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Leandro Vilar

sexta-feira, 2 de abril de 2010

As Reformas Pombalinas

Em 1750, D. José I (1714-1777) assumia o trono de Portugal como seu novo regente. E para o cargo de primeiro-ministro ele escolhera Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782) o então Conde de Oeiras, conhecido mais na história pelo seu título nobiliárquico de Marquês de Pombal. Pombal assumiu a frente do governo do Estado português e de suas colônias, durante 1750-1777, quando o rei D. José I morreu e sua filha D. Maria I (conhecida pela alcunha de a, Louca) assumiu o trono e acabou demitindo Pombal de seu cargo.


Retrato de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. 
Entretanto, nestes seus 27 anos de governo, Pombal realizou uma série de reformas que mudaram profundamente o caráter do Estado português. No entanto suas reformas foram boas para alguns e péssimas para outros. E em determinados momentos, Pombal chegou a agir com punhos de ferro para impor suas novas ordens, isso causou uma série de problemas, a ponto de ser considerado um tirano, mas este conseguiu contorná-las. Tais fatos levaram ele ficar conhecido como um dos grandes déspotas esclarecidos. Sendo assim, nas linhas a seguir irei esboçar algumas das principais medidas tomadas pelo Marquês de Pombal tanto para Portugal quanto para suas colônias, sendo nesse caso tendo como principal referência o Brasil.

Problemas territoriais no Brasil: 

Em 1750 ocorrera em 13 de janeiro, a assinatura do Tratado de Madrid, onde Portugal e Espanha revogavam os antigos limites determinados pelo Tratado de Tordesilhas (1494). Após todos estes anos, Portugal acabou quebrando os antigos limites postos pelo Tratado de Tordesilhas, e depois com a junção das duas Coroas na União Ibérica (1580-1640) não houve uma definição clara das fronteiras. Com este novo tratado, o Brasil perdia a colônia de Sacramento no Uruguai, mas ganhava o que equivale hoje aos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de uma parte do Mato Grosso e da Amazônia, a qual se chamava de Estado do Grão-Pará e Maranhão na época. Entretanto mesmo com essa nova delimitação algumas terras ocupadas pelos portugueses ainda ficaram de fora dos novos limites, levando a alguns conflitos posteriores. O próprio Pombal fora contra tais medidas, mas não pôde fazer muito para mudar tais decisões.

Um admirador do Iluminismo: 

Antes de começar a falar de fato sobre as políticas de Pombal, devo avisar que o marquês fora um grande admirador da Ilustração (termo pelo qual o Iluminismo era conhecido em Portugal e Espanha). Entretanto mesmo sendo um admirador dessa ideias de democracia, liberdade, de um Estado justo, de um Estado laico, Pombal teve que fazer alguns "cortes" nessas ideias. Primeiro ele retirou a intenção de liberdade para todos. As colônias ainda permaneceriam e a escravidão também. Quanto à questão de uma república, isso também fora posto de lado, Portugal ainda continuaria a ser uma monarquia. A respeito da laicização do Estado, de fato isso ele promoveu e acarretou na expulsão dos jesuítas, como será visto mais adiante. Além de ter também brigado com a Igreja.

"A ilustração portuguesa possui uma singularidade: a da precocidade das reformas e da importação das ideias. Características esta decorrente do fechamento de Portugal para com a cultura desenvolvida nos centos irradiadores do movimento ilustrado, bem como o seu atraso econômico". (MENEZES; PAIVA, 2009, p. 164).

Inicialmente as primeiras medidas que Pombal tomaria era restabelecer o controle das finanças do Estado e controlar todo o comércio ultramarino. Por outro lado também havia os problemas de ordem social, que iam desde as classes baixas até a alta nobreza. Além de contar com protestos dos jesuítas e dos cristãos-novos (judeus e muçulmanos convertidos ao cristianismo), os quais eram muito descriminalizados em Portugal e nas suas colônias.

"Pombal sacudiu a sociedade lusa em em todos os níveis, realizando um esforço para superar vários problemas: tirar Portugal da inferioridade em relação às potências europeias, reformando a economia, e fortalecer o poder do Estado, firmando a supremacia da Coroa perante a nobreza e a Igreja - incluindo-se, aqui, os jesuítas". (VILLALTA, 2000, p. 18).

O terremoto de Lisboa: 

Mas antes de começar a explanar sobre suas reformas, devo citar um acontecimento de grande importância tanto para Portugal como para a Europa. O terremoto de Lisboa de 1 de novembro de 1755. No feriado de Todos os Santos muitos se encontravam nas igrejas assistindo a missa, quando ocorreu o terremoto. O tremor fora tão forte que quase destruiu toda a Lisboa, atingindo cidades vizinhas também. Sua repercussão se espalhou rapidamente pela Europa, a qual ficou chocada com tal acontecimento. O terremoto gerou uma pequena tsunami que varreu o litoral da cidade e cercanias. 

Gravura retratando o terremoto de Lisboa em 1755. 
"Mal haviam colocado os pés na cidade, chorando a morte de seu benfeitor, sentiram a terra tremer sobre seus passos. O mar eleva-se agitado contra o porto, espatifando os navios que estão ancorados. Turbilhões de chamas e de cinzas cobrem as ruas e os locais públicos. As casas desmoronaram, os tetos despencam contra os alicerces e os alicerces se desfazem. Trinta mil habitantes de todos as idades e de todos os sexos são esmagados sob ruínas". (VOLTAIRE, 2008, p. 21).

A cidade ficou arrasada, porém grande parte da Corte conseguiu sobreviver, sendo na maioria das vítimas, pessoas das classe baixa. No entanto Pombal tinha agora como principal problema pela frente reconstruir a cidade e por ordem nesse caos, e para isso ele agiu com rigorosidade. Pombal ordenou que todos os homens que não estivessem incapacitados, fossem divididos em grupos para auxiliar as tarefas de limpeza da cidade, e da remoção dos feridos e sobreviventes. Para isso as pessoas foram transportadas para cidades vizinhas, acampamentos foram construídos, os escombros começaram a ser removidos. Uma das exigências dele fora, que antes que qualquer um quisesse reconstruir sua casa, deveria antes cooperar com a limpeza da cidade. A respeito dos problemas de abastecimento de água e comida, para se evitar os roubos e as brigas, ele declarou que qualquer pessoa que fosse pega roubando ou brigando por causa disso seria imediatamente condenado a morte.


Com o término da remoção dos escombros e do sepultamento dos cadáveres. Se iniciou o movimento de reconstrução. Pombal solicitou ao rei D. José I que chamasse os melhores engenheiros e arquitetos da Europa para promover a reconstrução da cidade. Em poucos anos depois Lisboa agora estava de cara nova, estampando um paisagem urbana mais moderna para sua época.

Entretanto mesmo como a promoção da reconstrução da cidade, isso não significava que não houvesse pessoas contra as reformas de pombal e o governo de D. José I. E por causa disso, ocorreram uma série de prisões em todo o país. Pombal ordenou a prisão de várias famílias nobres que fossem contra o governo do rei e ameaçavam o novo governo. Curiosamente, cerca de 20 mil pessoas dentre a nobreza, burguesia e a classe baixa foram presos. 

Alguns historiadores apontam que esse número fora maior, mesmo assim de qualquer forma o acontecimento mais famoso deste fato fora o Julgamento dos Távora. Uma das famílias mais poderosas de Portugal. Em 3 de setembro de 1758 os Távora foram condenados a morte pelo crime de lesa-majestade, dentre as acusações estava a de tentativa de assassinato do rei. Tal fato manchou de sangue o governo de Pombal, e acabou gerando muitos inimigos para este. Mesmo assim o marquês ainda se manteve firme e forte em seu cargo. Na ocasião pelo menos 250 pessoas entre os Távora e supostos cúmplices foram enforcados publicamente neste dia. Pombal pretendia reformar o Estado, nem que fosse preciso usar a força para isso e retirar do caminho aqueles que eram contrários a sua política.

Mas terminando esta parte do contexto histórico, irei dividir as reformas de Pombal em três segmentos: administração, política e sociedade. No entanto, algumas das reformas poderão ter ligação entre estes três segmentos que estipulei.


Alguns aspectos da administração pombalina



Criação de companhias de comércio:


Como já fora citado anteriormente, Pombal tinha como foco reorganizar as finanças do Estado. Pombal criou algumas companhias de comércio em Portugal, Brasil, Angola, etc., no intuito de promover o desenvolvimento econômico de determinados gêneros como: uva, açúcar, algodão, feijão, arroz, tabaco, etc., ele pretendia expandir tais produções, como forma de conseguir formar novos mercados consumidores e também cuidar de problemas de abastecimento. 

No Brasil, ele fundou duas importantes companhias: em 7 de junho de 1755, antes de Lisboa ser arrasada pelo terremoto, o marquês de Pombal decretava oficialmente a fundação da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão. E em 1759 ele criara também a Companhia Geral do Comércio de Pernambuco e Paraíba. Além destas duas principais companhias ele criou outras companhias menores no Brasil e em outras colônias de Portugal.

"Através de companhias de comércio - Companhia Vinícola do Alto Douro, Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão e Companhia de Pernambuco e Paraíba -, tratou de recuperar o controle luso sobre o comércio de exportação na metrópole e na América portuguesa, e de intensificar tal intercâmbio". (LINHARES, 1990, p. 116).

A Companhia de Pernambuco e Paraíba exportava principalmente o açúcar, o qual diferente do que muitos pensam, não havia entrado em total declínio como alguns costumam dizer. Além disso a companhia tinha também como objetivo aumentar a exportação e a importação de escravos e aumentar o consumo de produtos europeus. 

De fato isso chegou a ocorrer, mas seu lucro não chegava perto de sua concorrente. No entanto a Companhia do Grão-Pará e Maranhão saiu disparando na frente de Pernambuco e Paraíba. A produção de algodão se acentuou, a produção de cacau, café, um pouco de açúcar, arroz, além do extrativismo das chamadas "drogas do sertão" (canela, castanha-do-pará, baunilha, guaraná, pimenta, cravo, etc.). Com isso em seus vinte anos de funcionamento a companhia gerou mais lucro do que a Companhia de Pernambuco e Paraíba, devido a versatilidade de produtos comercializados.


A criação do Erário Régio: 

Em 1760 as reservas de ouro no Brasil já não estavam fornecendo o lucro de antes. Pombal suspeitava que estivesse havendo contrabando de ouro (porém além de haver o contrabando de fato, o problema era na realidade a escassez das minas). E como principal medida tomada, ele criou o Erário Régio em 1761

Antes disso não havia uma preocupação por parte do Estado de se controlar a receita e as despesas do Estado, a Corte só se preocupava com quanto ela estava faturando com suas colônias e seus acordos comerciais, porém Pombal mudou tudo isso. O órgão que cuidava da receita era a Casa dos Contos, o qual após um incêndio em sua sede, o marquês ordenou que o prédio fosse demolido e aposentou compulsoriamente a maioria dos funcionários e transferiu outros para outros cargos. No lugar ele instituiu o Erário Régio, o qual não apenas receberia e cobraria os impostos mas passaria a administrar e realizar a contabilidade das finanças, algo que ocorria anteriormente, mas de forma desorganizada e precária. 

Ele também fundou outra instituições administrativas e financeiras, como exemplo a transformação do antigo Conselho da Fazenda para Ministério da Fazenda. Agora com a criação do erário, foram criados cadernos e listas de todas as finanças do Estado, cadernos e listas mais atualizados, específicos e coesos, pois anteriormente havia listas deste tipo, mas não havia uma organização, e tais listas em muitos casos não faziam as contas baterem. Com isso o marquês não somente centralizou ainda mais o poder do Estado, mas criou uma forma de se averiguar os lucros e as despesas do país e das colônias, podendo assim controlar suas finanças. A falta de organização nas finanças, abria espaço para a corrupção e desvio de verbas, como também levava a Coroa a gastar em demasia.

"O objetivo do Tesouro era centralizar a jurisdição de todos os assuntos fiscais no Ministério das Finanças e torná-lo o único responsável pelos diferentes setores da administração fiscal, desde a receita da alfândega até o cultivo dos monopólios reais. A criação do Erário Régio marcou a culminação da reforma, por Pombal, da máquina de receita e coleta do Estado". (MAXWELL, 1996, p. 98).


Tais medidas vieram da influência que o marquês vivenciou enquanto morou algum tempo na Inglaterra e na Áustria  atuando como embaixador português, tendo tido conhecimento sobre a administração dos ingleses, franceses e austríacos. Possivelmente também da administração dos holandeses. 

"Inspirado em teóricos clássicos, especialmente Colbert, Pombal procedeu a uma política econômica amparada no mercantilismo. Um mercantilismo bastante ibérico, tendo em vista que não atendia exclusivamente o âmago da política mercantilista, isto é, a ação do Estado na busca da manutenção de uma balança comercial favorável. "Seu objetivo era utilizar técnicas mercantilistas - caompanhias de comércio, regulamentação, taxação e subsídios - para facilitar a acumulação de capital por comerciantes portugueses, individualmente". (MENEZES; PAIVA, 2009, p. 165).

Outras reformas administrativas: 

Além disso, ele também expediu uma lei proibindo o comércio de suas colônias com outras nações. Sendo assim o comércio das colônias estava restritamente voltado a Portugal. Outra medida fora retirar o direito de comerciantes do Brasil em traficar escravos de África, delegando tal direito apenas a comerciantes e companhias portuguesas. Ou seja, os brasileiros só poderiam negociar escravos em terra, mas não participar de sua compra e de seu transporte. 

Continuando no Brasil, ele ordenou a criação de casas de fundição na região mineradora, a fim de produzir barras de ouro e as marcarem com o selo real, para se evitar o contrabando. Por outro lado ele acentuou em 1765 a cobrança do imposto do quinto ou derrama em Minas Gerais. O governo propriamente não cobrava diretamente o imposto, mas delegava determinadas autoridades os quais realizam essa cobrança. Posteriormente seria proibido se exercer a atividade de aurífice, pois suspeitaria se que os aurífices eram responsáveis pelo desvio de parte do ouro. 

Alguns aspectos políticos

Transferência da capital do Brasil:


Em 1763 o Marquês de Pombal decidiu transferir a capital da colônia para o sul, para mais próximo do pólo comercial da época, que era a região mineradora. Pombal pretendia na verdade fundar uma nova capital na região mineradora, mas devido a alguns eventuais problemas como: distância da costa, conflitos entre emboabas (termo usado pelos paulistas para designar os colonos, portugueses e estrangeiros) e paulistas, etc. Ele preferiu escolher a cidade do Rio de Janeiro como nova capital da colônia.

"Na época de Pombal, o Rio de Janeiro não somente confirmou sua posição de grande porto: desenvolveu-se a produção do açúcar e atividades novas foram introduzidas (anil, cochonilha, arroz); a população aumentou. A condição de capital, sede do maior aparelho burocrático da Colônia, reforçava a importância advinda da nova prosperidade agrícola e da continuação da ligação com Minas Gerais. A escravidão se intensificou, em função sobretudo do comércio com Angola". (LINHARES, 1990, p. 119).

Além de mudar a capital para o Rio de Janeiro, antes deste fato ter ocorrido, em 1759, Pombal abolira o sistema de capitanias hereditárias. Passando estas a serem províncias ou estados. E em alguns casos, poderiam serem estados ligados ao governo de outro estado maior, como fora o caso de Pernambuco, a qual passou a ter controle parcial sobre a Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. 

Confronto com a Igreja e rompimento com essa:

Em Portugal ele tentou implantar as ideias iluministas, das quais o incentivo a educação laica, as ciências e a filosofia. Mas, por outro lado a Igreja comandava fortemente o ensino em Portugal, e o que Pombal fez foi retirar da Igreja esta autoridade, laicizando o Estado. Ou seja, a Igreja não teria mais influência sobre determinadas questões em referência a política do Estado. Isso acabou gerando um desentendimento de Pombal com o Papa Clemente XIII, e por cerca de nove anos Portugal ficou sem falar com Roma. 

Além desta questão de retirar a autoridade da Igreja perante o governo, Pombal também decretou que o órgão da Real Mesa Censória ficasse no lugar do Santo Ofício, ou seja, eles passariam a executar sua função. E de fato durante o governo de Pombal o Brasil recebeu suas últimas visitas inquisitoriais. Em 1774 Portugal passou a não mais executar os autos-de-fé, e no mesmo ano ocorreu à última visita da Inquisição ao Brasil. 


Outro grande acontecimento que marcou as reformas pombalinas fora a expulsão dos jesuítas de Portugal e de suas colônias, em 3 de setembro de 1759, o marquês de Pombal decidiu de uma vez expulsar os jesuítas de Portugal, e posteriormente o mesmo seria feito nas colônias. Os jesuítas possuíam muita influência sobre à administração, economia e governo nas colônias, a ponto de se opuserem contra algumas das reformas do primeiro-ministro. Dentre estes jesuítas estivera o padre Gabriel Malagrida (1689-1761), o qual durante o Julgamento dos Távora criticou a decisão do marquês. Posteriormente o marquês decretou sua prisão e o condenou a inquisição. Como a Real Mesa Censória controlava a Inquisição Portuguesa nesta época, e um dos irmão do marquês era o presidente deste órgão, não houve problemas em se acusar e prender Malagrida, embora ele fosse inocente. 

O marquês de Pombal, por Louis-Michel van Loo. 

O marquês não era um homem que gostava de ouvir críticas, em 1762 após a expulsão dos jesuítas e do Julgamento dos Távora, seu nome já estava manchado entre a sociedade lusa, fato esse no qual lhe fazia recair fortes críticas da imprensa sobre suas decisões. Como medida tomada, o marquês decretou em julho de 1762 o fechamento do principal jornal de Portugal, Lisboa o qual ficou inativo até o fim do governo do seu governo, ocorrido em 1777.

Abolição da escravidão indígena: 

Em 1757, Pombal havia decretado o fim da escravidão indígena. Porém isso não partira de um sentido de piedade ou compaixão, pelo contrário havia muitos interesses por trás disso. Primeiro, Pombal tentou acentuar o aumento do tráfico negreiro, o tráfico indígena era um empecilho para isso. Segundo, os jesuítas sempre reclamaram da escravidão indígena, no entanto os índios eram os principais trabalhadores em suas terras, com a proibição da escravidão indígena, eles teriam ou que serem pagos ou libertos. Isso também afetou senhores de engenho e comerciantes da região amazônica que dependiam muito da mão-de-obra indígena. De tal forma eles só poderiam recorrem aos escravos africanos. Por outro lado, tal medida evitava confrontos entre bandeirantes e jesuítas. No entanto devo deixar claro que mesmo com a proibição, isso não significa que não houvesse mais tráfico ou escravidão indígena. Tais fatos ainda continuaram a ocorrer de forma ilegal. 

Expulsão dos jesuítas:
"A modernização do Estado requeria outros parceiros em sua marcha para o progresso. Como os jesuítas eram o maior, a mais influente e a mais notável das ordens religiosas nos domínios portugueses, deviam ser os primeiros a ser postos abaixo". (BETHELL, 1999 , p. 545).

Entretanto, a principal questão que o marquês alegava a respeito de ter expulsado os jesuítas era o fato de que esses se constituíam em uma poderosa e influente organização dentro da administração portuguesa e de sua política. E em grande parte eles eram contras as reformas pombalinas. Então para se dar um fim esse entrave, ele os expulsou e confiscou todos os seus bens. Um duro golpe bem dado. Como se costuma dizer "matar dois coelhos com uma cajadada só". Pombal não somente se livrou daqueles que atrapalhavam seus planos, como saiu lucrando com o confisco de suas terras e demais bens.


No entanto, antes deste fatídico acontecimento vim ocorrer, outro fato também serviu para refutar os planos de Pombal a respeito dos jesuítas, fora que entre 1754-1756 ocorrera a Guerra Guaranitica, na qual fora travada por portugueses, espanhóis e os demais povos indígenas, contra a região dos Sete Povos das Missões (região ao sul da colônia dominada pelos jesuítas). Tal conflito se deve por causa do Tratado de Madrid (1750). 

Isso deixou bem claro a autoridade que os jesuítas tinham em certas partes da colônia. Já que tal conflito partiu principalmente de seus interesses. Se a expulsão dos jesuítas por um lado contribuiu para as reformas almejadas pelo marquês, por outro ele teve que reformular o sistema educacional de Portugal, o qual era profundamente dependente dos jesuítas. Desde o século XVI os jesuítas eram responsáveis principalmente pelo ensino em Portugal e suas colônias, eram eles que formavam os seminaristas e que educavam parte do povo (apenas a classe alta e parte da classe média tinha direito a educação, o restante do povo era excluído desse direito). Já que a maioria dos professores eram jesuítas, e como estes foram expulsos, Pombal teve que tomar uma decisão urgente para não por em risco o sistema educacional da Coroa e de suas colônias. 

Reformas educacionais: 

Pombal criou o sistema das aulas régias, as quais substituíram o antigo modelo de ensino, e sendo este novo modelo baseado em preceitos ilustrados e voltado para o ensino das ciências naturais, filosofia além das antigas disciplinas. A educação para formação de clérigos ainda permaneceu.

"Os métodos e o conteúdo da educação jesuítica forma radicalmente reformulados. A ênfase desloucou-se para as ciências físicas e matemáticas. A nova Faculdade de Filosofia concentrou-se nas ciências naturais - a física  a química, a zoologia, a botânica, a mineralogia". (CARVALHO, 1996, p. 57).Com tais reformas, ele pretendia criar uma sociedade letrada e mais intelectual, voltada para as filosofias e ciências, uma concepção profundamente exposta pelos filósofos iluministas do século XVIII. Dentre estas reformas, esteve a reorganização da Universidade de Coimbra, a qual passou a ser a melhor universidade do país. E de fato, o próprio marquês havia se formado nesta universidade. 

"A reforma educacional tornou-se uma alta prioridade na década de 1760. A expulsão dos jesuítas deixara Portugal despojado de professores tanto no nível secundário como no universitário. Os jesuítas haviam dirigido em Portugal 34 faculdades e 17 residências. No Brasil possuíam 25 residências, 36 missões e 17 faculdades e seminários. As reformas educacionais de Pombal visavam a três objetivos: trazer a educação para o controle do Estado, secularizar a educação e padronizar o currículo". (MAXWELL, 1996, p. 104).

"A reforma visava manter mas também modernizar as faculdades de teologia e de lei canônica, incorporar o estudo de fontes portuguesas no currículo da faculdade de direito, atualizar totalmente a faculdade de medicina, fazendo voltar o estudo de anatomia por intermédio da dissecação de cadáveres (antes proibidos em Portugal por motivos religiosos); o estudo de higiene". (MAXWELL, 1990, p. 110).

Gravura do Colégio dos Nobres de Lisboa, 1761. 
"O objetivo era proporcionar aos filhos da nobreza as habilidades profissionais necessárias para o governo ou para o serviço militar". (MAXWELL, 1990, p. 114).

Uma das propostas do marquês era tornar ainda mais letrada e intelectual a nobreza e a burguesia, de forma a incentivar o desenvolvimento cultural, artístico e científico. O marquês visava formar mais professores, engenheiros, contadores, filósofos, pesquisadores, matemáticos, médicos, etc. Havia carência disso no país, e pelo fato da expulsão dos jesuítas, houve uma carência de professores, algo que nas colônias fora mais duramente sentido. 


Ou seja, ele pretendia que os nobres procurassem se interessar mais pelas atividades mercantis, do que ficarem presos as suas terras e usufruindo de seus títulos e honrarias. O incentivo ao comércio era uma iniciativa de ampliar o sistema mercantil português. Por outro lado, ele também visava à criação de uma nobreza e burguesia culta, por isso de se incentivar os filhos dos nobres a estudarem filosofia, medicina, direito, engenharia, ciências, etc. Com isso ele procurou criar profissionais capacitados para poderem assumir os cargos públicos, e terem um pouco mais de competência em seus serviços. Em outras palavras ele basicamente tentou mudar a forma de como a nobreza agia no país. Pombal pretendia retomar a antiga concepção do cavaleiro-burguês ou nobre-mercador.

Após os nove anos de briga com a Igreja, o Papa Clemente XIV, tentou recuperar os laços de amizade e aos poucos foram conseguindo. Por mais que o marquês tentasse laicizar o Estado plenamente, era uma tarefa muito difícil para a época. Ainda no âmbito da educação, após o terremoto de 1755, o rei D. José I e o Marquês de Pombal promoveram a organização do acervo da Biblioteca Real e da Real Livraria, os quais em 1807 foram embarcados para o Brasil na vinda da Família Real. E posteriormente deram surgimento ao acervo da Biblioteca Imperial do Brasil, hoje a Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro.

Ainda no caso do Brasil, as primeiras universidades só surgiriam no século XX, e as primeiras faculdades de direito e medicina se constituiriam após a chegada e o estabelecimento da Corte portuguesa no século XIX. Ao longo do período colonial, a educação no Brasil ficou restrita aos colégios religiosos e seminários, até mesmo as faculdades eram voltadas para o ensino de teologia. Além disso, na colônia brasileira até o estabelecimento da Corte em 1808, fora proibido a abertura de jornais e editoras, e qualquer publicação de material impresso que não viesse da Corte. Sendo assim muitas das reformas feitas pelo marquês visavam Portugal, e não suas colônias. Pois não fora apenas o Brasil que recebera tais restrições, as colônias em África e Ásia também vivenciaram tais restrições ligadas a imprensa e ao ensino.

A reclusão de partes do Brasil:

Enquanto Pombal havia produzido profundas mudanças para as regiões Sudeste, Nordeste e Norte do Brasil, o Sul e o atual Centro-oeste foram que quase praticamente esquecidos. Primeiro fora a Guerra Guaranítica, depois fora a tomada da Colônia de Sacramento em 1762 devido a Guerra dos Sete Anos (1753-1763), onde os espanhóis tomaram novamente a Colônia. Mas além disso, eles também ocuparam uma parte do Rio Grande de São Pedro (atual Rio Grande do Sul), Santa Catarina e parte do Mato Grosso. Principalmente por causa destes motivos, além de questões administrativas e econômicas, os sulistas não foram muito a favor da política de Pombal que praticamente os renegara.

Fim do governo:Já nos últimos anos de seu governo alguns problemas ainda perduravam, como a questão das invasões dos espanhóis nas fronteiras do Brasil com o Uruguai, o Maranhão e o Piauí se separaram do Grão-Pará. Em 4 de Julho de 1776 ocorreu na América do Norte a criação dos Estados Unidos da América, o qual por um lado fora um acontecimento bem admirado pelo marquês por se basear em propostas da ilustração, mas por outro lado isso poderia servir de inspiração para que o Brasil fizesse o mesmo, com isso fora se proibido tanto em Portugal e no Brasil, a divulgação sobre a independência dos Estados Unidos. No ano seguinte, em 24 de fevereiro de 1777, o rei D. José I veio a falecer, e com ele chegava ao fim do governo do Marquês de Pombal. Assumindo o trono estava D. Maria I, a qual não era a favor da política pombalina, e tratou de imediatamente destituí-lo do cargo.

D. Maria I decretou o fechamento das companhias de comércio, de fábricas de ferro-gusa, de outras empresas de manufatura nas colônias. Demitiu todos os indicados a cargos públicos da gestão anterior. Promoveu a industrialização de Portugal e o ensino das ciências, entretanto, após a Revolução Francesa (1789), as ideias iluministas foram proibidas. De qualquer forma muito do que Pombal havia feito ainda continuou a permanecer, mesmo assim, isso não lhe agradou totalmente.

"As políticas pombalinas não foram de todo desfeitas com a Viradeira, designação dada ao governo de D. Maria I por reverter o direcionamento político e econômico do Marquês". (MENEZES; PAIVA, 2009, p. 166).



Monumento ao marquês de Pombal, Lisboa. 
Após saber que algumas de suas reformas foram abolidas pela rainha, Pombal se desgostou da política e abandonou-a de vez. Passando o resto de sua vida na aposentadoria, vindo a morrer em 8 de maio de 1782. O marquês de Pombal por, mas que tenha sido uma figura controversa, ainda hoje é considerado um dos grandes primeiros-ministros da história européia. Comparado a figuras do Cardeal de Richelieu, primeiro-ministro de Luís XIII; Colbert, primeiro-ministro de Luis XIVConde-duque de Olivares, primeiro-ministro dos reis Filipe II, III e IV de Espanha e Otto von Bismarck, chanceler do Império Alemão.

NOTA: Pombal ficou conhecido por ter empregado alguns dos seus familiares e amigos em altos cargos públicos, como exemplo o cargo de governador do Estado de Grão-Pará e Maranhão ocupado de 1751-1759 pelo seu irmão Mendonça Furtado.
NOTA 2:
Pombal fora membro da Ordem de Cristo e da Maçonaria.
NOTA 3: Por mas que aqui eu tentei esboçar as suas reformas, ainda existem outros fatos que remetem a história de Portugal e das demais colônias.
NOTA 4: Voltaire, além de citar o terremoto de Lisboa em sua obra-prima Cândido ou o Otimismo, ele também escreveu um livro de poemas a respeito deste acontecimento, intitulado Poema sobre o desastre de Lisboa.
NOTA 5: O filósofo alemão Immanuel Kant, também escreveu alguns artigos relacionados ao terremoto de Lisboa.
NOTA 6: No estado da Paraíba, Brasil, existe hoje um município chamado de Pombal, nome que herdara após se tornar vila em 1766, em homenagem ao marquês.
NOTA 7: Pombal também reorganizou o exército e a marinha.
NOTA 8: Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes) nasceu em 12 de novembro de 1746 na Fazenda do Pombal.
NOTA 9: Antes da criação da Companhia de Comércio de Pernambuco e Paraíba, Pombal havia decretado a anexação da Capitania da Paraíba a Capitania de Pernambuco, devido aos problemas financeiros que a Paraíba passava no século XVIII. A anexação perdurou de 1755 à 1799.
NOTA 10:
Lisboa fora o nome pelo qual a partir de 1760 ficou conhecido o jornal Gazeta de Lisboa. O jornal ainda se encontra em funcionamento sob o nome de Diário da República.
NOTA 11: Pombal não fora o primeiro ou o último a decretar o fim da escravidão indígena. Antes e mesmo depois dele outros proporam leis para abolir a escravidão indígena, mas devido as brechas nas leis e a falta de cumprimento destas, isso não deu certo.

NOTA 12: A respeito da sociedade, Pombal pôs fim ao preconceito contra os cristãos-velhos e cristão novos (isso não significa que não houvesse mais preconceito), instituindo uma lei em 25 de maio de 1773

Referências Bibliográficas:
LINHARES,
Maria Yedda (org). História geral do Brasil, Rio de Janeiro, Campus, 1990.
MAXWELL, Kenneth. Marquês de Pombal: paradoxo do iluminismo, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1996.
VILLALTA, Luiz. 1789-1808: O Império luso-brasileiro e os Brasis, São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
BETHELL, Leslie (org). História da América Latina: A América Latina Colonial, volume II, São Paulo, EDUSP, 1999.
CARVALHO, José Murilo de. A construção da Ordem: a elite politica imperial; Teatro de Sombras: a politica imperial, Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2.ed. 1996.
VOLTAIRE. Cândido ou o Otimismo, Porto Alegre, L&PM, 2008.
OLIVEIRA, Carla M. S; MENEZES, Mozart M; GONÇALVES, Regina. C (organizadores). Ensaios sobre a América Portuguesa. João Pessoa, Editora da UFPB, 2009. (capítulo 10: Ilustração, população e circuitos mercantis: a Capitania da Paraíba na virada do século XVIII. p. 164-166).

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domingo, 28 de março de 2010

A Era de Alexandre

Alexandre III da Macedônia, conhecido na história pelas alcunhas de o, Grande ou Magno. Filho de Filipe II da Macedônia e de Olímpia de Épiro. Jovem rei, imperador, faraó, Alexandre sonhou em conquistar o mundo, em desbravar às terras desconhecidas pelos gregos no Oriente, em se levar a cultura, a arte e a filosofia dos gregos aos povos tidos como bárbaros. Alexandre fora um homem orgulhoso, egocêntrico, prepotente, narcisista, eximio comandante militar, carismático, rude, conquistador, desbravador, libertador, construtor, destruidor e cruel. No entanto mesmo tendo uma vida breve e de grandes feitos, o legado de Alexandre ainda perduraria por séculos, e talvez o próprio nem imaginasse que seus feitos, mudariam a face do mundo em sua época.

Alexandre nasceu em 20 de julho de 356 a.C na cidade de Pella, antiga capital da Macedônia. Alguns relatos diziam que ele era filho de Zeus e outros que fosse filho de Dionísio, já que sua mãe era uma grande devota do deus. Entretanto a vida de Alexandre, em relação com seus pais fora um tanto complicada, seu pai, Filipe II possuía outras duas esposas, e posteriormente se casaria uma quarta vez. A sua mãe, era descrita como sendo uma mulher muito ciumenta e sagaz, de fato, alguns historiadores levantam a hipótese que fora Olímpia quem ordenara a morte de Filipe para que Alexandre assumisse o trono. Mesmo sendo herdeiro real, o fato de sua mãe não ser uma macedônia, mas sim ser grega, já punha um problema de legitimidade na sucessão real, algo defendido pela família de Filipe. Porém deixando de lado estas intrigas familiares de sucessão por enquanto, vou seguir mais a frente.

Filipe II da Macedônia (386-336 a.C), fora considerado por uns como um líder nato. Filipe, soube reunir as tribos de pastores da Macedônia, criando cidades, e promovendo a militarização do reino. Empregando grandes recursos na fabricação de armas e tecnologias militares, além de promover o treinamento do exércitos, formando exércitos profissionais, os quais foram de suma importância para expansão do reino da Macedônia. Curiosamente, por mais que os macedônios e gregos lutassem entre si, os macedônios eram grandes admiradores da cultura, das artes, da religião e da filosofia grega. Alguns dos grandes homens da época, como generais, arquitetos, matemáticos, poetas e filósofos como Aristóteles, viajaram para a Macedônia e se tornaram tutores dos filhos dos nobres.

Alexandre e seu tutor, o filósofo Aristóteles

Aristóteles fora tutor de Alexandre de 346 até 336 a.C. Dizem que muito do bom caráter, de Alexandre, de sua tolerância, de sua apreciação pelo conhecimento, de desbravar o mundo, fora herdado dos ensinamentos de seu mestre. Entretanto não fora somente, a filosofia que agradara o jovem príncipe. Desde seus dezesseis anos, Alexandre teve que em algumas ocasiões acompanhar seu pai em sua viagens de diplomacia pelas cidades gregas, ou até mesmo ir para a guerra, daí ele despertou seu interesse e gosto pela guerra, e até mesmo endureceu seu caráter, se tornado mais rude e até mesmo cruel em alguns casos.

"A filosofia aristótelica era um instrumento intelectual tão poderoso e marcante que sobreviveu à dissolução da sociedade helênica e se impôs ao mundo islâmico e à cristandade ocidental. O Ocidente não se emancipou da influência aristotélica senão no século XVII da Era Cristã, cerca de dois manos após a época de Aristóteles". (TOYNBEE, 1960, p. 116).

Por longos anos os macedônios combateram as cidades gregas e outros povos dos arredores, para não perder suas terras. Então apôs as reformas governamentais realizadas por Filipe II, era chegada à hora do contra-ataque. Como já fora dito anteriormente, Filipe soube se valer da diplomacia para se conquistar aliados, por outro lado, guerras tiveram que ser realizadas para a conquista das cidades-estados gregas. No entanto, os macedônios contavam com um fato em si.

"Segundo se conta, o historiador contemporâneo Teopompo, nascido em Quios, qualificou de o maior homem surgido até então na Europa, e talvez, ele fosse, como estadista". (TOYNBEE, 1960, p. 105).

"Demóstenes também assinalou o uso magistral que Filipe fez do outro do Pangeu, com o qual comprou alguns dos mais destacados politicos das principais cidades-Estados helênicas, tendo cunhado tantas moedas com ele que, três ou quatro séculos mais tarde, réplicas desas moedas, com caricaturas de sua imagem e inscrições, eram feitas na distante e barbára Bretanha". (TOYNBEE, 1960, p. 105).

Desde o fim das Guerras Médicas no século V a.C, os gregos ficaram fragilizados com os gastos e as perdas contra os persas. Após o fim da guerra, Esparta e Atenas, voltaram a lutar entre si, para recuperar a hegemonia sobre a Grécia, e logo este enfadonho conflito levou a uma série de problemas entre a cidades aliadas de Esparta e Atenas, e tais problemas perduraram ao longo do século IV a.C. Em meio a esse cenário caótico e tumultuoso, Filipe decidiu empregar suas campanhas de conquistas, e por longos anos este, combateu os gregos. Atenas, Esparta e Tebas, foram as principais cidades a se oporem a politica pacifista de Filipe. Para eles, ele estava tentando usurpar o controle de suas terras, com isso a Macedônia declarou guerra á Atenas, e de 341 a 338 a.C, Filipe II, combateu Atenas e seus aliados, terminando a guerra com a vitória macedônica na Batalha de Queronéia. Inclusive o próprio Alexandre com 18 anos na época participou das lutas.

Com a queda de Atenas e de seus aliados, a Grécia passava a pertencer aos macedônios. O próximo passo seria o
Oriente, o poderoso Império Persa, de Dario III. Entretanto, Filipe, não viveria muito para ver o progresso de suas campanhas contra os persas. Em 336 a.C de volta a capital da Macedônia, em meio a uma festividade em homenagem ao rei Filipe II, um dos guardas, chamado Pausânias, o apunhalou e o matou. Pausânias conseguiu fugir na hora, mas fora morto logo em seguida. Até hoje não se sabe ao certo os motivos que o levaram a assassinar o rei. Alguns apontam, vingança, outros apontam que Pausânias fora pago por uns dos vários inimigos de Filipe para assassiná-lo, e alguns levantam a hipótese de que a própria Olímpia, mãe de Alexandre tenha ordenado a morte do marido. Outros também sugerem a ideia de que o próprio Alexandre estivesse ligado com o caso.

De qualquer forma com a morte do rei, Alexandre era até então o filho mais velho, entretanto, seu pai havia casado no ano anterior com sua quarta esposa a qual tivera um filho seu. E muitos julgavam o bebê como herdeiro legitimo, já que este era filho de pai e mãe macedônios, já que Olímpia era grega. Entretanto, isso não impediu que Alexandre tomasse o trono, já que por direito este era o único sucessor capacitado do velho rei a assumir o trono. Posteriormente, após os funerais a Filipe, Alexandre teria feito um banquete convidando todos os familiares da Corte, incluindo as esposas e filhos de seu pai. Nesse banquete, ele teria ordenado a morte de todos que estavam ali, garantindo assim, sua segurança no trono.

Agora assumindo definitivamente como novo rei, ele decidiu dá cabo o sonho de seu pai de conquistar a Ásia, e prosseguir com as campanhas contra os persas, entretanto, antes de poder fazer isso, uma revolta entre as cidades gregas insurgiu. Com a noticia da morte do rei Filipe II, várias cidades gregas que se negavam prestar obediência aos macedônios se rebelaram. Alexandre pôs fim a tais revoltas. De acordo com alguns historiadores, Tebas, fora incendiada, e praticamete fora quase totalmente destruída. Dizem que a única casa da cidade que não fora pilhada, invadida, queimada ou destruída, fora a casa na qual Aristóteles morou por um tempo, fora isso, o resto fora arrasado. Além da cidade ter sido saqueada e destruída, a população fora vendida como escravos e outra parte fora massacrada.

Pondo fim a rebelião dos gregos, Alexandre, reuniu seu exército e começou a marchar em direção a Ásia Menor (atual Turquia). Ele fora abrindo caminho pela Trácia, Tessália, a região oriental dos Balcãs, conquistando tudo por onde passava, até finalmente chegar ao Estreito de Helesponto (atualmente chamado de Dardanelos). Ali naquela faixa de mar que separava a Europa da Ásia, o exército de Alexandre cruzou suas águas em direção ao solo asiático. Dizem que no caminho o rei teria sacrificado um touro a Poseidon pedindo uma boa travessia e sorte no que estava por vir, e antes de chegar em terra firme, ele teria jogado uma lança na praia e teria dito que a Ásia seria sua.


Em maio de 334 a.C recém chegado as terras da Ásia Menor, Alexandre tem sua primeira grande vitória contra os persas, na Batalha de Granico. Após derrotar os sátrapas persas (nome dado aos governadores das províncias do império persa), a Ásia Menor caiu nas mãos de Alexandre. Com sua vitória este deu continuidade a sua investida, tendo como principal objetivo, conquistar todos os territórios persas que davam acesso ao Mediterrâneo. No ano seguinte ainda avançando pela Ásia Menor, Alexandre volta a confrontar os persas, e dessa vez o rei Dario III comparece ao campo de batalha. Na Batalha de Isso, as tropas de Alexandre, formadas principalmente pela falange macedônica (ver figura) e com o apoio da cavalaria rechaçou o exército persa. Dario e parte de suas tropas, abandonaram o campo de batalha."Recusando-se a qualquer negociação, prosseguiu em seu plano de envolvimento do Mediterrâneo oriental. Submeteu o litoral sirio (tomada de Tiro e de Gaza em 332 a.C) e penetrou no Egito, que, submetido ao jugo dos persas, recebeu-o como libertador". (LAROUSSE, 1998, p. 182).

Antes de chegar ao Egito em 332 a.C, Alexandre demorou-se cerca de oito meses, para tomar a cidade de Tiro, localizada em uma ilha a oitocentos metros da costa. A cidade era bem fortificada, e tomá-la a partir de navios seria um grande desafio, mas o gênio teimoso e impetuoso de Alexandre não desistiu. O próprio, ordenou que uma ponte fosse construída até a ilha, e cerca de oito meses depois, a ilha fora tomada, e quase toda a população residente fora massacrada. Alguns historiadores apontam que Alexandre ordenou o massacre de oito mil pessoas, entre homens, mulheres, crianças e idosos.

Ao chegar no Egito, ele expulsou o sátrapa persa regente, e fora visto como libertador. Alexandre não somente fora visto como libertador, mas recebeu também o titulo de faraó. Em sua breve estadia no Egito, Alexandre ouviu falar do Oráculo de Amón, o qual ficava no deserto da Libia. Intrigado com o oráculo, decidiu consultá-lo. Após uma arriscada viagem de quase mil quilometros pelas areias do deserto líbio, Alexandre e sua expedição chegaram ao oásis onde ficava o famoso oráculo. Chegando lá, ele fizera três perguntas: "Os assassinos de meu pai foram punidos?", o oráculo respondeu que sim; "Sou filho legitimo de Filipe ou de Zeus?", o oráculo, respondeu que ele era um deus; "Irei conquistar a Ásia?"; o oráculo respondeu que ele conquistaria o mundo. 
Com essa nova motivação ele retornou ao Egito, e antes de partir deste, em 331 a.C, funda a cidade de Alexandria, a única das "Alexandrias" a permanecer até hoje, e ter maior destaque na história.

"Demóstenes escarneceu abertamente quando Alexandre, em 324, ordenou que os gregos o reconhecessem como filho de Zeus". (FINLEY, 1988, p. 150).

Enquanto este seguia para a Babilônia onde Dario III se encontrava, no caminho ele se hospedou na cidade de Persepólis uma das capitais do Império Persa. Foi neste lugar, que um dos mais polêmicos incidentes envolvendo Alexandre ocorreu. Não se sabe ao certo como tudo começou, mas muitos defendem que em meio a uma festa, Alexandre já muito embriagado, havia discutido com alguém, e acabou pondo fogo no palácio, e outra versão sugerem que ele fora desafiado por um dos seus generais a incendiar o palácio. O incêndio destruiu parte do palácio, e atingiu algumas construções nos arredores. Essa não fora nem a primeira e última vez que Alexandre cometia excessos enquanto estava bebâdo. Em outras ocasiões, ele chegou a matar um dos seus generais que também era um dos seus mais antigos amigos, apôs uma discussão.

"Esse idealista precoce, porém, era capaz de matar amigos e companheiros, em ataque de fúria alcoólica, tal como o herói homérico que o lado adolescente de sua natureza aspirava ser". (TOYNBEE, 1960, p. 110).

Enquanto este avançava em direção a Mesopotâmia, Dario com medo decidiu fazer uma nova proposta para ele. Ele enviou uma carta, negociando metade das terras do império, e a mão de uma de suas filhas em casamento. Entretanto Alexandre se negou a aceitar tal proposta, e teria respondido da seguinte forma:


"O céu não te
m dois sóis, e a Ásia não terá dois reis."

Com isso ele atravessou o rio Tigre, ao norte da Mesopotâmia. Dario III (ver foto) marchou com seus exércitos para lá, onde ocorreria a Batalha de Gaugamela. Dispondo de cerca de 250 mil guerreiros, contra apenas 40 ou 50 mil guerreiros de Alexandre, a decisiva batalha fora travada. Alexandre com sua eximia habilidade na estratégia militar, excedeu as expectativas de Dario e o surpreendeu com um ataque que o deixou bem próximo da morte, com isso Dario abandonou novamente o campo de batalha. E com a vitória macedônica estava deflagrada o fim da Dinastia Aquemênida e a conquista do império.

No ano seguinte em 330 a.C, Dario III fora traído e assassinado por seus próprios generais. Com isso Alexandre era o único governante de todo o império persa aos 26 anos. Com sua vitória em Gaugamela, ela marchou em direção a Babilônia onde lhe fora dado boas-vindas dignas de um rei. Alexandre pretendia transformar a Babilônia na principal capital de seu império, e difundir suas maravilhas pelo mundo.

Nos anos seguintes ele continuou com suas campanhas de conquista para o Oriente, expandido as antigas fronteiras do império persa. Em 327 a.C enquanto conquistava a região de Bactéria (compreende a região norte do atual Afeganistão e parte do Paquistão), conheceu a jovem Roxana, filha de um chefe local, com que se casou. Para alguns de seus generais fora algo terrivel, já que estes ainda matinham o pré-conceito de que se ela não fosse grega ou macedônica era uma bárbara. Era indigno para Alexandre se casar com uma bárbara. Mesmo assim o casamento ocorreu, principalmente por motivos politicos, garantido alianças entre aqueles povos. Mas por outro lado há quem diga que ele realmente se apaixonou por ela. Roxana das quatro esposas que Alexandre teve, fora a única quem lhe deu um filho, Alexandre IV da Macedônia.

Os anos se passavam e as campanhas não terminavam, muitos dos homens de Alexandre já estavam aborrecidos com isso, diziam que o que se havia conquistado era o bastante. As tropas já estavam cansadas de lutar, porém o gênio incessante de Alexandre não perdia folêgo, este tinha como meta conquistar a Índia, e chegar até o Oceano Oriental (Oceano Pacifico). O único general que lhe dava mais apoio, era Heféstion, seu amigo de infância e amante.

De 327 até 324 a.C Alexandre empreendeu batalhas pela Índia, afim de conquista-la. Porém cada vez mais que suas tropas avançavam por aquelas florestas, maior ficava a desmotivação de seus homens, os quais ouviam histórias de monstros, exércitos de elefantes, etc. As quais punham medo neles.

Porém a situação pioraria. Em meio as batalhas na Índia, Heféstion acabou adoecendo e veio a falecer em 324 a.C, o próprio Alexandre também se feriu gravemente, e decidiu voltar para a Babilônia, para se recuperar. Seu sonho ainda não estava perdido, mas sua vida estava gravemente abalada. Alexandre decidiu fazer esta pausa, a fim de se recuperar e enviar os veteranos de volta para casa, e enquanto isso, reorganizaria seu exército e retornaria para continuar com as campanhas na Índia, mas isso nunca veio a acontecer.

Finalmente em 10 de junho de 323 a.C na Babilônia, aos 32 anos de idade, Alexandre, o Grande faleceu. Até hoje não se sabe ao certo as causas de sua morte. Alguns especulam que ele fora envenenado, ou morrera de malária, tifo, infecção bacteriana devido aos seus ferimentos, ou talvez teve algum problema no fígado devido as grandes quantidades de álcool que consumia, etc. Mas de qualquer forma o grande problema era: quem seria o seu sucessor?. O seu filho ainda estava por nascer, e Alexandre não possuía mais irmãos e nem sobrinhos e não havia noemado ninguém como seu sucessor. Alguns historiadores da Antiguidade, dizem que as últimas palavras de Alexandre foram: "Ao mais forte."

"Alexandre morreu em 323, senhor da Macedônia, da Grécia, da Ásia ocidental e do Egipto, um deus na terra (tendo sido elevado a filho de Zeus pelos sarcedotes de Zeus-Amón, num famoso santuário no deserto da Libia)". (FINLEY, 1988, p. 145).

Porém tal questão só se tornou pior, e logo seus generais se digladiariam para decidir quem assumiria o trono. O período que se inicia com a morte de Alexandre, é conhecido como Período helenístico ou Helenismo. Mas por outro lado também pode ser chamado de Período dos Diádocos (literalmente significa sucessores), em referência aos generais que sucederam Alexandre. Este período marca o inicio do Helenismo. Deste ponto em diante irei explicar um pouco de como se deu esse processo de "helenização" do oriente. Isso tudo graças ao resquiscios do grande império de Alexandre Magno.



O Império de Alexandre, o Grande em sua máxima extensão em 323 a.C
"Quando morreu, aos 32 anos, havia conquistado um reino que ia do Mar Jônio até o Punjab, e do Caucaso ás fronteiras da Etiópia. Se vivesse, era pouco provável que soubesse o que fazer com ele (exceto conquistar mais)". (LLYOD-JONES (org), 1977, p. 228).

Mas como já fora citado anteriormente, a questão da sucessão gerou uma série de problemas, no que culminou no Período dos Diádocos. Os principais generais de Alexandre fizeram um acordo entre si, e repartiram os dominios do império, em reinos. Porém isso não significa que tudo ficou em paz. No mapa abaixo esta representado os principais reinos que se formaram logo após a morte de Alexandre, tento como soberanos os seus generais. Clique no mapa para ampliá-lo.

O império de Alexandre dividido pelos seus generais, após a sua morte

"Ptolomeu, um dos generais mais próximos de Alexandre, conseguiu rapidamente obter o governo do Egipto. A Macedônia e o continente grego couberam aos sucessores de Antígono - a parte menos satisfatória da herança, por razões geográficas e porque a resistência grega contra o dominio da Macedônia nunca cessou totalmente, de modo especial o Peloponeso, onde chefiada pela Liga Acaia, e em Rodes e noutras ilhas do Egeu. A outra divisão principal foi no oriente, centrando-se na Siria e na Mesopotâmia, onde Seleuco, com a ajuda do Ptolomeu, conseguiu alcançar o trono". (FINLEY, 1988, 146).

"A história politica helenistica é fastidiosa, monótona e por vezes, repulsiva, de guerra continua, má fé e assassinios frequentes". (FINLEY, 1988, p. 146).

Dos generais de Alexandre, somente Ptolomeu e Seleuco é que tiveram um governo mais longo e próspero. Os outros acabaram morrendo cedo, ou foram vitimas de traições e intrigas politicas. No entanto a história helênica não fora somente marcada por mortes e traições, Alexandre quando ainda era vivo, promoveu a difusão da cultura grega pelo Oriente. A lingua, os ideais de arte, arquitetura, a filosofia, a literatura, a poesia, a religião foram todos aos poucos sendo difundidos entre os povos da Ásia. Também houve a difusão do teatro grego, nesse caso em algumas cidades podia se ver o tipico anfiteatro grego, exibindo suas comédias e tragédias.

Um fato bem clássico que posso citar é que o Novo Testamento, fora escrito em grego, mas não por gregos, mas sim por povos que sabiam falar grego e viviam no Oriente Médio e na Ásia Menor. Por outro lado, durante o Império Bizantino, o seu idioma oficial não era o latim, mas sim o grego. No campo da religião, houve uma troca mútua de influências; enquanto os povos conquistados passavam a adotar os deuses gregos, como exemplo a aculturação do deus egipcio Zeus-Amón, outros passavam a substituir o nome de seu deus pelo nome grego. A casos na Judéia, em que tribos, de judeus deixaram de chamar seu deus de Jeová para chamar-lo de Zeus. Por outro lado o oposto também aconteceu. Deuses como Adônis, Cibele e Isis, tiveram seus cultos introduzidos na Grécia, e difundidos pelos povos que sofriam a influência helênica.

"Por toda parte Alexandre e os seus sucessores fundaram novas cidades, consoante o modelo das gregas (ou restabeleceram as antigas). Algumas, como Alexandria, Antioquia e Selêucia do Tigre, tornaram-se grandes metropóles, ultrapassando até em tamanho e prosperidade, a clássica Atenas. (Essas três chegaram a ter e talvez tenham excedido meio milhão de habitantes, apenas igualadas por Roma e Cartago)". (FINLEY, 1988, p. 147).

"Os reinos helenísticos assim estabelecidos diferiram muito dos problema que enfretavan e nas soluções que encontravam. A única generalização digna de ser feita é que todos eles se apoiavam principalmente no elemento grego e macedônio de suas populações, o que equivale a dizer que se mantinham dentro da tradição cultural grega". (LLYOD-JONES (org), 1977, p. 231).

"Foram transplantados os elementos caracteristicos da polis grega: a Ágora e os templos, os ginásios e
, as assembleias, os conselhos e os magistrados". (FINLEY, 1988, p. 147).

No caso do Egito,
Alexandria se tornou um modelo para as cidades da Antiguidade. Durante o governo da Di
nastia Ptolomaica, inicida em 306 a.C, quando Ptolomeu passou a se chamar Ptolomeu I Sóter (ver foto), ele  passou a adotar o titulo de faraó. Por quase trezentos anos o Egito seria governado pelos gregos e macedônios tendo o fim deste governo em 30 a.C quando Cleopátra comete suicidio, e Octaviano sobrinho-neto de Júlio César, anexou o Egito como provincia de Roma. Mas até isso acontecer, Alexandria fora principal cidade do "país" (alguns historiadores apontam que Alexandria possivelmente tenha cido uma cidade-estado, independente do governo do Egito). Por longo anos Alexandria, fora o principal porto comercial do Mediterrâneo Oriental (no ocidente era Cartago). Além de ser uma cidade rica e próspera, devido ao comércio, fora centro cultural do mundo helênico, fato este que demonstra a famosa Blibioteca de Alexandria. Por outro lado as artes e a filosofia também tiveram grande espaço na cidade. O famoso farol se tornou uma das Sete Maravilhas Mundo Antigo. Gênios da matemática, fisica, astronomia e filosofia estudaram e viveram em Alexandria, tais como: Erastótenes, Hiparco, Arquimedes, Ptolemeu, Euclides de Alexandria, etc.

Na filosofia as correntes do Estoicismo, Epicurismo e do Ceticismo se difundiram por entre estes povos. Também houve a difusão do teatro grego. 

O helenismo perduraria até cerca de 147 a.C quando Roma anexou a Grécia e a Macedônia como provincias suas. No entanto seu legado ainda perduraria pelos séculos. Muitos levantam a hipótese que pelo que Alexandre fez em seu breve reinado, causou profundas mudanças na história da Europa e da Ásia Ocidental, eles se questionam sobre o que Alexandre teria feito se tivesse vivido por mais tempo. Alguns sugerem que ele teria conquistado a Índia, a Árabia, talvez tivesse invadido o sul do que hoje é a China. Outro levantam a hipótese que ele teria voltado para a Grécia a fim de conquistar Roma e Cartago, e expandir seu dominios pelo norte da Europa. Várias especul
ações ficam em mente, mas nunca poderemos saber o que realmente teria acontecido e as causas que isso gerariam para a posterioridade se Alexandre tive vivido mais dez, vinte ou trinta anos."Alexandre, com um punhado de homens conquista uma parte do globo. Seria isso uma simples irrupção, uma espécie de dilúvio? Não, tudo pré calculado com profundeza, executado com audácia, dirigido com sabedoria. Alexandre mostrou-se grande político, grande guerreiro e grande legislador. Desgraçamente quando ele atinge o zênite da glória e do sucesso, perde a cabeça e o seu coração se gasta...".
Napoleão Bonaparte

NOTA: Cassandro, um dos generais de Alexandre, ordenou a morte de Olimpia, Roxana e de Alexandre IV em 309 a.C.
NOTA 2: Além de Roxana, Alexandre também tomou com esposa, a princesa Statira II, filha de Dario III. O nome das de mais esposas é desconhecido, suspeita-se que fossem apenas concubinas e não esposas de fato.
NOTA 3: Alexandre fundou cerca de 15 a 20 Alexandrias, alguns sugerem que tal número fosse ainda maior, mas somente a do Egito fora a mais importante e conhecida.
NOTA 4: Com a morte do seu fiel cavalo Bucéfalo nas campanhas na Índia, Alexandre mandou erguer uma cidade em sua memória, a batizando de Bucefália, que corresponde a atual cidade de Jelum no Paquistão ou talvez seria também a cidade de Jalalpur na Índia.
NOTA 5: Dizem que quando Alexandre chegou a Ásia Menor, teria visitado as ruinas de Tróia e prestado oferendas e orações aos antigos heróis gregos.
NOTA 6: A dinastia persa Aquemênida durou de 549 até 330 a.C.
NOTA 7: A história das campanhas militares de Alexandre, são retratadas no jogo Alexandre (baseado no filme Alexander de Oliver Stone) e no jogo Rise of Nations: Thrones and Patriots.
NOTA 8: Alguns dos grandes lideres da História como: Júlio César, Luis XIV e Napoleão, eram admiradores dos feitos de Alexandre, o Grande.
NOTA 9: Alexandre era um grande admirador dos poemas homéricos, A Iliada e a Odisséia. Alexandre as vezes se comparava a Aquiles ou a Herácles, e chegou ao ponto de obrigar a ser adorado como um deus.

Referências Bibliográficas:
Grande Enciclopédia Larousse Cultural. São Paulo, Nova Cultural. 1998.
FINLEY, M. I. Os gregos antigos. Lisboa, Edições 70, 1988.
LLYOD-JONES, Hugh (org). O mundo grego. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
TOYNBEE, Arnold J. Helenismo: História de uma Civilização. Rio de Janeiro, Zahar, 1960.
LEICK, Gwendolyn. Mesopotâmia: A invenção da cidade. Rio de Janeiro, Imago Ed, 2003.
CONTENEAU, Georges. A civilização de Assur e Babilônia. Rio de Janeiro, Ferni, 1979.

LINKS:

Escultura do Helenismo (wikipédia)
Arte helenística (wikipédia)
Farol de Alexandria (wikipédia)
Bibliotheca Alexandrina - página oficial. (em inglês)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Hammurabi

A Babilônia, uma das cidades mais antigas do mundo, palco de vários conflitos e acontecimentos históricos importantes, no decorrer dos séculos. Cercada por sua beleza como fora os famosos Jardins Suspensos da época de Nabuconodosor II, ou a lendária Torre de Babel, a qual alcançava o céu. Por outro lado a Babilônia também fora um terrível "cativeiro" para os judeus capturados durante a conquista de Jerusalém por Nabuconodosor II. A Babilônia lugar visto pela Bíblia como um antro de depravação e promiscuidade; capital de impérios; cidade cosmopolita na época de Alexandre, o Grande. Porém em meio a sua longa história, irei me reter aqui a contar um pouco da história de um homem que levou a unificar outros reinos rivais, e a formar um Império Babilônico, mas além disso, Hammurabi ficaria conhecido por ter sido um grande líder em sua época, e por ter criado um dos códigos de leis mais antigos da história, o código de Hammurabi.

"A Babel da Bíblia é, portanto, sinônimo de decadência, de insensibilidade e prepotência politicas, e de excessos da vida urbana em geral. Os anos de cativeiro eram recordados com acrimônia e não havia entusiasmo por qualquer das maravilhas arquitetônicas da antiga cidade. Pelo contrário, o grande zigurate - o protótipo da Torre de Babel - tornou-se um poderoso símbolo de insensatez e arrogância humanas". (LEICK, 2003, p. 265).

A Mesopotâmia ("entre rios"), tido por alguns como o berço da civilização, lugar localizado na região do Crescente Fértil no Oriente Médio, entre os rios Tigre e Eufrates, hoje compreendendo o atual território do Iraque. Durante séculos, vários povos habitaram diferentes lugares dessa região, dentre os mais antigos estavam, os sumérios que viviam ao Sul; os acadianos e amoritas que viviam na região central e os assírios que viviam ao Norte. Além destes, vários outros povos nômades se estabeleceram nessa região ao longo das eras. No entanto, a cidade de Babel como principalmente ficou conhecida nos textos antigos, só viria ter um papel de destaque muito tempo depois, das primeiras cidades já terem surgido nessa região.

A História da ascensão de Babel começa por volta do século XIX a.C, quando após a queda da Dinastia de Ur III, na Suméria, vários outros pequenos reinos começaram a surgir pela região, e logo estes entraram em guerra. Então uma cidade de nome Babila (posteriormente conhecida como Babel) fora fundada por um grupo de amoritas que ali se estabeleceram. Nessa época as cidades de Larsa, Mari, Eshnunna lutavam ferozmente para assumir o controle da região central. Tal luta ainda se extenderia até o governo de Hammurabi, entretanto estes três inimigos teriam mais um oponente pela frente. No governo de Sumuabum (1894-1881 a.C), iniciou-se a expansão dos domínios de Babila, conquistando outras pequenas cidades, e criando um verdadeiro reino. Tal missão ainda continuou a ser efetuada, por seu filho Sumula'el, por sua vez o seu filho Sabium (o qual teria construído o zigurate de Babel, em homenagem ao deus guardião da cidade, Marduk), e por fim, seu filho Apil-Sin que governou de 1830-1813 a.C sendo sucedido por seu filho Sin-mubalit que governou de 1812-1793 a.C, pai de Hammurabi.

"É interessante observar como esses dois reis já são portadores de nomes acádicos, o que mostra como os novos habitantes assimilaram, rapidamente, a cultura acádica". (BOUZON, 1986, p. 17).

"Apil-Sin parece ter governado sobre uma parte considerável do norte da Babilônia. [...] de maneira que seu poder parece ter se estendido a cidades como Kis, Dilbat, Borsippa e Sippar". (BOUZON, 1986, p. 17).

Enquanto o avô e o pai de Hammurabi expandiam os domínios da Babilônia, coube a Hammurabi quando este assumiu o governo em 1792 a.C, a consolidar seus frágeis domínios. Para isso o novo rei se valeu de sua grande astúcia e capacidade de governar para por ordem em suas terras e abrir caminho para a criação de um império.

"Hammurabi começou modestamente e só conseguiu manter a sua autonomia graças à sua tenacidade e à sua grande habilidade politica. Ele soube aproveitar-se, como ninguém, da politica de pactos e alianças com os grandes reis contemporâneos, como Rimsin (1822-1763 a.C) de Larsa, Samsi-Adad I (1815-1782 a.C) da Assiria e Zimrilim (1782-1759 a.C) de Mari, jogando habilmente com o fator rivalidade existente entre eles" (BOUZOU, 1986, pp. 17-18).

Munido desta tática, Hammurabi aos poucos começou a gerar uma paz com seus rivais, mesmo assim a Assíria ainda era um forte obstáculo para ele. Com a morte do rei Samsi-Adad I, seu filho Ismedagan se mostrou contrário a politica de tolerância de seu pai com os outros reinos, e começou a ameaçar os seus planos. Para isso ele buscou forjar mais alianças, com isso começou a implantar uma série de pactos com o rei de Mari, sucessor de Zimrilim, além de fazer pactos com outras cidades, e outros povos que viviam fora da Mesopotâmia, assim ele não só garantia a sua influência na Mesopotâmia, mas também fora dessa, e por outro lado em caso de guerra, ele contaria com o apoio desses reis para a batalha.

"Não há rei algum que seja por si só suficiente forte. Dez ou quinze reis seguem a Hammurabi , o homem de Babel; outros tantos seguem a Rimsin de Larsa; outros tantos a Ibalpiel de Eshnunna; outros tantos Amutpiel de Qatna; e vinte seguem a Yari-Lim de Yamhad" (Trecho da carta enviada ao rei Zimrilim de Mari) (BOUZOU, 1986, pp. 18-19).

Com isso pode se ver que tanto Babel, Mari e outras cidades estavam ligadas entre si por estes tratados, possibilitando que estes definitivamente pudessem combater seus inimigos. Com isso nos anos seguintes, Hammurabi conseguiu conquistar Larsa e Eshnunna aumentando ainda mais seu poder sobre a Mesopotâmia central. Isso acabou levantado seu ego, e o levou a questionar a respeito de se ainda precisava manter aliança com Mari, já que agora estava bem mais poderoso que antes. Após cinco anos de conflitos, Mari caiu sobre o poder de Babel, e depois disso Hammurabi começou a investir em ataques para o Norte, para o território dos assirios. Nessa época seu Império (ver mapa) já estava constituido quase que completamente.

"Embora o prólogo do "Código" de Hammurabi sejam incluidas entre as cidades subjulgadas, Assur e Ninive, não se sabe, ao certo, quando Hammurabi conquistou realmente do território assíro. No fim dos 43 anos de seu reinado, Hammurabi tinha conseguido reunir, sob seu cetro, quase toda a Mesopotâmia". (BOUZOU, 1986, p.20).

No entanto os feitos de Hammurabi não ficaram somente na área militar e da conquista, como governante e legislador este se mostrou um homem sábio a respeito do assunto. O famoso código de Hammurabi; sua composição ainda é incerta, não se sabe ao total quantas leis existiram, já que muitas das cópias do código se perderam ao longo do tempo, entretanto há muitas questões que rodeiam este código. Esta o fato de que alguns historiadores e arqueólogos discordam a respeito de se realmente este trabalho pode ser chamado de código, já que teoricamente um código de leis abrange todas áreas e classes da sociedade, e neste caso, o código se restringe a alguns aspectos. No entanto outros apontam que a forma de legislação e de justiça daquela época era bem diferente da de hoje. Mas por outro lado o código de Hammurabi procura exaltar a imagem do rei, como pode ser visto na imagem ao lado. Nessa fotografia tirada da estela de diorito negro, na qual contêm o código inscrito, esta representado em seu topo a esquerda o rei Hammurabi, diante do deus-sol Shamash, o qual entrega o cetro de rei a Hammurabi, legitimando seu governo.

"O exemplar mais importante é, hoje, a estela de diorito negro, com 2,25 m de altura, encontrada pela expedição arqueológica francesa de J. de Morgan nas escavações da acrópole da capital elamita, Susa, durante o inverno de 1901-1902 (dezembro-janeiro)". (BOUZOU, 1986, p. 24).

O código ( ver foto) atualmente é dividido em 282 paragráfos, tendo sido 35 ou 40 apagados. Talvez foram os elamitas os responsáveis. Por outro lado do que se dá para entender, neste código escrito em cuneiforme acádico, pode se levantar a questão de que o código é dividido em três partes, o prólogo, a descrição das leis e o epilogo. Sendo neste caso o prólogo e o epilogo sendo promoções do rei, se vangloriando de seus feitos por ter ditado tais leis. Isso leva alguns historiadores a questionar a verdadeira função deste código. Neste caso há alguns que dizem que isso poderia ser uma obra literária e não uma obra jurídica em si, por outro lado, o código, é um dos primeiros a aplicar a Lei do Talião (ius taliones), conhecida pela famosa frase "olho por olho, dente por dente", o qual ratifica a dureza da aplicação das punições postas pelas leis ditadas no código.

"O "Código de Hammurabi não é certamente, um livro de leis válido para todo o país, que todo juíz devia consultar e seguir em suas sentenças. Mas o seu valor moral é inestimável". (BOUZOU, 1986, p. 28).

A respeito da divisão das leis aqui postas, de acordo com Emanuel Bouzon, ele classificou o código da seguinte forma:
  • 1-5: Determinam as penas a ser impostas em alguns delitos praticados durante um processo judicial.
  • 6-126; Regulam o direito patrimonial.
  • 127-195; Regulam o direito da familia, filiação e heranças.
  • 196-214: Determinam penas para lesões de penas corporais.
  • 215-240: Regulam os direitos de obrigações de algumas classes de profissionais.
  • 241-277: Regulam preços e salários.
  • 278-282: Contêm leis adicionais sobre propriedade de escravos.
Há alguns fatos curiosos neste conjunto de leis. Os escravos, chamados de wardum em acádio, poderiam se casar com pessoas de status livre awilum. Nesse caso, a população de escravos eram bem diminuta, basicamente os awilum compunham a sociedade, indo desde o rei, aos sacerdotes, militares, comerciantes, camponeses, etc. Um escravo ou escrava quando se casasse com uma pessoa livre, se tornaria livre, e seus filhos não seriam escravos. Por outro lado, o código também aponta uma grande influência do senhor sobre seu escravo, o qual tinha o direito de castigar o seu escravo quando este o desobedecesse, insultasse, ou cometesse outro grave delito.

A sociedade não era dividida em classes sociais bem definidas, por isso que no código não há referências as classes em si. As terras eram do rei, porém poderiam ser doadas, e se tornarem particulares. O comércio era grande e bem desenvolvido, tendo sido praticado com vários povos do Oriente.

"A economia babilônica era essencialmente agrícola; mas ao lado da agricultura, a criação de animais e a pesca eram também fatores de produção importantes. No período babilônico antigo, a indústria babilônica de perfumes, cremes de beleza, bijuterias e artesanato era, também muito conhecida e apreciada pelos povos vizinhos". (BOUZON, 1986, p. 37).

Os sacerdotes cuidavam das questões religiosas e administrativas do Estado, já que em sua maioria os escribas eram sacerdotes ou ligados ao culto de alguma divindade. Além disso, o casamento era feito mediante a escolha do noivo pelo pai da noiva e pelo pagamento de um dote, geralmente pago em uma quantia em prata, chamada de terhatum. A poligamia não era proibida, porém os filhos da primeira mulher eram os mais beneficiados, por isso as leis a respeito da herança.

"Hammurabi, contudo não foi, apenas um grande conquistador, um estrategista excelente, um rei poderoso. Ele foi, antes de tudo, um eximio administrador. Seus trabalhos de regulagem do curso do Eufrates e a construção e conservação de canais para a irrigação e para a navegação incrementaram enormemente a produção agricola e o comércio". (BOUZOU, 1986, p. 20).

Hammurabi morreu em 1750 a.C, deixando seu filho Samsuiluna como seu sucessor. Samsuiluna governou de 1749-1712 a.C, Após a sua morte, os reis que o sucederam tiveram grandes problemas de manter a unidade do império construido por Hammurabi e seus antecessores. Aos poucos os dominios iam se perdendo e as terras iam diminuindo, junto ia se embora as suas riquezas, e crises abalavam a economia e a sociedade do império. Com grande dificuldade os reis babilônios conseguiram manter a hegemonia do império até 1594 a.C, quando o último rei babilônio da Primeira Dinastia, Samsuditana (1625-1594 a.C), fora morto enquanto a cidade da Babilônia era invadida, saqueada e incendiada pelos exércitos do rei hitita Mursili I. Com a queda da Primeira dinastia, os cassitas assumiram o governo da cidade, fundando uma nova dinastia de soberanos.

NOTA: Pode se encontrar também variações na escrita do nome de Hammurabi, como: Hamurábi, Hamurabi, etc.
NOTA 2: A respeito das datas que indicam os anos dos reinados dos reis acima citados, pode se encontrar variações a respeito dessa cronologia, dependendo do calendário utilizado para se efetuar os cálculos.
NOTA 3: A Primeira Dinastia da Babilônia se iniciou em 1894 a.C, no governo de Sumuabum e perdurou até 1594 a.C com o fim do governo de Samsuditana. Pode haver variações nas datas.
NOTA 4: O Segundo Império Babilônico fora mais curto que seu antecessor, durando de 626-539 a.C.
NOTA 5: Nabucodonosor II governou de 604-562 a.C.
NOTA 6: Shamash é o nome acádio para o deus-sol sumeriano Utu. Já que os acadianos e amoritas adotaram muitas das divindades dos sumérios.
NOTA 7: No jogo Prince of Persia: The Two Thrones, a cidade da Babilônia é representada de forma fantasiosa, incluindo seus jardins e sua monumental torre.
NOTA 8: Na trilogia de Matrix, o nome da nave do Capitão Morpheus é Nabucodonosor II.

Referências Bibliográficas:
BOUZOU, Emanuel. O Código de Hammurabi. Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1986.
LEICK, Gwendolyn. Mesopotâmia: A invenção da cidade. Rio de Janeiro, Imago Ed,
2003.
CONTENAU, Georges. A civilização de Assur e Babilônia. Rio de Janeiro, Ferni, 1979.

LINK:
Tradução do código para o português (código de Hammurabi).

sexta-feira, 12 de março de 2010

O Primeiro Imperador

Na história da China Antiga, por longos séculos o seu povo viveu dividido em vários reinos ou Estados, os quais se digladiavam para conquistarem uns aos outros. Tais confrontos perduraram por muito tempo, até se poder haver uma estabilidade. Essa história se passa antes da fundação do Império Chinês. Foi no século III a.C que um jovem rei, decidiu levar a cabo a mais ousada empreitada já feita entre os reis de seu tempo. Este conquistou os Estados rivais, e fundou um único e grande império, que duraria mais de dois mil anos. Este homem fora Qin Shi Huang.

Qin Shi Huang nasceu por volta de 260 a.C, suas origens são obscuras, sabe-se que seu pai, fora prisioneiro no palácio da Corte do Reino de Zhou (Chou), onde possivelmente conheceu a mãe de Qin Shi Huang. Essa época se passou durante o período dos Reinos Combatentes (século V a.C ao III a.C), uma conturbada era na qual outrora o grande Reino de Zhou se encontrava enfraquecido e tendo perdido províncias e terras para seus inimigos e revoltas internas, que levaram a separação de seus feudos, os quais acabaram se tornando pequenos reinos. Neste caso, o Reino de Qin, fora antigamente, um feudo vassalico de Zhou, mas devido a sua crescente influência em questões militares e políticas, este acabou se separando de Zhou, como outros também vieram a fazer. No entanto era comum os nobres das diferentes cortes serem mantidos prisioneiros em reinos rivais, algo confuso, mas no entanto, servia de forma para que o reino rival pudesse está de olho no que o inimigo estava fazendo. O próprio rei Qin, foi mantido refém na juventude no Reino de Zhou.

No Período dos Reinos Combatentes ou Reinos Guerreiros, este era formado por sete Reinos ou Estados feudais. Os reinos de: Han, Zhao, Wei, Qin (Chin), Yen, Chu e Qi (Chi). Sendo que na época do rei Qin, os reinos de Chu, Han e Zhou eram os mais poderosos. Mesmo com a ameaça de tais inimigos os reis de Qin nunca se intimidaram. Por cinco gerações seus governantes tentaram a unificação dos Estados. Porém somente com Qin Shi Huang isso veio de fato ocorrer. Mas antes de eu explicar como se deu este longo processo, irei contar um pouco da ascensão do jovem rei ao trono.

Aos 12 anos, Qin assumia o trono do Reino de Qin (nessa época era comum o rei levar o nome de seu reino). Possivelmente seu pai fora assassinado, no entanto, o jovem rei contou com o apoio de sua mãe e do chanceler Liu Bewei. Entretanto, enquanto o jovem rei era manipulado por ambos, já que a sua mãe se tornara amante do chanceler, quando Qin chegou a maioridade, sua mãe tentou planejar o próprio assassinato do filho, e por Liu Bewei no trono. Porém, o rei descobriu os planos e agiu antes. Ele condenou sua mãe ao exílio, ordenou a morte de Liu Bewei, de seus dois filhos (os quais eram seus meio-irmãos) e outros cúmplices do chanceler. Tendo pondo fim a este terrível plano de traição, ele nunca mais confiou em outra mulher.

Por tal fato ele nunca chegou a se casar. Seus filhos nasceram de concubinas, mas nunca de uma esposa. Com a solução deste impasse, Qin decidira escolher um novo primeiro-ministro ou chanceler, o escolhido fora Li Si o qual era um homem sábio e ambicioso. De fato fora o responsável pela política militar e o comando do Estado durante a época das guerras de unificação. Qin decidiu agir o quanto antes para unificar os reinos antes que outro o fizesse. E para isso ele começou a adotar e a investir em uma forte política armamentista. Muitos homens foram convocados e treinados; além de haver um grande produção de armas, e nesse caso fora descoberto durante escavações na década de 70, restos de pontas de setas, e os arqueólogos chegaram a conclusão que tais pontas eram fabricadas em massa, em um processo industrial. De fato, descobriu que o exército de Qin, usava bestas como armas de artilharia. Tal arma só seria vista na Europa muitos séculos depois.

Dispondo de um grande exército, de suprimentos e armamentos em massa, Qin iniciou suas campanhas de conquista. O primeiro alvo fora o reino vizinho de Han, o qual ficava no centro de todos os outros. Com a conquista de Han, este seria um ponto de partida para conquistar os demais reinos do Norte, já que ao sul o Reino de Chu era o mais poderoso da época. Em 230 a.C cerca de um ano de guerra, Han caí a mercê do exército de Qin, com sua conquista, o rei decidira dar o próximo passo, e o alvo dessa vez era o Reino de Zhao. Nesse ponto, alguns historiadores costumam dizer que o ataque a Zhao fora muito além do fato de ser conquistado, mas fora um motivo de vingança. Como eu havia dito no começo, Qin fora mantido refém na Corte de Zhao, nesse tempo ele foi humilhado e agredido pelos seus membros. Com isso ele iniciara o ataque à Zhao após invadirem e destruírem quase toda a capital do reino, o próprio rei vai em pessoa até a cidade, e indica à dedo, as casas de todos aqueles que o humilharam e o agrediram na infância. Todos os homens e mulheres que fizeram isso foram arrancados de suas casas e executados no meio da rua. Em alguns casos, ele ordenara a execução de toda a família dos acusados.

Em 228 a.C Zhao finalmente sucumbira ao poder de Qin. Em 225 a.C chegara a vez de Wei. Com isso metade do território estava sob seu comando, e agora só restavam três reinos a serem conquistados, os dois pequenos reinos de Yen e Qi, e o gigantesco e poderoso reino de Chu. Qin decidiu atacar Chu, seu maior inimigo naquele momento. No entanto ele estava em dúvida de como proceder, para isso ele convocou a ajuda de dois generais, um veterano de guerra e um jovem general. O veterano aconselhou que fossem enviados 600 mil homens para o ataque, porém o jovem, disse que bastava apenas 200 mil para efetuar um ataque rápido e mortal. O rei se deixou persuadir pelo jovem, e o escolheu para liderar suas forças. No entanto tal escolha se revelou em um grande erro. Dos 200 mil guerreiros enviados, somente 10 mil sobreviveram. Envergonhado com a derrota e o erro que cometera, Qin ordenou que o outro general fosse chamado, e lhe concedeu o exército solicitado. Com isso o Reino de Qin, invadiu Chu com o gigantesco exército de 600 mil guerreiros, o maior da História em seu tempo, e conquistou Chu em 223 a.C.

Com a conquista de Chu, só faltavam os pequenos e fracos reinos de Yen e Qi. O rei Qin Shi Huang, retornou para a capital de Qin, Xianyang, lá no ano seguinte, ele recebeu a visita de um embaixador do Reino de Yen, o qual levava a declaração de rendição, no entanto a verdade era outra. O embaixador fora enviado para assassinar o rei, ele escondera uma faca dentro do mapa o qual iria entregar para o rei Qin. Neste mapa contia os planos de batalha de Yen, (Entregar o mapa dos planos de batalha e da organização militar do reino era visto como sinal de rendição) porém a tentativa de assassinato fora frustada, e o assassino acabou sendo morto pela guarda real. Qin com raiva de tal ato de traição ordenou a destruição de Yen. Em 222 a.C o Reino de Yen fora conquistado. No ano seguinte, o Reino de Qi declarou sua rendição, e com isso Qin passava a ser o único governante de todas estas terras.

Após dez anos de conflitos, Qin viajou até as margens do Rio Amarelo (Huang He em mandarim), para agradecer aos deuses. De fato os chineses consideravam o próprio rio como sendo um deus-rio. Ele não via a sua vitória como algo do mero acaso dos deuses, mas si como sendo seu próprio destino. Para muitos governantes em diferentes épocas da História o ato de governar era um sinal divino. Feito sua oferenda de agradecimento, este retorna para Xianyang, onde se proclamara imperador. Em 221 a.C, o rei passara a se chamar Qin Shi Huang Ti, adotando o nome Huang Ti ("Augusto soberano" ou "Primeiro Augusto Imperador"). Como imperador, ele passara a se considerar um deus-vivo e a ser respeitado como tal. Ele também passara a ser chamado pela alcunha de o Primeiro Imperador. Então fundara o Império de Qin (Chin), posteriormente chamado de Império da China.

O Império Chinês


Iniciado o seu governo como imperador, Qin o qual teria um breve governo, reinando até 210 a.C, promoveria uma profunda transformação política, administrativa, econômica, social e cultural, levando após a sua morte a revolta de muitos senhores e nobres devido a suas reformas. Porém antes de chegar a este fato, irei esboçar algumas das reformas promovidas pelo imperador.


Em marrom o território do Império de Qin ou Chin. Em pontilhado os atuais territórioa da China e da Mongólia. 
No mapa acima pode se ver o império chinês durante o governo da Dinastia Qin (221-206 a.C), a qual só teve dois imperadores, Qin Shin Huang Ti e seu filho Er Shih Huang Ti. Com a morte dos dois a dinastia chegou ao fim, e o império passou a ser governado pela Dinastia de Han (206 a.C - 220 d.C). Além de ter estendido as fronteiras do império, Qin dividiu o império em 36 províncias  que mais tarde passaram a ser 48. Ele aboliu o sistema feudal usado até então pelos antigos reinos, centralizando o poder nas mãos do imperador. Criou uma única moeda de cobre; Redigiu uma nova norma ortográfica, adotando o mandarim como língua oficial do império; construiu uma série de estradas e canais de irrigação promovendo o aumento da produção agrícola e o comércio tanto interno como externo. Ele também padronizou os pesos e medidas, construiu fortalezas, cidades, etc.

Dentre as mais famosas construções ordenadas por Qin, se encontra a Grande Muralha da China, iniciada no início de seu governo a Grande Muralha seria estendida ao longo dos séculos por dezenas de imperadores. Ela fora originalmente erguida para barrar o avanço dos inimigos do Norte, nesse caso os mongóis e manchúrios, e posteriormente os hunostártaros.



Originalmente a muralha fora construída de tijolos de barro e com argamassa, somente depois é que começaram a se utilizar pedra em sua construção. Grande parte da mão de obra utilizada fora escrava, e muitos morreram na construção desta.

Além da revolta por parte dos camponeses em terem que trabalhar em péssimas condições na construção da Grande Muralha, havia a revolta de várias outras poderosas famílias as quais ficaram sob o olhar atento e cerrado do imperador na capital. Tais famílias foram tidas como possíveis inimigas do império, com isso Qin procurou ficar de olho nelas.

"[...], e também a destruição de poderosas familias (cerca de 120.000 familias são transferidas para a região sob sua fiscalização real)". (YANG, 1977, p. 41).

Além de governar de forma tirânica e altamente autocrática, Qin também combateu com veemência os letrados e os filósofos (principalmente os confucionistas) dos quais discordavam de sua política e forma de governar, a ponto de que em 213 a.C, ele ordenou a queima de uma grande quantidade de livros de história e filosofia os quais ele julgou serem impróprios para a leitura, levando ao desinteresse pela escrita e por tais profissões.

Outro ponto importante a se falar sobre este homem fora sua incessante busca pela imortalidade. Qin viajou por muito tempo pela China procurando sábios que pudessem fazer uma poção da vida eterna. Alguns historiadores sugerem que possivelmente o imperador teria morrido ao beber uma das supostas poções da vida eterna produzida pelos alquimistas.

Qin morreu em 210 a.C, enquanto viajava pelo país. Quando este veio a morrer, seu primeiro-ministro, Li Si, teve medo de contar aos demais sobre a morte do imperador, temendo uma revolta imediata do povo, já que Qin possuía muitos inimigos. Sendo assim o povo chinês passou alguns meses sem saber que na verdade o seu divino imperador já havia falecido há algum tempo. Tal notícia só foi divulgada quando a comitiva do imperador retornou para a capital em Xianyang. Lá, o segundo filho de Qin, Huhai fora persuadido a assumir o trono, passando a se chamar Er Shin Huang Ti (229-207 a.C). Er só permaneceu três anos no poder, quando fora assassinado em uma revolta, que levou ao fim da Dinastia dos Qin.


O imperador Qin Shin Huang Ti fora sepultado em seu mausoléu próximo da atual cidade de Xian, na província de Shaanxi. O imperador Qin fora sepultado em uma grande tumba abaixo de um morro de terra construído na forma similar de uma pirâmide. Até hoje não se sabe realmente quantas pessoas trabalharam em sua construção, de qualquer forma o número de trabalhadores foram de centenas de milhares, já que além de construir a tumba e erguer o morro, fora também construído o famoso Exército de Terracota.


A tumba do imperador Qin Shi Huang Ti.
O exército fora descoberto em 1974 e desde então ainda continuam as escavações nos arredores da tumba, já que o governo chinês proibiu que a tumba fosse aberta. Restando aos arqueólogos a procurarem pelos guerreiros de terracota. Cerca de mais de 8 mil guerreiros já foram escavados, além de algumas centenas de cavalos e algumas carruagens. Cada guerreiro tem a altura de um homem, sendo esculpidos em poses naturais e portando armas de verdade; e curiosamente, cada um dos guerreiros possui o rosto diferente. Alguns sugerem que os próprios artesãos serviram de modelo para as estátuas.


Estátuas de terracota da tumba do imperador Qin Shi Huang.

NOTA: Qin Shi Huang Ti também pode ser grafado como Qin Shi Huangdi.
NOTA 2: A Dinastia Zhou é dividida em dois períodos: Zhou do Oeste (1122-771 a.C) e Zhou do Leste (771-221 a.C).
NOTA 3: Oficialmente o império chinês durou de 221 a.C à 1912.
NOTA 4: A Grande Muralha se inicia no Deserto de Gobi ao sul da Mongólia e vai até o Mar Amarelo. Na realidade a muralha é a junção de várias outras muralhas que foram construídas ao longo do tempo. Sua extensão é de mais de 7 mil km. No século XIII a imponente muralha fora incapaz de barrar o avanço dos exércitos de Genghis Khan.
NOTA 5: Qin Shi Huang Ti é retratado no filme A Múmia 3: A Tumba do Imperador Dragão, sendo interpretado pelo autor Jet Li. O trono imperial chinês as vezes era chamado de Trono do Dragão.
NOTA 6: Reza a lenda que os Guerreiros de Terracota ou Guerreiros de Xian, fora construídos a fim de se guardar a tumba do imperador, e em caso de seus inimigos decidissem atacá-la as estátuas ganhariam vida e lutariam para defender o corpo do imperador.
NOTA 7: Tanto o Exército de Terracota como a Grande Muralha são Patrimônios Mundiais da Humanidade pela UNESCO.

Referências Bibliográficas:
YANG,
Alexander Chung Yuan. História da China. São Paulo, USP, Série Didática No 5, 1977.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, São Paulo, Nova Cultural, 1998.

Referência audiovisual:
Documentário:
O Primeiro Imperador da China. Assistido no History Channel em 7 de Março de 2010, das 10h às 12h.