). 

O Almirante Tamandaré (1870-1897)

Os últimos grandes feitos militares de Tamandaré foram realizados durante a Guerra do Paraguai. As décadas seguintes ele não voltou a entrar em nenhum novo conflito, até porque após o Paraguai, o Brasil entrou em paz com os Estados vizinhos e dentro do território nacional, nenhuma grande onda de revoltas voltou a eclodir. Assim, o almirante pode se dedicar aos serviços burocráticos. Ainda em 1869 acumulou alguns desses como Ajudante de Campo do Imperador, Gentil-Homem da Imperial Câmara, Ministro do Supremo Tribunal Militar, Membro do Conselho Superior Militar, além de fazer parte de comissões e comandar alguns navios. Todavia, o ano de 1869 também foi marcado pelo falecimento da Viscondessa Eufrásia Lisboa, algo que abalou bastante o marido e a família. (ALVES, 2007, p. 20).

Na data de 16 de dezembro de 1887 foi nomeado Conde de Tamandaré, e no ano seguinte, em 16 de maio de 1888, tornou-se Marquês de Tamandaré. Assumia o título de marquês aos 81 anos de idade. (COSTA, 1944, p. 76). Devido a suas corriqueiras obrigações burocráticas e de chefia, os biógrafos do almirante pouco relataram entre os anos de 1870 a 1887. Porém, Alves (2007), sublinha que nesse período o movimento republicano começou a despontar no país, mas Tamandaré, assim como, Caxias e Osório, também não aderiram a causa republicana, diferente de outros militares como Deodoro e Floriano. No ano e 1889, após o golpe de Estado de 15 de novembro, que instituiu a república no Brasil, o almirante Tamandaré fez questão de não se envolver no golpe e tão pouco fornecer apoio. Inclusive isso o teria magoado muito. 

No dia 17 de novembro de 1889, data da partida da Família Real para o exílio na França, o idoso almirante Tamandaré compareceu ao porto, para se despedir dos monarcas. Os tendo levado até a bordo. Posteriormente o almirante solicitou exoneração de seus cargos e pediu aposentadoria, apesar que ainda continuou a figurar como conselheiro e a estar ligado ao Supremo Tribunal Militar. Os biógrafos comentam que o motivo foi em parte por sua idade avançada, mas também pelo desgosto do fim da monarquia. Lembrando que ele havia dedicado seis décadas de sua vida a lutar pelo império brasileiro. 

Já idoso, ouviu falar das revoltas que eclodiam na recente república brasileira. Como a Revolta da Armada (1891-1894) e a Revolta Federalista (1893-1895), ambas contaram com a participação dos militares que ainda defendiam a monarquia, ou eram contra a ditadura militar de Deodoro e Floriano. De qualquer forma, o Almirante Tamandaré nada fez a respeito disso, permanecendo residindo em sua casa na Gávea, no Rio de Janeiro. Vindo a falecer em 20 de março de 1897, aos 89 anos de idade. O velório como solicitado pelo próprio almirante foi simples e não contou com a presença pública. 

No ano de 1893, o almirante havia escrito seu testamento quanto as diretrizes a respeito do seu velório e sepultamento, comentando o seguinte: 


"Não havendo a Nação Brasileira prestado honras fúnebres de espécie alguma por ocasião do falecimento do imperador, o senhor D. Pedro II, o mais distinto filho desta terra, tanto por sua moralidade, alta posição, virtudes, ilustração, como pela dedicação no constante empenho ao serviço da Pátria durante quase 50 anos que presidiu a direção do Estado, creio que a nenhum homem de seu tempo se poderá prestar honras de tal natureza, sem que se repute ser isso um sarcasmo cuspido sobre os restos mortais de tal indivíduo pelo pouco valor dele em relação ao elevadíssimo merecimento do grande imperador.

Não quero pois, que por minha morte que me prestem honras militares, tanto em casa como em acompanhamento para sepultura.

Exijo que meu corpo seja vestido somente com camisa, ceroula e coberto com um lençol, metido em caixão forrado de baeta, tendo uma cruz na mesma fazenda, branca, e sobre ela colocada a âncora verde que me ofereceu a Escola Naval em 13 de dezembro de 1892, devendo colocar no lugar que faz cruz a haste e o cepo, um coração imitando o de Jesus, para que assim ornado signifique que a âncora cruz, o emblema da fé, esperança e caridade que procurei conservar sempre como timbre dos meus sentimentos. Sobre o caixão não desejo que se coloque coroas, flores nem enfeites de qualquer espécie, e só a Comenda do Cruzeiro que ornava o peito do Sr. D. Pedro II em Uruguaiana, quando compareceu como o primeiro dos Voluntários da Pátria para libertar aquela possessão brasileira do jugo dos paraguaios, que a aviltavam com a sua pressão; e como tributo de gratidão e benevolência com que sempre me honrou e da lealdade que constantemente a S.M.I. tributei, desejo que essa Comenda Relíquia esteja sobre meu corpo até que baixe a sepultura, devendo ficar depois pertencente a minha filha D.M.E.L. (Dona Maria Eufrásia Marques Lisboa) como memória d’Ele e lembrança minha.

Exijo que se não faça anúncios nem convites para o enterro de meus restos mortais, que desejo sejam conduzidos de casa ao carro e deste à cova por meus irmãos em Jesus Cristo que hajam obtido o foro de cidadãos pela lei de 13 de maio.

Isto prescrevo como prova de consideração a esta classe de cidadãos em reparação à falta de atenção que com eles se teve pelo que sofreram durante o estado de escravidão, e reverente homenagem à Grande Isabel Redentora, benemérita da Pátria e da Humanidade, que se imortalizou libertando-os.
Exijo mais, que meu corpo seja conduzido em carrocinha de última classe enterrado em sepultura rasa até poder ser exumado, e meus ossos colocados com os de meus pais, irmãos e parentes, no jazigo da Família Marques Lisboa.
Como homenagem à Marinha, minha dileta carreira, em que tive a fortuna de servir à minha Pátria e prestar algum serviço à humanidade, peço que sobre a pedra que cobrir minha sepultura se escreva: Aqui jaz o Velho Marinheiro."


Almirante Joaquim Marques Lisboa

Apesar de ter sido um funeral simples, e o apelo do almirante em não se noticiar a respeito de sua morte, a notícia rapidamente se espalhou pela cidade do Rio de Janeiro, sendo convocado luto público de oito dias. Alguns militares da Marinha chegaram a escrever cartas para a família de Tamandaré, ou emitir notas públicas sobre o falecimento do mesmo. Todavia, nenhuma autoridade política se manifestou pessoalmente, apenas enviou representantes. (COSTA, 1944, p. 78). O ímpeto monarquista de Tamandaré, não agradava os militares republicanos. De qualquer forma, eles mesmo não deixavam de reconhecer o valor e dedicação daquele homem ao país. O qual em vida já havia sido reconhecido como herói nacional. Curiosamente, foi no período republicano que Tamandaré tornou-se Patrono da Marinha. 

NOTA: Nas biografias mais antigas do almirante, consta que ele teria nascido na Vila de São José do Norte. Porém, a partir da década de 1940, os historiadores e biógrafos corrigiram o equívoco, tendo encontrado documentação que apontava o nascimento na Vila de Rio Grande. 
NOTA 2: Pelo Aviso 3.322 de 4 de dezembro de 1925, foi instituído que o Dia do Marinheiro no Brasil, seria celebrado na datada de 13 de dezembro, em homenagem ao nascimento do Almirante Tamandaré. 
NOTA 3: Atualmente no Brasil existem duas cidades em homenagem ao almirante. Almirante Tamandaré no Paraná, e Almirante Tamandaré do Sul, no Rio Grande do Sul. 
NOTA 4: Por todo o Brasil existem avenidas, ruas, praças, escolas e estátuas em homenagem ao almirante. Uma das estátuas mais notórias foi inaugurada em 1937 no Rio de Janeiro, que contou com a participação do presidente Getúlio Vargas e vários representantes do governo e das Forças Armadas, além da população no geral. 
NOTA 5: Em 1890 foi lançado o cruzador Almirante-Tamandaré
NOTA 6: O Almirante Barroso, Barão do Amazonas, foi amigo de longa data de Tamandaré, inclusive lutaram juntos em várias ocasiões desde a Guerra de Independência até a Guerra do Paraguai. 
NOTA 7: O Clube de Regatas Almirante Tamandaré foi fundado em 1903, poucos anos após o falecimento do Velho marinheiro. O clube ainda hoje existe, ficando sediado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. 
NOTA 8: Informações sobre os filhos e netos do almirante são escassas. Mesmo os biográfos antigos, esses preferiram focar na carreira militar do mesmo, e pouco informam sobre sua vida pessoal e familiar. 
NOTA 9: Em seus últimos anos de vida, Tamandaré costumava receber a visita de seu amigo o almirante Luís Filipe de Saldanha da Gama (1846-1895). Inclusive o almirante Saldanha foi responsável por presentear Tamandaré com uma cruz verde, em 1892. 
NOTA 10: Embora tenha sido contemporâneo do Duque de Caxias, a história praticamente nada sabe sobre a relação de ambos. O que sugere é que praticamente não se conheciam, mesmo tendo participado de guerras em comum. 

Referências bibliográficas:
ALVES, Francisco das Neves. O bicentenário do Almirante Tamandaré: o homem, o cidadão, o militar e sua conjuntura histórica. Caderno de História Memorial do Rio Grande do Sul, v. 1, 2007, p. 1-38. 
AMORA, Paulo. Vultos de dois regimes. Rio de Janeiro, Reper Editora, 1968. (Coleção Civismo Brasileiro).
CALMON, Pedro. História da Civilização Brasileira. Brasília, Senado Federal, 2002.
COSTA, Didio. Tamandaré: Almirante Joaquim Marques Lisboa. 3a. ed. Rio de Janeiro, Imprensa Naval, 1946. 
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2a ed. São Paulo, Fundação do Desenvolvimento da Educação, 1995.
MAESTRI, Mário. A intervenção do Brasil no Uruguai e a Guerra do Paraguai: A Missão Saraiva. V Encuentro de História sobre las Operaciones Belicas Durante la Fuera de la Triple Alianza, República Oriental del Uruguay, Montevideo, 23 a 25 de octubre de 2013. 
MAIA, João do Padro. Através da história naval brasileira. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1936. (Coleção Brasiliana, série 5, vol. 69). 
PEIXOTO, Afrânio. História do Brasil. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1944. (Série 3a - História e Biografia).