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Leandro Vilar

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O Torneio dos Cavaleiros (XI-XVI)

Na Idade Média e Idade Moderna uma concepção bastante popular na Europa, foi o torneio dos cavaleiros. Um festival que ocorria em vários países e cidades, organizados pelos nobres para os nobres, apesar que a plebe detinha o direito de assistir e trabalhar no torneio, mas não de participar das competições, as quais eram restritas aos cavaleiros. Lembrando que ser cavaleiro a partir do século XI era algo associado com títulos de nobreza, então, somente nobres poderiam participar dos esportes praticados nestes torneios que foram se tornando populares e perduraram por séculos. Neste texto eu contei um pouco da história de como eram essas competições. 

A origem do torneio: XI-XII

Não se sabe exatamente quando começou esses torneios, porém, fontes medievais apontam que antes de 1100 eles já fossem disputados. Uma crônica inglesa encontrada na abadia de St. Martin de Tours, comenta que no ano de 1066, um cavaleiro chamado Godfrey de Preuilly matou um competidor durante um torneio, tendo desobedecido as regras. Um cronista chamado Osbert de Arden, escreveu que durante o reinado de Henrique I da Inglaterra (1100-1135), ocorriam competições entre cavaleiros, os quais usavam lanças e trajes coloridos. O cronista Otto de Freising comentou que no ano de 1146, cavaleiros alemães e francos realizam competições. Ele menciona que em 1127 ocorreu um torneio de cavaleiros em Würzburg. O cronista William de Newburgh comenta que durante o reinado de Estêvão da Inglaterra (1125-1154), ocorriam competições de cavaleiros. (GRAVETT, 1992, p. 3-4). 

Dois cavaleiros numa disputa de justa? Fotografia de um lustre decorado no monastério de Gross-Comburg, Alemanha, c. 1140. 
Os torneios surgiram a partir do treinamento militar dos cavaleiros, mas também de competições informais que eles realizavam para testar suas habilidades, força e destreza, e até mesmo para ganhar fama. Entretanto alguns comandantes, nobres e clérigos consideravam essas competições motivo de indisciplina e demasiadamente violentas, pois as vezes, os cavaleiros acabavam se ferindo gravemente ou até morrendo. No ano de 1130 o papa Inocêncio II expediu uma bula condenando a prática de tais torneios, as quais incitavam a violência e o ego, e eram perniciosas para a conduta honrosa e zelosa que um cavaleiro deveria possuir. Lembrando que nesse período já existiam ordens de cavaleiros, as quais faziam votos de pobreza, celibato, humildade, servidão, etc. tornando os cavaleiros "monges guerreiros", a realização desses torneios feria a imagem do cavaleiro honroso e justo, o qual somente empunhava armas para proteger os pobres e oprimidos. Mas apesar da proibição, ela não foi obedecida. Em 1316 o papa João XXII voltou a criticar a permanência desses torneios, mas não lhe deram ouvidos. (EDGE; PADDOCK, 1991, p. 154). 

A popularização dos torneios nos séculos XII e XIII: 

No século XII os torneios de cavaleiros começaram a se popularizar. Termos como hastiludia (jogo da lança), conflitus galicus, batailles francaises, tornoi, lis, licium, joust, etc. eram alguns nomes pelos quais tais torneios eram referidos. Nota-se o uso de vários termos em latim devido os cronistas escreverem nessa língua. No entanto, esses torneios eram apontados como ocorrendo principalmente na Inglaterra, França e nos Estados germânicos (a Alemanha não existia como nação unificada). Entretanto, Garvett (1991, p. 4) comentou que relatos de torneios foram encontrados nos Estados italianos (a Itália como nação unificada não existia ainda), no Império Bizantino e até na Síria

Os torneios na época dividiam opiniões. Nobres e autoridades militares e clericais achavam os torneios competições violentas, perigosas e fúteis. De fato, como assinalado anteriormente, alguns papas emitiram decretos tentando proibir tais torneios. Por outro lado, havia aqueles nobres que enxergavam nos torneios uma forma de manter os cavaleiros em atividade, assim como, incentivá-los a melhorar suas habilidades, além de ganhar fama e visibilidade. O cavaleiro William de Malmesbury comentou em 1141, após participar de um torneio, que o mesmo permitia o cavaleiro exercitar suas aptidões e conquistar respeito e glória. (EDGE; PADDOCK, 1991, p. 154). 

Embora já começasse a se desenvolver as ordens guerreiras de cavaleiros, vinculadas a Igreja Católica, não significava que todo cavaleiro fosse adepto dessas ordens. Havia aqueles que não tinham interesse de prestar votos de servidão, celibato, pobreza, etc. Isso teria sido um dos motivos que desagradou certos papas ao perceber que os cavaleiros estavam fugindo de seu controle, optando em levar uma vida mundana. Os torneios eram oportunidades para ganhar fama, visibilidade perante outras famílias nobres, além de fazer negócios e acordos, algo que comentarei adiante. 


Gravura contida no Codex Manesse, séc. XIII. Na imagem temos dois cavaleiros competindo na justa. Um deles foi derrubado de seu cavalo. Em cima, as damas de corte assistem a competição. 
Com base na imagem acima nota-se que os cavaleiros nessas competições, já ostentavam as cores e brasões das suas casas familiares ou das casas de seus suseranos, a quem eles serviam. No tocante a vestimenta do cavaleiro, naquele período entre os séculos XI ao XIV, essencialmente usou-se cota de malha, um elmo, e a túnica sobre a cota. As túnicas eram coloridas e com desenhos para representar as casas reais. No caso dos elmos, alguns poderiam ter ornamentos como chifres, penachos, fitas, etc. 

Gravett (1992, p. 5-6) comenta que para além da justa e do combate entre dois cavaleiros armados com espada e escudo, havia lutas se usando lanças e clavas, e em alguns casos, competições de 2x2, 3x3 e até conflitos entre grupos maiores. O notório Conde de Pembroke, Guilherme Marshal (1146-1219) era considerado em sua época o maior cavaleiro do mundo. Marshal lutou nas cruzadas ao lado de Ricardo, Coração de Leão, além de ter servido outros três reis ingleses, como também lutou e venceu várias competições em torneios de cavalaria, com direito as narrativas falarem em lutas dele contra vários oponentes ao mesmo tempo. E citando o rei Ricardo, Coração de Leão, no ano de 1194, o monarca declarou os torneios legais em seu país. Contrariando as bulas papais que condenavam tal esporte. Por outro lado, em 1260 o rei Luís XI da França proibiu os torneios, considerando-os imorais e violentos. 

Apesar das críticas negativas aos torneios, esses continuaram se tornando populares e se expandindo pelos reinos. Reis, príncipes, duques, condes, barões e até cavaleiros convocavam desde pequenas disputas até grandes torneios que duravam mais de uma semana. Entretanto, no final do século XIII, se tornou necessário a criação de códigos para organizar e normatizar os torneios, a fim de combater os problemas de brigas e rixas que estavam ligados a eles. Na Inglaterra temos o Estatuto de Armas (Statuta do Armis) e o Estatuto de Armas em Torneios (Statutum Armorum in Torniamentis). Os dois estatutos versavam sobre leis com punições para quem as descumprisse. O primeiro estatuto era voltado para a segurança pública, mais especificamente para se evitar brigas. O estatuto informava que caso um cavaleiro fosse pego numa briga de rua ou em qualquer outro local, ele teria seu cavalo e armadura, confiscados, seria proibido de participar de torneios e poderia pegar até três anos de prisão. A medida foi adotada para se combater as brigas e duelos entre cavaleiros. O segundo estatuto era mais específico para os torneios, no qual apontava normas de segurança para se evitar acidentes, violência excessiva e até trapaças. (GRAVETT, 1992, p. 9).

Nesse ponto sobre normas de segurança, Edge e Paddock (1991, p. 157) comentam que adotou-se algumas medidas básicas para diminuir os acidentes. O uso de elmos tornou-se obrigatório, pancadas na cabeça deveriam ser evitadas. As lanças usadas na justa, as quais eram feitas de ponta de ferro, passaram a ser feitas de ponta de madeira. As espadas não eram afiadas. Um competidor ferido caso não tivesse condições de lutar, deveria renunciar a partida. Brigas nos bastidores, nas ruas ou em qualquer local fora da competição, eram punidas com banimento do torneio ou até mesmo com a prisão, dependendo da gravidade do crime. Matar um oponente era passível de desclassificação imediata.

Os torneios dos séculos XIV-XV: os cavaleiros de armaduras

No século XIV os torneios de cavaleiros continuavam populares, em algumas cidades e províncias eles até passaram a ser regulares, ocorrendo anualmente com datas fixas. Tais torneios em alguns casos se tornaram maiores e mais pomposos, reunindo centenas ou milhares de pessoas, as quais se deslocavam-se ao longo de semanas até o local onde eles ocorriam. O grande afluxo de pessoas em feudos, vilas e cidades, as vezes gerava problemas, como registrado em 1362, na cidade alemã de Nuremberg, onde o conselho citadino registrou denúncias de problemas públicos, geralmente relacionados com desentendimentos e brigas, nem tanto pelos cavaleiros, mas pelos visitantes e moradores locais, os quais se dirigiram para assistir os jogos. 

No século XIV os torneios também passaram a ficar mais extravagantes no sentido de quase carnavalescos devido ao colorido dos brasões de família, o colorido das túnicas dos cavaleiros e das mantas dos cavalos, e inclusive os elmos em alguns casos recebiam toda uma variedade de adereços que os deixavam bem estranhos. 


Dois cavaleiros numa justa. Gravura no manuscrito Alsatian, c. 1420. Nota-se nessa imagem como os cavaleiros elmos com adornos extravagantes, em geral, os mesmo representavam imagens contidas nos brasões de família. 
Apesar das medidas tomadas no século XIII para evitar-se acidentes e violência excessiva, não significa que isso tenha acabado. As medidas apresentadas serviam para a Inglaterra, mas os outros países possuíam suas próprias regras e noções de segurança. Por exemplo, durante o século XIV, um Duque da Borgonha realizou uma competição entre dois grupos de cavaleiros, os quais representavam os exércitos da França e da Inglaterra, em uma clara referência a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) que era travada então. A ideia do duque não era nova, pois no passado já havia sido realizada em alguns torneios, onde se reunia vários cavaleiros e os dividia em equipes para lutarem entre si. Porém, a referência do duque é curiosa. (GRAVETT, 1992, p. 16). 


Gravura do manuscrito 2693 56v/57r datada por volta de 1460. Na imagem vemos um mélee, termo francês usado para se referir a um combate tumultuado e desorganizado entre vários competidores. No caso da imagem há duas equipes de cavaleiros, contendo 24 competidores de cada lado. Eles lutariam entre si e venceria o time que perdesse menos cavaleiros. 
Além dessas características apontadas foi também na segunda metade do século XIV que passou a se adotar armaduras de placas, as quais tratavam do uso de couraças ou peitorais, acompanhados de caneleiras e braçadeiras, todos feitos de ferro, os quais eram usados para reforçar a cota de malha, principal veste adotada até então. Por sua vez, no século XV, com o desenvolvimento da metalurgia bélica, especialmente na Itália e na Alemanha, as armaduras de placas foram se tornando mais massivas, sendo feitas de aço e cobrindo cada vez mais partes do corpo dos cavaleiros. (BLAIR, 1959). 


Dois cavaleiros combatendo a pé, trajando armaduras de placas e portando achas. Esse combate singular era chamado na França de champ clos (campo fechado), pois os cavaleiros lutavam dentro de uma arena. Gravura datada de c. 1475. 
A adoção dessas armaduras garantia maior proteção aos cavaleiro fosse na guerra ou nos torneios, embora os deixasse mais pesados. Entretanto, diferente do que se imagina as armaduras de placas não tornavam os cavaleiros incapazes de se mover, eles tinham sua mobilidade reduzida, mas não incapacitada. Relatos da época e até testes contemporâneos mostram cavaleiros trajando essas armaduras metálicas, conseguindo correr, saltar, pular, subir escadas, rolar no chão, cair e levantar, montar cavalo, empunhar armas e lutar. (TURNBULL, 1995). 

Com a adoção dessas armaduras a preferência para a justa em detrimentos de outras modalidades começou a crescer. Edge e Paddock (1991, p. 158) comentam que na Itália, em 1420, foi instituído a adoção de uma murada de madeira que separava os dois lados da pista onde se competia a justa. Até então essa murada não era adotada em todos os torneios, por não ser algo obrigatório. A adoção da murada ajudava muito a evitar que o cavalo saísse da rota e pudesse eventualmente colidir com o outro cavalo, algo que ocasionalmente ocorria. 


Torneio alemão de justa, c. 1480. Nessa gravura nota-se que a justa não fazia uso de uma murada. Além disso, ver-se vários outros cavaleiros competidores aguardando sua vez. Na parte superior da imagem numa espécie de corrida de perseguição. 
Edge e Paddock (1991, p. 160-161) que a partir do final do século XIV, os torneios passaram a serem mais pomposos e claro, carnavalescos, como comentados anteriormente, com direito não apenas a adotar elmos extravagantes, mas inclusive alguns cavaleiros se fantasiavam como cardeais, legionários romanos, monges, cruzados, cavaleiros da Távola Redonda, etc. Nesses torneios além das atrações esportistas, englobou-se também outras atividades de entretenimento, como músicos, dançarinas, pantomimeiros, atores de rua, bailes, desfiles e paradas militares. Isso apenas citando atividades ligadas diretamente aos torneios, pois dependendo onde eles ocorriam, outras atividades aconteciam na vila ou cidade, como apostas, jogos de cartas, apresentações artísticas, etc. 

Os torneios renascentistas: séculos XVI-XVII

O Renascimento italiano (XIV-XVI) marca o auge do esplendor e luxo dos torneios de cavaleiros nos Estados italianos, embora influenciou competições em outros países também. O século XVI será o último esplendor desses torneios, quando teremos armaduras luxuosas, e inclusive o próprio uso de armaduras de placas começou a declinar naquele século. Muito do imaginário que possuímos hoje desses torneios, advém das competições desse período, com cavaleiros trajando armaduras de aço, com cavalos usando túnicas coloridas, nobres em camarotes, plebeus em pé ou em arquibancadas, donzelas ricamente vestidas, jogando lenços para os cavaleiros ou recebendo flores deles. Apesar que esse imaginário não surgiu no XVI, mas já existisse desde o século XIII. 


Torneio de cavaleiros celebrados durante o casamento do Duque Johan Wilhelm von Jülich-Kleve-Berg com Jakobe von Baden-Baden, ocorrido em 18 de junho de 1585, em Dusseldorf-Pempelfort.  
Nesses torneios renascentistas outras modalidades já haviam sido abandonadas (sobre elas comentarei adiante), vigorando principalmente duas modalidades: a justa, já seguindo o padrão italiano como referência. Gravett (1992, p. 47-50) comenta que os alemães adotaram o modelo italiano de justa. Franceses, ingleses, etc. acabaram também fazendo o mesmo ou usando algumas ideias em comum. Além da justa, a outra modalidade que se tornou bastante prestigiada ainda no século XV, foi os combates a pé. Essas duas modalidades eram as principais práticas competidas nos torneios dos séculos XVI e XVII, embora que a depender do local, outras modalidades menores pudessem ser adotadas, como atingir escudos pendurados em árvores, ou capturar argolas, ou variações do mélee francês, como menos participantes. O autor também comenta que competições de tiro ao alvo com arco e flecha, arremesso de dardos e até combates corpo a corpo, eram vistos em alguns torneios ingleses daquele período. 

Adveio também dos torneios italianos, ingleses e alemães, novas regras para a justa, passando-se a adotar escudos menores ou escudos acoplados ao ombro esquerdo da armadura, o qual servia de alvo. Golpes na cabeça deveriam ser evitados, mas ocasionalmente ocorriam. Os elmos também sofreram transformações, abandonado os adornos e chifres que vigoravam entre os séculos XIII e XIV, passando a serem mais robustos e com visores mais estreitos, especialmente devido as lascas que soltavam das lanças quebradas, durante a justa. As viseiras mais estreitas, evitavam que as lascas entrassem. Apesar que acidentes ocorriam. Em alguns casos os cavalos recebiam armadura também, especialmente para cobrir a face e o peito, áreas mais vulneráveis no confronto de justa. Já nas lutas a pé, as armaduras cobriam quase que o corpo todo. 


Duas armaduras do rei Henrique VIII da Inglaterra. Ambas foram usadas pelo monarca em torneios. No caso do segundo modelo, o saiote era removido para que o rei pudesse montar no cavalo. Henrique VIII foi um entusiasta destes torneios, possuindo várias armaduras. 
Ainda no século XVI os torneios de cavaleiros eram bem populares, apesar que em determinadas regiões da Europa, eles tivessem sido abandonados. Todavia, seu charme e pompa continuaram até o século XVII, quando começaram a declinar de vez. Os altos gastos envolvidos com essas celebrações já não condiziam mais com a necessidade de investir nessas extravagâncias. A Europa do século XVII já vivia um período pós-renascimento, mergulhando na expansão das ciências, artes, do mercantilismo e do desbravamento dos outros continentes. O próprio uso de armaduras de placas deixou de ser usado em batalhas, sobrevivendo ainda nos torneios, até que as armaduras tornaram-se finalmente artigos de luxo e de decoração. E os cavaleiros que conservavam sua aura romântica e lendária dos séculos XIII e XIV, perderam isso. A própria cavalaria perdeu espaço na guerra, uma guerra agora travada com armas de fogo e canhões. 

Modalidades de competição: 

Como comentado anteriormente as modalidades ou esportes realizados nesses torneios variaram com o tempo e o lugar. Devido aos torneios terem perdurado por mais de quinhentos anos, houve várias mudanças. Sendo assim procurei comentar as principais modalidades praticadas nesse torneio. De início, nos torneios dos séculos XI e XII, o que imperava eram os combates, os chamados mélee, hastilitude ou pas de armes, os quais se referiam a prática de armar cavaleiros, geralmente montados, os quais portavam espadas e lanças. Com o tempo outras armas como machados, maças e porretes foram acrescentados. Os cavaleiros poderiam fazer uso ou não de escudos. Esses combates que encenavam conflitos reais, com direito até mesmo a causar ferimentos e em alguns casos, mortes, serviam de exercício aos cavaleiros para terem uma noção de como seria lutar no campo de batalha. Tais lutas poderiam envolver poucos competidores ou dezenas deles, com direito a criar-se times, ou até mesmo encenar lutas históricas, como visto na França, durante a Guerra dos Cem Anos. O rei Henrique VIII também fez encenações dessas batalhas em alguns dos torneios que organizou. As regras variavam com a quantidade de competidores, mas em geral, não podia ser derrubado do cavalo.


Dois cavaleiros num combate (mélee), no século XV. Ilustração de Angus McBride para o livro Knights of Tournament (1992). 
A outra modalidade que começou a se tornar regular a partir do século XIII, mas somente ficou famosa no XV em diante, era a justa. O duelo entre dois cavaleiros montados, os quais usavam de início lanças com pontas de ferro, depois adotando-se lanças de madeira. Inicialmente o objetivo era derrubar o oponente, mas depois introduziu-se a regra das três lanças. Cada cavaleiro deveria quebrar as três lanças no escudo do adversário. Vencia que quebrasse primeiro as lanças. Se o cavaleiro removesse o elmo, era sinal de desistência. Em alguns casos, quando a disputa terminava empatada, os cavaleiros desmontavam e partia para combate singular. (GRAVETT, 1992, p. 11). 

O combate a pé, que recebia distintos nomes, era outra modalidade famosa. Ele poderia ser no estilo do mélee, como era inicialmente, envolvendo vários competidores num campo aberto ou praça, como se fosse uma batalha real. Dependendo do torneio, como não havia regras fixas, os nobres podiam sugerir alterações nessa modalidade, competindo em duelos, ou lutando contra dois ou três oponentes ao mesmo tempo, ou adotando modalidade de battle royale, ou realizando combates em equipe. Entretanto, a partir do século XV em diante começou a prevalecer o combate a pé 1x1, apenas dois cavaleiros lutavam por vez, dentro de uma arena delimitada ou num campo. As regras de vitória variavam, desde cansar o oponente, o atingi-lo em pontos específicos, para obter pontuação. Esses combates podiam ser feitos com o uso ou não de escudos, portando distintas armas como espadas, maças, porretes, machados e achas. 


Sir Nigel defende a honra da Inglaterra. Pintura de N. C. Wyeth, 1921. Nessa pintura vemos como poderia ter sido um duelo de cavaleiros. 
No chamado hastilitude (jogo da lança), um dos termos pelos quais esses torneios eram conhecidos nos séculos XIII e XIV, além da justa, outras modalidades eram praticadas como o quintain, que consistia numa modalidade, na qual o cavaleiro montado, vinha a galope, empunhando uma lança, devendo acertar um escudo ou alvo, o qual rotacionaria um peso na outra ponta. Se o cavaleiro não fosse hábil e veloz suficiente, seria atingido pelo peso, nas costas. A forma do quintain variou com o tempo, desde um mero poste, com um escudo e um saco de areia, até ganhar a forma de um cavaleiro oponente. De fato, o quintain consistia num aparelho de treino, para testar a precisão, força e golpes dos cavaleiros, mas tornou-se uma modalidade em alguns desses torneios.


Gravura retratando um cavaleiro praticando o quintain
A corrida do anel ou da argola (ringelrennen, corso all' anello) foi uma modalidade popular até o século XVII. Houve algumas variações no tempo, mas basicamente um anel ou argola era pendurado num poste ou uma árvore, o cavaleiro montado vinha a galope e deveria acertar de primeira o anel, pegando-o. As regras variavam desde pegar um anel de vez, ou vários anéis seguidos numa pista, ou pegar anéis em diferentes níveis de altura. Vencia o que conseguia pegá-los de primeira, sem precisar de novas tentativas. A corrida podia envolver um cavaleiro por vez, ou envolver mais de um cavaleiro, os quais correriam por um trajeto com um ou mais anéis, tendo que capturá-los. Caso fosse só um anel, o primeiro que chegasse e o pegasse, vencia. Se tivesse vários anéis no trajeto, vencia o que conseguisse mais anéis. 


Gravura alemã do século XVII, apresentando na parte superior, a corrida do anel, no meio, a postura de estocada do cavaleiro, e na parte inferior, dois pares de cavaleiros praticando justa. 
Outras modalidades menos usuais, envolviam corridas, tiro ao alvo, arremesso de dardo, luta desarmada, e outras variações de combates. Todavia, as práticas sublinhadas acima foram as mais recorrentes nos torneios de cavalaria ao longo dos séculos. Todavia, uma pergunta deve ter surgido aos leitores: qual era a premiação? Como as regras variavam de acordo com o lugar e a época, as premiações também eram variadas, desde se ganhar espadas, escudos, armaduras, cavalos, troféus, coroas, joias, artigos de luxo, dinheiro, obras de arte, etc. 

O lado social, político e econômico dos torneios: 

Para encerrar esse texto sobre os torneios medievais, fiz alguns comentários básicos sobre o papel desses torneios para além do treinamento militar, da exibição, glamour, ostentação e entretenimento. Os torneios como eu citei anteriormente, eram oportunidades para se fazer negócios, acordos e contatos. Dependendo onde ocorria o torneio, os cavaleiros poderiam levar suas famílias e amigos, e claro, seus servos para assistir o torneio. Porém, se o torneio ocorresse numa outra cidade, vila, feudo ou província, dependendo da distância, o cavaleiro seguia apenas com seus servos. Em alguns casos, cavaleiros de uma mesma família ou que representavam um suserano, iam em comitiva.

Os torneios de cavalaria não serviam apenas para testar os competidores e lhes conceder fama, mas também permitia a interação da nobreza de vários cantos de uma província, reino ou até de outros países. Isso interessava bastante as casas familiares pequenas ou as casas familiares novas, as quais num cenário maior, dispunham de poucos status e influência política. Quando o torneio era organizado na corte ou próximo da corte, significava que a alta nobreza e a realeza estariam presentes, sendo oportunidade para os cavaleiros conhecerem a elite, e quem sabe, conseguissem fazer acordos ou alianças. Pequenas casas para conseguir ganhar status e poder, costumavam oferecer vassalagem a casas maiores. Por outro lado, a depender do desempenho do cavaleiro, a proposta de ele assumir algum cargo de comando, poderia ser ofertado. Sem contar que também ocorriam propostas de casamento. 

A condição de mulheres irem assistir esses torneios, especialmente no que se referiria as damas de corte, era uma oportunidade para seus pais procurarem possíveis maridos para elas. De preferência buscavam os cavaleiros com fama, riqueza e que advinham de famílias influentes, para assim negociar o casamento. Mas se por um lado, havia essas intenções de procurar arranjar casamentos para as donzelas, de outro lado, havia a ideia do "amor cortês", que ficou bastante marcado na literatura e no cinema, apesar que historicamente não se saiba se exatamente ele era praticado como apontado pela ficção. 

Christopher Gravett (1992, p. 12-13) comenta que essa ideia de amor cortês ou amor cavalheiresco já existia nos torneios desde o século XIII, pelo menos, vista na Inglaterra e França, onde os cavaleiros inspirados nas lendas do rei Arthur e da rainha Guinevere, buscavam viver um romance de literatura. Embora também tivesse a versão romântica baseada no romance de Lancelote e Guinevere. Embora tais narrativas fossem frutos da literatura da época, parece que encontrou respaldo na realidade. O autor comenta pinturas medievais que mostram cavaleiros entregando flores as damas, ou recebendo coroas de flores delas. Há relatos de cavaleiros que declamavam poesia ou cantavam, como se fosse numa seresta. Posteriormente em alguns torneios surgiram concursos de beleza para se eleger a mais bela dama do torneio, a qual seria a musa inspiradora dos cavaleiros, e em alguns casos, a dama a ser disputada em casamento. 


Cavaleiro recebendo uma coroa de flores de uma dama de corte. Gravura contida no manuscrito Codex Manesse, séc. XIV. 
Os torneios também eram usados para promover a fama de seus patronos, não sendo a toa que vários reis desde o século XIII, promoviam torneios como forma de entreter sua corte e povo, mas também para esbanjar sua autoridade. Inclusive com direito a participar dessas concepções. Os reis Henrique II da França e Henrique VIII da Inglaterra eram conhecidos por gostarem de competir em justas. O notório Conde Marshal, considerado no século XIII, o "maior cavaleiro do mundo", era famoso por participar desses torneios. Nesse sentido, tais celebrações desportivas concediam fama pessoal aos seus competidores, mas também concediam status aos patronos, pois nos séculos XV ao XVII, nobres para esbanjar sua influência, autoridade e riqueza organizavam torneios para celebrar noivados, casamentos, aniversários, etc. O duque Johan Wilhelm von Jülich-Kleve-Berg é um exemplo, pois realizou um torneio para comemorar seu casamento. E quanto mais pomposo o torneio, maior o sinal de riqueza envolvido. 

Mas esse prestígio alcançado pelos competidores não advinha apenas de vencer as disputas ou serem patronos do evento, a própria condição dos cavaleiros participarem dessas disputas já gerava visibilidade. Alguns cavaleiros faziam fama não por serem valentes guerreiros no campo de batalha, mas por vencer competições em torneios, que por um lado, irritava outros cavaleiros que diziam que a verdadeira glória não era conquistada em justas e combates encenados, mas no perigo do campo de batalha. 

Para além da presença da nobreza, da realeza, o clero também estava presente, mesmo que em determinadas épocas a Igreja tenha tentado proibir esses jogos, isso nunca impediu que padres, bispos e cardeais os assistissem. Além dos nobres e do clero, a plebe também assistia e participava dos torneios. Quanto maior o torneio, mais pessoas estavam presentes. Para a organização de um torneio, dependendo de seu tamanho e duração, dezenas ou centenas de pessoas estavam envolvidas. Lembrando que os cavaleiros costumavam ter de um a dois escudeiros ou servos para auxiliá-los nos preparativos das competições. Temos relatos de mélee contendo cinquenta cavaleiros em disputa, só por isso, nota-se o volume de servos que deveria ter para auxilia-los. Entretanto, o número de servos não se limitava apenas a um ou dois, dependendo do status do cavaleiro ele poderia levar vários outros, pois além dos servos que o auxiliavam nas competições, deveria ter os serviçais que cuidavam de suas roupas, alimentação, pertences, cavalos e da sua hospedagem. Além desses empregados que serviam os atletas, havia os empregados que cuidavam da organização do torneio. 

No entanto é preciso salientar que os torneios também tinham um lado econômico, pois mobilizavam renda para os comerciantes locais, além de servirem de propaganda. Nos séculos XVI e XVII, período que passou a imperar as armaduras ornamentadas, as quais eram dignas de serem chamadas de obra de arte, havia cavaleiros que exibiam esses trajes de aço, ostentando sua riqueza, ao mesmo tempo que servia de propaganda para os mestres-ferreiros que os produziam. Milão e Brescia, dois Estados italianos, se especializaram na produção dessas armaduras. Exibi-las em torneios era uma forma que os mestres-ferreiros tinham de divulgar seu trabalho e eventualmente conseguir encomendas. 


Uma das armaduras ornamentadas do rei Henrique II da França. O monarca era entusiasta de justas. 
No caso, sabe-se que nos torneios haviam ferreiros para consertar armaduras ou fazer ajustes, além de ter have ferreiros ricos que iam vender seus produtos. Comerciantes de roupas e tecido também aproveitam a ocasião, pois em alguns torneios ocorriam festas ou bailes, e sabendo que alguns nobres tinham a tendência de querer comprar roupa nova, eles estavam ali para oferecer seus produtos. Comerciantes de vinhos e alimentos também lucravam nesse período, pois os nobres encomendavam alimento e bebidas no local, e se ocorressem festejos, era necessário comprar ingredientes. Por outro lado, as tavernas populares também recebiam a clientela menos abastada. Como dito anteriormente, em alguns desses torneios havia a apresentações artísticas, o que era uma oportunidade para músicos, cantores, dançarinas, poetas, atores, pantomimeiros, bufões, etc. se apresentarem para a plebe ou a nobreza, o que lhes renderia dinheiro e reconhecimento. 

Os torneios de cavaleiros atuais: 

Embora esses eventos tenham sido abandonados no século XVII, entusiastas desse tipo de esporte e competição atlética, tentaram resgatá-los nos séculos XVIII, XIX e XX. E finalmente no XX acabou dando certo. Atualmente existem equipes e competições profissionais e amadoras, que recriam esses torneios de cavalaria. Tais torneios atuais basicamente se limitam a justa e o combate a pé, sendo encenados em feirais medievais ou feiras renascentistas, ou em competições específicas. 


Fotografia de uma justa contemporânea. 
NOTA: O rei Henrique II da França faleceu em 1559, após se ferir numa justa, onde as lascas da lança quebrada, lhe furaram um dos olhos. Mesmo o monarca usando elmo, as lascas passaram pela fina viseira. Na época o vidente Nostradamus, o qual era estimado pela rainha Catarina de Médici, profetizou que o seu marido, deveria ter cuidado nos combates, pois aquilo poderia lhe causar a morte. Após a morte do rei, Nostradamus ganhou prestígio com suas supostas profecias. 
NOTA 2: Nos séculos XII e XIII há relatos de alguns torneios ocorridos na Inglaterra e França, onde prisioneiros foram executados. Os mesmos eram armados com armas cegas, e deveriam lutar com os cavaleiros, os quais eram autorizados a matá-los. Tal execução foi um dos motivos para que houvessem protestos para banir tal prática. 
NOTA 3: Um cavaleiro do século XV ao XVII, todo vestido com sua armadura de placas de aço, e montado em seu cavalo, poderia pesar no todo, mais de 400 kg. 
NOTA 4: A Batalha das Nações (Battlhe of the Nations) é um torneio de cavalaria, criado na Ucrânia, que ocorre anualmente desde 2009, contando com equipes de vários países. 
NOTA 5: O filme Coração de Cavaleiro (A Knight's Tale) de 2001, ainda hoje, é um dos filmes mais populares que retratam torneios de cavaleiros na Idade Média. O filme enfoca bastante as justas. 
NOTA 6: Combate Medieval (Full Metal Jousting) foi uma série sobre competições de justas contemporâneas, exibida pelo History Channel no ano de 2012, contando com apenas uma temporada. 

Referências bibliográficas: 

BLAIR, Claude. European Armour: circa 1066 to circa 1700. London, B. T. Batford LTD, 1959. 
EDGE, David; PADDOCK, John Miles. Arms & Armor of the Medieval Knight. An illustrated history of weaponry in the Middle Ages. New York, Crescent Books, p. 1991. 
GRAVETT, Christopher. Knights at Tournament. Illustrated by Angus McBride. Oxford: Osprey, 1992. (Elite)
TURNBULL, Stephen. The book of the Medieval Knight. London, Cassel Group, 1995. 

Links relacionados: 
As armaduras de placas (XIII-XVI)
Ser cavaleiro na Europa medieval

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

As armaduras de placas (XIII-XVI)

As armaduras medievais são um dos temas que atraem olhares curiosos para quem quer conhecer a Idade Média, especialmente quando se adentra ao imaginário de cavaleiros e castelos, não se pode deixar de fora aquelas armaduras de aço que protegiam os cavaleiros dos pés à cabeça. E esse imaginário é tão marcante que a as artes se apossaram muito bem dele. Falar de cavaleiro medieval europeu é quase que obrigatório trazê-lo com uma armadura pesada. Nos filmes, desenhos, quadrinhos, pinturas e videogames isso é algo bem comum: cavaleiros usando armaduras ricamente ornamentadas e até surreais, pois o peso os incapacitaria de poder combater. Inclusive eu estava há alguns dias jogando um jogo que traz armaduras mirabolantes e me veio a ideia de escrever esse artigo. 

No entanto, nos vem algumas perguntas: aquelas armaduras que vemos em museus, realmente eram utilizadas? Ou não passam de artigo de ornamentação? Todo cavaleiro usava armadura pesada? Quando foi que tais armaduras começaram e deixaram de ser usadas? Pois o medievo europeu durou quase mil anos, porém, nota-se que na maior parte dele, armaduras de aço não foram usadas. Um cavaleiro usando tal armadura conseguia se mover ou ficava tão pesado que até andar era algo árduo? Diante dessas perguntas, redigi esse texto para fornecer respostas. 

Introdução: 

Nessa introdução apresentei algumas informações simples, mas importantes para entender o contexto do medievo, dos cavaleiros e das armaduras. O uso de armaduras existe desde a Antiguidade e foi adotado por diferentes povos do mundo. É evidente que as formas de se confeccionar uma armadura variaram com o tempo. Em geral quando falamos em armadura, pensamos logo em armaduras de metal, mas isso não é algo exato. 

Armadura consiste em qualquer vestimenta projetada para se conceder proteção extra ao guerreiro, para protegê-lo ou amenizar o dano de cortes, perfurações, impactos, golpes, quedas, projéteis, explosões, etc. Ainda hoje se faz uso de armaduras, apesar de se adotar outros termos para se referir a esses trajes. De qualquer forma, as armaduras usadas no passado, eram feitas de couro cozido ou cru, eram reforçadas com lã para fornecer superfície acolchoada, para amortecer golpes, usavam placas de madeira, cotas de malha, placas metálicas, etc. Uma armadura não precisava proteger todas as partes do corpo, e poderia contar com proteções avulsas, como elmo ou capacete, e o uso de escudo. 

Sendo assim, na História houve diferentes tipos de armaduras, algumas leves que facilitavam a mobilidade, mas forneciam menos proteção. Enquanto havia armaduras pesadas, que forneciam maior proteção, mas deixavam o guerreiro mais lento. O uso dessas armaduras variava de acordo com a função daquele guerreiro exercida na força de combate, ou da estratégia adotada para a ocasião. 

Tendo falado brevemente sobre o que tratam as armaduras, falarei agora sobre a Idade Média europeia. Em geral os livros didáticos abordam o período medieval como indo de 476 a 1453, essa consiste na delimitação cronológica mais comum, mas existem outras formas de delimitar o tempo de duração do medievo. Alguns historiadores apontam que os idos da Idade Média teria começado no século IV, outros falam de Antiguidade Tardia, e recuam o começo do medievo para o século VIII. Quanto ao término da Idade Média, alguns historiadores falam de um medievo tardio, indo se findar no final do século XV, próximo ao ano 1500. No caso é preciso sublinhar que as estruturas medievais não começaram de um dia para o outro e terminam após 1453. Em diferentes lugares da Europa, a sociedade medieval se desenvolveu de formas e em ritmos diferentes. No caso, eu trabalhei com a noção de medievo tardio, estendendo a duração desse período até o final do século XV, pois as armaduras de placas, que objeto de estudo desse texto, somente passaram a ser mais usualmente usadas a partir do século XV e se mantiveram até o XVII, adentrando a Idade Moderna. 

Quanto aos cavaleiros medievais, em outros artigo intitulado Ser cavaleiro na Europa medieval (2014), eu comentei como a imagem e noção de cavaleiro, cavalheirismo e cavalaria foi moldada no medievo europeu, para se tornar aquilo que conhecemos hoje em dia. Pois o cavaleiro medieval europeu não era apenas o homem que lutava montado num cavalo e usava armadura, mas consistiu em todo um imaginário, normas sociais e de conduta, para atribuir ao cavaleiro a imagem de nobre, honrado e leal guerreiro. Qualquer homem poderia lutar em um cavalo, mas não significa que ele fosse digno de ser chamado de cavaleiro. Sendo assim, quando chegamos ao século XV, época que as armaduras de placas de aço passaram a ser usadas, todo esse imaginário cavaleiresco já estava em desenvolvimento e continuava a encantar a população através da literatura em prosa ou poesia, ou até em canções, as quais falavam sobre o Rei Arthur, os Doze Pares de França, Os Nove Bravos e várias outras histórias sobre valentes e honrados cavaleiros errantes que buscavam aventura e fama. 

Mas quanto a vestimenta desses cavaleiros, em geral eles passaram a maior parte do medievo usando elmos e cota de malha. De fato, a veste básica dos cavaleiros e outros guerreiros medievais era essa. A cota de malha era uma veste de proteção muito versátil e bem difundida. Por isso ter sido comumente adotada por vários povos europeus. 

O surgimento das armaduras de placas (c. 1250-1400): 

O uso de tiras ou placas para se formar uma armadura é antigo. Em diferentes lugares do mundo, se fez uso de técnicas para se unir pedaços de materiais rígidos para formar em geral, proteção para o tórax. No caso dos romanos, eles faziam uso de uma armadura feita de placas de ferro, diferente da couraça de bronze, usada por alguns guerreiros gregos. Porém, como a confecção de placas de ferro era algo mais trabalhoso, com o tempo foi substituída pela adoção da cota de malha pelos guerreiros europeus ao longo do medievo. O uso de armaduras de placas foi visto por cavaleiros e soldados na Itália, Suíça, Alemanha, França, Espanha, Inglaterra, Áustria, Hungria, Polônia, etc. no entanto, os países em que mais se destacou-se o fabrico dessas armaduras, foram a Alemanha e a Itália, como veremos adiante. (PRICE, 2000, p. 22). 

Claude Blair (1959, p. 37-38) comentava que na Europa ainda do século XIII, o uso de cota de malha e de armadura de escamas, predominava e continuaria predominando mesmo com a adoção das armaduras de placas, não significou que os outros tipos de armaduras deixaram de serem utilizadas. Entretanto, Blair assinalava que não foi no século XIV que o uso de armaduras de placas teria começado. Para ele, tal prática remontaria o século XIII. Ele comenta o relato de Guilherme o Bretão, o qual lutou contra Ricardo, Conde de Poitou (posteriormente conhecido como rei Ricardo, Coração de Leão). Durante essa batalha é narrado que os cavaleiros usavam uma armadura de placa de metal (fera fabricata patena recocto, como escrito no documento em latim). 

No caso, tal armadura não seria parecida com as que conhecemos, mas consistiria numa mescla de cota de malha ou de armadura de escamas, com uma couraça para proteger o tórax, acompanhada de braçadeiras e caneleiras. Blair (1959) prossegue dizendo que em outras batalhas ocorridas na França. Esse tipo de armadura passou a ser chamada de couraça (cuirass, curace ou quiret), termo devido a proteção de ferro usada sobre o tronco. Que acabou se tornando uma peça central na armadura de placas. Apesar que essa couraça não tenha sido invenção da época, os antigos gregos e romanos já faziam uso de couraças.


Gravura para ilustrar O Romance de Alexandre (1338). Segundo Blair (1959), os cavaleiros nessa imagem, já faziam uso de uma versão anterior da armadura de placas. 
De qualquer forma, Blair dizia que o desenvolvimento da armadura de placas era obscuro, pois não sabemos como ocorreu propriamente. Dispomos apenas de relatos pontuais e algumas poucas pinturas conhecidas de batalhas, que apontam o uso desse tipo de armadura ainda nos séculos XIII e XIV. Para Terence Wise (1975, p. 11) a armadura de placas somente começou a ser desenvolvida no século XIV, período que foi marcado com algumas mudanças militares, dentre as quais ele destacou a formação de "exércitos nacionais", pois até então os reinos não possuíam o que hoje concebemos como exército nacional, mas possuíam pequenas tropas, milícias e até tropas de mercenários para compor sua força de batalha. Os reis, senhores feudais e chefes dependiam de convocar vassalos e seus homens para formar suas forças militares. Porém, em alguns pequenos reinos começou a empregar a prática de recrutamento militar e a criação de tropas fixas. 

Para Wise (1975) isso contribuiu para não apenas mudar a dinâmica da guerra, mas também para o desenvolvimento de equipamentos militares. A medida que os arcos e as balestras se tornaram mais potentes, permitindo que as flechas e os virotes atravessassem escudos de madeira e até cotas de malha mais simples, tornou-se necessário confeccionar armaduras mais resistentes. Mas além dessas armas de longo alcance, armas como espadas e lanças também ganharam melhorias, apresentando lâminas mais resistentes e perfurantes. Isso é uma lógica da guerra: a medida que as armas se tornam mais mortais, se faz necessário criar defesas melhores. Os castelos medievais vão se destacar nesse período, ficando mais robustos e desenvolvendo suas muralhas e torres, frente as catapultas e trabucos. Dois séculos depois com a introdução da pólvora na Europa, os castelos vão começar a ser substituídos pelos fortes, estruturas mais resistente aos canhões. 


Gravura para uma versão grega do Romance de Alexandre, séc. XIV. Nessa imagem vemos os cavaleiros usando cotas de malha, mas também fazendo uso da couraça e de braçadeiras. O que é tomado por alguns estudiosos como um versão da armadura de placas. 
Para Brian Price (2000, p. 5) e Alain Williams (2003, p. 54) a origem propriamente das armaduras de placas foi o século XIV, período que vai marcar a transição entre o uso de armaduras de escamas e cotas de malhas, para a adoção de armaduras de placas cada vez mais elaborada e completas, revestindo não apenas partes do corpo do guerreiro, mas ele quase todo. Entretanto, os dois historiadores sublinham que a visão de armaduras de placas de aço que normalmente temos, somente se formou no século seguinte. Antes disso, ainda teremos um período de adaptação e desenvolvimento de técnicas metalúrgicas para a criação dessas armaduras. 

Price (2000, p. 7) destaca que a Itália, embora não fosse uma nação unificada naquele tempo, mas formada por pequenos Estados, foi o polo ferreiro para desenvolvimento das armaduras de placas. O grande fluxo de riquezas que chegavam a península italiana através do comércio com os bizantinos e árabes, não apenas trouxe dinheiro para permitir o início do Renascimento, mas também permitiu a troca de saberes e o afluxo de matéria-prima. Não obstante, Price cita o caso da família Missiglia de Milão, uma das mais respeitáveis famílias de ferreiros, fabricantes de armaduras do ducado milanês. Os Missiglian ficaram tão conhecidos nos séculos XIV e XV, que suas peças recebiam seu selo e eram exportadas para vários locais da Europa, especialmente as terras francas e germânicas, seguindo as rotas comerciais que iam de Gênova, Milão e Veneza para Flandres e a Frísia

A Chronicon Extravagans de Galvano Fiamma (1298-1344), informava que os franceses, ingleses e espanhóis compravam muitas armaduras lombardas, uma referência a produção armeira de Milão. (BLAIR, 1959, p. 79). Mas além de Milão como polo manufatureiro de armaduras, Williams (2003, p. 57) destacou a província de Bréscia, também situada na Lombardia e vizinha de Milão. Williams cita que em determinados anos a produção de armaduras de Bréscia superou a de Milão. Segundo documentos administrativos da cidade, em seu auge, entre 1388 a 1486, a cidade chegou a possuir mais de 160 ferreiros, sendo metade desse valor, voltado apenas para ao trabalho com armaduras. Exportando muito dessas para os outros Estados italianos e para outras nações. 


Mapa atual da Lombardia. Durante os séculos XIV e XV, as províncias de Milão e Bréscia concentraram a maior produção de armaduras da península itálica e do sul da Europa. 
Enquanto as províncias italianas de Milão e Bréscia eram os principais centros produtores de armas e armaduras no sul da Europa, no lado oposto do continente, Estados germânicos como a Bavária e Tirol, começavam a destacar-se nesse mercado, passando a produzir seus próprios modelos ou a copiar os modelos italianos, e com isso vendendo para o restante do Sacro Império Romano-Germânico, para os ingleses, poloneses, dinamarqueses, etc. Data desse período também, principalmente na segunda metade do século XIV, o aumento do uso das couraças ou placas de peito, como também eram conhecidas. Entretanto, os cavaleiros ainda continuavam a usar cota de malha, mas passavam a usar elmos mais fechados, braçadeiras e caneleiras, e até luvas de metal. Esse modelo seria aperfeiçoado nas décadas seguintes. (BLAIR, 1959, p. 57-58). 

Chris Gravett (1985, p. 41-42) assinala que a adoção da couraça de ferro não foi exclusiva apenas dos cavaleiros, alguns membros da infantaria pesada, os quais lutavam usando espadas de duas mãos como a espada montante, ou usando alabardas, poderiam em alguns casos, fazer uso da couraça e outras partes que compunha a armadura de placas. De fato, ainda no século XVII, esse tipo de proteção peitoral ainda era utilizada pela cavalaria e alguns membros da infantaria. 

Para Brian Price (2000, p. 349) o século XIV foi essencial para o estabelecimento do conceito de armadura de placas. Pois durante esse período, num espaço de tempo de 50 a 70 anos, os ferreiros desenvolveram técnicas e vários modelos para aperfeiçoar esse tipo de defesa. Ao mesmo tempo que isso serviu de teste também para ver o que deveria ser feito ou não. No caso, Claude Blair (1959, p. 73-74) comentava que nesse período desenvolveu-se as partes essenciais das armaduras de placas: o elmo que cobria todo o rosto (o qual possuía distintos modelos, alguns poucos funcionais), a couraça a qual foi aumentando de tamanho, deixando de cobrir apenas o peito, mas passando a cobrir todo o tórax; a aketon, um tipo de jaqueta usado sob a armadura, que passou a substituir o uso da cota de malha, por se mostrar mais leve e mais confortável. Pois a medida que as armaduras se tornaram mais resistentes e cobriam mais partes do corpo do guerreiro, não era mais necessário usar uma longa cota de malha por baixo, para fornecer defesa extra. Outra parte que compunha a armadura de placas, desenvolvida nesse período foi o jupon, o qual consistia numa túnica grossa e acolchoada, usada sob a couraça. As vezes, sob o jupon, colocava-se o aketon ou outra veste. 


Armadura do rei Carlos VI da França, c. 1380. Nesse modelo utilizado pelo monarca francês, ainda nota-se o uso da cota de malha, apesar que relatos da época dizem que o monarca também fizesse uso do jupon
O desenvolvimento das armaduras de placas (1400-1500): 

O século XV foi em essência, o século das armaduras de placas, apesar que essas ainda continuaram a ser utilizadas até o século XVII, mas elas passaram a perder espaço na guerra moderna devido as mudanças táticas e armamentísticas surgidas no século XVI, o que revelou ser inviável manter cavaleiros trajando armaduras pesadas, as quais necessariamente não protegiam mais das balas de mosquetes e arcabuzes. De qualquer forma, antes de isso ocorrer, vejamos como foi esse período áureo para as armaduras de placas, que penosamente esteve ligado com o aumento de guerras na Europa.

Como comentado anteriormente, os dois polos de produção de armaduras no século XV, continuaram a ser Itália e Alemanha. No caso da Itália, Milão e Bréscia ainda se mantiveram no século XV como principais produtores de armaduras não apenas da Itália, mas do continente europeu. Na década de 1420 a armadura de placas como normalmente conhecemos já estava pronta. A armadura era formada agora por uma proteção que envolvia quase totalmente o corpo do guerreiro. A couraça já cobria o tronco por inteiro; proteção para o braço, ombreiras, pescoço, quadril e as pernas foram desenvolvidas. Os cavaleiros passavam a ser definitivamente "homens enlatados". (BLAIR, 1959, p. 80). 
Gravura representando um cavaleiro da década de 1420, trajando armadura de placas. No caso do modelo dele, ainda se notava o uso de cota de malha. O mesmo também estava armado com um bico de corvo. 
Na Itália o desenvolvimento de exércitos nacionais contribuiu para a intensificação das guerras italianas, as quais se estenderiam por mais de um século. O próprio Nicolau Maquiavel (1469-1527) vivenciou esse período e escreveu a respeito. Dentre suas obras acerca dessa fase bélica está o livro A Arte da Guerra. David Nicolle (1983, p. 11-12, 16) comenta que os séculos XIV e XV foram períodos de batalhas recorrentes na península itálica, o que demarca bem o cenário descrito por Maquiavel em algumas obras, recordando que o próprio Maquiavel atuou como diplomata de Florença e como embaixador para outros senhores, dentre os quais, o perigoso César Bórgia (1475-1507), filho mais velho do papa Alexandre VI (1431-1503). 

Todavia, Nicolle (1983) comenta se no século XIV as grandes batalhas em território italiano dava-se por conflitos entre condes, duques e príncipes de províncias ou Estados vizinhos, no século XV surgiram os exércitos estatais em Milão, Roma, Veneza, Gênova, Nápoles, Florença, etc. os quais passaram a combater com o apoio dos espanhóis, franceses, suíços, alemães e gregos, ou contra eles. Na segunda metade do século XV, campanhas espanholas e francesas para dominar a Itália, ocorreram, fazendo necessário a manutenção de exércitos fixos, treinados e bem equipados. E quanto mais rico o senhor, não eram apenas os cavaleiros que passavam a usar armaduras de placas, a infantaria armada com lanças, alabardas, martelos de guerra e espadas, também recebiam. E em alguns casos os balesteiros também poderia fazer uso de uma couraça. 

Curiosamente é preciso sublinhar que a Itália durante esse período de longas guerras pelo poder e invasões de outros países, coincide com o desenvolvimento do Renascimento (XIV-XVI), o período áureo das artes e algumas ciências. Isso é um tanto irônico que a Itália vivenciou uma de suas fases mais violentas, ainda assim, marcadas pelo esplendor artístico e desenvolvimento do conhecimento. De qualquer forma, alguns desses artistas acabaram usando seus talentos voltados para a guerra, como o próprio Leonardo da Vinci (1452-1519), realizou projetos associados com engenharia militar, fosse na criação de projetos de fortificações, armas e veículos de combate. 

Por mais que a Itália vivenciasse esse período de guerras, nem sempre o efetivo militar era suficiente, e isso levou a criação de grupos profissionais de mercenários treinados, os quais eram liderados por chefes, os condottieri. O condottiero era um mercenário profissional que dispunha de uma milícia. A palavra condottiero advém da palavra condotta (contrato), segundo destacado por David Murphy (2007, p. 8). O autor também sublinha que possivelmente o primeiro condottiero da história tenha sido Roger di Flor, que por volta do ano de 1302, ele e sua companhia prestaram serviço ao imperador bizantino Andronicus II. A ação de di Flor foi seguida por outros homens, e assim aos poucos foram surgindo pequenas companhias de condottieri. A partir da segunda metade do século XIV as companhias dos condottieri se popularizaram e se tornaram forças militares mercenárias importantes, inclusive determinando em alguns casos, a vitória em batalha. No século XV, algumas companhias eram tão famosas, ricas e numerosas, que seus homens dispunham de excelentes equipamentos. 


Detalhe do quadro A Batalha de San Romano. Paolo Uccello, 1450-1453. Ocorrida em 1432, a batalha foi marcada por um ferrenho conflito que contou com a presença das tropas dos condottieri Niccolò da Tolentino e Francesco Piccinino. As quais usavam armaduras de placas. 
Deixando a Itália e subindo para a França, nesse período França e Inglaterra viviam a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), intenso conflito que durou na verdade 116 anos, mas no século XV, vivenciou algumas batalhas bem sangrentas. Christopher Gravett (2001) destaca que o desenvolvimento de arcos e balistas mais potentes, somados a flechas e virotes mais perfurantes, levou os exércitos inglês e francês a adotarem armaduras mais duras. Inclusive os franceses compraram muitas armaduras dos italianos para esse fim, já que as forças inglesas eram conhecidas por suas companhias de arqueiros armados com arcos longos, e em alguns casos, com balistas. De fato, a fama dos arqueiros ingleses remontava há séculos e foi sendo aprimorada. 


Batalha de Angicourt (1415), representada em gravura do século XV. Nota-se os cavaleiros trajando armaduras de placas. Alguns usam o elmo de face aberta. 
Blair (1959, p. 108) apontou que os ingleses adotaram os modelos italiano e francês de armaduras para forjar suas próprias armaduras de placas. Em Londres foram desenvolvidas ferrarias especializadas para isso. Por sua vez, na França, além da importação de armaduras lombardas, ferrarias de armaduras surgiram em Lyons, Bordeaux, Beauvais, Chartres, Tours, etc. Apesar dos franceses estarem em guerra com os ingleses por um século, ainda assim, monarcas franceses eventualmente invadiam a Espanha, a Itália, Bélgica, Holanda, Alemanha. Enquanto a Inglaterra contava em estar segura por ser uma ilha, a França possuía várias fronteiras a se preocupar, daí a importância de ter ferrarias espalhadas pelo país, para abastecer os exércitos. 

Do mesmo modo que o exército inglês se dividia em alas com infantaria, artilharia e cavalaria, o exército francês fez o mesmo. Passando a adotar o arco longo e a balista, e até mesmo táticas inglesas de combate. Inclusive David Nicolle (2000) salienta que nos últimos anos da Guerra dos Cem Anos, houve algumas batalhas, nas quais os artilheiros já fizeram uso de armas de fogo; equipamento ainda recente no continente europeu. 

Entretanto, diferente das batalhas na Itália e na Alemanha, as armaduras de placas no caso francês e inglês estiveram mais reservadas aos cavaleiros, ainda assim, nem todo cavaleiro faziam uso delas. Alguns ainda trajavam cotas de malhas e uma couraça. Gravett (2001, p. 48) assinala que os cavaleiros ingleses e franceses da década de 1420, já faziam uso de luvas de ferro, de elmos tipo bascinet, e de aventail (elmo mais cota de malha para proteger o pescoço). O autor também sublinha que até mais ou menos 1450, já próximo do término da guerra, os ingleses faziam muito uso de modelos italianos de armadura. 


Gravura medieval do século XV, retratando Joana d'Arc, a qual participou da Guerra dos Cem anos. Os documentos da época confirmam que ela fazia uso de armadura de placas, apesar de não usar elmo que cobrisse toda a cabeça. 
A partir da década de 1450, passou-se a usar mais modelos de origem inglesa e até germânica. Gravett (2001, p. 49) também destacou que no século XV, durante a Guerra dos Cem Anos, viu-se a ampliação de armas brancas como maças, martelos de guerra, bico de corvo e alabarda; armas que permitiam perfurar ou esmagar a armadura. No caso das armas que esmagavam, a ideia era fraturar ossos, levando a hemorragia interna, ou incapacitar o cavaleiro, tornando-o vulnerável a ser atacado com punhais ou espadas nos pontos fracos. Algo que comentarei em outro momento. 

Deixando a França e seguindo mais ao norte, adentrando os Estados germânicos do Sacro Império Romano-Germânico, a presença de armaduras de placas também foi recorrente em várias batalhas importantes. Christopher Gravett (1985) assinalou que os Estados alemães vivenciaram conflitos tão intensos ou até mesmo, mais agravantes do que os vistos entre os Estados italianos. Apesar de o Sacro Império Romano-Germânico possuir nominalmente um imperador desde o século X, nunca significou que o império estivesse plenamente sob controle do monarca. Em vários momentos, algumas das províncias se rebelavam contra a autoridade imperial, ou simplesmente por intrigas políticas, econômicas, familiares ou pessoais, declaravam guerra a província vizinha. Sendo assim, os Estados germânicos que por alguns séculos englobaram a Holanda, Áustria, sul da Dinamarca, parte da Polônia e da Suíça, se viram em vários conflitos. 


Gravura do século XV, de uma batalha entre os hussitas e católicos, durante as Guerras Hussitas (1419-1434). Na imagem nota-se cavaleiros de ambos os lados, trajando armaduras de placas. 
Alan Williams (2003, p. 331) comenta que foi no século XV que a Alemanha começou a despontar na produção de armamentos e armaduras. Até então os nobres germânicos encomendavam suas armaduras dos ferreiros lombardos, porém, com o crescimento e acirramento de guerras internas e a necessidade de armar e equipar as tropas com maior agilidade, tornava inviável depender de importação, a qual poderia inclusive demorar semanas, um, dois ou mais meses. Esse tempo de espera poderia significar que o inimigo, caso já estivesse equipado, não iria aguardar tempo em atacar. 

No caso, Blair (1959, p. 92-93) comentou que as principais regiões produtoras de armaduras na Alemanha do século XV, eram Innsbruck, Nuremberg e Augsburg, províncias conhecidas pelo comércio e a produção manufatureira. Ele salienta que foi por volta da década de 1450 que se desenvolveu o modelo chamado de "armadura gótica", em referência aos Godos, um povo germânico. No caso, a armadura gótica foi bastante popular entre 1460 e 1500. O exemplar feito para Maximiliano I (1459-1519), o qual foi Rei da Germânia, Arquiduque da Áustria e depois Imperador do Sacro Império, é um dos modelos de armadura gótica mais conhecida, destacando-se os detalhes de incrustação, o elmo com proteção para a nuca, a proteção para o pescoço, e a escarpe (sabaton) com bicos exageradamente pontudos, os quais poderiam ser usados para causar dano, enquanto o monarca estivesse cavalgando e chutasse seus atacantes. Outros modelos similares foram encontrados. 


Réplica da armadura gótica do imperador Maximiliano I. A armadura teria sido feita para ele durante a década de 1480. 
Auge e declínio (1500-1600): 

O século XVI foi um divisor de águas para a História. As armas de fogo já estavam se espalhando pela Europa a pelo menos cinco décadas. Portugal havia iniciado as Grandes Navegações há vários anos. Cristóvão Colombo chegou as Américas em 1492, o Tratado de Tordesilhas (1494), dividindo as terras descobertas por Colombo, entre Portugal e Espanha, foi acordado; Vasco da Gama descobriu o Caminho para às Índias (1497-1499). O Império Otomano se expandia pelos Bálcãs, a colonização europeia nas Américas, África e Ásia se desenvolvia. O Renascimento italiano seguia para sua última fase. A Reforma Protestante se iniciava. As as prósperas civilizações Asteca e Inca nas Américas seriam destroçadas pelos espanhóis. E em meio a tudo isso, guerras ainda continuavam a ocorrer pela Europa, e cavaleiros ainda trajavam suas armaduras de aço. 

Embora o século XVI marque parte do esplendor das armaduras de placas, também é o período que marcará sua decadência. As mudanças militares introduzidas com o uso de mosquetes, arcabuzes, minas, granadas, morteiros e canhões afetou o modo de se fazer guerra na Europa. É evidente que essas mudanças não ocorreram de vez ou atingiram todos os países ao mesmo tempo. No entanto, Estados mais belicosos, foram os que vivenciaram essas mudanças mais rapidamente, não apenas nas armas adotadas, mas da forma como organizar as companhias militares, o treinamento, as fortificações e o modo de fazer guerra. 

As grandes batalhas campais em alguns lugares foi substituída por lutas de cerco, confrontos de emboscada, lutas em trincheiras, conflitos entre redutos ou fortificações. Os castelos robustos começaram a ser substituídos por fortes e fortalezas, mais baixos, sem torres altas, cercados por muralhas, baluartes, fossos e outras estruturas defensivas. As forças armadas desses países passaram a ser compostas de companhias de arqueiros e balesteiros, mas somadas a grupos de mosqueteiros, arcabuzeiros e canhoneiros. A infantaria munida de lanças, piques e espadas ainda se mantinha. A cavalaria leve e pesada ainda continuava, mas com o tempo a cavalaria pesada foi perdendo espaço para a cavalaria leve, por causa da mobilidade. Pois mesmo armaduras de aço não protegiam das balas. Mas isso não significou que foi do dia para o outro que o uso de armaduras de placas ocorreu. (EDGE; PADDOCK, 1991). 


A Batalha de Pavia em 1525. Bernard Van Orley (1528-1531). Nessa pintura contemporânea a batalha retratada, nota-se a presença de cavaleiros usando armaduras de placas, ao lado de homens armados com arcabuzes. 
Claude Blair (1959, p. 113) comentou que os principais polos ferreiros de produção de armaduras na Europa, no século XVI, ainda se mantinham. Na Itália destacavam-se Milão e Bréscia. Na Alemanha Augsburg, Nuremberg e Innsbruck, na França, Lyon e Tours. No Império Espanhol, Bruxelas, Antuérpia, Flandres, Sevilha e Burgos. Na Inglaterra, continuava Londres. Blair (1959) também comentou que no XVI um novo estilo de armadura de placas se tornou popular, especialmente entre os muito ricos. Era a armadura de estilo negroli, que substituía o gosto da alta nobreza pelas armaduras góticas. A família Negroli formada pelo pai Gian Giacomo, e os filhos, Filippo, Giovan Batista e Francesco, se notabilizaram no século XVI, pela produção de armaduras requintadas e de alta qualidade. 


Réplica de uma armadura negroli do século XVI. Nota-se que a ideia dessas armaduras estava mais no requinte da ornamentação, do que um uso prático para o combate. 
Alan Williams (2003, p. 906) comenta que embora já existissem ferreiros habilidosos que no século XV, faziam excepcionais armaduras, mas a arte em armaduras surgiu propriamente no XVI, com os italianos e os flamengos. No caso italiano, Williams destaca o trabalho da família Negroli, os quais se especializaram em produzir armaduras que podem ser chamadas de obras de arte. Em alguns casos suas armaduras eram compradas nem tanto para ser usadas no campo de batalha, mas como peça de decoração. O autor assinala que em determinadas épocas, as armaduras dos Negroli eram tão caras e requisitadas, que chegavam a valer mais do que o soldo de um ano, recebido por um soldado comum. Ele cita o caso que em 1543 um soldado recebia 20 escudos ao ano, enquanto um mestre-ferreiro poderia receber 40 escudos, e em 1567, Giovan Paolo Negroli, vendeu várias armaduras a 35 escudos, cada. Sem contar que outros trabalhos dele e de seus parentes, poderiam passar facilmente dos 100 ou 200 escudos. Williams destaca o caso de um trabalho grande feito ao imperador espanhol Carlos I, que encomendou armaduras e outros equipamentos. O custo do serviço? 1120 escudos! 

Phyrr e Godoy (1999) comentam que os Negroli e outras famílias ferreiras contemporâneas, como os Modrone de Mantua, tornaram-se não apenas ferreiros, mas artesãos e artistas. A metalurgia com eles resgatou uma arte deixada de lado há muito tempo. De fato, a arte metalúrgica em armaduras, elmos, escudos e espadas não é nova, na Antiguidade e no Medievo já existia, mas no século XVI, ela voltou a ficar em evidência. Os Negroli e Modrone não apenas forjavam armaduras de placas, mas outros tipos de armaduras, como também, forjavam elmos personalizados, escudos decorados, espadas, machados, couraças, etc. Suas obras eram mais voltadas para uma questão artística do que bélica, o que conota com o declínio do uso das armaduras de placas no campo de batalha e a tendência de se tornarem artigos de luxo. Inclusive, Phyrr e Godoy assinalam que influenciado pelos referenciais artísticos do Renascimento, algumas dessas armaduras buscavam resgatar a "aura heroica e lendária" dos mitos greco-romanos.


O imperador alemão Carlos V (Carlos I de Espanha), trajando sua armadura italiana. Pintura de Ticiano, 1548. 
É preciso sublinhar que as armaduras ornamentadas eram mais caras do que armaduras comuns. Ainda assim, o valor de armaduras comuns chegavam a custar o soldo de um ano de um soldado. Por isso que equipar uma tropa de cavaleiros era algo bastante caro, mas não impossível. Edge e Paddock (1991, p. 131) comentam que o rei Henrique VIII da Inglaterra (1491-1547) gastou muito dinheiro com armaduras. Entre 1512-1513 ele comprou 2 mil armaduras leves de Florença, e 5000 peças de armadura de Milão. Em 1539 ele comprou 1.200 armaduras de Colônia e 2.700 armaduras da Antuérpia. Para os autores isso assinala que ainda na primeira metade do século XVI, o comércio de armaduras era bem lucrativo e requisitado. 


Algumas características das armaduras de placas:

Ao longo dos mais de dois séculos nos quais essas armaduras foram usadas, surgiram vários modelos, alguns estranhos e outros extravagantes, mas essencialmente a funcionalidade era a mesma: proteger da melhor forma possível o homem que estivesse vestindo tal armadura. Pela condição de ter havido muitos estilos de armaduras, não cabe aqui citar todos, pois em alguns a mudança existente era mais um fator de estética do que funcionalidade. Assim procurei nessa parte do texto comentar de forma geral o desenvolvimento de algumas dessas armaduras,

Uma dúvida comum é quanto o peso dessar armaduras. Elas eram realmente tão pesadas ao ponto que o cavaleiro tinha dificuldade para andar? Alan Williams (2003, p. 55) aponta uns dados interessantes. A cota de malha (hauberk) que era usada por cavaleiros, soldados e arqueiros, consistindo em uma proteção relativamente fácil de ser feita e não muito cara, concedia proteção para golpes cortantes, e em alguns casos protegia de alguns tipos de flechas, mas poderia ser transpassadas por estocadas de espada e lanças, e por golpes de machado e martelo. Alguns virotes de balista também conseguiam penetrar a proteção da cota. Entretanto a cota de malha era uma proteção bem pesada. A depender da forma que foi fabricada e seu cumprimento, que variava ir desde a cintura até abaixo dos joelhos, possuindo manga curta ou longa, e podendo inclusive cobrir a cabeça como um capuz, o seu peso poderia variar de 10 a 20 kg. E somando o peso do restante do traje, com o elmo, escudo e a arma, o peso total poderia ser de 25 a 30 kg. 


Ilustração de dois cavaleiros e um soldado do século XIV. O cavaleiro italiano utiliza uma armadura de placas com cota de malha. O cavaleiro alemão e o soldado catalão usam cotas de malha. Ilustração de G. A. Embleton para o livro Italian Medieval Armies 1300-1500 (1983). 
Entretanto, Williams comenta o caso de cotas de malha mais curtas, que pareceriam uma camisa, as quais pesariam menos de 10 kg. Porém, a grande atenção que ele quer evidenciar é que algumas couraças datadas do século XIV, encontradas em Pistoia, na Itália, pesavam entre 2,5 a 3 kg. Uma outra couraça datada também do XIV, encontrada na Alemanha, tinha o peso de 4 kg. Se somarmos a condição que antes de 1420 os cavaleiros ainda não usavam armaduras de placas desacompanhas de cotas de malha, podemos fazer algumas somas básicas, baseadas no estudo de Williams. Sendo assim, se somarmos o peso de uma cota de malha curta, algo em torno de 8 a 9 kg, mais uma couraça que variava de 3 a 4 kg, mas as braçadeiras e caneleiras, as quais juntas poderiam pesar 3 kg, e por fim um elmo que poderia pesar de 1,5 a 3 kg, temos um total de peso em armadura de 15 kg a 20 kg. O que significa que se comparado apenas a cota de malha longa (hauberk), o guerreiro estava ganhando uns cinco a dez quilos a menos, o que poderia fazer a diferença no campo de batalha. 

Porém, essa diferença embora tenha sido explorada por alguns, os quais mantiveram o uso da cota de malha junto a couraça de ferro, mas como visto, isso não foi o suficiente. Optou-se em aumentar a quantidade de placas carregadas pelo cavaleiro, e isso embora possa ter fornecido proteção melhor, lhe custou a saúde. Mas quanto pesaria uma armadura de placas completa? Williams (2003) diz que o peso das armaduras variava de acordo com o material usado, se era ferro, ou aço de baixo carbono ou aço de alto carbono, a quantidade de peças que compunham a armadura no todo, as técnicas de forja, e as dimensões do usuário. Somando-se isso havia os modelos usados. Por exemplo, armaduras entre 1400 a 1450, ainda não cobriam plenamente o cavaleiro, deixando a parte de trás das pernas e dos braços desprotegidas. Posteriormente, já temos armaduras que cobriam esses pontos fracos. Sendo assim, o peso de uma armadura de placas variava de 25 kg a 40 kg. Um peso absurdo para um homem carregar.


Brian Price (2000) comenta que dependendo do modelo da armadura a quantidade de peças variava. E daí advém seu nome, armadura de placas. Price (2000) e Williams (2003) comentam que uma armadura de placas era em essência um conjunto de peças feitas de ferro ou aço. Durante os séculos XIV e XV foi mais comum usar o ferro na forja dessas placas. Porém, na segunda metade do século XV passou a se usar mais o aço, inicialmente de baixo carbono (mais maleável, menos duro, e mais barato), depois o de alto carbono (mais rígido, duro e caro). Mas independente de se usar ferro ou aço, a armadura era feita de placas desses metais, as quais seriam moldadas para tomar a forma desejada. 


Anatomia de uma armadura de placas do século XV. 
Algumas armaduras usadas nos séculos XIV e XV, possuíam em torno de dez peças: peitoral, elmo, braçadeiras (2), caneleiras (2), escarpes (2), ombreiras (2). Porém, armaduras dos séculos XV e XVI, poderiam ter mais de vinte peças: peitoral, elmo, gola, saiote, caneleiras (2), braçadeiras (2), luvas (2), escarpes (2), joalheiras (2), cotoveleiras (2), coxotes (2), braçal (2), ombreiras (2). Entretanto, há um detalhe apontado por Alan Williams (2003), não significa que o uso de placas seja igual ao de peças. Por exemplo, um elmo dependendo do modelo, poderia ser feito de duas, três, quatro ou mais placas. 


Ilustração detalhada de uma armadura italiana de 1450, completa e algumas das várias peças pela qual era composta. Ilustração de Graham Turner para o livro English Medieval Knight: 1400-1500 (2001). 
Essas placas eram moldadas pelo ferreiro e seus ajudantes, e dependendo de quantas peças tivessem, o modelo adotado e o tempo de trabalho diário, poderia demorar semanas para se produzir uma só armadura. É evidente que com o tempo criou-se técnicas para agilizar o processo, como a criação de fôrmas para algumas das peças. Além da condição que ferrarias renomadas possuíam muitos funcionários para agilizar o processo. 

Outra informação importante é o fato que uma pessoa sozinha teria dificuldade de vestir uma armadura dessa. Diferente do que se ver em filmes e desenhos, onde guerreiros vestem sozinhos suas armaduras, não era bem assim que a coisa funcionava. O cavaleiro até poderia colocar algumas das peças da armadura por conta própria, mas outras, que se necessitava prender as presilhas na parte de trás das costas, ou na parte de trás dos braços e pernas, era tarefa difícil. Assim, era comum eles terem escudeiros ou pajens para auxiliar na vestidura e no despir das armaduras. Mesmo uma simples cota de malha poderia ser difícil de remover, ainda mais, após uma batalha, onde o corpo estava cansado e talvez ferido. 


Ilustração recriando um acampamento militar italiano no século XVI. Em destaque um escudeiro ajudando seu senhor a vestir sua armadura. Ilustração de Graham Turner para o livro Condottiere: 1300-1500 (2007). 
O combate com armaduras:

Vimos que o peso das armaduras de placas poderia variar dos 25 aos 40 kg, algumas até passariam de isso, em casos menos usuais. Porém, os estudiosos consultados para esse estudo, apontam que em geral o peso dessas armaduras girou em torno dos 25 a 30 kg. Se pensarmos que um homem adulto em média possui seus 70 a 80 kg, logo, ele pesaria cem ou mais quilos. Sendo assim, para fatores de massa x velocidade, levar um golpe de um cavaleiro de armadura

Apesar de parecer um peso bem exagerado, o que dificultaria a mobilidade dos cavaleiros, a realidade não era bem assim. Os cavaleiros de fato tinham sua agilidade reduzida pelo peso extra, mas isso não significa que eles não pudessem se movimentar de forma adequada. Se as armaduras não fossem práticas, elas teriam sido abandonadas, mas a realidade foi que por mais de 200 anos elas foram utilizadas. Sendo assim, elas não eram tão ruim assim. 

A mobilidade com uma armadura de placa dependia de alguns fatores: a) treinamento militar, b) condição física, c) saúde física e mental durante o conflito, d) modelo de armadura, e) qualidade da armadura. Esses são fatores a serem cogitados. Um homem que não tivesse um treinamento militar para combater usando esse tipo de armadura, era um alvo fácil. Sem condição física para aguentar o peso extra, ele em poucos minutos estaria cansado, o que não era viável para uma batalha que poderia durar uma hora ou mais. Se a saúde física ou mental dele estivesse abalada no dia da batalha, isso comprometeria seu desempenho na luta. Algumas armaduras eram mais rígidas, afetando a movimentação das pernas e braços. Armaduras enferrujadas ou danificadas, poderiam atrapalhar na movimentação e não concederiam defesa adequada.


Página de um manual de combate datada de aproximadamente 1500. Na página em questão, ensina-se duas técnicas de luta. 
Os manuais de combate (conhecidos em alemão como fechtbuch) são uma ótima forma de ver como era a movimentação dos cavaleiros e soldados que trajavam armaduras de placas. Além disso, há relatos de cavaleiros que escreveram esses manuais, apresentando dicas para treinamento, o que incluía, correr, subir escadas e pular pequenos muros, trajando a armadura, a fim de se acostumar com a limitação de movimento e o peso delas. Além disso, os cavaleiros recomendavam um treinamento para os braços e as pernas, a fim de fortificá-los. Para além do treinamento físico, os manuais também expunham várias instruções de combate, usando espadas, lanças, alabardas, maças, martelos, punhais e até combate desarmado. Alguns manuais também apresentavam regras de disciplina e cordialidade. Esses manuais foram populares na Alemanha, Itália, França, Espanha e Inglaterra, dando origem a escolas desses países. (TURNBULL, 1995). 

Não obstante, a possibilidade dos cavaleiros usando essas armaduras, conseguirem correr, pular, escalar, cair e levantar, já desmente a ideia de que eles tivessem a mobilidade enrijecida e só conseguissem lutar montados em cavalos. Um estudo francês realizado em 2011, mostrou dois voluntários usando armaduras do século XV, e executando alguns movimentos de ataque e outros movimentos de locomoção. Assista o vídeo abaixo:



Nesse vídeo produzido para o Museu Nacional na França, vemos que os dois voluntários trajando armaduras de placas, conseguem cair e levantar, subir e descer uma escada, rolar no chão, fazer polichinelo, e sobretudo, lutar. As técnicas de combate eram algo importante tanto quanto o condicionamento físico. Pois embora você fosse forte e conseguisse aguentar o peso da armadura, se você não soubesse como enfrentar um adversário usando uma armadura igual a sua, isso era um problema. 

Diferente do que se ver em filmes, desenhos e videogames, onde temos cavaleiros trajando armaduras de placas e disferem espadadas que cortam o aço, na realidade não era isso que ocorria. As espadas não penetravam as placas de ferro e nem de aço. Mesmo, alguns machados e lanças não conseguiam perfurar as placas. Martelos e maças causavam dando de impacto, não de corte, sendo a intenção dessas armas esmagar ossos. Por outro lado, alguns tipos de armas como o bico de corvo, o martelo com ponta e a alabarda poderiam perfurar as armaduras. Mas eram armas difíceis de usar, principalmente a alabarda pelo peso. 


Bicos de corvo, armas desenvolvidas no século XIV para serem usadas contra cavaleiros ou guerreiros usando armaduras de placas. A arma era três em um, pois permitia cortar, estocar e bater.
Apesar desse treinamento o combate com essas armaduras ainda era uma atividade árdua. Os cavaleiros se queixavam de dores nas costas, ombros e pernas, após uma sessão de treino ou de combate. Correr e escalar com essas armaduras também demandava um esforço de respiração. Como em geral eles usavam elmos com abertura pequenas para os olhos, isso dificultava a entrada de ar nos elmos, o que afetava o desempenho dos cavaleiros. Se um deles fosse derrubado. O peso da armadura poderia comprimir seus pulmões, deixando-o momentaneamente com falta de ar. Se um cavaleiro estivesse montado a cavalo, enquanto se movimentava e fosse derrubado, a queda poderia inclusive causar mais dano do que o impacto que o derrubou. Dependendo da velocidade que ele caiu, somado ao peso que ele carregava, costelas poderiam se fraturar. Mas mesmo com tais riscos, isso não impediu o uso longevo dessas armaduras. 


Ilustração imaginando como teria sido a Batalha de Wickerfiled, ocorrida em 31 de dezembro de 1460. Ilustração de Graham Turner para o livro English Medieval Knight: 1400-1500 (2001). 
Armaduras para cavalos:

Num texto sobre armaduras e cavaleiros, não poderia ficar de fora os cavalos, os quais completam o trio icônico do medievo e começo da modernidade. O uso de armaduras para cavalos não foi uma invenção do final do medievo, outros tipos de armaduras feitas de couro, tecidos, cota de malha e de escamas já haviam sido utilizadas na Europa e na Ásia, desde a Antiguidade. Mas a novidade no medievo europeu foi a adoção de armaduras de placas também para cavalos. Inicialmente feitas de ferro e depois feitas de aço. As armaduras para cavalos seguia a mesma forma de produção do que as armaduras para humanos; eram placas de metal, as quais eram cortadas e moldadas para assumir determinadas forças nas quais cobririam partes do corpo do animal. No caso dos cavalos, as armaduras não lhe cobriam o corpo todo, as pernas ficavam livres para não atrapalhar a locomoção. 


Anatomia de uma armadura equina do século XV. 
As armaduras equinas também variavam de modelo, mas em geral possuíam bem menos peças do que uma armadura para pessoas. A armadura equina trabalhava com três partes principais: proteção para o peito, ou seja, o peitoral, a proteção para a garupa (bard), a proteção para a cabeça e a nuca. Em alguns casos havia uma proteção para o pescoço ou apenas para a cabeça, não tendo a proteção para a nuca. De acordo com Williams (2003) uma armadura equina dependendo do tamanho do cavalo e do número de peças, pesava de 40 a 60 kg. Mas como os cavalos de guerra usados eram animais robustos, eles conseguiam carregar esse peso, que passava facilmente dos 150 kg extras, considerando a soma do peso da armadura com o peso do cavaleiro trajando armadura. Fora que esse peso total era acrescido com a sela e as armas que o guerreiro carregasse. 

Edge e Paddon (1991) assinalam que as armaduras equinas surgiram principalmente pela condição de que os cavalos eram alvos mais fáceis do que os cavaleiros. Sendo assim, optava-se em ferir ou matar o cavalo, fazendo-o derrubar o cavaleiro, o qual estando caído, estava vulnerável para ser atacado e morto. Assim passou entre os séculos XIV e XVI usar-se armaduras em cavalos para assegurar sua proteção, a fim que o animal não fosse ferido num ataque e isso não compromete-se o cavaleiro. Todavia é preciso salientar que nem todo cavalo fazia uso dessas armaduras, as quais eram caras e pesadas. Em pinturas medievais e modernas vemos cavaleiros com armaduras de placas, mas seus cavalos não apresentavam tais armaduras, e em alguns casos, usavam apenas um peitoral, para proteger um dos locais mais vulneráveis. 


Cavaleiros e cavalos trajando armaduras de placas do final do século XV. 
Considerações finais:

Ewart Oakeshott (2000, p. 197-198) comenta que no século XVI até mais ou menos 1550, o uso de armaduras de placas ainda continuava para fins de combate e era um comércio bem rentável. Apesar que nesse período tenha se desenvolvido as "armaduras artísticas" ou "arte em armadura", o que revela um apreço mais estético e ornamental a esse tipo de traje de combate. No entanto, ele comenta que após 1550, o uso dessas armaduras para fins militares praticamente foi decaindo com a adoção de novas formas de se fazer guerra. Com exceção de monarcas, príncipes, duques, condes ou algum nobre muito rico, que vez ou outra fazia uso dessas armaduras para ir ao campo de batalha, os seus exércitos já não contavam tanto com cavaleiros e soldados trajados dessa forma. Em alguns casos, os cavaleiros e soldados usavam versões mais simples de armaduras de placas, ou apenas a couraça ou peitoral, junto com braçadeiras, tornozeleiras e o elmo. 

Edge e Paddock (1991) apontam que o uso de armaduras de placas ainda se manteve no século XVII, como comentado por Blair (1959), porém, não tendo sido um uso propriamente no campo de batalha, mas para torneios, pois os torneios de justas continuaram até o XVII, quando entraram em declínio e foram abandonados. Por outro lado, a compra de armaduras requintadas ainda permaneceu entre a nobreza, fosse para fatores de nobres se exibirem em pinturas, ou para ornamentar seus castelos e palácios. 

Embora as armaduras requeressem um grande esforço físico dos cavaleiros,  um treinamento de qualidade, como também foram equipamentos caros, isso não as tornou inviáveis, pois entre os séculos XIV ao XVI as armaduras de placas foram usadas nos campos de batalha da Europa. Seu legado durou mais de duzentos anos, assim como, também permitiu o desenvolvimento de técnicas de combate, técnicas de forja, um comércio lucrativo, o crescimento de cidades, a expansão da arte em metalurgia. E após seu declínio como equipamento militar, elas continuaram como artigos de luxo, e ainda hoje nos encantam, quando visitamos museus, castelos ou palácios que contém esses trajes de ferro ou aço. 

NOTA 1: Alguns elmos do século XIV possuíam uma espécie de "bico", pois acreditava-se que caso o cavaleiro fosse golpeado no rosto, o "bico" ajudaria a amortecer o impacto. Esteticamente tais elmos eram estranhos, e foram abandonados posteriormente. Mas a ideia do elmo manter um espaço do rosto, não apenas servia para sua proteção, mas também para permitir circular o ar. 
NOTA 2: As armaduras negroli e modrone baseavam-se em referências greco-romanos, inclusive com direito a recriar armaduras usadas pelos antigos romanos e gregos. Os motivos de ornamentação de algumas peças também advinham da mitologia grega, como escudos com a cabeça da medusa, elmos com sereias, cabeça de dragão, leão, lobo, etc. Elmos representando os cabelos e barba de estátuas gregas. 
NOTA 3: Além de armaduras para cavalos, cães de guerra também receberam armaduras, embora tenha sido algo menos usual.
NOTA 4: Algumas armaduras para cavalos, exibiam chifres ou um chifre de unicórnio. Os atributos eram mais estéticos do que funcionais. 
NOTA 5: Muitas armaduras não possuíam proteção para a genitália. Logo, fazia-se uso de cota de malha e calças. Porém, para contornar esse problema, algumas armaduras faziam uso de saiotes ou de uma calça com proteção peniana, algo bem estranho. O rei Henrique VIII da Inglaterra possui algumas armaduras com essa proteção peniana.
NOTA 6: Em alguns filmes, desenhos e jogos de videogame nota-se armaduras femininas que possuem seios moldados no peitoral. Historicamente isso nunca existiu. Primeiro que as mulheres não iam a guerra com frequência, e quando faziam, elas usavam equipamento que era feito para os homens. Joana d'Arc que é um caso de uma mulher que foi para batalhas, vestia-se com uma armadura típica da época. 

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