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Leandro Vilar

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

As armaduras de placas (XIII-XVI)

As armaduras medievais são um dos temas que atraem olhares curiosos para quem quer conhecer a Idade Média, especialmente quando se adentra ao imaginário de cavaleiros e castelos, não se pode deixar de fora aquelas armaduras de aço que protegiam os cavaleiros dos pés a cabeça. E esse imaginário é tão marcante que a as artes se apossaram muito bem dele. Falar de cavaleiro medieval europeu é quase que obrigatório trazê-lo com uma armadura pesada. Nos filmes, desenhos, quadrinhos, pinturas e videogames isso é algo bem comum: cavaleiros usando armaduras ricamente ornamentadas e até surreais, pois o peso os incapacitaria de poder combater. Inclusive eu estava há alguns dias jogando um jogo que traz armaduras mirabolantes e me veio a ideia de escrever esse artigo. 

No entanto, nos vem algumas perguntas: aquelas armaduras que vemos em museus, realmente eram utilizadas? Ou não passam de artigo de ornamentação? Todo cavaleiro usava armadura pesada? Quando foi que tais armaduras começaram e deixaram de ser usadas? Pois o medievo europeu durou quase mil ano, porém, nota-se que na maior parte dele, armaduras de aço não foram usadas. Um cavaleiro usando tal armadura conseguia se mover ou ficava tão pesado que até andar era algo árduo? Diante dessas perguntas, redigi esse texto para fornecer respostas. 

Introdução: 

Nessa introdução apresentei algumas informações simples, mas importantes para entender o contexto do medievo, dos cavaleiros e das armaduras. O uso de armaduras existe desde a Antiguidade e foi adotado por diferentes povos do mundo. É evidente que as formas de se confeccionar uma armadura variaram com o tempo. Em geral quando falamos em armadura, pensamos logo em armaduras de metal, mas isso não é algo exato. 

Armadura consiste em qualquer vestimenta projetada para se conceder proteção extra ao guerreiro, para protegê-lo ou amenizar o dano de cortes, perfurações, impactos, golpes, quedas, projéteis, explosões, etc. Ainda hoje se faz uso de armaduras, apesar de se adotar outros termos para se referir a esses trajes. De qualquer forma, as armaduras usadas no passado, eram feitas de couro cozido ou cru, eram reforçadas com lã para fornecer superfície acolchoada, para amortecer golpes, usavam placas de madeira, cotas de malha, placas metálicas, etc. Uma armadura não precisava proteger todas as partes do corpo, e poderia contar com proteções avulsas, como elmo ou capacete, e o uso de escudo. 

Sendo assim, na História houve diferentes tipos de armaduras, algumas leves que facilitavam a mobilidade, mas forneciam menos proteção. Enquanto havia armaduras pesadas, que forneciam maior proteção, mas deixavam o guerreiro mais lento. O uso dessas armaduras variava de acordo com a função daquele guerreiro exercida na força de combate, ou da estratégia adotada para a ocasião. 

Tendo falado brevemente sobre o que tratam as armaduras, falarei agora sobre a Idade Média europeia. Em geral os livros didáticos abordam o período medieval como indo de 476 a 1453, essa consiste na delimitação cronológica mais comum, mas existem outras formas de delimitar o tempo de duração do medievo. Alguns historiadores apontam que os idos da Idade Média teria começado no século IV, outros falam de Antiguidade Tardia, e recuam o começo do medievo para o século VIII. Quanto ao término da Idade Média, alguns historiadores falam de um medievo tardio, indo se findar no final do século XV, próximo ao ano 1500. No caso é preciso sublinhar que as estruturas medievais não começaram de um dia para o outro e terminam após 1453. Em diferentes lugares da Europa, a sociedade medieval se desenvolveu de formas e em ritmos diferentes. No caso, eu trabalhei com a noção de medievo tardio, estendendo a duração desse período até o final do século XV, pois as armaduras de placas, que objeto de estudo desse texto, somente passaram a ser mais usualmente usadas a partir do século XV e se mantiveram até o XVII, adentrando a Idade Moderna. 

Quanto aos cavaleiros medievais, em outros artigo intitulado Ser cavaleiro na Europa medieval (2014), eu comentei como a imagem e noção de cavaleiro, cavalheirismo e cavalaria foi moldada no medievo europeu, para se tornar aquilo que conhecemos hoje em dia. Pois o cavaleiro medieval europeu não era apenas o homem que lutava montado num cavalo e usava armadura, mas consistiu em todo um imaginário, normas sociais e de conduta, para atribuir ao cavaleiro a imagem de nobre, honrado e leal guerreiro. Qualquer homem poderia lutar em um cavalo, mas não significa que ele fosse digno de ser chamado de cavaleiro. Sendo assim, quando chegamos ao século XV, época que as armaduras de placas de aço passaram a ser usadas, todo esse imaginário cavaleiresco já estava em desenvolvimento e continuava a encantar a população através da literatura em prosa ou poesia, ou até em canções, as quais falavam sobre o Rei Arthur, os Doze Pares de França, Os Nove Bravos e várias outras histórias sobre valentes e honrados cavaleiros errantes que buscavam aventura e fama. 

Mas quanto a vestimenta desses cavaleiros, em geral eles passaram a maior parte do medievo usando elmos e cota de malha. De fato, a veste básica dos cavaleiros e outros guerreiros medievais era essa. A cota de malha era uma veste de proteção muito versátil e bem difundida. Por isso ter sido comumente adotada por vários povos europeus. 

O surgimento das armaduras de placas (c. 1250-1400): 

O uso de tiras ou placas para se formar uma armadura é antigo. Em diferentes lugares do mundo, se fez uso de técnicas para se unir pedaços de materiais rígidos para formar em geral, proteção para o tórax. No caso dos romanos, eles faziam uso de uma armadura feita de placas de ferro, diferente da couraça de bronze, usada por alguns guerreiros gregos. Porém, como a confecção de placas de ferro era algo mais trabalhoso, com o tempo foi substituída pela adoção da cota de malha pelos guerreiros europeus ao longo do medievo. O uso de armaduras de placas foi visto por cavaleiros e soldados na Itália, Suíça, Alemanha, França, Espanha, Inglaterra, Áustria, Hungria, Polônia, etc. no entanto, os países em que mais se destacou-se o fabrico dessas armaduras, foram a Alemanha e a Itália, como veremos adiante. (PRICE, 2000, p. 22). 

Claude Blair (1959, p. 37-38) comentava que na Europa ainda do século XIII, o uso de cota de malha e de armadura de escamas, predominava e continuaria predominando mesmo com a adoção das armaduras de placas, não significou que os outros tipos de armaduras deixaram de serem utilizadas. Entretanto, Blair assinalava que não foi no século XIV que o uso de armaduras de placas teria começado. Para ele, tal prática remontaria o século XIII. Ele comenta o relato de Guilherme o Bretão, o qual lutou contra Ricardo, Conde de Poitou (posteriormente conhecido como rei Ricardo, Coração de Leão). Durante essa batalha é narrado que os cavaleiros usavam uma armadura de placa de metal (fera fabricata patena recocto, como escrito no documento em latim). 

No caso, tal armadura não seria parecida com as que conhecemos, mas consistiria numa mescla de cota de malha ou de armadura de escamas, com uma couraça para proteger o tórax, acompanhada de braçadeiras e caneleiras. Blair (1959) prossegue dizendo que em outras batalhas ocorridas na França. Esse tipo de armadura passou a ser chamada de couraça (cuirass, curace ou quiret), termo devido a proteção de ferro usada sobre o tronco. Que acabou se tornando uma peça central na armadura de placas. Apesar que essa couraça não tenha sido invenção da época, os antigos gregos e romanos já faziam uso de couraças.


Gravura para ilustrar O Romance de Alexandre (1338). Segundo Blair (1959), os cavaleiros nessa imagem, já faziam uso de uma versão anterior da armadura de placas. 
De qualquer forma, Blair dizia que o desenvolvimento da armadura de placas era obscuro, pois não sabemos como ocorreu propriamente. Dispomos apenas de relatos pontuais e algumas poucas pinturas conhecidas de batalhas, que apontam o uso desse tipo de armadura ainda nos séculos XIII e XIV. Para Terence Wise (1975, p. 11) a armadura de placas somente começou a ser desenvolvida no século XIV, período que foi marcado com algumas mudanças militares, dentre as quais ele destacou a formação de "exércitos nacionais", pois até então os reinos não possuíam o que hoje concebemos como exército nacional, mas possuíam pequenas tropas, milícias e até tropas de mercenários para compor sua força de batalha. Os reis, senhores feudais e chefes dependiam de convocar vassalos e seus homens para formar suas forças militares. Porém, em alguns pequenos reinos começou a empregar a prática de recrutamento militar e a criação de tropas fixas. 

Para Wise (1975) isso contribuiu para não apenas mudar a dinâmica da guerra, mas também para o desenvolvimento de equipamentos militares. A medida que os arcos e as balestras se tornaram mais potentes, permitindo que as flechas e os virotes atravessassem escudos de madeira e até cotas de malha mais simples, tornou-se necessário confeccionar armaduras mais resistentes. Mas além dessas armas de longo alcance, armas como espadas e lanças também ganharam melhorias, apresentando lâminas mais resistentes e perfurantes. Isso é uma lógica da guerra: a medida que as armas se tornam mais mortais, se faz necessário criar defesas melhores. Os castelos medievais vão se destacar nesse período, ficando mais robustos e desenvolvendo suas muralhas e torres, frente as catapultas e trabucos. Dois séculos depois com a introdução da pólvora na Europa, os castelos vão começar a ser substituídos pelos fortes, estruturas mais resistente aos canhões. 


Gravura para uma versão grega do Romance de Alexandre, séc. XIV. Nessa imagem vemos os cavaleiros usando cotas de malha, mas também fazendo uso da couraça e de braçadeiras. O que é tomado por alguns estudiosos como um versão da armadura de placas. 
Para Brian Price (2000, p. 5) e Alain Williams (2003, p. 54) a origem propriamente das armaduras de placas foi o século XIV, período que vai marcar a transição entre o uso de armaduras de escamas e cotas de malhas, para a adoção de armaduras de placas cada vez mais elaborada e completas, revestindo não apenas partes do corpo do guerreiro, mas ele quase todo. Entretanto, os dois historiadores sublinham que a visão de armaduras de placas de aço que normalmente temos, somente se formou no século seguinte. Antes disso, ainda teremos um período de adaptação e desenvolvimento de técnicas metalúrgicas para a criação dessas armaduras. 

Price (2000, p. 7) destaca que a Itália, embora não fosse uma nação unificada naquele tempo, mas formada por pequenos Estados, foi o polo ferreiro para desenvolvimento das armaduras de placas. O grande fluxo de riquezas que chegavam a península italiana através do comércio com os bizantinos e árabes, não apenas trouxe dinheiro para permitir o início do Renascimento, mas também permitiu a troca de saberes e o afluxo de matéria-prima. Não obstante, Price cita o caso da família Missiglia de Milão, uma das mais respeitáveis famílias de ferreiros, fabricantes de armaduras do ducado milanês. Os Missiglian ficaram tão conhecidos nos séculos XIV e XV, que suas peças recebiam seu selo e eram exportadas para vários locais da Europa, especialmente as terras francas e germânicas, seguindo as rotas comerciais que iam de Gênova, Milão e Veneza para Flandres e a Frísia

A Chronicon Extravagans de Galvano Fiamma (1298-1344), informava que os franceses, ingleses e espanhóis compravam muitas armaduras lombardas, uma referência a produção armeira de Milão. (BLAIR, 1959, p. 79). Mas além de Milão como polo manufatureiro de armaduras, Williams (2003, p. 57) destacou a província de Bréscia, também situada na Lombardia e vizinha de Milão. Williams cita que em determinados anos a produção de armaduras de Bréscia superou a de Milão. Segundo documentos administrativos da cidade, em seu auge, entre 1388 a 1486, a cidade chegou a possuir mais de 160 ferreiros, sendo metade desse valor, voltado apenas para ao trabalho com armaduras. Exportando muito dessas para os outros Estados italianos e para outras nações. 


Mapa atual da Lombardia. Durante os séculos XIV e XV, as províncias de Milão e Bréscia concentraram a maior produção de armaduras da península itálica e do sul da Europa. 
Enquanto as províncias italianas de Milão e Bréscia eram os principais centros produtores de armas e armaduras no sul da Europa, no lado oposto do continente, Estados germânicos como a Bavária e Tirol, começavam a destacar-se nesse mercado, passando a produzir seus próprios modelos ou a copiar os modelos italianos, e com isso vendendo para o restante do Sacro Império Romano-Germânico, para os ingleses, poloneses, dinamarqueses, etc. Data desse período também, principalmente na segunda metade do século XIV, o aumento do uso das couraças ou placas de peito, como também eram conhecidas. Entretanto, os cavaleiros ainda continuavam a usar cota de malha, mas passavam a usar elmos mais fechados, braçadeiras e caneleiras, e até luvas de metal. Esse modelo seria aperfeiçoado nas décadas seguintes. (BLAIR, 1959, p. 57-58). 

Chris Gravett (1985, p. 41-42) assinala que a adoção da couraça de ferro não foi exclusiva apenas dos cavaleiros, alguns membros da infantaria pesada, os quais lutavam usando espadas de duas mãos como a espada montante, ou usando alabardas, poderiam em alguns casos, fazer uso da couraça e outras partes que compunha a armadura de placas. De fato, ainda no século XVII, esse tipo de proteção peitoral ainda era utilizada pela cavalaria e alguns membros da infantaria. 

Para Brian Price (2000, p. 349) o século XIV foi essencial para o estabelecimento do conceito de armadura de placas. Pois durante esse período, num espaço de tempo de 50 a 70 anos, os ferreiros desenvolveram técnicas e vários modelos para aperfeiçoar esse tipo de defesa. Ao mesmo tempo que isso serviu de teste também para ver o que deveria ser feito ou não. No caso, Claude Blair (1959, p. 73-74) comentava que nesse período desenvolveu-se as partes essenciais das armaduras de placas: o elmo que cobria todo o rosto (o qual possuía distintos modelos, alguns poucos funcionais), a couraça a qual foi aumentando de tamanho, deixando de cobrir apenas o peito, mas passando a cobrir todo o tórax; a aketon, um tipo de jaqueta usado sob a armadura, que passou a substituir o uso da cota de malha, por se mostrar mais leve e mais confortável. Pois a medida que as armaduras se tornaram mais resistentes e cobriam mais partes do corpo do guerreiro, não era mais necessário usar uma longa cota de malha por baixo, para fornecer defesa extra. Outra parte que compunha a armadura de placas, desenvolvida nesse período foi o jupon, o qual consistia numa túnica grossa e acolchoada, usada sob a couraça. As vezes, sob o jupon, colocava-se o aketon ou outra veste. 


Armadura do rei Carlos VI da França, c. 1380. Nesse modelo utilizado pelo monarca francês, ainda nota-se o uso da cota de malha, apesar que relatos da época dizem que o monarca também fizesse uso do jupon
O desenvolvimento das armaduras de placas (1400-1500): 

O século XV foi em essência, o século das armaduras de placas, apesar que essas ainda continuaram a ser utilizadas até o século XVII, mas elas passaram a perder espaço na guerra moderna devido as mudanças táticas e armamentísticas surgidas no século XVI, o que revelou ser inviável manter cavaleiros trajando armaduras pesadas, as quais necessariamente não protegiam mais das balas de mosquetes e arcabuzes. De qualquer forma, antes de isso ocorrer, vejamos como foi esse período áureo para as armaduras de placas, que penosamente esteve ligado com o aumento de guerras na Europa.

Como comentado anteriormente, os dois polos de produção de armaduras no século XV, continuaram a ser Itália e Alemanha. No caso da Itália, Milão e Bréscia ainda se mantiveram no século XV como principais produtores de armaduras não apenas da Itália, mas do continente europeu. Na década de 1420 a armadura de placas como normalmente conhecemos já estava pronta. A armadura era formada agora por uma proteção que envolvia quase totalmente o corpo do guerreiro. A couraça já cobria o tronco por inteiro; proteção para o braço, ombreiras, pescoço, quadril e as pernas foram desenvolvidas. Os cavaleiros passavam a ser definitivamente "homens enlatados". (BLAIR, 1959, p. 80). 
Gravura representando um cavaleiro da década de 1420, trajando armadura de placas. No caso do modelo dele, ainda se notava o uso de cota de malha. O mesmo também estava armado com um bico de corvo. 
Na Itália o desenvolvimento de exércitos nacionais contribuiu para a intensificação das guerras italianas, as quais se estenderiam por mais de um século. O próprio Nicolau Maquiavel (1469-1527) vivenciou esse período e escreveu a respeito. Dentre suas obras acerca dessa fase bélica está o livro A Arte da Guerra. David Nicolle (1983, p. 11-12, 16) comenta que os séculos XIV e XV foram períodos de batalhas recorrentes na península itálica, o que demarca bem o cenário descrito por Maquiavel em algumas obras, recordando que o próprio Maquiavel atuou como diplomata de Florença e como embaixador para outros senhores, dentre os quais, o perigoso César Bórgia (1475-1507), filho mais velho do papa Alexandre VI (1431-1503). 

Todavia, Nicolle (1983) comenta se no século XIV as grandes batalhas em território italiano dava-se por conflitos entre condes, duques e príncipes de províncias ou Estados vizinhos, no século XV surgiram os exércitos estatais em Milão, Roma, Veneza, Gênova, Nápoles, Florença, etc. os quais passaram a combater com o apoio dos espanhóis, franceses, suíços, alemães e gregos, ou contra eles. Na segunda metade do século XV, campanhas espanholas e francesas para dominar a Itália, ocorreram, fazendo necessário a manutenção de exércitos fixos, treinados e bem equipados. E quanto mais rico o senhor, não eram apenas os cavaleiros que passavam a usar armaduras de placas, a infantaria armada com lanças, alabardas, martelos de guerra e espadas, também recebiam. E em alguns casos os balesteiros também poderia fazer uso de uma couraça. 

Curiosamente é preciso sublinhar que a Itália durante esse período de longas guerras pelo poder e invasões de outros países, coincide com o desenvolvimento do Renascimento (XIV-XVI), o período áureo das artes e algumas ciências. Isso é um tanto irônico que a Itália vivenciou uma de suas fases mais violentas, ainda assim, marcadas pelo esplendor artístico e desenvolvimento do conhecimento. De qualquer forma, alguns desses artistas acabaram usando seus talentos voltados para a guerra, como o próprio Leonardo da Vinci (1452-1519), realizou projetos associados com engenharia militar, fosse na criação de projetos de fortificações, armas e veículos de combate. 

Por mais que a Itália vivenciasse esse período de guerras, nem sempre o efetivo militar era suficiente, e isso levou a criação de grupos profissionais de mercenários treinados, os quais eram liderados por chefes, os condottieri. O condottiero era um mercenário profissional que dispunha de uma milícia. A palavra condottiero advém da palavra condotta (contrato), segundo destacado por David Murphy (2007, p. 8). O autor também sublinha que possivelmente o primeiro condottiero da história tenha sido Roger di Flor, que por volta do ano de 1302, ele e sua companhia prestaram serviço ao imperador bizantino Andronicus II. A ação de di Flor foi seguida por outros homens, e assim aos poucos foram surgindo pequenas companhias de condottieri. A partir da segunda metade do século XIV as companhias dos condottieri se popularizaram e se tornaram forças militares mercenárias importantes, inclusive determinando em alguns casos, a vitória em batalha. No século XV, algumas companhias eram tão famosas, ricas e numerosas, que seus homens dispunham de excelentes equipamentos. 


Detalhe do quadro A Batalha de San Romano. Paolo Uccello, 1450-1453. Ocorrida em 1432, a batalha foi marcada por um ferrenho conflito que contou com a presença das tropas dos condottieri Niccolò da Tolentino e Francesco Piccinino. As quais usavam armaduras de placas. 
Deixando a Itália e subindo para a França, nesse período França e Inglaterra viviam a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), intenso conflito que durou na verdade 116 anos, mas no século XV, vivenciou algumas batalhas bem sangrentas. Christopher Gravett (2001) destaca que o desenvolvimento de arcos e balistas mais potentes, somados a flechas e virotes mais perfurantes, levou os exércitos inglês e francês a adotarem armaduras mais duras. Inclusive os franceses compraram muitas armaduras dos italianos para esse fim, já que as forças inglesas eram conhecidas por suas companhias de arqueiros armados com arcos longos, e em alguns casos, com balistas. De fato, a fama dos arqueiros ingleses remontava há séculos e foi sendo aprimorada. 


Batalha de Angicourt (1415), representada em gravura do século XV. Nota-se os cavaleiros trajando armaduras de placas. Alguns usam o elmo de face aberta. 
Blair (1959, p. 108) apontou que os ingleses adotaram os modelos italiano e francês de armaduras para forjar suas próprias armaduras de placas. Em Londres foram desenvolvidas ferrarias especializadas para isso. Por sua vez, na França, além da importação de armaduras lombardas, ferrarias de armaduras surgiram em Lyons, Bordeaux, Beauvais, Chartres, Tours, etc. Apesar dos franceses estarem em guerra com os ingleses por um século, ainda assim, monarcas franceses eventualmente invadiam a Espanha, a Itália, Bélgica, Holanda, Alemanha. Enquanto a Inglaterra contava em estar segura por ser uma ilha, a França possuía várias fronteiras a se preocupar, daí a importância de ter ferrarias espalhadas pelo país, para abastecer os exércitos. 

Do mesmo modo que o exército inglês se dividia em alas com infantaria, artilharia e cavalaria, o exército francês fez o mesmo. Passando a adotar o arco longo e a balista, e até mesmo táticas inglesas de combate. Inclusive David Nicolle (2000) salienta que nos últimos anos da Guerra dos Cem Anos, houve algumas batalhas, nas quais os artilheiros já fizeram uso de armas de fogo; equipamento ainda recente no continente europeu. 

Entretanto, diferente das batalhas na Itália e na Alemanha, as armaduras de placas no caso francês e inglês estiveram mais reservadas aos cavaleiros, ainda assim, nem todo cavaleiro faziam uso delas. Alguns ainda trajavam cotas de malhas e uma couraça. Gravett (2001, p. 48) assinala que os cavaleiros ingleses e franceses da década de 1420, já faziam uso de luvas de ferro, de elmos tipo bascinet, e de aventail (elmo mais cota de malha para proteger o pescoço). O autor também sublinha que até mais ou menos 1450, já próximo do término da guerra, os ingleses faziam muito uso de modelos italianos de armadura. 


Gravura medieval do século XV, retratando Joana d'Arc, a qual participou da Guerra dos Cem anos. Os documentos da época confirmam que ela fazia uso de armadura de placas, apesar de não usar elmo que cobrisse toda a cabeça. 
A partir da década de 1450, passou-se a usar mais modelos de origem inglesa e até germânica. Gravett (2001, p. 49) também destacou que no século XV, durante a Guerra dos Cem Anos, viu-se a ampliação de armas brancas como maças, martelos de guerra, bico de corvo e alabarda; armas que permitiam perfurar ou esmagar a armadura. No caso das armas que esmagavam, a ideia era fraturar ossos, levando a hemorragia interna, ou incapacitar o cavaleiro, tornando-o vulnerável a ser atacado com punhais ou espadas nos pontos fracos. Algo que comentarei em outro momento. 

Deixando a França e seguindo mais ao norte, adentrando os Estados germânicos do Sacro Império Romano-Germânico, a presença de armaduras de placas também foi recorrente em várias batalhas importantes. Christopher Gravett (1985) assinalou que os Estados alemães vivenciaram conflitos tão intensos ou até mesmo, mais agravantes do que os vistos entre os Estados italianos. Apesar de o Sacro Império Romano-Germânico possuir nominalmente um imperador desde o século X, nunca significou que o império estivesse plenamente sob controle do monarca. Em vários momentos, algumas das províncias se rebelavam contra a autoridade imperial, ou simplesmente por intrigas políticas, econômicas, familiares ou pessoais, declaravam guerra a província vizinha. Sendo assim, os Estados germânicos que por alguns séculos englobaram a Holanda, Áustria, sul da Dinamarca, parte da Polônia e da Suíça, se viram em vários conflitos. 


Gravura do século XV, de uma batalha entre os hussitas e católicos, durante as Guerras Hussitas (1419-1434). Na imagem nota-se cavaleiros de ambos os lados, trajando armaduras de placas. 
Alan Williams (2003, p. 331) comenta que foi no século XV que a Alemanha começou a despontar na produção de armamentos e armaduras. Até então os nobres germânicos encomendavam suas armaduras dos ferreiros lombardos, porém, com o crescimento e acirramento de guerras internas e a necessidade de armar e equipar as tropas com maior agilidade, tornava inviável depender de importação, a qual poderia inclusive demorar semanas, um, dois ou mais meses. Esse tempo de espera poderia significar que o inimigo, caso já estivesse equipado, não iria aguardar tempo em atacar. 

No caso, Blair (1959, p. 92-93) comentou que as principais regiões produtoras de armaduras na Alemanha do século XV, eram Innsbruck, Nuremberg e Augsburg, províncias conhecidas pelo comércio e a produção manufatureira. Ele salienta que foi por volta da década de 1450 que se desenvolveu o modelo chamado de "armadura gótica", em referência aos Godos, um povo germânico. No caso, a armadura gótica foi bastante popular entre 1460 e 1500. O exemplar feito para Maximiliano I (1459-1519), o qual foi Rei da Germânia, Arquiduque da Áustria e depois Imperador do Sacro Império, é um dos modelos de armadura gótica mais conhecida, destacando-se os detalhes de incrustação, o elmo com proteção para a nuca, a proteção para o pescoço, e a escarpe (sabaton) com bicos exageradamente pontudos, os quais poderiam ser usados para causar dano, enquanto o monarca estivesse cavalgando e chutasse seus atacantes. Outros modelos similares foram encontrados. 


Réplica da armadura gótica do imperador Maximiliano I. A armadura teria sido feita para ele durante a década de 1480. 
Auge e declínio (1500-1600): 

O século XVI foi um divisor de águas para a História. As armas de fogo já estavam se espalhando pela Europa a pelo menos cinco décadas. Portugal havia iniciado as Grandes Navegações há vários anos. Cristóvão Colombo chegou as Américas em 1492, o Tratado de Tordesilhas (1494), dividindo as terras descobertas por Colombo, entre Portugal e Espanha, foi acordado; Vasco da Gama descobriu o Caminho para às Índias (1497-1499). O Império Otomano se expandia pelos Bálcãs, a colonização europeia nas Américas, África e Ásia se desenvolvia. O Renascimento italiano seguia para sua última fase. A Reforma Protestante se iniciava. As as prósperas civilizações Asteca e Inca nas Américas seriam destroçadas pelos espanhóis. E em meio a tudo isso, guerras ainda continuavam a ocorrer pela Europa, e cavaleiros ainda trajavam suas armaduras de aço. 

Embora o século XVI marque parte do esplendor das armaduras de placas, também é o período que marcará sua decadência. As mudanças militares introduzidas com o uso de mosquetes, arcabuzes, minas, granadas, morteiros e canhões afetou o modo de se fazer guerra na Europa. É evidente que essas mudanças não ocorreram de vez ou atingiram todos os países ao mesmo tempo. No entanto, Estados mais belicosos, foram os que vivenciaram essas mudanças mais rapidamente, não apenas nas armas adotadas, mas da forma como organizar as companhias militares, o treinamento, as fortificações e o modo de fazer guerra. 

As grandes batalhas campais em alguns lugares foi substituída por lutas de cerco, confrontos de emboscada, lutas em trincheiras, conflitos entre redutos ou fortificações. Os castelos robustos começaram a ser substituídos por fortes e fortalezas, mais baixos, sem torres altas, cercados por muralhas, baluartes, fossos e outras estruturas defensivas. As forças armadas desses países passaram a ser compostas de companhias de arqueiros e balesteiros, mas somadas a grupos de mosqueteiros, arcabuzeiros e canhoneiros. A infantaria munida de lanças, piques e espadas ainda se mantinha. A cavalaria leve e pesada ainda continuava, mas com o tempo a cavalaria pesada foi perdendo espaço para a cavalaria leve, por causa da mobilidade. Pois mesmo armaduras de aço não protegiam das balas. Mas isso não significou que foi do dia para o outro que o uso de armaduras de placas ocorreu. (EDGE; PADDOCK, 1991). 


A Batalha de Pavia em 1525. Bernard Van Orley (1528-1531). Nessa pintura contemporânea a batalha retratada, nota-se a presença de cavaleiros usando armaduras de placas, ao lado de homens armados com arcabuzes. 
Claude Blair (1959, p. 113) comentou que os principais polos ferreiros de produção de armaduras na Europa, no século XVI, ainda se mantinham. Na Itália destacavam-se Milão e Bréscia. Na Alemanha Augsburg, Nuremberg e Innsbruck, na França, Lyon e Tours. No Império Espanhol, Bruxelas, Antuérpia, Flandres, Sevilha e Burgos. Na Inglaterra, continuava Londres. Blair (1959) também comentou que no XVI um novo estilo de armadura de placas se tornou popular, especialmente entre os muito ricos. Era a armadura de estilo negroli, que substituía o gosto da alta nobreza pelas armaduras góticas. A família Negroli formada pelo pai Gian Giacomo, e os filhos, Filippo, Giovan Batista e Francesco, se notabilizaram no século XVI, pela produção de armaduras requintadas e de alta qualidade. 


Réplica de uma armadura negroli do século XVI. Nota-se que a ideia dessas armaduras estava mais no requinte da ornamentação, do que um uso prático para o combate. 
Alan Williams (2003, p. 906) comenta que embora já existissem ferreiros habilidosos que no século XV, faziam excepcionais armaduras, mas a arte em armaduras surgiu propriamente no XVI, com os italianos e os flamengos. No caso italiano, Williams destaca o trabalho da família Negroli, os quais se especializaram em produzir armaduras que podem ser chamadas de obras de arte. Em alguns casos suas armaduras eram compradas nem tanto para ser usadas no campo de batalha, mas como peça de decoração. O autor assinala que em determinadas épocas, as armaduras dos Negroli eram tão caras e requisitadas, que chegavam a valer mais do que o soldo de um ano, recebido por um soldado comum. Ele cita o caso que em 1543 um soldado recebia 20 escudos ao ano, enquanto um mestre-ferreiro poderia receber 40 escudos, e em 1567, Giovan Paolo Negroli, vendeu várias armaduras a 35 escudos, cada. Sem contar que outros trabalhos dele e de seus parentes, poderiam passar facilmente dos 100 ou 200 escudos. Williams destaca o caso de um trabalho grande feito ao imperador espanhol Carlos I, que encomendou armaduras e outros equipamentos. O custo do serviço? 1120 escudos! 

Phyrr e Godoy (1999) comentam que os Negroli e outras famílias ferreiras contemporâneas, como os Modrone de Mantua, tornaram-se não apenas ferreiros, mas artesãos e artistas. A metalurgia com eles resgatou uma arte deixada de lado há muito tempo. De fato, a arte metalúrgica em armaduras, elmos, escudos e espadas não é nova, na Antiguidade e no Medievo já existia, mas no século XVI, ela voltou a ficar em evidência. Os Negroli e Modrone não apenas forjavam armaduras de placas, mas outros tipos de armaduras, como também, forjavam elmos personalizados, escudos decorados, espadas, machados, couraças, etc. Suas obras eram mais voltadas para uma questão artística do que bélica, o que conota com o declínio do uso das armaduras de placas no campo de batalha e a tendência de se tornarem artigos de luxo. Inclusive, Phyrr e Godoy assinalam que influenciado pelos referenciais artísticos do Renascimento, algumas dessas armaduras buscavam resgatar a "aura heroica e lendária" dos mitos greco-romanos.


O imperador alemão Carlos V (Carlos I de Espanha), trajando sua armadura italiana. Pintura de Ticiano, 1548. 
É preciso sublinhar que as armaduras ornamentadas eram mais caras do que armaduras comuns. Ainda assim, o valor de armaduras comuns chegavam a custar o soldo de um ano de um soldado. Por isso que equipar uma tropa de cavaleiros era algo bastante caro, mas não impossível. Edge e Paddock (1991, p. 131) comentam que o rei Henrique VIII da Inglaterra (1491-1547) gastou muito dinheiro com armaduras. Entre 1512-1513 ele comprou 2 mil armaduras leves de Florença, e 5000 peças de armadura de Milão. Em 1539 ele comprou 1.200 armaduras de Colônia e 2.700 armaduras da Antuérpia. Para os autores isso assinala que ainda na primeira metade do século XVI, o comércio de armaduras era bem lucrativo e requisitado. 


Algumas características das armaduras de placas:

Ao longo dos mais de dois séculos nos quais essas armaduras foram usadas, surgiram vários modelos, alguns estranhos e outros extravagantes, mas essencialmente a funcionalidade era a mesma: proteger da melhor forma possível o homem que estivesse vestindo tal armadura. Pela condição de ter havido muitos estilos de armaduras, não cabe aqui citar todos, pois em alguns a mudança existente era mais um fator de estética do que funcionalidade. Assim procurei nessa parte do texto comentar de forma geral o desenvolvimento de algumas dessas armaduras,

Uma dúvida comum é quanto o peso dessar armaduras. Elas eram realmente tão pesadas ao ponto que o cavaleiro tinha dificuldade para andar? Alan Williams (2003, p. 55) aponta uns dados interessantes. A cota de malha (hauberk) que era usada por cavaleiros, soldados e arqueiros, consistindo em uma proteção relativamente fácil de ser feita e não muito cara, concedia proteção para golpes cortantes, e em alguns casos protegia de alguns tipos de flechas, mas poderia ser transpassadas por estocadas de espada e lanças, e por golpes de machado e martelo. Alguns virotes de balista também conseguiam penetrar a proteção da cota. Entretanto a cota de malha era uma proteção bem pesada. A depender da forma que foi fabricada e seu cumprimento, que variava ir desde a cintura até abaixo dos joelhos, possuindo manga curta ou longa, e podendo inclusive cobrir a cabeça como um capuz, o seu peso poderia variar de 10 a 20 kg. E somando o peso do restante do traje, com o elmo, escudo e a arma, o peso total poderia ser de 25 a 30 kg. 


Ilustração de dois cavaleiros e um soldado do século XIV. O cavaleiro italiano utiliza uma armadura de placas com cota de malha. O cavaleiro alemão e o soldado catalão usam cotas de malha. Ilustração de G. A. Embleton para o livro Italian Medieval Armies 1300-1500 (1983). 
Entretanto, Williams comenta o caso de cotas de malha mais curtas, que pareceriam uma camisa, as quais pesariam menos de 10 kg. Porém, a grande atenção que ele quer evidenciar é que algumas couraças datadas do século XIV, encontradas em Pistoia, na Itália, pesavam entre 2,5 a 3 kg. Uma outra couraça datada também do XIV, encontrada na Alemanha, tinha o peso de 4 kg. Se somarmos a condição que antes de 1420 os cavaleiros ainda não usavam armaduras de placas desacompanhas de cotas de malha, podemos fazer algumas somas básicas, baseadas no estudo de Williams. Sendo assim, se somarmos o peso de uma cota de malha curta, algo em torno de 8 a 9 kg, mais uma couraça que variava de 3 a 4 kg, mas as braçadeiras e caneleiras, as quais juntas poderiam pesar 3 kg, e por fim um elmo que poderia pesar de 1,5 a 3 kg, temos um total de peso em armadura de 15 kg a 20 kg. O que significa que se comparado apenas a cota de malha longa (hauberk), o guerreiro estava ganhando uns cinco a dez quilos a menos, o que poderia fazer a diferença no campo de batalha. 

Porém, essa diferença embora tenha sido explorada por alguns, os quais mantiveram o uso da cota de malha junto a couraça de ferro, mas como visto, isso não foi o suficiente. Optou-se em aumentar a quantidade de placas carregadas pelo cavaleiro, e isso embora possa ter fornecido proteção melhor, lhe custou a saúde. Mas quanto pesaria uma armadura de placas completa? Williams (2003) diz que o peso das armaduras variava de acordo com o material usado, se era ferro, ou aço de baixo carbono ou aço de alto carbono, a quantidade de peças que compunham a armadura no todo, as técnicas de forja, e as dimensões do usuário. Somando-se isso havia os modelos usados. Por exemplo, armaduras entre 1400 a 1450, ainda não cobriam plenamente o cavaleiro, deixando a parte de trás das pernas e dos braços desprotegidas. Posteriormente, já temos armaduras que cobriam esses pontos fracos. Sendo assim, o peso de uma armadura de placas variava de 25 kg a 40 kg. Um peso absurdo para um homem carregar.


Brian Price (2000) comenta que dependendo do modelo da armadura a quantidade de peças variava. E daí advém seu nome, armadura de placas. Price (2000) e Williams (2003) comentam que uma armadura de placas era em essência um conjunto de peças feitas de ferro ou aço. Durante os séculos XIV e XV foi mais comum usar o ferro na forja dessas placas. Porém, na segunda metade do século XV passou a se usar mais o aço, inicialmente de baixo carbono (mais maleável, menos duro, e mais barato), depois o de alto carbono (mais rígido, duro e caro). Mas independente de se usar ferro ou aço, a armadura era feita de placas desses metais, as quais seriam moldadas para tomar a forma desejada. 


Anatomia de uma armadura de placas do século XV. 
Algumas armaduras usadas nos séculos XIV e XV, possuíam em torno de dez peças: peitoral, elmo, braçadeiras (2), caneleiras (2), escarpes (2), ombreiras (2). Porém, armaduras dos séculos XV e XVI, poderiam ter mais de vinte peças: peitoral, elmo, gola, saiote, caneleiras (2), braçadeiras (2), luvas (2), escarpes (2), joalheiras (2), cotoveleiras (2), coxotes (2), braçal (2), ombreiras (2). Entretanto, há um detalhe apontado por Alan Williams (2003), não significa que o uso de placas seja igual ao de peças. Por exemplo, um elmo dependendo do modelo, poderia ser feito de duas, três, quatro ou mais placas. 


Ilustração detalhada de uma armadura italiana de 1450, completa e algumas das várias peças pela qual era composta. Ilustração de Graham Turner para o livro English Medieval Knight: 1400-1500 (2001). 
Essas placas eram moldadas pelo ferreiro e seus ajudantes, e dependendo de quantas peças tivessem, o modelo adotado e o tempo de trabalho diário, poderia demorar semanas para se produzir uma só armadura. É evidente que com o tempo criou-se técnicas para agilizar o processo, como a criação de fôrmas para algumas das peças. Além da condição que ferrarias renomadas possuíam muitos funcionários para agilizar o processo. 

Outra informação importante é o fato que uma pessoa sozinha teria dificuldade de vestir uma armadura dessa. Diferente do que se ver em filmes e desenhos, onde guerreiros vestem sozinhos suas armaduras, não era bem assim que a coisa funcionava. O cavaleiro até poderia colocar algumas das peças da armadura por conta própria, mas outras, que se necessitava prender as presilhas na parte de trás das costas, ou na parte de trás dos braços e pernas, era tarefa difícil. Assim, era comum eles terem escudeiros ou pajens para auxiliar na vestidura e no despir das armaduras. Mesmo uma simples cota de malha poderia ser difícil de remover, ainda mais, após uma batalha, onde o corpo estava cansado e talvez ferido. 


Ilustração recriando um acampamento militar italiano no século XVI. Em destaque um escudeiro ajudando seu senhor a vestir sua armadura. Ilustração de Graham Turner para o livro Condottiere: 1300-1500 (2007). 
O combate com armaduras:

Vimos que o peso das armaduras de placas poderia variar dos 25 aos 40 kg, algumas até passariam de isso, em casos menos usuais. Porém, os estudiosos consultados para esse estudo, apontam que em geral o peso dessas armaduras girou em torno dos 25 a 30 kg. Se pensarmos que um homem adulto em média possui seus 70 a 80 kg, logo, ele pesaria cem ou mais quilos. Sendo assim, para fatores de massa x velocidade, levar um golpe de um cavaleiro de armadura

Apesar de parecer um peso bem exagerado, o que dificultaria a mobilidade dos cavaleiros, a realidade não era bem assim. Os cavaleiros de fato tinham sua agilidade reduzida pelo peso extra, mas isso não significa que eles não pudessem se movimentar de forma adequada. Se as armaduras não fossem práticas, elas teriam sido abandonadas, mas a realidade foi que por mais de 200 anos elas foram utilizadas. Sendo assim, elas não eram tão ruim assim. 

A mobilidade com uma armadura de placa dependia de alguns fatores: a) treinamento militar, b) condição física, c) saúde física e mental durante o conflito, d) modelo de armadura, e) qualidade da armadura. Esses são fatores a serem cogitados. Um homem que não tivesse um treinamento militar para combater usando esse tipo de armadura, era um alvo fácil. Sem condição física para aguentar o peso extra, ele em poucos minutos estaria cansado, o que não era viável para uma batalha que poderia durar uma hora ou mais. Se a saúde física ou mental dele estivesse abalada no dia da batalha, isso comprometeria seu desempenho na luta. Algumas armaduras eram mais rígidas, afetando a movimentação das pernas e braços. Armaduras enferrujadas ou danificadas, poderiam atrapalhar na movimentação e não concederiam defesa adequada.


Página de um manual de combate datada de aproximadamente 1500. Na página em questão, ensina-se duas técnicas de luta. 
Os manuais de combate (conhecidos em alemão como fechtbuch) são uma ótima forma de ver como era a movimentação dos cavaleiros e soldados que trajavam armaduras de placas. Além disso, há relatos de cavaleiros que escreveram esses manuais, apresentando dicas para treinamento, o que incluía, correr, subir escadas e pular pequenos muros, trajando a armadura, a fim de se acostumar com a limitação de movimento e o peso delas. Além disso, os cavaleiros recomendavam um treinamento para os braços e as pernas, a fim de fortificá-los. Para além do treinamento físico, os manuais também expunham várias instruções de combate, usando espadas, lanças, alabardas, maças, martelos, punhais e até combate desarmado. Alguns manuais também apresentavam regras de disciplina e cordialidade. Esses manuais foram populares na Alemanha, Itália, França, Espanha e Inglaterra, dando origem a escolas desses países. (TURNBULL, 1995). 

Não obstante, a possibilidade dos cavaleiros usando essas armaduras, conseguirem correr, pular, escalar, cair e levantar, já desmente a ideia de que eles tivessem a mobilidade enrijecida e só conseguissem lutar montados em cavalos. Um estudo francês realizado em 2011, mostrou dois voluntários usando armaduras do século XV, e executando alguns movimentos de ataque e outros movimentos de locomoção. Assista o vídeo abaixo:



Nesse vídeo produzido para o Museu Nacional na França, vemos que os dois voluntários trajando armaduras de placas, conseguem cair e levantar, subir e descer uma escada, rolar no chão, fazer polichinelo, e sobretudo, lutar. As técnicas de combate eram algo importante tanto quanto o condicionamento físico. Pois embora você fosse forte e conseguisse aguentar o peso da armadura, se você não soubesse como enfrentar um adversário usando uma armadura igual a sua, isso era um problema. 

Diferente do que se ver em filmes, desenhos e videogames, onde temos cavaleiros trajando armaduras de placas e disferem espadadas que cortam o aço, na realidade não era isso que ocorria. As espadas não penetravam as placas de ferro e nem de aço. Mesmo, alguns machados e lanças não conseguiam perfurar as placas. Martelos e maças causavam dando de impacto, não de corte, sendo a intenção dessas armas esmagar ossos. Por outro lado, alguns tipos de armas como o bico de corvo, o martelo com ponta e a alabarda poderiam perfurar as armaduras. Mas eram armas difíceis de usar, principalmente a alabarda pelo peso. 

Bicos de corvo, armas desenvolvidas no século XIV para serem usadas contra cavaleiros ou guerreiros usando armaduras de placas. A arma era três em um, pois permitia cortar, estocar e bater.
Apesar desse treinamento o combate com essas armaduras ainda era uma atividade árdua. Os cavaleiros se queixavam de dores nas costas, ombros e pernas, após uma sessão de treino ou de combate. Correr e escalar com essas armaduras também demandava um esforço de respiração. Como em geral eles usavam elmos com abertura pequenas para os olhos, isso dificultava a entrada de ar nos elmos, o que afetava o desempenho dos cavaleiros. Se um deles fosse derrubado. O peso da armadura poderia comprimir seus pulmões, deixando-o momentaneamente com falta de ar. Se um cavaleiro estivesse montado a cavalo, enquanto se movimentava e fosse derrubado, a queda poderia inclusive causar mais dano do que o impacto que o derrubou. Dependendo da velocidade que ele caiu, somado ao peso que ele carregava, costelas poderiam se fraturar. Mas mesmo com tais riscos, isso não impediu o uso longevo dessas armaduras. 

Ilustração imaginando como teria sido a Batalha de Wickerfiled, ocorrida em 31 de dezembro de 1460. Ilustração de Graham Turner para o livro English Medieval Knight: 1400-1500 (2001). 
Armaduras para cavalos:

Num texto sobre armaduras e cavaleiros, não poderia ficar de fora os cavalos, os quais completam o trio icônico do medievo e começo da modernidade. O uso de armaduras para cavalos não foi uma invenção do final do medievo, outros tipos de armaduras feitas de couro, tecidos, cota de malha e de escamas já haviam sido utilizadas na Europa e na Ásia, desde a Antiguidade. Mas a novidade no medievo europeu foi a adoção de armaduras de placas também para cavalos. Inicialmente feitas de ferro e depois feitas de aço. As armaduras para cavalos seguia a mesma forma de produção do que as armaduras para humanos; eram placas de metal, as quais eram cortadas e moldadas para assumir determinadas forças nas quais cobririam partes do corpo do animal. No caso dos cavalos, as armaduras não lhe cobriam o corpo todo, as pernas ficavam livres para não atrapalhar a locomoção. 

Anatomia de uma armadura equina do século XV. 
As armaduras equinas também variavam de modelo, mas em geral possuíam bem menos peças do que uma armadura para pessoas. A armadura equina trabalhava com três partes principais: proteção para o peito, ou seja, o peitoral, a proteção para a garupa (bard), a proteção para a cabeça e a nuca. Em alguns casos havia uma proteção para o pescoço ou apenas para a cabeça, não tendo a proteção para a nuca. De acordo com Williams (2003) uma armadura equina dependendo do tamanho do cavalo e do número de peças, pesava de 40 a 60 kg. Mas como os cavalos de guerra usados eram animais robustos, eles conseguiam carregar esse peso, que passava facilmente dos 150 kg extras, considerando a soma do peso da armadura com o peso do cavaleiro trajando armadura. Fora que esse peso total era acrescido com a sela e as armas que o guerreiro carregasse. 

Edge e Paddon (1991) assinalam que as armaduras equinas surgiram principalmente pela condição de que os cavalos eram alvos mais fáceis do que os cavaleiros. Sendo assim, optava-se em ferir ou matar o cavalo, fazendo-o derrubar o cavaleiro, o qual estando caído, estava vulnerável para ser atacado e morto. Assim passou entre os séculos XIV e XVI usar-se armaduras em cavalos para assegurar sua proteção, a fim que o animal não fosse ferido num ataque e isso não compromete-se o cavaleiro. Todavia é preciso salientar que nem todo cavalo fazia uso dessas armaduras, as quais eram caras e pesadas. Em pinturas medievais e modernas vemos cavaleiros com armaduras de placas, mas seus cavalos não apresentavam tais armaduras, e em alguns casos, usavam apenas um peitoral, para proteger um dos locais mais vulneráveis. 

Cavaleiros e cavalos trajando armaduras de placas do final do século XV. 
Considerações finais:

Ewart Oakeshott (2000, p. 197-198) comenta que no século XVI até mais ou menos 1550, o uso de armaduras de placas ainda continuava para fins de combate e era um comércio bem rentável. Apesar que nesse período tenha se desenvolvido as "armaduras artísticas" ou "arte em armadura", o que revela um apreço mais estético e ornamental a esse tipo de traje de combate. No entanto, ele comenta que após 1550, o uso dessas armaduras para fins militares praticamente foi decaindo com a adoção de novas formas de se fazer guerra. Com exceção de monarcas, príncipes, duques, condes ou algum nobre muito rico, que vez ou outra fazia uso dessas armaduras para ir ao campo de batalha, os seus exércitos já não contavam tanto com cavaleiros e soldados trajados dessa forma. Em alguns casos, os cavaleiros e soldados usavam versões mais simples de armaduras de placas, ou apenas a couraça ou peitoral, junto com braçadeiras, tornozeleiras e o elmo. 

Edge e Paddock (1991) apontam que o uso de armaduras de placas ainda se manteve no século XVII, como comentado por Blair (1959), porém, não tendo sido um uso propriamente no campo de batalha, mas para torneios, pois os torneios de justas continuaram até o XVII, quando entraram em declínio e foram abandonados. Por outro lado, a compra de armaduras requintadas ainda permaneceu entre a nobreza, fosse para fatores de nobres se exibirem em pinturas, ou para ornamentar seus castelos e palácios. 

Embora as armaduras requeressem um grande esforço físico dos cavaleiros,  um treinamento de qualidade, como também foram equipamentos caros, isso não as tornou inviáveis, pois entre os séculos XIV ao XVI as armaduras de placas foram usadas nos campos de batalha da Europa. Seu legado durou mais de duzentos anos, assim como, também permitiu o desenvolvimento de técnicas de combate, técnicas de forja, um comércio lucrativo, o crescimento de cidades, a expansão da arte em metalurgia. E após seu declínio como equipamento militar, elas continuaram como artigos de luxo, e ainda hoje nos encantam, quando visitamos museus, castelos ou palácios que contém esses trajes de ferro ou aço. 

NOTA 1: Alguns elmos do século XIV possuíam uma espécie de "bico", pois acreditava-se que caso o cavaleiro fosse golpeado no rosto, o "bico" ajudaria a amortecer o impacto. Esteticamente tais elmos eram estranhos, e foram abandonados posteriormente. Mas a ideia do elmo manter um espaço do rosto, não apenas servia para sua proteção, mas também para permitir circular o ar. 
NOTA 2: As armaduras negroli e modrone baseavam-se em referências greco-romanos, inclusive com direito a recriar armaduras usadas pelos antigos romanos e gregos. Os motivos de ornamentação de algumas peças também advinham da mitologia grega, como escudos com a cabeça da medusa, elmos com sereias, cabeça de dragão, leão, lobo, etc. Elmos representando os cabelos e barba de estátuas gregas. 
NOTA 3: Além de armaduras para cavalos, cães de guerra também receberam armaduras, embora tenha sido algo menos usual.
NOTA 4: Algumas armaduras para cavalos, exibiam chifres ou um chifre de unicórnio. Os atributos eram mais estéticos do que funcionais. 
NOTA 5: Muitas armaduras não possuíam proteção para a genitália. Logo, fazia-se uso de cota de malha e calças. Porém, para contornar esse problema, algumas armaduras faziam uso de saiotes ou de uma calça com proteção peniana, algo bem estranho. O rei Henrique VIII da Inglaterra possui algumas armaduras com essa proteção peniana.
NOTA 6: Em alguns filmes, desenhos e jogos de videogame nota-se armaduras femininas que possuem seios moldados no peitoral. Historicamente isso nunca existiu. Primeiro que as mulheres não iam a guerra com frequência, e quando faziam, elas usavam equipamento que era feito para os homens. Joana d'Arc que é um caso de uma mulher que foi para batalhas, vestia-se com uma armadura típica da época. 

Referências bibliográficas:
BLAIR, Claude. European Armour: circa 1066 to circa 1700. London, B. T. Batsford LTD, 1959. New York, Crescent Books, 1991. 
EDGE, David; PADDOCK, John Miles. Medieval Knight: an illustrated history of weaponry in the Middle Ages
GRAVETT, Christopher. English Medieval Knight: 1300-1500. Ilustrated by Graham Turner. Oxford, Osprey, 2001. 
GRAVETT, Christopher. German Medieval Armies: 1300-1500. Ilustrated by Angus McBride. 
MURPHY, David. Condottieri 1300-1500: infamous medieval mercenaries. Ilustrated by Graham Turner. Oxford, Osprey, 2007. (Warrior, 115). 
NICOLLE, David. French Armies of the Hundred Years War. Ilustrated by Angus McBride. London, Osprey, 2001. (Men-at-Arms Series, 337). 
NICOLLE, David. Italian Medieval Armies: 1300-1500. Ilustrated by G. A. Embleton. London, Osprey, 1983. (Men-at-Arms Series, 136). 
PHYRR, Stuart W; GODOY, José A. Heroic Armor of the Italian Renaissance Filippo Negroli and his contemporaries. New York, The Metropolitan Museum of Art, New York, 1999. 
PRICE, Brian R. Techniques of Medieval Armour Reproduction. The 14th Century. Colorado, Paladin Press, 2000. 
OAKESHOTT, Ewart. European Weapons and Armour. From the Renaissance to the Industrial Revolution. Woodbrigde, Boydell Press, 2000. 
TURNBULL, Stephen. The book of the Medieval Knight. London, Cassel Group, 1995. 
WILLIAMS, Alan. The Knight and the Blast furnace: a history of the metallurgy of armour in the Middle Ages & the Early Modern Period. Leiden/Boston, Brill, 2003. 
WISE, Terence. Medieval European Armies. Coulor plates for Gerald Embleton. Oxford, Osprey, 1975. (Men-at-Arms Series, 50). 






quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Cruzes caídas na terra do sol nascente: a perseguição ao cristianismo por Toyotomi e os Tokugawa (1587-1640)



Introdução:
       
O intuito dessa introdução é apresentar de forma geral alguns fatos históricos importantes sobre a chegada dos portugueses ao arquipélago nipônico, e alguns aspectos da situação do país no século XVI e como tais características se relacionaram com as missões jesuíticas responsáveis pela evangelização destes pagãos como eram chamados na época.

De certa forma o Japão não foi descoberto pelos europeus no século XVI, na realidade os europeus já possuíam certa noção sobre sua existência, graças ao mercador, explorador e embaixador veneziano Marco Polo (1254-1324), o qual em sua longa estada de pelo menos 16 anos no império sino-mongol de Kublai Khan (1215-1294), Polo em seu livro escrito após seu retorno para Veneza, nos falara sobre um país chamado de Cipango (variação do chinês, Je-pen Kuou, que significa “País do sol levante”), o qual ele dizia ficar a leste da China, sendo uma nação rica em prata, governada por um imperador pagão.

Cipango é uma ilha do Levante, que está afastada da terra 1.500 milhas. É uma ilha muito grande. Os indígenas são brancos, de boas maneiras e formosos. São idólatras e livres, têm um rei próprio, que não é tributário de nenhum outro. Têm ouro em abundância, mas o rei não deixa levar, e por essa razão há lá poucos mercadores e poucas vezes vão ali as naus. (POLO, 2009, 200).

Evidente que Marco Polo não visitou Cipango, que posteriormente as traduções de seu livro originaram o nome de Japão, mas em 1492, Cristóvão Colombo (Bossong, 2003, p. 215) em sua missão de descobrir uma rota marítima pelo Ocidente para chegarem as Índias, levava consigo o livro de Polo, e Colombo cogitava poder chegar a Cipango ou a China.

Contudo, o primeiro contato que os europeus tiveram com o arquipélago japonês, ocorreu em 1543[1] ou no 12º ano da Era Tembun, onde três marinheiros portugueses de nomes Antônio da Mota, Francisco Zeimoto e Antônio Peixoto, abordo de um junco chinês que partiu da colônia portuguesa de Macau no sudeste da China. O navio mercantil foi retirado da rota por uma tempestade, e os ventos o levou para noroeste.
E em 23 de setembro daquele ano, a embarcação chegou à ilha de Tanexuma (atualmente Tanegashima) na província de Kyushu no sul do país. Na ocasião eles foram vistos com olhares de curiosidade, pois foram os primeiros europeus a chegarem ao Japão. Contudo, além de suas roupas e aparência, o que chamou a atenção dos nativos foram suas armas de fogo, onde abordo do junco havia alguns mosquetes. Tal fato foi tão marcante que o governador da ilha na época deixou registrado o informativo de ter comprado algumas daquelas armas trazidas pelos estrangeiros. Em 1606 foi publicado o livro Teppô-ki (A Crônica da Espingarda), relembrando esse acontecimento.

“Introduzia-se a arma de fogo no Japão. A espingarda trazida pelos portugueses era de poder incomparavelmente superior a todas as armas até então conhecidas, razão porque foi logo aproveitada pelos lordes feudais de todo o país. Surgiram fábricas de mosquetes em Sakai (perto de Osaka) e outras cidades, e a tática de guerra sofreu profunda modificação”. (YAMASHIRO, 1964, p. 90).

As armas realmente tiveram grande influência nas táticas de guerra dos japoneses a partir desse primeiro contato, afinal o país vivia em um estado de guerra há vários séculos, e a necessidade de novas técnicas e armas era imprescindível para contribuir no êxito das campanhas militares[2].

O Japão do século XVI ainda vivenciava seu período feudal, iniciado no século XII quando o Clã Minamoto ao derrotar o Clã Taira em 1185, firmaram sua influência e poder sobre a província de Kamakura e criaram o Kamakura Bakufu (“Posto Militar de Kamakura”) dando início ao período feudal e ao governo militar, onde o xogum (“comandante-geral” ou “general”) se tornou a figura política mais importante do país, suplantando a autoridade política e militar do imperador (Tennō), relegando apenas a autoridade religiosa e simbólica a este.

“A transformação do Estado Ritsuryo em Estado Feudal (bakufu) não significa apenas a transferência do poder político das mãos dos nobres palacianos para as dos samurais em ascensão, com radical mudança no sistema social e econômico. Na verdade, verifica-se uma profunda modificação em toda sociedade nipônica - atingido todas as classes sociais - inclusive alteração sensível na mentalidade dos homens. Registra-se uma grande transformação nas esferas do pensamento e da cultura”. (YAMASHIRO, 1978, p. 77).
       
O ano de 1543 ou 12º ano da Era Tembun se encontrava na fase mais sangrenta e turbulenta da história feudal japonesa, chamada de Período Sengoku Jidai (c. 1467-1573), conhecido como “Período das Guerras Feudais” ou “Período dos Reinos Combatentes”, foi à época onde as guerras se intensificaram, onde os complôs, traições, armadilhas, golpes, assassinatos, etc., se tornaram mais comuns na sociedade (DUUS, 1976, p. 20).

Contudo, os japoneses também desenvolveram uma nova nomenclatura histórica para se referir a esse momento da sua história, foi criado o termo Período Nanban (1543-1639), período no qual o país tivera intenso contato com os europeus, sendo primeiro os portugueses e em seguida vieram os espanhóis, ingleses e holandeses. Os europeus foram inicialmente chamados de nanban ou nanbanjin (“bárbaros do sul”), termo antes usado para se referir aos chineses, mas acabou se tornando uma terminologia comum a qualquer europeu que ali chegasse.

Mas, mesmo com esse alto nível de violência a qual para os estrangeiros não era bastante perceptível devido à reclusão do país em assuntos exteriores, Portugal decidiu se aproximar do país, mesmo assim.

Outros comerciantes retornaram ao Japão nos anos seguintes, contudo o jesuíta São Francisco Xavier[3] (1506-1552) decidiu realizar a primeira missão cristã ao Império do Sol Nascente. Quando em 1547 de volta a Malaca, Francisco Xavier conheceu o aventureiro português Fernão Mendes Pinto (1510/14-1583) o qual havia regressado de outra viagem que fizera ao Japão.

Na ocasião o aventureiro retornou do país acompanhado de um japonês de nome Angirô, o qual era acusado de homicídio, então acabara fugindo do seu país. Angirô o qual sabia falar um pouco de português mostrou interesse na fé cristã, e no mesmo ano, Francisco Xavier o batizara, e ao mesmo tempo Angirô passara a adotar o nome cristão de Paulo de Santa Fé, decidindo se tornar também um missionário.

Francisco Xavier passou o ano de 1548 na Índia, até que viajou novamente para Malaca, de lá partiu para Macau com o intuito de pegar um navio para ir ao Japão. Na ocasião, Paulo de Santa Fé e mais dois missionários que sabiam falar japonês, o padre Cosme de Torres e o irmão João Fernandes seguiram junto, nessa que seria a primeira missão religiosa cristã ao país[4]. 

Os quatro viajantes chegaram em julho de 1549 ou no 18o ano da Era Tembun em Kagoshima na ilha de Kyushu (o Japão possui cinco grandes ilhas que englobam várias províncias menores). Francisco Xavier entrou em contato com a família Shimazu, a qual havia mostrado interesse pelo comércio lusitano que vinha sendo desenvolvido nestes últimos anos. Francisco conseguiu convencer Shimuza Takahisa a se converterem ao cristianismo e assim firmou uma aliança entre o daimiô (senhor feudal) com a religião e o comércio[5]. Shimuza se tornou responsável por assegurar a segurança da missão e fornecer recursos para a viagem deles a capital do país, a cidade de Miaco, além de ter-se tornado o primeiro daimiô a ser convertido.

Por dois anos Francisco Xavier e seus companheiros percorreram o sul do Japão realizando pregações e entrando em contato com outros daimiôs, tendo o êxito de converter alguns destes e suas famílias[6]. Tanto Francisco Xavier quanto outros jesuítas adotaram a “política da boa vizinhança”, onde procuraram aprender o máximo que pudessem sobre a cultura nipônica, evitando problemas com este povo belicoso.
De início os missionários sofreram com o choque cultural entra as várias diferenças entre a cultura nipônica e a cultura europeia, além da própria dificuldade de comunicação. No âmbito religioso, os três cristãos se depararam com as duas religiões predominantes no país: o Xintoísmo, religião tradicional de caráter nacionalista e estatal onde se adoravam vários kamis (deuses), e se tinha o imperador como uma figura divina.

“Diferentemente do cristianismo e do islã, o xintoísmo não tem um fundador. É tipicamente uma religião nacional, que ao longo dos séculos adotou tradições de várias outras religiosidades. Ela não conta com nenhum credo ou código de ética expressamente formulado. A essência do xintoísmo são a cerimônia e o ritual, que mantêm o contato com o divino”. (GAARDER, 2000, p. 89).

A segunda religião foi o Zen Budismo, religião mais organizada em termos de estrutura monástica em relação ao xintoísmo. Assim como outras vertentes budistas, seus preceitos básicos eram as ideias de iluminação (bodhi), carma e a reencarnação. Além disso, o zen também enfatizava a meditação e a procura da “iluminação” em aspectos cotidianos, logo, a filosofia zen acabou por influenciar desde atos simples como a cerimônia do chá, cuidar do jardim, preparar a comida, passando para a prática de alguns esportes e artes. Segundo o pensamento do zen, a iluminação[7] (chamada neste caso de satori) não possui uma fórmula que lhe diga como se alcança-la, essa pode vir a qualquer momento de uma forma desconhecida.

Diante dessas duas religiões profundamente enraizadas na cultura nipônica, os missionários viram alguns problemas: no xintoísmo havia a questão do politeísmo e da idolatria ao imperador, duas práticas contrárias ao que se prega o Primeiro Mandamento dos Dez Mandamentos. No caso do zen, os conceitos de iluminação, carma e reencarnação não fazem parte da doutrina católica, e iam contra o princípio de que Jesus era o caminho para Deus, e apenas Deus é o responsável por nossa salvação. A ideia de carma salienta que nós sejamos os responsáveis pela nossa própria salvação, daí a necessidade de se reencarnar em várias vidas para nos aperfeiçoar espiritualmente e nos livrar do ciclo das reencarnações (samsara) como diz o budismo.

Mesmo com tais diferenças religiosas, o cristianismo no início foi visto como uma curiosidade e um equívoco. Os japoneses passaram a chamar o cristianismo de kirishitan-shû, que literalmente significava “seita cristã”. Tal denominação se deve em repercutir num equívoco tomado pelos japoneses em se pensarem que o cristianismo fosse alguma seita budista[8]. Assim, através desse equívoco os primeiros convertidos estavam pensando que ingressaram em alguma vertente budista.

Não obstante, antes do árduo trabalho do padre Baltasar Gago em se criar uma gramática em português-japonês para auxiliar na evangelização por volta de 1558 ou 1559, era comum usar termos budistas, por exemplo, Dainichi ou Hotoke = Deus, tamashi = alma, Judo = Paraíso, Jigoku = Inferno, tenmin = anjos, para se referir a preceitos cristãos, pois facilitava a compreensão dos japoneses, embora que isso acabou gerando alguns problemas de entendimento. Posteriormente, os missionários preferiram japonizar algumas palavras portuguesas para evitar tais equívocos. Por exemplo, padre = bateren, Jesus Cristo = Iesu Kirisuto, irmão = iruman, cruz = kurusu.  

Mas, passado esse equívoco inicial, nos anos seguintes os japoneses passaram estar cientes de que o cristianismo não era uma seita budista, mas outra religião. Por outro lado, devido ao intenso período de conflitos, a própria classe sacerdotal budista havia se infiltrado nas disputas familiares e políticas, pondo em dúvida seus votos.

Quando os jesuítas chegaram, mostrando devoção, retenção, benevolência, polidez e seriedade, alguns dos japoneses compararam aquilo com a conduta moral do Bushidô (lit. “Caminho do guerreiro”) o guia do samurai (também chamados de bushi), onde se presava a obediência, servidão, fidelidade, honra, dedicação, polidez, benevolência, justiça e coragem. Além desse fato, havia o interesse econômico, pois muitos daimiôs receberam de bom grado os missionários, pois alguns destes possuíam ligações com o comércio. E o fato de se converterem era uma forma de se aproximar mais deles.
Os bonzos (monges budistas) viram sua influência e autoridade ameaçada em estarem perdendo fiéis para a fé estrangeira. Houve alguns desentendimentos entre o clero budista, os daimiôs e as autoridades do Estado em relação à pregação católica, contudo isso não desmotivou os jesuítas em prosseguirem com suas missões, as quais tiveram muito a contribuir, não apenas no aspecto religioso, mas em outras causas sociais.

“Havia padres jesuítas que se desfaziam de todos os bens pessoais no serviço da fé. Os jesuítas construíram leprosários, santa-casas de misericórdia, orfanatos, asilos, etc. E combatiam os maus costumes como o da venda de filhas, o de abandonar crianças na rua, etc., que a miséria impunha às classes baixas. Curavam doentes, aplicando a ciência médica do Ocidente então desconhecida no país”. (YAMASHIRO, 1964, p. 98-99).

Sabe-se que Baltasar Gago em 1553 criou uma enfermaria no Bungo, capital da província do Bungo, onde ele e outros jesuítas e católicos japoneses passaram a tratar os enfermos. Posteriormente, o médico e mercador Luís de Almeida (1525-1583) compadecido pela situação do singelo hospital jesuíta, decidiu entrar para a Companhia, e doou 2.000 cruzados (Carvalho, 1994, p. 101) para ajudar nas estalagens do hospital. Posteriormente, ele doou mais dinheiro e em 1557 inauguraram o Hospital do Bungo. Almeida se dedicaria de corpo e alma a catequização, passando o restante da sua vida no Japão.

Ao longo de seu governo de 1560 a 1582, Nobunaga tendo assim como outros daimiôs, simpatizado com os missionários () e também se interessado no comércio sino-lusitano, ambicionava concluir a reunificação do país e se tornar xogum, e ele soube usar a astúcia para manter seu apoio aos jesuítas e comerciantes portugueses os usando contra os bonzos (entre 1573 e 1578 no auge de suas campanhas militares, vários templos budistas foram saqueados, suas terras confiscadas, e os monges ou foram feitos prisioneiros ou foram executados), e ao mesmo tempo conseguiu apoio da Corte japonesa[9] para suas campanhas militares.

“Os territórios controlados por estes sacerdotes espalhavam-se a longo de seus domínios, assim, Oda Nobunaga temia que o poder dos bonzos sobre a população local viesse a se tornar um dos grandes obstáculos à unificação do país. Então, ele procurou estimular o choque cultural e religioso, entre os jesuítas e os bonzos, como forma de enfraquecê-los”. (LEÃO, 2010, p. 220).

Pelos seus feitos, Nobunaga chegou a receber os títulos honoríficos e políticos de Tenka (“Aquele que está abaixo dos céus”) e Sengoku-Daimiô (“Senhor do País”). Embora ele se mostrasse um homem tolerante com o cristianismo, ele diferente de outros daimiôs, recusou várias vezes a conversão. O padre Luís Fróis[10] (1532-1597) um dos notórios missionários neste período, autor de História do Japam (1583-1587), chegou a ser hóspede e a se tornar amigo do daimiô. Fróis descrevera que Nobunaga se apresentava como um homem mundano que se importava apenas com os prazeres terrenos, esbanjando seu poder e riqueza.

Ele também nos conta que embora um primo e um dos seus filhos tenham se convertido, isso não contribuiu para que o daimiô fizesse o mesmo. Fróis assinalara que Nobunaga era um “ateu”, pois o mesmo dizia que não havia vida após a morte e até mesmo duvidava da existência dos deuses.

No entanto, o padre Fróis também nos informou que sob a proteção de Nobunaga, várias igrejas, paróquias, hospitais e escolas foram fundados em seus domínios ou nos domínios de seus vassalos. Por mais que Nobunaga tenha se negado a conversão, ele mostrou interesse em apoiar os missionários, sendo evidente que não era por questões religiosas.

A fundação de Nagasaki[11] que data de 1570 é o resultado da colaboração de alguns daimiôs católicos como Otomo Yoshishigue (batizado como Francisco Otomo), senhor de Bungo, Arima Harunobu (batizado como Protasio Arima), senhor de Arima e Omura Sumitada (batizado como Bartolomeu Omura), senhor de Omura, com os jesuítas e comerciantes portugueses, isso tudo revela a importância comercial estrangeira no Período Nanban, como alicerce para garantir o desenvolvimento das missões. Em 1580 os ingleses chegaram à ilha de Herida, iniciando os contatos com este distante império.

Em 1582 os três importantes daimiôs católicos, Dom Francisco Otomo, Dom Protasio Arima e Dom Bartolomeu Sumitada enviaram uma embaixada para Portugal, mas devido a União Ibérica[12], eles seguiram para a Espanha, presenteando Filipe II, rei de Espanha e Portugal, e depois viajaram para Roma, para levar saudações e presentes ao papa Sisto V. Contudo, com a morte de Nobunaga ainda em 1582 ou 10º ano da Era Tenshô, a situação para o cristianismo no Japão começaria a mudar, adentrando uma fase de problemas.

Toyotomi retoma as hostilidades contra os cristãos:

Tendo sido vítima de traição de um dos seus próprios generais, chamado Akechi Mitsuhide (1528?-1582), o qual encurralou Nobunaga no templo Honno-ji em Kyoto, o que levou Nobunaga a cometer o seppuku (ritual de suicídio para se preservar a honra. Apenas praticado pelos samurais) do que se render, ser humilhado e executado pelo seu general traidor. Toyotomi Hideyoshi (1537-1598) um dos fiéis generais de Nobunaga jurou vingar a morte de seu senhor. Reunindo forças com outros daimiôs vassalos de Nobunaga, Toyotomi venceu o exército de Akechi em batalha, contudo, Toyotomi também aproveitou a ocasião para se apresentar como sucessor direto de seu senhor[13].

Embora tenha dado continuidade à unificação iniciada por Nobunaga, tendo concluído esse processo, pondo fim a 120 anos de guerra contínuas no país[14], Toyotomi dedicou-se principalmente a questões políticas e militares, algo que lhe tomou muita atenção, e nestes anos de 1582 a 1586 ele não mostrou interesse nos jesuítas e nos luso-hispânicos, mesmo assim, diferente de Nobunaga, Toyotomi não era um simpatizante do cristianismo, nesse ponto ele era mais conservador acerca da influência dos nanban sobre a cultura e a sociedade nipônica.
Nas cartas jesuíticas dessa época, notamos que os jesuítas não gostavam de Toyotomi, enquanto Nobunaga recebera louvores, Toyotomi era alvo de críticas negativas. Em 1585, Toyotomi recebera o título de Kampaku (regente), conotando sua grande autoridade adquirida em poucos anos que assumira os exércitos de Nobunaga, e a partir deste momento, ele começaria a se intrigar contra os missionários.

“Hideyoshi julgou que os sacerdotes estrangeiros não somente visavam à conversão do povo japonês à religião católica, como procuravam estabelecer o poder político ocidental (português ou espanhol) nas ilhas nipônicas. De fato, antes de Hideyoshi dominar Kyushû, os católicos controlavam o poder político e temporal da região de Nagasaki”. (YAMASHIRO, 1964, p. 100-101).

Em 25 de julho de 1587, Toyotomi Hideyoshi expediu o Édito de Hakata (entre os jesuítas e os mercadores luso-hispânicos ficou conhecido como Édito Anticristão) onde designava que os missionários deixassem o país e não retornassem mais. Além disso, ele também visava dessa forma frear a expansão católica que se espalhava por Honshu (a maior ilha do arquipélago).

O padre Gaspar Coelho antes da promulgação do édito tentou convencer o regente a se converter ao cristianismo, mas ele se negou veemente. Contudo, seu édito proibia apenas a vinda dos clérigos, mas mantinha os portos abertos para os comerciantes.

Entretanto, o édito promulgado por Toyotomi embora tenha causado impacto inicialmente, acabou não surtindo o efeito desejado, pois os jesuítas ainda continuaram a retornar ao país depois deste, mas limitando-se as províncias sulistas, mesmo assim, ele gerou alguns problemas para os jesuítas pela parte dos bonzos e de alguns japoneses que se apegaram a causa proposta pelo kampaku e passaram a hostilizar os japoneses católicos e os europeus.

Na tentativa de contornar esse problema iniciado com o Édito de Hakata, o Vaticano decidiu criar um bispado no Japão[15], visando que dessa forma isso o reaproximasse do país. O bispado foi criado em 19 de fevereiro de 1588 pelo papa Sisto V no feudo de Funai na província do Bungo (atualmente a cidade de Oita na província homônima).

Porém, a sede do bispado permaneceu inutilizada pelos anos seguintes, pois os bispos que foram nomeados para assumir o bispado japonês, ou morreram durante a longa viagem ou não ousaram adentrar o país, temendo retaliação pelo governo, e assim ficaram a “governar” a partir da Diocese de Macau, fundada em 1576.

Além desse problema que nenhum dos quatro bispos do Japão até então nomeados não chegaram a visitar o país de seu bispado, em 1589 os franciscanos chegaram ao país, e por volta da mesma época chegaram também os dominicanos.

As duas ordens religiosas seguiram para o Japão sob a influência do governo ibérico, já que estes já vinham sendo responsáveis pela catequização nas Filipinas. Contudo, o padre jesuíta italiano Alessandro Valignano[16] (1539-1606) que nos legou importantes testemunhos sobre a situação do país nesse período, menciona problemas de entendimento entre as três ordens religiosas, já que até então os jesuítas monopolizavam a pregação no país e agora teriam que dividir sua atuação com os franciscanos e os dominicanos, e isso não agradou a Companhia de Jesus.

Outro problema que Valignano apontou foi o fato de que muitos dos franciscanos eram espanhóis e italianos, contudo embora falassem bem o português, eles falavam pouco o japonês, e isso foi um problema para a catequização, e motivos para queixas por parte da Companhia de Jesus, a qual reclamava que tais missionários não possuíam capacidade para evangelizar os japoneses já que nem ao menos conheciam a língua nativa.

Em 1596 abordo do navio Santo Antônio, o bispo Pedro Martins finalmente chegou ao Japão, sendo o primeiro bispo a chegar ao país, como também de fato o primeiro bispo do bispado japonês a visitar o lugar, já que nenhum de seus antecessores havia feito isso. 

Uma das principais missões do bispo Pedro Martins era tentar por fim a perseguição dos japoneses cristianizados e dos missionários no país. Sendo assim, o bispo reuniu uma comitiva e foi ainda no mesmo ano, falar com o Taiko (“regente aposentado”) Toyotomi Hideyoshi.

O padre João Rodrigues[17] atuou como intérprete do bispo na reunião com o Taiko. Martins não apenas se apresentou como sendo bispo do Japão, mas como embaixador da Santa Igreja, do vice-rei da Índia e do próprio rei de Portugal e Espanha. 

Segundo o relato de João Rodrigues, Hideyoshi recebeu a comitiva do bispo com honra e gentileza, mas o mesmo não apresentou sinais que iria ceder a paz aos cristãos e aos demais estrangeiros que viviam no sul. Desanimado com a infrutífera visita, o bispo deixou Osaka e seguiu para Nagasaki passando o final do ano por lá, e em fevereiro do ano seguinte ocorreu a primeira grande tragédia para os cristãos no Japão.  

Nagasaki desde a década de 1570 se tornou uma cidade bastante ocupada por portugueses, fossem eles clérigos ou mercadores, tornando-se um dos principais portos envolvidos no comércio sino-português com Macau. Mas, no intuito de reconquistar as províncias do sul, nas quais viviam uma grande quantidade de católicos, Toyotomi ordenou que o governador de Nagasaki agilizasse a expulsão dos missionários, já que iria fazer dez anos que o Édito de Hakata havia determinado que os missionários não retornassem ao país e deixassem esse.

Vários anos se passariam sem grandes incidentes, algo que permitiu que os missionários mantivessem seus trabalhos nas províncias sulistas, contudo, no ano de 1596, ocorreu um incidente com um galeão espanhol chamado San Felipe. O navio que foi pego por uma tempestade teve que fazer uma parada de emergência em Urato. O navio iria seguir viagem para as Filipinas e de lá seguiria rumo para a Nova Espanha (atual México).

Na ocasião a embarcação foi abordada pelas autoridades. Durante o interrogatório informal, o capitão teria se vangloriado da extensão dos domínios do Império Espanhol, e em meio a sua conversa ele falou como era importante o papel dos missionários para se expandir os domínios da Igreja e da fé de Deus. Isso irritou as autoridades, então os seis franciscanos descalços que estavam abordo foram presos e a carga foi confiscada.

Em 5 de fevereiro de 1597 ou 4º ano da Era Bunroku na cidade de Nagasaki, 26 homens entre missionários e japoneses católicos (alguns da mesma família), trazidos de outras localidades, foram levados para Nagasaki, onde foram agredidos e depois conduzidos até uma colina próxima ao mar, nas cercanias do Hospital São Lázaro, fundado pelos jesuítas, próximo à estrada que levava para Miyako, onde normalmente criminosos eram executados.
Foram crucificados e furados com lanças[18]. Tal incidente ficou conhecido como o Martírio dos 26 de Nagasaki[19]. Dos 26 mártires, seis eram franciscanos descalços (os mesmos que foram presos abordo do navio San Felipe), sendo quatro espanhóis, um mexicano e um indiano; três jesuítas japoneses e dezessete japoneses católicos, sendo que desses dezessete, três eram seminaristas que estavam para ingressar na Ordem Terceira de São Francisco. 

O bispo Pedro Martins aterrorizado com tal sangrento ato, posteriormente escreveu um documento intitulado Instrumento autêntico da feliz e gloriosa morte de vinte e seis cristãos, que morreram crucificados por nossa santa fé em Nagasaki, a 5 de fevereiro de 1597, o enviando para os franciscanos nas Filipinas. O título do documento já conota que o bispo tentou amenizar o acontecimento, o enxergando como tido sido um “ato de fé” daqueles 26 mártires que “morreram defendendo o cristianismo”. O bispo nos relatou o seguinte:

“Colocaram as 26 cruzes no solo, e com cinco argolas de ferro, uma no pescoço, duas nos braços e duas nos pés, sujeitaram os corpos as cruzes. Logo levantaram as cruzes com os corpos. Todos os mártires davam sinais de alegria com cantos e animando-se. Foram profundamente feridos com as lanças dos ministros de justiça. Os cristãos que estavam próximos, choravam. A causa da morte estava escrita em língua japonesa: ‘porque estes homens não deixavam de pregar a Lei dos cristãos, que eu (Hideyoshi) proibi rigorosamente nos anos passados, mando que sejam crucificados em Nagasaki, deixando seus corpos na cruz. E eu proíbo de novo esta Lei baixo a mesma pena de morte’”. (LOPEZ-GAY, 1994, p. 93).

Após tal ato, Hideyoshi passou o restante do ano atento ao planejamento de sua segunda campanha a Coreia (a primeira foi enviada em 1552, resultando em êxito, contudo os chineses se uniram aos coreanos e derrotaram o exército de Hideyoshi). Determinado a reaver a Coreia e retomar a invasão ao Império Ming na China, Toyotomi dedicou-se a tais planos, mas durante uma reunião, ele passou mal e faleceu em 1598 aos 61 anos.

Pelo fato de seu único herdeiro, Toyotomi Hideyori (1593-1615) ser uma criança na época, um conselho regencial assumiu o controle, porém os próprios membros do conselho acabaram se desentendo e entraram em conflito. Além dos conselheiros, outros daimiôs também aproveitaram para formar alianças para disputar o título de xogum, e entre eles estava Tokugawa Ieyasu (1543-1616).

Os Tokugawa iniciam o período de expurgos:

De 1598 a 1600, guerras eclodiram pela disputa ao poder. Em 15 de setembro de 1600, Tokugawa Ieyasu venceu a Batalha de Sekigahara, dando início a sua ascensão ao poder. Ainda em 1600 em julho daquele ano antes da vitória de Tokugawa, um navio holandês chamado Liefde aportou na província do Bungo, e seu capitão William Adams viajou até Osaka para falar com o daimiô Tokugawa.

Os holandeses estavam interessados em fundar um posto comercial da Companhia das Índias Orientais (Vereenigde Oost-Indische Compagnie) em Hirado, algo que repercutiu em êxito. Posteriormente os ingleses também conseguira fundar um posto em Hirado. Porém, o estabelecimento dos holandeses e dos ingleses no país geraria conflitos de fator comercial e religioso com os portugueses e espanhóis.

Em 1603 ou 4º ano da Era Keisho, Ieyasu recebeu o título de xogum, pondo fim ao Período Azuchi-Momoyama (1573-1603) com a fundação do Tokugawa Bakufu ou Xogunato Tokugawa em Edo (atual Tóquio), designado Período Edo, que perduraria até o ano de 1867.

De 1598 até 1605 a perseguição aos cristãos se amenizou, embora as hostilidades se mantivessem em alguns cantos do país, mas sem grandes incidentes como visto em Nagasaki. Além disso, após assumir o poder, Tokugawa preferiu retomar a política da “boa vizinhança”, permitindo a reabertura de igrejas, paróquias, o retorno da realização de missas, além de permitir que comerciantes portugueses aportassem em outros locais antes proibidos.

Em 1605, Ieyasu renunciou o cargo de xogum a favor de seu filho Tokugawa Hidetada (1579-1632), contudo assumiu o título de Ogosho (“xogum aposentado”). Na prática, ele era o governante oficial, tomando as principais decisões.

Porém, no ano de 1606, o ogosho mudou drasticamente sua política externa em relação aos cristãos, dando início a uma política anticristã. Tokugawa começou a expedir ordens para proibir a construção de igrejas, paróquias e capelas; proibir que missionários adentrassem outras províncias, etc. Por outro lado, ele também procurou aumentar a fiscalização sobre os navios mercantis, criando o Shuin-sen (navios japoneses autorizados pelo xogunato a comercializar em outros países).

Tal condição foi uma forma de aumentar o controle sobre o comércio dos nanban, e ao mesmo tempo, influenciado pelos interesses dos holandeses em quererem se livrar da concorrência luso-espanhola, incentivaram no ogosho o descredito para os portugueses. Embora os holandeses fossem cristãos protestantes, eles alegavam que não tinham interesse missionário, mas apenas comercial.

Ainda no ano de 1606, Tokugawa decretou oficialmente que os nobres japoneses estavam proibidos de se converterem ao cristianismo. Procurando evidenciar a eficácia da sua medida, posteriormente ele afastou alguns nobres católicos de seus cargos e perseguiu outros, os enviando para o exílio, confiscando seus bens ou ordenando suas prisões.

Em 1608 ocorreu o incidente da nau Madre de Deus onde a tripulação formada por japoneses e portugueses que havia viajado para Macau, acabaram se desentendo e geraram uma briga que vitimaram alguns tripulantes japoneses. Ao retornar a Nagasaki os marinheiros japoneses contaram sua versão do incidente, acusando os portugueses de traição e violência, mas o capitão André Pessoa contou sua versão que se contrapunha a dos marinheiros japoneses.
Todavia, o fato chegou aos ouvidos do ogosho e esse acreditou na versão japonesa. O capitão Pessoa temendo o confisco de sua carga e de seu navio, tentou fugir, mas foi descoberto, então ordenou que o navio fosse explodido. Tal incidente aumentou ainda mais a desconfiança dos japoneses com os portugueses.

O sexto bispo do Japão, Luís Cirqueira em 1609 escreveu uma longa carta relatando ataques a japoneses católicos ocorridos desde 1603[20]. Não sabemos até onde vai à credibilidade do relato do bispo, mas ele nos informou que entre 8 e 9 de dezembro de 1603, três homens e três mulheres foram decapitados na província de Higo, por ordem do daimiô Kato Kiyomasa. Um dos homens era um menino chamado Luís e ele teria oito ou nove anos. Em 1605 outros dois japoneses foram mortos, ambos foram decapitados. Em 1608, outros seis foram executados na cidade de Yatshusiro, incluindo duas crianças.

Desde 1592, católicos japoneses já vinham deixando o país. O local de exílio eram as Filipinas, onde eles contavam com a proteção dos franciscanos. Cidades como Dilao, São Miguel e Pagranjan, foram algumas das cidades fundadas pelos exilados entre 1592 a 1622 nas Filipinas. Após os incidentes relatados pelo bispo, outros se sucederam e em 1614 o ogosho Tokugawa publicou o Édito de Expulsão Cristã.

Seu édito declarava que o cristianismo se tornava proibido, obrigava que os missionários parassem com a pregação e deixassem o país; ordenava que as pessoas que haviam se convertido ao cristianismo, o renegassem e aderissem ao budismo.

O édito também declarava que a fé cristã estava corrompendo os costumes japoneses, se tornando uma má influência, além disso, o documento alegava que os nanban planejavam um possível “golpe de Estado”. Se de 1606 a 1611 a situação embora instável, mas ainda assim foi rentável para as pregações, a partir de 1614, os expurgos se intensificariam.

No 18º ano da Era Keisho (1614), pelo menos 90 missionários abandonaram o país, além de outros 146 cristãos japoneses foram expulsos. Entretanto, em tais números não constam os que fugiram clandestinamente principalmente para as Filipinas e alguns para Macau. Tokugawa Ieyasu faleceu em 1616, mas os expurgos se mantiveram no governo de seu filho Hidata, incluindo proibições não apenas de caráter religioso, mas também comercial, pois ainda em 1616, Ieyasu proibiu que navios europeus aportassem em Nagasaki e Hirado.

Assim como seu pai, Hidata manteve-se enérgico ao se perseguir os missionários, embora ainda mantivesse tolerância com os holandeses por motivos comerciais. Os expurgos, as perseguições e assassinatos se mantiveram nos anos seguintes, mesmo assim, alguns missionários dedicados à sua missão se mantiveram escondidos no país e outros adentravam de forma clandestina. No caso dos comerciantes, alguns capitães temendo retaliações pelas autoridades passaram a evitar ir para os portos japoneses.

Após 1614 aumentou o número de ataques às igrejas, capelas, paróquias, hospitais, escolas e residências dos missionários. Os lugares eram saqueados e alguns eram incendiados. Sabe-se que imagens de Cristo na cruz, Nossa Senhora, crucifixos, quadros e outros relicários ou eram queimados ou eram jogados no meio da rua e quebrados a pisadas ou pauladas. Além da destruição material, as famílias católicas também passaram a ser perseguidas e vítimas de atrocidades, algumas já comentadas aqui. Se Toyotomi não procurou impor propriamente seu édito, os Tokugawa o fizeram com punhos de ferro.

As famílias que não conseguiam ou não queriam abandonar o país, tinham que mentir para as autoridades e a vizinhança, alegando não serem cristãos. Alguns dos missionários ou dos próprios padres japoneses que procuraram manter o sacerdócio passaram a agir na clandestinidade, realizando as missas em algumas casas de católicos devotos, ou até mesmo em cavernas e nas florestas. A pena de morte se tornou legalizada para os missionários e os padres.

Visando melhor controlar os cristãos que ainda restavam no país e concentrar a chegada de mercadores europeus, especialmente os portugueses, o xogum Hidata ordenou que Nagasaki se tornasse um “campo de concentração” para os cristãos. Em 1617, três missionários: um jesuíta, um franciscano e um dominicano, foram mortos.

A cidade de Omura passou a abrigar uma “prisão de cristãos”. As celas ficavam no subterrâneo e os prisioneiros viviam em condições subumanas. Alguns morreram devido aos maus tratos ou vítimas de torturas. Alguns dos cativos passaram anos presos no local.

Em 1622 seis missionários foram levados para lá, sendo três franciscanos, um dominicano e dois jesuítas chamados Carlos Spinola e Ambrósio Fernandez. Em agosto daquele ano, 52 presos de Omura foram levados para Nagasaki e reunidos com mais 30 cativos na cidade, e todos foram sentenciados a decapitação. Em 10 de setembro, mais 22 prisioneiros foram torturados, feridos e executados em Nagasaki, sendo uns queimados vivos e outros decapitados. Os padres Spinola e Fernandez morreram na ocasião.

“Pelo restante do mês de setembro até o começo de outubro, mais de trinta pessoas foram executadas, o que incluiu crianças, pois os filhos dos prisioneiros não foram poupados. Tal incidente ficou conhecido como o ‘Grande Martírio’, onde mais de cem pessoas foram executadas em menos de 60 dias”. (Bernard, 1920, p. 71).

O Monte Unzen na província de Arima, conhecido por suas fontes termais, foi apelidado pelos cristãos como “Monte Infernal”, pois alguns cristãos eram ali levados e “cozinhados vivos” nas águas sulfurosas. Não temos relatos exatos de quantos ali padeceram de terrível fim. Todavia, não foi apenas gente das camadas populares a serem perseguidos, presos e executados, os nobres cristãos não foram poupados. Houve casos de daimiôs e samurais, onde eles e seus familiares foram executados e seus bens confiscados pelo Estado.

Em 20 de julho de 1626 ocorreu o “Martírio de fogo”. O então governador do Japão, Francisco Pacheco[21], acompanhado dos padres João Baptista Zola e Baltasar de Torres, mais quatro jesuítas japoneses, um jesuíta coreano e nove japoneses católicos, totalizando quinze pessoas, todos em junho daquele ano foram queimados vivos em fogueiras. Em 1630 em Amakusa, trinta crianças católicas foram colocadas em poços, deixadas sem comida e água, expostas o dia todo ao sol. Todos morreram.

Com a morte de Tokugawa Hidetada, seu filho Tokugawa Iemtsu (1604-1651) continuou com a política anticristã, mas também deu início a política de fechamento do país. Em seu governo, o império nipônico se isolaria para os europeus e outras nações asiáticas (os chineses e holandeses ainda continuariam a visitar a nação, mas com menor regularidade). Sob seu governo as perseguições e assassinatos se mantiveram, e em 1637-1638 ocorreu o último grande ato envolvendo cristãos japoneses no Período Nanban, a chamada Revolta de Shimabara. (Caddill, 1856, p. 125).

No 14º ano da Era Kwan-ei eclodiu na península de Shimabara, feudo de Hiruzen na ilha de Kyushu uma rebelião formada em grande maioria por camponeses católicos, os quais foram liderados por Amakusa Shiro (1621?-1638), um jovem camponês carismático que tomou para si as dores de seus compatriotas, conseguindo reunir um exército de cerca de 20 mil homens.

Grande parte dos camponeses da região era cristã, logo com a política anticristã dos Tokugawa eles sofreram com as perseguições, esse foi um dos fatores para sua revolta, mas somando-se a essa causa religiosa, havia o fator político, pois os daimiôs de Shimabara e Amakusa (ilha vizinha) aumentaram a cobrança de impostos, além de haver queixa por parte da população rural acerca dos seus governantes.

O xogum reuniu um exército de mais de cem mil guerreiros e ordenou o massacre dos rebeldes. Até mesmo os holandeses foram obrigados a enviar navios para bombardear o reduto dos insurretos. Embora estando e maior número, a batalha não foi fácil, os rebeldes conseguiram resistir por cinco meses de cerco. Mas, no fim o exército do xogum triunfou e executou além dos rebeldes, seus familiares e outros católicos que não aderiram à causa. Estima-se que cerca de 37 mil foram mortos na retaliação. Amakusa Shiro foi decapitado, sendo sua cabeça exibida em Nagasaki. O xogum Iemitsu cogitou que a revolta teria sido incentivada pelos nanban, e isso o levou a tomar medidas mais drásticas nos anos seguintes.

Em 1639, o xogum expediu o Édito de Isolamento[22], decretando que nem missionários e nem comerciantes portugueses, espanhóis e ingleses deveriam retornar ao país. Apenas os chineses e holandeses ainda seriam tolerados. A medida não foi efetivada logo para os comerciantes, contudo, os portugueses, espanhóis e ingleses ficaram retidos apenas a aportarem em Nagasaki, se algum navio aportasse em outro porto, seria confiscada sua carga e sua tripulação seria deportada.

Tentando recuperar o bom entendimento com o xogum, o governo de Macau enviou uma embaixada de 74 membros liderados por quatro embaixadores, contudo, o xogum ordenou a execução destes, e apenas 13 retornaram para Macau, levando a mensagem de nunca mais voltarem.

Como parte da política de isolamento, os estrangeiros começaram a serem todos enviados e condicionados em Nagasaki, além disso, sabe-se que os mestiços, sendo estes filhos de japoneses com portugueses, espanhóis e ingleses foram obrigados a deixar o país, pois o governo visava extirpar a influência estrangeira na nação.

Outra medida tomada foi o efumi, uma prática na qual os japoneses eram obrigados a pisotear imagens cristãs ou a quebra-las, como forma de averiguar se ele seria ou não um cristão. Além disso, foram oferecidas recompensas por informações que denunciassem a localização de padres, missionários, de famílias cristãs ou locais onde missas eram celebradas. O governo também voltou a cobrar que as pessoas declarassem publicamente e oficialmente que eram budistas ou xintoístas.

Considerações finais:

Em 1641, o escritório comercial da Companhia das Índias Orientais que ficava em Hirado foi transferido para o distrito de Deshima em Nagasaki, e os mesmos também foram proibidos de aportar em outros portos do arquipélago e até mesmo de deixarem a cidade sem autorização. Cada vez mais a política de isolamento ia fechando as portas da nação. Os missionários que tentavam entrar ilegalmente no país, se fossem descobertos eram executados. Os cristãos japoneses que ainda mantiveram sua convicção pela fé, entraram definitivamente na clandestinidade.

Posteriormente foi criado o termo kakure kirishitan (“cristãos escondidos”) para se referir aos católicos japoneses que mantiveram sua religião após o final do Período Nanban. Os japoneses foram proibidos de deixarem seu país, e apenas os chineses e holandeses podiam entrar na nação, mas estando limitados pelos anos seguintes a Nagasaki. Para não perder contato total com o exterior, o governo incentivou o Rangaku (estudos holandeses), no intuito de incentivar seus estudiosos a aprender a falar e ler holandês.
No que tange no quadro dos missionários, com a suspensão definitiva do bispado japonês, e a proibição de navios ibéricos em seguirem para o país, gradativamente os missionários deixaram de se arriscar a entrar clandestinamente, e o cristianismo no Japão ficou sob a incumbência dos padres japoneses, os quais tiveram que se valer de suas aulas e da lembrança para continuar a exercer o sacerdócio, já que a Bíblia só foi traduzida integralmente para o japonês apenas no século XIX.

Os missionários dispunham de manuais de evangelização e de alguns capítulos traduzidos, sendo que muito desse material se perdeu ou foi destruído nas perseguições. Isso gerou o problema que a população que não possuía muitos clérigos (alguns fiéis passaram a se apresentar como “sacerdotes cristãos”, embora não possuíssem a formação do sacerdócio), começou a adotar sincretismos religiosos para dar continuidade à liturgia católica, mas também para ocultar suas práticas do governo.

De certa forma isso não foi uma novidade, já que desde a época de São Francisco Xavier os missionários vinham adotando sincretismos para facilitar à absorção dos japoneses a doutrina católica. Fosse à adoção de termos budistas, ou até mesmo em aspectos ritualísticos vistos em ritos xintoístas como danças, uso de incenso, uso de quimonos, e outros apetrechos nas celebrações litúrgicas (JANEIRA, 1998, p. 143-154). O oposto também ocorreu, onde aspectos culturais portugueses influenciaram a arte, arquitetura, vestuário e alguns costumes japoneses, algo que foi chamado de Nanbanbijutsu (lit. “estilo nanban”).  

Mas, com a ausência dos missionários para guiar de forma correta o ensino e a pregação, isso levou ao surgimento de uma doutrina católica miscigenada, formada por sincretismos entre o catolicismo, o zen budismo, o xintoísmo e até mesmo por aspectos culturais, filosóficos e morais do confucionismo e da própria cultura japonesa.

“A política anti-cristã dos Tokugawa perdurou durante todo o seu longo governo do Japão e ainda nos primórdios da era de Meiji (1867-1912). Durante algumas décadas, os cristãos resistiram de modo organizado mesmo no centro do país, pois entre 1664 e 1667 foram descobertos e aprisionados mais de 2.000 na região de Mino e de Owari. No entanto, o Cristianismo nunca foi erradicado do país do Sol Nascente. Em regiões periféricas como as ilhas de Gotô e de Amakusa, ou nas partes mais remotas do feudo de Ômura, nomeadamente em Urakami e na sua costa marítima, os cristãos ocultos mantiveram viva a sua Fé. Isolados e desapoiados, milhares de cristãos resistiram a todas as tentativas do bakufu para fazer desaparecê-los”. (COSTA, 1998, p. 737).

Referências Bibliográficas: 

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[1] GALVÃO, Antonio. Tratado dos Descobrimentos Antigos, e Modernos, p. 94-95. O autor aponta a data de 1542 para a chegada dos portugueses em Tanegashima.
[2] Cf. SÁ, Michele Eduarda Brasil de. Primeiras relações comerciais entre Portugal e Japão (1543-1639): convergência de interesses, choque de culturas. 
[3] São Francisco Xavier foi amigo de Santo Inácio de Loyola (1491-1556), tendo o conhecido no seminário em Paris. Ele foi cofundador da Companhia de Jesus (1534). Era descrito como um homem simpático, inteligente e dedicado ao trabalho. Essa sua dedicação e vocação lhe rendera o epíteto de “O Apóstolo do Oriente”
[4] Cf. D’ASSUMPÇÃO, T. Lino de (coord.) História geral dos jesuítas: desde sua fundação até os nossos dias. 
[5] Cf. LEÃO, Jorge Henrique Cardoso. Jesuítas e Daimyôs: Evangelização e poder político no Japão do século XVI. 
[6] CARTAS que os padres e irmãos da Companhia de Iesus escreuerão dos Reynos de Iapão & China aos da mesma Companhia da India, & Europa, desdo anno de 1549 atè o de 1580. Ver as cartas de Francisco Xavier de 1549 a 1552.
[7] BORGES, José Luiz. Buda. São Paulo, Difel, 1977. p. 95.
[8] PIRES, Benjamin Videira. Baltasar Gago, SJ e a terminologia cristã do Japão. p. 83.  
[9] Em 1550, Francisco Xavier viajou para a capital na tentativa de falar com o imperador, mas o xogum Ashikaga Yoshiteru lhe negou autorização. Anos depois na década de 1560, Luís Fróis tivera acesso a Corte, tendo convertido alguns membros da família do xogum e da nobreza. O próprio Nobunaga assegurava o xogum Ashikaga em seu cargo, aguardando a hora certa de tomar o poder.
[10] Cf. FRÓIS, Luís. CARTA DO PADRE LVIS FROES DA COMPANHIA DE IESVS, Em a qual relação das grandes guerras, alterações e mudanças que ouue nos Reynos do Iapão, e da cruel perseguição que o Rey vniuersal aleuantou contra os padres da Companhia, e contra a Christandade. 
[11] BOXER, C. R. O Império marítimo português, p. 30.
[12] Em 1580 com a morte do rei português D. Henrique I, o trono português ficou vago pelo fato do rei ter sido cardeal e não deixado filhos. Logo, alguns pretendentes ao trono apareceram e um deles foi o rei de Espanha, Filipe II o qual saiu vitorioso nessa disputa, se tornando rei Filipe I de Portugal, passando a governar os dois reinos e suas colônias, dando início ao período da União Ibérica (1580-1640). 
[13] Oda Nobutada (1557-1582) era o filho mais velho de Nobunaga, mas ele também acabou sendo encurralado por Akechi, e preferiu cometer o seppuku. Todavia, Nobunaga teve 19 filhos, sendo 12 homens e 7 mulheres, mas embora possuindo ainda 11 filhos varões, Toyotomi se apresentou como tutor de um dos filhos de Nobutada, de forma a se tornar mais próximo da família Oda, alegando passar o poder para o menino na fase adulta. Além disso, ele contou com o apoio de outros daimiôs e da Corte, e se firmou como herdeiro oficial do legado político e bélico de Oda Nobunaga.
[14] YAMASHIRO, José. Japão: passado e presente. p. 104.
[15] Foi em 1566 que o papa Pio V através da bula Ex litteris, nomeou o padre Belchior Carneiro (1516-1583), como bispo de Niceia (cidade turca) e pároco auxiliar do Patriarca de Etiópia. Belchior posteriormente foi nomeado bispo da China e o primeiro bispo do Japão. No entanto, o bispo Belchior Carneiro não chegou a visitar o Japão, porém conseguira chegar a Macau, e lá residiu até o final da vida.
[16] Cf. RADULET, Carmen M. O "Cerimonial" do Pe. Alessandro Valignano: encontro de culturas e missionação no Japão
[17] João Rodrigues (1558/60-1634) que passou quase toda a vida no Japão, chegando ao país por volta dos vinte anos, se tornando um notório intérprete e tradutor, recebendo o título de Tçuzu (intérprete). Ele utilizou seu domínio da língua japonesa para escrever três livros importantes: Vocabvlario da Lingoa de Iapam (1603), que se tornou o primeiro dicionário de português-japonês; escreveu a gramática Arte da Lingoa de Iapam (1604) superando em muito o trabalho inicial de Baltasar Gago publicado em 1559. Por fim ele publicou História da Igreja no Japão.
[18] SANTA MARIA, Juan de. Relacion del martírio qve seys padres descalços franciscos, y três hermanos de la Compañia de Iesu, y dicisiete iapones crhistianos padicieron em Iapon
[19] Os seis franciscanos descalços eram: Francisco Blanco, Francisco de San Miguel, Filipe de Jesus (mexicano), Gonçalo Garcia (indiano), Martín de la Ascención e Pedro Baptista. Os três jesuítas eram: Diogo Kisai, João de Goto (19 anos) e Paulo Miki. Os demais eram: Antônio Dainan, Cosme Takeya, Francisco de Nagasaki, Francisco, Gabriel (19 anos), João Quizuya, Joaquim Sakakibara, Leão Karasumaru, Luís Ibaraki (12 anos), Matias de Miyako, Miguel Kosaki, Paulo Ibaraki, Paulo Suzuki, Pedro Sukeyiro, Tomás Danqui, Tomás Kosaki (15 anos) e Ventura.
[20] Cf. CIRQUEIRA, Luís. Relação da morte que seis jappões padeçerão em Jappão pola fee de christo.
[21] O cargo de bispo foi suspenso, e passou-se a designar governadores laicos para a Província do Japão.
[22] O escritor japonês Tadao Shizuki no começo do século XIX criou o termo Sakoku (“País acorrentado”) para se referir ao estado do país após a medida tomada pelo xogum Tokugawa.