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domingo, 30 de outubro de 2016

Os druidas

Os druidas

prof. Dr. João Lupi


1. O que hoje em dia se pode dizer sobre os druidas parece oscilar entre dois extremos: ou o quase nada, ou o excessivo. Entre os dois ficam mais hipóteses e interrogações do que conhecimentos válidos. O quase nada é constituído por: as poucas referências de escritores gregos e latinos, mormente o texto de Júlio César no De Bello Gallico que mal enche uma página; a perplexidade ou paradoxo de uma escrita ogâmica que existiu para não revelar os ensinamentos dos druidas; a estranheza que nos causa a afirmação de Estrabão de que todos os grupos celtas tinham seus druidas, quando só sabemos da existência deles na Gália e nas ilhas Britânicas. Se a esse muito pouco se acrescentar a crítica às opiniões do conquistador e dominador dos gauleses, então do texto de César fica mesmo quase nada.

O “excessivo” fica por conta de todas as idealizações que ingleses e franceses fizeram acerca dos druidas desde o século XVI, à procura de antepassados nobres e dignos que os colocassem a par com a civilização greco-romana – e com esse ideal imaginaram sacerdotes ecológicos, sábios de mistérios fantásticos, adivinhos quase profetas, conhecedores dos segredos da natureza, com poderes para fazer poções mágicas; e estes exageros deram lugar a uma tão ampla literatura sobre os druidas, com inúmeros livros imperdíveis que parece que mais nada há a dizer. Entre as interrogações que ficam pelo meio estão as narrativas dos monges irlandeses, que tão depressa cortam informações acerca dos druidas (para não ofender nem o cristianismo nem aqueles que ainda respeitavam as doutrinas tradicionais) como destacam o lado anti-cristão dos druidas para justificar o seu banimento.

Para resistir à tentação de não dizer nada – já que nada de novo parece que se pode dizer – só temos três débeis motivos: a pouca bibliografia em língua portuguesa sobre este tema, a necessidade de fazer um panorama tanto quanto possível atualizado dos conhecimentos disponíveis, e a possibilidade de algum ponto de vista interessante que possa surgir ao olhar este panorama – assim como uma linda paisagem, que pode ter sido admirada por milhões de pessoas, mas que nem por isso afasta quem nunca a olhou, e vai lá na esperança de descobrir o que os outros não perceberam. Porém, mesmo os estudiosos mais atentos e criteriosos que investigaram os druidas não escaparam à tentação de arriscar hipóteses e opiniões incertas, e por isso não vamos eliminá-las facilmente: num caso como este uma observação sugestiva e razoável vale como um estímulo para que outros a comprovem, ou a descartem – e é o risco que vamos correr.

2. Comecemos por uma visão rápida dos testemunhos clássicos e demos a prioridade aos gregos. Diodoro Sículo (entre séc. I a.C./ séc. I d. C., em Histórias V, 28, 6 e V, 31, 2-5) diz que os druidas eram filósofos e teólogos de nível superior, que à maneira dos pitagóricos acreditavam na reencarnação das almas, e que eram curandeiros e adivinhos respeitados. Estrabão, contemporâneo de Diodoro (Geografia IV, 4, 197, 4) cita os bardos, de quem Diodoro também falou, os adivinhos e os druidas, e destes diz que são fisiólogos (naturalistas) e mentores da filosofia ética.

Dion Crisóstomo (início do séc.II, nos Discursos 49) diz que os druidas se ocupavam com todo tipo de sabedoria e que não só eram conselheiros dos reis como em tudo os reis seguiam as suas normas e diretrizes. Diógenes Laércio (séc.III d. C., em Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, I, 1 e 6) inclui os druidas entre os sábios das outras civilizações – persas, babilônios, assírios, indianos e egípcios e deles diz que eram homens “ veneráveis (...) que expunham suas doutrinas por meio de enigmas, exortando os homens a reverenciar os deuses, a abster-se totalmente de más ações e a ser corajosos “ – mas compara-os neste ponto aos ginosofistas indianos (os sábios nus, geralmente se supõe que fossem os brâmanes, mas podiam ser ioguis).

Entre os cristãos helenísticos falaram dos druidas: Clemente de Alexandria (c.153-220, nos Stromata I, 15), Hipólito (c. 170-236 na Refutação das heresias I, 22), Orígenes (c.185-254 no Contra Celso I, 16) e ainda Cirilo de Alexandria (c.380-444 no Contra Juliano IV, 133). Hipólito e Clemente relacionam os druidas com as doutrinas pitagóricas e com a adivinhação e magia; são muito venerados pelos celtas, diz Hipólito porque sabem fazer certos cálculos com números e profetizar o futuro, e também praticam rituais mágicos; e Clemente (que era de Atenas) ao explicar como a filosofia grega teve sua origem entre os povos de outras culturas (bárbaros) afirma: “ E assim a filosofia, que é de qualidade tão elevada, floresceu na antiguidade entre os bárbaros, iluminando as nações, antes de chegar à Grécia; sua fileira inicial foi constituída pelos sábios egípcios, e pelos caldeus entre os assírios, e os druidas dos gauleses, e os samaneus da Bactriana, e os filósofos dos celtas, e os magos dos persas, que anunciaram o nascimento do Salvador, e chegaram à Judéia guiados por uma estrela, e os ginosofistas indianos (...).

Clemente lembra ainda que Pitágoras teria estudado com os gálatas e com os brâmanes. Orígenes, que foi aluno de Clemente cita os druidas da Gália (toûs galatoôn druidas) entre os povos antigos de elevada sabedoria, mas para criticar Celso (um romano do séc.II d. C.) que estimava os druidas acima dos judeus; o mesmo Orígenes no Comentário ao Livro de Ezequiel (apud. Ellis, 132) afirma que os druidas da Bretanha veneravam um deus único antes da chegada do cristianismo e que assim ensinavam o povo, e por isso os celtas estavam predispostos desde antigamente a receber o batismo.

Quanto a Cirilo sua obra foi escrita por volta de 435 para refutar a crítica do imperador Juliano aos cristãos (em Contra os Galileus) e a referência aos druidas é apenas de passagem. Entre as muitas observações que se podem fazer acerca destes escritos gregos é preciso notar antes de mais que as coincidências entre eles, como as listas de povos antigos de Clemente e de Diógenes, denotam a falta de conhecimento direto dos druidas e a presença de uma ou mais fontes comuns, mais antigas, que geralmente se crê sejam os escritos de Timagestes, e a História de Possidônio de Apaméia (c. 135-50 a . C.) de que não restam senão fragmentos esparsos; mas parece que Possidônio teria visitado a Gália, e que seu testemunho era bem fundamentado.

A segunda observação é que no conjunto estas afirmações constituem um acervo muito diminuto quando comparado com o imenso volume de obras em grego; no entanto são significativas, pois são notáveis certas opiniões comuns: já é de estranhar que os celtas sejam colocados a par com outros povos que criaram civilizações tidas como muito mais elaboradas, que tiveram amplo uso da escrita, impérios organizados, grandes cidades – como os indianos, assírios, e egípcios – o que nos leva a uma dupla interrogação: os druidas são citados devido à importância dos celtas, ou os celtas é que são citados pela fama dos seus druidas?

Mas os celtas não gozavam de tão boa reputação, portanto é mais provável que eles é que sejam citados devido à importância dos druidas. Mais: mesmo que todos eles falem do que ouviram dizer ou leram em Possidônio, Timagestes ou outro autor anterior a eles, alguma fama dos druidas deve ter permanecido para que não omitam a referência. Portanto colocá-los a par com os magos persas e os brâmanes é um indicador válido do respeito que eles gozavam entre os “civilizados”. Ressalte-se ainda a repetição da referência aos pitagóricos: deveria ser voz comum, não tanto pela matemática celta mas pela aura de ocultismo e mistério que os rodeava. Vejamos agora o que dizem os romanos.

Júlio César (c. 100-44 a.C.) é a referência dominante acerca dos celtas e dos druidas (De Bello Gallico ou A Guerra da Gália VI 4, 13, 14, 16, 18, 21): além de alguns dados sobre a religião – deuses, rituais, sacrifícios, moral – oferece informações sobre a organização dos druidas e suas funções: a eleição de um druida-mor, a reunião anual na floresta dos Carnutos, a função sacerdotal ou de presidência dos ritos, a de mestre da juventude, e a de juiz; fala também da isenção do serviço de guerra, da aprendizagem de longos poemas, e da recusa em colocar por escrito os seus ensinamentos; os druidas, diz César, são muito interessados nas coisas do mundo físico: astronomia e natureza.

Seu contemporâneo Cícero (106-43 a . C. em Sobre a adivinhação I, 41, 90) é o único que diz ter conhecido um druida: Divicíaco o Eduano, hóspede de seu irmão; mas pouco nos conta das conversas que teve com ele: apenas que sendo um bom conhecedor da natureza era o que os gregos chamam um fisiólogo, e que era áugure ou adivinho.

Plínio (c.23-79; na História Natural XVI 249) refere-se à magia dos druidas e aos conhecimentos deles sobre os céus e os astros e dá-nos uma descrição dos rituais do corte do visco no carvalho – é ele que nos fala das vestes brancas dos druidas neste ritual; Plínio estava interessado em saber e divulgar as propriedades medicinais das plantas e animais e descreve ainda o uso que os druidas faziam de outras ervas como selago, e samolo e explica detalhadamente os misteriosos ovos de serpente (XXIV 103-104; XXIX 52) mas mostra evidente desconfiança acerca da validade de tais usos e inclusive considera exagerado o fascínio que a Bretanha tinha pela magia (Britannia attonita celebrat tantis caerimoniis) parecia até que os bretões achavam que foi com os druidas que os magos persas aprenderam (XXX 13).

Pompônio Mela (séc. I d.C. em De Situ Orbis ou Geografia III 2, 18-19) considera que os druidas são grandes sábios e mestres que se dedicam ao estudo dos céus e dos astros. Seu contemporâneo Lucano (39-65 no poema Pharsalia I, 450-458) também se refere aos conhecimentos de astronomia, mas tal como Suetônio (69-140 em Claudius 25) reputa os rituais dos druidas desumanos e selvagens. Tácito (c. 56-120 nos Anais 14,30) narra a cena das mulheres enfrentando as legiões ao som das imprecações dos druidas que incitavam os celtas à batalha; e conta a destruição dos vencidos, que entretanto se dedicavam a superstições selvagens; ao falar das profecias dos druidas acerca do Império (Histórias IV 54) Tácito considera-as vãs superstições.

Os autores da História Augusta (século IV) Lamprídio (no capítulo de Alexandre Severo 59, 5) e Vopiscus nos capítulos sobre Numeriano 14, e Aureliano 43) citam a existência de mulheres druidas ( mulier Dryas, dryde mulier) das quais se contavam profecias. Ausonio (c. 310-395 em Commen. Professorum IV 7-10 e X 22-30) cita Febício, um homem “da estirpe“ dos druidas, natural da Armórica (Bretanha francesa) guarda do templo de Beleno, que foi professor em Bordéus. Amiano Marcelino (c. 330-400 em O Final do Império Romano XV 9) distingue os druidas (drasidae) dos adivinhos-profetas (euhagis) e dos bardos considerando os druidas como grandes intelectuais (ingeniis celsiores) aproxima-os dos pitagóricos e diz que se dedicam ao estudo das coisas mais sublimes e ocultas desprezando as coisas humanas comuns.

Após analisar detidamente os testemunhos dos romanos e de relacioná-los com o contexto histórico Kendrick (o. c. 98-99) é taxativo: até à época do Império os druidas gozavam de excelente reputação mas rapidamente a perderam, e aos olhos dos romanos eles se foram convertendo cada vez mais numa classe religiosa dedicada a superstições e feitiçarias. Mas Ellis (o. c. 60-61, 74, e 77) tem outra opinião: ele julga quase todos os escritores, tanto romanos como gregos (particularmente Estrabão) do tempo do Império favoráveis à política de ocupação e domínio, e suas críticas aos druidas seriam devidas mais à intenção de justificativa da conquista do que ao desprestígio dos druidas.

Mesmo assim, por mais que se deva relativizar os conhecimentos que os romanos tinham dos druidas há aspectos em que há uma tal coincidência, ou reforço de opiniões vindas de diversos lugares e épocas, que a margem de dúvidas se estreita; resumindo: os druidas eram intelectuais de alto valor, equiparáveis aos sábios de outros povos mais eruditos; seus conhecimentos mais ocultos tinham semelhanças com os dos pitagóricos; tinham especial sabedoria acerca da natureza em geral tanto da astronomia e cosmologia como dos reinos animal e vegetal; e exerciam funções jurídicas, e políticas além das pedagógicas.

Parece, pois que, aos olhos dos intelectuais seus contemporâneos podemos considerar os druidas como uma classe sacerdotal sociologicamente bem definida e com características ou traços que desenham um certo tipo ideal que pode ao menos ser tomado como ponto de partida razoavelmente seguro. Porém ao menos num aspecto os comentadores têm sérias dúvidas acerca da opinião clássica sobre os druidas: é no que toca a considerá-los “filósofos”. Vamos pois analisar os druidas apenas sob estas duas categorias: como classe social, e como fisiólogos.

3. Na organização social Estrabão diz (Geografia IV 4, 197-198), que todos os celtas têm três classes de homens que são especialmente venerados: bardos (bardoi), adivinhos (uáteis, vates) e druidas (druidai) . É a única afirmação disponível que estabelece a classe social dos druidas como própria de todos os celtas, pois os testemunhos da época só nos falam dos druidas dos gauleses – por vezes chamados de gálatas; das ilhas só sabemos da existência dos druidas por documentos posteriores ao seu declínio ou desaparecimento, e de todos os outros celtas nada sabemos; as fontes de informação – arqueologia, filologia, cultura popular, toponímia, e epigrafia –não oferecem muitos dados que esclareçam o que nos chegou dos textos apresentados, e os escritos do período cristão devem ser sujeitos a cuidadosa crítica; contudo diversos autores consideram a opinião de Estrabão verosímil(MCCANA 14 e 19; GUYONVARC’H 147; mas HUBY 604 discorda).

A reconstituição da organização e saber dos druidas opera pois sobre bases frágeis: os relatos gregos e romanos, completados com as informações dos monges britânicos e irlandeses, e a verosimilhança do alargamento de suposições dentro do quadro cultural geral ou de cada grupo celta. Podemos assim desenhar a estrutura básica da organização dos druidas como uma classe coesa, liderada por um druida principal, havendo regras para a sua eleição; tal procedimento supõe que os druidas da Gália mantinham entre si um estreito relacionamento, que havia algum tipo de normas de comportamento e de continuidade de doutrina que os unia, e que esse relacionamento se fortalecia a quando da reunião anual na floresta dos Carnutos, onde realizavam um conclave (reunião privada e exclusiva).

Há indícios, mas não a certeza, de que também na Irlanda existia um druida-mor – em A Vida Tripartida de São Patrício (II, 325, citado por JUBAINVILLE 79-80) fala-se de um chefe druida irlandês, mas pode ser um cargo eventual, ou uma citação espúria, sem confirmação. Acerca da vida privada dos druidas parece não haver dúvidas de que podiam casar, ter propriedades e manter atividades políticas; embora isentos do serviço militar acompanhavam os guerreiros e incitavam-nos à luta.

Mais discutida é a distribuição das três ordens, que segundo Estrabão eram exercidas por grupos distintos, mas outras fontes consideram que constituíam uma só ordem – a druídica – com funções distintas: a sacerdotal, a poética, e a divinatória. A favor desta opinião estão os testemunhos de que os druidas exerciam a profecia e a adivinhação, e que eram poetas compositores, declamadores e músicos.

Segundo esta hipótese a especialização e autonomia dos bardos e adivinhos teria se originado do progressivo declínio do reconhecimento social e do poder dos druidas; mesmo que se tenha em conta os reparos de Ellis o declínio se deu em virtude dos decretos imperiais: primeiro o de Augusto que os excluiu da cidadania romana, depois o decreto senatorial do tempo de Tibério que proibiu a sua existência, e finalmente o de Cláudio em 54 que aboliu por completo os druidas.

O que estranha é que três decretos sucessivos em pouco mais de cinquenta anos não impediram que três séculos depois ainda se falasse deles (Ausonio, Amiano Marcelino, e Cirilo de Alexandria) como de uma classe social e religiosa importante e respeitável. Porém é evidente que cada escritor, grego ou romano, dá uma opinião diversa sobre as três ordens, suas funções e seu relacionamento; esta confusão pode provir da variedade de fontes, das diferenças de tempo e de lugar, ou do próprio autor que distorceu informações.

Por essa razão os comentadores e intérpretes contemporâneos apresentam cada um uma distribuição diferente das três ordens, e Jubainville (o. c. 19-25) ainda indica outra: a divisão em druidas, gutuatri, e uati (adivinhos); os gutuatri estão atestados por alguns testemunhos, mas como ordem são pouco conhecidos. Do que não restam dúvidas é de que as três funções existiam, que ao menos em certas circunstâncias foram exercidas por personagens distintos, e que os druidas eram considerados muito superiores aos bardos e aos adivinhos. A evolução dos filidh na Irlanda parece confirmar esta hipótese: eles teriam surgido no seio da classe social dos druidas, foram ganhando importância como poetas e sábios – em letras e literatura – ao ponto de alguns deles já se equipararem aos druidas no início do período cristão, e tornaram-se seus herdeiros quando ingressaram nas fileiras do cristianismo e dos mosteiros.

4. A sabedoria dos druidas era, como se viu, famosa entre gregos e romanos: sacerdotes e teólogos, eram ainda fisiólogos e cosmólogos, poetas e adivinhos, políticos e pedagogos. Que eram sacerdotes encarregados de presidir os sacrifícios e o ritual, e portanto detentores dos conhecimentos acerca do simbolismo litúrgico, não há dúvida; como também não se duvida de que eram teólogos, criadores e intérpretes das doutrinas acerca da mitologia, das características dos deuses, das formas de prestar-lhes culto, de como as pessoas deviam comportar-se de acordo com normas éticas baseadas em princípios religiosos; também se reconhece geralmente que detinham habilidades no uso da linguagem como poetas e narradores, o que implicava a música, e certamente o domínio, entre os irlandeses, da escrita ogâmica, e a acreditar César, o uso do alfabeto grego entre os gauleses; é certo que conheciam as leis e os princípios de aplicá-las como juristas, juízes e conselheiros políticos.

Estas são qualificações que, com as reservas e detalhes de tempo e lugar, se aplicam aos dois grupos de druidas que razoavelmente se conhecem: gauleses e irlandeses, e, com menos certeza porque são muito menos conhecidos, aos outros celtas: bretões, cruthin (pictos) e galeses. Mas acerca das demais atribuições de sabedoria há sérias dúvidas. A primeira é sobre os conhecimentos matemáticos, que os aproximariam dos pitagóricos e fariam deles hábeis astrônomos. Porém os pitagóricos como escola autônoma na Grande Grécia desapareceram no século IV a . C. e não há indícios de que antes ou depois tivessem se difundido muito para o norte.

O nome “pitagórico“ significou muito mais um estudioso das ciências ocultas do que um teórico da matemática; ora o que seja “oculto“ é muito relativo e não é raro chamar-se “ciência oculta“ aquela da qual não sabemos nada porque não temos acesso a ela. Gregos e romanos pouco podiam saber dos conhecimentos dos druidas porque estes não os escreviam – de acordo com César, mas há reparos a fazer neste ponto – nem os revelavam fora do seu grupo étnico. Contentavam-se com ensinar ao povo os comportamentos religiosos e morais, e aos políticos as diretrizes de governo e a sua aplicação prática.

Outros saberes que detinham não revelavam, e esse conjunto de sabedoria impressionava gregos e romanos que os comparavam ao que de mais semelhante tinham conhecido: os pitagóricos. Não há indícios de que os druidas dominassem algum tipo de ciência matemática numérica aplicável à astronomia; o calendário dito de Coligny, no entender de Kendrick (o . c.115-120) e também de A . H. Allcroft e Lewis Spencer (citados por Ellis 273-274) não passa muito além dos conhecimentos de alguns povos ágrafos acerca do ciclo do sol e da lua e é muito mais romano do que celta; contudo Mac Cana o. c. 90 legenda 2) considera que “seu conteúdo é claramente independente do calendário romano”.

Contudo Ellis, que se apoia mais no estudo dos druidas insulares do que no dos druidas do continente, rebate estas reticências com alguns argumentos; o primeiro seria o fato de ter havido entre as populações de cultura megalítica anteriores aos celtas um conhecimento muito apurado dos ciclos solares e lunares, que está presente nos monumentos do tipo Stonehenge, e que os celtas teriam herdado – esta opinião teria forte respaldo nas hipóteses acerca da difusão da cultura celta, que concedem muito mais importância à herança pré-histórica dos celtas (com esta opinião concordam também MACCANA 64) ao ponto de ter havido quem defendesse a tese de que o druidismo é uma religião pré-céltica (Pokorny, em 1908, cit. HUBY, 611 n.13; ao que GUYONVARC’H 67 contesta negando terminantemente).

Brendan Lehane (1993, 195) diz: algumas particularidades da sabedoria irlandesa vêm do druidismo e têm suas raízes na religião megalítica, e na Europa Ocidental a Irlanda é “a única região que pode dizer que aprendeu com ela”. Outro argumento é o estudo da terminologia goidélica; de fato, no vocabulário gaulês e galês, não restaram nomes nativos referentes aos astros, o que deveria ter acontecido se a sua astronomia fosse muito desenvolvida – mas esses celtas foram muito romanizados, o que explicaria a perda da terminologia própria; mesmo no irlandês moderno não há vestígios de conhecimentos próprios que deixassem marcas no vocabulário; por exemplo: astrologia diz-se astralaíocht, zodíaco é stoidíaca, eclipse é éiclips, Saturno é chamado Sathurn, etc.

Ellis (o. c. 275-280) segue porém um caminho engenhoso: procurando no vocabulário manês (ilha de Man, entre a Irlanda e Gales) e escocês encontrou termos nativos, não romanizados e procurando no irlandês termos semelhantes trouxe à tona um vocabulário no qual, apesar da mudança de significados, se reconhecia a existência de uma antiga terminologia druídica acerca da astronomia. Por outro lado, se não há indícios de conhecimentos matemáticos elaborados e numéricos encontram-se jogos tradicionais (Ellis o.c. 270-271) galeses e irlandeses que implicam um saber matemático complexo a que poderíamos chamar de “percepção intuitiva de conjuntos“ que explicaria a capacidade de compreender e analisar ordenamentos complexos como os do zodíaco.

Há ainda outro argumento a favor da astronomia druídica que é a existência de astrônomos irlandeses atuantes na Europa continental nos séculos VIII e IX e que faziam uso, ao que parece, de conhecimentos herdados dos druidas. Entre eles conhecemos Fergal, monge irlandês, que foi bispo-abade de Salzburgo com o nome de Virgílio, e cujos escritos sobre astronomia e cosmografia foram reportados ao Papa Zacarias (741-752) por um escandalizado Bonifácio de Crediton; Fergal, que tinha a seu lado outro bispo irlandês de nome Dubdachrich, também astrônomo, defendia entre outras coisas inauditas a existência de um mundo subterrâneo habitado semelhante ao sublunar – crença característica dos druidas; outro astrônomo irlandês foi Dungal de Bangor que em 810 explicou os eclipses a Carlos Magno; e ainda Diciul que em 825 escreveu um tratado de geografia notável, e outro de astronomia – A Medição do Orbe Terrestre – do qual existe cópia na Biblioteca de Valenciennes, na França (o tratado foi publicado em 1907 e até hoje é quase desconhecido - cf. ELLIS o. c. 282-283).

Esta argumentação, por mais convincente que seja acerca de indícios do saber dos druidas sobre astronomia, não nos explica o que é que de fato os druidas sabiam como astrônomos, e continuamos supondo que de matemática não tinham conhecimentos avançados nem muito menos do tipo pitagórico. Um último dado para não relacionarmos druidas e pitagóricos vem de um ponto supostamente comum entre as suas doutrinas, que seria a metempsicose, ou transmigração das almas; esta hipótese não tem apoio nos ritos funerários celtas, que faziam o cadáver, ou a urna de cinzas, ser acompanhado de utensílios que lhes servissem na outra vida; ora quem crê que leva objetos não espera incarnar noutro corpo, mas permanecer em algum lugar do outro mundo.

Aliás a crença na reencarnação, em diversas modalidades, é muito comum em vários povos muito distantes dos pitagóricos; e embora seja certo que em lendas irlandesas há relatos de renascimentos eles não se comparam a nenhuma idéia geral de transmigração (cf. KENDRICK o .c. 110-113 com o que concorda ELLIS o . c. 199-210 e também JUBAINVILLE o . c. 97, 103, e 106 e MACCANA 122). Mas fica ainda a conotação de filósofos que, como vimos, era atribuída aos druidas pelos gregos (Diodoro, Estrabão, Clemente) e de modo menos explícito também pelos romanos.

Ora a designação de filósofo não tinha na antiguidade a mesma qualificação que pode ter atualmente: por filósofo entendia-se ou um indivíduo que levava uma vida filosófica isto é, desapegada das coisas comuns, austera, sábia no sentido de saber se comportar com dignidade, numa espécie de aristocracia espiritual e intelectual; ou uma pessoa que se interessasse pelo saber como um todo, pela sofia; nem num caso nem no outro implicava necessariamente a filiação do filósofo a uma escola de filosofia (estóicos, platônicos, aristotélicos etc) nem sequer que fosse um profissional que conhecesse a fundo as doutrinas dos filósofos das escolas.

Esta é geralmente a opinião dos comentaristas e intérpretes contemporâneos, que não consideram os druidas como filósofos na acepção comum do termo (por ex.: GUYONVARC’H o. c. 112-113 e 146). O que os gregos e romanos queriam dizer quando chamavam os druidas de filósofos era provavelmente o que deles disse Kendrick (ib) : “Este é o verdadeiro segredo do antigo respeito que o mundo clássico mostrou pelos druidas: que a sua reputação não repousava na sua doutrina religiosa, nem na filosofia ou sabedoria, mas na habilidade em controlar a mente popular pela ação coletiva e coordenada como um corpo de pedagogos” o que lembra a frase de Diodoro Sículo (o. c.) “ os druidas mantêm todo o povo submetido a eles” e explica a seguir: porque o povo crê que “ eles sabem a língua dos deuses” ou seja: eles se tornaram indispensáveis para manter o bom relacionamento entre os homens e os deuses, e com isso a ordem do mundo.

5. De um pequeno ensaio como este, baseado em fontes bibliográficas e comentários, não se podem tirar muitas conclusões, nem esperar uma descoberta significativa, mas apenas algumas diretrizes para trabalhos mais específicos. A primeira é a necessidade de separar claramente o estudo dos druidas gauleses do estudo dos druidas irlandeses: enquanto dos primeiros temos sobretudo notícias através de gregos e romanos, dos celtas das ilhas e seus druidas temos a abundante literatura irlandesa que nos foi conservada pelos primeiros séculos cristãos, e de cujo estudo há certamente ainda muito a esperar.

Por outro lado, enquanto na Gália os decretos imperiais rapidamente tiraram os druidas de cena, na Irlanda não-romana os decretos não tiveram efeito e o cristianismo foi mais tolerante permitindo a sobrevivência dos druidas – embora um tanto escondidos, mas nem sempre. As fontes de informação sobre uns e outros obedecem a metodologias de análise muito diferentes, que no caso irlandês têm ainda a oportunidade de comparação com os escoceses, com os galeses e outros grupos britânicos menores como os maneses e córnicos.

No caso da literatura monástica irlandesa muito há a explorar e interpretar para conhecer os druidas; mas também não é impossível que algum dia se encontrem livros por eles redigidos, pois diversos escritos testemunham essa existência, desde as biografias de Patrício até um certo Ético de Ístria que diz ter consultado as bibliotecas da Hibérnia. Quanto à leitura das fontes gregas e romanas também esta não se esgotou: a lista completa dos textos não é fácil de encontrar, pois cada comentador acrescenta nomes a essa lista, e os originais sobre os quais os clássico se basearam - Possidônio, Timageste, o Mago de Aristóteles – ainda não foram encontrados, além de que há sempre novas interpretações em função do contexto, como vimos a propósito da divergência entre Ellis e Kendrick sobre a queda de prestígio dos druidas. Em resumo, o estudo dos druidas não só não acabou como há muito o que se dizer sobre eles – porém cada vez com mais cautela e método.

Bibliografia
Obras clássicas:
AMMIANUS MARCELLINUS. The Later Roman Empire. Trad. Walter Hamilton. Londres, Penguin, 1986.
CLEMENT OF ALEXANDRIA. The Stromata, or Miscellanies. Em Ante-Nicene Fathers, vol. 2. ed. Roberts, Alexander & Donaldson, James. Peabody, Hendrickson, 1995. (1885).
DIÔGENES LAÊRTIOS. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Trad. Mário da Gama Kury. Brasília, UnB, 1987, 2ª ed (1997).
HIPPOLYTUS. The Refutation of All Heresies. Trad. J. H. Mac Mahon em Ante-nicene Fathers, vol. 5, ed. Roberts, Alexander & Donaldson, James; Peabody, Hendrickson, 1995. (1886).
JÚLIO CÉSAR. Comentários sobre a Guerra Gálica (De Bello Gallico). Trad. Francisco Sotero dos Reis. Estudo de Otto Maria Carpeaux. Rio de Janeiro, Tecnoprint, sd.

Nota: quase todos os autores clássicos encontram-se em KENDRICK 212-221 (idioma original) e 73-103 (tradução e interpretação)

Comentários:
ELLIS, Peter Berresford. Druidas. El Espíritu del mundo celta. Trad. Javier Alonso López. Madrid, Oberon, 2001
JUBAINVILLE, Henri-Marie D‘ Arbois. Os Druidas. Os Deuses Celtas com Formas de Animais. Trad. Julia Vidili, coord. Eduardo Carvalho Monteiro. São Paulo, Madras, 2003 (1905).
KENDRICK, T. D. The Druids. Londres, Random House, 1996 (1927).
MARKALE, Jean. Le Druidisme. Paris, Payot, 1994, nova edição.

Consulta geral:
GREEN, Miranda. The Gods of the Celts. Godalming, Bramley Books, 1986.
GUYONVARC, H. Christian J. & ROUX, Françoise Le. La civilisation celtique. Paris, Payot, 1995 (1990)
HUBY, José. Christus. História das religiões. Trad. Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo, Ed. Saraiva, 1956. Vol. II, cap.5: “A religião dos celtas”.
LEHANE, Brendan. Early Celtic Christianity. Nova Iorque, Barnes & Noble, 1993. (1968).
MAC CANA, Proinsias. Celtic Mythology. Nova Iorque, Barnes & Noble, 1996. (1968).
MARKALE, Jean. Le Christianisme Celtique et ses survivances populaires. Paris, Imago, 1983.


Fonte: LUPI, João. Os druidas. Brathair, vol. 4, n. 1, 2004, p. 70-79. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

As Constelações

Desde os tempos antigos os homens procuram compreender o cosmos, enxergam no negro véu os brilhantes pontos que resplandecem de um passado longínquo, e desde então, tentam decifrar seus enigmas e segredos. Entre diversas povos e culturas pelo mundo, cada um procurou dá significado a aqueles milhares de pontos luminosos que permeiam a abóboda celestial noturna, assim surgiram as constelações com suas figuras, seus mitos, seus significados, seus propósitos.

Homens antigos sempre procuraram guiar suas vidas através das mudanças vistas na natureza e com o céu isso não fora diferente. A posição do Sol, da Lua, eclipses, a passagem de cometas, meteoros, a visão de planetas e outros astros, eram indicativos utilizados pelos homens para tomarem decisões em sua vida e em sociedade. Os presságios dos deuses, se assim alguns preferem chamar. 

Nesse caso, embora as constelações tenham se originado por motivos mitológicos e religiosos, suas formas se mantiveram até os dias de hoje, especialmente os nomes originados entre os gregos antigos. Nesse texto, realizarei uma mistura entre mitologia, astronomia e astrologia, para compreendermos um pouco das origens das constelações, já que na essência, uma constelação é um fator de perspectiva e não astronômico. 

Essencialmente o propósito das constelações possuía um caráter ligado as crenças de determinado povo, reafirmando mitos, histórias, presságios, sinais divinos, etc. Não obstante, as constelações também serviam como um mapa, chamado hoje de carta celestial, e nesse caso, elas também servem para os estudos da astrologia, como um mapa astral, embora que no caso da astrologia, da-se mais enfase as constelações zodiacais e aos planetas. 

Desde 1922 a União Astronômica Internacional, normalizou a existência de 88 constelações no mapa da esfera celeste, além de determinar que oficialmente as constelações sejam classificadas e listadas em ordem alfabética pelos seus nomes em latim. 

A UAI, estipulou dessa forma a cientificação do estudo das constelações, já que até então como eu havia dito, cada povo enxergava figuras e quantidades diferentes para as constelações, com esse consenso, temos 88 constelações, sendo que 48 destas derivam do trabalho do geógrafo, matemático, astrônomo e cartógrafo grego Ptolomeu (90-168), o qual catalogou as constelações conhecidas em seu tempo pelo povo grego, em sua grande obra O Almagesto. Baseado no trabalho de Ptolomeu, com o advento do Renascimento Cultural e do surgimento da ciência moderna, os astrônomos modernos europeus, adotaram a classificação de Ptolomeu e a mantiveram como base para se descobrir novas constelações, sendo a maioria vistas no hemisfério sul. Assim, 40 novas constelações foram acrescentadas a lista de Ptolomeu, se tornando as oficiais de hoje em dia, embora que nem todas a constelações possuam origem mitológica.

Dessa forma, nesse texto falarei das doze constelações zodiacais e de algumas outras constelações que possuam origem em mitos gregos, já que pelo fato de serem 88 constelações, o texto ficaria demasiado longo, e meu conhecimento do assunto também não é tão vasto assim. 

Zodíaco

Todas as constelações zodiacais pertencem originalmente a classificação feita por Ptolomeu. Entretanto, na representação das constelações pode haver variação no número de estrelas apresentado, devido ao fato de que várias outras estrelas foram descobertas posteriormente ao longo da História, logo, algumas representações contêm apenas as estrelas originais conhecidas por Ptolomeu na época. 

Nome: Aries ou Carneiro (Aries)
Genitivo: Arieti
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 10
Número de Planetas: 2
Estrela(s) principal(is): alfa Ari (Hamal) magnitude 2,0
Constelações vizinhas: Perseu, Triângulo, Peixes, Cetus e Touro
Astrologia: 21 de março a 20 de abril

Origem: Na mitologia houve um carneiro com lã de ouro, o qual foi utilizado pela rainha Nefele para salvar seus filhos Frixo e Hele. Uma terrível seca havia assolado o reino, então o rei Adamante foi consultar o Oráculo de Delfos, e este disse que seu herdeiro deveria ser sacrificado para apaziguar a ira dos deuses. Adamante teria que matar o próprio filho Frixo, no entanto, Nefele para proteger seus filhos, decidiu fugir, assim os três montaram no carneiro de lã de ouro e fugiram para a Ásia. 

Ao cruzarem o Mar de Mármara, Hele caiu e morreu afogada, tal local ficou conhecido como Helesponto (o estreito de Hele), hoje Dardanelos na Turquia. Mãe e filho continuaram a seguir viagem para o norte até chegarem a um reino chamado de Cólquida (possivelmente situado em algum lugar da atual Geórgia). Lá eles foram acolhidos pelo rei, e em retribuição lhe ofereceram o carneiro dourado, o rei o sacrificou em honra a Ares, deus da guerra, e deixou sua lã em um local consagrado ao deus. Anos depois, Jasão e os argonautas partiriam em busca dessa lã a qual ficou conhecida como o Tosão de Ouro ou Velocínio de Ouro, o qual possuia alguns poderes mágicos. O nome da constelação e do signo deriva do nome de Ares. 


Nome: Touro (Taurus)
Genitivo: Tauri
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 19
Número de Planetas: 5 (ainda não oficializados)
Estrela(s) principal(is): Aldebarã (mag. 0,85), Anath (mag. 1,65)
Constelações vizinhas: Perseu, Aries, Gêmeos, Auriga (Cocheiro), Órion, Cetus, Erídano.
Astrologia: 21 de abril a 20 de maio


Na área da constelação de Touro se encontram dois importantes aglomerados estelares, as Híades e as Plêiades. Também encontra-se a Nebulosa de Caranguejo. A constelação é representada pelo busto do touro, conferindo apenas metade do animal. 

Origem: O rei da Fenícia Agenor era casado com Télefassa com quem tivera quatro filhos, Europa, Cadmo, Fênix e Cílix. Europa era muito bela, isso atraiu Zeus o rei dos deuses, para ter-la. Zeus se transformou em um touro. Europa fascinada com a beleza do animal se aproximou deste, Zeus a capturou e a raptou. Ele cruzou o mar Mediterrâneo a nado até a ilha de Creta, onde amou Europa. Do relacionamento dos dois, nasceram Minos, Radamanto e Sarpédon. Minos se tornou o famoso rei de Creta e posteriormente um dos juízes do Inferno; Radamento foi um homem culto e honrado, após a morte, se tornou um dos juízes do Inferno. Por sua vez, Sarpédon participou da Guerra de Troia e acabou morrendo em combate. 


Nome: Gêmeos (Gemini)
Genitivo: Geminorum
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 45
Número de Planetas: 7 
Estrela(s) principal(is): Castor (mag. 1,98), Pollux (mag. 1,14)
Constelações vizinhas: Câncer, Touro, Auriga (Cocheiro), Lince, Órion, Unicórnio e Cão Menor. 
Astrologia: 21 de maio a 21 de junho

Na área da constelação se encontra o aglomerado estelar M35 e a nebulosa planetária de Esquimó

Origem: Zeus ficou encantado com Leda, rainha de Esparta, esposa do rei Tíndaro, então ele se transformou em um formoso cisne. Quando Leda se aproximou e tocou as penas da ave, ela engravidou de quadrigêmeos. Nove meses depois ela deu a luz a Castor e Pólux e Helena e Clitemnestra (ambas eram bivitelinos). Mesmo assim, Tíndaro, acreditando que os filhos fossem seus, os acolheu com carinho. Castor e Pólux se tornaram exímios guerreiros assim como predizia o legado espartano, chegaram a serem argonautas e viajaram junto com Jasão em busca do Tosão de Ouro. 

Posteriormente, os dois entraram em uma briga contra outros dois irmãos gêmeos por causa de duas mulheres. Na briga, Castor foi morto, entretanto, Pólux era imortal, em desespero ele suplicou a Zeus que fizesse algo, Zeus atendeu aos lamentos do filho e trouxe Castor de volta, entretanto, Pólux sabia que o irmão um dia iria morrer novamente, e quando esse dia chegou, Zeus transformou os dois na constelação de Gêmeos, onde poderiam viver a eternidade unidos. 


Nome: Câncer ou Caranguejo (Cancer)
Genitivo: Cancri
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 5
Número de Planetas: 5 
Estrela(s) principal(is): Al Tarf (mag. 3,53), Acubens (mag. 4,26)
Constelações vizinhas: Gêmeos, Leão, Lince, Cão Menor e Hidra Fêmea.
Astrologia: 22 de junho a 21 de julho

Origem: Quando Héracles (Hércules) realizava seu segundo dos Doze Trabalhos, o qual era ter que matar a temível Hidra dos pântanos de Lerna, um dragão de várias cabeças; enquanto Héracles combatia a fera sendo ajudado pelo seu sobrinho Iolau, Hera, temendo que o herói pudesse sair vivo mais uma vez, enviou um gigantesco caranguejo para matá-lo. Héracles, matou o caranguejo a chutes, então voltou a lutar contra a Hidra, de onde cortava-lhe uma cabeça e nascia duas, até que Iolau lhe deu a ideia de queimar as feridas as cauterizando antes que novas cabeças nascessem, assim o herói fez e conseguiu matar a besta. Zeus teria transformado aquele caranguejo em constelação como um símbolo da vitória de seu filho.



Nome: Leão (Leo)
Genitivo: Leonis
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 50
Número de Planetas: 11
Estrela(s) principal(is): Regulus (mag. 1,36), Denebola (mag. 2,14), Zosma (mag. 2,56), Algieba (mag. 2,61)
Constelações vizinhas: Câncer, Virgem, Ursa Maior, Leão Menor, Hidra Fêmea, Sextante, Taça e Cabeleira de Berenice.
Astrologia:  22 de julho a 22 de agosto

Origem: O primeiro dos Doze Trabalhos de Héracles foi matar o chamado Leão de Nemeia, um grande leão que aterrorizava a planície de Nemeia, matando o gado e as pessoas. No confronto o herói usou flechas, sua espada e lança, no entanto a pele do animal era tão dura que nenhuma lâmina conseguia penetrar. No final, Héracles decidiu lutar contra o animal mano-a-mano, assim ele o subjugou e o estrangulou até a morte. Depois disso, ele retirou-lhe a pele, usando as próprias garras do felino, e passou a usar o manto como troféu e proteção. Zeus transformou o leão em uma constelação, simbolizando a vitória do pródigo filho. 



Nome: Virgem (Virgo)
Genitivo: Virginis
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 57
Número de Planetas: 20
Estrela(s) principal(is): Spica (mag. 0,98), Heze (mag. 3,38)
Constelações vizinhas: Leão, Libra, Serpente, Taça, Cabeleira de Berenice, Corvo, Hidra Fêmea e Boeiro. 
Astrologia:  23 de agosto a 22 de setembro

Origem: Na mitologia grega há dois mitos comumente utilizados para designar a origem desta constelação. O primeiro faz referência a deusa da agricultura e das estações Deméter, a qual tivera sua filha Perséfone raptada por Hades, deus do inferno e dos mortos. Hades era irmão de Deméter, logo raptou sua sobrinha para que essa se tornasse sua esposa. Desolada com tal acontecimento, Deméter entrou em profundo pranto e trouxe o inverno ao mundo, para apaziguar tal lamento, Zeus fizera um trato com o irmão. Assim, durante três meses do ano, Perséfone ficaria no inferno com seu marido, e o restante do ano com sua mãe no Olimpo. Em alguns períodos do ano, a constelação de Virgem fica fracamente visível no céu, assim os gregos antigos diziam que Perséfone estava naquele momento com seu marido. Não obstante os antigos romanos, consideravam também que a constelação personificasse Ceres (Deméter). 

A segunda versão diz respeito a Astreia, deusa da justiça, filha de Têmis e Zeus. Têmis é a deusa da justiça, da ética e da moral, entretanto, sua filha herdou essas qualidades, e assim decidiu viver entre os mortais a fim de disseminá-las, mas como não conseguiu fazer isso, devido ao repudio dos homens, retirou-se em exílio para o céu. Astreia, as vezes é representada segurando uma balança, símbolo da justiça (vide a origem da constelação de Libra). 




Nome: Libra ou Balança (Libra)
Genitivo: Librae
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 7
Número de Planetas: 3
Estrela(s) principal(is): Zubeneschamali (mag. 2,6)
Constelações vizinhas: Virgem, Escorpião, Serpente, Hidra Fêmea, Lobo e Ofiúco (Serpentário). 
Astrologia: 23 de setembro a 22 de outubro

Origem: A balança foi um instrumento criado por Hermes, mensageiro dos deuses, deus dos viajantes, mercadores e ladrões. Entretanto, a balança acabou se tornado um símbolo associado a justiça, assim Têmis passou a adotá-la como um dos símbolos que a representa-se. Nesse caso, pelo fato da constelação de Virgem estar tão próxima da de Libra, os gregos antigos enxergavam a deusa Astreia segurando a balança.




Nome: Escorpião (Scorpius)
Genitivo: Scorpii
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 59
Número de Planetas: 13
Estrela(s) principal(is): Antares (mag. 1,06)
Constelações vizinhas: Libra, Sagitário, Lobo, Coroa Austral, Serpentário, Esquadro e Altar. 
Astrologia:  23 de outubro a 21 de novembro

Na constelação se localizam três chuvas de meteoros, designados com as letras gregas alfa, lambda e omega. 

Origem: Um gigantesco escorpião foi enviado por Apolo para matar o gigante caçador Órion, entretanto o gigante acabou matando a criatura. Zeus o transformou em uma constelação. (vide a origem da constelação de Órion). 



Nome: Sagitário ou Arqueiro (Sagittarius)
Genitivo: Sagittarii
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 22
Número de Planetas: 22
Estrela(s) principal(is): Kaus Australis (mag. 1,79)
Constelações vizinhas: Capricórnio, Serpentário, Serpente, Águia, Coroa Austral, Microscópio, Telescópio e Escudo. 
Astrologia:  22 de novembro a 21 de dezembro

Sagitário fica em direção ao centro da galáxia, logo em sua área se encontra muitos aglomerados estelares e nebulosas como a Nebulosa da Lagoa, a Nebulosa Omega e a Nebulosa Trifida. A constelação também possui uma chuva de meteoros. 

Origem: Sagitário é representado por um centauro empunhando um arco e flecha. Tal centauro é Quíron, o mais sábio e exímio dos centauros, conhecido como o mestre dos heróis, pelo fato de ter sido o tutor de vários dos heróis da mitologia como Héracles, Aquiles, Teseu, Odisseu, Jasão, etc. Após Quíron ter morrido, Zeus o transformou em constelação. 



Nome: Capricórnio (Capricornius)
Genitivo: Capricorni
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 12
Número de Planetas: 3
Estrela(s) principal(is): Deneb Algebi (mag. 2,85)
Constelações vizinhas: Sagitário, Peixes, Águia, Microscópio e Peixe Austral
Astrologia: 22 de dezembro a 20 de janeiro

Origem: Associavam a constelação com a cabra Almatéia a qual amamentou Zeus em sua infância enquanto vivia em Creta, escondido de seu pai Cronos, o qual havia devorado seus outros filhos por temer ser destronado por um destes. No entanto, algumas versões do mito diz que Zeus teria transformado a cabra em uma cornucópia (vaso em forma de chifre), daí a constelação parecer com um bode com o corpo de peixe ou com o corpo contorcido. 



Nome: Aquário (Aquarius)
Genitivo: Aquii
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 91
Número de Planetas: 8
Estrela(s) principal(is): Sadalsuud (mag. 2,90)
Constelações vizinhas: Capricórnio, Peixes, Águia, Pégaso, Peixe Austral, Cetus, Escultor, Golfinho e Cavalo Menor
Astrologia: 21 de janeiro a 19 de fevereiro

Aquário é uma das constelações com o maior número de estrelas. Isso se deve pelo fato de possuir vários aglomerados estelares e algumas nebulosas, como a Nebulosa de Saturno

Origem: Há duas versões para o mito de origem da constelação, a mais comum refere-se ao príncipe troiano Ganimedes, o qual foi raptado por Zeus transformado em uma gigantesca águia, para se tornar servo dos deuses, vivendo no Olimpo. Uma das funções de Ganimedes era servir ambrosia em suas taças, a qual era o manjar dos deuses. Daí a constelação ser representada por um homem vertendo uma jarra. 

A outra versão é semelhante, mas diz respeito a Hebe, deusa da juventude, filha de Zeus e Hera, e terceira esposa de Héracles. Antes da chegada de Ganimedes, Hebe era uma espécie de serviçal dos demais deuses, até que um dia após um incidente, recusou-se a continuar com os serviços, assim, Zeus foi procurar quem o fizesse. Nesse caso, a constelação é representada por uma mulher vertendo uma jarra. 




Nome: Peixes (Pisces)
Genitivo: Piscium
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 18
Número de Planetas: 10
Estrela(s) principal(is): η Psc (mag. 3,62)
Constelações vizinhas: Aquário, Aries, Andrômeda, Cetus, Pégaso e Triângulo.
Astrologia: 20 de fevereiro a 20 de março

Origem: Os dois peixes personificam a deusa Afrodite e seu filho Eros, os quais teriam se transformados nesses animais e se escondido no rio Eufrates, ou em outras versões teria sido no rio Nilo, para fugirem da fúria do titã Tifão (também pode ser grafado Tífon ou Tifeu), o mais poderoso dos titãs e deus da seca. 

Tifão era filho de Gaia, a deusa da terra e do deus Tártaro, personificação das profundezas da terra. Revoltada com a derrota de seus outros filhos para os deuses, Gaia instigou Tifão a vingar os irmãos, e assim ele seguiu até o Olimpo para confrontar os deuses. Tifão é descrito como um gigante colossal e monstruoso, o qual chegou ao ponto de apavorar os deuses, os fazendo se transformarem em animais para se esconderem de sua vista.


Outras constelações


Nome: Águia (Aquila)
Genitivo: Aquilae
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: 10
Número de Planetas: 7
Estrela(s) principal(is): Altair (mag. 0,77)
Constelações vizinhas: Sagitário, Capricórnio, Aquário, Golfinho, Hércules, Serpentário, Flecha, Escudo e Serpente.

Origem: A águia era o animal símbolo de Zeus. Em muitos mitos Zeus aparecia transformado em uma águia, mas nesse caso, o mito mais especifico diz respeito ao fato de quando Zeus capturou o príncipe troiano Ganimedes. Tal fato se deve pela proximidade de Águia com Aquário. (veja a origem da constelação de Aquário). 





Nome: Andrômeda (Andromeda)
Genitivo: Andromedae
Hemisfério: Norte ou Boreal
Número de Estrelas: 163
Número de Planetas: 10
Estrela(s) principal(is): Sirrah (mag. 2,06), Mirach (mag. 2,01), 
Constelações vizinhas: Perseu, Cassiopeia, Pégaso, Peixes, Triângulo e Lagarto.

A constelação possui uma chuva de meteoros e em sua direção fica a Galáxia de Andrômeda e a Galáxia de Triângulo.

Origem: Andrômeda era a filha do rei Cefeu da Etiópia e da rainha Cassiopeia. Sua história está ligada as desavenças de sua mãe. Cassiopeia se gabava de sua beleza e num certo dia enquanto passeava pela praia, avistou algumas nereidas, as quais são filhas do deus Nereu. A rainha gabou-se de sua beleza perante aquelas jovens as quais insultadas foram falar com seu pai. Nereu por sua vez era muito ligado a Poseidon e lhe contou o fato ocorrido. 

Poseidon não gostou da afronta da rainha as deusas, então enviou um monstro marinho, as vezes chamado de Cetus, para destruir o reino. Cefeu apavorado com o fato, foi consultar o oráculo e este lhe disse que a única forma de apaziguar a fúria do deus dos mares era oferecendo sua filha em sacrifício. Andrômeda foi amarrada a um rochedo e oferecida como sacrifício, no entanto acabou sendo salva por Perseu o qual voava por ali perto. Perseu matou o monstro e a libertou. Posteriormente, Cefeu agradecido ofereceu a mão de sua filha em casamento ao herói. Os dois se casaram e foram morar em Argos na Grécia. 




Nome: Quilha (Carina), Popa (Puppis) e Vela ou Velame (Vel) anteriormente Argo Navis
Genitivo: Carinae, Puppis e Velorum
Hemisfério: Equatorial (pode ser visto tanto no norte como no sul)
Número de Estrelas: Quilha (9), Popa (9), Vela (5)
Número de Planetas: Quilha (8), Popa (6), Vela (5)
Estrela(s) principal(is): Canopus (Quilha), Naos (Popa), Markab (Vela) 
Constelações vizinhas: Centauro, Pintor, Peixe Voador, Camaleão, Mosca, Hidra Fêmea, Unicórnio, Corvo, Cão Maior, Pomba, Bússola e Máquina Pneumática. 

Inicialmente na época de Ptolomeu tal constelação chamava-se Argo Navis, entretanto devido ao seu tamanho, alguns astrônomos cogitaram sua divisão, isso foi definido oficialmente em 1922, quando a constelação foi dividida em três. 

Origem: A constelação faz referência ao navio Argo, o navio dos argonautas, o qual Jasão e mais quarenta e nove guerreiros viajaram em direção a Cólquida em busca do Tosão de Ouro. De acordo com o mito, após todos retornarem da viagem, Atena teria transformado o navio em constelação. 


As constelações de Quilha, Popa e Vela, formando a antiga Argo Navis, e as constelações de Cão Maior, Pomba e Corvo.

Nome: Cão Maior (Canis Major) e Cão Menor (Canis Minor)
Genitivo: Canis Majoris e Canis Minoris
Hemisfério: Ambas são equatoriais, porém o Maior, fica mais para o Sul e o Menor, mais para o Norte. 
Número de Estrelas: 155 (Maior)/ 2 (Menor)
Número de Planetas: 5 (Maior)/ 0 (Menor)
Estrela(s) principal(is): Sirius (mag. 1,46)/ Procyon (mag. 0,78).
Constelações vizinhas: Unicórnio, Lebre, Popa e Pomba/ Câncer, Gêmeos, Unicórnio e Hidra Fêmea.

Embora os nomes sejam familiares, as duas constelações não estão próximas uma da outra no céu, entretanto sua correlação advêm da sua origem mitológica.

Origem: Há dois mitos para explicar a origem dessas duas constelações. O primeiro diz que ambos os cães eram os cachorros do gigante Órion, o qual após ter morrido, os dois ficaram na praia, uivando em lamento pelo dono, então Zeus após ter transformado Órion em constelação, fez o mesmo com os fiéis cachorros, que não quiseram abandonar o dono mesmo morto. 

A outra versão diz que a constelação de Cão Maior se originou do cão de caça chamado Laelaps, um cachorro criado especialmente pelos deuses para ser o melhor cão de caça que já existiu. Diziam que nenhuma presa poderia escapar dele. Em contra partida, a prova máxima de Laelaps veio quando ele foi usado por Céfalo ou Anfitrião (dependendo do mito), para caçar a raposa Teumessian, a qual diziam que nunca poderia ser pega. Após um tempo dos dois fugindo um do outro, Zeus, cansado dessa perseguição, transformou os dois animais em pedra e posteriormente em constelações. Teumessian se tornou a constelação de Cão Menor. Pelo fato de ambas constelações estarem distantes, representa a condição de que ambos nunca conseguiram se aproximar um do outro.




Nome: Coroa Boreal (Corona Borealis)
Genitivo: Coronae Borealis
Hemisfério: Norte ou Boreal
Número de Estrelas: 42
Número de Planetas: 4
Estrela(s) principal(is): Alpha CBr (mag. 2,21)
Constelações vizinhas: Dragão, Boeiro, Serpente, Hércules. 

Embora possua 42 estrelas, apenas oito são as mais importantes, as quais originalmente formavam um semicírculo. No entanto, a constelação de Coroa Boreal é famosa pelo seu grande número de estrelas binárias, ou seja, estrelas que orbitam entre si. 

Origem: A origem dessa constelação está associada a princesa cretense Ariadne, filha do rei Minos e da rainha Pasífae. Ariadne acabou por se apaixonar pelo herói Teseu o qual acabou por ajudá-lo em sua missão de matar o Minotauro. Ariadne deu um novelo de lã para Teseu o qual o desenrolava a medida que avançava no labirinto. Após matar a fera, Teseu fugiu com Ariadne, mas para infortúnio dessa, ele acabou a enganando e a largou na ilha de Nexos, mas para sua sorte tal ilha era um dos refúgios do deus Dionísio. Em algumas versões do mito, Teseu foi persuadido pelo deus a desistir de Ariadne e ir embora. Dionísio acabou por se casar com ela e como presente, lhe deu uma coroa de ouro adornada com joias. Quando Ariadne morreu na velhice, Dionísio transformou a coroa em uma constelação, como forma de perpetuar seu amor por aquela mortal.


Nome: Hércules (Hercules)
Genitivo: Herculis
Hemisfério: Norte ou Boreal
Número de Estrelas: 277
Número de Planetas: 12
Estrela(s) principal(is): Kornephoros (mag. 2,78), 
Constelações vizinhas: Dragão, Boeiro, Serpente, Coroa Boreal, Serpentário, Águia, Lira, Flecha e Raposa. 

A constelação de Hércules é a quinta maior constelação moderna, possuindo dois aglomerados globulares: M13 e M92 e uma chuva de meteoros, no entanto, suas estrelas são de baixa grandeza.

Origem: A sua origem vem propriamente do mais poderoso dos heróis gregos, Héracles (Hércules para os romanos). Após ter morrido, devido a um envenenamento causado por sua segunda esposa Djanira, a qual foi enganada pelo centauro Nesso, o qual lhe aconselhou a usar o seu próprio sangue para se fazer uma poção do amor, Djanira estava certa que Héracles não a amava mais, assim ela consentiu a sugestão do centauro, no entanto, o sangue do mesmo estava envenenado, e isso levou a morte de Héracles. 

Em outras versões ele teria cometido suicídio diante de tanta dor que sofria. Mas embora tenha tido uma morte trágica, seu pai, Zeus se comoveu pelo filho e o trouxe ao Olimpo. Lá Héracles ganhou a imortalidade, casou-se com sua meia-irmã Hebe e passou a viver entre os deuses. Os antigos gregos diziam que a constelação era um indício que Héracles estava morando no Olimpo. 





Nome: Lira (Lyra)
Genitivo: Lyrae
Hemisfério: Norte ou Boreal
Número de Estrelas: 95
Número de Planetas: 29
Estrela(s) principal(is): Vega (mag. 0,03).
Constelações vizinhas: Dragão, Hércules, Raposa e Cisne.

Origem: A lira retratada na constelação personifica o instrumento utilizado pelo mais célebre músico mortal da mitologia grega, Orfeu. Orfeu era filho de Apolo e da musa Calíope, logo herdou de seus pais o dom para a música e para poesia, pois originalmente a poesia lírica era proclamada ao som de uma lira. Orfeu foi um dos argonautas, o responsável por fazer o dragão que guardava o tosão de ouro adormecer, permitindo Jasão roubar o tosão. 

No entanto, a história desse herói é mais trágica. Sua amada esposa Eurídece foi morta por uma picada de cobra, inconsolado Orfeu desceu ao Inferno na tentativa de resgatá-la. Sua triste melodia comoveu Hades e os demais deuses e espíritos do mundo inferior, logo, Hades concedeu o direito de que Orfeu resgata-se sua esposa, mas com uma condição, ele só poderia olhar para ela, quando ambos estivessem fora do Inferno, porém perto de sair do Inferno, ansioso por rever sua amada, Orfeu acabou olhando para trás e a alma de Eurídice foi-lhe arrebatada. 

Inconsolado passou a viver sozinho e a desprezar o amor de outras mulheres que o cobiçavam, até que certo dia um grupo de mulheres raivosas o matou e jogou seu corpo esquartejado em um rio que recebera o seu nome. Os pedaços foram reunidos e sepultados pelas Musas e Zeus transformou sua lira em uma constelação, como símbolo do eterno amor daquele músico e poeta. 


Nome: Ofiúco ou Serpentário
Genitivo: Ophiuci
Hemisfério: Equatorial
Número de Estrelas: 60
Número de Planetas: 15
Estrela(s) principal(is): Rasalhague (mag. 2.1)
Constelações vizinhas: Hércules, Serpente, Libra, Sagitário, Águia e Escorpião. 

A constelação de Ofiúco é conhecida por possuir cinco aglomerados e uma radiante chuva de meteoros. Além disso, suas principais estrelhas se encontram no "desenho" que simbolizam uma cobra. 

Origem: A constelação de Ofiúco ou Serpentário se originou a partir do mito de Asclépio (Esculápio para os romanos). Asclépio era filho de Apolo e da humana Corônis. Sua mãe morreu durante o parto, e ele acabou sendo criado pelo centauro Quíron (o qual também havia sido tutor de Apolo). Dos únicos filhos de Apolo, Asclépio foi quem seguiu o caminho da medicina, pois Apolo também é o deus da medicina. Asclépio tornou-se um notável e respeitado médico, considerado o maior em seu tempo, a ponto que algumas histórias dizem que ele teria ressuscitado três homens: Licurgo, Hipólito e Canapeu.

Isso teria enfurecido Hades, o deus dos mortos, pois aquilo era um poder demasiadamente grande de mais para um mortal; o poder de trazer os mortos a vida, o que significava interferir no destino, o qual era deliberado pelos deuses. Hades pediu que Zeus tomasse uma providência acerca daquilo. Então acatando a petição de seu irmão, Zeus decidiu matar seu próprio neto, e enviou alguns cíclopes para fazer isso. No entanto, Apolo descobriu tal plano e matou os gigantes com suas flechas. Mas no fim, Zeus decidiu matar Asclépio pessoalmente e o fulminou com seu raio. O transformando depois na constelação. Posteriormente, Zeus e Apolo fizeram as pazes, e Zeus transformou Asclépio no deus da medicina. 

O fato da cobra está associada a Asclépio, se diz pelo motivo que a cobra era associada a vida. O próprio Apolo matou a serpente Píton, a qual está associada ao seu culto, através dos jogos pitonescos e na sacerdotisa do Óraculo em Delfos, chamada pitonisa. 

Asclépio segurando uma cobra, simboliza a constelação de Ofiúco.
Nome: Órion ou Caçador (Orion)
Genitivo: Orionis
Hemisfério: Equatorial
Número de Estrelas: 219
Número de Planetas: 7
Estrela(s) principal(is): Betelguese (mag. 0,43), Rigel (mag. 0,18), Bellatrix (mag. 1,62), Mintanka (mag. 2,23), Alnilan (mag. 1,70) e Alnitak (mag. 2,03).
Constelações vizinhas: Touro, Gêmeos, Unicórnio, Lebre e Erídano.

Órion é conhecida em todo o mundo devido ao seu famoso cinturão, formado pelas estrelas Mintanka, Alnilan e Alnitak. Não obstante, o mesmo também possui a Nebulosa de Órion e duas chuvas de meteoros. Sua fama também se deve pelo fato de ter sido associado por várias culturas no mundo a rituais, monumentos, mitos, simbologias, etc.

Origem: Órion era um gigante filho de Poseidon com uma ninfa do mar ou uma humana. Se tornou o maior caçador já conhecido equiparado apenas com Héracles entre os mortais. Órion se tornou requisitado por muitos senhores para cuidar de monstros ou participar de caçadas reais, ao mesmo tempo também prestava seus serviços para a deusa da caça Ártemis, por quem se apaixonou, no entanto, Ártemis, era a irmã gêmea de Apolo, e o mesmo sentia muito ciúmes da irmã. 

Num certo dia, Órion seguia viajando em seu navio na companhia de seus dois cães, quando numa ilha próxima dali, Apolo e Ártemis passeavam, o deus do sol viu o caçador, então enviou um escorpião gigante para matá-lo. Órion conseguiu matar a besta, mas seu navio afundou, então ele e os cães se puseram a nadar, Apolo, ainda não conformado, desafiou a sua irmã a acertar um pequeno alvo que se movia no horizonte, Ártemis aceitou o desafio e disparou uma única flecha certeira. Na manhã seguinte enquanto andava pela praia, avistou dois cães em lamento ao lado de um corpo. Profundamente triste, ela suplicou ao seu pai Zeus, e o mesmo transformou o caçador e uma constelação. (veja as origem das constelações de Cão Maior e Cão Menor e de Escorpião). 


Órion as vezes é retratado segurando um escudo ou a cabeça de um leão.

Nome: Pégaso ou Cavalo Alado (Pegasus)
Genitivo: Pegasi
Hemisfério: Equatorial
Número de Estrelas: 190
Número de Planetas: 9
Estrela(s) principal(is): Epsilon Pegasi (mag. 2.40), 51 Pegasi (mag. 4,51)
Constelações vizinhas: Aquário, Peixes, Andrômeda, Lagarto, Raposa, Golfinho, Cisne e Cavalo Menor.

As estrelas Markab (Alfa Pegasi), Scheat (Beta Pegasi) e Agnil (Gama Pegasi) formam em conjunto com a principais estrelas da Constelação de Andrômeda, o Quadro do Pégaso, pelo fato de ambas as constelações estarem lado a lado. Pégaso também possui uma chuva de meteoros conhecido como Pegasideos.

Origem: Pégaso era filho de Poseidon e da Medusa. Poseidon engravidou Medusa enquanto essa ainda era uma bela mulher, tendo feito isso dentro do templo de Atena. No entanto, Medusa era sacerdotisa de Atena, e a deusa não gostou de saber que seu templo foi profanado, então a amaldiçoou a transformando no terrível monstro pelo qual ficou conhecida. Após Perseu ter cortado a cabeça da Medusa, do sangue que jorrou, nasceram Pégaso e seu irmão Crisaor o gigante dourado. 

Perseu pegou a cabeça da Górgona e foi embora levando seu troféu, Pégaso e Crisaor partiram em seguida. Posteriormente, Pégaso ajudou o herói Belerofonte a derrotar o monstro Quimera, e depois disso passou a viver no Monte Parnaso entre as Musas (deusas das artes e ciências). Da patada que ele deu no monte, nasceu a fonte Hipocrene. Finalmente quando morreu, Zeus o transformou em uma constelação. No entanto, assim como Touro, apenas metade do cavalo é representado originalmente na versão de Ptolomeu.




Nome: Perseu (Perseus)
Genitivo: Persei
Hemisfério: Norte ou Boreal
Número de Estrelas: 22
Número de Planetas: 5
Estrela(s) principal(is): Mirtaka (mag. 1,19) e Algol (2,12)
Constelações vizinhas: Andrômeda, Triângulo, Cassiopeia, Camaleão, Cocheiro, Aries e Touro. 

A constelação de Perseu é a terceira constelação baseada em um herói grego, a primeira é Gêmeos (Castor e Pólux) e a segunda é Hércules. A constelação de Perseu, retrata o herói segurando a cabeça da Medusa na mão esquerda. 

Origem: Perseu era filho de Zeus e da mortal Dânae, a qual era filha do rei Acrísio. O Oráculo havia dito que um neto de Acrísio o mataria, temendo a profecia ele aprisionou sua filha em uma caverna, no entanto Zeus atraído pela beleza de Dânae, se transformou em uma chuva de ouro e se infiltrou pela rocha entrando na caverna, e lá engravidou Dânae. Acrísio acabou descobrindo que a filha estava grávida e decidiu bani-la. Dânae foi posta em um barco sem remos e jogada ao mar. No entanto Zeus salvou os dois, os levando até à ilha de Sérifo. Lá eles passaram a viver. Quando adulto, Perseu para salvar sua mãe da cobiça do rei da ilha, decidiu aceitar o desafio de matar a Medusa, assim ele o fez e retornou triunfante. (veja a origem da Constelação de Andrômeda e Pégaso). 



Nome: Ursa Maior (Ursa Major) e Ursa Menor (Ursa Minor)
Genitivo: Ursae Majoris e Ursae Minoris
Hemisfério: Norte ou Boreal
Número de Estrelas: 20 (Maior)/ 7 (Menor)
Número de Planetas: 13 (Maior)/ 1 (Menor)
Estrela(s) principal(is): Dubhe (mag. 1.8)/ Polaris (mag. 2,02)
Constelações vizinhas: Leão, Dragão, Boeiro, Camaleão, Lince, Leão Menor, Cabeleira de Berenice e Cães de Caça/ Cefeu, Camaleão e Dragão.

Na pequena constelação de Ursa Menor fica localizado a famosa Estrela Polar (Polaris). 

Origem: Na mitologia grega, Zeus se encantou pela ninfa Calisto a qual era uma das damas de companhia de Ártemis, sua filha. No entanto, Calisto possuía um filho chamado Arcas. Hera a esposa-irmã de Zeus, descobriu a traição do marido, então transformou Calisto em uma ursa a fim que Arcas pudesse caçá-la sem saber que era sua mãe. Porém Zeus descobriu o plano de sua esposa e intercedeu. Ele transformou Arcas em um urso e os transformou em constelações. Calisto se tornou Ursa Maior e Arcas, Ursa Menor. 


Em destaque as constelações de Ursa Maior e Ursa Menor, e partes das constelações de Leão Menor, Lince, Girafa e Dragão.
NOTA: As dez maiores constelações são: Hidra Fêmea, Virgem, Ursa Maior, Cetus, Hércules, Erídano, Pégaso, Dragão, Centauro e Aquário.
NOTA 2: A menor constelação é a do Cruzeiro do Sul (Crux).
NOTA 3: No Brasil, popularmente as três estrelas do cinturão de Órion são conhecidas como "As três Marias".
NOTA 4: Na Idade Média, a constelação de Virgem foi associada a Virgem Maria
NOTA 5: Cassiopeia e Cefeu os quais são os pais de Andrômeda, também são o nome de constelações. 
NOTA 6: A segunda estrela mais próxima da Terra, Alpha Centauri, fica localizada na Constelação de Centauro. 
NOTA 7: As constelações ficaram famosas na cultura pop, devido ao mangá/anime Os Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya) o qual se baseia em mitologia grega. 

Referências Bibliográficas:
BITTENCOURT, Ednor Valente. A mitologia clássica na medicina: os mitos greco-latinos e o vocabulário médico. Maceió, Edição do Autor, 1995. 
BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: história de deuses e heróis. Tradução de David Jardim, 34a ed. Rio de Janeiro, Ediouro, 2006.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural. v. 1, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural. v. 4, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural. v. 6, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural. v. 8, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural. v. 10, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural. v. 12, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural. v. 15, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural. v. 18, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural. v. 20, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural. v. 24, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Tradução de Jaa Torrano. 7a ed. São Paulo, Iluminuras, 2007. 
MÉNARD, René. Mitologia greco-romana, v. 1. Tradução de Aldo Della Nina. São Paulo, Opus, 1991. 3v
STEPHANIDES, Menelaos. Jasão e os Argonautas. Tradução Marylene Pinto Michael. 4a ed. São Paulo, Odysseus, 2000. (Mitologia helênica, n. 3).
STEPHANIDES, Menelaos. Hércules. Tradução Marylene Pinto Michael. 3a ed. São Paulo, Odysseys, 2005. (Mitologia helênica, n. 1).

LINKS:
International Astronomic Union - site oficial  
Olimpíada Brasileira de Astronomia
Cosmobrain: Astronomia e Astrofísica
http://www.astronoo.com/pt/constelacoes.html 

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