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Comunicado

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Atenciosamente
Leandro Vilar

quarta-feira, 24 de março de 2010

Hammurabi

A Babilônia, uma das cidades mais antigas do mundo, palco de vários conflitos e acontecimentos históricos importantes, no decorrer dos séculos. Cercada por sua beleza como fora os famosos Jardins Suspensos da época de Nabuconodosor II, ou a lendária Torre de Babel, a qual alcançava o céu. Por outro lado a Babilônia também fora um terrível "cativeiro" para os judeus capturados durante a conquista de Jerusalém por Nabuconodosor II. A Babilônia lugar visto pela Bíblia como um antro de depravação e promiscuidade; capital de impérios; cidade cosmopolita na época de Alexandre, o Grande. Porém em meio a sua longa história, irei me reter aqui a contar um pouco da história de um homem que levou a unificar outros reinos rivais, e a formar um Império Babilônico, mas além disso, Hammurabi ficaria conhecido por ter sido um grande líder em sua época, e por ter criado um dos códigos de leis mais antigos da história, o código de Hammurabi.

"A Babel da Bíblia é, portanto, sinônimo de decadência, de insensibilidade e prepotência politicas, e de excessos da vida urbana em geral. Os anos de cativeiro eram recordados com acrimônia e não havia entusiasmo por qualquer das maravilhas arquitetônicas da antiga cidade. Pelo contrário, o grande zigurate - o protótipo da Torre de Babel - tornou-se um poderoso símbolo de insensatez e arrogância humanas". (LEICK, 2003, p. 265).

A Mesopotâmia ("entre rios"), tido por alguns como o berço da civilização, lugar localizado na região do Crescente Fértil no Oriente Médio, entre os rios Tigre e Eufrates, hoje compreendendo o atual território do Iraque. Durante séculos, vários povos habitaram diferentes lugares dessa região, dentre os mais antigos estavam, os sumérios que viviam ao Sul; os acadianos e amoritas que viviam na região central e os assírios que viviam ao Norte. Além destes, vários outros povos nômades se estabeleceram nessa região ao longo das eras. No entanto, a cidade de Babel como principalmente ficou conhecida nos textos antigos, só viria ter um papel de destaque muito tempo depois, das primeiras cidades já terem surgido nessa região.

A História da ascensão de Babel começa por volta do século XIX a.C, quando após a queda da Dinastia de Ur III, na Suméria, vários outros pequenos reinos começaram a surgir pela região, e logo estes entraram em guerra. Então uma cidade de nome Babila (posteriormente conhecida como Babel) fora fundada por um grupo de amoritas que ali se estabeleceram. Nessa época as cidades de Larsa, Mari, Eshnunna lutavam ferozmente para assumir o controle da região central. Tal luta ainda se extenderia até o governo de Hammurabi, entretanto estes três inimigos teriam mais um oponente pela frente. No governo de Sumuabum (1894-1881 a.C), iniciou-se a expansão dos domínios de Babila, conquistando outras pequenas cidades, e criando um verdadeiro reino. Tal missão ainda continuou a ser efetuada, por seu filho Sumula'el, por sua vez o seu filho Sabium (o qual teria construído o zigurate de Babel, em homenagem ao deus guardião da cidade, Marduk), e por fim, seu filho Apil-Sin que governou de 1830-1813 a.C sendo sucedido por seu filho Sin-mubalit que governou de 1812-1793 a.C, pai de Hammurabi.

"É interessante observar como esses dois reis já são portadores de nomes acádicos, o que mostra como os novos habitantes assimilaram, rapidamente, a cultura acádica". (BOUZON, 1986, p. 17).

"Apil-Sin parece ter governado sobre uma parte considerável do norte da Babilônia. [...] de maneira que seu poder parece ter se estendido a cidades como Kis, Dilbat, Borsippa e Sippar". (BOUZON, 1986, p. 17).

Enquanto o avô e o pai de Hammurabi expandiam os domínios da Babilônia, coube a Hammurabi quando este assumiu o governo em 1792 a.C, a consolidar seus frágeis domínios. Para isso o novo rei se valeu de sua grande astúcia e capacidade de governar para por ordem em suas terras e abrir caminho para a criação de um império.

"Hammurabi começou modestamente e só conseguiu manter a sua autonomia graças à sua tenacidade e à sua grande habilidade politica. Ele soube aproveitar-se, como ninguém, da politica de pactos e alianças com os grandes reis contemporâneos, como Rimsin (1822-1763 a.C) de Larsa, Samsi-Adad I (1815-1782 a.C) da Assiria e Zimrilim (1782-1759 a.C) de Mari, jogando habilmente com o fator rivalidade existente entre eles" (BOUZOU, 1986, pp. 17-18).

Munido desta tática, Hammurabi aos poucos começou a gerar uma paz com seus rivais, mesmo assim a Assíria ainda era um forte obstáculo para ele. Com a morte do rei Samsi-Adad I, seu filho Ismedagan se mostrou contrário a politica de tolerância de seu pai com os outros reinos, e começou a ameaçar os seus planos. Para isso ele buscou forjar mais alianças, com isso começou a implantar uma série de pactos com o rei de Mari, sucessor de Zimrilim, além de fazer pactos com outras cidades, e outros povos que viviam fora da Mesopotâmia, assim ele não só garantia a sua influência na Mesopotâmia, mas também fora dessa, e por outro lado em caso de guerra, ele contaria com o apoio desses reis para a batalha.

"Não há rei algum que seja por si só suficiente forte. Dez ou quinze reis seguem a Hammurabi , o homem de Babel; outros tantos seguem a Rimsin de Larsa; outros tantos a Ibalpiel de Eshnunna; outros tantos Amutpiel de Qatna; e vinte seguem a Yari-Lim de Yamhad" (Trecho da carta enviada ao rei Zimrilim de Mari) (BOUZOU, 1986, pp. 18-19).

Com isso pode se ver que tanto Babel, Mari e outras cidades estavam ligadas entre si por estes tratados, possibilitando que estes definitivamente pudessem combater seus inimigos. Com isso nos anos seguintes, Hammurabi conseguiu conquistar Larsa e Eshnunna aumentando ainda mais seu poder sobre a Mesopotâmia central. Isso acabou levantado seu ego, e o levou a questionar a respeito de se ainda precisava manter aliança com Mari, já que agora estava bem mais poderoso que antes. Após cinco anos de conflitos, Mari caiu sobre o poder de Babel, e depois disso Hammurabi começou a investir em ataques para o Norte, para o território dos assirios. Nessa época seu Império (ver mapa) já estava constituido quase que completamente.

"Embora o prólogo do "Código" de Hammurabi sejam incluidas entre as cidades subjulgadas, Assur e Ninive, não se sabe, ao certo, quando Hammurabi conquistou realmente do território assíro. No fim dos 43 anos de seu reinado, Hammurabi tinha conseguido reunir, sob seu cetro, quase toda a Mesopotâmia". (BOUZOU, 1986, p.20).

No entanto os feitos de Hammurabi não ficaram somente na área militar e da conquista, como governante e legislador este se mostrou um homem sábio a respeito do assunto. O famoso código de Hammurabi; sua composição ainda é incerta, não se sabe ao total quantas leis existiram, já que muitas das cópias do código se perderam ao longo do tempo, entretanto há muitas questões que rodeiam este código. Esta o fato de que alguns historiadores e arqueólogos discordam a respeito de se realmente este trabalho pode ser chamado de código, já que teoricamente um código de leis abrange todas áreas e classes da sociedade, e neste caso, o código se restringe a alguns aspectos. No entanto outros apontam que a forma de legislação e de justiça daquela época era bem diferente da de hoje. Mas por outro lado o código de Hammurabi procura exaltar a imagem do rei, como pode ser visto na imagem ao lado. Nessa fotografia tirada da estela de diorito negro, na qual contêm o código inscrito, esta representado em seu topo a esquerda o rei Hammurabi, diante do deus-sol Shamash, o qual entrega o cetro de rei a Hammurabi, legitimando seu governo.

"O exemplar mais importante é, hoje, a estela de diorito negro, com 2,25 m de altura, encontrada pela expedição arqueológica francesa de J. de Morgan nas escavações da acrópole da capital elamita, Susa, durante o inverno de 1901-1902 (dezembro-janeiro)". (BOUZOU, 1986, p. 24).

O código ( ver foto) atualmente é dividido em 282 paragráfos, tendo sido 35 ou 40 apagados. Talvez foram os elamitas os responsáveis. Por outro lado do que se dá para entender, neste código escrito em cuneiforme acádico, pode se levantar a questão de que o código é dividido em três partes, o prólogo, a descrição das leis e o epilogo. Sendo neste caso o prólogo e o epilogo sendo promoções do rei, se vangloriando de seus feitos por ter ditado tais leis. Isso leva alguns historiadores a questionar a verdadeira função deste código. Neste caso há alguns que dizem que isso poderia ser uma obra literária e não uma obra jurídica em si, por outro lado, o código, é um dos primeiros a aplicar a Lei do Talião (ius taliones), conhecida pela famosa frase "olho por olho, dente por dente", o qual ratifica a dureza da aplicação das punições postas pelas leis ditadas no código.

"O "Código de Hammurabi não é certamente, um livro de leis válido para todo o país, que todo juíz devia consultar e seguir em suas sentenças. Mas o seu valor moral é inestimável". (BOUZOU, 1986, p. 28).

A respeito da divisão das leis aqui postas, de acordo com Emanuel Bouzon, ele classificou o código da seguinte forma:
  • 1-5: Determinam as penas a ser impostas em alguns delitos praticados durante um processo judicial.
  • 6-126; Regulam o direito patrimonial.
  • 127-195; Regulam o direito da familia, filiação e heranças.
  • 196-214: Determinam penas para lesões de penas corporais.
  • 215-240: Regulam os direitos de obrigações de algumas classes de profissionais.
  • 241-277: Regulam preços e salários.
  • 278-282: Contêm leis adicionais sobre propriedade de escravos.
Há alguns fatos curiosos neste conjunto de leis. Os escravos, chamados de wardum em acádio, poderiam se casar com pessoas de status livre awilum. Nesse caso, a população de escravos eram bem diminuta, basicamente os awilum compunham a sociedade, indo desde o rei, aos sacerdotes, militares, comerciantes, camponeses, etc. Um escravo ou escrava quando se casasse com uma pessoa livre, se tornaria livre, e seus filhos não seriam escravos. Por outro lado, o código também aponta uma grande influência do senhor sobre seu escravo, o qual tinha o direito de castigar o seu escravo quando este o desobedecesse, insultasse, ou cometesse outro grave delito.

A sociedade não era dividida em classes sociais bem definidas, por isso que no código não há referências as classes em si. As terras eram do rei, porém poderiam ser doadas, e se tornarem particulares. O comércio era grande e bem desenvolvido, tendo sido praticado com vários povos do Oriente.

"A economia babilônica era essencialmente agrícola; mas ao lado da agricultura, a criação de animais e a pesca eram também fatores de produção importantes. No período babilônico antigo, a indústria babilônica de perfumes, cremes de beleza, bijuterias e artesanato era, também muito conhecida e apreciada pelos povos vizinhos". (BOUZON, 1986, p. 37).

Os sacerdotes cuidavam das questões religiosas e administrativas do Estado, já que em sua maioria os escribas eram sacerdotes ou ligados ao culto de alguma divindade. Além disso, o casamento era feito mediante a escolha do noivo pelo pai da noiva e pelo pagamento de um dote, geralmente pago em uma quantia em prata, chamada de terhatum. A poligamia não era proibida, porém os filhos da primeira mulher eram os mais beneficiados, por isso as leis a respeito da herança.

"Hammurabi, contudo não foi, apenas um grande conquistador, um estrategista excelente, um rei poderoso. Ele foi, antes de tudo, um eximio administrador. Seus trabalhos de regulagem do curso do Eufrates e a construção e conservação de canais para a irrigação e para a navegação incrementaram enormemente a produção agricola e o comércio". (BOUZOU, 1986, p. 20).

Hammurabi morreu em 1750 a.C, deixando seu filho Samsuiluna como seu sucessor. Samsuiluna governou de 1749-1712 a.C, Após a sua morte, os reis que o sucederam tiveram grandes problemas de manter a unidade do império construido por Hammurabi e seus antecessores. Aos poucos os dominios iam se perdendo e as terras iam diminuindo, junto ia se embora as suas riquezas, e crises abalavam a economia e a sociedade do império. Com grande dificuldade os reis babilônios conseguiram manter a hegemonia do império até 1594 a.C, quando o último rei babilônio da Primeira Dinastia, Samsuditana (1625-1594 a.C), fora morto enquanto a cidade da Babilônia era invadida, saqueada e incendiada pelos exércitos do rei hitita Mursili I. Com a queda da Primeira dinastia, os cassitas assumiram o governo da cidade, fundando uma nova dinastia de soberanos.

NOTA: Pode se encontrar também variações na escrita do nome de Hammurabi, como: Hamurábi, Hamurabi, etc.
NOTA 2: A respeito das datas que indicam os anos dos reinados dos reis acima citados, pode se encontrar variações a respeito dessa cronologia, dependendo do calendário utilizado para se efetuar os cálculos.
NOTA 3: A Primeira Dinastia da Babilônia se iniciou em 1894 a.C, no governo de Sumuabum e perdurou até 1594 a.C com o fim do governo de Samsuditana. Pode haver variações nas datas.
NOTA 4: O Segundo Império Babilônico fora mais curto que seu antecessor, durando de 626-539 a.C.
NOTA 5: Nabucodonosor II governou de 604-562 a.C.
NOTA 6: Shamash é o nome acádio para o deus-sol sumeriano Utu. Já que os acadianos e amoritas adotaram muitas das divindades dos sumérios.
NOTA 7: No jogo Prince of Persia: The Two Thrones, a cidade da Babilônia é representada de forma fantasiosa, incluindo seus jardins e sua monumental torre.
NOTA 8: Na trilogia de Matrix, o nome da nave do Capitão Morpheus é Nabucodonosor II.

Referências Bibliográficas:
BOUZOU, Emanuel. O Código de Hammurabi. Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1986.
LEICK, Gwendolyn. Mesopotâmia: A invenção da cidade. Rio de Janeiro, Imago Ed,
2003.
CONTENAU, Georges. A civilização de Assur e Babilônia. Rio de Janeiro, Ferni, 1979.

LINK:
Tradução do código para o português (código de Hammurabi).

sexta-feira, 12 de março de 2010

O Primeiro Imperador

Na história da China Antiga, por longos séculos o seu povo viveu dividido em vários reinos ou Estados, os quais se digladiavam para conquistarem uns aos outros. Tais confrontos perduraram por muito tempo, até se poder haver uma estabilidade. Essa história se passa antes da fundação do Império Chinês. Foi no século III a.C que um jovem rei, decidiu levar a cabo a mais ousada empreitada já feita entre os reis de seu tempo. Este conquistou os Estados rivais, e fundou um único e grande império, que duraria mais de dois mil anos. Este homem fora Qin Shi Huang.

Qin Shi Huang nasceu por volta de 260 a.C, suas origens são obscuras, sabe-se que seu pai, fora prisioneiro no palácio da Corte do Reino de Zhou (Chou), onde possivelmente conheceu a mãe de Qin Shi Huang. Essa época se passou durante o período dos Reinos Combatentes (século V a.C ao III a.C), uma conturbada era na qual outrora o grande Reino de Zhou se encontrava enfraquecido e tendo perdido províncias e terras para seus inimigos e revoltas internas, que levaram a separação de seus feudos, os quais acabaram se tornando pequenos reinos. Neste caso, o Reino de Qin, fora antigamente, um feudo vassalico de Zhou, mas devido a sua crescente influência em questões militares e políticas, este acabou se separando de Zhou, como outros também vieram a fazer. No entanto era comum os nobres das diferentes cortes serem mantidos prisioneiros em reinos rivais, algo confuso, mas no entanto, servia de forma para que o reino rival pudesse está de olho no que o inimigo estava fazendo. O próprio rei Qin, foi mantido refém na juventude no Reino de Zhou.

No Período dos Reinos Combatentes ou Reinos Guerreiros, este era formado por sete Reinos ou Estados feudais. Os reinos de: Han, Zhao, Wei, Qin (Chin), Yen, Chu e Qi (Chi). Sendo que na época do rei Qin, os reinos de Chu, Han e Zhou eram os mais poderosos. Mesmo com a ameaça de tais inimigos os reis de Qin nunca se intimidaram. Por cinco gerações seus governantes tentaram a unificação dos Estados. Porém somente com Qin Shi Huang isso veio de fato ocorrer. Mas antes de eu explicar como se deu este longo processo, irei contar um pouco da ascensão do jovem rei ao trono.

Aos 12 anos, Qin assumia o trono do Reino de Qin (nessa época era comum o rei levar o nome de seu reino). Possivelmente seu pai fora assassinado, no entanto, o jovem rei contou com o apoio de sua mãe e do chanceler Liu Bewei. Entretanto, enquanto o jovem rei era manipulado por ambos, já que a sua mãe se tornara amante do chanceler, quando Qin chegou a maioridade, sua mãe tentou planejar o próprio assassinato do filho, e por Liu Bewei no trono. Porém, o rei descobriu os planos e agiu antes. Ele condenou sua mãe ao exílio, ordenou a morte de Liu Bewei, de seus dois filhos (os quais eram seus meio-irmãos) e outros cúmplices do chanceler. Tendo pondo fim a este terrível plano de traição, ele nunca mais confiou em outra mulher.

Por tal fato ele nunca chegou a se casar. Seus filhos nasceram de concubinas, mas nunca de uma esposa. Com a solução deste impasse, Qin decidira escolher um novo primeiro-ministro ou chanceler, o escolhido fora Li Si o qual era um homem sábio e ambicioso. De fato fora o responsável pela política militar e o comando do Estado durante a época das guerras de unificação. Qin decidiu agir o quanto antes para unificar os reinos antes que outro o fizesse. E para isso ele começou a adotar e a investir em uma forte política armamentista. Muitos homens foram convocados e treinados; além de haver um grande produção de armas, e nesse caso fora descoberto durante escavações na década de 70, restos de pontas de setas, e os arqueólogos chegaram a conclusão que tais pontas eram fabricadas em massa, em um processo industrial. De fato, descobriu que o exército de Qin, usava bestas como armas de artilharia. Tal arma só seria vista na Europa muitos séculos depois.

Dispondo de um grande exército, de suprimentos e armamentos em massa, Qin iniciou suas campanhas de conquista. O primeiro alvo fora o reino vizinho de Han, o qual ficava no centro de todos os outros. Com a conquista de Han, este seria um ponto de partida para conquistar os demais reinos do Norte, já que ao sul o Reino de Chu era o mais poderoso da época. Em 230 a.C cerca de um ano de guerra, Han caí a mercê do exército de Qin, com sua conquista, o rei decidira dar o próximo passo, e o alvo dessa vez era o Reino de Zhao. Nesse ponto, alguns historiadores costumam dizer que o ataque a Zhao fora muito além do fato de ser conquistado, mas fora um motivo de vingança. Como eu havia dito no começo, Qin fora mantido refém na Corte de Zhao, nesse tempo ele foi humilhado e agredido pelos seus membros. Com isso ele iniciara o ataque à Zhao após invadirem e destruírem quase toda a capital do reino, o próprio rei vai em pessoa até a cidade, e indica à dedo, as casas de todos aqueles que o humilharam e o agrediram na infância. Todos os homens e mulheres que fizeram isso foram arrancados de suas casas e executados no meio da rua. Em alguns casos, ele ordenara a execução de toda a família dos acusados.

Em 228 a.C Zhao finalmente sucumbira ao poder de Qin. Em 225 a.C chegara a vez de Wei. Com isso metade do território estava sob seu comando, e agora só restavam três reinos a serem conquistados, os dois pequenos reinos de Yen e Qi, e o gigantesco e poderoso reino de Chu. Qin decidiu atacar Chu, seu maior inimigo naquele momento. No entanto ele estava em dúvida de como proceder, para isso ele convocou a ajuda de dois generais, um veterano de guerra e um jovem general. O veterano aconselhou que fossem enviados 600 mil homens para o ataque, porém o jovem, disse que bastava apenas 200 mil para efetuar um ataque rápido e mortal. O rei se deixou persuadir pelo jovem, e o escolheu para liderar suas forças. No entanto tal escolha se revelou em um grande erro. Dos 200 mil guerreiros enviados, somente 10 mil sobreviveram. Envergonhado com a derrota e o erro que cometera, Qin ordenou que o outro general fosse chamado, e lhe concedeu o exército solicitado. Com isso o Reino de Qin, invadiu Chu com o gigantesco exército de 600 mil guerreiros, o maior da História em seu tempo, e conquistou Chu em 223 a.C.

Com a conquista de Chu, só faltavam os pequenos e fracos reinos de Yen e Qi. O rei Qin Shi Huang, retornou para a capital de Qin, Xianyang, lá no ano seguinte, ele recebeu a visita de um embaixador do Reino de Yen, o qual levava a declaração de rendição, no entanto a verdade era outra. O embaixador fora enviado para assassinar o rei, ele escondera uma faca dentro do mapa o qual iria entregar para o rei Qin. Neste mapa contia os planos de batalha de Yen, (Entregar o mapa dos planos de batalha e da organização militar do reino era visto como sinal de rendição) porém a tentativa de assassinato fora frustada, e o assassino acabou sendo morto pela guarda real. Qin com raiva de tal ato de traição ordenou a destruição de Yen. Em 222 a.C o Reino de Yen fora conquistado. No ano seguinte, o Reino de Qi declarou sua rendição, e com isso Qin passava a ser o único governante de todas estas terras.

Após dez anos de conflitos, Qin viajou até as margens do Rio Amarelo (Huang He em mandarim), para agradecer aos deuses. De fato os chineses consideravam o próprio rio como sendo um deus-rio. Ele não via a sua vitória como algo do mero acaso dos deuses, mas si como sendo seu próprio destino. Para muitos governantes em diferentes épocas da História o ato de governar era um sinal divino. Feito sua oferenda de agradecimento, este retorna para Xianyang, onde se proclamara imperador. Em 221 a.C, o rei passara a se chamar Qin Shi Huang Ti, adotando o nome Huang Ti ("Augusto soberano" ou "Primeiro Augusto Imperador"). Como imperador, ele passara a se considerar um deus-vivo e a ser respeitado como tal. Ele também passara a ser chamado pela alcunha de o Primeiro Imperador. Então fundara o Império de Qin (Chin), posteriormente chamado de Império da China.

O Império Chinês


Iniciado o seu governo como imperador, Qin o qual teria um breve governo, reinando até 210 a.C, promoveria uma profunda transformação política, administrativa, econômica, social e cultural, levando após a sua morte a revolta de muitos senhores e nobres devido a suas reformas. Porém antes de chegar a este fato, irei esboçar algumas das reformas promovidas pelo imperador.


Em marrom o território do Império de Qin ou Chin. Em pontilhado os atuais territórioa da China e da Mongólia. 
No mapa acima pode se ver o império chinês durante o governo da Dinastia Qin (221-206 a.C), a qual só teve dois imperadores, Qin Shin Huang Ti e seu filho Er Shih Huang Ti. Com a morte dos dois a dinastia chegou ao fim, e o império passou a ser governado pela Dinastia de Han (206 a.C - 220 d.C). Além de ter estendido as fronteiras do império, Qin dividiu o império em 36 províncias  que mais tarde passaram a ser 48. Ele aboliu o sistema feudal usado até então pelos antigos reinos, centralizando o poder nas mãos do imperador. Criou uma única moeda de cobre; Redigiu uma nova norma ortográfica, adotando o mandarim como língua oficial do império; construiu uma série de estradas e canais de irrigação promovendo o aumento da produção agrícola e o comércio tanto interno como externo. Ele também padronizou os pesos e medidas, construiu fortalezas, cidades, etc.

Dentre as mais famosas construções ordenadas por Qin, se encontra a Grande Muralha da China, iniciada no início de seu governo a Grande Muralha seria estendida ao longo dos séculos por dezenas de imperadores. Ela fora originalmente erguida para barrar o avanço dos inimigos do Norte, nesse caso os mongóis e manchúrios, e posteriormente os hunostártaros.



Originalmente a muralha fora construída de tijolos de barro e com argamassa, somente depois é que começaram a se utilizar pedra em sua construção. Grande parte da mão de obra utilizada fora escrava, e muitos morreram na construção desta.

Além da revolta por parte dos camponeses em terem que trabalhar em péssimas condições na construção da Grande Muralha, havia a revolta de várias outras poderosas famílias as quais ficaram sob o olhar atento e cerrado do imperador na capital. Tais famílias foram tidas como possíveis inimigas do império, com isso Qin procurou ficar de olho nelas.

"[...], e também a destruição de poderosas familias (cerca de 120.000 familias são transferidas para a região sob sua fiscalização real)". (YANG, 1977, p. 41).

Além de governar de forma tirânica e altamente autocrática, Qin também combateu com veemência os letrados e os filósofos (principalmente os confucionistas) dos quais discordavam de sua política e forma de governar, a ponto de que em 213 a.C, ele ordenou a queima de uma grande quantidade de livros de história e filosofia os quais ele julgou serem impróprios para a leitura, levando ao desinteresse pela escrita e por tais profissões.

Outro ponto importante a se falar sobre este homem fora sua incessante busca pela imortalidade. Qin viajou por muito tempo pela China procurando sábios que pudessem fazer uma poção da vida eterna. Alguns historiadores sugerem que possivelmente o imperador teria morrido ao beber uma das supostas poções da vida eterna produzida pelos alquimistas.

Qin morreu em 210 a.C, enquanto viajava pelo país. Quando este veio a morrer, seu primeiro-ministro, Li Si, teve medo de contar aos demais sobre a morte do imperador, temendo uma revolta imediata do povo, já que Qin possuía muitos inimigos. Sendo assim o povo chinês passou alguns meses sem saber que na verdade o seu divino imperador já havia falecido há algum tempo. Tal notícia só foi divulgada quando a comitiva do imperador retornou para a capital em Xianyang. Lá, o segundo filho de Qin, Huhai fora persuadido a assumir o trono, passando a se chamar Er Shin Huang Ti (229-207 a.C). Er só permaneceu três anos no poder, quando fora assassinado em uma revolta, que levou ao fim da Dinastia dos Qin.


O imperador Qin Shin Huang Ti fora sepultado em seu mausoléu próximo da atual cidade de Xian, na província de Shaanxi. O imperador Qin fora sepultado em uma grande tumba abaixo de um morro de terra construído na forma similar de uma pirâmide. Até hoje não se sabe realmente quantas pessoas trabalharam em sua construção, de qualquer forma o número de trabalhadores foram de centenas de milhares, já que além de construir a tumba e erguer o morro, fora também construído o famoso Exército de Terracota.


A tumba do imperador Qin Shi Huang Ti.
O exército fora descoberto em 1974 e desde então ainda continuam as escavações nos arredores da tumba, já que o governo chinês proibiu que a tumba fosse aberta. Restando aos arqueólogos a procurarem pelos guerreiros de terracota. Cerca de mais de 8 mil guerreiros já foram escavados, além de algumas centenas de cavalos e algumas carruagens. Cada guerreiro tem a altura de um homem, sendo esculpidos em poses naturais e portando armas de verdade; e curiosamente, cada um dos guerreiros possui o rosto diferente. Alguns sugerem que os próprios artesãos serviram de modelo para as estátuas.


Estátuas de terracota da tumba do imperador Qin Shi Huang.

NOTA: Qin Shi Huang Ti também pode ser grafado como Qin Shi Huangdi.
NOTA 2: A Dinastia Zhou é dividida em dois períodos: Zhou do Oeste (1122-771 a.C) e Zhou do Leste (771-221 a.C).
NOTA 3: Oficialmente o império chinês durou de 221 a.C à 1912.
NOTA 4: A Grande Muralha se inicia no Deserto de Gobi ao sul da Mongólia e vai até o Mar Amarelo. Na realidade a muralha é a junção de várias outras muralhas que foram construídas ao longo do tempo. Sua extensão é de mais de 7 mil km. No século XIII a imponente muralha fora incapaz de barrar o avanço dos exércitos de Genghis Khan.
NOTA 5: Qin Shi Huang Ti é retratado no filme A Múmia 3: A Tumba do Imperador Dragão, sendo interpretado pelo autor Jet Li. O trono imperial chinês as vezes era chamado de Trono do Dragão.
NOTA 6: Reza a lenda que os Guerreiros de Terracota ou Guerreiros de Xian, fora construídos a fim de se guardar a tumba do imperador, e em caso de seus inimigos decidissem atacá-la as estátuas ganhariam vida e lutariam para defender o corpo do imperador.
NOTA 7: Tanto o Exército de Terracota como a Grande Muralha são Patrimônios Mundiais da Humanidade pela UNESCO.

Referências Bibliográficas:
YANG,
Alexander Chung Yuan. História da China. São Paulo, USP, Série Didática No 5, 1977.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, São Paulo, Nova Cultural, 1998.

Referência audiovisual:
Documentário:
O Primeiro Imperador da China. Assistido no History Channel em 7 de Março de 2010, das 10h às 12h.

Conde Mauricio de Nassau

Este artigo é uma cortesia do meu amigo Thiago D. da Silva.

João Maurício de Nassau-Siegen (nasceu em 17 de junho de 1604 no castelo de Dillenburg, localizado no atual estado de Hessen na Alemanha e morreu em Kleve (Cleves) na Alemanha em 20 de dezembro 1679) era de família nobre da Holanda, seus pais eram Johann Mittlere e Margaretha de Holstein. Os primeiros ensinamentos de Nassau foram dados pelo seu pai, depois freqüentou a escola de Siegen e Cordal, tendo também formação na universidade de Basiléia e principalmente no Collegium Mauritianum, onde aprendeu a ser um ótimo intelectual e um excelente militar. Nassau foi possuidor de cargos de aferes, capitão e coronel se tornando um respeitado oficial holandês tendo atuado de forma decisiva em várias campanhas. Veio para tomar posse das possessões holandesas do Brasil em 1637 constituindo o segundo período da dominação holandesa na capitania de Pernambuco, sendo nomeado pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, tendo o aval do governador geral e do príncipe de Orange e sendo o mais indicado para o cargo em toda a Holanda, quando Nassau tomou posse no Brasil ele era coronel de cavalaria, seu salário como governante no Brasil era de aproximadamente 1500 floris e ele tinha o poder de governar a terra e o mar sobre o domínio holandês, era superintendente dos bens públicos e exercia ainda função militar decidindo honrarias e patentes.

Desde o inicio do seu governo ele foi responsável por uma grande reviravolta na expansão holandesa, conquistando São Jorge da Mina que era uma possessão espanhola, São Tomé, Angola, Sergipe e Maranhão. Como todos os outros períodos de governo holandês, sua administração teve uma paz apenas em momentos, principalmente, por causa das disputas com a Bahia (atacou a Bahia em 1638 e não conseguiu êxito). Nassau causou uma grande mudança também na administração onde uma das suas medidas foi vender a crédito os engenhos arruinados e sem trabalhadores por um preço que chegou a 100.000 mil florins. Outra mudança foi substituir as Câmaras que foram implantadas pelos portugueses por outras instituições denominadas conselhos Escobinos, desta maneira ele provocou uma mudança considerável na administração municipal.
Constituiu um cargo que tinha poderes policiais e de administração que era o promotor público, ele ainda indicou pessoas para administrar Alagoas, Paraíba, Itamaracá e Rio Grande do Norte. Existia outra especificidade na administração de Nassau: ele atendia pessoalmente todos os que tinham queixas, não se importando se este era pobre ou rico, isto caracterizou o seu governo como sendo de extrema tolerância com os luso-brasileiros e católicos mesmo sendo Calvinista, tolerância esta, que ele não tinha com os judeus que deveria fazer suas cerimônias em local fechado. No governo holandês no Brasil, a colônia vinha sofrendo com crises de abastecimento e com os altos custos dos produtos da base alimentar, como a farinha de mandioca.

Nassau não se absteve das dificuldades da população e criou vários incentivos para tentar amenizar a situação, o primeiro foi balancear a monocultura de cana mandando os proprietários de engenhos plantarem no meio da lavoura pés de mandioca. Outra medida foi mandar interronper à derrubada de pés de caju e, além disso, proibiu jogar o bagaço de cana nos rios o que impedia a pesca de peixes. Na cultura Nassau também foi atuante, organizando as chamadas cavalhadas e até peças teatrais. Mas talvez o maior destaque de Nassau tenha sido nas obras de infra-estrutura do Recife, onde ele proporcionou, entre outras coisas, a construção de praças, orfanatos e hospitais. Mandou edificar ainda uma cidade chamada Mauricéia (ver foto), na ilha de Antônio Vaz e também arquitetou obras urbanísticas e sanitárias nesta cidade recém - construída, além de duas pontes: uma ligando Recife a Mauricéia e outra ligando esta última ao continente.

Nassau era também um homem que despertava curiosidades: elaborou uma espécie de pomar gigante onde plantou uma grande variedade de plantas das mais diversas classes entre elas plantou cerca de 700 pés de coqueiros planta nativa da Índia. Outra curiosidade sobre Maurício era sua paixão por animais, ele mandou construir um jardim botânico em Recife trazendo animais de várias partes inclusive da África. Construiu ainda um museu artístico que possuía obra com inspiração na natureza e com objetos indígenas. Deu incentivos a tecnologia, a meteorologia, ao estudo de história natural e a astronomia construindo um observatório no telhado da sua casa. Trouxe profissionais de todas estas áreas para o Brasil um exemplo, foi o médico Pizo elaborador de um tratado de medicina muito utilizado na colônia.

Todo o progresso fez o Recife ser um núcleo em matéria de desenvolvimento comercial e militar, despertando o interesse de indivíduos de outros países como, por exemplo, dos franceses que possuíam vários comerciantes no Recife e ingleses que constituíram uma companhia militar, além de Alemães, Israelitas e outros. Apesar de proporcionar todo este desenvolvimento em Pernambuco, Maurício pediu demissão dos seus serviços, que não foi concebido da primeira vez, pois foi alegado que Nassau era conhecido e era o único a conseguir manter um governo estabilizado. Da segunda vez, esta foi concebida, pois o governo estava totalmente estável e não havia sinais de perigo iminente, assim depois de sua exoneração o poder foi transferido para o governo supremo e foi comunicado a todas as províncias a transferência de poder. Foi assim o governo de oito anos de Maurício de Nassau no Brasil dando um lucro de 1.963.000 Florins a Companhia das Índias Ocidentais e mais cerca de 2.017.478 Florins de espojo de guerra, além de lutar contra a Espanha em vários locais do Brasil, como, por exemplo, em Porto Calvo.

Mais tarde seria novamente chamado para governar no Brasil pela Companhia das Índias Ocidentais, mas a mesma não aceitou suas exigências. A saída de Maurício de Nassau do governo estimulou a insurreição pernambucana e a capitulação dos holandeses em 1654. Voltando para a Holanda foi nomeado tenente-coronel de cavalaria de Wesel e mais tarde, na Alemanha, foi nomeado governador de Kleve, nesta cidade alemã Nassau demonstrou mais uma vez o seu amor pela natureza, assim como no Brasil, lá ele plantou uma série de espécies de árvores. Exerceu ainda a função de embaixador e chegou, finalmente, a ser príncipe do Sacro Império. Vindo a falecer na Alemanha em 1679, tendo vivido 75 anos. Seus restos mortais hoje repousam em um mausoléu em Siegen.

Referências Bibliográficas:

MELLO, Evaldo Cabral de. Nassau (Perfis Brasileiros). São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

BARLÉU, Gaspar. História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1974.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. (organizador) História Geral da Civilização Brasileira. 7° Edição. São Paulo: Brasiliense, 1984.

GOVEIA, Fernando da Cruz. Maurício de Nassau e o Brasil Holandês. Pernambuco: Editora Universitária UFPE, 1998.

MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada - guerra e açúcar no nordeste, 1630-1654. Rio de Janeiro: 2ª edição, 1998.


quinta-feira, 11 de março de 2010

Discurso de Gettysburg

Em 1863 durante a Guerra de Secessão (1861-1865), guerra esta na qual os Estados do sul confrontaram os Estados do norte, para sua emancipação perante aos Estados Unidos da América. O então Presidente Abraham Lincoln, proferiu em 19 de Novembro de 1863, na cerimônia de inauguração do cemitério militar da cidade de Gettysburg, Pensilvânia, em homenagem aos que morreram na Batalha de Gettysburg. Seu famoso discurso, no qual mesmo sendo breve, este defendeu de forma clara a questão de liberdade e democracia nos Estados Unidos. Lincoln emetiu uma lei pondo fim a escravidão nos estados sulistas, no entanto somente após o fim da guerra é que a lei se cumpriu de fato. Porém o que o discurso demostra é o fato de que ele dizia, que para os Estados Unidos serem realmente um verdadeiro país democrático, teria que por fim a escravidão.


Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais.

Encontramo-nos actualmente empenhados numa grande guerra civil, pondo à prova se essa Nação, ou qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar. Eis-nos num grande campo de batalha dessa guerra. Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos.

Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes.

O mundo muito pouco atentará, e muito pouco recordará o que aqui dissermos, mas não poderá jamais esquecer o que eles aqui fizeram.

Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação com a graça de Deus venha gerar uma nova Liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da terra.

ABRAHAM LINCOLN


NOTA: Abraham Lincoln fora o primeiro presidente do Partido Republicano a ser eleito e reeleito. No entanto não chegou a concluir o segundo mandato por ter sido assassinado.
NOTA 2: Por mais nobre que foi este seu discurso, em algumas vezes Lincoln chegou a ser ambiguo no que dizia em referência a questão racial.

Referências:
http://www.arqnet.pt/portal/discursos/novembro01.html
KARNAL, Leandro. Uma nação que se expande e se divide, São Paulo, Ed. Contexto, 2007.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Oda Nobunaga

Em meio ao século XVI, durante a época feudal japonesa, em um período que passou a ser chamado de Sengoku jidai (1460-1560) que literalmente significa "país em guerra", várias guerras civis eclodiam por todo o Japão, o poder imperial se encontrava dividido entre a nobreza que morava nas cidades, formadas pelos ricos aristocratas, e a nobreza do campo, formada pelos dáimios (senhor feudal). Nessa época o Japão se organizava sobre um Estado fortemente de caráter militar, tendo em muitos dos casos, clãs de samurais a frente do governo. E é nesse cenário caótico e confuso que alguns líderes surgiram para promoverem a reunificação do país, e dentre estes líderes estava Oda Nobunaga. Considerado por alguns como um herói e por outros como um terrível tirano, já que este na sua iniciativa de promover a reunificação, levou à morte de muitas pessoas que se opuseram a suas ideias. Sendo assim, nas linhas a seguir, irei esboçar um pouco da história de Nobunaga e do período feudal.

Introdução ao período feudal:

A história feudal japonesa se inicia por volta do século X, quando em meio as crises que já existiam naquela época, a classe guerreira dos samurais ou bushi, ganhava cada vez mais importância e influência em uma sociedade que dependia muito do apoio militar. Os samurais em pouco tempo deixaram de serem os vassalos dos nobres, para se tornarem seus próprios senhores. Com isso, muitos clãs, logo começaram a conquistar cada vez mais terras e a constituírem feudos. Além da criação dos feudos, do contrato suserano-vassalo (tal contrato não era parecido em alguns preceitos com o contrato visto na Europa medieval, mas em vários outros aspectos de cunho cultural e social, eram bastantes distintos), os próprios camponeses se viram escravizados pelos seus senhores. 


Minamoto Yoritomo
Tais fatos e alguns mais, indicam o porque de tal época ser comparada a Europa medieval. Entretanto, alguns historiadores preferem dizer que o período feudal se iniciou oficialmente no século XII, quando o Clã Minamoto derrotou seu principal rival, o Clã Taira em 1185, tendo nesse caso, o irmão mais novo de Yoritomo, Minamoto Yoshitsune tendo realizado grandes vitórias nesses confrontos. Com a vitória dos Minamoto, estes criaram o Kamakura bakufu (literalmente significa o "posto militar da região de Kamakura"), criado em 1192 por Minamoto Yoritomo (1147-1199). O xogunato (governo de um xogum) Minamoto ficaria a frente do poder até 1333. De fato, Yoritomo deixou uma série de contribuições que contribuíram para acentuar o caráter feudal no Japão.

"A transformação do Estado Ritsuryo em Estado Feudal (bakufu) não significa apenas a transferência do poder político das mãos dos nobres palacianos para as dos samurais em ascensão, com radical mudança no sistema social e econômico. Na verdade, verifica-se uma profunda modificação em toda sociedade nipônica - atingido todas as classes sociais - inclusive alteração sensível na mentalidade dos homens. Registra-se uma grande transformação nas esferas do pensamento e da cultura". (YAMASHIRO, 1978, p. 77).

Yoritomo foi nomeado pelo próprio imperador para assumir o cargo de xogum ou shogun (general, comandante-supremo). Com isso Yoritomo criou novos cargos públicos, reformulou a administração do país, garantindo que tanto a nobreza que vivia nas cidades tivessem suas obrigações; e no campo, os samurais passariam a tomar conta deste. Dentre os novos departamentos que este criou estavam: o samurai-dokoro (departamento que fiscalizava os samurais), o mandakoro (departamento político-fiscalizador) e o monchujo (tribunal da suprema corte).

"Em 1185, quando o clã Taira é virtualmente eliminado na batalha naval de Dannoura, Yoritomo solicita ao trono autorização para criar os cargos de shugo (comissário militar) e jito (comissário de terra) em todo o território nacional. Os shugo comandam os samurais locais, e se encarregam da manutenção da ordem pública. Os jito, arrecadam impostos dos shoen do interior e exercem funções policiais". (YAMASHIRO, 1978, p. 62).


"A maioria dos historiadores japoneses chama de feudal o período que vai de Yoritomo até o fim do shogunato Tokugawa, cerca de sete séculos depois". (YAMASHIRO, 1978, p. 63).



Kublai Khan
Com a morte de Yoritomo e de seus herdeiros, o xogunato passou a pertencer ao Clã Hojo, o qual levaria gradativamente ao declínio do Kamakura bakufu. No entanto dois fatos muitos importantes marcaram o século XIII nessa época, ambos os fatos estão ligados a invasões inimigas. No Oeste, um poderoso guerreiro havia unificado a Mongólia e agora conquistava a China, este era Genghis Khan (1162-1227), o qual ameaçou conquistar o Japão, entretanto, a tentativa mongol acabou fracassando, e depois disso Genghis Khan deixou de lado a conquista do Japão. Anos mais tarde, o seu neto, Kublai Khan (1216-1294) decidiu retomar a investida de seu avô. Kublai realizou duas campanhas contra os japoneses, mas em ambos os casos, seus esforços foram frustrados devido as forças da natureza. Em 1274, dispondo de cerca de 30 mil guerreiros e 900 navios, os mongóis invadiram o Japão, entretanto sua vitória não foi total devido a um tufão que arrasou com suas embarcações. Anos mais tarde, em 1281, eles novamente atacaram o país, dispondo de 140 mil homens e 4.400 embarcações, porém novamente um poderoso tufão arrasou com a frota mongol levando a derrota completa destes. Como agradecimento por estes ventos, os japoneses nomearam aquele tufão de Kamikaze ("vento divino" ou "deus do vento").

Após os dois confrontos com os mongóis, os japoneses mergulharam em uma crise econômica devido aos altos gastos com a guerra, e isso levou ao enfraquecimento do xogunato dos Hojo, os quais se viram ameaçados por outros clãs. O Kamakura bakufu foi extinto em 1333, e o governo voltou para as mãos da Corte em Kyoto, entretanto nos anos seguintes, outros bakufus surgiriam para tomar lugar do de Kamakura. Nesse caso o bakufu de Muromachi assumiu o poder. Porém tal situação só viria à piorar. Em 1467 eclodiu uma guerra civil, chamada de Guerra de Onin (Onin no Ran), na qual para alguns historiadores marcou o início do período Sengoku-jidai, o mais sangrento de toda história japonesa.

"Nas províncias, famílias antigas e tradicionais desaparecem e são substituídas por novas que gozam de prestigio na região. Daimyo poderosos disputam a ferro e fogo a supremacia regional, tendo em vista a conquista final do governo central". (YAMASHIRO, 1978, p. 89).

"Como se pode ver, o Sengoku Jidai - que dura de fins do século XV ao término do XVI - politicamente constitui uma época de desintegração do Estado nacional". (YAMASHIRO, 1978, p. 90).

Com o término do conturbado período Sengoku, o Japão se encontrou em uma profunda crise econômica e administrativa. Sendo assim, nos anos seguintes, alguns líderes surgiriam e dentre estes estava Nobunaga.


A campanha de Nobunaga: 



Oda Nobunaga
Oda Nobunaga nasceu em 1534 no Castelo de Nagoya, este era filho do guerreiro Oda Nobuhide, um comandante militar responsável pela região de Owari, em Honshu. Nobuhide tentou iniciar um processo de reunificação, mas tal fato só veio a ocorrer com seu filho. Em 1560, já sendo um dáimio, e tendo certo prestígio militar na região, Nobunaga atacou o feudo de Imagawa Yoshimoto, o derrotando. Com a derrota de Yoshimoto, o qual era um importante dáimio da região de Suruga, a fama militar de Nobunaga deu um grande salto. Posteriormente este juntou forças com o dáimio Tokugawa Iesayu, o qual também teria uma grande influência nesse processo de reunificação. Nobunaga desde pelo menos 1556 já vinha realizando campanhas militares para expandir seus domínios antes de iniciar seu plano de reunificação.

Outro fato importante a ser esclarecido, foi que Nobunaga procurou aproximar seus laços de amizade com a Corte imperial. E como iniciativa dessa nova amizade, nada menos e nada mais, ele se propôs a reconstruir o palácio imperial em Kyoto. Após dois anos de reforma, o palácio ficou pronto, e Nobunaga conseguiu o apoio da realeza. Além disso, ele também nomeou Ashikaga Yoshiaki como novo xogum, entretanto, este temendo um golpe de Nobunaga, decidiu assassiná-lo, porém a tentativa falhou e este foi expulso de Kyoto, dando fim ao Xogunato Ashikaga ou Muromachi bakufu.

"Dominando a rica região de Kini (área de Kyoto e Osaka), o poderio econômico e militar de Nobunaga já supera o de seus principais concorrentes na conquista do governo central". (YAMASHIRO, 1978, p. 102).

Nobunaga agora dispunha do apoio da Corte imperial e de vários dáimios, além de financiamento para suas campanhas. Com isso ele continuou com sua tentativa de reunificar o país. Curiosamente nas batalhas que Nobunaga empreendeu, há dois aspectos importantes a serem ditos: o primeiro era o fato deste gostar de utilizar armas de fogo nas batalhas. As armas de fogo foram trazidas para o Japão por volta do ano de 1543, quando navegantes portugueses chegaram à ilha de Tanegashima, vindos de Macau na China. Estes venderam as primeiras armas para os japoneses, e pouco tempo depois, fábricas foram construídas pelo país a fim de se fabricar as recém chegadas armas de fogo.



Modelos de mosquetes levados pelos portugueses ao Japão, onde popularmente foram chamados de tanegashimas, devido a ilha onde tais armas foram primeiramente compradas. 
Outro aspecto importante também a ser citado, foi a expansão do Cristianismo no Japão. Também tendo vindo com os jesuítas portugueses que ali chegaram, o Cristianismo foi introduzido a partir do sul, pelas províncias de Nagasaki e Hiroshima e demais ilhas na região. Até então as principais religiões do país eram a tradicional religião do Xintoísmo, com seus deuses, e o Zen Budismo. De fato o budismo representou um forte obstáculo para o crescimento do Cristianismo no país. Além disso, os monges budistas (bonzos) foram fortes opositores da medidas de implantação da nova religião, assim como das medidas políticas propostas por Nobunaga. 

"O cristianismo trazido pelo jesuíta Francisco Xavier (1549) encontra terreno fértil e se propaga rapidamente entre daimyo, samurais e povo comum do Japão. É chamado de Kirishitan-shu". (YAMASHIRO, 1978, p. 112).

"Outrossim, Nobunaga que procura reprimir a arrogância e o poder de alguns mosteiros budistas, se simpatiza com os missionários ocidentais, estabelece até um "bairro de padres" e os jesuítas fundam um seminário para a educação dos filhos de nobres e senhores feudais, além de igrejas para a catequese". (YAMASHIRO, 1978, p. 103).



“Por mais que as áreas de comércio e de atuação missionária tenham se restringido ao complexo de Kyushu, os produtos e a doutrina cristã se espalharam por quase todo o país. Esta situação gerou um episódio controverso em Honshu: de um lado, o contato com os ocidentais era visto de forma negativa, como no caso dos constantes conflitos contra os bonzos da doutrina Zen. Do outro, os produtos importados pelos mercadores portugueses – principalmente as armas de fogo , e os aspectos do catolicismo teriam chamado a atenção, sobretudo, de Oda Nobunaga, que mesmo assim, não havendo comércio luso-nipônico em Honshu, o interesse dos grandes senhores pelos religiosos não era estimulado por razões de ordem material, o que tornava os padres muito mais permeáveis aos ataques dos bonzos, os monges budistas, que não viam com bons olhos a propagação de uma nova fé”. (LEÃO, 2010, p. 216).

“A partir da década de 1560, liderados pelo padre Luís Fróis, os jesuítas, no intento de pregar em Honshu, foram pessoalmente recebidos em Owari por Oda Nubunaga. Ele teria sido grande admirador dos produtos e artefatos trazidos pelos bárbaros do Sul. Contudo, Oda Nobunaga tinha consciência de que para ter acesso a tais benefícios, deveria se relacionar de forma amistosa com os padres jesuítas, uma vez que, em Honshu, eles serviam como intermediários destes mercadores”. (LEÃO, 2010, p. 217).

O missionário e padre português jesuíta Luís Fróis (1532-1597) em missão no Japão tornou-se hóspede de Nobunaga e amigo seu, mesmo por curta data. Fróis em suas cartas nos deixou algumas informações interessantes sobre Nobunaga e o contexto histórico daquela época. Além de Fróis outros jesuítas em missão naquele tempo também nos deixaram relatos em suas cartas. De acordo com Fróis, Nobunaga embora simpatizasse com o Cristianismo nunca chegou a se converter propriamente, mas um de seus filhos e primo se tornaram cristãos, além de alguns vassalos o que incluía outros dáimios. 


“E indo o padre Viceprovincial ao Miaco, foi muy favorecido de Quambacudono, como já polas outras cartas se escreveo, e se fezerão alguns senhores Christãos de muyta importância, como foy hum filho Nobunanga com hum seu primo, e diversos fidalgos principaes da casa de Quambacudono e de seu sobrinho (que se presume há de ser seu herdeiro) e entre outros se fez Christão hum senhor chamado Condera Cambioyedono, e agora por nome de Christão Simeão pessoa de grandes partes e de grande esperança, e de quem Quambacudono faz muyta conta”. (FRÓIS, 1589, p. 24).


Um jesuíta com um nobre japonês. Autor desconhecido, cerca de 1600. 
Fróis nos relata que sob o domínio de Nobunaga os jesuítas tiveram liberdade e segurança para pregar, pois embora alguns japoneses fossem adeptos da nova religião, grande parte do país ou desconhecia tal fé ou era contrária, pois o Cristianismo se espalhou e ficou quase que restrito ao sul do país, tendo pouco sucesso em avançar para o centro e o norte, e mesmo no sul houve problemas, onde houveram perseguições e assassinatos de cristãos. 


"Sob sua proteção os missionários tiveram autorização para construir um seminário em Arima e outro Omi, assim como, a construção de uma igreja de Nossa Senhora de Assunção, em 1576, na capital Miyako. A chegada do jesuíta napolitano Alexandre Valignano, na função de visitador do Japão no ano de 1579, teria estimulado ainda mais as boas relações entre os portugueses e Oda Nobunaga. Junto com Luís Fróis, Organtino Soldo e Lourenço Mexia foram recebidos pessoalmente no Castelo de Azuchi". (LEÃO, 2010, p. 217-218).

O cristianismo conseguiu prevalecer por cerca de cem anos principalmente no sul do Japão, pois contara com o apoio de dáimios que haviam se convertido ou eram simpatizantes de tal religião que inicialmente se pensou ser uma seita budista, algo que inicialmente favoreceu a aceitação da nova fé por parte de alguns devido a esse equivoco (de fato os primeiros missionários usavam expressões e termos budistas para poderem explicar conceitos cristãos devido a ausência de palavras no alfabeto japonês que possuíssem sentido visto no alfabeto latino e português). 


Nesse ponto Fróis agradece a benevolência de Nobunaga, embora o mesmo não estivesse interessado na palavra de Deus, mas sim no apoio que ele poderia conseguir das missões jesuíticas e de Portugal, pois ele, como Fróis mencionara em uma de suas cartas, era um homem cético ou ateu (ele negou-se a ser batizado), preocupado com o terreno e as delícias mundanas (alguns cristãos japoneses como o irmão Lourenço criticaram a vida mundana e a crueldade de Nobunaga, e tal fato piorou quando o mesmo passou a requerer culto a sua pessoa, chegando a ordenar a construção de um templo em Anzuchiyama para ser adorado). Embora fosse um pecador neste ponto de vista, Fróis mesmo assim naquele momento não negara o auxílio que ele prestou a Companhia em seus domínios. Contudo, anos depois, Fróis criticara a medida de Nobunaga de construir um templo e exigir ser adorado. O jesuíta chamou o falecido dáimio de idólatra, tirano, arrogante, ambicioso, herético, etc., e além disso, chegara dizer que a sua alma jazia no Inferno por sua tentativa de tentar se igualar a Deus em ser adorado.



“Por que como Nobunanga têm não auer outra vida, nem cousa alguma fora do vísiuel, sendo como é abundantíssimo em riquezas, e pretendendo não auer cousa que outro Rei o sobrepoje, antes preferirse a todos: pera mostra sua magnificência, e conformada recreação de suas delícias, determinou fazer pera si este seu paraíso terreal, que assi lhe chamão os de Minno, onde tem gastado grande soma de dinheiro”. (FRÓIS, 1598, p. 272).  


Retrato de Oda Nobunaga, pelo jesuíta Giovanni Niccolo, 1583-1590. 
Oda Nobunaga procurou fortalecer seus laços com os jesuítas e Portugal, de forma que usou o cristianismo com uma estratégia de combater os mosteiros budistas, pondo em confronto ambas as religiões. Como eu havia citado anteriormente, os monges budistas representaram um forte empecilho a política reunificadora de Nobunaga. Nessa época, muitos templos eram donos de grandes propriedades (shoen), e se recusavam a se render a Nobunaga. Por outro lado havia também a ameaça de vários outros poderosos dáimios, e por fim as seitas rebeldes budistas, sendo nesse caso a seita de Ikkô os principais inimigos do dáimio Oda. 


"Os territórios controlados por estes sacerdotes espalhavam-se a longo de seus domínios, assim, Oda Nobunaga temia que o poder dos bonzos sobre a população local viesse a se tornar um dos grandes obstáculos à unificação do país. Então, ele procurou estimular o choque cultural e religioso, entre os jesuítas e os bonzos, como forma de enfraquecê-los". (LEÃO, 2010, p. 217).

"Nobunaga, que com seu esforço, e árduo um pequeno reino que tinha em pouco tempo se fez senhor de toda a monarquia do Japão, e possui agora trinta e quatro reinos, e vai ao alcanço dos outros esperando ser senhor de todos os mais que ficam, e segundo vai vitorioso se a morte lho não impedir parece que se efetuará seu intento. É tão temido este senhor, e tão reverenciado de todos os senhores do Japão, que ainda os seus inimigos lhe cometem partidos muito honrosos por adquirir sua amizade, e ele confia tanto em se poder, que nenhum partido aceita senão de sujeição de criados. Este homem parece que escolheu a Deus para aparelhar, e disposto o caminho à nossa Santa lei, sem ele entender o que nisto faz, porque não somente estima em pouco, e despreza os Kami, e Fuke aquém os japoneses têm tanta devoção, mais ainda é cruel inimigo, e perseguidor dos bonzos, e em seu reino tem destruídas tantas e tão principais varelas e mortos tantos bonzos, e desfavorece tanto a todos eles, que as seitas deles estão já muito abatidas. Tomou ocasião para isto da resistência que lhe fizeram alguns bonzos, porque como em diversas seitas viviam muito ricos, e poderosos, e eram senhores de grandes fortalezas, e ricas terras, resistiram lhe de maneira, que por vezes o puseram em grade aperto, e se estes bonzos não foram, ele fora já senhor de todo Japão". (LEÃO, 2010, p. 218 apud COELHO, 1997, p. 30). 

Além desse "confronto cultural e religioso", Nobunaga ficou conhecido por empregar a força com muita crueldade, tendo ordenado a morte de centenas a milhares de indivíduosNobunaga ordenou a perseguição e execução de muitos monges budistas e a destruição de seu templos e a usurpação de suas terras e riquezas. O uso de armas de fogo intensificou os massacres e levou as guerras japonesas para outro nível. 

"Durante a virada do ano de 1573 para 1574, os exércitos do Tenka varreram os clãs Asakura, Asai e Takeda. Nos relatos do padre Luís Fróis, a rápida vitória das forças de Nobunaga deveu-se a introdução das armas de fogo no campo de batalha". (LEÃO, 2010, p. 218).

As vitórias de Nobunaga se seguiram até 1578, fechando um período de grandes êxitos para o dáimio o qual recebeu o título de Tenka ("Aquele que está abaixo dos céus"), pois Nobunaga também foi chamado de Sengoku-Dáimio ("Senhor do país") em referência a sua eficaz campanha unificadora, tendo sido o primeiro dáimio a conseguir com êxito levar a cabo tal árdua missão, embora não tenha concretizado a unificação, Nobunaga neste tempo se tornou o dáimio mais poderoso do Japão. 

Soldados japoneses praticando tiro à noite, usando cordas para melhor apoiar os mosquetes. Utagawa Kuniyoshi, 1855. 
Nobunaga também iniciou a construção de fortalezas, castelos e vilas, e dentre estas estava o castelo-fortaleza em Azuchi, província de Omi, a qual fica perto de Kyoto. Nobunaga via na construção deste castelo, não somente como sua nova moradia, mas também na tentativa de transferir a capital do país para este lugar.


Desenho do Castelo Azuchi-Jo-zu, construído por Oda Nobunaga entre 1576-1579.
"Este castelo-fortaleza tem um significado todo especial, porque pela primeira vez na história do Japão, um chefe militar feudal visa, com a construção de um baluarte defensivo, o estabelecimento de um novo centro político no país. Só mesmo um chefe militar da visão de Nobunaga poderia ter concebido tal idéia". (YAMASHIRO, 1978, p. 102).

"As grandes proporções do castelo, sua formosura e excelente localização (ás margens do lago Biwa) são objeto de descrição minuciosa da parte dos padres católicos que têm oportunidade de observar a construção. Até o Papa em Roma se envia um relatório pormenorizando sobre a obra". (YAMASHIRO, 1978, p. 103).

 Akechi Mitsuhide
Enquanto este seguia com suas conquistas militares a fim de reunificar todo o país, em 1582, em um golpe de traição dado pelo general Akechi Mitsuhide (1528?-1582) no templo Honno-ji em Kyoto, Oda Nobunaga foi levado a realizar o seppuku (ritual de suicídio em nome da honra). Mitsuhide era um dos vassalos de Nobunaga, tendo lhe servido em muitas batalhas, contudo, naquele ano ele decidiu se rebelar contra o seu suserano; as causas para tal traição não são claras, existem hipóteses que sugerem motivos pessoais, envolvendo rancor, ódio e vingança; outras hipóteses sugerem que Mitsuhide almejava tomar o lugar de Nobunaga, então tentou realizar um golpe de Estado; ou acabou caindo em descrença acerca das verdadeiras intenções de seu suserano e decidiu se livrar deste "tirano". De qualquer forma, Nobunaga foi surpreendido no templo budista Honno-ji onde se encontrava descansando, sendo cercado pelo exército de Mitsuhide, o qual sabendo que ele estaria desprovido de uma forte guarnição contando apenas com alguns servos e sua guarda pessoal, cercou o local e ordenou a rendição de todos, mas Nobunaga para não ser capturado e executado, preferiu manter sua honra intacta e cometeu o seppuku

Em outros casos, o suicídio era preferível do que uma vergonhosa derrota. Conta-se que Nobunaga ordenou que o templo fosse incendiado para que seu corpo não fosse levado pelos seus inimigos, pois havia o costume de se cortar a cabeça e exibi-la como troféu. Tal fato explica a questão de não se ter encontrado os restos mortais dele, embora que o templo ainda exista e sofreu reformas ao longo do tempo. Tal acontecimento ocorrido em 21 de junho de 1582 ficou conhecido como o Incidente de Honno-ji.



Pintura da Era Meiji retratando o Incidente de Honno-ji. Ao centro pode-se ver Mitsuhide apontando sua lança para Nobunaga o qual acabara de realizar o seppuku, enfiando uma espada curta em sua barriga. 
O sonho de Nobunaga de se reunificar o país se perdera. Em 1569, Fróis nos relatara que naquela época o dáimio possuía cerca de 36 províncias (ele refere-se como "Reinos de Nobunaga") sob seu controle, e tal número aumentou nos anos seguintes, principalmente após a derrota e conquista do Clã Tara. Estima-se que Nobunaga tenha conseguido unificar pelo menos um terço das províncias japonesas. Com a sua morte, Mitsuhide foi atrás do filho mais velho de Nobunaga, Oda Nobutada (1557-1582) herdeiro direto.


Oda Nobutada
Nobutada posteriormente ficou sabendo da morte de seu pai e da traição de Akechi, então partiu para se refugiar no Castelo Azuchi, o mesmo castelo ordenado a construção pelo seu pai, mas essa imponente fortaleza não conseguiu garantir a segurança de Nobutada que acabou também cometendo o seppuku. O castelo foi saqueado. Porém, os dias de Mitsuhide estavam contados. Após a notícia dos dois Odas terem morrido e o castelo do clã ter sido saqueado, Mitsuhide sabia que em breve os outros vassalos viriam atrás dele, então ele decidiu procurar ajuda, procurando entre a Corte e outros dáimios apoio, mas estes negaram ajudá-lo, e não tardou para que Toyotomi Hideyoshi (1537-1598), chamado de "o cara de macaco", o qual estava guerreando em Mori, conseguiu um acordo de paz ou uma trégua, então dirigiu seu exército para ir a caça do traidor.


"De origem humilde, segundo os jesuítas, Toyotomi Hideyoshi nasceu por volta de 1537, e nos finais de 1550 teria se alistado nas fileiras dos exércitos de Oda Nobunaga. Se destacando pela engenhosidade no campo de batalha e pela embaixada junto ao Xogum, aliado de Oda Nobunaga, o mesmo chegou à condição de general e, por sua riqueza, a de daimyô". (LEÃO, 2010, p. 220).

O exército de Hideyoshi que contava entre 20 a 40 mil homens (dos quais ganhou reforços de outros dáimios que se uniram a causa de vingança dele) confrontou o exército de Mitsuhide que possuía cerca de 10 a 16 mil homens. O confronto se deu em Yamazaki, região na fronteira das províncias de Settsu e Yamashiro. A Batalha de Yamazaki foi travada em 2 de julho de 1582, onde Akechi Mitsuhide foi morto em combate, e seu exército se rendeu, dando vitória a Toyotomi, o qual assumiu como novo general dos exércitos de Nobunaga, embora este possuísse outros filhos, Toyotomi soube jogar e conseguir se manter no poder. Sob sua liderança ele prosseguiu com as campanhas de reunificação. 


Oda Nobunaga tendo sido um tirano para alguns, mas um libertador e herói para outros, embora tenha falhado em seu sonho de unificar o país sob uma única espada, inegavelmente foi quem abriu caminho para que outros dáimios conseguissem realizar a unificação. Nobunaga pode não ter chegado ao fim da jornada, mas conseguiu dar longos passos antes de cair. 


A reunificação se concretiza: 


Toyotomi Hideyoshi
"Após o assassinato de seu suserano, Toyotomi Hideyoshi consegue sua vingança e se torna o grande sucessor de Oda Nobunaga, no processo de unificação do país. Dois anos depois, no intuito de expandir seus domínios, Toyotomi Hideyoshi se envolve em uma guerra contra o, até então aliado, Tokugawa Ieyasu. Em 1585, pela ausência de uma concorrência político-militar à altura, Toyotomi Hideyoshi recebe o título de Kampaku, tornando-se o regente do imperador. Em 1586 juntou forças para uma importante armada para fora do arquipélago em direção à Coréia e à China". (LEÃO, 2010, p. 220-221). 

"A Hideyoshi cabe o mérito de conseguir pôr fim às guerras civis (ou guerras provinciais ou feudais) iniciadas com a revolta de Onin que duraram cerca de 120 anos". (YAMASHIRO, 1978, p. 104).

No entanto os feitos de Nobunaga e Hideyoshi vão além da esfera da guerra e da conquista militar. Nobunaga levou à profundas mudanças na estrutura administrativa, econômica e religiosa do país. Em 1568, ele desintegrou a classe dos comerciantes (za), retirando destes o monopólio sobre o comércio, ele também eliminou os sekisho (tipo de posto comercial) a fim de facilitar o tráfego de mercadorias. Ele também incentivou um maior desenvolvimento na mineração, levando a cunhagem de moedas, além de construir e reformar estradas e portos, permitindo o comércio com outros países. Nobunaga também foi um homem que admirava as artes, com isso, muitos dos castelos, fortalezas e outras construções que ele ordenou que fossem feitas, esboçavam um verdadeiro luxo tanto nos ornamentos e na arquitetura. Com sua morte, Toyotomi deu continuidade a sua política. Quando Nobunaga morreu em 1582, ele já havia unificado um terço do país.

"O período Azuchi-Momoyama ou Oda-Toyotomi, focalizado neste capítulo, constitui o mais curto da história do Japão. Não passa no conjunto de pouco mais de 30 anos. Entretanto, é um período de grande transformações políticas, sociais e culturais". (YAMASHIRO, 1978, p. 111).



"Voltado mais para o controle das diretrizes políticas do país e para as questões militares interna e externa Toyotomi Hideyoshi deixou a desejar quanto ao controle sobre outros aspectos importantes no âmbito interno do arquipélago. Assim, ele contribuiu para que os jesuítas e os mercadores portugueses ganhassem espaço no país". (LEÃO, 2010, p. 222).

Além de estabilizar os diferentes feudos, ele implantou novas políticas administrativas, econômicas e sociais, como exemplo, a divisão da sociedade japonesa em: samurais, fazendeiros, artesãos e comerciantes. Dessa forma ele conseguiu, evitar que os plebeus tentassem chegar a nobreza, e que os nobres tentassem usurpar o poder. Exemplo disso, foi a questão de que aos samurais fora proibido o direito de possuir terras, quanto aos plebeus, estes tinham o direito de possuir terras, mas, não poderiam carregar armas consigo ou formar milícias. Dessa forma ele procura evitar que os camponeses iniciassem revoltas, e por outro lado, limitava os samurais ao status de servidão, sem o direito de possuir propriedades, o que os levaria a distração e outras preocupações. 


Se por um lado Toyotomi conseguiu obter êxito nas suas campanhas militares e decisões políticas, foi entre essas decisões que ele ampliou sua diferença com a presença dos jesuítas no país. Assim como Nobunaga, Toyotomi negou-se a se converter ao cristianismo, e diferente dele que era um simpatizante, Toyotomi só tolerava os missionários por ordens de Nobunaga, mas após a morte dele, a diferença entre os dois senhores começou a ficar mais nítida para os jesuítas.



"Em 1587 a situação mudaria de rumo. Promulgado por Toyotomi Hideyoshi, em 25 de julho de 1587, o Édito de Hakata declarava a expulsão dos missionários do arquipélago. Porém, antes de sua publicação, o padre Gaspar Coelho teria tentado se aproximar do Kampaku e, através de um último encontro, convencê-lo a se converter ao cristianismo. Assim, o padre tentou estimular Toyotomi Hideyoshi a pensar sobre os malefícios que o demônio poderia trazer para seus domínios sem a presença dos missionários cristãos. Porém, Toyotomi Hideyoshi tinha uma concepção diferente do que era o mal, então, responde ao padre se referindo aos próprios jesuítas como os agentes do mal e desarticuladores da religião natural". (LEÃO, 2010, p. 222). 

Embora decretada tal expulsão, a mesma não foi definitiva, pois os missionários continuaram a voltar ao Japão depois de algum tempo, e ao mesmo tempo, Toyotomi não proibiu a vinda de estrangeiros, especialmente de comerciantes, desde que estes não viessem realizar pregação. O comércio mantinha a economia do sul em movimento e era a porta de entrada para armas de fogos. 

Em 1591 o único filho de Hideyoshi, Toyotomi Tsurumatsu (1588-1591) tendo morrido com menos de quatro anos de idade, pois em risco a sucessão de Hideoyoshi. Então ele sugeriu que seu irmão Toyotomi Hidenaga se tornasse seu sucessor, mas este morreu pouco tempo depois, levando em 1592, Hideyoshi a adotar como sucessor o seu sobrinho Toyotomi Hidetsugu, o qual assumiu o cargo de Kampaku, após Hideyoshi se demitir do cargo e assumir como Taiko ("regente aposentado"). O termo aposentado não fazia jus aos planos de Hideyoshi, pois embora estivesse doente ainda mantinha planos de conquistar a Coreia e a China. Em maio 1592 ordenou a invasão da Coreia, embora obtive êxito em conquistar alguns territórios como Seul, no ano seguinte o imperador chinês enviou exércitos para ajudar os coreanos a expulsar os japoneses, obtendo êxito após assinarem uma trégua. 

Em 1593 nasceu o herdeiro varão de Hideyoshi, Toyotomi Hideyori (1593-1615), com o nascimento do menino veio o problema da sucessão, pois Hideyoshi havia legado seu sobrinho como herdeiro, então em 1595 ele se livrou de seu sobrinho, ordenando que comete-se suicídio junto com a família. Alguns membros se negaram a cometer seppuku, então foram assassinados. Toyotomi Hideyoshi faleceu em 1598 aos 62 anos, tendo deixado o país praticamente unificado.

Tokugawa Ieyasu
Embora Hideyori fosse uma criança, o governo ficou sob o controle de um conselho de cinco regentes, porém esse foi o momento que o dáimio Tokugawa Ieyasu (1543-1616) decidiu agir para alcançar o poder. Ieyasu foi um dos leais generais de Oda Nobunaga, que entre 1584 e 1598 ficou desentendido com Toyotomi por não apoiar sua sucessão ao poder e por ter apoiado um dos filhos de Nobunaga. A partir de 1598 com a morte do Taiko ele começou a juntar forças com outros dáimios que eram contrários a política de Toyotomi e não queriam que seu filho tomasse o poder futuramente, isso acabou gerando uma nova guerra pelo poder, onde o país quase unificado buscava um líder. De 1598 a 1603 Tokugawa e seus aliados combateram os clãs rivais pelo poder. A Batalha de Sekigahara em 15 de setembro de 1600, foi o estopim para a ascensão de Tokugawa ao poder.

Em 1603, Tokugawa Ieyasu foi nomeado xogum tornando o comandante-supremo do país e iniciando o Xogunato Tokugawa que governaria o país por mais de dois séculos. Em 1605 ele renunciou ao cargo de xogum, mas assumiu o de Ogosho ("xogum aposentado"). Assim como Toyotomi, a aposentadoria não era válida, pois oficialmente Ieyasu continuou a controlar o país, tendo finalmente conseguido concretizar o sonho de Nobunaga, Toyotomi e vários outros dáimios, unificar a nação sob um único líder, sob um único clã. 

Além de trazer um período de paz que duraria mais de cem anos, os Tokugawa manteriam o Japão sob punhos cerrados, fato este que o país ficou fechado aos interesses estrangeiros até o século XIX, sendo esse período chamado de Sakoku, onde em 1643 foi decretado a expulsão de todos os estrangeiros do país e a proibição da entrada destes. O missionários e os japoneses cristãos foram perseguidos. O Clã Tokugawa governaria o Japão até o ano de 1866, quando ocorreu a Restauração Meiji, iniciada pelo Imperador Meiji, que pois fim ao governo dos Tokugawa, ao poder dos samurais e ao período feudal.

NOTA: O período Sengoku jidai, também pode ser traduzido como "guerras provinciais" ou "guerras feudais".
NOTA 2: Os samurais seguiam e ainda seguem a doutrina do bushido, por isso de também serem chamados de bushi.

NOTA 3: Nobunaga teria um samurai negro ao seu serviço, chamado Yasuke.
NOTA 4: Na série de jogos de videogame Onimusha, Oda Nobunaga é retratado como sendo um homem cruel e diabólico, a ponto de se transformar em um demônio. E, além disso, o personagem principal da série se chama Akechi Samanosuke, o qual tem o mesmo sobrenome do general traidor.
NOTA 5: Na série de jogos de videogame, Devil Kings (Sengoku Basara nome original em japonês), a história se passa durante o período Sengoku, trazendo Nobunaga e outros personagnes reais e fictícios como protagonistas. No jogo, Nobunaga se proclama "Devil King" (Rei Demônio).
NOTA 6: Na série de jogos Samurai Warriors, Nobunaga é representado como um tirano e um homem cruel. No entanto no jogo Kessen III, ele representado como um herói e um homem virtuoso. A série Nobunaga's Ambition retrata as campanhas militares empreendidas por Nobunaga e outros dáimios para reunificar o Japão.
NOTA 7: No Japão é comum se escrever e falar o sobrenome antes do primeiro-nome, por isso decidi preservar tal tradição.
NOTA 8: Kirishitan-shu, pode significar literalmente "seita cristã" ou "religião cristã".
NOTA 9: O período do Xogunato Tokugawa, também pode ser chamado de Tokugawa Bakufu ou Período Edo, devido a mudança da capital do país da cidade de Kyoto para Edo (atual Tóquio).

NOTA 10: Nobunaga teve 19 filhos, sendo 12 homens e 7 mulheres, o que incluiu vários destes filhos tendo sido gerados com concubinas, além de alguns de origem bastarda. Mesmo tendo vários descendentes masculinos, Toyotomi e Tokugawa conseguiram assumir o controle de seus exércitos e terras. 
NOTA 11: Nobunaga é retratado no jogo Nioh (2017). Apesar de ser chamado de tirano e o mais ambicioso dos dáimios japoneses, Nobunaga não é retratado como um monstro, algo visto em outros jogos. 

Referências Bibliográficas:
YAMASHIRO, José. Japão: passado e presente, São Paulo, HUCITEC, 1978.
LEÃO, Jorge Henrique Cardoso. Jesuítas e Daimyôs: Evangelização e poder político no Japão do século XVI. Mnemosine Revista, vol. 1, n. 1, jan/jun 2010, p. 208-226. 
FRÓIS, Luís. CARTA DO PADRE LVIS FROES DA COMPANHIA DE IESVS, Em a qual relação das grandes guerras, alterações e mudanças que ouue nos Reynos do Iapão, e da cruel perseguição que o Rey vniuersal aleuantou contra os padres da Companhia, e contra a Christandade. Lisboa, impresso por Antonio Alvarez, 1589. 
FRÓIS, Luís. Carta do padre Luis Froes, de Miaco pera o padre Belchior de Figueiredo em Búngo aos doze de julho de 1569. In: Cartas que os padres e irmãos da Companhia de Iesus escreuerão dos Reynos de Iapão & China aos da mesma Companhia da India, & Europa, desdo anno de 1549 atè o de 1580. Evora, por Manoel de Lyra, 1598.

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