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Leandro Vilar

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Cultura histórica e cultura historiográfica: uma síntese reflexiva

Embora como historiador, eu não seja afeito a debates teóricos, no entanto, acabei por escrever essa postagem simples para comentar esses dois conceitos que há mais de uma década ainda não possuem um significado unânime para os historiadores, embora tenha aumentando o número de citações especificamente no que diz ao conceito de cultura histórica, devido ao atual cenário benfazejo do qual a história cultural vivencia. 

Entretanto, até mesmo historiadores a nível de mestre e doutor, ainda não se sentem totalmente seguros quanto ao aumento do uso desses dois conceitos, pois os estudos sobre tal tema ainda são escassos, e a sua bibliografia nem sempre é fácil de ser entendida ou de agradável leitura, pois muitos historiadores compartilham da ideia de que teoria da história é algo chato e um assunto enfadonho. 

Mas de qualquer forma, essa breve postagem surgiu a partir de algumas anotações que fiz há uns dois anos. Elas estavam com as ideias embaralhadas, então tive que organizar tudo. Porém, como meu estudo seu deu para um nível de conhecimento teórico mais alto, acabei por preferir retirar determinados debates e elementos contidos nas anotações, pois acabaria confundido o leitor de primeira viagem, ou o historiador ainda não familiarizado. 

Por mais que alguns historiadores venham a dizer que tal texto se trata de uma representação simplista, a ideia é ser objetivo e claro, sem atentar a desenvolver um debate teórico mais profundo. Aos interessados por um maior nível de dificuldade ou por mais aprofundamento no assunto, recomendo começarem a ler as referências bibliográficas aqui utilizadas.

Sintética conceituação sobre cultura:

Antes de adentrar o comentário sobre os dois conceitos alvos desse estudo, é preciso comentar o significado da palavra cultura, que por sua vez já se apresenta como um tema ainda mais complexo, o que daria assunto para se redigir livros. No entanto, existe um caminho mais fácil para isso. Tanto em cultura histórica e cultura historiográfica, a palavra cultura é empregada de forma similar, pois o diferencial entre ambas se encontra no sentido de "histórico" e "historiográfico", os quais serão debatidos adiante de forma separada. 

Logo, mediante a essa questão de certa familiaridade no sentido de cultura utilizado por ambos os conceitos, preferi apresentar um conceito de cultura breve, mas que respalde o sentido que aqui será visto. No entanto, é válido lembrar que a palavra cultura possui uma gama de interpretações, algo que o antropólogo estadunidense Clifford Geertz (1926-2006) apresentou em seu livro A Interpretação das Culturas (1973), que serviu de referencial para muitos historiadores, antropólogos, sociólogos, etc., nos anos 70 ao 90; e mais recentemente podemos mencionar o historiador britânico Peter Burke que em seu livro O que é história cultural? (2005) procurou sintetizar sua percepção sobre o conceito de cultura e história cultural, assuntos com os quais ele trabalha desde a década de 70.

“Compreendida como o conjunto da produção e reprodução da existência humana, a Cultura se insere, pois, em duas dimensões sem as quais não se realiza: o tempo e o espaço. E não se realiza, obviamente, sem um agente: o Homem, em sociedade, cuja capacidade de ideação reflexiva (e não reflexa) possibilita a mediação com a natureza, produzindo a segunda natureza (Marx), ou a natureza culturalizada que, por sua vez, produz o Homem. Neste processo, a Cultura se faz enquanto “um palimpsesto multiforme”, no dizer de Carlos Antonio Aguirre Rojas porque inclui sistemas adaptativos, cognitivos e simbólicos; implica na produção de artefatos materiais e simbólicos; envolve múltiplos agentes; abrange a produção, circulação, transmissão e recepção dos saberes e fazeres humanos; requer processos socializadores para a transmissão das tradições e as elaborações criativas. Em síntese: é o conjunto das experiências vividas pela Humanidade e os sentidos que os seres humanos dão ao mundo”. (GODOY, 2007, p. 96). 

Todavia, embora o conceito de cultura seja amplo, pois aborda noções referentes a produção material, produção intelectual, comportamento, gestos, representações, hábitos, simbolismos, ideologias, etc., para o estudo da cultura histórica e cultura historiográfica, podemos tomar cultura no sentido de ideias e representações.

Nesse caso, cultura histórica e cultura historiográfica seriam as ideias e representações que se tem sobre a História, as quais apresentam as noções de como um indivíduo, grupo ou sociedade pensavam e compreendiam a História ao longo do tempo. Tais ideias e representações estão conectadas com os aspectos sociais, políticos, culturais, ideológicos e religiosos de um povo, de uma época. 

“Reinhart Koselleck, ao discutir os limites e interinfluências existentes entre os domínios da História dos Conceitos e História Social, oferece-nos importantes orientações para uma melhor compreensão da procedência de conceitos ou vocábulos. Para esse historiador alemão, o pesquisador que se dedica ao estudo dos conceitos deve nutrir preocupações que ultrapassem os universos da análise semântica ou lingüística, estabelecendo, também, como meta nas suas observações, a análise da estrutura da sociedade. A situação política e social onde emerge uma maneira de pensar ou escrever, as orientações que determinado grupo, instituição, corporação ou nação alimentam sobre o presente, passado ou futuro, os conflitos políticos e sociais em torno das batalhas semânticas que tem por objetivo ordenar e classificar os conceitos (KOSELLECK, 2006: p. 100-103)”. (ALVES, 2009, p. 84). 

A partir dessa percepção sabemos que as culturas não são imutáveis, mas pelo contrário, elas estão sujeitas a transformações e mudanças que decorrem ao longo das eras, logo, a noção que os gregos antigos tinham sobre a História, não era igual a dos cristãos medievais, ou a dos historiadores metódicos no século XIX. 

Alves (2009) apresenta um quadro sintético do pensamento de Koselleck sobre o desenvolvimento da ideia de cultura no século XX. Por sua vez, Burke (2006) traça um relato mais profundo sobre o surgimento da história cultural e da visão sobre cultura, algo que ele apresenta nos dois primeiros capítulos de seu livro acima mencionado. 

“Pensar a cultura histórica é pensar historiograficamente. Pensar a cultura histórica é atravessar os vários momentos de cristalização historiográfica com a instauração de linhas mestras interpretativas hegemônicas e hegemonizantes. É ser capaz de pairar sobre os vários momentos historiográficos sem se identificar com nenhum deles em particular e procurar entender por que aquelas linhagens interpelativas se tornaram dominantes”. (ARRUDA, 2007, p. 25).

A cultura histórica e a cultura historiográfica por estarem inseridas nesse campo do pensamento, isso lhe garante uma flutuação constante, pois ideias e percepções se alteram com o tempo. Logo, estudar ou trabalhar com os conceitos de cultura histórica e cultura historiográfica é está ciente de que abordamos as concepções e representações de uma determinada época, local e sociedade acerca da História, de como ela seria escrita, estudada, pesquisada, compreendida, etc. 

Cultura histórica: 

A cultura histórica possui um sentido mais amplo do que cultura historiográfica, embora alguns historiadores considerem que ambos sejam sinônimos, compartilho da ideia de que não se tratam de sinônimos, mas de dois aspectos distintos, os quais ainda assim, possuem sua correlações. Podemos dizer que a cultura historiográfica seja um aspecto específico da cultura histórica, logo, ela estaria dentro do sentido de cultura histórica. 

"Entendo por cultura histórica os enraizamentos do pensar historicamente que estão aquém e além do campo da historiografia e do cânone historiográfico. Trata-se da intersecção entre a história científica, habilitada no mundo dos profissionais como historiografia, dado que se trata de uma saber profissionalmente adquirido, e a história sem historiadores, feita, apropriada e difundida por uma plêiade de intelectuais, ativistas, editores, cineastas, documentaristas, produtores culturais, memorialistas e artistas que disponibilizam um saber histórico difuso através de suportes impressos, audiovisuais e orais". (FLORES, 2007, p. 95).

Por esse significado dado pelo historiador Elio Chaves Flores, podemos observar que a cultura histórica não estaria atrelada apenas a história ciência, a historiografia e a academia, mas consistiria também numa produção feita não apenas por historiadores e outros estudiosos, mas por pessoas leigas, as quais trabalham e pensam a história ao seu modo. 

Logo, como Flores mencionou, a cultura histórica é pensada tanto no plano acadêmico pelo profissional que estuda a História, ou seja, o historiador, mas também por outros estudiosos como antropólogos, cientistas políticos, arqueólogos, sociólogos, filósofos, etc., mas a cultura histórica também consiste nas ideias e representações que se formam em diferentes espaços pela sociedade, em geral, por uma população leiga no sentido de se desconhecer as teorias do estudo da história.

“Entretanto, uma cultura histórica se evidencia quando as categorias de clérigos, profissionais e leigos tomam para si a cruzada da vulgarização e divulgação do que foi feito no passado, dando-lhe um sentido histórico. Avançamos, pois, no sentido de que a cultura histórica não pode ser uma exclusividade da narrativa dos historiadores, a historiografia. Ela tanto pode ser narrada pelo cronista, jornalista, cineasta, documentarista ou memorialista. Trata-se da história sem historiografia, mas que não prescinde do fato de que a narração de qualquer feito tenha, pelo menos, as condições do sentido histórico, proposto por Rüsen: “formalmente, a estrutura de uma história; materialmente, a experiência do passado; funcionalmente, a orientação da vida humana prática mediante representações do passar do tempo””. (FLORES, 2007, p. 96).

Segundo o historiador Astor Diehl:

“Eu acho que cultura histórica tem a ver com a comunidade acadêmica, tem a ver com o próprio passado, tem a ver também com os historiadores não acadêmicos e assim por diante”. (CURY, FLORES, CORDEIRO JR, 2009, p. 226).

“Cultura histórica me parece também uma noção que tem uma ampla vinculação com o debate da história como disciplina. Ou seja, a própria constituição, ou as próprias mudanças da história como disciplina, dentro dos seus devidos contextos. Nós abandonamos, quando falamos em cultura histórica, um pouco a ideia de que apenas os historiadores profissionais têm a ver com a produção de conhecimentos do passado. Quer dizer, esse exercício de reconstituição do passado pode ser feito por uma gama enorme de profissionais ou de não profissionais, como pode também ser feito naquele exercício mais simples de cada um de nós quando nos lembramos do nosso próprio passado. Se eu me lembro do meu passado e tento reconstituir esse passado, eu também diretamente estou produzindo uma cultura histórica, mesmo que seja individual. Agora, como historiador, estou fazendo algo a mais, estou argumentando, tentando argumentar o mais próximo possível de uma racionalidade disciplinar, de uma racionalidade acadêmica, e assim por diante. Isso não quer dizer que esse conhecimento racionalizado pelos historiadores seja mais ou menos importante do que aquele que é subjetivado individualmente ou por grupos sociais. Portanto, parece-me que essa noção de tradição passa a ter um papel importante nesse debate”. (CURY, FLORES, CORDEIRO JR, 2009, p. 226-227). 

Enquanto nos séculos XIX e primeira metade do XX, período em que a racionalidade moderna exerceu plena hegemonia, os historiadores eram considerados como únicos agentes autorizados a discursarem acerca das representações do passado em torno da cultura, identidade e cidadania. Na segunda metade do século XX, da mesma forma que no início do século XXI, eles se veem desprovidos do monopólio de produção e difusão de uma cultura histórica, tendo que atuar interativamente com outros agentes.


E esses outros agentes provêm da literatura, pintura, fotografia, jornalismo, cinema, biografismo, folclorismo, memorialismo, patrimonialismo, e até de instituições menos informais, as quais possuem projetos de como contar a história de suas comunidades, de como representar suas vidas, suas histórias para a sociedade, pois a historiadora Joana Neves assinala que cultura também significa falar em identidade, logo, a forma de como se pensa e se representa a História, se relaciona com essa noção de pertencimento a um lugar, a um grupo, sociedade, país, etnia, religião, etc.

"A cultura histórica seria, assim, a parte concreta de uma sociedade mais ampla, construída a partir de um conhecimento histórico que associa o autoconhecimento da comunidade a uma visão crítica do processo histórico. A autora acredita que a construção de uma cultura histórica entrecruzada, entre o ensino de história e a comunidade, seria imprescindível para a efetivação da cidadania" (NEVES, 2000/ 2001: p. 35-36).

Cultura historiográfica:

No que diz respeito a cultura historiográfica, seu conceito é mais restrito no sentido pelo fato de que a historiografia que significa "escrita da história" não se referir apenas a forma de como a história é contada (narrativa, quadro, crônica, memória, diário, etc.), mas hoje se considerada que a historiografia também diz respeito de como a História é estudada e pesquisada. E nesse âmbito passamos a falar de teoria da história e metodologia da história, e até mesmo de filosofia da história. 

Logo, para alguns autores, a cultura historiográfica estaria mais próxima da realidade do ofício do historiador e do meio acadêmico, por esse sentido profissional, "científico" e teórico, do que estaria próxima de outros âmbitos sociais, os quais estão mais familiarizados com a cultura histórica. 

"Assim, a Cultura Histórica guarda duplo sentido: um, genérico, enquanto produção pela História-processo; outro, mais específico, como História-conhecimento, melhor nomeada, talvez, de Cultura Historiográfica. Portanto, toda Cultura Histórica contém uma Cultura Historiográfica, esta última entendida como o conjunto das representações formuladas sobre as experiências vividas pelas sociedades, os grupos sociais, as pessoas, em uma perspectiva de temporalidade". (GODOY, 2007, p. 42).

Para a historiadora Rosa Godoy, cultura historiográfica não seria um sinônimo de cultura histórica, mais uma parte desta, estando relacionada ao estudo, pesquisa e escrita da História. Por sua vez, em sentido genérico, diz respeito em se tratar a História sem uma ênfase científica do historiador, mas entender a História como um processo ocasionado por distintos fatores, que marcam a cultura, a sociedade, o lugar e a época. 

Aqui poderíamos entender que a cultura histórica reúne a percepção leiga da população sobre os acontecimentos históricos e sobre a realidade presente, diferenciando-se da percepção erudita dos historiadores, que procuram estudar mais a fundo os acontecimentos e a realidade vigente ou passada. Mas, no fim, ambas as percepções ou visões, consistem na cultura histórica de uma época, de um povo, de um território, daí ela ressalvar a importância da representação social e da territorialidade nos estudos culturais, para se compreender a cultura histórica.  

Na concepção de Astor Diehl, a cultura historiográfica se definiria a partir de seis matrizes as quais representam seu sentido no todo. Tais matrizes representam características específicas que juntas formam a cultura historiográfica.


“Quando falamos de cultura historiográfica, nós estamos nos referindo às matrizes paradigmáticas, às matrizes teóricas, estamos falando também da história viva, seja ela individual, seja ela coletiva. Portanto, nós estamos nos referindo principalmente aos referenciais documentais que, diga-se de passagem, nós historiadores inventamos constantemente, nós reinventamos a nossa documentação constantemente. Se eu digo que tem a ver com os referenciais documentais, isso também quer dizer que a cultura historiográfica está muito presente quando se fala, por exemplo, em pesquisa, ou seja, todos os nossos referenciais de pesquisa. Cultura historiográfica tem a ver com os sujeitos históricos, tem a ver com os grupos sociais, tem a ver com algo que poucas vezes chama a atenção, tem a ver com tradições”. (CURY, FLORES, CORDEIRO JR, 2009, p. 226). 

Astor Diehl atualmente é um dos historiadores brasileiros que mais estuda acerca da cultura histórica e da cultura historiográfica. Percebendo-se que a cultura historiográfica não é imutável, pois ao longo do tempo ela vai se alterando, Diehl a partir de sua tese de doutorado sobre o assunto, escreveu quatro livros os quais abordam o desenvolvimento da cultura historiográfica no Brasil, partindo do século XIX até os fins do século XX, onde pôde trilhar as mudanças teóricas, metodológicas, sociais e culturais sobre o estudo da História. 

Peter Burke também fez algo similar ao se estudar o desenvolvimento da cultura historiográfica produzido pela Escola dos Annales na França, em seu livro A Escola dos Annales: A Revolução Francesa na historiografia

“Cultura historiográfica me parece que tem uma vinculação mais direta com as estruturas narrativas, ou seja, as estruturas narrativas contidas naquelas representações dos passados inventados pelos historiadores. Quer dizer, me parece que há um patamar, existe um nível diferenciador, e aqui não é negativo ou positivo, mas existe um nível diferenciador da cultura histórica nesse contexto, pois quando se fala em cultura historiográfica está se tratando do topoi interpretativo do conhecimento histórico. Por que o topoi é o espaço da experiência na qual nós exercitamos um conjunto de estratégias para interpretar a própria cultura histórica, individual ou coletiva, seja ela feita por profissionais da área ou feita por não profissionais da área”. (CURY, FLORES, CORDEIRO JR, p. 227).

Nesse sentido notemos que cultura historiográfica por mais que faça parte da cultura histórica, e sofra influências e mudanças a partir do cenário social, político, econômico, cultural, etc., do momento, ainda assim, a cultura historiográfica esteve e ainda está mais relacionada ao estudo da História e a história como disciplina, onde se produz teorias, metodologias, reflexões, etc., as quais são feitas por historiadores, mas também por outros estudiosos, como antropólogos, sociólogos e filósofos. 

Daí Diehl falar dessa associação com a "narrativa", pois enquanto a cultura histórica se espalha e se desenvolve através de outras mídias, a cultura historiográfica ainda esta atrelada a narrativa histórica, aos livros e artigos científicos. Por outro lado, a cultura historiográfica também procura analisar e compreender a cultura histórica, a qual se espalha mais facilmente pela sociedade. Por fim, ambas como já foi dito, estão atreladas a produção, compreensão, representação, estudo e entendimento sobre a História. 

Referências bibliográficas: 
ALVES, Fabricio Gomes. Entre a Cultura Histórica e a Cultura Historiográfica: implicações, problemas e desafios para a historiografia. Revista Aedos, n. 5, vol. 2, jul/dez 2009, p. 82-97. 
ARRUDA, José Jobson de Andrade. Cultura histórica: territórios e temporalidades historiográficasRevista Saeculum, João Pessoa, n. 16, jan/jun 2007, p. 25-31. 
BURKE, Peter. O que é história cultural? Tradução Sérgio Goes de Paula, 2a ed, Rio de Janeiro, Zahar, 2008. 
BURKE, Peter. A Escola dos Annales 1929-1989: A Revolução Francesa da historiografia. Tradução de Nilo Odália. São Paulo, Editora Universidade Estadual Paulista, 1992.  
CURY, Cláudia Engler; FLORES, Elio Chaves; CORDEIRO JR, Raimundo Barroso. História, teoria da história e culturas historiográficas: Entrevista com Astor Antônio Diehl. Transcrição Alessandro Moura Amorim. Revista Saeculum, João Pessoa, n. 21, jul/dez 2009, p. 219-232. 
CURY, Cláudia Engler; FLORES, Elio Chaves; CORDEIRO JR, Raimundo Barroso. Cultura histórica e historiografia: legados e contribuições do século 20. João Pessoa, Editora universitária/UFPB, 2010.
DIEHL, Astor Antônio. Idéias de futuro no passado e cultura historiográfica da mudança. Revista História e Historiografia, n. 1, ago 2008, p. 45-70. 
FARIAS, Ana Elizabete Moreira de. Cultura histórica, ensino de história e múltiplos saberes. Revista Saeculum, João Pessoa, n. 22, jan/jun, 2010, p. 163-172. 
FLORES, Elio Chaves. Dos feitos e dos ditos: história e cultura histórica. Revista Saeculum, João Pessoa, n. 16, jan/jun 2007, p. 83-102.
SILVEIRA, Rosa Maria Godoy. A cultura histórica em representações sobre territorialidadesRevista Saeculum, João Pessoa, n. 16, jan/jun 2007, p. 33-46.

domingo, 7 de setembro de 2014

Por uma geografia mitológica: a lenda medieval do Preste João, sua permanência, transferência e “morte”

Por uma geografia mitológica: a lenda medieval do Preste João, sua permanência, transferência e “morte” 


Ricardo da Costa


Se abriram as cortinas e subitamente vimos o Preste João, ricamente adornado sobre uma plataforma de seis degraus. Tinha em sua cabeça uma grande coroa de ouro e prata. Uma de suas mãos apoiava uma cruz de prata (...) À sua direita, um pajem apoiava uma cruz de prata bordada em forma de pétalas (...) O Preste João usava um belo vestido de seda com bordados de ouro e prata e uma camisa de seda com mangas largas. Era uma bela vestimenta, semelhante a uma batina de um bispo, e ia de seus joelhos até o chão (...) Sua postura e seus modos são inteiramente dignos do poderoso personagem que é. (Francisco Alves, embaixador português enviado à Etiópia, século XVI).

O lendário rei Preste João em um manuscrito medieval. 

I. O nascimento do mito

A queda da cidade de Edessa, na Palestina (1144), após um cerco de vinte e oito dias efetuado por Imad ed-Din Zengi (general do sultão Mahmud), foi o principal motivo da pregação da Segunda Cruzada na Europa. O banho de sangue que se seguiu à conquista causou comoção nos líderes europeus. O cronista árabe Ibn al-Qalãnisi relatou o fato:

“Começaram então o saque e a matança, a captura e a pilhagem. As mãos dos vitoriosos se encheram de dinheiro e tesouro, cavalos e presas de guerra o suficiente para alegrar e fazer com que as almas se regozijassem (al-Qalãnisi, 279-80)” (GABRIELI, 1984: p. 50).

Hugo, bispo de Jabala, foi enviado como embaixador pelo reino de Jerusalém e o principado de Antioquia para tratar com o papa Eugênio III (pisano, 1145-1153) — que se encontrava em Viterbo, pois Roma estava em poder de um grupo hostil ao papa — a possibilidade de uma nova cruzada. Em Viterbo também se encontrava Oto Babenberger, alemão, bispo de Freising e tio de Frederico I Barba-Ruiva, imperador do Sacro Império Romano-Germânico (1152-1190). Oto registrou em sua Chronica a notícia, mas estava na cúria papal com o objetivo de notificar a Eugênio III a existência de um potentado cristão na Ásia, mais precisamente na fronteira com a Pérsia, que fazia então uma guerra vitoriosa contra o mundo árabe (RUNCIMAN, 1973: p. 229).

O rei deste reino maravilhoso, que triunfava numa segunda frente de batalha contra o Islã num momento em que todos fracassavam, chamava-se Preste (padre) João. Era nestoriano, portanto herético — a controvérsia nestoriana foi um cisma cristológico provocado pela culminação da escola antioquiana de teologia nas obras de Nestor (c. 381-451), patriarca de Constantinopla em 428-31. Nestor considerou que Cristo tinha duas naturezas (duo physeis) mas isso não fazia dele dois Filhos, pois as naturezas distintas estavam unidas numa conjunção voluntária. Essa concepção forçou Nestor a argüir contra a atribuição a Maria do título de "Mãe de Deus"(Theotokos, portadora de Deus). Para ele; o termo era impróprio porque ela tinha gerado apenas um homem a quem o Verbo de Deus estava unido (LOYN, 1990: p. 272).

Mas que importava? Um aliado, herético mas cristão, vencendo em outra frente de batalha, minando o inimigo, o “outro”, alimentando as esperanças de uma vitória final da verdadeira fé. Seu exército era imenso: sua carta, destinada apenas a “Nossa Majestade”, afirma que sua milícia levava “treze grandes e altas cruzes, feitas de ouro e de pedras preciosas (...) e a cada uma delas seguem dez mil soldados e cem mil peões armados” (Carta do Preste João das Índias. Versões Medievais Latinas, 1998: p. 82). Com este poderoso exército, Preste João teria conquistado Ectabana, capital persa, dirigindo-se então para o norte, quando então regressou a seu país.

Foi dessa forma que o mito de Preste João "entrou" na História, ou seja, pelas mãos de Oto de Freising. O bispo foi além: já na corte de Frederico I Barba-Ruiva, provavelmente falsificou uma carta, que teria sido enviada em 1150 por Prestes João ao imperador bizantino Manuel I Comneno (1143-1180), ao papa e ao próprio Frederico I Barba-Ruiva.

A notícia dessa suposta carta que contava as maravilhas do reino de Preste João espalhou-se pela Europa. Até o século XV foram feitas várias traduções e cópias. Suas diferentes versões descrevem as maravilhas de seu reino. Jóias corriam nos rios, o palácio do Preste João abrigava 30.000 pessoas à mesa, todos os dias “...não contando com os forasteiros que chegam ou partem. E todos eles recebem em cada dia, da nossa câmara, ajudas de custo quer em cavalos quer em outras espécies” (Carta do Preste João das Índias. Versões Medievais Latinas, 1998: p. 82).

Seu palácio era ricamente decorado. Teto de cedro, cobertura de ébano, em seu cume dois pomos de ouro, portas de sardônica, janelas de cristal, mesas de ouro e ametista com colunas de marfim. Além disso, existiam seres fantásticos: “bois selvagens, sagitários, homens selvagens, homens com cornos, faunos, sátiros e mulheres da mesma raça, pigmeus, cinocéfalos, gigantes, cuja altura é de quarenta côvados, monóculos, ciclopes e uma ave que chamam fénix e quase todo o género de animais que existem debaixo do céu.” (Carta do Preste João das Índias, p. 56)

Preste João tinha um aspecto jovem, “apesar de ter então 562 anos de idade” (FRANCO JR., 1992: p. 39-40), porque banhava-se na própria Fonte da Juventude. A carta situa a Fonte num bosque, no sopé do monte Olimpo, não muito longe do Paraíso “de onde Adão foi expulso”: “Se alguém beber em jejum três vezes dessa fonte, a partir desse dia nunca mais sofrerá de qualquer doença e será sempre, enquanto viver, como se tivesse trinta e dois anos de idade” (Carta do Preste João das Índias, p. 64-66).

Quando atingiam os cem anos de idade, os homens rejuvenesciam bebendo da água da Fonte, até completarem 500 anos, quando então morrem, e, por tradição, são enterrados juntos de árvores que possuem folhas que nunca caem e são duríssimas. “A sombra dessas folhas é agradabilíssima e os frutos dessas árvores de suavíssimo odor” (Carta do Preste João das Índias, p. 68).

Em seu reino estava também a Árvore da Vida, que fazia fronteira com o Paraíso, a apenas um dia de distância. “Porém ela era guardada por uma serpente duas vezes maior que um cavalo, tendo ainda nove cabeças e duas asas. Vigilante o tempo todo, ela dormia apenas no dia de São João Batista, quando se podia recolher o bálsamo que a árvore produz e do qual se faz o crisma, o óleo sagrado” (FRANCO JR., 1992: p. 39-40). Ela representava o próprio Preste João porque “...tal como essa árvore ultrapassa as outras em fruto e aroma, do mesmo modo a nossa pessoa neste mundo não tem semelhante nem igual.” (Carta do Preste João das Índias, p. 114-116).

Neste reino maravilhoso não havia corrupção, guerras ou violência, o mal inexistia: “Entre nós não existem pobres. Não existe entre nós nem roubo nem rapina, nem o adulador ou o avaro têm lugar aqui. Não há disputa entre nós. Os nossos homens abundam em todas as riquezas.” (Carta do Preste João das Índias, p. 76).

Seus súditos eram abençoados por terem um rei tão maravilhoso. A similitude com Salomão é clara: “A população de Judá e de Israel (...); comiam, bebiam e viviam felizes” (l Rs, 4,20). Preste João proclamava-se imperador de 72 reis na Ásia — o número 72 era uma analogia a Isidoro de Sevilha: “De fato, segundo a autoridade de Isidoro de Sevilha, o mundo é formado por 72 povos (44: IX, 2, 2), e Preste João afirma na sua carta governar 72 províncias, cada uma delas tendo um rei que lhe é tributário (FRANCO JR., 1992: p. 39-40): “Setenta e dois reis são nossos tributários (...) Setenta e duas províncias nos prestam vassalagem” (Carta do Preste João das Índias, p. 54).

Dessa maneira, não é de surpreender que, em 1177, o papa Alexandre III (sienês, 1159-1181) tenha enviado como embaixador para o reino de Preste João seu médico particular, Felipe, solicitando ajuda contra os muçulmanos. A Igreja já nesse momento, também enxergava a possibilidade de se apropriar do mito. Ao que parece, Felipe terminou sua missão na Abissínia sem nenhum resultado (RUNCIMAN, 1973: p. 382).

Mas qual o interesse do bispo Oto de Freising para divulgar um rei lendário, um reino fantástico e falsificar esta carta? Devemos buscar no contexto político germânico da época as causas da atitude do bispo alemão. Em primeiro lugar, as lutas internas no Império entre guelfos e gibelinos — guelfo — de Welf, ou Guelf, tio do duque Henrique da Baviera, que se opôs à eleição de Conrado III da Suábia, o primeiro da dinastia dos Hohenstaufen; gibelino — de Waiblingen, aldeia pertencente aos Hohenstaufen. Mais tarde, na Itália, com as campanhas de Frederico contra a Liga Lombarda, guelfo passou a designar os partidários do papa, e gibelino os partidários do imperador.

Outra questão importante era a disputa entre Frederico e o papa Alexandre III (poder temporal x poder espiritual) — que tinha suas origens na Questão das Investiduras — uma grande crise que assolou as relações entre o Império e o Papado, e, na verdade, entre a Igreja e as Monarquias européias de um modo geral, no período de 1075 a 1122 (Investidura — ato físico de investir um clérigo com as insígnias do cargo). Todas estas questões faziam do mito de Preste João um importante instrumento político nas mãos de Frederico (FRANCO JR., 1994), como veremos.

Como imperador, Frederico também detinha o título de rei da Lombardia. Resolvendo assumi-lo literalmente, enviou a cada uma das cidades lombardas italianas um podestàs — representante imperial — para governar em seu nome. O papa Alexandre III, com receio pelos direitos temporais do papado, excomungou-o (1160). A Liga Lombarda (composta pelas seguintes cidades: Verona, Bolonha, Milão, Vicenza, Treviso, Pádua, Mântua, Bréscia, Cremona, Ferrara, Bérgamo, Parma, Módena e Piacenza), criada em 1167 após a tomada de Milão por Frederico (o imperador arrasou a cidade, incendiando-a totalmente), venceu o exército germânico em Legnano (1176), obrigando-o a se reconciliar com o papa e assinar um tratado restituindo o governo próprio das cidades italianas (Tratado de Constança, de 1183).

O imperador necessitava de um apoio espiritual superior ao papa, um suporte mental que desse legitimidade às suas pretensões de um grande Império contra o poder papal (DUFFY, 1998: p.108-109). Preste João era a oportunidade que Frederico estava esperando. Através de uma série de confluências mitológicas, o imperador construiu uma “ponte” com Preste João, que, por sua vez, desembocava em Cristo. De que forma?

Preste João tinha elementos que o projetavam até o nascimento de Cristo, mais especificamente na figura dos três reis magos, que, numa tradição oriental, seriam seus ascendentes diretos (FRANCO JR., 1994). Devemos então observar a ligação dos magos com Cristo.

II. Os três Reis Magos e Jesus Cristo

Na tradição bíblica, o encontro dos magos com Jesus se encontra no Evangelho de Mateus: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram magos do Oriente a Jerusalém, perguntando: “Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos a sua estrela no céu surgir e viemos homenageá-lo”(Mt 2, 1-2).

O diálogo narrado se deu entre os magos e Herodes. Alarmado, Herodes ordenou aos magos que se certificassem do nascimento. Maravilhosamente, a estrela os conduziu à casa de Jesus: “Eles, revendo a estrela, alegraram-se imensamente. Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o homenagearam. Em seguida, abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho que não voltassem a Herodes, regressaram por outro caminho para a sua região” (Mt. 2, 10-12).

O onírico novamente interfere nas ações humanas. Os magos, “do Oriente”, região por excelência “dos sábios astrólogos”, ofereceram os presentes paradigmáticos do “outro” mundo: ouro, incenso e mirra. Para os Padres da Igreja, simbolizam respectivamente a realeza, a divindade e a paixão (A Bíblia de Jerusalém, 1991: p. 1.839).

É interessante observar que apenas Mateus descreve o encontro com os magos. Marcos e João nada dizem; Lucas fala na presença de pastores (Lc, 2, 1-20). Essas diferenças podem ser historicamente explicadas? (MEIER, 1992: p. 205-230). Possivelmente não. Por exemplo, salta aos olhos que em sua obra Joseph Meier não comente ou tente explicar a ausência dos Três Magos nos outros Evangelhos sinópticos.

Mas o mais importante neste ensaio é identificar o momento em que os magos entraram na casa de Jesus: simultaneamente. Esta tradição bíblica difere significativamente de outra tradição, oral, apócrifa, fixada por Marco Polo (1254-1324) em seu Livro das Maravilhas. Nele, Polo encontra seus túmulos, dá seus nomes (que não constam do Evangelho segundo São Mateus) — Baltazar, Gaspar e Belchior —; identifica a cidade de onde partiram para adorar o menino Jesus (“Sava”, atual Saveh, cem quilômetros a sudoeste de Teerã) (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 64).
Por fim, narra o momento de encontro:

“Chegando ao local onde havia nascido o Menino, o mais novo daqueles reis saiu da caravana e foi sozinho vê-lo, e verificou que era parecido consigo próprio, pois tinha a sua idade e estava vestido como ele; ficou assombrado o Rei Mago”.

“Logo a seguir foi o segundo Rei Mago, que era de meia-idade, e certificou-se do mesmo; aumentava a surpresa deles”.
      
“Finalmente foi o terceiro rei, que era o mais velho dos três, e sucedeu-lhe aquilo que tinha sucedido aos outros. Ficaram muito pensativos. Quando se reuniram, contaram uns aos outros o que tinham visto e maravilharam-se todos”.
      
“Decidiram, então, ir os três ao mesmo tempo, encontrando o Menino do tamanho e com a idade que lhe correspondia (pois não tinha mais do que três dias). Prostraram-se diante dele, oferecendo-lhe o ouro, o incenso e a mirra. O Menino aceitou tudo aquilo e em troca ofereceu-lhes um cofrezinho fechado. Os Reis Magos voltaram aos respectivos países” (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 58-59).

Os Magos são o “Cristo tripartido”. Nessa “genealogia mitificada e idealizada” da tradição oriental, eles são associados a Preste João, que assim descenderia do próprio Cristo (FRANCO JR., 1994). Mas e Frederico? Onde se insere nessa tradição mitológica que vai de Cristo a Preste João, passando pelos três Reis Magos?

Sua ligação é de reconhecimento, diplomático, real e imperial. A ele, ao imperador bizantino e ao papa Preste João se dirige. Frederico, através de seu tio Oto de Freising, traz o mito para si, como os reis magos e Carlos Magno, como força espiritual em sua luta por um império à frente dos demais reinos da Europa.

Assim, Frederico se colocava na condição de maior representante da Cristandade, único digno de trocar correspondência com o descendente direto de Cristo. Estava dessa maneira acima de Alexandre III ou de qualquer outro que estivesse no cargo de Sumo Pontífice.

Frederico também cercou-se de provas materiais. Quando da tomada de Milão, que nos referimos anteriormente, o imperador se apossou das relíquias dos reis magos, que se encontravam na cidade. Transferiu-as para Colônia, cidade alemã que também possuía muitas relíquias (FRANCO JR., 1994).

Paralelamente, promoveu a canonização de Carlos Magno (embora Carlos Magno não tenha sido santificado, foi incluído no rol dos bem-aventurados em 1165, isto é, aquele que desfruta após a morte uma felicidade celestial eterna. De qualquer modo, é o primeiro passo para a sua canonização). Assim, isso não significa um fracasso nas intenções de Frederico: seu projeto de ter um antepassado real “santo” foi realizado. Foi uma forma de aumentar seu prestígio e sua aura sacrossanta, através de um antecessor glorioso alçado à santidade. Esse “processo santificatório” só pôde ser levado a cabo pela falsificação de Oto de Freising.

No fim de sua vida reconciliou-se com Roma. A morte de Urbano III em 1187 facilitou as coisas; Gregório VIII (de Benevento, 1187) e Clemente III (romano, 1187-1191) mostraram-se amistosos com esse novo aliado na luta contra o Islã (RUNCIMAN, 1973: p. 23-24).

Sua inesperada morte a caminho da Palestina para a Terceira Cruzada, afogado — um rude golpe tanto para seus seguidores cruzados quanto para todo o mundo franco (RUNCIMAN, 1973: p. 28) — aumentou as lendas que cercaram sua figura. Para muitos Frederico não havia morrido; estava adormecido na montanha Kyffhauser, na Turíngia, pronto para voltar e trazer a glória do Sacro Império de volta. Uma lenda afirmava que podia-se ver a longa barba de Frederico crescendo através do mármore que o cobria.

Um dia ele despertaria e faria de novo o Império ordeiro e poderoso. É interessante observar que a construção da imagem de Frederico como um unificador alemão não corresponde à realidade, pois o imperador fez grandes concessões senhoriais aos nobres alemães.

Foi nesse contexto político que “surgiu” historicamente Preste João. A Europa o recebeu de braços abertos; em pouquíssimo tempo o mito ultrapassou a corte germânica para assumir as mais variadas texturas, até se deslocar para a África.

III. Marco Polo e o Preste João

Mas antes que passemos da Ásia para a África, é necessário mostrar por que o mito mudou geograficamente de posição. Consideramos o testemunho de Marco Polo essencial para delimitar esse marco.

Em seu livro já citado, Polo confirma a existência de Preste João na Ásia. Chegando a Karakorum, “cidade de três milhas de circunferência” na planície de Tangut, Polo relata que o povo que vivia nessa região, os tártaros, não tinham rei, mas pagavam tributo a um senhor (Cã):

“E era este o Prestes João, de quem falavam todos, no grande Império. Os tártaros davam-lhe uma renda de dez cabeças de gado (o dízimo). Mas o povo multiplicou-se, e, quando isto viu, o Prestes João decidiu dividi-lo por várias regiões, e enviar, para governá-las, alguns dos seus barões”. (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 92).

Nesta narrativa, Preste João governava um império de muitos povos. Os tártaros se recusaram a obedecer suas determinações; declararam-se revoltados, emigraram “para outro deserto” e elegeram seu próprio rei, Gêngis Cã.

Quando se sentiu suficientemente fortalecido, Gêngis enviou emissários a Preste João, pedindo-lhe sua filha como mulher. Este, ofendido, expulsou os mensageiros, dizendo-lhes: “Dizei ao vosso povo que o condeno à morte por ser traidor e desleal, e por ter a audácia de pedir a filha do seu senhor para mulher, e que eu o farei morrer de morte afrontosa” (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 93).

Preste João considerava Gêngis Cã um vassalo e, portanto, indigno de ser seu genro. O Cã organizou um exército para o combate “na grande planície chamada Tangut, que pertencia ao Prestes João, e ali aparelhou os seu cavalos, e eram tantos os homens que não podiam contá-los” (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 94). Após uma consulta astrológica com dois cristãos — onde o Cã soube de sua vitória — deu-se o combate:

“Durante dois dias, as duas hostes inimigas bateram-se duramente. E foi batalha maior e mais encarniçada que jamais viu o gênero humano. Houve grandes perdas, duma parte e doutra, mas afinal venceu Gêngis Cã esta batalha, na qual morreu Prestes João (...) Contei-vos como os tártaros elegeram o seu primeiro grã-senhor e como venceram Prestes João. Agora falarei dos seus usos e costumes”. (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 95).

Sem dor, sem lamentação. Assim Polo narrou a morte do mito, esperança última da Cristandade na luta contra o Islã. Por que?

Polo é um homem novo num tempo ainda antigo. Está colocado na curva, virada de um tipo de mentalidade. Seus olhos estão direcionados para a frente, para a troca, o comércio. O mito faz parte do passado, é intransigente e unilateral. Polo representa a multiplicidade, os dois mundos interagindo: é a alavanca para o desenvolvimento, afinal é veneziano...

Quando Polo “mata” o mito, está contribuindo para essa transposição geográfica: na verdade, as pessoas ainda desejavam que Preste João existisse, o Ocidente ainda tinha como sinal paradigmático a cruzada.
A Europa ainda estava sendo pressionada militarmente pelo Islão, principalmente em suas áreas limítrofes: o Império Bizantino e a Península Ibérica (que então estava no auge de seu processo de Reconquista). Preste João ainda era a esperança da abertura de uma segunda frente. Provavelmente por isso a sua transferência geográfica para a África.

O mito então se deslocou da Ásia para a África no século XIV, mais precisamente para a Etiópia. Segundo Mollat (1990, p. 35), o primeiro a situar seu reino “ao sul do Egito” foi o cartógrafo genovês Angelino Dulcert. O desconhecimento europeu em relação ao reino etíope, devido ao não-mapeamento das fontes do Nilo (porque por terra havia o Deserto do Sudão e o Maciço Etíope) também criava um clima propício ao desenvolvimento de lendas maravilhosas.

Conta uma delas que Makeda era a rainha de Sabá (Etiópia). Sabá seria o Reino de Aksum, mais tarde o Império da Etiópia, que ocupava o sudoeste da península arábica (KI-ZERBO, s/d: p. 116). No entanto, a rainha de Sabá foi provavelmente a soberana de uma das colônias sabéias existentes na Arábia do Norte (A Bíblia de Jerusalém, p. 525). Portanto, não se considera hoje que Sabá correspondesse a Aksum.

De qualquer modo, maravilhada com as preciosidades trazidas do reino de Salomão por um mercador, a rainha de Sabá resolveu fazer uma visita pessoalmente:

“A rainha de Sabá ouviu falar da fama de Salomão e veio pô-lo à prova por meio de enigmas. Chegou a Jerusalém com numerosa comitiva, com camelos carregados de aromas, grande quantidade de ouro e de pedras preciosas (...)”

“Quando a rainha de Sabá ouviu toda a sabedoria de Salomão (...) ficou fora de si e disse ao rei: “Realmente era verdade quanto ouvi na minha terra a respeito de ti e da tua sabedoria (...) Felizes das tuas mulheres, felizes destes teus servos, que  estão continuamente  na  tua  presença  e ouvem a tua sabedoria (...)”

“O rei Salomão ofereceu à rainha de Sabá tudo o que ela desejou e pediu além dos presentes que lhe deu com munificência digna do rei Salomão  (o grifo é nosso). Depois ela partiu e voltou para sua terra, ela e seus servos” (1 Rs, 10, 1-13).

O final dessa passagem bíblica permite uma aproximação com a tradição apócrifa: Makeda é seduzida por Salomão, dá a luz um filho chamado Menelike, que será sagrado rei por Salomão “e voltará com um grupo de jovens notáveis à Etiópia, não sem terem subtraído a arca da Santa Aliança, para a honrarem em África” (KI-ZERBO, s/d: p. 116). Assim se inicia uma dinastia salomônica na Etiópia, conferindo-lhe uma condição mítica que desembocará na lenda de Preste João no século XIV.

No século IV o reino etíope de Aksum se converteu ao cristianismo pelas mãos de Fromentius, monge sírio sagrado bispo e chefe espiritual da Etiópia por Santo Atanásio, patriarca de Alexandria (KI-ZERBO, s/d: p. 118). Atanásio havia afirmado que a humanidade de Cristo estava absorvida na sua divindade — proposição de unidade da natureza de Cristo (monofisismo) — e foi condenado pelo Concílio de Calcedônia (451). A Igreja etíope é, portanto, herética e cismática, seguindo o rito litúrgico e o calendário copta egípcio, além de certos costumes sincréticos, como, por exemplo, “danças arrebatadas, tambores, sacrifícios de cabras (...) interdição de entrar na igreja no dia seguinte a relações sexuais e a observação do sábado em vez do domingo resultam da prática judaica” (KI-ZERBO, s/d: p. 118).

É mais uma aproximação com a lenda de Preste João, que também era herético (nestoriano) e maravilhoso.


IV. Preste João na África

O avanço do Islão chegou a Etiópia.

Alguns companheiros de Maomé, fugindo da aristocracia coraixita (originalmente da tribo dos Quraish, do norte da Arábia, uma importante comunidade comercial de Meca. LEWIS, 1990: p. 40-41), refugiaram-se em Aksum, em 615, instigados pelo próprio Profeta, que teria lhes assegurado: “Se fordes para a Abissínia (...) encontrareis um rei sob o qual ninguém é perseguido. É uma terra de justiça, onde Deus trará o repouso às vossas tribulações” (KI-ZERBO, s/d: p. 152).

Nessa tradição, a Etiópia também é a terra das maravilhas, como na descrição do reino de Preste João. Mas a pirataria etíope no Mar Vermelho e suas razias nas costas árabes (os etíopes pilharam Jeddah, porto de Meca, em 702) levaram o Profeta, segundo outra tradição, a dizer: “Evitai toda a querela com os Etíopes, porque eles receberam em herança nove décimos da coragem da humanidade” (KI-ZERBO, s/d: p. 153).

É mais uma oralidade que ajuda a conexão com Preste João: agora, os etíopes são os inimigos dos árabes, portanto, amigos da Cristandade. O início da dinastia Zagwés no século XII não interromperia o caráter maravilhoso da Etiópia iniciado desde a visita da rainha de Sabá a Salomão: segundo alguns autores, esta dinastia seria uma descendência salomônica por via de Balkis, uma das criadas de Makeda, rainha de Sabá (KI-ZERBO, s/d: p. 155).
Assim estava preparado o terreno para a chegada do reino de Preste João direto da Ásia. Principalmente porque a Etiópia já possuía seu santo católico: Lalibela, da dinastia zagwé, rei piedoso que fundou inúmeros igrejas e mosteiros (KI-ZERBO, s/d: p. 153).

Após a geografização do maravilhoso feita pelo cartógrafo genovês Angelino Dulcert, temos notícia do encontro em Nápoles de um dominicano de origem siciliana, Pedro Ranzano, com um embaixador do soberano etíope negus, de nome Pedro Rambulo. O título oficial do imperador era Rei dos Reis (Negusa nagast), que se explicava pelo grande número de príncipes da periferia do império que reconheciam-lhe laços de vassalagem. Tais laços eram freqüentemente consagrados através do casamento do rei etíope com princesas árabes, em detrimento da monogamia cristã. Embora essas princesas fossem obrigadas a converter-se, aconteciam casos de regentes filhas de príncipes muçulmanos, como, por exemplo Helena, princesa que recebeu uma delegação portuguesa em 1520. A parte central do império estava sob a autoridade absoluta dos negus (KI-ZERBO, s/d: p. 229).

Este embaixador estava em missão junto ao rei de Aragão, em 1450. Afirmou que seu rei era o verdadeiro Preste João, descendente direto da rainha de Sabá, e que seu reino havia sido evangelizado pelo apóstolo Tomás (MOLLAT, 1990: p. 37).

Além de transferência geográfica, percebe-se aqui outro elemento mítico: o nome Preste João começa a se tornar um título, intemporal. Assim, o “nome se pereniza (...) mais conveniente para a lenda” (BRAGA JR., 1994: p. 20). Preste João é sempre um rei, sacerdote, chefe religioso, inimigo do Islã (pelo menos em teoria).

A Europa receberia muitos embaixadores etíopes a partir de então, mas nenhum com descrição tão precisa quanto Ranzano. As relações tornaram-se mais sólidas com a fundação do Colégio Etíope, em 1474, pelo papa Sixto IV (de Savona, 1471-1484) e duas missões de Battista d’Imola (em 1482 e 1484) (MOLLAT, 1990: p. 37).

V. A “morte” do Mito

No tempo do rei Lebna Denguel (Incenso da Virgem) (1508-1540) (KI-ZERBO, s/d: p. 57), a regente Helena, uma princesa muçulmana convertida, mandou um mensageiro a Portugal, Mateo, o Armênio, durante uma série de escaramuças do reino etíope com as potências islâmicas da costa. Uma embaixada portuguesa foi enviada em 1520. No entanto, parece que os portugueses foram acolhidos sem entusiasmo, pois Lebna Denguel teria ficado decepcionado com os magros presentes provenientes da Europa. Ainda, quando lhe mostraram num mapa o pequeno Portugal em comparação com seu reino (cuja extensão era exagerada por causa das técnicas de representação cartográfica), Lebna Denguel encheu-se de orgulho e ficou consternado com o fato dos reinos cristãos recorrerem às armas. De qualquer modo, aceitou ceder Massawa como base naval a Portugal e prometeu a sua aliança contra os Muçulmanos. Por sua parte, pediu artesãos e médicos (KI-ZERBO, s/d: p. 57).

Na embaixada portuguesa encontrava-se Francisco Alves, padre e e capelão. Devemos a ele a primeira descrição do Preste João. Ele foi o primeiro cristão a "ver", e, por consegüinte, "matar" o mito:

“Se abriram as cortinas e subitamente vimos o Preste João, ricamente adornado sobre uma plataforma de seis degraus. Tinha em sua cabeça uma grande coroa de ouro e prata. Uma de suas mãos apoiava uma cruz de prata (...)”

“À sua direita, um pajem apoiava uma cruz de prata bordada em forma de pétalas (...) O Preste João usava um belo vestido de seda com bordados de ouro e prata e uma camisa de seda com mangas largas. Era uma bela vestimenta, semelhante a uma batina de um bispo, e ia de seus joelhos até o chão (...)”

“Sua postura e seus modos são inteiramente dignos do poderoso personagem que é”. (MOLLAT, 1990: p. 39).

O surgimento do mito é uma correspondência mental com a realidade. O mito é uma das formas da consciência humana, “o exame dos mitos ilumina a estrutura dessa consciência” (MORA, 1982: p. 266). Sua efervescência mostra uma tomada de atitude, sua aceitação aponta em direção do anseio coletivo, personificação do fabuloso na forma do reino imaginário, distante e inatingível. Sua inexistência física amenizava os desgastes dos personagens concretos, talvez por isso “seu conteúdo mítico e sua longa duração” (FRANCO JR., 1994).

Acreditar em Preste João foi, para o homem dos séculos XII-XV, a esperança da cruzada, um motivo para permanecer lutando, reconquistando. É esse espírito belicoso que sempre insiste em renascer de nossas entranhas, mesmo com todo o racionalismo delirante que cresce, século após século. É parte de nós.

Fontes 
A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.
Carta do Preste João das Índias. Versões Medievais Latinas (trad. Leonor Buescu). Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.
GABRIELI, Francesco (selected and translated). Arab historians of the crusades. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1984.
MARCO POLOO Livro das Maravilhas. Porto Alegre: L & PM, 1994.

Bibliografia 
BRAGA JR. Elói. "Introdução". In: MARCO POLO. O Livro das Maravilhas. Porto Alegre: L & PM, 1994.
CAHEN, Claude. Oriente Y Occidente en tiempos de las cruzadas. México: Breviarios, Fondo de Cultura Económica, 1989.
DUFFY, Eamon. Santos & Pecadores. História dos Papas. São Paulo: Cosac & Naif, 1998.
FRANCO JR., Hilário. As utopias medievais. São Paulo: Editora Brasiliense, 1992.
FRANCO JR., Hilário. A construção de uma utopia: o império de Preste João. Conferência proferida em 12-10-94 durante o I Simpósio Internacional de História Antiga e Medieval e VI Simpósio de História Antiga, 10 a 14 de outubro de 1994, Porto Alegre (notas pessoais).
KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra I. Viseu: Publicações Europa-América, s/d.
LEWIS, Bernard. Os Árabes na História. Lisboa: Editorial Estampa, 1990.
LOYN, Henry R. (org.). Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.
MEIER, John P. Um judeu marginal — repensando o JESUS histórico. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1992.
MOLLAT, Michel. Los Exploradores del siglo XIII al XVI — primeras miradas sobre nuevos mundos. México: Fondo de Cultura Económica, 1990.
MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1982.
RUNCIMAN, Steven. Historia de las Cruzadas II. Madrid: Alianza Universidad, 1973.


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ásia: berço de religiões: as religiões iranianas

Dando continuidade ao projeto Ásia: berço das religiões, chegamos a quarta parte da série, onde serão abordadas as religiões iranianas, chamadas por alguns também de religiões persas, pois antes de se tornar Irã, o país era chamado de Pérsia. Todavia, uma característica interessante das religiões iranianas, foi sua saída do politeísmo, e sua tendência ao monoteísmo, e em dados momentos apresentado por um monoteísmo ou uma monolatria dualista. Em tal aspecto as religiões iranianas se comparam as religiões abraâmicas, pois Abraão era um caldeu politeísta, que negou os demais deuses mesopotâmicos, para se devotar a apenas um deus, Javé. 

As outras partes dessa série são:
Religiões iranianas:

A religiosidade iraniana ou persa é bastante antiga, e inicialmente era politeísta, embora não saibamos quando ela surgiu, mas seu panteão é tão antigo quanto o panteão védico na Índia, e neste ponto, possuem aspectos em comum. Os arianos ou árias, povo que vivia na Ásia Central, povoaram tanto o Irã quanto a Índia, logo, na religião védica originada na Índia a partir da miscigenação dos indianos com os arianos se nota similaridades com a religião iraniana, fosse em ideias cosmogônicas, nome de deuses e rituais. 

No entanto, por volta do século VI a.C, a religião iraniana de cunho politeísta começaria a sofrer reformas que alterariam sua concepção para uma tendência monoteísta e dualista. Neste aspecto, tais religiões iranianas monoteístas são mais recentes, comparada ao milenar politeísmo iraniano.

“Se a concepção do Tempo linear, substituindo a noção do Tempo cíclico, já era familiar aos hebreus, muitas outras ideias religiosas foram descobertas, revalorizadas ou sistematizadas no Irã. Lembremos apenas as mais significativas: a articulação de vários sistemas dualistas (dualismo cosmológico, ético, religioso); o mito do Salvador; a elaboração de uma escatologia “otimista”, que proclama o triunfo definitivo do Bem e a salvação universal; a doutrina da ressurreição dos corpos; muito provavelmente, certos mitos gnósticos, e, finalmente, a mitologia dos Magus, reelaborada durante o Renascimento, tanto pelos neoplatônicos italianos quanto por Paracelso ou por John Dee”. (ELIADE, 1983, p. 139). 

Religião tradicional iraniana:


1) Breve história


A antiga religião iraniana não possui um nome próprio, assim como, grande parte da sua história é desconhecida. No entanto, ela é tão antiga quanto o Vedismo introduzido na Índia pelos arianos, povo aparentando dos iranianos. Por esse aspecto, a religião tradicional iraniana data de 2.000 a 1.000 anos antes de Cristo, consistindo em uma das religiões mais antigas que se tem razoável notícia. 


Por séculos essa religião se desenvolveu basicamente restrita ao que hoje é o território do Irã e as fronteiras de países vizinhos como Iraque, Afeganistão e Paquistão. No entanto, com o surgimento do Império Persa Aquemênida (550-330 a.C), tal religião se expandiu para outras áreas do Oriente Médio, ao ponto que os gregos, hebreus, egípcios e outros povos do Mediterrâneo tivessem contato com tais deuses. 


Por volta do século VII a.C começou a surgir uma tendência monoteísta, ainda pequena na época, mas que cresceria nos anos seguintes, tratava-se do Zoroastrismo. Todavia, com o fim da Idade Antiga, a religião tradicional iraniana e suas sucessoras praticamente seriam esquecidas da História, sendo substituídas pelo Cristianismo e o Islamismo . 


2) Aspectos religiosos


Sendo uma religião de caráter nacional, ela não possui um fundador conhecido, assim como, não se sabe a época que surgiu. Tratava-se de uma região politeísta, embora não se saiba quantos deuses eram cultuados, pois identificou-se que cada tribo possuía um deus padroeiro. Isso se reforça pois ao longo de séculos, tais crenças se modificaram, ao mesmo tempo em que, o Avesta livro sagrado do Zoroastrismo, é uma das melhores fontes que temos sobre a liturgia iraniana, embora que tal conjunto de livros foram escritos entre os séculos VII a.C e II a.C, logo, muito dos ritos não seriam os mesmos desde sua origem. 


Tal religião conservava aspectos animistas, algo visto na adoração de animais sagrados como a vaca, o touro, a cobra, o cavalo e o cachorro, os quais eram sacrificados aos deuses. O culto aos ancestrais e o culto ao fogo eram alguns dos ritos centrais dessa crença. 


Assim como no Vedismo se dava muita ênfase aos sacrifícios, parece que o mesmo ocorreu com a religião tradicional iraniana. Ofereciam-se sacrifícios vegetais, animais e possivelmente de humanos também (já que o sacrifício humano era comum entre vários povos, embora os motivos para tal sacrifício variassem de povo para povo). 


Entre os sacrifícios mais comuns, estavam os ritos ligados ao haoma, bebida sagrada similar ao soma dos védicos. Feita de algumas plantas, a bebida embriagava e causava alucinações, as quais eram utilizadas para se entrar em transe e se conectar com as divindades. Os védicos também faziam o sacrifício do soma para pedir saúde, fertilidade e longa vida. Talvez o mesmo era feito também com o haoma


Os antigos iranianos acreditavam em plano celestes e infernais, para onde seguiriam as almas boas e más. Também acreditavam que espíritos pudessem influenciar o mundo físico, daí o culto aos ancestrais, aos animais sagrados, etc. Acreditava-se na existência de espíritos bons e ruins, sendo que era dever dos homens evitarem os más espíritos e suas mentiras (drug).


Entre os principais deuses iranianos podemos destacar: Dyeus, o senhor do céu, e rei dos deuses; Mitra, o deus do sol, dos contratos e promessas; Aúra-Masda, o deus do conhecimento, da sabedoria, da luz (posteriormente se tornou a divindade central do zoroastrismo), Agna, o deus do fogo e Anahata, deusa-mãe e deusa da água. Durante o Império Persa Aquemênida, Aúra-Masda se tornou uma figura central no culto real, pois os imperadores se diziam ser mensageiros diretos do deus da luz, o qual passou a ser também o deus-sol ao lado de Mitra. 



Alto-relevo mostrando a investidura do imperador Sapor II (centro). Na esquerda, o deus Mitra e na direita Áura-Masda. Nota-se que enquanto Mitra ainda ilumina o imperador, Aúra-Masda divide com o monarca um símbolo real, representando o direito divino de governar sendo concedido a Sapor II pelos próprios deuses. 
A magia estava bastante ligada a religião iraniana tradicional, sendo que alguns de seus praticantes eram chamados de magus (magi no plural), homens instruídos em astrologia, medicina, alquimia e outros saberes. O magus além de realizar estudos, fazia ritos mágicos (práticas para curar, proteção, boa sorte, saúde, fertilidade, etc. A magia também poderia ser utilizada para causar danos, maldições, azar, doenças, esterilidade, etc.) e até mesmo participavam de alguns ritos religiosos. É necessário desvincular a ideia de mago que temos advinda da ficção; o mago real, era um homem que possuía conhecimento sobre a natureza, associando o sobrenatural ao natural. 

Todavia, os magi também eram uma classe sacerdotal na Pérsia Antiga, e essa ideia foi passada adiante. Por exemplo, historiadores gregos chamavam os sacerdotes zoroastrianos, de magus. Consideravam que Zoroastro fosse um magus, embora não temos como precisar se realmente ele foi ou não.


Por outro lado, também havia uma classe de sacerdotes ligados apenas ao culto do fogo, sendo chamados de "sacerdotes do fogo", os quais utilizavam a fumaça e a água para a purificação. Eliade [1983] menciona que o fogo era tão sagrado, que o sacerdotes utilizavam luvas especiais para não tocar nele, pois a questão não era se queimar, mas ao tocá-lo, profaná-lo com as impurezas mundanas. Eles também usariam uma máscara para cobrir a boca e o nariz, a fim de evitar que a respiração apagasse a chama. Os sacerdotes do fogo eram em alguns casos mais importantes que os magi. E tal visão se tornou mais clara com o Zoroastrianismo, pois os magi foram encarados não como sacerdotes, mas como feiticeiros das trevas. 

Segundo, alguns relatos gregos como o de Heródoto, os persas não tinham o hábito de enterrar seus mortos e nem cremá-los, mas abandonavam os corpos no deserto, para serem devorados pelos carniceiros. Dessa forma se evitava "profanar" o solo com a carne morta e o ar com as cinzas. No entanto, as pesquisas mostraram que de fato, tal rito era praticado, e até mesmo foi mantido pelo Zoroastrismo, mas não foi generalizante.

Zoroastrismo 

1) Breve história

Chamada também de Masdeísmo e Parsismo, consistiu na primeira religião monoteísta ou pelo menos com esse princípio, surgido na Pérsia Antiga (atual Irã). Normalmente é mais conhecida pelo nome de Zoroastrismo devido ao seu fundador, o sacerdote persa Zaratustra (660?-583? a.C ou 628?-551? a.C), mais conhecido pela versão grega de seu nome, Zoroastro

Pintura retratando o profeta persa Zaratustra. Todas as imagens do profeta são hipotéticas, pois não se possuem nenhuma imagem de sua época, ou de um período próximo.
Assim como outros fundadores de religiões, a vida de Zaratustra é envolta em mistérios e até em algumas lendas. Primeiro não se sabe exatamente em que época ele viveu, embora que hoje em dia se considere que ele tenha vivido entre os séculos VII a.C e VI a.C, no entanto, há hipóteses que sugeriram que ele teria vivido no século X a.C, e até mesmo antes. Todavia, sabe-se que tal data não pode ser posterior, pois o Império Persa Aquemênida (550-330 a.C) em parte, já havia adotado a religião de Zaratustra. Logo, cogita-se que o profeta teria vivido antes do século V a.C.

Zoroastro teria nascido na parte oriental da Pérsia, em regiões como Corasmia ou na Bactriana. Pelo o que se conhece das fontes religiosas e históricas, ele era um homem pobre, vivendo provavelmente da pecuária, pois a criação de bovinos era a principal renda naquela região, onde a terra não era fértil para a agricultura, mas gerava um pasto ralo para a criação de gado. 

Zaratustra era filho de Pourusaspa, o qual pertencia ao Clã Spitama ("de ataque brilhante), os quais eram conhecidos por criarem cavalos. Sua mãe se chamava Dughdôva. Todavia, embora algumas tradições religiosas digam que desde sua infância ele teria chamado a atenção por ser uma criança diferente, por supostamente vivenciar milagres, sabe-se que Zaratustra só iniciou a sua pregação por volta dos seus trinta anos. Antes disso, ele teria viajado pela Pérsia, e teria também estudado religião. 

O Avesta, conjunto de livros sagrados do Zoroastrismo, descreve Zaratustra como sendo um homem questionador, que perguntava aos deuses muitas dúvidas que ele possuía sobre a natureza, o mundo e o universo. 

Por volta de seus 30 anos, enquanto se encontrava diante de um rio, ele teria testemunhado sua primeira revelação divina. Um espírito de luz chamado Vohu Manah (Bom Espírito ou Bom Pensamento), convidou-lhe para uma conversa, na qual revelou que Aúra-Masda, o Senhor da Luz, o escolhia para ser seu profeta. Após a conversa com o espírito de luz Vohu Manah, Zoroastro teria tido outras revelações, recebendo mensagens dos outros espíritos de luz que compõem o séquito de Mazda, então decidiu dá início a sua pregação. 

Painel retratando vários momentos da vida de Zaratustra, alguns deles, lendários. 
“Nas gâthas Aúra-Masda ocupa o primeiro lugar. Ele é bom e santo (spenta). Criou o mundo por meio do pensamento (Yasna, 31: 7, 11), o que equivale a um creatio ex nihilo. Zaratustra declara haver “reconhecido” Aúra-Masda “pelo pensamento”, “como o primeiro e o último” (Yasna, 31:8), isto é, enquanto começo e fim, o Senhor é acompanhado por uma escola de Seres divinos (os Amesha Spenta): Asha (Justiça), Vohu Manah (Bom Pensamento), Ârmaiti (Integridade [saúde] e Imortalidade)”. (ELIADE, 1983, p. 147).

Zaratustra passou a reconhecer Aúra-Masda como o único deus verdadeiro, e a profetizar que os demais deuses era falsos, que na realidade eram espíritos que mentiam para os homens, os levando para o caminho do mal e da perdição.

Dos 30 aos 40 anos, Zaratustra casou-se e teve dois filhos e uma filha, no entanto, nesse período de 10 anos, ele só conseguiu converter parte da família (alguns relatos falam que mesmo sua esposa e filhos se negaram a conversão, tendo sido um primo seu, o único a se converter). Até mesmo os amigos, negaram-se a abandonar o culto aos outros deuses. Por outro lado, além desse insucesso, o profeta teve que também lhe dar com as críticas contrárias e as ameaças dos sacerdotes. 

“A comunidade a que ele dirigiu sua mensagem era constituída de pastores sedentários que possuíam chefes, denominados kavi, e sacerdotes karapan, “murmurador” e usig, “sacrificante”. Foi a esses sacerdotes, guardiães da religião tradicional ariana, que Zaratustra não hesitou em atacar em nome de Aúra-Masda. A reação não demorou, e o profeta foi obrigado a fugir. “Para que terra poderei fugir?”, exclama. “Para onde fugir, aonde ir? Afastaram-me de minha família e de minha tribo; nem a aldeia, nem os malvados chefes da região me são favoráveis... (Yasna, 46: 1)”. (ELIADE, 1983, p. 142). 

Além de pregar que se deveria adorar apenas o deus Aúra-Masda, Zaratustra condenou o sacrifício e a adoração de animais; condenou o animismo dos objetos, onde se acreditava que espíritos habitariam objetos; condenou a magia, a qual era bem difundida entre aquele povo, mas para ele, ela estaria associada a um caráter maléfico. Condenou a adoração aos outros deuses, os quais ele passou a chamar de Daêvas, alegando que na verdade eram falsos deuses. 

Por tais motivos, Zoroastro foi ameaçado de morte e teve que abandonar sua terra natal, fugindo para o oeste da Pérsia. No entanto, ele teria encontrado um protetor na pessoa do kavi Vishtaspa, chefe da tribo Friânia, o qual posteriormente se converteu a fé do profeta, e em seguida, sua tribo fez o mesmo. A conversão de Vishtaspa foi decisiva para que Zoroastro ganha-se apoio de um senhor importante e influente, e com isso, pudesse alavancar sua missão. 

“Pode-se identificar nas gâthas algumas indicações relativas à atividade missionária de Zaratustra. O profeta está cercado por um grupo de amigos e discípulos cognominados os “pobres” (drigu), os “amigos” (frya), os “sabedores” (vîdva), os “confederados” (urvatha)”. (ELIADE, 1983, p. 142).

Ele incentivava seus seguidores a combaterem os “homens maus”, os quais alegava serem servos dos daêvas (demônios, embora originalmente significa-se deuses). Na religião pregada pelo profeta, defendia-se que os homens deveriam seguir o caminho do bem e da luz, adorando o verdadeiro deus, Aúra-Masda, e dessa forma se libertarem das trevas e dos pecados gerados pela devoção aos daêvas.  

“Em resumo, o ponto de partida da predicação de Zaratustra é a revelação da onipotência, da santidade e da bondade de Aúra-Masda. O Profeta recebe-a diretamente do Senhor, mas essa revelação não cria um monoteísmo. O que Zaratustra proclama, oferecendo-a como modelo aos seus adeptos, é a escolha de Deus e das outras Entidades divinas. Ao escolher Aúra-Masda, o masdeísta escolhe o bem contra o mal, a verdadeira religião contra aquela dos daêvas. (ELIADE, 1983, p. 151-152).

Zaratustra nos anos seguintes conseguiu difundir sua palavra, ganhando vários seguidores, mas ao mesmo tempo, também fez muitos inimigos. Ele teria sido assassinado na idade de 77 anos, enquanto se encontrava em oração diante de um altar do fogo, em um templo. Ele foi assassinado pelo turaniano Brâtvarxsh.

Mesmo com sua morte, sua religião havia sido difundida, e seus seguidores deram continuidade a ela. Os impérios persas Aquemênida e Sassânida em determinadas épocas, adotaram oficialmente o Masdeísmo como religião nacional, no entanto, com a chegada dos árabes no século VII, eles trouxeram consigo o Islamismo, o qual foi imposto aos persas. Os que se opuseram ao governo árabe e sua religião, fugiram para o Oriente, para o Afeganistão, Paquistão até chegarem a Índia, onde passaram a serem conhecidos como parsis (variação de persa), e o Zoroastrismo foi chamado pelos indianos de Parsismo. Hoje em dia ainda existem alguns resquícios dessa religião, vivos entre as comunidades persas na Índia.

2) Aspectos religiosos

O Masdeísmo rompe com o politeísmo tradicional dos iranianos, passando a invocar na figura de Áura-Masda (também chamado de Ahura-Mazda, Mazda, Ormasde, Ormuzd, etc.) como o deus verdadeiro. Mas além da adoração ao Senhor da Luz e a negação aos outros deuses, Zaratustra também passou a pregar o caminho da salvação, a pregar o estilo de vida correto para ser abençoado e salvo; passou a difundir uma ideia escatológica sobre o fim dos tempos. Se no Cristianismo e no Islamismo se fala sobre o Juízo Final, alguns séculos antes dos dois, Zaratustra já fazia menção a um "Juízo Final". 

“A teologia de Zaratustra não é “dualista” no sentido estrito do termo, uma vez que Aúra-Masda não é confrontado com um “antideus”; a oposição declara-se, na origem, entre os dois Espíritos. Por outro lado, a unidade entre Aúra-Masda e o Espírito Santo está muitas vezes subentendida (cf. Yasna, 43: 3; etc)”. (ELIADE, 1983, p. 148).

“Em resumo, o ponto de partida da predicação de Zaratustra é a revelação da onipotência, da santidade e da bondade de Aúra-Masda. O Profeta recebe-a diretamente do Senhor, mas essa revelação não cria um monoteísmo. O que Zaratustra proclama, oferecendo-a como modelo aos seus adeptos, é a escolha de Deus e das outras Entidades divinas. Ao escolher Aúra-Masda, o masdeísta escolhe o bem contra o mal, a verdadeira religião contra aquela dos daêvas. (ELIADE, 1983, p. 151-152).

Além de Eliade, outros autores como Challaye [1981] e Huby [1956] assinalam que o Zoroastrismo não foi uma religião monoteísta no início, pois Zaratustra não havia rompido com todos os deuses, pois embora ele condenasse muito dos daêvas, havia alguns deles como Mitra, que ainda recebia culto, embora tenha se tornado um servo de Aúra-Masda. O que se nota nesse aspecto, é uma tendência de monolatria, onde o profeta preferiu dedicar sua fé a apenas um dos deuses, mas não extinguiu todos os outros de vez. Apenas posteriormente é que o Masdeísmo vai se firmando como um monoteísmo.

Embora Mazda fosse o único deus, ele como já mencionado era servido e auxiliado por outros seres luminosos, chamados de Amesha Spenta ("Espíritos Imortais"):
  • Vohu Manah (Bom Pensamento): responsável por aconselhar Aúra-Masda e os homens. De fato, ele foi o primeiro espírito de luz que apareceu a Zaratustra. Também estava associado a proteção dos animais domésticos.
  • Asha Vahista (Boa Justiça): responsável pela boa conduta moral e legal. Também era o guardião do fogo. 
  • Khshatrha Vairya: personificação da bondade e padroeiro dos metais.
  • Spenta Armatay (Santa Humildade): personifica a sabedoria, a benevolência, a caridade e a tolerância. Também estava associado a proteção da terra.
  • Haurvatât ("Saúde"): irmão gêmeo de Ameretatât, ambos representam o bem-estar e a salvação da alma humana. Eram os protetores das águas e das plantas. 
  • Ameretatât ("Imortalidade"): irmão gêmeo de Haurvatât, ambos representam o bem-estar e a salvação da alma humana. Eram os protetores das águas e das plantas. 
Além dos Amesha Spenta havia um outro grupo que também servia o Senhor da Luz, eles eram chamados de Yazatas, sendo esse um grupo mais numeroso. Os quais anteriormente seria divindades locais ou nacionais, que foram assimiladas pelo Masdeísmo, como já mencionado:
  • Atar: a personificação do fogo sagrado. Ocupa o lugar anteriormente do deus Agna. Todavia o papel dos sacrifícios e ritos ligados ao culto do fogo permanecem nessa religião.
  • Yazata: Um dos filhos de Aúra-Masda, entre suas simbologias estava a proteção aos reis e sacerdotes, personificando uma auréola em torno de suas cabeças. 
  • Anâhita: Antiga deusa-mãe, a qual passou a ser associada a água. Em algumas versões dos textos sagrados, ela é considerada a esposa de Aúra-Masda. 
  • Mitra: Antigo deus do sol, das promessas e juramentos. Passa a ser um dos três juízes que preside o julgamento das almas. 
  • Rashnu: Um dos três juízes que julgam as almas.
  • Sraosha: Um dos três juízes que julgam as almas.
No entanto surge uma pergunta: se todos esses seres são benéficos e justos, de onde surgiu o Mal? No Avesta há diferentes histórias que contam o embate entre o espíritos de luz e os espíritos das trevas, no entanto, todas as histórias têm em comum o fato que o Mal surgiu a partir do Sétimo Espírito que formava o Amesha Spenta, o qual ficou conhecido também como o "Espírito Caído". Ele se chamava Angra Mainyu (Espírito Destruidor), também conhecido como Ahriman ou Arimã. O qual também possuía seu séquito de seguidores, os daêvas
  • Aeshma: o demônio da violência.
  • Aka Manah (Pensamento Ruim): o demônio da maldade. Era o oposto a Vohu Manah.
  • Bûshyamstâ: o demônio da indolência.
  • Apaosha: o demônio da seca.
De acordos com algumas versões, Angra Mainyu seria o irmão gêmeo de Spenta Armatay, sendo ambos filhos de Mazda. Todavia, Angra tinha inveja de seu irmão, então decidiu seguir um caminho oposto, e isso o levou a tomar decisões errôneas e maléficas. Para Eliade [1983] o Mal era explicado como uma escolha, e necessariamente não uma criação de Mazda, pois nesse caso seu filho Angra nasceu bom, mas em determinado momento escolheu se tornar mau. Logo, a maldade foi criada por Angra Mainyu, que por sua vez foi banido do Céu, então passou a odiar seu pai e irmãos. 

Outra versão, essa mais difundida pelo Zurvanismo (um dos ramos do Zoroastrismo), alegava que o deus criador era Zurvan, o deus do Tempo. Sendo ele quem gerou Áura-Masda e Angra Mainyu, logo, ambos seriam irmãos, onde representariam os opostos do universo, o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas. Neste caso, é dito que ambos os irmãos gêmeos travariam uma luta ao longo de 12 mil anos, até que Mazda sairia triunfante. 



Estátua do deus Zurvan. 
A cosmogonia zoroastriana é dividida em quatro partes, nas quais mostram a evolução do mundo, da vida e do confronto entre Mazda e Ahriman.
  • Primeira Era: Nos primeiros 3 mil anos não havia o mundo, só existia Zurvan, Mazda e os fravashis (almas). Essa primeira era termina com o despertar do mal em Ahriman.
  • Segunda Era: Mazda ofereceu o perdão ao irmão, mas este se recusou, então entraram em guerra. Mazda conseguiu derrotar Ahriman e o aprisionou. Com a derrota do Mal, Mazda passou a criar o mundo e os seres vivos. 
  • Terceira Era: Após 3 mil anos de paz vivenciado na Segunda Era, Ahriman consegue se libertar, então inicia seus planos de conquistar o mundo e derrotar seu irmão. A Terceira Era passa a encarar o mal, e termina com o reinado de mil anos do lendário rei Yima (Yama no Vedismo), o qual esse nobre rei foi destronado pelo terrível dragão Azhi Dahaka
  • Quarta Era: Diz respeito a época atual, tendo se iniciada com a revelação dada ao profeta Zaratustra. De acordo com essa cosmogonia, por volta dos anos 2500 ou 2600 se dará o fim do mundo, com o advento do Juízo Final de Aúra-Masda. 
Visto alguns aspectos sobre Mazda e Ahriman, e seus espíritos de luz e das trevas, e a cosmogonia zoroastriana, partamos para conhecer outros aspectos dessa religião que em suma preservou muitas das práticas da religião tradicional iraniana. 

O Masdeísmo girava em torno da doutrina de se cultivar o bem e a salvação da alma. 

"Os deveres do fiel (ashavan) são o culto de Ahura Mazdah e dos outros bons espíritos, a manutenção do fogo sagrado e a veneração dos mortos. A mais apreciada das virtudes pessoais é a retidão. O Zoroastriano é obrigado a guardar grande pureza: não somente se deve abster do adultério, da violação e dos restantes atos contra a natureza, mas está sujeito a múltiplas observâncias, por vezes bizarras, relativas às relações sexuais e ao contato com os seres e objetos impuros, especialmente cadáveres. São, igualmente, recomendadas e praticadas a caridade para com os pobres, a hospitalidade para com os estranhos. Como virtude social, figura, no primeiro plano, o trabalho da terra. É falta cortar uma árvore. O boi e o cão são objeto de maior apreço". (HUBY, 1956, p. 385). 

Além do adultério, a luxúria, o incesto e a prostituição eram condenáveis. No entanto, notou-se que a nobreza manteve a poligamia e tolerou o incesto e o adultério. Cortar árvores e matar animais sem necessidade, era considerado como atos perversos e impuros. Maltratar bois e cães, era considerado um crime, e havia punições específicas para determinados atos que fossem contra tais animais puros.

Mentir, enganar, trapacear, governar com opressão, roubar, matar, etc., também eram crimes condenáveis pelas leis, onde as punições variavam desde castigo público com chicotadas ou espetadas, prisão, exílio temporário no deserto, execução, etc. 

Carregar cadáveres era algo bastante impuro, ao ponto que se evitava tocar a carne morta, logo, os encarregados de transportarem os corpos cobriam suas mãos para evitar qualquer contato com o morto. Os corpos não eram enterrados ou queimados, mas eram largados nas Torres do Silêncio (dakhma), onde eram deixados para serem devorados pelos abutres e outros carniceiros. 

Ruínas de uma Torre do Silêncio em Yazid, Irã.
Todavia embora muitos masdeístas procurassem seguir a arrisca tal prática fúnebre, nem todo mundo fazia isso. Alguns dos reis persas Sassânidas foram sepultados em túmulos, embora o Zoroastrismo foi proclamado como religião oficial dessa dinastia que governou de 224 a 651. 

Aproveitando esse tema fúnebre, passamos para conhecer alguns aspectos da vida após a morte, e mais adiante retornaremos a concepção do Juízo Final de Aúra-Masda. 


Para os zoroastrianos quando a pessoa morria, sua alma (daêna) não partia de imediato, mas por cerca de três dias ela permanecia ainda entorno de seu corpo, então passadas essas 72 horas, o espírito finalmente rompia os últimos laços com seu corpo mortal, e ascendia até o tribunal presidido por Mitra, Sraosha e Rashnu, onde os três espíritos aguardavam na Ponte Chinvat, a qual passaria sobre o Monte Hara. 



O faravahar é o símbolo zoroastriano que representa a alma humana. 
A ponte conectava o mundo dos vivos com o mundo dos mortos, sendo sua entrada vigiada por dois cães. Ao passar pelos guardiões caninos, a alma seguia até a presença dos três juízes os quais aguardavam ao lado de uma balança, na qual as virtudes e pecados seriam "pesados", e dependendo para que lado a balança pesasse mais, significaria que a alma seria salva ou condenada. 


Pintura persa retratando o tribunal presidido por Mitra, Sraosha e Rashnu. 
De acordo com o relato religioso, se as virtudes fossem maiores que os pecados, a alma poderia atravessar a ponte e seguir até o Paraíso (Bahesht), mas pelo contrário, se os pecados proliferassem, a ponte se estreitaria, e a alma cairia no Inferno, no abismo sombrio, onde padeceria de terríveis sofrimentos. 

Os zoroastrianos consagravam suas orações nos lares, onde cada lar deveria manter um fogo constante, pois simbolizava o fogo sagrado nos templos. Mas além do culto ao lar, o que incluía o culto aos antepassados, os fiéis também frequentavam templos e locais sagrados, para deixar suas oferendas, sacrifícios, pedidos e fazer orações. Embora nem toda a população não soubesse ler, as pessoas aprendiam através da repetição frases e versos do Avesta, os quais eram recitados nas orações e celebrações religiosas. 


Os zoroastrianos costumavam celebrar o fim e o começo do ano, as mudanças de estações, e os dias de lua cheia e lua nova. Havia também ritos relacionados a vida, como o fato de se abençoar as crianças quando nasciam, e lhe molhar os lábios como haoma, a bebida sagrada. No caso dos homens, esses ao chegarem a puberdade, eram iniciados nos ritos de iniciação, para serem reconhecidos publicamente como homens e não mais meninos. O casamento era uma celebração bastante importante, pois todo o zoroastriano deveria se casar e ter família. Os sacerdotes (zoatar ou hotar) não eram obrigados ao voto de celibato, embora praticassem abstinências sexuais. 


No que se refere a literatura sagrada, o Avesta é a "bíblia" do Masdeísmo. A obra consiste numa coletânea de diferentes livros, sendo escritos por diferentes autores ao longo de alguns séculos. Dentre estes autores estaria o próprio Zaratustra. Em geral o Avesta foi escrito em pélevi, mas alguns de seus livros foram escritos em outros dialetos iranianos, como o caso do Gâthas. A obra é dividida basicamente em quatro partes:

  • Yasna ("sacrifício"): Traz as informações para a realização de todos os sacrifícios que devem ser feitos pelos zoroastrianos. A obra é dividida em 72 has (capítulos) dos quais incluem os Gâthas, textos como mencionado, teriam sido escritos pelo próprio profeta. Nesse caso, o Yasna além de trazer as especificações para a realização dos sacrifícios, também traz hinos e orações que devem ser cantados a Aúra-Masda, os Amesha Spentas e aos antepassados. 
  • Vispered ("todos os senhores"). Diz respeito a histórias, hinos e orações a Mazda e as demais divindades. 
  • Vendidâd ("a lei contra os demônios"): Formado por 22 fargards (capítulos), é dividido em duas partes, onde os dois primeiros fargards dizem respeito a história do rei Yima e como ele teria sobrevivido ao Dilúvio. O restante do livro aborda as regras que devem ser seguidas para se viver de forma boa e correta com os mandamentos de Mazda. Consistiria num manual onde ensina o que deve e não deve ser feito, para macular a pureza do corpo, da alma, ou cair na perdição.
  • Yashts ("adoração"): Também chamado de Khorda Avesta ("pequeno Avesta"). "Os Yashts, em número de 21, são hinos solenes e extensos, dirigidos aos diversos yazatas. São redigidos, em grande parte, em verso e contêm trechos verdadeiramente poéticos, muitos de caráter mitológico. Encerram elementos antigos, de natureza mais popular que a religião das gâthas, misturados com passagens de inspiração muito mais recente". (HUBY, 1956, p. 365). 
Além do Avesta existe outra literatura importante para o Zoroastrianismo, chamada de Pélevi, em alusão a língua que foi escrita, assim como o Avesta. O Pélevi é um conjunto de obras escritos após o Avesta, já datando depois de Cristo, consistindo em obras de estudo e interpretação dos textos sagrados. Basicamente o Pélevi é dividido em quatro partes:
  • Dinkard ("Atas da religião"): "Compilação do século IX, que encerra preciosa e vasta coleção de pormenores sobre doutrinas, costumes, tradições, história, literatura, etc., dos tempos áureos do Masdeísmo. Encontram-se, aí, muitas tradições relativas à vida do profeta e sua pregação". (HUBY, 1956, p. 367).
  • Bundahishn: Consiste numa obra na qual relata a criação do mundo, dos seres divinos, dos homens e dos animais. Traz também informações geográficas, esotéricas e lendárias sobre a Pérsia. 
  • Mainyô-Khard ou Mainôg-Khirat ("o espírito da sabedoria"): Consiste num livro de 62 perguntas, contendo suas respectivas respostas. A obra aborda temas religiosos, destacando as indagações de um velho sábio sobre sua fé. 
  • Artâ-Virâf Nâmak: trata-se de um relato poético das visões que o sábio Virâf teria tido enquanto estava em transe. Durante 17 dias de transe, Virfâf teria testemunhado o Paraíso e o Inferno, fazendo posteriormente as descrições sobre tais lugares. 
Para concluir falarei um pouco do Juízo Final segundo o Zoroastrismo. Como já mencionado, o Juízo Final se dará ao término dos 12 mil anos de Mazda, quando finalmente ele voltará a derrotar Ahriman, e dessa vez será o confronto final. Todavia, em meio as várias descrições dos acontecimentos que marcarão a chegada dessa época se destacam alguns aspectos:

É dito que os mortos irão ressuscitar, e que o último profeta surgirá anunciando o começo do Julgamento Final. Tal profeta de acordo com algumas vertentes do Zoroastrismo dizia ser o próprio Zaratustra ressuscitado, mas outras versões alegam que será outro homem tão santo quanto o primeiro profeta, o qual será chamado de Saoshyant ("aquele que traz benefício"), considerado como o Salvador. A ressurreição dos mortos e a vinda de um Salvador, são aspectos vistos no Juízo Final da Bíblia e do Alcorão


Com a chegada do Dia Final (Frasho-Kereti), Aúra-Masda, os Amesha Spenta e os demais espíritos de luz descerão do Céu para testemunhar o último ato de salvação. Os ressuscitados se reunirão com os vivos e ambos serão engolidos por chumbo fundido, o qual brotará das profundezas da Terra, jorrando pelos vulcões e outras fendas que se abrirão pelo mundo.


É algo curioso essa descrição, na qual diz que a purificação final se dará com esse metal quente, o qual não causará dano aos bons, mas queimará os pecadores. No entanto, surge nesse ponto a diferença desse julgamento para as versões cristã e muçulmana: enquanto as duas dizem que os pecadores serão atirados ao Inferno, para padecer sofrimento eterno, no Masdeísmo, os pecadores serão purificados e perdoados de seus pecados e crimes, e assim poderão se reunir aos puros, e compartilhar de um mundo sem máculas, sem nenhum tipo de maldade, pois Ahriman e seus seguidores serão derrotados e destruídos. 


A grande lição final do Zoroastrismo é que o Bem vencerá definitivamente o Mal. E até mesmo os maus serão salvos, pois não haverá mais nenhum tipo de sofrimento, e todos viverão em uma paz eterna. 


Mitraísmo


1) Breve história


Como visto nos textos acima, Mitra é um deus há bastante tempo cultuado, pelo menos se tem notícia que ele já era cultuado antes do ano 2.000 a.C. Sendo adorado pelos iranianos, arianos, indianos e outros povos nos tempos mais antigos. No entanto, com a expansão do Império Persa Aquemênida, a religião tradicional iraniana se expandiu da Índia a Ásia Menor, da Mesopotâmia ao Egito, logo, outros povos que viviam principalmente no Oriente Médio e no norte da África, passaram a ter contato com os deuses persas, o que incluiu o deus Mitra.


O deus Mitra em uma pintura indiana. Hoje em dia Surya é o deus-sol mais venerado entre o hinduísmo, pois Mitra era principalmente cultuado na época do vedismo, o que remonta mais de 3 mil anos atrás. 
Há algumas décadas, alguns historiadores das religiões assinalavam que o Mitraísmo surgiu quando o Zoroastrismo entrou em baixa por volta do século II a.C, para tempos depois, retornar ao auge. Mas a verdade é que o culto a Mitra nunca foi totalmente abolido mesmo com a reforma religiosa de Zaratustra, pois como foi visto no tópico anterior, Mitra ainda era adorado, talvez não na mesma forma de antes, mas seu papel sacro ainda se mantinha entre os persas

Todavia, a religião do Mitraísmo como hoje conhecemos, começou a surgir por volta dos séculos II a.C ou I a.C, época pela qual também começou a se expandir pelo Império Romano (27 a.C - 476 d.C). O mitraísmo adentra o Ocidente através das legiões romanas, dos comerciantes, viajantes e dos escravos. Até o século IV d.C, o mitraísmo era uma das religiões mais populares entre os romanos. 



Moeda romana de prata, com a efígie de Mitra. 
Os relatos mais antigos sobre o culto de Mitra no império romano datam do século I d.C, onde se encontram inscrições de soldados na Panônia, na Ásia Menor e outras províncias orientais, onde eles prestam homenagem ou pedem bençãos ao deus-sol. Em alguns casos, Mitra era chamado de Sol Invictus. No século II muitos soldados romanos eram adeptos de Mitra, e pelo fato de haver grande mobilidade das legiões pelas fronteiras, vestígios do mitraísmo são encontrados da Ásia Menor (Turquia) a Bretanha (Inglaterra), da Germânia (Alemanha) ao Egito. Inscrições, estátuas, figuras em auto-relevo, moedas, conotam os vestígios arqueológicos do culto romano a Mitra.

Alguns imperadores como Antonino Pio, Cômodo, Severo, Diocleciano e Constantino, o Grande foram mitraístas assumidos, embora que no caso de Constantino, ele posteriormente se converteu ao cristianismo. Templos a Mitra foram erguidos e dedicados por várias províncias do império. No entanto, em 391 o imperador Teodósio I, o Grande, um cristão convicto, declarou que o Cristianismo seria a religião oficial do Império Romano, e para completar, baniu todas as outras religiões, o que iniciou a derrocada do mitraísmo, do maniqueísmo, gnosticismo, da religião romana, da religião grega, etc. No final do império, grande parte do povo romano se identificava ao cristianismo, e as outras religiões gradativamente iam sendo esquecidas. 


2) Aspectos religiosos:


Muitas informações sobre o Mitraísmo hoje se perderam ao longo da História, embora saibamos que alguns estudiosos romanos tenham escrito bastante sobre os mistérios mitriáticos, mas infelizmente seus relatos estão perdidos. Todavia, é válido ressalvar que a religião do Mitraísmo diz respeito as crenças e ritos desenvolvidos entre os séculos II a.C e IV d.C, pois o culto ao deus nesse período era diferente do culto que vinha sendo feito desde pelo menos o século XX a.C. 


O mitraísmo consistiu numa religião não de caráter monoteísta como alguns chegaram a cogitar, mas de caráter monolátra, ou seja, os seus fiéis não descartavam a existência de outros deuses, mas consideravam Mitra como a principal divindade de seu panteão, algo visto no hinduísmo com o culto a Shiva e a Vishnu. 


"A doutrina mitríaca tinha tomado forma coerente, e fixara-se, antes de se difundir no Ocidente. No cimo dos seres, colocava o Tempo infinito, o Zervã Acarana do Avesta, que produz, destrói, encerra todas as coisas. [...]. O Tempo infinito gerava o Céu e a Terra: destes brotara o Oceano, seu igual em poder e natureza divina. Depois, gerações inumeráveis de deuses. Ao exército celeste opunha-se o reino e o poder das trevas: Arimã com os maus espíritos". (HUBY, 1956, p. 564). 


Não obstante, o mitraísmo era uma religião de mistérios, ou seja, nem todo mundo tinha acesso a sua liturgia, pois embora muitos profetizassem a fé nesse deus, apenas um pequeno grupo participava de seus principais ritos e formavam uma classe sacerdotal. De fato, para ingressar no ciclo sacerdotal mitraísta, era necessário passar por provas para galgar os postos de iniciação, até finalmente ser reconhecido como um membro interno. Algo do tipo foi visto na Grécia com os mistérios de Elêusis, associado a deusa da agricultura Deméter e sua filha Perséfone


No mitraísmo o deus Mitra ainda continuava a ser considerado o deus do sol, da luz, dos juramentos e dos julgamentos. No entanto, novos aspectos lhe foram concedidos: ele se tornou o deus criador após sacrificar o "touro primordial", e assim criou os seres vivos com seus sangue e carne; se tornou o deus que combate o Mal, que roga pela paz e a proteção da humanidade, algo com o qual os militares se reconheceram, pois Mitra concedia a vitória contra os inimigos. Passou também a ser o deus que prenunciava a imortalidade e a salvação eterna, assim como, era considerado o mensageiro da salvação final, quando chegasse o fim dos tempos. 


"Na luta, mais dum divino desempenhava seu papel, combatendo contra o mal, pela causa dos deus supremo e salvação dos homens. Destes seres intermédios, Mitra veio a ser o principal, e seu culto cresceu a ponto de eclipsar a personalidade vaga e abstrata da divindade transcendente". (HUBY, 1956, p. 564). 


"Renan pôde escrever: "Se o Cristianismo tivesse sido estancado em seu crescimento por qualquer doença, o mundo seria mitriasta". (CHALLAYE, 1981, p. 125). 


Na religião mitraísta realizavam-se sacrifícios de animais, principalmente do touro, animal sagrado nessa crença. O sacrifício do touro simbolizava a criação, nascimento e a fonte da vida. 


"O episódio principal da lenda era o sacrifício dum touro divino, cujo sangue derramado devia ser fonte de vida. O touro, primeiro ser criado por Aúra-Mazda, pasce tranquilamente num prado. Mitra lança-se sobre ele e toma-o pelos chifres, mas o touro arrasta-o em correria doida, até que, esgotado, cai de joelhos. Por ordem do deus supremo que enviou o corvo, seu mensageiro, Mitra enterra uma faca no flanco do animal e mata-o. A vida universalmente criada ou restituída, eis o que se deve ao sacrifício do touro. Da sua medula e do seu sangue germinarão todas as plantas úteis, especialmente a vinha e o trigo. [...]. Do touro sairão também todos os animais úteis ao homem, e sua alma, transportada aos céus, continuará a proteger a vida agrícola". (HUBY, 1956, p. 565-566). 



Fresco romano retratando Mitra sacrificando ou touro. Marino, Itália, ca. II d.C. 
No que diz respeito aos ritos ligados ao mitraísmo, por se tratar em grande parte de sua liturgia algo secreto, então pouco se sabe realmente o que era feito durante as reuniões. Pois embora houvessem templos a onde poderia se deixar oferendas e ir rezar ao deus, os principais ritos eram feitos em câmaras subterrâneas, chamadas de mitreu (mithraeum). 

O mitreu era uma caverna adaptada para o culto, ou um recinto construído sob o subterrâneo de casas, templos, edifícios, etc. Era um local escuro iluminado apenas pelo fogo, possuía outras câmaras adjacentes onde os sacerdotes e os iniciados trocavam de roupas (vestíbulo), para trajar as vestes brancas de estilo persa e outros rudimentárias. Havia outras câmaras as quais eram utilizadas para guardar as oferendas, alimentos, e outros objetos utilizados nos rituais. 


O mitreu dos Sete Portões. Ostia, Itália. 
Os locais normalmente possuíam uma estátua ou uma imagem em auto-relevo do deus sacrificando o touro, essa ficando diante de um altar. Poderia haver também mosaicos e afrescos, representando Mitra ou outros deuses como o deus primordial Zervan, retratado com o corpo de homem, cabeça de leão e possuindo quatro asas. Símbolos astrológicos ou mágicos também eram encontrados nos mitreus. 

Nos mitreus se realizavam os sacrifícios do touro, os batismos, os ritos de iniciação, de elevação de grau, etc. Realizava-se orações em coro; fazia-se a comunhão através da partilha do pão e do mel (talvez do vinho em alguns casos), algo que lembra a eucaristia praticada pelos cristãos católicos. Devido a fato de ser ritos de mistério como foi dito, logo, pouco se sabe sobre suas características, todavia as mulheres eram proibidas de participar. 


No que diz respeito as graus de iniciação aos mistérios mitriáticos, estes eram em ordem decrescente:

  • Pai (pater)
  • Correio do Sol (heliodromus)
  • Persa (perses)
  • Leão (leo)
  • Soldado (miles)
  • Velado (cryphius)
  • Corvo (corax)
Os iniciados aos mistérios mitriáticos eram chamados de servos de Mitra, mas entre si, chamava-sem de irmãos, sendo o Pai, os líderes das comunidades. Sobre as funções, ritos e outros aspectos sobre cada um desses graus praticamente nada se sabe. Todavia os resquícios que possuímos nos informa que ao chegar ao grau de Soldado, o iniciado de acordo com Tertuliano (160-220) prolifico estudioso do cristianismo e de outra religiões, informava que nesse grau o iniciado fazia um juramento (sacramentum) onde jurava sua devoção e dedicação a causa do deus Mitra em seu combate contra o Mal. 

Segundo Huby [1956, p. 567] ao chegar ao grau de Leão, os servos se tornavam participantes, podendo ter acesso a outros ritos antes negados, como o caso do banquete de comunhão. Sabe-se que havia testes para se passar de grau, o que incidia em provas de abstinência e resistência, embora não saibamos como eram suas características e aplicações. 

De qualquer forma os servos de Mitra acreditavam que estavam melhor servindo ao seu deus, assim como, participando da sua lutra contra o Mal, convocando novos adeptos e os instruindo nos mistérios do deus. Eles também acreditavam que suas mortificações, abstinências e provações eram formas de expiar suas impurezas de forma a receber as bençãos do deus. Neste aspecto acreditava-se que conseguiriam a sim a vida eterna e garantiriam sua salvação. 


O culto era realizado três vezes ao dia, consistindo de cerimônias breves onde se entoavam cânticos, faziam orações, ofertavam oferendas ou realizavam sacrifícios de animais. Os mitraístas reconheciam a semana dividida em sete dias, e para cada dia havia um astro equivalente, e neste caso, o Sol era o principal astro e o seu dia era o domingo. Logo, o domingo era santo para os mitraístas, reservados para ritos especiais. Além disso, dizia-se que Mitra teria nascido num domingo 25 de dezembro, e tal data era um dos mais importantes feriados religiosos celebrados pelos mitraístas. 


Algumas lendas contavam que o deus teria sido crucificado e depois ressuscitou após três dias, embora não se sabe ao certo quando tais histórias surgiram. Além disso, algumas histórias previam a ocorrência de um Juízo Final, parecida com a vista no Zoroastrismo. Mas a diferença era que Mitra sendo o deus-sol, enviaria uma chuva de fogo a qual mataria todas as pessoas más, os demônios e os monstros, e assim extinguiria da face da Terra, Ahriman e seus servos. Com o fogo, Mitra purificaria o mundo da maldade, iniciando uma nova era de paz, prosperidade e imortalidade. 


Maniqueísmo


1) Breve história


A história do Maniqueísmo surge com o seu fundador, o profeta de origem iraniana, nascido em por volta de 214 ou 216 em Ctesifonte (hoje no Iraque), na época no estado da Babilônia, o qual pertencia ao governo do Império Parta (247 a.C - 224 d.C), chamado Manes, Mani, Manu ou Maniqueu. Assim como outros fundadores de religiões, a vida de Maniqueu é envolta em lendas e mistérios. 


Desenho representando Maniqueu.
Seu pai era Pateg (Pattikios em grego), um homem que praticamente quase nada se sabe da sua vida, o qual após o nascimento de Mani, abandonou a esposa e o filho e ingressou numa seita cristã gnóstica chamada de Mandaenos, os quais profetizavam que São João Batista era o verdadeiro Messias que os judeus profetizavam. E sendo Jesus Cristo um espírito de luz elevado.

A seita dos mandaenos era de vertente elcasaíta, a qual por sua vez teria sido fundada no final do século I por Elkasai. Esse profeta o qual teria escrito o Livro de Elkasai defendia noções gnósticas baseadas na religião judaico-cristã. Um dos pontos da sua doutrina era a defesa que Jesus não seria o Messias e nem o Filho de Deus, mas um espírito elevado. Muitos dos aspectos da doutrina elcasaíta influenciaram não apenas os mandaenos, mas o próprio Mani.


Os mandaenos realizavam o batismo, reservavam o sábado para o descanso, reconheciam os profetas judeus, não consideravam Jesus Cristo como o verdadeiro Messias, mas sim São João Batista; que Maria não era virgem quando deu a luz a Jesus, e ele não seria filho de Deus, mas filho de São José. Os mandaenos também acreditavam numa dicotomia celeste, entre os espíritos da luz e os espíritos das trevas. Discordavam do Apocalipse de São João, não reconheciam algumas das histórias do Antigo Testamento e nem no Novo Testamento. 


Todavia, quando Mani tinha 4 anos, seu pai retornou para casa e decidiu levar o filho para ingressar na seita. As características mencionadas tiveram grande influência na formação religiosa de Mani, pois a partir desse contato com a religião judaico-cristã e outras formas religiosas e filosóficas, Mani já adulto começou a elaborar sua própria seita religiosa. 


Segundo alguns livros que narram a sua vida, foi ainda na adolescência por volta de seus 12 anos, que Mani testemunhou sua primeira revelação, quando ele passou a ver e ouvir o seu anjo da guarda, chamado Syzygos (parceiro). 


"A história da juventude de Mani é um conjunto de narrativas elaboradas por seus discípulos, reproduzindo em larga medida palavras que foram pronunciadas por ele. Tal vez essas fontes correspondam a tradições orais. De especial significação é para Mani o acompanhamento do seu Syzygos. Ele é ao mesmo tempo o Revelador e o Anjo protetor: O próprio Mani (segundo o "Evangelho Vivo", no CMC 69,9-70-10) fala dele assim; "Segundo foi do agrado do meu Pai, que me acolheu na sua bondade e misericórdia, ele mandou-me de lá o meu Syzygos, o plenamente confiável, o fruto completo da imortalidade, para me resgatar e me redimir dos erros dos adeptos daquela lei: Ele veio a mim e trouxe-me a melhor esperança, a libertação que leva à imortalidade, a doutrina verdadeira e a imposição das mãos, que procede do meu Pai. Quando ele veio, escolheu-me a mim, em prejuízo de si próprio, e segregou-me, absorvendo-me nele, para libertar-me dos adeptos daquela lei que fui criado". (BÖHLING, 1999, p. 110). 


Posteriormente o espírito de luz Syzygos voltou a aparecer quando Mani tinha 24 anos, e a partir dessa data ele decidiu iniciar a sua pregação. Para isso ele começou a redigir alguns de seus seis livros religiosos e a procurar por discípulos, o que incluiu seu pai.

Nesse ponto da sua vida, Maniqueu passou a se identificar ao Paráclito (Jó 14,16-26; 15,26; 16,7), entendendo tal termo não como uma referência ao Espírito Santo ou a Jesus, mas entendendo-o como uma referência a um novo profeta, um novo enviado para mostrar a verdade ao mundo. Maniqueu toma para si funções que Buda, Zaratustra e Jesus tiveram, o de ensinar o caminho da paz e do amor, em se guiar a humanidade para o verdadeiro caminho. 


Quando ele diz em um de seus livros, chamado o Evangelho Vivo, que ele havia chegado a ciência de que a religião que lhe ensinava não estava completa, algo faltava. Então ele começou a romper com as crenças que conhecia, e assim começou a estudar e a formular sua própria seita, que posteriormente deu origem a uma pequena religião que se difundiu principalmente pela Ásia, e por parte da Europa e da África.


De início Mani sofreu repressões dos sacerdotes e membros da seita que ele pertencia, e até dos sacerdotes zoroastrianos, no entanto, a sorte do jovem profeta foi ter conseguido na pessoa do rei persa sassânida Sapor I um protetor. Sapor I governaria de 242 a 272, e durante esses 30 anos de governo, Maniqueu contou com a proteção, admiração e incentivo do monarca, e assim empreendeu viagens pela Pérsia, Índia, China, entre outros lugares. 



Moeda de prata com a efígie do rei persa Sapor I. Século III. 
Maniqueu também fundou sua própria igreja, treinou missionários e lhe entregou cópias dos livros sagrados e os enviou inicialmente para os domínios do império parto, e depois para outras nações. Tais sacerdotes chegaram a Mongólia, a Síria, Turquia, Israel, norte da Arábia e ao Egito. Todavia, não tiveram muito sucesso em pregar entre o Império Romano, pois o mitraísmo era bem mais aceito do que outras religiões asiáticas como o judaísmo, cristianismo, zoroastrismo e o próprio maniqueísmo.

Posteriormente com a morte de Sapor I, seu filho mais novo Hormidz I assumiu ao trono, e concedeu proteção ao profeta Mani, todavia, o novo rei faleceu no mesmo ano que subiu ao trono, então seu irmão Bahran I se tornou o novo monarca, e diferente de seu irmão e de seu pai, ele era um adepto do zoroastrismo e não gostava da religião pregada por Maniqueu. Assim, Bahran I cortou as ligações reais com o profeta. 


No ano de 277, Mani faleceu. As causas da sua morte não são precisas, e além disso, surgiram relatos os quais o tornaram um mártir. Um deles conta que Mani em visita a cidade de Belapat teria tido uma discussão com o monarca Bahran I, além de ter sofrido acusações por parte dos sacerdotes zoroastrianos. Após esse desentendimento com o rei, o soberano lhe ordenou a prisão. O profeta teria passado 26 dias encarcerado, até que lhe foi dada a sentença de morte. Tendo ele falecido aos 63 anos em 26 de fevereiro de 277. Outros relatos comparam a morte do profeta com a de Jesus Cristo, dizendo que Mani teria sido torturado e depois crucificado. 


Todavia, após a morte de Maniqueu seus discípulos embora passaram a serem perseguidos em algumas partes do reino parto, ainda assim, decidiram continuar pregando a palavra de seu mentor, e assim se espalharam pela Ásia. Até o período medieval em alguns locais do continente asiático, se encontra textos persas, árabes, gregos, chineses, mongóis, etc., os quais abordam a doutrina maniqueísta. 



Mapa com a localização das principais comunidades maniqueístas.
2) Aspectos religiosos:

Normalmente se fala que o Maniqueísmo foi um grande sincretismo religioso, que pegou aspectos do Judaísmo, Cristianismo, Zoroastrismo, além de tomar ensinamentos da filosofia grega, da magia e da astrologia persa, etc., e formou sua doutrina. No entanto, embora de fato Maniqueu tenha feito essa miscelânea religiosa, ele organizou uma cosmogonia complexa e uma doutrina bem constituída, algo que será visto adiante. Maniqueu teve um poder de síntese fora de série, pois sua ideia era pegar o que havia de melhor nessas religiões e reaplicar seus ensinamentos. Embora sua religião não seja perfeita como ele pretendia que fosse, ainda assim, e um sincretismo religioso bastante interessante. 


Comecemos com a ideia de cosmogônica de Mani. Primeiro, diferente do que se pensou até algum tempo, o Maniqueísmo não era uma religião monoteísta, mas um politeísmo embasado numa concepção dualista de universo: as divindades do Bem e as divindades do Mal. 


"Mani coloca em oposição, desde o princípio, dois reinos: o reino da luz e o reino das trevas. O primeiro é regido pelo "Pai da Grandeza". Ele engloba a Luz e o Bem, e encerra em si mesmo cinco elementos: 1) "Nous", 2) Pensamento, 3) Visão, 4) Discernimento, 5) Meditação. Estes também são considerados como a morada em que ele habita". (BÖHLING, 1999, p. 112).


Além do Pai da Grandeza que seria a versão maniqueísta de Deus no Novo Testamento, havia também o "Grande Espírito" (versão do Espírito Santo?), havia também uma deusa chamada "Mãe da Vida" a qual era esposa do Pai da Grandeza. O Pai e a Mãe tiveram filhos, os quais são seres celestiais. 


De acordo com essa cosmogonia, o Céu era dividido em dez planos. Onde cada plano vivia uma das personificações do Pai da Grandeza. Alguns historiadores sugerem que se tratavam de outros deuses, os quais seriam filhos do Pai da Grandeza, algo parecido com os Amesha Spenta no Zoroastrismo, os quais são filhos de Mazda, mas também personificam suas virtudes. 

  • No mais alto céu viveria Nous, sendo responsável por manter o equilíbrio do Universo. As vezes chamado de o "Mantenedor da Luz".
  • No nono céu viveria o Pensamento, chamado de "Grande Rei da Honra". Era o responsável por manter a ordem entre os arcontes celestiais. 
  • No oitavo céu vivia o encarregado de abafar as rebeliões, era a Visão, conhecido também como o "Diamante da Luz". 
  • No céu seguinte se encontrava o Discernimento, chamado de "Rei da Majestade", incumbido de manter a harmonia entre os elementos da luz. Era considerado o guardião celestial. 
  • No primeiro céu vivia a Meditação, responsável por sustentar o mundo. Era chamado de o "Carregador", e sua figura lembrava a do titãs Atlas na mitologia grega, o qual sustentava o céu. 
Os outros céus possuem também divindades responsáveis, mas essas cinco são as principais. 

No lado do Mal, há o Demiurgo, o qual equivale a Deus de acordo com suas características no Antigo Testamento. Segundo o Maniqueísmo o deus Demiurgo criou o "Primeiro Mundo". Ele era um deus arrogante e presunçoso. O verdadeiro deus do Bem e o Pai da Grandeza. O Demiurgo também possui filhos e seguidores, os quais espalham a maldade no mundo.

Segundo a cosmogonia maniqueísta, o mundo das trevas é dividido em Cinco Reinos, cada um governado por um Reis das Sombras, os quais possuiriam o corpo de homem e a cabeça de animais. Cada reino personificava os cinco elementos das trevas: fumaça, fogo, vento, água e escuridão. 


Na concepção maniqueísta o chamado "Primeiro Homem" era filho do Pai da Grandeza e da Mãe da Vida, o qual surgiu em épocas remotas, incumbido de confrontar as forças das trevas. Nessa mitologia, tal "homem" não era o ser humano, mas um deus, o qual acabou sendo derrotado pelas forças do Mal, mas conseguiu ser salvo por seus pais. Sua mãe e o Espírito da Vida aproveitando o heroísmo do Primeiro Homem, decidiram criar um "novo mundo". Sendo o atual mundo em que vivemos. Todavia, como o Primeiro Homem fracassou em derrotar o Mal, a maldade ainda existe nesse "segundo mundo".


Posteriormente, a espécie humana surgiria a partir dos Arcontes Celestiais, divindades menores, as quais foram encarregadas pelo "Terceiro Enviado", um dos filhos do Pai, para que os Arcontes, os quais eram seres masculinos e femininos, criassem seres vivos, então os Arcontes masculinos com base na imagem do "Terceiro Enviado" criaram o primeiro homem de fato. 


"O homem, inicialmente, ainda não tem consciência do seu entrelaçamento com a história do Todo. Após a sua criação, ele se encontra primeiramente em um estado de sono da morte, segundo também é admitido por outros gnósticos". (BÖHLING, 1999, p. 115). 


Posteriormente o primeiro homem, que também é chamado de Adão desperta de seu sono, e acaba conhecendo Jesus. Como foi dito anteriormente, Jesus Cristo não era na concepção dos mandeanos e dos maniqueístas o Messias, e também não era o Filho de Deus, mas no maniqueísmo, Jesus era um dos filhos do Pai da Grandeza e da Mãe da Vida, sendo um espírito de luz elevado. O Jesus que aparece para Adão nesse caso, é o seu espírito, e não ele em forma física como viria a encarnar no século I. 


Esse "Jesus Esplendor" ou "Jesus Celestial" teve a missão de orientar Adão sobre o caminho do Bem. Outras versões dizem que Adão e os demais profetas judeus e cristãos, seriam encarnações do "Jesus Esplendor". Não obstante, Mani destaca que Buda, Zaratustra e Jesus (Cristo) foram os grandes "servos da luz", tendo sido os que mais procuraram seguir e pregar o "verdadeiro caminho do bem", que havia sido instruído pelo "Jesus Esplendor" para Adão. Mani se dizia ser o sucessor de Jesus (Cristo). 


Embora assim como as religiões judaica, cristã, zoroastriana e budista, pregavam o amor ao próximo, o maniqueísmo também pregava essa ideia, mas então surge a pergunta, por que as pessoas são más? Para isso, Mani recorreu tanto a doutrina judaico-cristã quanto a zoroastriana. A resposta é que os deuses concederam aos homens, o livre arbítrio, logo, eles decidem se querem fazer o bem ou o mal. 


"A iniciativa reformista dele causou profunda impressão a uma grande parte dos irmãos da seita. Uns viam nele um novo líder, um mestre, um profeta; outros, um falso profeta". (BÖHLING, 1999, p. 118).


Maniqueu dividia os maniqueístas em dois grupos: os Eleitos (classe sacerdotal) e os Ouvintes (fiéis). 



“As regras morais seguidas pelos Ouvintes eram pouco rígidas. Eles podiam exercer funções públicas, ser comerciantes e até acumular riquezas, também podiam se casar, mas deviam evitar a concepção (DE LUIS, 1986: 66). Deviam renunciar a idolatria e proclamar o maniqueísmo, evitar dizer mentiras, blasfêmias e calunias e evitar maltratar, ferir, bater, torturar ou matar sem necessidade animais e vegetais. Deviam respeitar os Eleitos e preparar-lhes a comida. Jejuns e orações também eram recomendados (COSTA, 2003: 108-109). Em compensação sua salvação no dia do Juízo Final não era tida como certa, teriam que passar pelo tribunal (COSTA, 2003: 84)”. (CORREIA, 2013, p. 7-8).

No que se refere a vida religiosa do maniqueísmo, muitos dos ensinamentos que ele pregava, podem ser vistos no judaísmo, cristianismo, zoroastrismo e até em alguns casos no budismo, embora essa religião não teve grande influência no maniqueísmo quanto a seu aspecto doutrinário, pois as noções de carma e reencarnação não foram assimiladas, mas por outro lado, a vida monástica dos monges budistas foram fontes de inspiração para que Mani formasse seu clero e sua igreja. Afinal, a igreja cristã católica ainda não existia na quela época em sua estrutura monástica de hoje.


“Já os eleitos deviam obedecer a uma regra moral bastante rígida. Deviam cumprir os três selos: da boca, das mãos e dos seios. Assim, deviam controlar tudo o que entra e o que sai da boca, se abstendo de dizer mentiras, blasfêmias e perjúrio, assim como deviam professar o maniqueísmo; não deviam comer carnes, ovos e peixes e nem beber vinho. Segundo o selo das mãos deviam evitar várias atividades de forma a não violentar a substância divina, não podendo matar (homens, animais e vegetais), desta forma, não podiam trabalhar na agricultura e nem preparar alimentos; a posse de terra ou de qualquer outra riqueza (ou bem) lhes era vedada, deviam sobreviver da caridade dos ouvintes. Já o selo dos seios impedia que fizessem sexo e se casassem (DE LUIS, 1986: 66-67). Os Eleitos, como eram puros, sua substância divina conseguia voltar para o Reino da Luz (COSTA, 2003: 84)”. (CORREIA, 2013, p. 8). 


Pintura em um manuscrito chinês mostrando clérigos maniqueístas escrevendo. 
“Os Eleitos eram divididos de acordo com sua capacidade (conhecimento adquirido sobre doutrina) em quatro categorias hierárquicas, de baixo para cima: os Eleitos no sentido restrito, não havendo limite de componente, estes homens e mulheres viviam em monastérios separados segundo o sexo; os Administradores, recrutados entre os membros do clero, se encarregavam do culto litúrgico, de cuidar do cumprimento das regras e de cuidar da catequese do Ouvinte, seu número era limitado a 360, número correspondente a multiplicação dos dias do ciclo lunar (30) pelos 12 meses do ano do calendário solar; Ministros ou Governadores da igreja, são similares aos Bispos da Igreja Católica, tendo a função de ordenar sacerdotes, eram compostos por 72 membros, número de discípulos que Jesus enviou em missão; e por último, os Doutores, ou Apóstolos, em número de Doze, como os apóstolos de Cristo, estavam encarregados de ordenar os demais cargos, defender a doutrina, gerenciar a Igreja e cuidar de sua expansão. A cima de todos estava o Guia, o sucessor de Mani (TARDIEU, 2008: 58-60)”. (CORREIA, 2013, p. 8). 

Os maniqueístas deveriam realizar orações diárias, frequentar os templos com regularidade, participar das cerimônias festivas, fazer doações aos pobres e a igreja, pois a igreja era sustentada por doações; seguir os ensinamentos sagrados, jejuar durante o festival de Bema (julgamento), uma das principais festas religiosas do maniqueísmo. 


Durante o mês de fevereiro ocorria o mês do jejum, algo parecido com o Ramadã do islamismo, embora esse ainda não existisse naquela época. O Bema simbolizava a devoção dos fiéis, sua abstenção como provação, além de também simbolizar o prenúncio do Juízo Final. Como não se sabia quando esse julgamento derradeiro se daria, todos os anos se celebrava no início do ano, tal festa, lembrando a todos que o juízo irá acontecer. Ao término do Bema, os maniqueístas se dirigiam aos sacerdotes para se confessarem, algo parecido visto no catolicismo. Segundo a tradição, Mani teria morrido ao término do mês do jejum, logo, incluiu-se na tradição litúrgica se celebrar a morte ou martírio do profeta. 


No que diz respeito aos livros sagrados, não há um consenso de quantos livros ele teria escrito. 



“Não há um consenso de quantos livros Mani escreveu. Alfaric (1918: 79) fala de um pentateuco. Costa (2003: 119), baseado em Gustave Bardy, menciona seis livro. Enquanto Pio de Luis (1986: 30) admitindo a possibilidade da existência de mais livros, diz que no Ocidente, e em especial na África, apenas foram conhecidos cinco livros. De Luis acrescenta que dificilmente as escrituras maniqueístas formariam um Pentateuco, como ocorre nas escrituras judaicas devido a aversão de Mani aos judeus”. (CORREIA, 2013, p. 6). 

No caso de Böhling [1999] principal referência nesse caso que utilizei, ele menciona sete livros religiosos e um livro de homenagem. Mani teria escrito oito livros, sendo que sete contém sua doutrina, o oitavo chamava-se Shabuhragan e tratava-se de uma homenagem ao rei Sapor I, patrono do profeta. Nesse livro, ele fez um resumo da sua doutrina de forma a mostrá-la ao seu patrono, assim como, também dedicar honrarias e exaltações ao governo de Sapor I. De todos os livros, esse foi o único escrito em médio-persa, pois os demais foram escritos em aramaico, a mesma língua do Antigo Testamento, embora tais obras posteriormente foram traduzidas pelo próprio autor e seus discípulos. Todavia, passemos para conhecer os livros sagrados:

  • O Evangelho Vivo:
  • O Tesouro da Vida
  • A Pragmatéia
  • O Livro dos Mistérios
  • O Livro dos Gigantes
  • O Livro das Epístolas
  • Dois Salmos e Orações
Embora tenha escrito estes livros, infelizmente seus escritos na maioria se perderam no tempo. O que se tem conhecimento hoje, são fragmentos preservados em língua copta, grega, persa, chinesa, turca, etc. De algumas obras possuímos apenas alguns capítulos, de outras possuímos trechos de capítulos. 

Muito do que se conhece dessas obras e de sua doutrina advém da crítica feita principalmente por autores cristãos e alguns muçulmanos. Santo Agostinho de Hipona (354-473) antes de se tornar cristão, converteu-se ao maniqueísmo, mas após alguns anos, rompeu com a fé maniqueísta e aderiu de vez ao cristianismo. Agostinho se tornou um dos principais críticos do Maniqueísmo.


Logo, pelo fato de não se ter acesso integral a todos os livros, pouco se sabe de seus conteúdos. Por exemplo, o Evangelho Vivo possuía uma escrita parecida com a dos Evangelhos do Novo Testamento, onde dividido em 22 capítulos, apresentavam a doutrina de Mani. Por sua vez, a Pragmatéia abordava a mitologia maniqueísta. O Livro dos Mistérios trazia tratados de cunho teológico, embora desconhecemos seus temas e assuntos. O Livro dos Gigantes que se conhece apenas alguns fragmentos, fazia referência a guerra entre o Bem e o Mal, onde abordava os Anjos Caídos. O Livro das Epístolas consistia em cartas enviadas aos persas e outros povos, cartas de teor missionário, mas também cartas de assuntos pessoais.


Um último ponto a ser tratado aqui nesse breve relato, diz respeito a ideia de Juízo Final. Assim como no Cristianismo, Masdeísmo e no Mitraísmo existem profecias de um Julgamento derradeiro, Maniqueu também manteve esse pensamento, apenas o reformulando a sua doutrina. 

De acordo com sua doutrina, o corpo material representa o mal, pois está passível a ser corrompido e tentado pelos pecados mundanos. Por sua vez, a alma representa a luz, ela é pura. Mas quando ela encarna num corpo físico, ela está sujeita a ser machada. Nesse aspecto, os homens devem seguir uma conduta religiosa, moral e social para evitarem corromper-se com as impurezas, vícios e pecados do mundo. Nessa concepção os Eleitos (clero) ao se dedicarem de corpo e alma a fé, conseguem mais facilmente garantir sua salvação, diferente dos Ouvintes (fiéis) os quais terão que ser julgados. 


Mani narra que chegará um tempo que as Forças da Luz recobrarão plenamente seus poderes, então será erguido a "Última Estátua", a qual passará a "sustentar" o mundo no lugar do "Carregador". O "Grande Rei" descerá dos Céus anunciando que a renovação final está para se iniciar, então as almas serão julgadas pelo "Jesus Esplendor". Os que tiverem pendências com os deuses da luz terão que quitar suas dívidas, mas aqueles que se corromperam profundamente, não serão salvos, e serão deixados na Terra, a qual será consumida por um longo incêndio que durará 1.468 anos (Böhling, 1999, p. 116). 


Após esse incêndio milenar se encerrar, o mundo estará limpo para ser povoado pelos bons e puros, iniciando uma nova era de paz, luz e bondade pela eternidade. Pois o Mal não será destruído diferente do que se ver no Masdeísmo e no Mitraísmo, mas ele será aprisionado. Pois o Mal é a contraparte do Bem, e para o Universo existir é necessário que os dois existam. Isso lembra a filosofia dualista chinesa do Yin e do Yang. 


Embora por muito tempo o Maniqueísmo tenha sido considerado uma heresia pelos cristãos, uma seita gnóstica, hoje se reconhece-o como uma religião, baseada num complexo sincretismo, mas que ainda assim, ganhou adeptos por vários locais da Ásia, pelo norte da África e por parte do Império Romano. O Maniqueísmo deve ser visto como uma religião que procurou criar uma síntese universal a partir do melhor que havia entre outras crenças (Challaye, 1981, p. 127).


NOTA: Os Três Reis Magos mencionados na Bíblia, talvez fossem persas, estando ligados ao zoroastriano ou ao mitraísmo. Pelo fato de ambas as religiões serem monoteístas, e no caso do zoroastrismo o qual pregava a vinda de um salvador, os Reis Magos, Baltazar, Gaspar e Melchior, poderiam ter tomado Jesus como sendo esse salvador profetizado séculos antes por Zaratustra. 
NOTA 2: A Mazda Motor Corporation é uma empresa automobilística japonesa, fundada em 1920 por Jujiro Matsuda. Originalmente foi fundada com o nome de Toyo Cork Kogyo Co Ltda. Posteriormente o nome foi alterado em homenagem ao deus Aúra-Masda pelo fato de que Matsuda se parece na pronúncia com o nome Mazda. Além de automóveis, a empresa produziu caminhões, ferramentas, armas, etc. 
NOTA 3: Segundo algumas lendas persas, o terrível dragão Dahaka que destronou o nobre rei Yami, foi derrotado pelo rei Fereydoun.
NOTA 4: Assim Falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém (1883-1885) é um famoso livro de filosofia, escrito pelo renomado filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Com base na figura do profeta persa, Nietzsche redigiu seu emblemático tratado filosófico, onde sua versão do profeta persa se indaga sobre vários assuntos de ordem religiosa, moral, existencialista, filosófica, etc. 
NOTA 5: No jogo Prince of Persia: Warrior Within (2005), o Príncipe tendo naufragado em uma misteriosa ilha, em dados momentos passa a ser perseguido por um terrível espírito das trevas, chamado Dahaka, alusão ao mítico dragão da mitologia persa. Embora que no jogo, Dahaka não seja um dragão. 
NOTA 6: No jogo Prince of Persia: Ghosts of Past (2008) uma tentativa falha de conceder um reboot para essa famosa série, na trama do jogo, o Príncipe acaba se deparando com uma misteriosa mulher chamada Elika, a qual ele vem a descobrir que se tratava de uma princesa e sacerdotisa, responsável por manter segura a Árvore da Vida, pois ali se encontrava preso Ahriman, o qual foi trancafiado por seu irmãos Aúra-Masda. Todavia, o maléfico deus espalha suas mentiras, corrompendo os homens e os transformando em monstros. O Príncipe e Elika devem derrotar os generais de Ahriman, recolher as Sementes da Luz, e impedir que ele escape de sua prisão. 
NOTA 7: Alguns historiadores das religiões defendem a ideia que o nascimento de Jesus Cristo no dia 25 de dezembro foi uma incorporação dos festejos feitos a Mitra, já que sua religião era apreciada em todas as camadas sociais do império romano. Quanto ao domingo como data santa, o cristianismo explica a escolha de tal dia por causa da Páscoa. Embora influências não possam ser descartadas. 


Referências bibliográficas:
AEGERTER, Emmanuel. As grandes religiões. Tradução de Yolanda Leite. São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1957. 
BÖHLING, Alexander. ManiIn: BRUNNER-TRAUT, Emma. Os fundadores das grandes religiões. Tradução de Ivo Martinazzo. Petrópolis, Vozes, 1999. 
CHALLAYE, Félicien. As grandes religiões. Tradução Alcântara Silveira. São Paulo, IBRASA, 1981. (Coleção Gnose - 1). 
CORREIA, Joana Paula Pereira. Maniqueísmo: religião, seita ou heresia? Anais do XXVII Simpósio Nacional de História (ANPUH-BRASIL), Natal, 2013. 
FRYE, Richard N. Zaratustra. In: BRUNNER-TRAUT, Emma. Os fundadores das grandes religiões. Tradução de Ivo Martinazzo. Petrópolis, Vozes, 1999. 
HUBY, José. CHRISTVS: história das religiões. vol. II. Tradução e prefácio de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo, Edição Saraiva, 1956. 2v.