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Leandro Vilar

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Francis Bacon e o despertar da ciência

Quando falo em despertar da ciência, me refiro a uma questão um tanto complicada de se referir. O conceito de ciência propriamente dito, se originou por volta do final do século XVII, embora o termo ciência só passou a ser mais utilizado a partir do século XIX, onde também surgiu o termo cientista, antes disso usava-se o conceito de filosofia natural ou filosofia mecânica.

Entretanto, a outra questão que fica no ar, que gera dúvidas, seria o fato de que desde a Antiguidade até a Idade Moderna, não houve ciência? Será que os antigos desconheciam o que nós podemos definir como saber científico? Sobre tais premissas, eu irei responder tais questionamentos, a partir das ideias de Francis Bacon, considerado por alguns como o "Pai da Ciência Moderna". Ou seja, se existe uma "ciência moderna" implica em se dizer que existia uma "ciência antiga"? Sendo assim, nesse artigo, o dividirei em dois momentos: o primeiro será uma espécie de curta biografia do autor, para se saber quem foi Francis Bacon, e a segunda parte será dedicada a sua visão a respeito da filosofia e como ele concebia a ciência, e sua elaboração de um método científico, o Empirismo. 

Vida e obra

Francis Bacon nasceu em 22 de janeiro de 1561 em Londres, e morreu em 9 de abril de 1626, aos 65 anos em Londres. Bacon era filho de Nicolas Bacon, o qual trabalhava como lorde protetor do selo real. Com isso a família Bacon gozava de certos privilégios entre a Corte e a nobreza. Mas, tais privilégios não foram de grande ajuda para Francis, após a morte de seu pai. Devido a este ser o caçula da família, parte da herança fora dividida com seus irmãos mais velhos, isso levou a Bacon ter que logo cedo a trabalhar como advogado. Em 1581, devido ao seu bom trabalho como advogado e outros serviços prestados ao governo, fora apontando para trabalhar na Câmara dos Comuns, se tornando membro do Parlamento. Nessa mesma época ele se tornou protegido de Robert Devereux, Conde de Essex, um nobre de grande influência na Corte da rainha Elizabeth IEntretanto, Bacon possuía a admiração do conde, mas ao mesmo tempo carregava um desafeto com outros membros da Corte e até mesmo com a própria rainha. 

Porém, sua vida sofreria uma reviravolta. Ele acabou se desentendendo com o Conde de Essex, bem a tempo, quando fora descoberto em 1601, que o conde estava envolvido em uma tentativa de golpe de Estado. Bacon se safou de não ser considerado como cúmplice, e para piorar sua situação ele depôs contra o conde e outros de seus partidários, aumentando ainda mais sua inimizade. Porém, isso lhe rendeu acesso ao Conselho Real.

Com a morte da rainha Elizabeth I em 1603, o novo rei da Inglaterra, era Jaime I, o qual diferente do seu antecessor, apreciava o trabalho de Bacon. E foi no governo de Jaime I que Francis Bacon conseguiria seu prestígio político e social e ao mesmo tempo sua derrocada da política.

"Certos aspectos de sua jurisprudência, inclusive, teriam impacto significativo séculos mais tarde - em particular, os argumentos que utilizou em um caso em 1608, segundo os quais os escoceses nascidos depois da ascensão de James ao trono da Inglaterra deveriam ser considerados automaticamente naturalizados como ingleses. Tal conceito pode ser apontado como origem do principio legal que hoje garante o direito à cidadania de um país para toda as crianças nascidas em seu território - até mesmo para os filhos de imigrantes ilegais". (SERJEANTSON, 2009, p. 73).

Bacon também redigiu outras leis e uma série de procedimentos para a legislação da época. Deste ponto em diante sua carreira política daria uma guinada. Em 1607, se tornou Advogado-geral da união; em 1613 se tornou Procurador-geral da república; e em 1618 ganhou seu título nobiliárquico de Barão de Verulam ou Verulâmio. Porém como costuma dizer "o que é bom dura pouco". Em 1621, Bacon fora acusado de corrupção, de ter recebido propina em alguns casos que presidiu. Ele não negou a acusação que tinha realmente recebido o que ele chamou de "presentes", porém disse que isso não havia interferido em seu julgamento. Mas, de qualquer forma, Bacon fora condenado a prisão pelo crime de corrupção, além de ser destituído de seus cargos e ser afastado do governo. Em 1621 ele cumpriu sua prisão na Torre de Londres (local onde muitos nobres foram encarcerados, tais como: Henrique VIII, Henrique VII, Elizabeth I, Carlos I de Valois, algumas das esposas de Henrique VIII, etc).


A Torre Branca de Londres ou simplesmente a Torre de Londres. Antiga fortaleza transformada em prisão. Famosa por ter sido o cárcere de importantes nobres. 
Porém nos cinco anos que se sucederiam até a sua morte em 1626, Bacon deu continuidade ao seu trabalho como filósofo e cientista. Entretanto, Francis Bacon como um homem de sua época, era comum ele ter apreciação por várias atividades distintas. Sendo assim, posso enumera-las como sendo: advogado, político, filósofo, escritor, historiador, alquimista, e o que podemos chamar de cientista para os termos de hoje.

Sendo assim vou citar alguns dos seus mais importantes trabalhos em filosofia e história, antes de dá inicio a questão sobre o conhecimento científico.

Frontispício do Novum Organum
Como membro da Ordem Rosacruz, Bacon chegou ao cargo mais alto de alquimista na ordem, além de ser considerado como o responsável por ter escrito os principais manifestos da Ordem. Na filosofia, sua principal obra fora o Novum Organum (Novo Instrumento), publicado em 1620, no qual Bacon pretendera expor uma nova metodologia e uma visão de se pensar o conhecimento, rompendo com a escolástica medieval e a filosofia de Aristóteles, a qual ele a criticava em muitos aspectos. Outro importante trabalho seu no campo da filosofia fora o Instauratio Magna (Grande Instauração) no qual ele propunha uma renovação do conhecimento humano. Em 1605, ele também lançou o Advancement of Learning (Avanço do Aprendizado), dedicado ao rei Jaime IAlguns anos antes ele lançou sua famosa obra literária, Essays (Ensaios). E no campo da historiografia ele escreveu dois grandes trabalhos: História Completa e Correta (em referência a união da Inglaterra e Escócia) e História do Reino de Henrique VII (o qual fora o fundador da Dinastia Tudor). Além destes trabalhos, ele possui uma série de outros, no campo da política, direito, história e filosofia. Mas, agora eu irei começar a abordar sua visão da filosofia e da ciência.

Classificando o conhecimento

Bacon dividia o conhecimento em duas categorias: o conhecimento divino e o conhecimento humano. Para ele, o conhecimento divino, seria a natureza a qual é a obra de Deus. Quanto ao conhecimento humano seria tudo aquilo que o ser humano compreende a partir de suas ações. A partir desta duas divisões, Bacon procurava construir uma história da evolução do conhecimento divino e humano em seu livro The Proficience and Advancement of Learning Divine and Humane (conhecido no Brasil em algumas edições, como O progresso do conhecimento). Nessa sua obra datada de 1605, perfaz uma ampliação do trabalho em Advancement of Learning. E nesse novo trabalho ele não só  procurou falar sobre o progresso do conhecimento, mas também explicar sua metodologia para se estudar as ciências. Como o livro e vasto, não irei me prender a muitos detalhes a cerca deste. Então irei extrair alguns pontos que achei importante.

"Bacon propôs (...) um método investigativo fundamentado em observação, descrição, classificação, comparação, eliminação e, só então, dedução das possíveis causas de um fenômeno. Em síntese, tratava-se do empirismo". (BBC, 2009, p. 72).

Basicamente a metodologia de Bacon se dividia na seguinte forma:

"A teoria da indução, tal como exposta no Novum Organum, distingue inicialmente experiência vagaexperiência escriturada. A primeira compreende o conjunto de noções recolhidas pelo observador quando opera ao acaso. A segunda abrange o conjunto de noções acumuladas pelo investigador quando, tendo sido posto de sobreaviso por determinado motivo, observa metodicamente e faz experimentos e o ponto de partida para a constituição das tábuas da investigação, núcleo de todo método baconiano". (BACON; ANDRADE, 1999, p. 14).

Para explicar sua metodologia de pesquisa e análise, Bacon criou o conceito de tábuas da investigação, as quais consistem em parâmetros para guiar o pesquisador em suas eventuais pesquisas. Ele dividia este conceito em três tábuas: 


"A primeira tábua de investigação é a de presença ou afirmação. Nela são colocadas todas as instâncias de um fenômeno que concordem por apresentar as mesmas características. Se o problema investigado for, por exemplo, o calor, é necessário estudar os casos em que ele se apresenta, como a luz do sol, as labaredas do fogo, a temperatura do sangue humano, e assim por diante". (BACON; ANDRADE, 1999, p. 14).

"Para Bacon, a verificação das ocorrências positivas de um fenômeno não, é contudo, suficiente para fornecer seu perfeito conhecimento. Impõe-se verificar também aqueles casos em que o fenômeno não ocorre. Constrói-se, assim, a tábua das ausências ou da negação. Assim, em relação ao calor, seria necessário conhecer e atentar para fenômenos como o dos raios de luar ou o do sangue frio e animais mortos". (BACON; ANDRADE, 1999, p. 14).

"A terceira tábua é das graduações ou comparações, que consiste na anotação dos diferentes graus de variação ocorridos no fenômeno em questão, a fim de se descobrirem possíveis correlações entre as modificações". (BACON; ANDRADE, 1999, p. 14).


Em essência o Empirismo foca a experimentação dos fenômenos como forma de comprová-los. Algo diferente da filosofia de Aristóteles, na qual Bacon dizia focar a contemplação, e não se importar muito em se analisar aquele fato mediante a experiências. Isso é um dos motivos no qual ele diz que os antigos não faziam ciência. Todavia, Bacon não criou o Empirismo, o mesmo já era concebido por alguns filósofos gregos na Antiguidade, no entanto, fora ele que criou a metodologia de estudo que respaldava o Empirismo. 


"O principal mérito do método empírico é o de assinalar com vigor a importância da experiência na origem dos nossos conhecimentos. Os empiristas de um modo geral têm razão ao afirmar que não existem ideias inatas, e de que antes da experiência não há e nem pode haver conhecimento algum sobre o mundo exterior". (OLIVEIRA, 1997, p. 53).

Mas se por um lado, Bacon visava a experimentação em sua metodologia da ciência, como forma de se provar os fatos, os fenômenos, ele chegou ao ponto de se tornar controverso aos cientistas de hoje. Como eu havia dito anteriormente, ele classificava o conhecimento em divino e humano, e sobre tal ideia se perfaz uma forte influência religiosa em sua vida e em seu trabalho.

"Quando Bacon propôs o Novum Organum, ele teve que enfrentar dois problemas fundamentais herdados da tradição. Por um lado, entender como o homem pôde reconquistar o domínio sobre a interdição que pesa sobre o conhecimento da natureza". (ZATERKA, 2004, p. 94).

Para ele, o homem quando caiu no Pecado Original, tentou se aproximar de Deus, mediante ao descobrir o conhecimento do bem e do mal, e por isso fora punido por sua curiosidade. Entretanto, Bacon dizia que mesmo tendo saído do "paraíso" os homens deveriam buscar a ciência, o conhecimento como forma de se reaproximarem de Deus. Algo que ele defendia ser como o principal objetivo da ciência. Em tese, Francis Bacon procurava uma união entre religião e ciência, não as separando como costumamos ver, mas como ambas sendo caminhos diferentes para se chegar ao "conhecimento divino", a Deus.

"O verdadeiro fim do conhecimento é a restituição e a restauração (em grande parte) do homem à soberania e ao poder que ele tinha no primeiro estágio da criação (porque quando ele for capaz de chamar as criaturas pelos seus verdadeiros nomes, poderá novamente comandá-las). Para falar com clareza e simplicidade, esse fim consiste na descoberta de todas as operações e possibilidades de operação: desde a imortalidade (se é possível) até a mais desprezada arte mecânica". (citação de F. Bacon de seu livro Advancement of Learning, p. 222) (ZATERKA, 2004, p. 98).

Nas obras de Bacon é recorrente a utilização de citações bíblicas, além da figura de algumas personagens bíblicas em seus trabalhos, servindo como exemplos a suas ideias. Porém se para ele o conhecimento humano era imperfeito e deveria ser corrigido para se chegar o mais perto possível do conhecimento divino, o autor se questionava o porque dessa dificuldade de se chegar a tal expectativa. Sendo assim, nas citações a seguir, o autor dera algumas ideias a respeito dessa dificuldade de se conseguir alcançar o conhecimento pleno.

"A primeira, que não situemos nossa felicidade no conhecimento a ponto de esquecer nossa mortalidade. A segunda, que apliquemos nosso conhecimento de modo que nos dê repouso e contentamento, e não inquietude ou insatisfação. A terceira, que não tenhamos a presunção de, pela contemplação da natureza, alcançar os mistérios de Deus". (BACON, 2007, p. 22).

"E pelo contrário, quase não há exemplo que contradiga o princípio de que nunca houve governo desastroso que estivesse em mãos de governantes doutos". (BACON, 2007, p. 28).

Na citação acima, expele a clássica visão do empirismo. Os governantes doutos que não souberam governar bem, é porque por mais que possuíssem o conhecimento, não souberam utilizá-lo de forma adequada. Eles ficaram na contemplação e não puseram em prática seus saberes.

"E quanto à ideia de que o saber inclina os homens ao ócio e ao retiro, e os torna preguiçosos, seria estranho que aquilo que acostuma a mente a movimento e agitação perpétuos induzisse á preguiça; enquanto, ao contrário, pode-se afirmar sem faltar à verdade que nenhum tipo de homem ama a atividade por si mesma, a não ser os doutos; pois os outros a amam por lucro, como o empregado que ama o trabalho pelo salário". (BACON, 2007, p. 31).

"O ócio é um pecado, temos que trabalhar para produzir obras úteis à sociedade humana e, assim, controlar a natureza. Este poder sobre a natureza não pode ser desprovido, no interior do ethos protestante, de valores morais. Bacon não propõe o poder pelo poder e sim um poder que tem como guia as verdades da religião". (ZATERKA, 2004, p. 98).

Para Bacon, os sentimentos eram uma faca de dois gumes. Por um lado eles poderiam despertar o interesse dos homens pelo conhecimento, mas por outro eles poderiam subtrair este interesse, ou levá-lo motivado por certas ambições. Ele dizia que quando se segue o caminho da ciência, você só pode se tornar duas coisas: ou você se faz um ateu por descrer dos feitos de Deus, ou você se faz um crente ainda mais convencido, por ver que a ciência revela os mistérios de Deus. (isso seria um bom tema para um debate a cerca de religião x ciência. Quem estiver com interesse, sugiro estudar mais a ideologia baconiana na filosofia e na ciência).

Se pelo relato acima já se deu para entender um pouco da visão filosófica de Bacon, agora irei me reter mais a sua visão de ciência, a qual sofre grande influência do que já fora visto anteriormente.

A divisão científica do conhecimento

"[Bacon] não abordava temas sobre os quais já se sabia, mas sim aquilo que não era suficiente conhecido". (SERJEANTSON, 2009, p. 73).

Antes de eu começar a falar da visão de ciência para Bacon, devo deixar claro que para ele a ciência fazia parte da filosofia, pois em sua época, o conceito de filosofia era bem mais abrangente do que costumamos usar hoje em dia. De fato, a ciência, as artes, a história e outros saberes, eram encarados como parte da filosofia. Porém Bacon, via a filosofia de três formas distintas: Divina, Natural e Humana. Sendo que a ciência, a qual ele chama de Ciência Natural ou Teoria Natural, pertencia a categoria da Filosofia Natural. Não obstante, mais a frente, também falarei da classificação da História.

"Em Filosofia, pode ocorrer que a contemplação do homem esteja dirigida a Deus, ou se estenda sobre a Natureza, ou se reflita e se volte sobre o próprio Homem. A partir de diversas indagações, emergem três conhecimentos: filosofia Divina, filosofia Natural e filosofia Humana ou Humanidade. Pois todas as coisas estão marcadas e estampadas com este caráter tríplice: o poder de Deus, a diferença da natureza e a utilidade do homem". (BACON, 2007, p. 136).

Deste ponto, Bacon define o objeto de estudo de cada filosofia como sendo:
  • Filosofia Divina ou Teologia Natural: Visa compreender a essência de Deus e sua obra no mundo.
  • Filosofia Natural: Procura entender os mistérios da natureza física e metafísica.
  • Filosofia Humana: Estuda a natureza do homem e seu espírito.
Definido os interesses de cada uma das três classificações da filosofia dada por Bacon, irei me restringir a falar um pouco da filosofia Natural. Bacon dividia a filosofia Natural e duas partes: Inquisição de Causas e a Produção de efeitos, ou Especulativo e Operativo, ou Ciência Natural e Providência Natural (uma das dificuldades de se estudar o trabalho de Bacon, é que ele utilizava muitas nomenclaturas para se referir a conceitos iguais).

Quanto a Ciência Natural ou Teoria Natural, Bacon a dividia em duas categorias: Física e Metafisica, como já fora apontado anteriormente. Entretanto ele dizia que o sentido de metafísica dele não era igual ao que geralmente concebia-se em seu tempo.

"A Física (entendida esta palavra segundo sua etimologia e não como nome que damos à Medicina) se situa num termo ou distância média entre História Natural e Metafísica. Pois a História Natural descreve a variedade das coisas, a Física, as causas fixas e constantes". (BACON, 2007, p. 146).

Nesse ponto dá para se ver que a física procura responder as causas, a analisar, experimentar os fatos e se chegar a conclusões. Sobre isso, Bacon diz o seguinte:

"A Física tem três partes, das quais duas se referem à natureza unida ou recolhida e a terceira estuda a natureza difusa ou distribuída. [...]. De modo que a primeira doutrina é relativa à Contextura ou Configuração das coisas: de mundo, de universitate retrum [sobre o mundo, sobre a totalidade das coisas]. A segunda é a doutrina referente aos Principios ou Origens das coisas. A terceira é a doutrina referente a toda Variedade e Particularidade das coisas, quer se trate de suas diferentes substâncias, ou de suas diferentes qualidades e naturezas". (BACON, 2007, p. 147).

Visto isso creio quem fica claro o que seria física para a Ciência Natural de Bacon. Agora passemos para a descrição da metafisica.

"Quanto à Metafísica, lhe atribuímos a indagação das Causas Formal e Final". (Bacon, 2007, p. 147).
  • Causa Formal: Procura compreender as formas dos elementos da natureza. Nesse ponto o sentido de forma que Bacon dá é bem subjetivo. Ele não procura somente entender a forma física, mas, sim compreender o significado daquela forma. Como exemplo, ele dá o exemplo da brancura da neve, a qual ele se questiona porque a neve é branca? São estes tipos de pergunta que ele atribui sendo a Causa Formal.
  • Causa Final: A causa final seria a questão do porque serve as coisas, e qual é o seu propósito. Então ele se perguntava, porque existe as nuvens? Será que elas servem somente para fazer chover? Ou que as folhas das árvores sirvam só para proteger os frutos? Ou porque a terra seja sólida para poder sustentar o que se encontra acima desta? São tais perguntas que para nós podem parecer banais, mas, ele dizia que desde a Antiguidade os homens procuravam tais respostas.
"A inseparabilidade entre a forma e o corpo aproxima Bacon de Aristóteles, na medida em que toda forma é forma de uma matéria. Todavia, a forma baconiana é também a lei interna e a organização interna de um corpo. Assim, a forma baconiana é um arranjo invisível que explica as propriedades fundamentais ou naturezas de um fenômeno, que somente pode ser alcançada pela verdadeira indução baconiana". (ZATERKA, 2003, p. 111).

Sendo assim, Bacon definia os objetivos da metafísica. Entretanto devo ressalvar que existe outros objetivos, mas, estes são bem mais complexos de se entender, e não irei falar destes aqui. No entanto antes de concluir esta parte sobre a concepção de ciência dele, devo dizer que para ele a Matemática estaria ligada não a física, mas sim a metafísica. Já que para ele a Matemática visava a quantidade, então isso é algo que ele concebe como sendo próprio da metafísica, quantificar. Porém, ele não descartava o uso da matemática em outras ciências, como geografia, arquitetura, engenharia, astronomia, etc.

Quanto a questão da Prudência Natural, a qual perfaz a segunda parte da Filosofia Natural, irei deixá-la de fora, devido a esta ter um enfoque mais filosófico no sentido da palavra mesmo. Porém para encerrar este longo artigo irei falar um pouco da visão de História de Bacon, e para encerrar falarei de algumas pessoas que foram influenciadas por suas ideias.

A classificação da História

Além da divisão do conhecimento já vista anteriormente, ele também possui a outra forma de conceber esta divisão:
  • História - Memória
  • Poesia - Imaginação
  • Filosofia - Razão
Sendo assim, a História não seria uma arte, como ele dizia e também não seria uma ciência, ela seria a representação da memória, nesse sentido, relatar os fatos. Já a poesia e as demais artes, fariam parte da imaginação. E por fim a filosofia seria a personificação da razão, por isso da ciência esta munida da filosofia.

Quanto a classificação da História ele a definia desta forma:
  • História Natural: Estuda a natureza e as artes. Sendo classificada em: História das Criaturas (natureza), das Maravilhas (lendas e mitos) e das Artes.
  • História Civil: Estuda a história dos homens. Sendo classificada em: Memoriais (comentários, registros. História inacabada), Histórias Completas e Antiguidades (vestígios do passado).
  • História Eclesiástica: Estuda a história sacra. Sendo dividida em: História da Igreja, das Profecias e da Providência.
  • História Literária: Por mas que se utilize a narração para relatar a história, Bacon não considera muito esta quarta classificação.
Além destas três principais classificações, já que a quarta ele não considera tanto, existe uma gama de outras divisões. Porém não irei entrar nessas divisões, já que o objetivo não é esse.

Como fora visto inicialmente, a grande contribuição de Bacon para a ciência fora a criação de seu método científico que visava a experimentação. Tal método influenciou, homens tais como: Galileu Galilei, Isaac Newton, Robert Boyle, Giambattista Vico, John Locke, Thomas Hobbes, David Hume, Denis Diderot, etc. Mas, além da sua contribuição do método empírico, Bacon também contribuiu no campo da filosofia, com a sua teoria da matéria, das formas, do espírito e da natureza. Além da suas ideias de se romper com a filosofia e a ciência antiga, já que para ele estas estavam fadadas a alguns enganos, de fato, a grande obra de Giambattista Vico fora Scienza Nuova (Ciência Nova), em referência a tentar explicar essa nova ideia que se tinha acerca da "ciência moderna". 


Estátua de Francis Bacon no Trinity College. 
Porém o essencial para se saber de Bacon, era que ele priorizava muito a educação. Em alguns dos seus livros, ele dizia que era obrigação dos governantes de fiscalizarem as escolas, academias e universidades, para saber o que estava sendo ensinado, e se estas instituições necessitavam de recursos. Com isso o governante estaria a parte sobre o ensino de seu povo. E com isso sua famosa frase era: "Conhecimento é poder".


NOTA: As vezes Francis Bacon pode ser referido como Lorde Verulâmio, em referência a ter sido o Barão de Verulâmio.
NOTA 2: Além de barão, ele também fora o primeiro Visconde de St. Albans.
NOTA 3: De acordo com a biografia de John Aubrey, a pneumonia que fora a causa da morte de Bacon, fora causada quando este estudava o uso da neve para se conservar alimentos.
NOTA 4: Uma das grandes influências que Bacon teve, fora do médico, alquimista, físico e astrólogo suíço, Paracelso (pseudônimo de Phillipus Aureolus Theophrastus Bombast von Hohenheim (1493-1541)).
NOTA 5: Em 1627 fora publicado após a sua morte seu trabalho Sylva Sylvarum (trabalho sobre história natural) e seu tratado político utópico inacabado, a Nova Atlântida, uma alusão Utopia de São Tomás Moro
NOTA 6: O filósofo Thomas Hobbes (1588-1679) trabalhou como secretário de Francis Bacon pouco tempo antes de Bacon ser acusado por crimes de corrupção. A obra mais famosa de Hobbes fora o Leviatã (1651). Nesta obra, na primeira parte, Hobbes trata do empirismo, e esboça a influência que tivera dos trabalhos de Bacon. 
NOTA 7: A divisão do conhecimento proposta por Bacon influenciou os filósofos franceses iluministas Denis Diderot e Jean d'Alembert, editores da Encycolpédie, famosa enciclopédia do século XVIII, a estruturar as áreas de conhecimento que sua enciclopédia estudaria. 
NOTA 8: O Racionalismo fora uma corrente de pensamento contrária ao Empirismo. Um de seus maiores nomes na Idade Moderna fora René Descartes

Referências Bibliográficas:

BACON, Francis. O progresso do conhecimento, São Paulo, Editora Unesp, 2007.
BACON, Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza/ Nova Atlântida. São Paulo, Nova Cultural, 1999).
ZATERKA, Luciana. A filosofia experimental na Inglaterra do século XVII: Francis Bacon e Robert Boyle, São Paulo, FAPESP, 2003.
SERJEANTSON, Richard. Um novo pensarRevista História BBC #12, São Paulo, Tríada, 2009. p. 72-74. 
OLIVEIRA, Silvio Luiz de. Tratado de Metodologia Cientifica: Projetos de Pesquisas, TGI, TCC, Monografias, Dissertações e Teses. São Paulo, Pioneira, 1997. 
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, São Paulo, Nova Cultural, 1998.

Link relacionado:
A Revolução Científica Moderna

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Antigo Regime

Alexis de Tocqueville
O Antigo Regime, foi um termo criado pelo historiador francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), para se referir ao sistema político, econômico e social que se originou na França, e posteriormente se difundiu ao longo dos séculos XVI ao XVIII pela Europa Ocidental, abrangido suas colônias nas Américas e no restante do mundo. A estrutura do Antigo Regime é marcado pela forte centralização do Estado na mão do rei, algo conhecido como monarquia absolutista, a qual teve como grande modelo o monarca Luís XIV de França; na economia se nota a substituição da economia basicamente rural pela ascensão do comércio, e junto a este o capitalismo. Nessa época chamado de mercantilismo. No âmbito social esse período marcou um forte contraste de desigualdade social; poucos eram os ricos e muitos eram os pobres. Países como Inglaterra, Portugal, Espanha, França e Holanda enriqueceram rapidamente as custas da exploração da América. E por outro lado isso gerou uma forte miséria nos povos que ali viviam e na própria Europa, devido ao fato de não se haver uma divisão digna dos bens.

Sendo assim, após essa breve introdução do que foi o Antigo Regime, partirei para explicar mais a fundo alguns de seus principais aspectos, que marcaram o período da História Moderna. Para isso devemos primeiro voltar um pouco antes na história, para entender o que ocorreu na transição do feudalismo para o mercantilismo e da Idade Média para a Idade Moderna.

Basicamente ao longo do período medieval (476-1453) a economia fora basicamente agrícola e pecuária, voltada para o sustento próprio. O comércio nessa época era muito escasso. Por outro lado, as terras pertenciam ao rei, e este as dividia entre seus vassalos, os senhores feudais, os quais eram quase como "reis" em suas terras. Sendo assim, o Estado medieval era marcado pela descentralização do poder, o qual era repartido por vários governantes. Na questão social, grande parte da população vivia no campo, sendo parte desta serva de um senhor, e a minoria sendo "livre". Entretanto, somente a nobreza e a aristocracia era que tinha acesso aos lucros, ainda não existia uma burguesia propriamente dita. Outro questão que contribuía para o não crescimento do comércio e da centralização das terras era a intervenção da Igreja. A qual era proprietária de grande parte das terras nos reinos. E praticamente estas terras eram submetidas quase que exclusivamente ao poder da Igreja e não dos reis. Quanto a questão do comércio havia o crime da usura.

Entretanto por volta do século XIV e XV as cidades começaram a reflorescer, graças ao investimento dos comerciantes. Estes locais passaram a se chamarem de burgos, os quais eram construídos ao lado das antigas cidades feudais. A população que vivia nesses burgos, passou a ser chamada de burgueses. Esses burgueses para darem continuidade em seu trabalho precisavam de apoio de alguém. As estradas não eram seguras, eram cheias de ladrões. Nos mares rondavam piratas. A única solução que fora encontrada para se cuidar destes problemas fora os comerciantes se unirem para formarem companhias, guildas e ligas mercantis, para terem maiores chances de se enfrentar estes problemas. No entanto, outro ponto interessante é que as cidades voltaram a florescer e começaram a novamente ser alvo de assaltos. Por isso que os burgos eram fortificados, e para suprir a necessidade de defesa, os reis passaram a fornecer soldados para as cidades em troca de pagamento.


Gravura de uma cidade e um burgo fora das muralhas desta. 
"Os direitos que mercadores e cidades conquistaram refletem a importância crescente do comércio como fonte de riqueza. E a posição dos mercadores na cidade reflete a importância crescente da riqueza em capital em contraste com a riqueza em terras". (HUBERMAN, 1976, p. 44).

Sendo assim, nascia um novo contrato entre o rei e os burgueses. Os reis querendo retomar o controle de suas terras, de enriquecer e ter mais poder, se aliaram aos burgueses para conseguir sua ascensão. Em poucas palavras, os burgueses enriquecendo, dariam mais dinheiro ao rei para este poder manter a ordem no reino, e consequentemente os reis se tornariam mais ricos. De fato isso contribuiu para o fortalecimento do Estado real, e sua centralização nas mãos dos monarcas.

"O rei fora um aliado forte das cidades na luta contra os senhores. Tudo que reduzisse a força dos barões fortalecia o poder real. Em recompensa pela ajuda, os cidadãos estavam prontos a auxiliá-lo com empréstimos de dinheiro. Isso era importante, porque com o dinheiro o rei podia dispensar a ajuda militar de seus vassalos. Podia contratar e pagar um exército pronto, sempre a seu serviço, sem depender da lealdade de um senhor". (HUBERMAN, 1976, pp. 80-81).

Mas, não obstante, devo prosseguir de fato para explicar com maiores detalhes a organização da estrurura do Antigo Regime, devo dizer aqui, para muitos historiadores, como o próprio Tocqueville afirma, o Antigo Regime se iniciou na França, e depois se espalhou para os outros países. Entretanto, as características que serão dadas a seguir muitas remetem ao Estado francês o qual de certa forma fora o mais absolutista que houve nesse período.

Política e administração:


Se na Idade Média, o rei não tinha um total controle do seu reino, havendo vários problemas de se manter a ordem e a paz entre seus vassalos, que constantemente lutavam hora com os bárbaros invasores, ou lutavam entre si, guerras entre feudos. No século XVI em diante, isso acabaria.

"As cidades têm constituições muito diversas. Seus magistrados têm nomes diferentes ou tiram seus poderes de diversas fontes: aqui um prefeito, lá cônsules, alhures síndicos. Alguns são escolhidos pelo rei, outros pelo antigo senhor ou príncipe apanagista; um são eleitos pelos concidadãos para um prazo de um ano e outros que compraram o direito de governar permaneceram no poder ad aeternum. Estes são os destroços dos antigos poderes [...]". (TOCQUEVILLE, 1997, p. 78).

Por mas que digam que a Idade Média era um período de "trevas", havia uma certa ordem no poder. No entanto, como ficou claro na citação acima, todo mundo queria mandar ao mesmo tempo. E as vezes não se sabia afinal que era que estava mandando. E para se resolver tal problema, fora restituído o antigo Conselho do rei ou Conselho Real. Desde a antiguidade existia conselhos de reis. Porém com o tempo isso fora perdendo espaço e força, principalmente no medievo. Agora restituído, o conselho seria o centro politico, administrativo e judiciário do Estado. Tudo seria levado para ser resolvido lá. Os governadores, prefeitos, juízes, inspetores, fiscais, tabeliães, etc. Todos seriam eleitos pelo conselho. Se uma guerra fosse ocorrer, teria que se ter a permissão do rei. Vários outros cargos administrativos como o controlador geral, comissário, delegado, subdelegado, inspetor, censoretc., passaram a ser mais regularizados e terem uma maior eficiência em suas atividades. Nesse ponto, o governo de fato se tornou tão centralizado, a ponto de se tornar opressor.

"Como o conselho do governo exerce, além do mais, sob o bel-prazer do rei, o poder legislativo, discutindo e propondo a maioria das leis e também fixando e ordenando os impostos. Como conselho superior de administração cabe-lhe estabelecer as regras gerais que devem orienta os agentes do governo. Resolve todos os negócios importantes e controla os poderes secundários. [...]. É o rei e só o rei quem decide, mesmo quando o conselho parece pronunciar-se". (TOCQUEVILLE, 1997, p. 78).

Entretanto, Tocqueville deixa um fato curioso em seu estudo. Ele diz que por mais que o conselho cuide da questão judiciária, este atuaria mais como um fiscalizador do que a instância na qual exerce o poder judicial. isso cabe aos ministérios. Entretanto, os ministros estavam sob a vontade do rei.

''O governo central encarregava-se sozinho, com a ajuda de seus agentes, de manter a ordem pública nas províncias. A policia montada espalhava-se em toda a superfície do reino em pequenas brigadas, dependendo sempre dos intendentes. E com a ajuda destes soldados e, quando necessário, do exército, que o intendente enfrentava os perigos imprevistos, prendia os vagabundos, reprimia a mendicância e reprimia as matins que o preço do grão provocava sem cessar". (TOCQUEVILLE, 1997, pp. 80-81).

Por mais que esta política parecesse ser promissora, de fato ela pôde colocar ordem no Estado. Porém devo ressalvar que o Antigo Regime, fora um período bem conturbado na Europa, várias guerras eclodiram. Muitas pessoas morreram, plantações foram arrasadas, o Estado gastou muito dinheiro nas batalhas, e como forma de se recuperar o que havia sido gasto, passou cada vez mais a explorar o povo. Constantemente o Estado expedia leis, literalmente obrigando um maior desempenho dos camponeses e artesãos em seus ofícios. Inspetores eram responsáveis pela fiscalização e quem não cumprisse com as normas era multado.

"A correspondência do intendente com os subdelegados demonstra que o governo intrometia-se realmente em todos os negócios da cidade tanto pequenos como grandes. É consultado sobre tudo e opina sobre tudo, chegando até a regulamentar festas". (TOCQUEVILLE, 1997, p. 85).

Por mas que digam que a politica do Antigo Regime fosse centralizadora, ela não deixava de ser autoritária em muitos aspectos. Mas, a contradição era que mesmo o povo se sentido oprimido pelas cobranças do Estado, hora ou outra se revoltando com os impostos, a figura do rei, era algo essencial nessa cultura. No livro A sociedade de Corte de Norbert Elias, ele demonstra até que ponto o papel da figura do rei, era importante para se manter a organização da corte, da nobreza, e do Estado. Muitos dos costumes daquela época que podem parecer fúteis para nós era algo que era necessário se fazer para se manter a honra, se conseguir prestígio social etc. Devo lembrar que havia uma grande dicotomia entre a sociedade nessa época. Por isso mais a frente abordarei esta desigualdade.

Rei Luís XIV de França
Se o rei era o centro do Estado, algo que ficou marcado na frase de Luís XIV "L'État c'est moi" (O Estado sou eu). Não há razão para se discordar disso de certa forma. Como já pode ser visto anteriormente. Porém a outros dois pontos que contribuem para a garantia do poder absolutista. Como fora visto anteriormente na transição do medievo para a era moderna, os reis só conseguiram recobrar seus poderes graças ao apoio da burguesia, que lhe deram dinheiro e armas para poder levar a cabo seus planos. Não obstante, outro fundamento que reforçava esta questão do poder do rei, fora elaborado pelo bispo e teólogo francês, Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), o qual defendia o direito divino dos reis governarem. Para ele a monarquia absolutista não seria um crime, mas sim um direito do governante dado por Deus para se governar os homens. Fato este que se evidência no egocentrismo de Luís XIV de se chamar de Rei-sol. A ideia de divinização dos reis não era algo que fora concebido na Idade Moderna, desde à Antiguidade, entre diferentes povos como incas, egípcios, chineses, etc., seus reis eram vistos como seres divinos.

Economia:

Como já foi visto, a economia fora paulatinamente deixando de ser principalmente rural, para ingressar no mercantilismo capitalista. Essencialmente das diferentes formas de mercantilismo que surgiram: metalismo, colbertismo, comercial, etc., cada um necessariamente visava o lucro máximo com a menor despesa possível. Nesse ponto, as cidades foram as responsáveis por implantar essa nova prática econômica. Se antes as terras eram os bens de maior valor no período medieval, nessa época, os comerciantes procuravam por patrimônios móveis, ou seja, algo que eles pudessem vender facilmente para poder lucrar, ou algo que pudessem transportar.

"O homem da cidade via a terra e a habitação sob um prisma diferente do senhor feudal. O homem da cidade poderia, de repente, precisar de algum dinheiro para inverter em negócios, e gostava de pensar que podia hipotecar ou vender sua propriedade para obtê-lo, sem pedir permissão para uma série de proprietários". (HUBERMAN, 1976, p. 38).

"Nos primórdios do feudalismo, a terra, sozinha, constituía a medida da riqueza do homem. Com a expansão do comércio, surgiu um novo tipo de riqueza - a riqueza em dinheiro. No inicio da era feudal, o dinheiro era inativo, fixo, móvel; agora tornara-se ativo, vivo, fluido. No inicio da era feudal, os sacerdotes e guerreiros, proprietários de terras, se achavam num dos extremos da escala social, vivendo do trabalho dos servos, que se encontravam no outro extremo. Agora, um novo grupo surgia - a classe média, vivendo de uma forma nova, da compra e da venda. No período feudal, a posse da terra, a única fonte de riqueza, implicava o poder de governar para o clero e a nobreza. Agora, a posse do dinheiro, uma nova fonte de riqueza, trouxera consigo a partilha no governo, para a nascente classe média".(HUBERMAN, 1976, p. 44).

Com essa mudança de visão sobre o bem econômico, a Europa mergulhou em um período no qual ter terras não era necessariamente ser um homem rico, mas saber como comercializar isso lhe traria grande riqueza. A própria burguesia começou a se tornar um classe forte e influente a partir do século XVI até o XVIII quando a nobreza barra sua ascensão. Mas, com a queda do Antigo Regime, a burguesia voltou a crescer novamente.

Jean-Baptiste Colbert
Outro ponto que devo destacar a respeito dessa ideia de mercantilismo, é que com a descoberta das Américas e posteriormente de ouro e prata na América Latina, uma verdadeira corrida aconteceu durante dois séculos; espanhóis, portugueses, holandeses, franceses, ingleses, etc., correram para o Novo Mundo atrás de um pedacinho se quer dessa riqueza. Como eu já havia dito anteriormente, o mercantilismo metalista visava a acumulação de metais preciosos, ou seja, quanto mais ouro e prata um país tivesse, mais rico esse seria. Já o colbertismo visava o emprego desses metais para se construir manufaturas no reino, e poder comercializar esta com outros países e com suas próprias colônias. Tal sistema econômico fora concebido por Jean-Baptiste Colbert (1619-1683), primeiro-ministro de Luis XIV.

Outro fato que deve se destacar, que em meio a este novo mercado competitivo, para ver quem lucrava mais nas Índias, na África e nas Américas, muitos mercadores não eram tão ricos a ponto de poderem investir nessas longas viagens marítimas e para se resolver isso, as pequenas ligas mercantis se tornaram grandes companhias marítimas.  Dentre estas, duas foram de maior importância: a Companhia das Índias Ocidentais e a Companhia das Índias Orientais (nesse caso, esta se refere as Américas). Tais companhias não somente visavam patrocinar os pequenos mercadores, mas, essencialmente criar um monopólio controlado por essas. De fato, foram criadas várias companhias das Índias Ocidentais e das Índias Orientais em diferentes países. Como já fora dito, o capitalismo é essencialmente competitivo.


Bandeira da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Em holandês "Vereenigde Oost-Indische Compagnie".
O grande papel dessas companhias não só fora somente de empreender as viagens marítimas, mas também de administrar a exploração das colônias conjuntamente com o Estado. Já que era o Estado que cedia o direito de um monopólio particular. No livro As veias abertas da América Latina, Eduardo Galeano conta de forma assombrosa como fora o processo de exploração feito nas colônias da Espanha na América Latina. Como a ganância européia levou a destruição de povos e de milhares de vidas, tudo pelo lucro.

Sociedade:


Charge francesa retratando os Três Estados.
A sociedade do Antigo Regime como hoje em dia, era bem desigual. Poucos eram os ricos e muitos eram os pobres. E a diferença entre estes era assombrosa. Muitos historiadores costumam dividir a sociedade do Antigo Regime em três grupos: o Primeiro Estado, composto pelo clero; o Segundo Estado, formado pela nobreza; e o Terceiro Estado, formado pela burguesia, camponeses, e o restante da população. O clero e a nobreza representavam a minoria da população, sendo estes isentos dos impostos. Quanto ao Terceiro Estado representavam a maioria da população e os responsáveis por manter o Estado, pagando os impostos, produzindo e comercializando. Algo que ainda hoje vemos. Porém mesmo entre estes "três estados" havia diferenças internas. Havia o alto clero, formado pelos bispos, abades e cônegos, sendo estes filhos de nobres. O baixo clero, era formado pelos vigários, curas e monges, sendo estes vindos da burguesia e da classe baixa. Sendo assim, não possuíam tantos recursos como o alto clero. Na nobreza havia a alta nobreza, advinda diretamente da família real, tendo sangue real, e a baixa nobreza, composta pelos nobres que adquiriram seus títulos por nomeação. No Terceiro Estado havia uma série de hierarquias.

"No cimo da ordem estavam os financistas, os oficiais e os grandes negociantes; esta alta burguesia, rica e culta, conseguiu um lugar prepoderante no Estado monárquico durante o reinado de Luís XIV, mas viu sua ascensão entravada pela nobreza do séc. XVIII, justamente quando se tornava economicamente mais importante". (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, p. 337).

"Abaixo da elite burguesa situavam-se os profissionais liberais, os pequenos comerciantes, os artesãos (pequena burguesia) e os trabalhadores. Abaixo da escala encontrava-se a plebe miserável, dependente e analfabeta, trabalhadores braçais (operários e camponeses), que formavam a maioria da população, privada pelo regime de toda a participação do poder politico. Este regime era uma monarquia de três faces: católica, feudal e absoluta". (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, p. 337).

Enquanto a plebe formada pelos operários e camponeses eram o substrato mais baixo do Terceiro Estado, a alta burguesia se sentia a ponto de se compararem a nobreza devido a seu dinheiro. A burguesia da Idade Média, não estava preocupada com o luxo em si, mas, em se acumular bens e enriquecer. Alguns autores mostram que as casas dos ricos burgueses não eram tão diferentes das casas dos pequenos comerciantes ou da plebe. Entretanto, por volta do século XVI ao XVIII, a burguesia chegou num ponto de ficar tão rica, que estes começaram a tentar agir como os nobres. Construindo grandes casas, realizando grandes festas, usando roupas caras e luxuosas. Algo que alguns historiadores chamam de "pseudonobres", ou seja, eles não eram nobres, devido a falta dos títulos nobiliárquicos, mas, procuravam forjar uma imagem de nobreza através do luxo.

Outro ponto que devo destacar é a influência da Igreja nessa época. Por mas, que ela tenha perdido muito de sua glória de outrora, esta ainda mantinha o prestigio e sua reputação como o estrato social mais alto da sociedade. Devo ressalvar que a Igreja Católica era uma das instituições mais ricas do mundo. Mas, se por esse lado a Igreja perdera grande parte de sua antiga influência, a nobreza tivera um grande poder sobre o povo, algo que denota o absolutismo, e como já fora tratado anteriormente sobre a questão da divinização dos monarcas. Porém quero abrir um espaço aqui para tratar rapidamente da questão de como era a vida da corte nessa época, visando principalmente a corte francesa.

Durante o reinado de Luís XIV este mandou construir um novo palácio fora de Paris, mais exatamente em Versalhes, onde tal palácio veio a ser a nova "capital" do Reino da França. De fato o Palácio de Versalhes até 1790 fora o centro do poder da França. Luis XIV tinha como plano concentrar toda a corte em um único lugar, onde esta pudesse ficar diretamente sob seus olhos para que eventuais traições não viessem ocorrer. Essencialmente a sociedade de corte se desenvolvia neste palácio e posteriormente a partir do reinado de Luis XV e de Luis XVI nos hótels (residência da aristocracia da corte) e em outros pequenos palácios que se desenvolveram, já que o frágil governo destes dois reis gerou a dispersão da nobreza. E outro ponto fundamental também fora o enriquecimento da burguesia, que fez a corte perder sua influência social como diz Norbert Elias.

Mas, se por um lado a corte representou o centro social por longos anos, a rígida etiqueta de corte a qual alcançara o auge no reinado de Luis XIV fora gradativamente caindo nos anos seguintes.

"Se todos cumpriam a etiqueta contrariados, não podiam romper com elas; e não só porque o rei exigia a sua manutenção, mas porque a existência social dos indivíduos envolvidos estava ligada a ela. Quando Maria Antonieta começou a mexer em certas regras tradicionais da etiqueta, foia a própria ata nobreza que protestou, o que de fato é bastante compreensível. Pois, se até então era privilégio de uma duquesa ter a permissão de sentar-se na presença da rainha, significava uma profunda ofensa para a duquesa ver pessoas de níveis inferiores com o mesmo privilégio". (ELIAS, 2001, pp. 100-101).

"A ascensão ou a queda em tal hierarquia significava tanto para os cortesãos quanto o ganho ou a perda do comerciante em seus negócios". (ELIAS, 2001, p. 111).

Para a nobreza a etiqueta, era uma forma de ascensão de prestigio social, status e honra. poder participar de algumas atividades ao lado do rei e a rainha era algo fundamental para a hierarquia da corte. E por outro lado isso legitimava sua dignidade como nobre, entre os próprios nobres. Para o nosso olhar do presente, isso pode parecer futilidade, mas era algo de sua cultura e de seus costumes. Não podemos julgar os costumes do passado sobre a óptica do presente se antes entender para que eles serviam. E além do mais, o que pode parecer absurdo para nós hoje, era totalmente comum antigamente.

O fim do Antigo Regime:

Se o Antigo Regime se iniciou na França, também fora nesta que ele essencialmente acabou. Por mas que outros países ainda mantiveram características do Antigo Regime, sua grande representação caiu de vez com a Revolução Francesa em 1789. Como a história a respeito da Revolução Francesa é um pouco longa, não irei contar-la totalmente aqui, mas, sim alguns motivos que levaram ao seu desencadeamento.

Os meados do século XVIII marcou uma profunda transformação social na França. O fraco governo de Luis XVI havia a muito perdido sua forte influência de outrora. A burguesia se tornava cada vez mais rica e influente. A plebe estava cade vez mais pobre e mais revoltada contra o Estado, algo que Tocqueville diz que no século XVIII a vida do camponês era mais difícil do que fora no século XIII. Muitos impostos massacravam o Terceiro Estado, para o usufruto da nobreza. Além disso, a economia do Estado sofreu duro golpes com várias batalhas travadas que acabaram gerando somente um maior prejuízo ao país, além de também de perder algumas de suas colônias para a Inglaterra. Isso levou o Estado a aumentar os impostos para recuperar as finanças do país. Fora o próprio problema gerado pelas guerras, pela peste e pela fome, já que algumas vezes faltou pão para alimentar o povo.

Mas, por outro lado se no passado alguns filósofos defendiam o absolutismo, no século XVIII, o chamado Século das Luzes, o Iluminismo entraria em confronto com este velho dogma. Filósofos como Rousseau, Voltaire, Saint-Simon, Montesquieu, Locke, Kant, Hume, Diderot e d'Alembert e dentre tantos outros, produziram vários trabalhos acerca do estudo do homem, e sobre as formas de governo. E nesse caso, os iluministas eram contra a opressão do absolutismo e visavam um Estado republicano, livre e igualitário. De fato o lema da Revolução Francesa era: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

"Os nobres muito desprezaram a administração propriamente dita, apesar de vez ou outra procurá-la. Até no abandono do seu antigo poder guardavam algo do orgulho dos seus pais tão inimigos da servidão quanto da regra. Pouco se preocupavam com a liberdade geral dos cidadãos e admitiam de bom grado o peso da mão do poder em sua volta, mas não admitiam este peso neles próprios". (TOCQUEVILLE, 1997, p. 124).

Com a Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789, onde uma grande massa de camponeses, operários e outros cidadãos invadiram a prisão que era a Bastilha e libertaram seus prisoneiros além de incendiarem o local, este fora o estopim para a grande Revolução. Munidos de suas ferramentas agrícolas  pedaços de pau, e pedras, o povo invadiu as ruas e se pôs a confrontar o exército, e a nobreza. O próprio Palácio de Versalhes fora sitiado e invadido.  O rei Luis XVI, a rainha Maria Antonieta e seus filhos foram feitos reféns e levados para Paris, onde ficaram em cárcere domiciliar até que o novo governo que se formava decidi-se o que seria feito com eles. A revolução havia começado e duraria pelos dez anos seguintes.


Pintura retratando a Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789, data que marcou o início da Revolução Francesa.
"O povo oprimido é como um leão acossado. Quando não há mais saída, este explode em cólera".
Leandro Vilar


NOTA: Em 1793, o rei Luis XVI e a rainha Maria Antonieta foram decapitados na guilhotina.
NOTA 2: Em 1789 fora aprovada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, rompendo de vez com os direitos feudais que ainda prevaleciam no Antigo Regime.
NOTA 3: A Revolução Americana de 1776, serviu de inspiração para a Revolução Francesa.
NOTA 4: Jean-Jacques Rousseau escreveu o Contrato Social, livro de grande influência para as revoluções e modelos políticos após a Revolução Francesa.
NOTA 5: Em outras nações como Portugal e Rússia o absolutismo ainda demorou a terminar. Em Portugal o absolutismo fora encerrado em 1820 a partir da Revolta do Porto que obrigou D. João VI a deixar o Brasil e retornar para Portugal a fim de assinar uma Constituição. No caso da Rússia o absolutismo acabou em 1917 quando o czar Nicolau II fora destronado pela Revolução Russa

Referências Bibliografias:
TOCQUEVILLE, Alexis de. O Antigo Regime e a Revolução, Brasilia, Editora Universidade de Brasília, 1997.
HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem, Rio de Janeiro, Zahar, 1976.
ELIAS, Norbert. A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte, Rio de Janeiro, Zahar, 2001.
KOSMINSKY, E. A. História da Idade Média, Rio de Janeiro, Editorial Vitória, 1963.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural. São Paulo, Nova Cultural, 1998.

Links relacionados:
Nos deem comida. O povo tem fome
Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão
O Rei-Sol
A Revolução Francesa: Liberdade

domingo, 25 de abril de 2010

A Revolução Bolivariana e as Antilhas


Reflexões de Fidel A Revolução Bolivariana e as Antilhas

Eu gostava da história como quase todos os garotos. Também gostava das guerras, uma cultura implantada pela sociedade nas crianças do sexo masculino. Todos os brinquedos que recebíamos eram armas.

No tempo de minha infância, fui enviado para uma cidade, onde nunca fui levado ao cinema. Na época, não existia a televisão e, na casa onde eu morava, não havia rádio. Eu tinha que usar a imaginação.

Na primeira escola que freqüentei como interno, lia com espanto sobre o Dilúvio Universal e a Arca de Noé. Mais tarde, achei que era, talvez, um vestígio que a humanidade guardava da última mudança climática na história da nossa espécie. Foi, possivelmente, o fim do último período glacial, que supostamente aconteceu há muitos milhares de anos.

Como é de supor, mais tarde li com avidez as histórias de Alexandre, César, Aníbal, Bonaparte e, com certeza, todo livro que caía nas minhas mãos sobre Maceo, Gómez, Agramonte e outros brilhantes soldados que lutaram pela nossa independência. Não tinha cultura suficiente para compreender o que havia por trás da história.

Mais adiante, centrei minha atenção em Martí. Na verdade, a ele devo os meus sentimentos patrióticos e o conceito profundo de que "Pátria é humanidade". A audácia, a beleza, o valor e a ética de seu pensamento contribuíram para me tornar o que eu acho que sou: um revolucionário. Sem ser martiano, não se pode ser bolivariano; sem ser martiano e bolivariano, não se pode ser marxista, e sem ser martiano, bolivariano e marxista, não se pode ser antiimperialista; sem ser as três coisas não se podia conceber uma Revolução em Cuba na nossa época.

Há quase dois séculos, Bolívar quis enviar uma expedição chefiada por Sucre para libertar Cuba, que muito precisava disso, na década de 1820, como colônia canavieira e cafeeira espanhola, com 300 mil escravos trabalhando para os proprietários brancos.

Frustrada a independência e transformada numa neocolônia, em Cuba jamais se podia alcançar a dignidade plena do homem, sem uma revolução que eliminasse a exploração do homem pelo homem.

"...eu quero que a lei primeira da República seja o culto dos cubanos à dignidade plena do homem."

Martí, com seu pensamento, inspirou o valor e a convicção que levou o nosso Movimento a atacar a fortaleza do Moncada, o qual jamais teria passado por nossas cabeças, sem as ideias de outros grandes pensadores como Marx e Lenin, que nos fizeram ver e compreender as realidades tão diferentes da nova era que estávamos vivendo.

Durante séculos, em nome do progresso e do desenvolvimento, em Cuba se justificava a odiosa propriedade latifundiária e a força de trabalho escrava, que foi precedida pelo extermínio dos antigos habitantes destas ilhas.

De Bolívar, Martí disse algo maravilhoso e digno de sua gloriosa vida: 

"...o que ele não fez, hoje ainda continua sem fazer: porque Bolívar ainda tem muita coisa a fazer na América."

"Diga a Venezuela em que posso servi-la: ela tem um filho em mim."

Na Venezuela, quanto nas Antilhas, fizeram outras, a potência colonial cultivou cana-de-açúcar, café, cacau, e levou também como escravos homens e mulheres da África. A resistência heróica dos indígenas, apoiando-se na natureza e na vastidão do território venezuelano, impediu o aniquilamento dos habitantes autóctones.

Exceto uma parte, ao Norte do hemisfério, o imenso território da Nossa América ficou nas mãos de dois reis da Península Ibérica.

Sem temor, pode-se afirmar que, durante séculos, nossos países e o fruto do trabalho dos seus povos foram saqueados e continuam sendo saqueados pelas grandes empresas multinacionais e pelas oligarquias que estão a serviço dele.

Ao longo dos séculos 19 e 20, quer dizer, durante quase 200 anos, após a independência formal da comunidade ibero-americana, nada mudou na essência. Os Estados Unidos, a partir das Treze Colônias inglesas que se rebelaram, expandiram-se para o Oeste e para o Sul. Comprou Louisiana e a Flórida, arrebatou mais da metade de seu território ao México, intervieram na América Central e se apoderaram da área do futuro Canal do Panamá, que ligaria os grandes oceanos do Leste e do Oeste do continente por um ponto onde Bolívar desejava criar a capital da maior das repúblicas, que nasceria da independência das nações da América.

Naquela época, o petróleo e o etanol não eram comercializados no mundo, nem existia a OMC. A cana-de-açúcar, o algodão e o milho eram cultivados por escravos. As máquinas ainda não haviam sido inventadas. Avançava com força a industrialização a partir do carvão.

As guerras impulsionaram a civilização, e a civilização impulsionou as guerras. Estas mudaram o caráter e se tornaram mais terríveis. Finalmente, converteram-se em conflitos mundiais.

Por fim, éramos um mundo civilizado. Inclusive, o consideramos uma questão de princípios.

Mas, não sabemos o que fazer com a civilização alcançada. O ser humano dotou-se de armas nucleares de impensável certeza e aniquiladora potência, enquanto do ponto de vista moral e político, recua vergonhosamente. Política e socialmente, estamos mais subdesenvolvidos que antes. Os autômatos estão substituindo os soldados, a mídia substitui os educadores, e os governos começam a se desesperar pelos acontecimentos sem saber o quê fazer. Muitos líderes políticos internacionais, no seu desespero, perdem as forças diante dos problemas que se acumulam em seus gabinetes de trabalho e as reuniões internacionais são cada vez mais freqüentes.

Nessas circunstâncias, no Haiti tem lugar uma catástrofe sem precedentes, enquanto no outro lado do planeta continuam se travando três guerras e a corrida aos armamentos, em meio à crise econômica e aos conflitos recentes, que consomem mais de 2,5% do PIB mundial. Com tal cifra poderiam se desenvolver em pouco tempo todos os países do Terceiro Mundo e talvez evitar a mudança climática, dedicando os recursos econômicos e científicos, que são imprescindíveis, para esse objetivo.

A credibilidade da comunidade mundial recebeu recentemente um duro golpe em Copenhague, e nossa espécie não está mostrando capacidade para sobreviver.

A tragédia do Haiti me permite expor minha opinião a partir do que a Venezuela tem feito com os países do Caribe. Enquanto em Montreal as grandes instituições financeiras hesitam o quê fazer no Haiti, a Venezuela não hesita um minuto em cancelar a dívida econômica desse país, que é de US$167 milhões.
Durante quase um século, as maiores multinacionais extraíram e exportaram o petróleo venezuelano a preços ínfimos. Durante decênios, a Venezuela tornou-se o maior exportador mundial de petróleo.

Como é sabido, quando os Estados Unidos despenderam centenas de bilhões de dólares em sua guerra criminosa no Vietnã, matando e deixando mutilados milhões de filhos desse povo heróico, também romperam unilateralmente o acordo de Bretton Woods, suspendendo a conversão do dólar em ouro, conforme estabelecia o acordo, e lançando sobre a economia mundial o custo dessa guerra suja. A moeda norte-americana desvalorizou-se e o ingresso de divisas dos países caribenhos não dava nem para pagar o petróleo. Suas economias baseiam-se no turismo e nas exportações de açúcar, café, cacau e outros produtos agrícolas. Um golpe demolidor ameaçava as economias dos Estados do Caribe, com a exceção de dois deles, exportadores de energia.

Outros países desenvolvidos eliminaram as preferências alfandegárias às exportações agrícolas caribenhas, como a da banana; a Venezuela teve um gesto sem precedentes: garantiu à maioria desses países fornecimentos seguros de petróleo e facilidades especiais de pagamento.

Contudo, ninguém se preocupou pelo destino desses povos. Se não tivesse sido pela República Bolivariana, uma terrível crise teria atingido os Estados independentes do Caribe, exceto Trindade e Tobago e Barbados. No caso de Cuba, após a URSS ter colapsado, o governo bolivariano impulsionou um crescimento extraordinário do comércio entre ambos os países, que incluía o intercâmbio de bens e serviços, o qual nos permitiu encarar um dos períodos mais duros de nossa gloriosa história revolucionária.

O melhor aliado dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, o mais baixo e vil inimigo do povo, foi o farsante e enganoso Rómulo Betancourt, o presidente eleito da Venezuela quando triunfou a Revolução em Cuba em 1959.

Ele foi o principal cúmplice dos ataques piratas, dos atos terroristas, das agressões e do bloqueio econômico a nossa pátria. Quando nossa América mais necessitava, estourou finalmente a Revolução Bolivariana.

Convidados a Caracas por Hugo Chávez, os membros da ALBA comprometeram-se a dar o máximo apoio ao povo haitiano no momento mais triste da história desse povo lendário, que levou a cabo a primeira Revolução social vitoriosa na história do mundo, quando centenas de milhares de africanos, ao se revoltarem e criarem no Haiti uma República a milhares de milhas de sua terra natal realizaram uma das mais gloriosas ações revolucionárias deste hemisfério. No Haiti, há sangue negro, índio e branco; a República nasceu dos conceitos de igualdade, justiça e liberdade para todos os seres humanos.

Há dez anos, no momento em que o Caribe e a América Central perderam dezenas de milhares de vidas na tragédia provocada pelo furacão Mitch. Foi criada em Cuba a Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM) para formar médicos latino-americanos e caribenhos que, um belo dia, salvariam milhões de vidas, mas especialmente e acima de tudo, seriam exemplo no nobre exercício da profissão médica. No Haiti, junto com os cubanos, estarão dezenas de jovens venezuelanos e mais outros latino-americanos graduados na ELAM. De todos os cantos do continente, chegam notícias de muitos companheiros que estudaram na ELAM, que desejam colaborar ao lado deles na nobre tarefa de salvar vidas de crianças, mulheres e homens, jovens e idosos.

Haverá dezenas de hospitais de campanha, centros de reabilitação e hospitais, onde prestarão serviço mais de mil médicos e estudantes dos últimos anos do curso de medicina, procedentes do Haiti, da Venezuela, de Santo Domingo, da Bolívia, da Nicarágua, do Equador, do Brasil, do Chile, e demais países irmãos. Temos a honra de contar com um número de médicos norte-americanos que também estudou na ELAM. Estamos dispostos a cooperar com aqueles países e instituições que desejem participar destes esforços para prestar serviços médicos no Haiti.

A Venezuela já entregou barracas, equipamentos médicos, remédios e alimentos. O governo do Haiti prestou toda sua cooperação e apoio a este esforço para levar gratuitamente os serviços de saúde ao maior número possível de haitianos. Para todos nós, será um consolo em meio à maior tragédia ocorrida em nosso hemisfério.


Fidel Castro Ruz
7 de fevereiro de 2010
20h46