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Leandro Vilar

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Antigo Regime

Alexis de Tocqueville
O Antigo Regime, foi um termo criado pelo historiador francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), para se referir ao sistema político, econômico e social que se originou na França, e posteriormente se difundiu ao longo dos séculos XVI ao XVIII pela Europa Ocidental, abrangido suas colônias nas Américas e no restante do mundo. A estrutura do Antigo Regime é marcado pela forte centralização do Estado na mão do rei, algo conhecido como monarquia absolutista, a qual teve como grande modelo o monarca Luís XIV de França; na economia se nota a substituição da economia basicamente rural pela ascensão do comércio, e junto a este o capitalismo. Nessa época chamado de mercantilismo. No âmbito social esse período marcou um forte contraste de desigualdade social; poucos eram os ricos e muitos eram os pobres. Países como Inglaterra, Portugal, Espanha, França e Holanda enriqueceram rapidamente as custas da exploração da América. E por outro lado isso gerou uma forte miséria nos povos que ali viviam e na própria Europa, devido ao fato de não se haver uma divisão digna dos bens.

Sendo assim, após essa breve introdução do que foi o Antigo Regime, partirei para explicar mais a fundo alguns de seus principais aspectos, que marcaram o período da História Moderna. Para isso devemos primeiro voltar um pouco antes na história, para entender o que ocorreu na transição do feudalismo para o mercantilismo e da Idade Média para a Idade Moderna.

Basicamente ao longo do período medieval (476-1453) a economia fora basicamente agrícola e pecuária, voltada para o sustento próprio. O comércio nessa época era muito escasso. Por outro lado, as terras pertenciam ao rei, e este as dividia entre seus vassalos, os senhores feudais, os quais eram quase como "reis" em suas terras. Sendo assim, o Estado medieval era marcado pela descentralização do poder, o qual era repartido por vários governantes. Na questão social, grande parte da população vivia no campo, sendo parte desta serva de um senhor, e a minoria sendo "livre". Entretanto, somente a nobreza e a aristocracia era que tinha acesso aos lucros, ainda não existia uma burguesia propriamente dita. Outro questão que contribuía para o não crescimento do comércio e da centralização das terras era a intervenção da Igreja. A qual era proprietária de grande parte das terras nos reinos. E praticamente estas terras eram submetidas quase que exclusivamente ao poder da Igreja e não dos reis. Quanto a questão do comércio havia o crime da usura.

Entretanto por volta do século XIV e XV as cidades começaram a reflorescer, graças ao investimento dos comerciantes. Estes locais passaram a se chamarem de burgos, os quais eram construídos ao lado das antigas cidades feudais. A população que vivia nesses burgos, passou a ser chamada de burgueses. Esses burgueses para darem continuidade em seu trabalho precisavam de apoio de alguém. As estradas não eram seguras, eram cheias de ladrões. Nos mares rondavam piratas. A única solução que fora encontrada para se cuidar destes problemas fora os comerciantes se unirem para formarem companhias, guildas e ligas mercantis, para terem maiores chances de se enfrentar estes problemas. No entanto, outro ponto interessante é que as cidades voltaram a florescer e começaram a novamente ser alvo de assaltos. Por isso que os burgos eram fortificados, e para suprir a necessidade de defesa, os reis passaram a fornecer soldados para as cidades em troca de pagamento.


Gravura de uma cidade e um burgo fora das muralhas desta. 
"Os direitos que mercadores e cidades conquistaram refletem a importância crescente do comércio como fonte de riqueza. E a posição dos mercadores na cidade reflete a importância crescente da riqueza em capital em contraste com a riqueza em terras". (HUBERMAN, 1976, p. 44).

Sendo assim, nascia um novo contrato entre o rei e os burgueses. Os reis querendo retomar o controle de suas terras, de enriquecer e ter mais poder, se aliaram aos burgueses para conseguir sua ascensão. Em poucas palavras, os burgueses enriquecendo, dariam mais dinheiro ao rei para este poder manter a ordem no reino, e consequentemente os reis se tornariam mais ricos. De fato isso contribuiu para o fortalecimento do Estado real, e sua centralização nas mãos dos monarcas.

"O rei fora um aliado forte das cidades na luta contra os senhores. Tudo que reduzisse a força dos barões fortalecia o poder real. Em recompensa pela ajuda, os cidadãos estavam prontos a auxiliá-lo com empréstimos de dinheiro. Isso era importante, porque com o dinheiro o rei podia dispensar a ajuda militar de seus vassalos. Podia contratar e pagar um exército pronto, sempre a seu serviço, sem depender da lealdade de um senhor". (HUBERMAN, 1976, pp. 80-81).

Mas, não obstante, devo prosseguir de fato para explicar com maiores detalhes a organização da estrurura do Antigo Regime, devo dizer aqui, para muitos historiadores, como o próprio Tocqueville afirma, o Antigo Regime se iniciou na França, e depois se espalhou para os outros países. Entretanto, as características que serão dadas a seguir muitas remetem ao Estado francês o qual de certa forma fora o mais absolutista que houve nesse período.

Política e administração:


Se na Idade Média, o rei não tinha um total controle do seu reino, havendo vários problemas de se manter a ordem e a paz entre seus vassalos, que constantemente lutavam hora com os bárbaros invasores, ou lutavam entre si, guerras entre feudos. No século XVI em diante, isso acabaria.

"As cidades têm constituições muito diversas. Seus magistrados têm nomes diferentes ou tiram seus poderes de diversas fontes: aqui um prefeito, lá cônsules, alhures síndicos. Alguns são escolhidos pelo rei, outros pelo antigo senhor ou príncipe apanagista; um são eleitos pelos concidadãos para um prazo de um ano e outros que compraram o direito de governar permaneceram no poder ad aeternum. Estes são os destroços dos antigos poderes [...]". (TOCQUEVILLE, 1997, p. 78).

Por mas que digam que a Idade Média era um período de "trevas", havia uma certa ordem no poder. No entanto, como ficou claro na citação acima, todo mundo queria mandar ao mesmo tempo. E as vezes não se sabia afinal que era que estava mandando. E para se resolver tal problema, fora restituído o antigo Conselho do rei ou Conselho Real. Desde a antiguidade existia conselhos de reis. Porém com o tempo isso fora perdendo espaço e força, principalmente no medievo. Agora restituído, o conselho seria o centro politico, administrativo e judiciário do Estado. Tudo seria levado para ser resolvido lá. Os governadores, prefeitos, juízes, inspetores, fiscais, tabeliães, etc. Todos seriam eleitos pelo conselho. Se uma guerra fosse ocorrer, teria que se ter a permissão do rei. Vários outros cargos administrativos como o controlador geral, comissário, delegado, subdelegado, inspetor, censoretc., passaram a ser mais regularizados e terem uma maior eficiência em suas atividades. Nesse ponto, o governo de fato se tornou tão centralizado, a ponto de se tornar opressor.

"Como o conselho do governo exerce, além do mais, sob o bel-prazer do rei, o poder legislativo, discutindo e propondo a maioria das leis e também fixando e ordenando os impostos. Como conselho superior de administração cabe-lhe estabelecer as regras gerais que devem orienta os agentes do governo. Resolve todos os negócios importantes e controla os poderes secundários. [...]. É o rei e só o rei quem decide, mesmo quando o conselho parece pronunciar-se". (TOCQUEVILLE, 1997, p. 78).

Entretanto, Tocqueville deixa um fato curioso em seu estudo. Ele diz que por mais que o conselho cuide da questão judiciária, este atuaria mais como um fiscalizador do que a instância na qual exerce o poder judicial. isso cabe aos ministérios. Entretanto, os ministros estavam sob a vontade do rei.

''O governo central encarregava-se sozinho, com a ajuda de seus agentes, de manter a ordem pública nas províncias. A policia montada espalhava-se em toda a superfície do reino em pequenas brigadas, dependendo sempre dos intendentes. E com a ajuda destes soldados e, quando necessário, do exército, que o intendente enfrentava os perigos imprevistos, prendia os vagabundos, reprimia a mendicância e reprimia as matins que o preço do grão provocava sem cessar". (TOCQUEVILLE, 1997, pp. 80-81).

Por mais que esta política parecesse ser promissora, de fato ela pôde colocar ordem no Estado. Porém devo ressalvar que o Antigo Regime, fora um período bem conturbado na Europa, várias guerras eclodiram. Muitas pessoas morreram, plantações foram arrasadas, o Estado gastou muito dinheiro nas batalhas, e como forma de se recuperar o que havia sido gasto, passou cada vez mais a explorar o povo. Constantemente o Estado expedia leis, literalmente obrigando um maior desempenho dos camponeses e artesãos em seus ofícios. Inspetores eram responsáveis pela fiscalização e quem não cumprisse com as normas era multado.

"A correspondência do intendente com os subdelegados demonstra que o governo intrometia-se realmente em todos os negócios da cidade tanto pequenos como grandes. É consultado sobre tudo e opina sobre tudo, chegando até a regulamentar festas". (TOCQUEVILLE, 1997, p. 85).

Por mas que digam que a politica do Antigo Regime fosse centralizadora, ela não deixava de ser autoritária em muitos aspectos. Mas, a contradição era que mesmo o povo se sentido oprimido pelas cobranças do Estado, hora ou outra se revoltando com os impostos, a figura do rei, era algo essencial nessa cultura. No livro A sociedade de Corte de Norbert Elias, ele demonstra até que ponto o papel da figura do rei, era importante para se manter a organização da corte, da nobreza, e do Estado. Muitos dos costumes daquela época que podem parecer fúteis para nós era algo que era necessário se fazer para se manter a honra, se conseguir prestígio social etc. Devo lembrar que havia uma grande dicotomia entre a sociedade nessa época. Por isso mais a frente abordarei esta desigualdade.

Rei Luís XIV de França
Se o rei era o centro do Estado, algo que ficou marcado na frase de Luís XIV "L'État c'est moi" (O Estado sou eu). Não há razão para se discordar disso de certa forma. Como já pode ser visto anteriormente. Porém a outros dois pontos que contribuem para a garantia do poder absolutista. Como fora visto anteriormente na transição do medievo para a era moderna, os reis só conseguiram recobrar seus poderes graças ao apoio da burguesia, que lhe deram dinheiro e armas para poder levar a cabo seus planos. Não obstante, outro fundamento que reforçava esta questão do poder do rei, fora elaborado pelo bispo e teólogo francês, Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), o qual defendia o direito divino dos reis governarem. Para ele a monarquia absolutista não seria um crime, mas sim um direito do governante dado por Deus para se governar os homens. Fato este que se evidência no egocentrismo de Luís XIV de se chamar de Rei-sol. A ideia de divinização dos reis não era algo que fora concebido na Idade Moderna, desde à Antiguidade, entre diferentes povos como incas, egípcios, chineses, etc., seus reis eram vistos como seres divinos.

Economia:

Como já foi visto, a economia fora paulatinamente deixando de ser principalmente rural, para ingressar no mercantilismo capitalista. Essencialmente das diferentes formas de mercantilismo que surgiram: metalismo, colbertismo, comercial, etc., cada um necessariamente visava o lucro máximo com a menor despesa possível. Nesse ponto, as cidades foram as responsáveis por implantar essa nova prática econômica. Se antes as terras eram os bens de maior valor no período medieval, nessa época, os comerciantes procuravam por patrimônios móveis, ou seja, algo que eles pudessem vender facilmente para poder lucrar, ou algo que pudessem transportar.

"O homem da cidade via a terra e a habitação sob um prisma diferente do senhor feudal. O homem da cidade poderia, de repente, precisar de algum dinheiro para inverter em negócios, e gostava de pensar que podia hipotecar ou vender sua propriedade para obtê-lo, sem pedir permissão para uma série de proprietários". (HUBERMAN, 1976, p. 38).

"Nos primórdios do feudalismo, a terra, sozinha, constituía a medida da riqueza do homem. Com a expansão do comércio, surgiu um novo tipo de riqueza - a riqueza em dinheiro. No inicio da era feudal, o dinheiro era inativo, fixo, móvel; agora tornara-se ativo, vivo, fluido. No inicio da era feudal, os sacerdotes e guerreiros, proprietários de terras, se achavam num dos extremos da escala social, vivendo do trabalho dos servos, que se encontravam no outro extremo. Agora, um novo grupo surgia - a classe média, vivendo de uma forma nova, da compra e da venda. No período feudal, a posse da terra, a única fonte de riqueza, implicava o poder de governar para o clero e a nobreza. Agora, a posse do dinheiro, uma nova fonte de riqueza, trouxera consigo a partilha no governo, para a nascente classe média".(HUBERMAN, 1976, p. 44).

Com essa mudança de visão sobre o bem econômico, a Europa mergulhou em um período no qual ter terras não era necessariamente ser um homem rico, mas saber como comercializar isso lhe traria grande riqueza. A própria burguesia começou a se tornar um classe forte e influente a partir do século XVI até o XVIII quando a nobreza barra sua ascensão. Mas, com a queda do Antigo Regime, a burguesia voltou a crescer novamente.

Jean-Baptiste Colbert
Outro ponto que devo destacar a respeito dessa ideia de mercantilismo, é que com a descoberta das Américas e posteriormente de ouro e prata na América Latina, uma verdadeira corrida aconteceu durante dois séculos; espanhóis, portugueses, holandeses, franceses, ingleses, etc., correram para o Novo Mundo atrás de um pedacinho se quer dessa riqueza. Como eu já havia dito anteriormente, o mercantilismo metalista visava a acumulação de metais preciosos, ou seja, quanto mais ouro e prata um país tivesse, mais rico esse seria. Já o colbertismo visava o emprego desses metais para se construir manufaturas no reino, e poder comercializar esta com outros países e com suas próprias colônias. Tal sistema econômico fora concebido por Jean-Baptiste Colbert (1619-1683), primeiro-ministro de Luis XIV.

Outro fato que deve se destacar, que em meio a este novo mercado competitivo, para ver quem lucrava mais nas Índias, na África e nas Américas, muitos mercadores não eram tão ricos a ponto de poderem investir nessas longas viagens marítimas e para se resolver isso, as pequenas ligas mercantis se tornaram grandes companhias marítimas.  Dentre estas, duas foram de maior importância: a Companhia das Índias Ocidentais e a Companhia das Índias Orientais (nesse caso, esta se refere as Américas). Tais companhias não somente visavam patrocinar os pequenos mercadores, mas, essencialmente criar um monopólio controlado por essas. De fato, foram criadas várias companhias das Índias Ocidentais e das Índias Orientais em diferentes países. Como já fora dito, o capitalismo é essencialmente competitivo.


Bandeira da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Em holandês "Vereenigde Oost-Indische Compagnie".
O grande papel dessas companhias não só fora somente de empreender as viagens marítimas, mas também de administrar a exploração das colônias conjuntamente com o Estado. Já que era o Estado que cedia o direito de um monopólio particular. No livro As veias abertas da América Latina, Eduardo Galeano conta de forma assombrosa como fora o processo de exploração feito nas colônias da Espanha na América Latina. Como a ganância européia levou a destruição de povos e de milhares de vidas, tudo pelo lucro.

Sociedade:


Charge francesa retratando os Três Estados.
A sociedade do Antigo Regime como hoje em dia, era bem desigual. Poucos eram os ricos e muitos eram os pobres. E a diferença entre estes era assombrosa. Muitos historiadores costumam dividir a sociedade do Antigo Regime em três grupos: o Primeiro Estado, composto pelo clero; o Segundo Estado, formado pela nobreza; e o Terceiro Estado, formado pela burguesia, camponeses, e o restante da população. O clero e a nobreza representavam a minoria da população, sendo estes isentos dos impostos. Quanto ao Terceiro Estado representavam a maioria da população e os responsáveis por manter o Estado, pagando os impostos, produzindo e comercializando. Algo que ainda hoje vemos. Porém mesmo entre estes "três estados" havia diferenças internas. Havia o alto clero, formado pelos bispos, abades e cônegos, sendo estes filhos de nobres. O baixo clero, era formado pelos vigários, curas e monges, sendo estes vindos da burguesia e da classe baixa. Sendo assim, não possuíam tantos recursos como o alto clero. Na nobreza havia a alta nobreza, advinda diretamente da família real, tendo sangue real, e a baixa nobreza, composta pelos nobres que adquiriram seus títulos por nomeação. No Terceiro Estado havia uma série de hierarquias.

"No cimo da ordem estavam os financistas, os oficiais e os grandes negociantes; esta alta burguesia, rica e culta, conseguiu um lugar prepoderante no Estado monárquico durante o reinado de Luís XIV, mas viu sua ascensão entravada pela nobreza do séc. XVIII, justamente quando se tornava economicamente mais importante". (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, p. 337).

"Abaixo da elite burguesa situavam-se os profissionais liberais, os pequenos comerciantes, os artesãos (pequena burguesia) e os trabalhadores. Abaixo da escala encontrava-se a plebe miserável, dependente e analfabeta, trabalhadores braçais (operários e camponeses), que formavam a maioria da população, privada pelo regime de toda a participação do poder politico. Este regime era uma monarquia de três faces: católica, feudal e absoluta". (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, p. 337).

Enquanto a plebe formada pelos operários e camponeses eram o substrato mais baixo do Terceiro Estado, a alta burguesia se sentia a ponto de se compararem a nobreza devido a seu dinheiro. A burguesia da Idade Média, não estava preocupada com o luxo em si, mas, em se acumular bens e enriquecer. Alguns autores mostram que as casas dos ricos burgueses não eram tão diferentes das casas dos pequenos comerciantes ou da plebe. Entretanto, por volta do século XVI ao XVIII, a burguesia chegou num ponto de ficar tão rica, que estes começaram a tentar agir como os nobres. Construindo grandes casas, realizando grandes festas, usando roupas caras e luxuosas. Algo que alguns historiadores chamam de "pseudonobres", ou seja, eles não eram nobres, devido a falta dos títulos nobiliárquicos, mas, procuravam forjar uma imagem de nobreza através do luxo.

Outro ponto que devo destacar é a influência da Igreja nessa época. Por mas, que ela tenha perdido muito de sua glória de outrora, esta ainda mantinha o prestigio e sua reputação como o estrato social mais alto da sociedade. Devo ressalvar que a Igreja Católica era uma das instituições mais ricas do mundo. Mas, se por esse lado a Igreja perdera grande parte de sua antiga influência, a nobreza tivera um grande poder sobre o povo, algo que denota o absolutismo, e como já fora tratado anteriormente sobre a questão da divinização dos monarcas. Porém quero abrir um espaço aqui para tratar rapidamente da questão de como era a vida da corte nessa época, visando principalmente a corte francesa.

Durante o reinado de Luís XIV este mandou construir um novo palácio fora de Paris, mais exatamente em Versalhes, onde tal palácio veio a ser a nova "capital" do Reino da França. De fato o Palácio de Versalhes até 1790 fora o centro do poder da França. Luis XIV tinha como plano concentrar toda a corte em um único lugar, onde esta pudesse ficar diretamente sob seus olhos para que eventuais traições não viessem ocorrer. Essencialmente a sociedade de corte se desenvolvia neste palácio e posteriormente a partir do reinado de Luis XV e de Luis XVI nos hótels (residência da aristocracia da corte) e em outros pequenos palácios que se desenvolveram, já que o frágil governo destes dois reis gerou a dispersão da nobreza. E outro ponto fundamental também fora o enriquecimento da burguesia, que fez a corte perder sua influência social como diz Norbert Elias.

Mas, se por um lado a corte representou o centro social por longos anos, a rígida etiqueta de corte a qual alcançara o auge no reinado de Luis XIV fora gradativamente caindo nos anos seguintes.

"Se todos cumpriam a etiqueta contrariados, não podiam romper com elas; e não só porque o rei exigia a sua manutenção, mas porque a existência social dos indivíduos envolvidos estava ligada a ela. Quando Maria Antonieta começou a mexer em certas regras tradicionais da etiqueta, foia a própria ata nobreza que protestou, o que de fato é bastante compreensível. Pois, se até então era privilégio de uma duquesa ter a permissão de sentar-se na presença da rainha, significava uma profunda ofensa para a duquesa ver pessoas de níveis inferiores com o mesmo privilégio". (ELIAS, 2001, pp. 100-101).

"A ascensão ou a queda em tal hierarquia significava tanto para os cortesãos quanto o ganho ou a perda do comerciante em seus negócios". (ELIAS, 2001, p. 111).

Para a nobreza a etiqueta, era uma forma de ascensão de prestigio social, status e honra. poder participar de algumas atividades ao lado do rei e a rainha era algo fundamental para a hierarquia da corte. E por outro lado isso legitimava sua dignidade como nobre, entre os próprios nobres. Para o nosso olhar do presente, isso pode parecer futilidade, mas era algo de sua cultura e de seus costumes. Não podemos julgar os costumes do passado sobre a óptica do presente se antes entender para que eles serviam. E além do mais, o que pode parecer absurdo para nós hoje, era totalmente comum antigamente.

O fim do Antigo Regime:

Se o Antigo Regime se iniciou na França, também fora nesta que ele essencialmente acabou. Por mas que outros países ainda mantiveram características do Antigo Regime, sua grande representação caiu de vez com a Revolução Francesa em 1789. Como a história a respeito da Revolução Francesa é um pouco longa, não irei contar-la totalmente aqui, mas, sim alguns motivos que levaram ao seu desencadeamento.

Os meados do século XVIII marcou uma profunda transformação social na França. O fraco governo de Luis XVI havia a muito perdido sua forte influência de outrora. A burguesia se tornava cada vez mais rica e influente. A plebe estava cade vez mais pobre e mais revoltada contra o Estado, algo que Tocqueville diz que no século XVIII a vida do camponês era mais difícil do que fora no século XIII. Muitos impostos massacravam o Terceiro Estado, para o usufruto da nobreza. Além disso, a economia do Estado sofreu duro golpes com várias batalhas travadas que acabaram gerando somente um maior prejuízo ao país, além de também de perder algumas de suas colônias para a Inglaterra. Isso levou o Estado a aumentar os impostos para recuperar as finanças do país. Fora o próprio problema gerado pelas guerras, pela peste e pela fome, já que algumas vezes faltou pão para alimentar o povo.

Mas, por outro lado se no passado alguns filósofos defendiam o absolutismo, no século XVIII, o chamado Século das Luzes, o Iluminismo entraria em confronto com este velho dogma. Filósofos como Rousseau, Voltaire, Saint-Simon, Montesquieu, Locke, Kant, Hume, Diderot e d'Alembert e dentre tantos outros, produziram vários trabalhos acerca do estudo do homem, e sobre as formas de governo. E nesse caso, os iluministas eram contra a opressão do absolutismo e visavam um Estado republicano, livre e igualitário. De fato o lema da Revolução Francesa era: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

"Os nobres muito desprezaram a administração propriamente dita, apesar de vez ou outra procurá-la. Até no abandono do seu antigo poder guardavam algo do orgulho dos seus pais tão inimigos da servidão quanto da regra. Pouco se preocupavam com a liberdade geral dos cidadãos e admitiam de bom grado o peso da mão do poder em sua volta, mas não admitiam este peso neles próprios". (TOCQUEVILLE, 1997, p. 124).

Com a Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789, onde uma grande massa de camponeses, operários e outros cidadãos invadiram a prisão que era a Bastilha e libertaram seus prisoneiros além de incendiarem o local, este fora o estopim para a grande Revolução. Munidos de suas ferramentas agrícolas  pedaços de pau, e pedras, o povo invadiu as ruas e se pôs a confrontar o exército, e a nobreza. O próprio Palácio de Versalhes fora sitiado e invadido.  O rei Luis XVI, a rainha Maria Antonieta e seus filhos foram feitos reféns e levados para Paris, onde ficaram em cárcere domiciliar até que o novo governo que se formava decidi-se o que seria feito com eles. A revolução havia começado e duraria pelos dez anos seguintes.


Pintura retratando a Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789, data que marcou o início da Revolução Francesa.
"O povo oprimido é como um leão acossado. Quando não há mais saída, este explode em cólera".
Leandro Vilar


NOTA: Em 1793, o rei Luis XVI e a rainha Maria Antonieta foram decapitados na guilhotina.
NOTA 2: Em 1789 fora aprovada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, rompendo de vez com os direitos feudais que ainda prevaleciam no Antigo Regime.
NOTA 3: A Revolução Americana de 1776, serviu de inspiração para a Revolução Francesa.
NOTA 4: Jean-Jacques Rousseau escreveu o Contrato Social, livro de grande influência para as revoluções e modelos políticos após a Revolução Francesa.
NOTA 5: Em outras nações como Portugal e Rússia o absolutismo ainda demorou a terminar. Em Portugal o absolutismo fora encerrado em 1820 a partir da Revolta do Porto que obrigou D. João VI a deixar o Brasil e retornar para Portugal a fim de assinar uma Constituição. No caso da Rússia o absolutismo acabou em 1917 quando o czar Nicolau II fora destronado pela Revolução Russa

Referências Bibliografias:
TOCQUEVILLE, Alexis de. O Antigo Regime e a Revolução, Brasilia, Editora Universidade de Brasília, 1997.
HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem, Rio de Janeiro, Zahar, 1976.
ELIAS, Norbert. A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte, Rio de Janeiro, Zahar, 2001.
KOSMINSKY, E. A. História da Idade Média, Rio de Janeiro, Editorial Vitória, 1963.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural. São Paulo, Nova Cultural, 1998.

Links relacionados:
Nos deem comida. O povo tem fome
Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão
O Rei-Sol
A Revolução Francesa: Liberdade

domingo, 25 de abril de 2010

A Revolução Bolivariana e as Antilhas


Reflexões de Fidel A Revolução Bolivariana e as Antilhas

Eu gostava da história como quase todos os garotos. Também gostava das guerras, uma cultura implantada pela sociedade nas crianças do sexo masculino. Todos os brinquedos que recebíamos eram armas.

No tempo de minha infância, fui enviado para uma cidade, onde nunca fui levado ao cinema. Na época, não existia a televisão e, na casa onde eu morava, não havia rádio. Eu tinha que usar a imaginação.

Na primeira escola que freqüentei como interno, lia com espanto sobre o Dilúvio Universal e a Arca de Noé. Mais tarde, achei que era, talvez, um vestígio que a humanidade guardava da última mudança climática na história da nossa espécie. Foi, possivelmente, o fim do último período glacial, que supostamente aconteceu há muitos milhares de anos.

Como é de supor, mais tarde li com avidez as histórias de Alexandre, César, Aníbal, Bonaparte e, com certeza, todo livro que caía nas minhas mãos sobre Maceo, Gómez, Agramonte e outros brilhantes soldados que lutaram pela nossa independência. Não tinha cultura suficiente para compreender o que havia por trás da história.

Mais adiante, centrei minha atenção em Martí. Na verdade, a ele devo os meus sentimentos patrióticos e o conceito profundo de que "Pátria é humanidade". A audácia, a beleza, o valor e a ética de seu pensamento contribuíram para me tornar o que eu acho que sou: um revolucionário. Sem ser martiano, não se pode ser bolivariano; sem ser martiano e bolivariano, não se pode ser marxista, e sem ser martiano, bolivariano e marxista, não se pode ser antiimperialista; sem ser as três coisas não se podia conceber uma Revolução em Cuba na nossa época.

Há quase dois séculos, Bolívar quis enviar uma expedição chefiada por Sucre para libertar Cuba, que muito precisava disso, na década de 1820, como colônia canavieira e cafeeira espanhola, com 300 mil escravos trabalhando para os proprietários brancos.

Frustrada a independência e transformada numa neocolônia, em Cuba jamais se podia alcançar a dignidade plena do homem, sem uma revolução que eliminasse a exploração do homem pelo homem.

"...eu quero que a lei primeira da República seja o culto dos cubanos à dignidade plena do homem."

Martí, com seu pensamento, inspirou o valor e a convicção que levou o nosso Movimento a atacar a fortaleza do Moncada, o qual jamais teria passado por nossas cabeças, sem as ideias de outros grandes pensadores como Marx e Lenin, que nos fizeram ver e compreender as realidades tão diferentes da nova era que estávamos vivendo.

Durante séculos, em nome do progresso e do desenvolvimento, em Cuba se justificava a odiosa propriedade latifundiária e a força de trabalho escrava, que foi precedida pelo extermínio dos antigos habitantes destas ilhas.

De Bolívar, Martí disse algo maravilhoso e digno de sua gloriosa vida: 

"...o que ele não fez, hoje ainda continua sem fazer: porque Bolívar ainda tem muita coisa a fazer na América."

"Diga a Venezuela em que posso servi-la: ela tem um filho em mim."

Na Venezuela, quanto nas Antilhas, fizeram outras, a potência colonial cultivou cana-de-açúcar, café, cacau, e levou também como escravos homens e mulheres da África. A resistência heróica dos indígenas, apoiando-se na natureza e na vastidão do território venezuelano, impediu o aniquilamento dos habitantes autóctones.

Exceto uma parte, ao Norte do hemisfério, o imenso território da Nossa América ficou nas mãos de dois reis da Península Ibérica.

Sem temor, pode-se afirmar que, durante séculos, nossos países e o fruto do trabalho dos seus povos foram saqueados e continuam sendo saqueados pelas grandes empresas multinacionais e pelas oligarquias que estão a serviço dele.

Ao longo dos séculos 19 e 20, quer dizer, durante quase 200 anos, após a independência formal da comunidade ibero-americana, nada mudou na essência. Os Estados Unidos, a partir das Treze Colônias inglesas que se rebelaram, expandiram-se para o Oeste e para o Sul. Comprou Louisiana e a Flórida, arrebatou mais da metade de seu território ao México, intervieram na América Central e se apoderaram da área do futuro Canal do Panamá, que ligaria os grandes oceanos do Leste e do Oeste do continente por um ponto onde Bolívar desejava criar a capital da maior das repúblicas, que nasceria da independência das nações da América.

Naquela época, o petróleo e o etanol não eram comercializados no mundo, nem existia a OMC. A cana-de-açúcar, o algodão e o milho eram cultivados por escravos. As máquinas ainda não haviam sido inventadas. Avançava com força a industrialização a partir do carvão.

As guerras impulsionaram a civilização, e a civilização impulsionou as guerras. Estas mudaram o caráter e se tornaram mais terríveis. Finalmente, converteram-se em conflitos mundiais.

Por fim, éramos um mundo civilizado. Inclusive, o consideramos uma questão de princípios.

Mas, não sabemos o que fazer com a civilização alcançada. O ser humano dotou-se de armas nucleares de impensável certeza e aniquiladora potência, enquanto do ponto de vista moral e político, recua vergonhosamente. Política e socialmente, estamos mais subdesenvolvidos que antes. Os autômatos estão substituindo os soldados, a mídia substitui os educadores, e os governos começam a se desesperar pelos acontecimentos sem saber o quê fazer. Muitos líderes políticos internacionais, no seu desespero, perdem as forças diante dos problemas que se acumulam em seus gabinetes de trabalho e as reuniões internacionais são cada vez mais freqüentes.

Nessas circunstâncias, no Haiti tem lugar uma catástrofe sem precedentes, enquanto no outro lado do planeta continuam se travando três guerras e a corrida aos armamentos, em meio à crise econômica e aos conflitos recentes, que consomem mais de 2,5% do PIB mundial. Com tal cifra poderiam se desenvolver em pouco tempo todos os países do Terceiro Mundo e talvez evitar a mudança climática, dedicando os recursos econômicos e científicos, que são imprescindíveis, para esse objetivo.

A credibilidade da comunidade mundial recebeu recentemente um duro golpe em Copenhague, e nossa espécie não está mostrando capacidade para sobreviver.

A tragédia do Haiti me permite expor minha opinião a partir do que a Venezuela tem feito com os países do Caribe. Enquanto em Montreal as grandes instituições financeiras hesitam o quê fazer no Haiti, a Venezuela não hesita um minuto em cancelar a dívida econômica desse país, que é de US$167 milhões.
Durante quase um século, as maiores multinacionais extraíram e exportaram o petróleo venezuelano a preços ínfimos. Durante decênios, a Venezuela tornou-se o maior exportador mundial de petróleo.

Como é sabido, quando os Estados Unidos despenderam centenas de bilhões de dólares em sua guerra criminosa no Vietnã, matando e deixando mutilados milhões de filhos desse povo heróico, também romperam unilateralmente o acordo de Bretton Woods, suspendendo a conversão do dólar em ouro, conforme estabelecia o acordo, e lançando sobre a economia mundial o custo dessa guerra suja. A moeda norte-americana desvalorizou-se e o ingresso de divisas dos países caribenhos não dava nem para pagar o petróleo. Suas economias baseiam-se no turismo e nas exportações de açúcar, café, cacau e outros produtos agrícolas. Um golpe demolidor ameaçava as economias dos Estados do Caribe, com a exceção de dois deles, exportadores de energia.

Outros países desenvolvidos eliminaram as preferências alfandegárias às exportações agrícolas caribenhas, como a da banana; a Venezuela teve um gesto sem precedentes: garantiu à maioria desses países fornecimentos seguros de petróleo e facilidades especiais de pagamento.

Contudo, ninguém se preocupou pelo destino desses povos. Se não tivesse sido pela República Bolivariana, uma terrível crise teria atingido os Estados independentes do Caribe, exceto Trindade e Tobago e Barbados. No caso de Cuba, após a URSS ter colapsado, o governo bolivariano impulsionou um crescimento extraordinário do comércio entre ambos os países, que incluía o intercâmbio de bens e serviços, o qual nos permitiu encarar um dos períodos mais duros de nossa gloriosa história revolucionária.

O melhor aliado dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, o mais baixo e vil inimigo do povo, foi o farsante e enganoso Rómulo Betancourt, o presidente eleito da Venezuela quando triunfou a Revolução em Cuba em 1959.

Ele foi o principal cúmplice dos ataques piratas, dos atos terroristas, das agressões e do bloqueio econômico a nossa pátria. Quando nossa América mais necessitava, estourou finalmente a Revolução Bolivariana.

Convidados a Caracas por Hugo Chávez, os membros da ALBA comprometeram-se a dar o máximo apoio ao povo haitiano no momento mais triste da história desse povo lendário, que levou a cabo a primeira Revolução social vitoriosa na história do mundo, quando centenas de milhares de africanos, ao se revoltarem e criarem no Haiti uma República a milhares de milhas de sua terra natal realizaram uma das mais gloriosas ações revolucionárias deste hemisfério. No Haiti, há sangue negro, índio e branco; a República nasceu dos conceitos de igualdade, justiça e liberdade para todos os seres humanos.

Há dez anos, no momento em que o Caribe e a América Central perderam dezenas de milhares de vidas na tragédia provocada pelo furacão Mitch. Foi criada em Cuba a Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM) para formar médicos latino-americanos e caribenhos que, um belo dia, salvariam milhões de vidas, mas especialmente e acima de tudo, seriam exemplo no nobre exercício da profissão médica. No Haiti, junto com os cubanos, estarão dezenas de jovens venezuelanos e mais outros latino-americanos graduados na ELAM. De todos os cantos do continente, chegam notícias de muitos companheiros que estudaram na ELAM, que desejam colaborar ao lado deles na nobre tarefa de salvar vidas de crianças, mulheres e homens, jovens e idosos.

Haverá dezenas de hospitais de campanha, centros de reabilitação e hospitais, onde prestarão serviço mais de mil médicos e estudantes dos últimos anos do curso de medicina, procedentes do Haiti, da Venezuela, de Santo Domingo, da Bolívia, da Nicarágua, do Equador, do Brasil, do Chile, e demais países irmãos. Temos a honra de contar com um número de médicos norte-americanos que também estudou na ELAM. Estamos dispostos a cooperar com aqueles países e instituições que desejem participar destes esforços para prestar serviços médicos no Haiti.

A Venezuela já entregou barracas, equipamentos médicos, remédios e alimentos. O governo do Haiti prestou toda sua cooperação e apoio a este esforço para levar gratuitamente os serviços de saúde ao maior número possível de haitianos. Para todos nós, será um consolo em meio à maior tragédia ocorrida em nosso hemisfério.


Fidel Castro Ruz
7 de fevereiro de 2010
20h46

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A casa está dividida

"A casa está dividida". Foi com essa frase que o então presidente dos Estados Unidos da América, Abraham Lincoln definiu o estado no qual o país se encontrava durante o seu governo. Lincoln assumiu a presidência em 1861, mesmo ano que estourou a Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana. Durante os quatro anos de seu mandato (1861-1865) o país se encontrou em meio a esta devastadora guerra que deixou um saldo de centenas de milhares de mortos. Nessa época, os Estados Unidos se viram em um grande dilema, a divisão de seu território, os estados do Norte defendiam a velha ordem, no entanto os estados do Sul, os quais formaram uma Confederação, lutavam para se separarem do norte, e constituir uma nova nação.

E é nesse contexto que irei contar um pouco da história política, administrativa  econômica, social e a importância desse acontecimento não somente para os Estados Unidos mais para o restante da América e do mundo. Sendo assim não irei me prender a detalhes sobre os conflitos e batalhas que ocorreram ou alguns outros fatos. Irei fazer uma explanação por alto, focando o que eu propus anteriormente.


A grande questão que gerou tal guerra fora um fator de cunho econômico. Mas para isso devo retornar a época das Treze Colônias (ver mapa). Quando a Inglaterra decidiu colonizar o Novo Mundo, ela estabeleceu Treze Colônias na costa leste da América do Norte. No entanto essas colônias teriam papéis distintos para a metrópole: as colônias do norte, seriam voltadas para um caráter mais "colonizador" nesse caso, de se estabelecer cidades, de se criar toda uma estrutura para se constituir quase que um "país". Já no sul, as colônias foram voltadas para o caráter "exploratório" nesse caso não se havia uma preocupação em se construir cidades, em se formar um ambiente urbanizado; mas sim de formar várias fazendas, de se produzir em grande escala para a exportação. Sendo assim os ingleses desenvolveram o sistema chamado de plantation (grande latifúndio, monocultor, escravista e exportador). Algo amplamente difundido no Brasil.

Mapa das Treze Colônias britânicas na América do Norte.
Como fora apontado, a escravidão era a principal mão de obra no sistema de plantation. No entanto, os estados do norte também contavam com o emprego de escravos, mas só que em escala menor, enquanto o sul era voltado para a exportação e grande produção, o norte ficava com a produção interna e de subsistência e posteriormente com a produção de manufaturas. Nesse ponto pode se ver uma grande diferença nos processo de colonização de ambas as regiões. Mas a frente tais fatores iriam se acentuar.

Em 4 de julho de 1776 se deu a Independência dos Estados Unidos, de inicio o processo de independência contou com um maior apoio dos estados do norte, já que os do sul temiam um boicote da Inglaterra aos seus produtos, em caso de estes lutassem pela sua emancipação da metrópole  De qualquer forma por fim todos os estados foram a favor, e se deu a independência. (Diferente do que ocorreu no Brasil, não houve entre o povo brasileiro um consenso de nação ou um sentimento de nacionalidade unificado. Somente poucos estados brasileiros é que apoiaram D. Pedro I na independência).

Após a independência americana, os ingleses ainda tentaram retomar a antiga colônia, e vários conflitos ainda ocorreriam nos anos seguintes, estendo uma guerra que só se encerraria em 1783. Entretanto, após a poeira se abaixar, e os anos se passarem, notou-se um distinta diferença entre os estados do norte perante os estados do sul. Enquanto o norte, era mais rico, mais desenvolvido e populoso, o sul ainda mantia quase que seu sistema da época colonial. 

No entanto uma questão poria o norte contra o sul. Desde a proclamação da independência e o término das guerras de independência, gradativamente os Estados Unidos fora crescendo pelo território da América do Norte. A chamada expansão para Oeste, e foi nesse fato que começou a se agitar os conflitos entre norte e sul. Tanto os estados do norte como os do sul procuravam expandir seus domínios para as terras centrais no Oeste. Porém, cada um tinha uma forma de se estabelecer seu domínio, enquanto o norte procurava estabelecer assentamentos para futuras cidades, construir estradas de terra e de ferro para o transporte, o sul procurava expandir suas fazendas e pastos, levando o sistema escravocrata consigo.

"O Sul queria aumentar seu império do algodão e da escravidão e o Norte a expansão das chamadas terras livres". (KARNAL, 2007, p. 129).

"O Norte, mais avançado em termos industriais, tinha uma classe média nascente e uma indústria de importância crescente. O Sul, embora apresentando características fundamentalmente agrícolas, baseava-se no sistema de plantation e escravidão, muito bem inserido no sistema capitalista; o escravo era visto como mercadoria". (KARNAL, 2007, p. 129).

Nesse período o México fora o principal oponente do expansionismo estadunidense. Estados hoje que são americanos como o Texas, Califórnia e o Novo México, pertenciam até meados do século XIX ao território do México. E fora através de vários conflitos e acordos que os Estados Unidos conseguiram assimilá-los. Um fato curioso marca isso, no México sua constituição já havia abolido a escravidão, porém o país passou alguns anos sob a mão da ditadura, sendo assim por um lado os mexicanos procuravam os estados americanos para fugir do julgo da ditadura de seu país e buscar o sonho de prosperidade, mas por outro, os escravos americanos procuravam fugir para o México, para fugirem da escravidão. Assim, os estados do norte apoiavam a vinda daqueles que procuravam sua ajuda, e o sul combatia para que os escravos não fugissem. Além desse fato havia a constante briga pela posse das terras. Constantemente, empresários disputavam a posse das terras recém conquistadas contra os fazendeiros, isso levou tal conflito para o meio político.

No mapa acima estão representados os estados da União (Azul) e dos Confederados (Vermelho). Os estados em azul claro são os estados escravistas que se uniriam a União durante a guerra.
No campo político, surgiu duas facções: aqueles que apoiavam o fim da escravidão, e visavam o desenvolvimento industrial para o país, os quais ficaram conhecidos pelo lema "imperialismo do solo livre", e no outro lado havia aqueles que defendiam a expansão do sistema escravocrata, o chamado "imperialismo do algodão". Mediante a tais fatos, os sulistas formaram seu próprio partido político o qual iria brigar pela emancipação dos estados sulistas da República dos Estados Unidos da América. Tal partido fora chamado de Estados Confederados da América, ou simplesmente A Confederação, ou também Confederação dos estados do sul. Formada pelos onze estados do sul, a confederação tinha como meta expandir seus domínios pelas novas terras conquistadas pelos Estados Unidos, além de se buscar a independência. Quanto ao Norte, estes formaram a chamada União.


Bandeira dos Estados Confederados da América.

"A conclusão, atingida depois de muita incerteza, leva à afirmação de que a Guerra Civil americana foi a última ofensiva revolucionária por parte daquilo a que podemos legitimamente chamar a democracia capitalista ou burguesa. A escravatura nas plantações do Sul, deve dizer-se, não constituiu um grilhão econômico para o capitalismo industrial. Quando muito, seria o contrário; ela ajudou a promover o desenvolvimento industrial americano nas suas fases iniciais. Mas a escravatura constituiu um obstáculo para a democracia politica e social". (MOORE Jr, 1983, p. 124).



A Confederação e a União foram criadas em 1861 no mesmo ano que eclode oficialmente a guerra. No entanto, no ano anterior, nas eleições de 1860 para presidente da república, forjou outro grande dilema para esta situação. O Partido Democrata tinha como indicação ao cargo de presidente, Stephen Douglas, já o Partido Republicano, lançava a candidatura  de Abraham Lincoln (1809-1865). Lincoln nascera no estado de Kentucky nas terras do Oeste, era filho de uma família pobre, seu pai era um lenhador analfabeto e sua mãe era uma dona de casa letrada, e isso contribuiu para a educação do filho, o qual se mostrou um leitor ávido. Lincoln serviu por algum tempo o exército e fora comerciante, em 1834 entrou para política, tornando-se membro da Câmara dos Representantes do Estado de Illinois, posteriormente em 1836 formou-se em direito e recebera o certificado de advogado.

Lincoln era a favor da política do "solo livre", do trabalho livre e da abolição, ele acabou vencendo as eleições. E para desgosto dos democratas, surgiu a hipótese de fraude eleitoral. Mas, de qualquer forma Lincoln assumiu o poder, e começou seu mandato no ano seguinte. Como este apoiava a abolição, os confederados viram o novo presidente como seu inimigo, já que ele apoiava a União.

"A maior parte dos sulistas ficou irritada com a eleição de Lincoln, visto por eles como um verdadeiro abolicionista. Já alguns nortistas o viam como conservador, na medida que não defendia abertamente uma luta para terminar com o regime escravista, embora o condenasse como um grande erro da humanidade". (KARNAL, 2007, p. 130).

"A ideia de separação do Sul ganhava corações e mentes das elites sulistas. Entretanto, como havia dito, Lincoln não aceitaria a secessão e a atacaria com força os estados adeptos da ideia. Sua eleição, portanto, foi o estopim necessário para o inicio formal das hostilidades entre as duas regiões". (KARNAL, 2007, p. 132).

Se no Norte, Lincoln era o principal líder da União, no Sul, os confederados elegeram Jefferson Davis (1808-1889), como o presidente dos Estados Confederados da América. Davis era membro de uma família aristocrática, o qual era um árduo defensor da escravidão permanecer como estava. O grande problema de se abolir a escravidão para os estados sulistas, era o fato que o escravo era visto como uma mercadoria, um investimento, se a abolição fosse promulgada, muitos fazendeiros iriam rapidamente a falência por perderam não somente suas "mercadorias" mas perder sua mão de obra. Por outro lado deve também se ressalvar que o número de escravos numa sociedade como esta era um indicador social de riqueza. Quanto mais escravos um senhor tivesse, mais rico ele seria. (Tal fato também pôde ser visto na história do Brasil). Assim, era inconcebível para estes homens aceitarem o fim da escravidão. Devo ressalvar aqui, que a grande questão que dava polêmica a este fato, não era o fator social, ou a questão de direitos humanos e políticos, mas, sim o fator econômico.

Já que a "casa" estava realmente dividida e a guerra já havia eclodido, Lincoln tratou de fazer algo para por fim a este conflito. Em 1861 ele aprovou a primeira Lei do Confisco, na qual toda e qualquer propriedade utilizada a favor dos confederados seria confiscada pela União.

"Essa lei impulsionou as fugas coletivas de escravos das fazendas, pois sabiam que, em mãos dos nortistas, poderiam alcançar a liberdade". (KARNAL, 2007, p. 133).

No ano seguinte, fora aprovada a segunda Lei do Confisco, no qual de fato punha em andamento o processo abolicionista. Todo escravo capturado pelas tropas nortistas ou que houvesse fugido para os estados da União seria imediatamente alforriado. Isso gerou um duro golpe para os confederados. Desde que a guerra se iniciara, o Norte possuía uma população maior e consequentemente um contingente militar e um poderio bélico superior ao do Sul, mesmo assim o Sul não se rendeu facilmente. E agora com a fuga dos escravos fora dado um duro golpe no abastecimento dos estados sulistas, e para piorar sua situação, entre 1861 e 1862, Lincoln proibiu a entrada de produtos nos estados sulistas, desde alimento a gêneros de primeira necessidade, enfraquecendo as tropas confederadas. Ironicamente, alguns senhores de escravo chegaram a cogitar a possibilidade de chamar seus escravos para a guerra. Mas é claro que isso fora um tremendo erro.

"Á medida que a guerra se prolongou pelos anos de 1862 e 1863, foram-se apagando as primeiras paixões e entusiamos e a América experimentou todas a fases de fadiga e desgosto pela luta. A conscrição e recrutamento substituíram o voluntariado e mudaram o espírito de luta, tanto no sul quanto no norte. A guerra transformou-se em uma prolongada e aflitiva luta fratricida". (WELLS, 1966, p. 86).

Por mais que as tropas da União estivessem em maior contingente e bem mais armados, o sul contava com a experiência de bons generais, o que fora essencial para o prolongamento do conflito. Não obstante, antes do inicio da Guerra Civil, o país não possuía um exército bem treinado e disciplinado, havia cerca de 75 mil homens nas forças armadas, número que chegou a atingir 1 milhão de convocados até o fim do conflito. Estima-se que cerca de 500 mil soldados morreram na guerra e pelo menos 100 mil civis. Fato este levou já em 1863, em haver uma rejeição das famílias e do povo de enviar seus maridos e filhos para o confronto, o qual em alguns locais, o alistamento se tornou obrigatório, chegando ao fato de homens serem capturados em casa e levados para os quartéis. Em novembro de 1863 se deu a Batalha de Gettysburg, a mais sangrenta batalha do conflito, com a vitória da União, praticamente a guerra estava acabada.



Retratação da Batalha de Gettysburg em 1863.

Com a vitória do Norte, o presidente Abraham Lincoln proferiu o famoso Discurso de Gettysburg,
defendendo os ideais de democracia e de liberdade. Quanto ao Sul, este estava em colapso, as tropas estavam arrasadas, sem mantimentos, desmotivadas e desmoralizadas, a exportação de tabaco e algodão sofrera um duro golpe devido a guerra. Muitos fazendeiros entraram na falência, além destes, muitos comerciantes também tiveram prejuízo devido a escassez de produtos, e a imposição para que não subissem os preços das mercadorias. Somando isso a falta de controle do governo em manter a ordem, pouco a pouco a estrutura da Confederação fora ruindo. As tropas que ainda haviam, ou eram derrotadas ou se rendiam. Um a um os generais confederados se rendiam.

Em 1865, Abraham Lincoln fora reeleito, no entanto ele não teria tempo para reorganizar o país após o fim da guerra. Em 14 de abril de 1865, enquanto assistia uma peça de teatro no Teatro Ford em Washington D. C, Lincoln fora alvejado com um tiro na cabeça, disparado por um dito espião sulista, conhecido como Booth, o qual conseguira fugir do teatro e posteriormente sumir da história. (Booth teria utilizado um outro homem como bode expiatório, para assim poder fugir da lei, já que o mesmo homem fora morto e dado como se tivesse sido ele). Mesmo com a morte de Lincoln, não houvera grande alarde para se continuar com a guerra, oficialmente os Estados Confederados da América havia acabado, por mas que um ou outro partidário se negasse a aceitar tal fato, a ameaça de que a guerra poderia voltar a eclodir permanecera ainda por alguns anos, já que tanto Jefferson Davis e outros importantes nomes ainda estavam vivos.

"Essa foi a guerra mais letal e mais custosa da história dos Estados Unidos. Para uma comparação breve: morreram mais de 600 mil norte-americanos na Guerra Civil; já na famosa Guerra do Vietnã, o número de baixas oficiais foi de 58 mil mortos. O conflito também serviu para criar o mito de Lincoln como grande estadista defensor da liberdade, forjar certo sentimento de identidade nacional baseada na superioridade do "mundo" do Norte, abrir caminho para o surgimento de determinadas leis comuns e definir a trilha histórica de um país unificado a partir das armas". (KARNAL, 2007, p. 136).

Com a consolidação dos territórios americanos, e o fim da crise com a guerra. Nos anos seguintes o Estados Unidos daria um grande salto no desenvolvimento tecnológico e industrial, a ponto de levá-lo a expandir sua influência até a costa Oeste, onde no final da guerra, as ferrovias cruzavam mais da metade do continente, e já na década de 1870, o Oeste havia sido alcançado. Posteriormente os Estados Unidos expenderiam nos fins do século seus interesses e influência pelo restante das Américas e do mundo; os americanos já realizavam contanto e comércio com o Japão, China, Filipinas e Rússia.
De fato alguns historiadores apontam que após o fim da guerra, dera-se inicio ao "imperialismo americano" e ao capitalismo moderno (modern capitalism), tornando o país no limiar do século XX, a primeira potência mundial econômica.

"Menos de 50 anos foram suficientes para que alcançassem e ultrapassassem as principais nações industriais da velha Europa". (TEIXEIRA, 1999, p. 168).


NOTA: Abraham Lincoln, quando fora eleito presidente, este se elegera sob pesadas criticas tanto dos partidos rivais até mesmo dos partidos aliados. Mas após sua morte, e tendo posto fim a Guerra de Secessão, fora glorificado como um grande presidente. De fato isso contribuiu para ele fazer parte do Monte Rushmore, ao lado de George Washignton, Thomas Jefferson e Theodore Roosevelt.
NOTA 2: Lincoln fora o primeiro presidente do partido republicano a ser eleito e a conseguir uma releição.
NOTA 3: Houveram outros partidos de caráter republicano, não se deve confundir.
NOTA 4: Parte da história das batalhas da Guerra de Secessão são retratadas nos jogos de videogame Civil War: Secret Missions e Civil War: A Nation Divided, ambos produzidos com a supervisão do History Channel.
NOTA 5: Se alguém estiver interessado em ler o Discurso de Gettysburg, este se encontra disponível no arquivo deste blog.
NOTA 6: Em 1865 fora definitivamente promulgada na Constituição Americana com a sua Décima Terceira Emenda, o fim da escravidão em todo território nacional dos Estados Unidos da América.
NOTA 7: Os estados que formaram a Confederação foram: Carolina do Sul, Carolina do Norte, Alabama, Mississipi, Kansas, Texas, Flórida, Geórgia, Lousiana, Virginia e Tenessi.

NOTA 8: No filme Lincoln (2012) dirigido por Steven Spielberg, o filme foca o ano de 1865, tendo foco no debate político da abolição da escravatura.

Referência Bibliográfica:
KARNAL, Leandro. História dos Estados Unidos, São Paulo, Contexto, 2007.
WELLS, H. G. História Universal - volume 4. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1966. (Capitulo XXXVII, pp. 80-87).
TEIXEIRA, Aloísio. Estados Unidos: A “curta marcha” para a hegemonia. In: FIORI, J.L. (Org.). Estados e moedas no desenvolvimento das nações. Petrópolis: Vozes, 1999.
MOORE Jr. Barrington. “A Guerra civil americana: a última revolução capitalista”. In: As origens sociais da ditadura e da democracia: senhores e camponeses na construção do mundo moderno. São Paulo: Martins Fontes, 1983.

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