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Leandro Vilar

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A Holanda: do início da Guerra dos Oitenta anos à Guerra do Brasil

Esse texto consiste numa adaptação de parte da introdução da minha dissertação e alguns parágrafos do capítulo 1. Neste caso, a proposta foi apresentar de forma simples, sem adentrar profundamente os fatores que levaram ao surgimento dos Países Baixos ou Holanda, como comumente é mais conhecida; o início da Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), e as condições políticas e econômicas que levaram a República Holandesa do XVII, a desafiar o Império Espanhol pelo controle da produção açucareira brasileira. 

Introdução:

O historiador francês Fernand Braudel (1996, p. 160-162) salientou que foi ainda no século XVI, que os Países Baixos começaram sua guinada para o desenvolvimento da nação. Mesmo que alguns viajantes alegassem em suas cartas que os Países Baixos eram terras exíguas e naturalmente pobres, nas quais a população padecia de fome, ele discordou da opinião desses viajantes que visitaram essas províncias entre os séculos XVI e XVIII.

Dado o pouco espaço disponível, pecuária e agricultura estão condenadas a apostar na produtividade. Os animais são mais bem alimentados do que nos outros lugares. As vacas chegam a dar três baldes de leite por dia. A agricultura transforma-se em horticultura, inventa modos científicos de rotação de culturas, obtém, graças aos adubos, que incluem lixos utilizáveis das cidades, rendimentos melhores do que os habituais. Já em 1570 o progresso é suficientemente nítido para desempenhar o seu papel nos primeiros impulsos da economia da região, o que leva Jan de Vries a dizer que o capitalismo, na Holanda, nasce da terra. (BRAUDEL, 1996, p. 161).

A região dos Países Baixos ou Dezessete Províncias no ano de 1477. Não se deve confundir a região com o atual território dos Países Baixos, são territórios distintos. 
Simon Schama (1992, p. 157, 171-172) também discordou de que a região dos Países Baixos vivenciou uma contínua escassez de alimentos. Ele salienta que no século XVII há relatos de pomposos banquetes, como também relatos sobre a gula dos ricos. No entanto, ele diz que houve algumas pequenas revoltas em protesto a escassez de alguns gêneros alimentícios e o aumento dos preços, algo que ocorria normalmente em qualquer outra nação europeia daquela época.

Por sua vez, Martin van Gelderen (1992, p. 14) ressalva que, os anos de 1495 a 1565, a região vivenciou um grande crescimento econômico, social e urbano a ponto de surgirem mecenas que passaram a patrocinar as artes e ciências, que contribuíram para o desenvolvimento cultural, social e tecnológico dessas províncias. Daí Gelderen considerar esse período auspicioso, o “belo século XVI”.

Além da produção agrícola e pecuária, o desenvolvimento da pesca e do mercado manufatureiro, como a tinturaria de tecidos, a fabricação de ferramentas, equipamentos náuticos, armas, etc., complementaram o crescimento econômico do país.

“Ao longo de Quinhentos, a Holanda e sua principal cidade comercial, Amsterdã, dominavam basicamente o que eles chamavam de moeder negotie, o negócio-mãe, vale dizer, o comércio do Báltico com a Europa do Norte, inclusive o litoral da Península Ibérica. A esta Europa atlântica, os holandeses traziam o trigo e as madeiras do Báltico e o pescado do Mar do Norte, adquirindo em troca o vinho, o sal e, ademais em Lisboa, as especiarias do Oriente”. (MELLO, 2002, p. 103).

Por outro lado, os holandeses também desenvolveram a construção naval, tornando-se uma potência nessa área. A frota neerlandesa no século XVII era uma das maiores do mundo, além dos Países Baixos serem o “estaleiro” da Europa, onde se construía mais navios mercantis e de guerra, além de possuir a maior frota de navios de segunda mão para aluguel ou venda. (BRAUDEL, 1996, p. 161, 172-174). Com essa imensa frota, a Holanda lançou-se aos mares do mundo.

“Dutch life was tied to the sea and was a constant battle with it. The Dutch invented windmills to pump water out of the fields and reclaim land from the sea, and dikes, walls to hold back the sea. The Dutch fleet of 10,000 ships brought salt, oil, and wine from southern France, Spain, and Portugal to northern Europe and carried grain back. They also carried gold and silver from the Americas. Much of Dutch food and industry centered around the sea. Twenty-five percent of the Dutch population was connected to the herring industry, from fishing to selling, and preserving by smoking, salting, and pickling”. (CIVITELLO, 2008, p. 158).

Amsterdã era a rota de chegada e de partida de mercadorias vindas de Portugal, Espanha, Inglaterra, França, do Sacro Império e da Escandinávia, sem contar as mercadorias advindas das Américas, África e Ásia. Por outro lado, havia a facilidade de se conseguir dinheiro na cidade: havia o Banco, a Bolsa de Valores, loterias, casas de câmbio, casas de leilões, além de haver grande disponibilidade de crédito e os juros serem mais baixos do que em outros países, como também havia a disponibilidade de se comprar imóveis, ações e títulos. (BURKE, 1991, p. 81). Completando tais aspectos, o florim holandês tornou-se uma “moeda internacional”, assim como o dólar americano hoje em dia. (CIVITELLO, 2008, p. 158).

No entanto, havia meios menos burocráticos e lícitos de conseguir dinheiro. Schama (1992, p. 344-345) fala da grande existência de agiotas, de apostadores e dos musicos, locais que atuavam como casas de jogos, tavernas e bordéis, onde se poderia fazer dinheiro ou perder tudo. Braudel (1996, p. 166, 172-174) também diz que além de ser um centro financeiro, Amsterdã era um lugar fácil para se conseguir navios, tripulação, mão de obra e informações

Neste caso a região dos Países Baixos era um local peculiar no oeste europeu, por um lado era um lugar ainda bastante agrícola, por outro, estava formando núcleos manufatureiros, um “pré-industrialismo”. (GELDEREN, 1992, p. 14). Mas além de tais características, a região também se tornava uma das áreas mais urbanizadas, pois embora houvesse uma grande quantidade de propriedades rurais de médio e pequeno porte. (ISRAEL, 1995, p. 106), a população urbana era bastante considerável, e no século XVII, estaria entre as mais populosas da Europa, e cidades como Amsterdã e Roterdã se tornariam os novos centros econômicos do continente.

Gravura do século XVII, retratando o tumultuado porto de Amsterdam. 
Em 1500 a população dos Países Baixos era de entorno de 950 mil habitantes. Em 1650, eram quase 2 milhões de habitantes. (STOLS, 2004, p. 273). Em 150 anos a população dobrou, e para valores da época considerando as muitas guerras, epidemias e surtos de fome, foi um crescimento bastante alto.

“Comparadas com o resto da Europa, as pequenas Províncias Unidas revelam-se superurbanizadas, superorganizadas, precisamente por causa da densidade da sua população, “proporcionalmente a maior da Europa”, como diz Isaac de Pinto. Um viajante que, em 1627, vai de Bruxelas para Amsterdam, “acha todas as cidades holandesas tão cheias e de povo como as que têm os espanhóis [Países Baixos do Sul] são vazias...; entre uma e outra dessas cidades, a uma distância de duas ou três horas”, encontra “tal multidão de gente que não há tantas carruagens [e Deus sabe quantas que há] nas ruas de Roma como aqui carroças cheias de viajantes, ao mesmo tempo em que os canais que correm no país em todas as direções estão cobertos de inúmeros barcos””. (BRAUDEL, 1996, p. 162-163).

Embora o cenário econômico holandês fosse promissor no início da segunda metade do século XVI, os Países Baixos só se tornariam algumas décadas depois a potência que viria a invadir o Brasil, porque antes disso, entre as décadas de 1560 e 1570 tais províncias vivenciaram sua primeira grande crise econômica e política.

O rápido crescimento econômico saturou o mercado interno com excesso de mercadorias, o que resultou na baixa de preços, prejuízo e demissões; houve crises nas colheitas, como a do ano de 1565, que elevou o preço dos gêneros alimentícios básicos como a farinha de trigo; disputas comerciais com a Inglaterra, e a guerra entre Polônia, Dinamarca e Noruega afetaram o comércio holandês no Báltico, abalando a exportação e importação de mercadorias (GELDEREN, 1992, p. 15). Mas isso tudo se complicou ainda mais com as desavenças entre os súditos das Dezessete Províncias e seu soberano, o rei Filipe II de Espanha.

As Dezessete Províncias sob domínios espanhol: 

No ano de 1556, o então soberano do Sacro Império Romano-Germânico (império que variou sua extensão ao longo da história, mas sua maior parte compreendia o atual território da Alemanha), Carlos V, abdicou do trono em favor de seu irmão mais novo, Fernando; por sua vez, como também era rei da Espanha, governando com o nome de Carlos I, ele também escolheu abdicar do trono em favor de seu filho, Filipe.

Na época que Filipe II assumiu o governo espanhol (consequentemente a região dos Países Baixos), tais províncias vinham prosperando, mas passados alguns anos, a postura do monarca quanto ao governo das Dezessete Províncias começou a mudar, principalmente em quesitos políticos, culturais, sociais e religiosos.

Retrato do rei Felipe II de Espanha. No século XVI, herdou de seu pai o domínio sobre as Dezessete Províncias. 
No âmbito político, a descentralização política legada do Sacro Império, foi um incômodo para o governo espanhol centralizador e absolutista de Filipe II, que procurou formas de aumentar a autoridade sobre essas províncias e isso causou desaprovação nos governantes locais que viram sua “autonomia” limitada, além de considerarem que as tributações feitas pelo soberano eram de caráter abusivo. (GELDEREN, 1992, p. 32-33).

No contexto religioso, as medidas de Filipe II foram mais rígidas, pois, defendendo seu posicionamento antirreformista ele ameaçou impor o catolicismo a toda região dos Países Baixos, como no caso do ano de 1559, quando o papa Paulo IV lançou a bula Super Universas, a qual decretava a reorganização arquidiocesana nos Países Baixos, com a criação de três novas arquidioceses e dezoito bispados. (GELDEREN, 1992, p. 33).

Isso levou a uma perseguição ao protestantismo encabeçada pelo monarca, a fim de tornar os Países Baixos uma região católica. Neste mesmo ano de 1559, o rei Filipe II deixou Amsterdã, retornando para a Espanha, “para nunca mais regressar aos Países Baixos. Estava decidido erradicar a Igreja Cristã Reformada dos seus domínios, declarando que preferia perder a coroa e a vida, a governar sobre hereges”. (SCHALKWIJK, 2004, p. 33).

O rei tentou impor essas mudanças decretadas pelo papa, mas se deparou com uma forte resistência da população, a qual era predominantemente protestante, além de haver um número considerável de judeus. Em 1566, ocorreu uma forte retaliação dos holandeses, no que resultou na perseguição de padres, na invasão e destruição de igrejas e de imagens, operando um movimento iconoclasta chamado de “tempestade das imagens” (beeldenstorm). (SCHALKWIJK, 2004, p. 34).

3º Duque de Alba
Em resposta a essa afronta, o rei Filipe II, nomeou um fervoroso católico o 3º Duque de Alba, Fernando Álvares de Toledo para governar os Países Baixos (1567-1573), no intuito de tomar medidas eficazes contra a proliferação do protestantismo. O Duque de Alba convocou o Tribunal dos Tumultos, a fim de punir os responsáveis pelos ataques ao clero católico e às igrejas. No entanto, essa medida foi vista como autoritária pelos holandeses, os quais passaram a se referir a tal tribunal o chamando de “Tribunal de Sangue” (Bloed-raad), devido às medidas severas tomadas pelo duque, as quais resultaram na perseguição e execução de milhares de pessoas (ARBLASTER, 2005, p. 120-121). Além dessas imposições que obrigavam as Dezessete Províncias a adotarem o catolicismo, os confrontos de ambos os lados, a revolta de 1566, o tribunal em 1567, o rei Filipe II também ameaçou enviar a Inquisição Espanhola, assim como seu pai havia feito vários anos antes. O imperador Carlos I da Espanha ordenou que a inquisição espanhola atuasse nas Dezessete Províncias. Em 1523, dois monges agostinianos, Hendrick Voes e Johannes Esch foram queimados na fogueira em Bruxelas. (SCHALKWIJK, 2004, p. 31). E isso se tornou uma ameaça bastante séria, pois as lembranças da passagem da inquisição eram sombrias, a ponto que alguns nobres decidiram fazer algo a respeito.

O início da Guerra dos Oitenta Anos:

“Nove fidalgos, moços, saídos quase todos da escola de Genebra, reúnem-se no dia 5 de abril de 1566 no castelo do Príncipe de Orange, em Breda, para o fim de acordar na declaração dos direitos que deveriam ser impostos como condição à monarquia espanhola. Eis as conclusões dessa declaração redigida por Marnix e destinada a ser o prospecto da guerra: “Tendo bem devidamente considerado todas as coisas, entendemos que é de nosso dever obstar, a fim de não sermos presa daqueles que, sob a cor da religião ou de inquisição, querem enriquecer à custa do nosso sangue e da nossa fazenda. Pelo que, deliberamos fazer uma boa, firme e estável aliança e confederação, obrigando-nos e prometendo uns aos outros, por juramento solene, impedir que a dita inquisição se recebe e sustente, sob qualquer pretexto que seja...”. (ORTIGÃO, 1988, p. 10).

O rei não atendeu às solicitações desse manifesto e dois anos depois algumas províncias se uniram e declararam guerra, no que originou a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648). Nos próximos dez anos os flamengos, holandeses, zelandeses, frísios, entre outros habitantes das províncias vizinhas mobilizaram-se para criar exércitos não no sentido de milícias, mas forças armadas especializadas, sendo bem treinadas e equipadas, assim como desenvolveram sua marinha e a arquitetura militar. (PARKER, 1972, p. 5-6).

“Os holandeses conseguiram sustentar a resistência por tanto tempo por dois motivos: graças ao acesso ao mar e ao controle das rotas fluviais que subiam para a Europa central, já estavam se tornando uma nação mercantil que logo se igualaria em riqueza a Veneza; e essa riqueza permitiu-lhes construir as fortalezas que lhes asseguraram sua independência”. (KEEGAN, 1995, p. 336).

Exércitos foram mobilizados para se confrontar o poderio espanhol, o qual era mais influente no sul, pois enquanto no centro e no norte das Dezessete Províncias, predominavam as propriedades rurais de pequeno e médio porte, sendo a maioria proveniente do arrendamento, o que marcava a perda da antiga influência feudal germânica naquelas terras; no sul, havia uma vasta quantidade de grandes propriedades rurais pertencentes à nobreza e os burgueses que enriqueciam com o comércio.

E no caso das famílias mais antigas como a Casa de Orange, essa influência senhorial ainda era bem presente. “The Orange family, which held the hereditary title of stadholder, became even more closely affiliated with the Dutch through this struggle; as stadholders they were empowered with military leadership and the power of certain appointments and various other forms of influence. Contrary to the rather advanced maritime and commercial institutions of the Republic, this governmental edifice was essentially a modified relic of medieval balance of power”. (POSTMA, 2008, p. 8).

Não obstante, algumas famílias espanholas possuíam propriedades no sul, daí a intervenção nessa região ter sido mais massiva, como o fato de que as províncias mais rebeldes se encontravam no norte. (ISRAEL, 1995, p. 107).

Em 1579, as Províncias Rebeldes: Frísia, Gronigen, Güeldres, Holanda, Overijssel, Utrecht e Zelândia, passaram a serem chamadas pela Coroa espanhola, realizaram a União de Utrecht, na qual se decidiu declarar independência do governo espanhol, que se efetivou em 1581, com o surgimento da República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos. No entanto, Filipe II não reconheceu essa independência, opinião que manteve até o fim da vida. Então as sanções às províncias rebeldes se iniciaram, e o estado de guerra se postergaria.

Em azul as sete províncias que se rebelaram na União de Utrecht, vindo a formar a República dos Países Baixos. Em azul claro os territórios que permaneceram leais ao governo espanhol. 
De 1585 a 1595 a Holanda vivenciou uma fase bastante tensa, pois o sul havia sido retomado pelos espanhóis, após intervenção militar pesada, como o caso da invasão e tomada da Antuérpia (1585). Nos anos seguintes, Filipe II manteve tropas nas fronteiras da república holandesa, embora não obteve êxito devido ao crescimento das forças armadas holandesas. O exército holandês em 1588 era de 20 mil homens, em 1595 era de 32 mil homens, em 1607 contava com 51 mil. O que revela a massiva militarização dos Países Baixos. (ISRAEL, 1995, p. 234-235, 242, 260).

Diante desse impasse bélico, do crescimento econômico holandês e da independência não reconhecida (a Espanha só reconheceu oficialmente a independência da Holanda em 1648, no acordo da Paz de Münster, o qual colocou fim a Guerra dos Oitenta Anos), uma das medidas que Filipe II tomou no intuito de forçar a rendição das Províncias Rebeldes, foi proibir que todos os portos espanhóis comercializassem com os holandeses, o que incluiu os portos dos Países Baixos do Sul (equivaleria, grosso modo, ao que hoje é a Bélgica), assim como Portugal e suas colônias, pois em 1580, havia se iniciado a União Ibérica.

O embargo econômico espanhol naquele momento afetou a economia holandesa, pois cidades como Amsterdã, Roterdã, Leiden e Haia ficaram no lado dos separatistas, e na década de 1580 essas cidades já estavam despontando economicamente, e parte desse sucesso financeiro advinha do comércio com Portugal, principalmente referente ao açúcar brasileiro, pois se antes os flamengos eram os principais responsáveis pelo refino do açúcar e sua distribuição no continente, as cidades holandesas passaram a substitui-los nessa indústria. Algo curioso, pois embora estivessem em estado de embargo, os holandeses ainda assim, conseguiam contornar o embargo e ter acesso ao açúcar brasileiro.

“The first refinery in Amsterdam was reported in 1597. From three refineries in 1605, the number increased to twenty-five in 1622, forty in 1650, and fifty or sixty in 1661. Each refinery could process nearly 1,500 chests per year, and could have stocks in reserve that were worth two tons of gold. At the time of the fire at the Nuyts refinery in 1660, the sugar burned was worth three tons of gold”. (STOLS, 2004, p. 273).

Mesmo contornando o embargo decretado pelo governo espanhol, à economia holandesa ainda assim sofreu um revés. Ebert (2003, p. 57-59) escreve que o embargo feito pela Espanha aos Países Baixos não foi contínuo, pois o governo holandês acabou encontrando formas de contorná-lo ou os espanhóis propuseram acordos para atenuá-lo.

José Antônio Gonsalves de Mello (1996, p. 21-22) assinalou que entre os anos de 1590 a 1620, carregamentos de açúcar ainda continuaram a serem enviados para Amsterdã, e neste caso, usava-se um sistema de escalas para que a carga fosse relocada para outros navios até chegar ao seu destino. Neste caso como os holandeses estavam proibidos de comercializar com os espanhóis e portugueses, logo, não poderiam usar seus navios para isso, os próprios portugueses é quem faziam todo o transporte em suas embarcações, burlando o embargo. As cidades de Porto e Viana foram os principais portos para esse esquema.

Filipe II decretou o embargo que vigorou entre 1585 e 1590, mas veio a suspendê-lo na tentativa de negociar com a república holandesa, a qual estava cada vez mais interessada no comércio açucareiro. Em 1598 o rei Filipe III promulgou um novo embargo, indo este até 1603, quando no ano seguinte ele alterou os termos do embargo, oferecendo amenizá-lo em troca de receber 30% sobre o preço das mercadorias comercializadas pelos holandeses. Posteriormente a partir de 1609 com o início da Trégua dos Doze Anos, o estado de embargo ainda se manteve, mas não foi tão severo quanto nos anos de 1598 a 1603. (EBERT, 2003, p. 60-63).

A Trégua dos Doze Anos e a criação das Companhias das Índias: 

“Sugar was one of the catalysts that directed Dutch expansion across the Atlantic Ocean. For this reason, access to Brazil became a primary objective for the Dutch in South America. Around 1585, in exchange for ammunition and food, Spain’s King Philip II (1527–1598) gave the Dutch rebels permission to sail to Brazil and conduct business for Spanish merchants. At least three Dutch ships sailed to Brazil in 1587. Only three years later, in 1590, about fourteen ships sailed from Dutch ports to Brazil, carrying cargoes for Spanish merchants. The specifics concerning these initial shipments are largely unknown, but we know that skipper Pieter Jansz. carried a cargo of sugar from Brazil to the Netherlands for the merchant Jan Pietersz. in 1594. The following year, skipper Pauwels Gerritsz. sailed from Zeeland to Brazil on board the Sampson, and this ship had earlier journeyed to the West Indies and also made two voyages to Brazil to fetch sugar and Brazilwood”. (ENTHOVEN, 2003, p. 24).

O embargo não afetou apenas os negócios com Portugal e Espanha, mas com outros compradores dos holandeses, como a França, o Sacro Império e a Inglaterra, ainda assim, esse revés não foi sempre grave, havendo momentos de crescimento. “Malgrado a devastação causada pela “Fúria espanhola” no sul e as amargas lembranças das ocupações e dos cercos da década de 1570, era verdade que entre 1590 e 1612 a guerra coincidira com o mais espetacular florescimento da economia holandesa”. (SCHAMA, 1992, p. 251).

Esse problema político-econômico motivado pelos embargos realizados pela Coroa espanhola acabou se tornando um dos fatores que acirrou a disputa entre a República Holandesa e a Monarquia Dual-ibérica, o que viria a iniciar ainda em 1598 e 1599, ataques ao arquipélago de São Tomé e Príncipe, iniciando segundo Charles Boxer (2002, p. 123), uma “guerra global”, que se estenderia até o ano de 1663, quando os portugueses perderiam parte do controle da costa do Malabar na Índia, e outros entrepostos nas “Ilhas das Especiarias” na Indonésia.

Jonathan Israel (1995, p. 325) assinala que ainda em 1598, navios holandeses passaram a viajar para o Caribe e a América do Sul a fim de conseguirem sal, madeira, tabaco, açúcar, prata e outros produtos, indo comprá-los nos próprios domínios espanhóis, mas longe dos grandes centros para não chamar a atenção. Tais expedições também aproveitavam para sondar as terras do Novo Mundo, a fim de conhecer a dinâmica de tais mercados. Israel também chama a atenção para o ingresso dos holandeses no comércio escravocrata na África Ocidental, tornando-se concorrente dos portugueses, embora Portugal detivesse a supremacia no tráfico transatlântico.

O início do século XVII para a Holanda, Portugal e Espanha foi problemático, pois acirraram os confrontos entre as três nações (embora Portugal estivesse reunido ao governo espanhol, do ponto de vista administrativo os portugueses mantiveram sua autonomia).

Segundo Maravall (2009, p. 65) o Seiscentos foi marcado por crises em âmbito econômico, político, social e religioso. Cenário conturbado esse que refletiu em guerras pelo continente europeu, as quais acabaram motivando conflitos nas colônias espalhadas pelo mundo, principalmente por fatores de ordem política e econômica devido à emergência dos grandes Estados europeus de ampliarem seu desenvolvimento econômico e social. Assim antigos centros financeiros do continente como a Itália, Espanha e Portugal, no século XVII, perdem o posto para a França, mas principalmente para a Inglaterra e os Países Baixos. (STEENSGARD, 1997, p. 40).

Estando a república holandesa vivenciando um novo crescimento econômico iniciado desde a década de 1590, nos idos do século XVII, o governo decidiu se arriscar mais e ingressar no mercado internacional. Expedições ao Oceano Ártico em busca de uma rota alternativa às Índias foram tentadas, no entanto, acabaram optando pela rota portuguesa descoberta por Vasco da Gama (1497-1499). Em 1596, foram enviados navios para a Indonésia e em 1598 para o Japão. (ARBLASTER, 2005, p. 134).

O Império Holandês entre os séculos XVII e XVIII. 
Após essas viagens de reconhecimento à Ásia, mercadores, banqueiros e os Estados Gerais estavam cada vez mais convencidos de investirem no comércio ultramarino de especiarias orientais, o qual ainda era frutífero e seria menos arriscado do que confrontar o poderio espanhol no Novo Mundo e seus embargos econômicos. Assim, em 1602 foi criada a Companhia das Índias Orientais (Vereenigde Oost-Indische Compagnie), encabeçada por iniciativas e capitais públicos e privados, os quais se reuniram para por o país na rota dos grandes negócios, o que resultou na disputa, principalmente com Portugal, pelo controle dos mercados na Índia, Malaca, Indonésia e Japão. (ISRAEL, 1995, p. 322-323).

Bandeira da Companhia das Índias Orientais.
Em holandês Vereenigde Oost-Indische Compagnie.
Em 1609 os holandeses estabeleceram acordos regulares com os japoneses permanecendo no país até 1641. Em 1619 a cidade de Jacarta na Indonésia, tornou-se capital da colônia da VOC, sendo rebatizada com o nome de Batavia. Em 1624, fundou-se em Taiwan o Forte Zelândia, importante entreposto entre a Indonésia e o Japão. (ARBLASTER, 2005, p. 136).

“Tratada pela bibliografia como uma companhia majestática, a VOC era regida por um estatuto construído pelos Estados Gerais. Também era a República que assegurava seu formato inovador: a VOC era uma sociedade de ações, sendo seu capital dividido em quotas iguais e transferíveis. Desmembrada em câmaras que mantinham seu capital próprio separado do das demais, a VOC possuía um quadro de diretores, os Heeren XVII – literalmente, os Dezessete Senhores – que estipulavam diretrizes gerais e políticas para todas as câmaras. As vagas de direção eram ocupadas pelos govenadores das câmaras, com a ressalva de que, das dezessete vagas disponíveis, oito deveriam ser ocupadas pelos governadores de Amsterdã, como contrapartida pelo maior investimento feito”. (NAVARRO, 2015, p. 64).

Enquanto os negócios no Oriente progrediam, no Ocidente a situação entre Holanda e Espanha ainda se mantinha tensa. Em abril de 1607, o arquiduque Alberto VII da Áustria e sua esposa a infanta Isabela Clara (filha mais velha de Filipe II, nomeada por este como governante dos Países Baixos), promulgaram um cessar-fogo com os holandeses, proposta essa mediada pela França e a Inglaterra.

Naquele momento, os holandeses cobravam dos espanhóis o reconhecimento por sua independência, e por sua vez, os espanhóis exigiam que os holandeses respeitassem a proibição dos embargos econômicos e permitissem o culto católico no país. (ARBLASTER, 2005, p. 130). Tais propostas evoluíram para a Trégua dos Doze Anos (1609-1621), assinada a 9 de abril de 1609, na Antuérpia.

A prefeitura de Antuérpia (Bélgica), durante a assinatura da Trégua dos Doze Anos. Gravura de Michiel Collijn, c. 1613 e 1615. 
O rei Filipe III decidiu apoiar a proposta de sua irmã e de seu cunhado, propondo uma trégua que durariam doze anos, na qual as duas nações suspenderiam suas desavenças, e não voltariam a entrar em conflito, desde que ambos respeitassem os territórios de cada um. Na prática as propostas debatidas na trégua nunca foram respeitadas totalmente: por exemplo, os holandeses continuaram a fazer incursões aos territórios espanhóis e portugueses, indo visitar a América do Norte e do Sul, Caribe, e a costa ocidental da África. (ENTHOVEN, 2003, p. 36).

Em 1618, eclodiu a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), motivada principalmente por conflitos religiosos entre os protestantes e católicos no Sacro Império. Filipe III optou por apoiar seu primo que era o então sacro imperador, e, por sua vez, os holandeses aderiram à Liga Protestante que surgiu para se opor à Liga Católica. Isso reacendeu os conflitos entre holandeses e espanhóis, mesmo havendo oficialmente uma trégua entre as duas nações.

Willem Ussenlincx
Em 1621, com o término da Trégua dos Doze Anos (1609-1621), a Companhia das Índias Ocidentais foi criada, seguindo o mesmo modelo da VOC, embora foi concebida por Willem Usselincx (1567-1647). O qual foi um comerciante de origem flamenga, que trabalhou e viveu algum tempo na Espanha, em Portugal e nos Açores, tendo contato direto com o comércio ultramarino destes países com suas colônias. Ussenlincx concebeu a nova Companhia das Índias, para ser uma companhia de colonização e não de exploração como a VOC. Na sua proposta original a WIC seria fundada para se tornar uma colônia agrícola, criando-se assentamentos em territórios não ocupados pelos portugueses e nem espanhóis, assim evitando-se o conflito com a Monarquia Ibérica dos Filipe. Além disso, Ussenlincx concebeu que as colônias deveriam empregar trabalho livre, não se valendo do uso de escravos indígenas e nem africanos. (SCHALKWIJK, 2004, p. 51-52). Todavia, não foi isso que ocorreu. A WIC tomou um caminho bem diferente proposto por Willem Ussenlincx, além do fato de que após a companhia ser criada, nenhum cargo lhe foi oferecido, então se sentido “traído”, ele deixou o país e se mudou para a Suécia, retornando a Holanda após 1632.

Logo, a WIC passava a dispor do direito de possuir uma administração autônoma, formar marinha de guerra e exército; fundar colônias, negociar com outras nações e povos, sem necessidade de autorização dos Estados Gerais; nomear governadores e diretores para suas possessões ultramarinas, fomentar acordos econômicos, políticos ou alianças militares. (LAET, 1912, p. 8-15).

“The idea of one company for all of the Atlantic went back as far as the trade itself. Most merchants realized that only an organization with adequate ships and military power could challenge the Iberian powers in the Atlantic. The first person to advocate the establishment of a Dutch West India Company (WIC – West-Indische Compagnie) was Willem Usselincx, an Antwerp-born merchant who had moved to Middelburg in 1591. Usselincx maintained good contacts with influential citizens throughout the United Provinces, including François Francken, the pensionaris (executive administrator) of Gouda, and the Flemish born preacher-geographer Petrus Plancius in Amsterdam. All were devout Calvinists and enthusiastic about the West India Company, which doubled as trading firm and weapon in the battle against the king of Spain. Usselincx claimed that he had advocated organizing such a company as early as 1592, but he had to wait till 1606 before the States of Holland approved such a plan”. (HEIJER, 2003, p. 78).

Embora navegações e negócios nas Índias Ocidentais já fossem feitos desde o século XVI pelos holandeses, um dos entraves para a criação da WIC se deu por causa da Trégua dos Doze Anos, pois os Estados Gerais consideraram que a criação desta companhia poderia ser entendida como uma quebra de acordo, e isso seria usado como pretexto pelo governo espanhol para retomar as hostilidades e ataques, lembrando que os exércitos espanhóis mesmo durante a trégua ainda se mantinham a postos nas fronteiras. (ALBUQUERQUE, 2010, p. 26).

Planos para atacar o Brasil: 

Enquanto a Espanha permaneceu ocupada com os conflitos referentes aos holandeses (agora na Guerra dos Trinta Anos), nesse mesmo tempo, a WIC planejava atacar as possessões portuguesas nas Índias Ocidentais. Se antes foram promovidas expedições mercantis às Índias Ocidentais, com o advento da WIC a missão era conquistar territórios e fundar colônias. Em 1614, foi criada a Colônia dos Países Baixos (Nieuw Nederland). Neste mesmo ano também se fundou a cidade de Nova Amsterdã (atual cidade de Nova York), a qual se tornou capital da colônia holandesa na América do Norte. (SCHALKWIJK, 2004, p. 38).

Território da colônia dos Novos Países Baixos na América do Norte. 
Enquanto a WIC não se deparou com muitos problemas para fundar uma cidade e construir outros fortes na América do Norte, na América do Sul, em 1624, a missão era atacar a capital do Brasil, Salvador. Nos três anos após a criação da WIC, reuniu-se o capital para planejar a primeira invasão ao Brasil. Em 1623 o capital da WIC era de 7.108.161 florins, sendo que 2.846.582 florins foram fornecidos apenas por Amsterdã. (HEIJER, 2003, p. 81). A frota neerlandesa adentrou as águas da baía de Todos os Santos em 10 de maio, sem encontrar pela frente nenhum percalço, e, em dois dias, a capital, fracamente munida de defesa, foi tomada.

“Para os habitantes de Salvador, a visão da armada que adentrava a baía causou pânico e correria. Apesar de terem sido avisados pelo rei da possibilidade de um ataque holandês, a defesa da cidade não contava com nenhuma estratégia especial. Mesmo sabendo da presença de uma nau holandesa na região de Boipeba desde o dia 13 de abril de 1624, o governador Diogo de Mendonça Furtado, a despeito dos seus esforços, não conseguiu organizar uma defesa satisfatória da cidade”. (BEHRENS, 2013, p. 11).

Após os holandeses permanecerem quase um ano de posse de Salvador, a poderosa Jornada dos Vassalos enviada pelo rei Filipe III, composta por 56 navios e 12.463 homens, os expulsou. (SCHWARTZ, 1991, p. 735). No entanto, a WIC não desistiria facilmente.

Planta da Restituição da Bahia do atlas do Estado do Brasil. João Teixeira Albernaz, o Velho, 1631. 
O açúcar ainda era mercadoria bastante valiosa, embora que curiosamente no período de 1624-1654, o ano de 1624 teve a menor cotação no preço do açúcar branco em Amsterdã, custando 0,43 florins. Entretanto, em 1630, ano da segunda invasão holandesa ao Brasil, o valor do açúcar branco custava 0,67 florins, o que mostra uma valorização de 0,24 florins em cinco anos, o que levou os neerlandeses a investir em um novo ataque ao Brasil, pois o preço do açúcar de 1631 a 1636 permaneceu na casa dos 0,60 florins. (MELLO, 2004, p. 245).

Passados cinco anos, eles retornaram, dessa vez o alvo era Pernambuco, então maior produtora de açúcar do Brasil. Assim como Salvador estava fracamente defendida, na mesma situação se encontrava Olinda, que também sucumbiu facilmente ao vasto poderio do invasor.

“A decisão de atacar Pernambuco foi das mais fáceis, por isso que os holandeses estavam singularmente bem informados sobre as condições em que se encontrava aquela capitania. Pelas cartas do governador, Matias de Albuquerque, interceptadas durante a campanha da Bahia, ficaram eles conhecedores de que as fortificações de Olinda e Recife estavam desaparelhadas. Albuquerque dava também conhecimento de que a milícia local não excedia a 400 homens pouco experimentados, na sua maioria cristãos-novos, em que se não podia depositar confiança. Os holandeses ficaram também sabendo que as três capitanias do Nordeste possuíam 137 engenhos de açúcar, cuja produção montava a cerca de 700 000 arrobas em média, nos anos bons”. (BOXER, 1961, p. 45).

A afirmativa de Charles Boxer se torna ainda mais significativa quando notamos que na década de 1620, foram produzidos relatórios descritivos da costa brasileira, o que revela que a WIC já estava a alguns anos planejando sua incursão ao Brasil. A Companhia possuía conhecimento sobre os melhores locais onde se conseguir açúcar, pau-brasil e outras mercadorias.

Entre esses relatórios podemos destacar a Tocha da Navegação (1623) e o Roteiro para o Rico Brasil (1624), ambos produzidos por experientes navegadores holandeses, os quais esboçaram um trabalho detalhado sobre os pontos geográficos da costa brasileira e seus principais portos, inclusive dando instruções de como melhor aportar nestes. Mas além dessas referências geográficas, tais relatórios também trazem informações sobre cidades, vilas e mercadorias produzidas.

Há também o relatório de Jan Andries Moerbeeck, intitulado Motivos por que a Companhia das Índias Ocidentais deve tentar tirar ao Rei da Espanha a terra do Brasil e isto quanto antes (1624), cujo título já apresentava de forma demasiadamente óbvia o interesse de se apossar do Brasil devido a sua rica produção açucareira.

De acordo com o relatório da Lista do que o Brasil pode fornecer anualmente (1623), naquele ano a produção conjunta de açúcar de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba era de 700 mil arrobas (ca. 1050 toneladas), o que renderia a WIC um lucro estimado de 4.795.000 florins. (MELLO, 2004, p. 17). Em seu relatório Moerbeeck que viveu algum tempo na colônia brasileira, enfatizou ainda mais o que já era planejado pela Companhia. (MELLO, 2004, p. 42).

Além desses relatórios existem outros, no entanto, um que merece destaque por não se tratar de um relatório, mas sim de uma carta com ordens, diz respeito a uma carta expedida pelo Conselho dos XIX no ano de 1629. O Conselho dos XIX era responsável pela administração da WIC, e nesta carta foram estabelecidas as instruções que o tenente-coronel Hendrik Cornelissen Lonck deveria seguir.

Tenente-coronel Hendrik Cornelissen Lonck. 
Nessa carta diz que, em caso não se obtivesse êxito em se tomar Olinda, e se os ventos fossem favoráveis, a armada neerlandesa deveria seguir para a baía de Guanabara, a fim de conquistar (“por todos os meios” - dizeres da carta) a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Mas caso os ventos não fossem favoráveis para essa viagem ao sul, à armada deveria tentar atacar novamente Salvador. Não obstante a carta também instruía para que a Paraíba e Buenos Aires fossem atacadas e ocupadas. (MELLO, 2004, p. 49).

Por tal carta de ordens dada ao tenente-coronel Lonck, já se deixa evidenciado o planejamento da WIC e o próprio fato de que a companhia estava preparada para se arriscar, pois se planejava atacar novamente Salvador, como também o Rio de Janeiro e Buenos Aires. No entanto, como a capitulação de Olinda e Recife acabou logrando êxito, e os ventos não foram favoráveis para uma viajem ao sul, os comandantes da invasão de 1630, decidiram fixar base na vila conquistada.

“Acreditava o Conselho dos XIX, órgão diretor da W.I.C, que, assenhoreadas as praças-fortes, a região cairia automaticamente em seu poder, de vez que, na falta de ligações com Portugal, os colonos se veriam na contingência de aceitar o domínio estrangeiro”. (MELLO, 2002, p. 51).

A perspectiva da WIC acabou sendo adiada, pois os territórios livres acabaram optando pela resistência. Tal longa permanência se deu a um custo enorme, pois em 1633, cogitou-se abandonar a ocupação de Olinda, Recife e Itamaracá, e em 1636, a Companhia já se encontrava em crise financeira, devendo 18 milhões de florins, devido aos enormes gastos em se manter a guerra e a ocupação das terras conquistadas nestes últimos anos. (MIRANDA, 2014, p. 29).

Período esse chamado por Evaldo Cabral (2007, p. 13) de a guerra lenta de resistência. Mesmo que tal cronologia aluda às dificuldades dos holandeses em se adaptar a terra e ao estilo de guerra praticado pelos colonos “brasileiros”, ainda assim, os exércitos holandeses estiveram em vantagem mesmo diante de várias adversidades, no que resultou na ocupação do nordeste do Brasil ao longo de duas décadas, até terminar o privilégio de 24 anos de monopólio sobre as Índias Ocidentais. (LAET, 1912, p. 8).

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quarta-feira, 29 de março de 2017

Vinland: a América viking

Apesar de hoje ser unanimidade de que realmente houve a presença de escandinavos medievais na América do Norte, não ser mais contestada, ainda assim, Cristóvão Colombo figura na história como seu "descobridor", e por sua vez, os Reis Católicos de Espanha, Fernando e Isabel figuram como os primeiros monarcas europeus a tomar posse de terras no Novo Mundo. A proposta desse texto não é debater se Colombo deve ficar com o mérito da descoberta, mas contar um pouco a respeito de como os vikings, cinco séculos antes de Cristóvão Colombo haviam chegado primeiro ao continente americano, mais especificamente a costa oriental do atual Canadá, as regiões de Terra Nova e Labrador, advindos por sua vez da fria ilha da Groenlândia. Para este estudo optei em apresentar uma contextualização histórica e arqueológica sobre a "descoberta" da América pelos vikings. 

Introdução: 

A teoria de que os vikings teriam chegado a América do Norte cinco séculos antes de Colombo, começou a ganhar adeptos e críticos no século XIX, apesar de como veremos adiante, haver relatos escritos sobre as incursões nórdicas a costa canadense, e até mesmo mapas que tentavam situar tais localidades, no entanto, apenas no XIX é que alguns estudiosos começaram a se questionar onde exatamente ficavam as terras conhecidas como Helluland, Markland e Vinland, como eram referidas em algumas sagas e crônicas da época. 

Carl Christian Rafn
Tais lugares situados a oeste da Groenlândia seriam terras fictícias? Sabendo que até o XVIII ainda era comum se encontrar relatos de ilhas fantásticas. Ou realmente aquelas terras eram reais, mas seriam ilhas ou partes do continente norte-americano? A partir dessas perguntas um dos primeiros estudiosos que começou a indagar que Helluland, Markland e Vinland fossem referências a localidades na costa americana foi o historiador, antiquário e tradutor alemão Carl Christian Rafn (1795-1864), conhecido por ter traduzido várias sagas islandesas para a língua alemã, e a partir da leitura desses textos escritos em nórdico antigo e islandês medieval, Rafn tomou conhecimento de Vinland e as demais terras situadas a oeste da Groenlândia. Com isso ele começou a pesquisar mais a respeito, e passou a propor a hipótese de que Vinland pudesse ser uma localidade situada no nordeste dos Estados Unidos, talvez nos estados do Maine ou New Hampshire.

A hipótese de Rafn surgia numa época de pseudociência motivada por ideais idílicos, românticos e nacionalistas. (ROSA, 2012, p. 26). Apesar de Rafn não tender para esse lado, havia pesquisadores tanto profissionais quanto amadores, os quais tentavam reescrever a história da "descoberta" dos Estados Unidos. O encontro de estranhas inscrições em pedra no nordeste do país, levou pesquisadores de diferentes áreas a cogitar que se tratavam de inscrições celtas, fenícias, bretãs, irlandesas, vikings etc. Mas em geral como salienta Donald Logan (1991, p. 83-85) tais pesquisadores entre os séculos XIX e começo do XX, não levavam em consideração que tais inscrições pudessem se tratar de escrita nativo-americana, mas a concepção de que a América deveria ser descoberta por europeus ou asiáticos era algo bem mais interessante, ao ponto de ofuscar a razão científica. 


Rasmus B. Anderson
Rafn por mais que não tenha chegado a conclusões precisas aonde Vinland ficaria situada, publicou o resultado de sua pesquisa e traduções no livro Antiquitates Americanae (1837), obra que trazia sua hipótese de que os escandinavos teriam descoberto a América e talvez os Estados Unidos. O livro de Rafn acabou por influenciar vários outros estudiosos, mas um que se destacou foi o professor, escritor, tradutor e diplomata americano Rasmus Björn Anderson (1846-1936), o qual se tornou um dos mais renomados escandinavistas dos Estados Unidos, no século XIX. De descendência norueguesa, Anderson viajou para a terra de seu pai e avós, diversas vezes, além de ter servido como diplomata americano na Dinamarca entre 1895 e 1899. Todavia, seu fascínio pela cultura escandinava o levou a pesquisar a história de seus antepassados, o que levou Anderson também não apenas estudar história, mas também despertar o interesse pela religião e mitologia dos vikings, chegando a escrever livros a respeito. Mas, assim como Rafn, Anderson também acreditava que os vikings haviam chegado ao continente americano. 

Acerca da sua defesa de que os vikings "descobriram" a América antes de Colombo, Anderson escreveu dois livros, America Not Discovered by Colombus (1874) e The Norse Discovery of America (1907), as quais popularizaram o debate no país, assim como, também contribuíram para lançar Anderson como escandinavista, somando tais livros a outros de seus trabalhos. Com isso Rasmus B. Anderson fundou o Department of Scandinavian Studies na Universidade de Wisconsin-Madison e a se tornar membro da Norroena Society fundada pelo rei Oscar II da Noruega e Suécia em 1896, cuja proposta era investir nos estudos escandinavos. 

Escolhi em não comentar os livros de Rafn e Anderson, pois apesar de eles estarem certo quanto a real chegada de escandinavos à América, no final do século X e começo do XI, como também terem apontado a respeito das fontes históricas, suas obras careciam das pesquisas arqueológicas, as quais somente se enveredaram no assunto em meados do século XX. Não obstante, os trabalhos de Rafn e Anderson também possuem alguns equívocos de interpretação, como o caso de eles situarem Vinland nos Estados Unidos e não no Canadá. 

As fontes históricas: 

As principais referências a chegada viking à América do Norte, constam em algumas sagas islandesas (saga em nórdico antigo significava dizer, contar, narrar), termo usado para se referir a um conjunto de manuscritos datados dos séculos XII ao XIV, de autoria e conteúdo diverso, mas todos redigidos na Islândia, os quais relatam histórias ocorridas entre os séculos IX e XIII, além de trazer também narrativas míticas e lendárias. (BOULHOSA, 2005, p. 6). 

Entretanto, o nome Vinland é anterior a escrita das sagas. Na crônica alemã do clérigo Adão de Bremen, escrita em latim, no século XI, intitulada Gesta Hammburgensis Ecclesiae Pontificum (c. 1070-75), no volume 4, no comentário 38, Adão relata o que segundo ele, teria sido uma conversa ocorrida na década de 1060, com o rei Sueno II da Dinamarca, o qual lhe contou acerca de uma ilha descoberta, que era chamada de Vinland. (LOGAN, 1991, p. 86). 

Adão de Bremen comenta que o rei lhe contou acerca de uma ilha chamada Vinland, situada em algum lugar do oceano, e seu nome se devia por causa das vinhas selvagens que ali cresciam, e forneciam um vinho de excelente qualidade. Adão também comenta que aquele relato era verdadeiro, havia recebido de fontes seguras. Não obstante ele diz que essa ilha ficava muito longe, era habitada e ficava em região perigosa, para além do gelo e da escuridão. (BREMEN, 1959, p. 219). 

No século XII, nos Anais Islandeses do ano de 1121, o bispo Erik da Groenlândia fez menção a existência de uma terra a oeste da Groenlândia, chamada Vinland. No ano de 1127, o padre An Thorgilsson (1068-1148), autor do Íslendingabók (O Livro dos Islandeses), obra que conta a história da colonização e cristianização da Islândia até o seu tempo, menciona que seu tio Thorkell Gellison havia visitado Vinland e essa era habitada por nativos. (LOGAN, 1991, p. 87). Vinland também é citada na Historia Norwegie (História da Noruega), crônica de autoria anônima datada da segunda metade do século XII, a qual relata a respeito da história do país, mencionando que alguns noruegueses que viviam nos assentamentos na Groenlândia, haviam encontrado terras a oeste. 

No século XIII temos as chamadas Vinland Sagas, na verdade consistem em duas histórias distintas as quais se complementam. A primeira é a Graenlendiga Saga (Saga dos Groenlandeses) a qual narra acontecimentos entre os séculos X e XI, principalmente referentes a colonização da Groenlândia e algumas viagens à América. A segunda obra é a Eirik Saga (Saga de Erik), também datada do século XIII, refere-se mais especificamente a Erik, o Vermelho, o colonizador da Groenlândia e a ação de seu filho Leif Eriksson de continuar a cristianização da ilha e viajar até Vinland. 

Enquanto nas obras do século XI e XII as menções a Vinland são sucintas, as sagas do século XIII são as que possuem o maior número de informações. Embora que possa ter havido outros documentos que falassem sobre Vinland, mas hoje são desconhecidos ou estão perdidos para sempre. Não obstante, Vinland é mencionada em outros textos do período, mas de forma breve também. De qualquer forma passemos para conhecer a respeito do que as Sagas de Vinland têm a nos contar. 

A Groenlândia: 

Essa história tem início com Erik, o Vermelho (Eiríkr hinn raudi), nascido em data incerta no século X, em Jaederen na Noruega, sendo filho de Thorvald. Os detalhe sobre sua vida são poucos. Por motivos não conhecidos, ele acabou matando um ou mais pessoas e com isso foi banido da Noruega, sendo enviado para o exílio. A ideia de que os vikings fossem sanguinários e resolviam seus desentendimentos e crimes com pena de morte não é bem assim. Além do caso de Erik conhecesse outros que mostram que a pena de morte não fosse algo corriqueiro. 

Erik deixando o seu país mudou-se para a Islândia, ilha colonizada pelos noruegueses desde pelo menos a década de 870. Na ocasião ele viajou com seu pai Thorvald, mas não se sabe se outros familiares seguiram junto. Após a morte de seu pai, Erik casou-se com Thjodhild, filha de Jorund Ulfsson, dono de uma pequena fazenda. Tais informações sobre a vida de Erik constam tanto nas Sagas de Vinland como em outros livros como o Íslendingabók e o Landnámabók (Livro dos Assentamentos). 

Erik, o Vermelho viveu em diferentes assentamentos na ilha e em certa ocasião envolveu-se na disputa de terras, algo bem comum na Islândia medieval daquele tempo. Os manuscritos islandeses que falam acerca da colonização da ilha relatam vários casos de brigas familiares pela disputa de terras, invasões, apropriação irregular, vinganças, revanches etc. Erik acabou matando outro homem o que lhe rendeu um processo criminal e a pena de exílio, se permanecesse na ilha seria morto por vingança. 

Graenlendiga Saga informa que Erik e alguns companheiros deixaram a Islândia a fim de procurar novas terras. Marinheiros acostumados com aquelas águas, informavam a respeito da existência de ilhas nos arredores. John Haywood (1995, p. 96) comenta que pelo menos se conhece outros dois homens que teriam chegado a Groenlândia antes de Erik. Gunnbjorn Ulf-Krakuson que teria encontrado a ilha por volta do ano 900 e Snaebjorn Galti, que teria chegado por volta de 978. 

Erik teria passado cerca de dois anos navegando até encontrar terra entre 981-983, a qual ele chamou de "Ilha de Erik", mais tarde renomeada para Greenland (Groenlândia). De fato a Groenlândia não fica distante da Islândia, navegando-se para o oeste chega-se facilmente a ilha, apesar de serem águas bastante frias e as vezes revoltas. 


Mapa com as localidades atuais na Groenlândia e arredores. Percebe-se que devido a curvatura da terra, aqui planificada no mapa, a Islândia fica próxima da gelada ilha, a qual é a maior ilha do mundo
Não se sabe o local certo que Erik teria aportado, mas em 986 ele deixou a Islândia de vez, liderando uma frota de 25 navios para o sul da Groenlândia que naquele tempo era de clima mais quente. Devido ao clima mais ameno isso permitiu o cultivo de algumas plantas, apesar de ser um solo pobre em fertilidade; e a criação de ovelhas, além de o mar groenlandês ser abundante em pescado, como também havia a possibilidade de caça aos ursos polares, focas, morsas e baleias. (HAYWOOD, 1995, p. 96). Porém, a medida que a população crescia os alimentos já não eram suficientes para alimentar a todos, chegando haver surtos de fome na ilha. 

Com isso foi fundado o primeiro assentamento norueguês naquela ilha. Chamado posteriormente de Eystribyggd (assentamento leste) para diferenciar do Vestribyggd (assentamento oeste) fundado posteriormente na costa oeste e mais ao norte. Tornaram-se os núcleos principais da colonização norueguesa na ilha, apesar de que com o tempo várias fazendas foram surgindo. Em torno do Eystribyggd se desenvolveram pelo menos 190 fazendas sendo uma delas a do próprio Erik, o Vermelho, situada em Bratthahild, onde ele ergueu uma capela para sua esposa, a qual era cristã. Por sua vez o Vestribyggd contou com cerca de 90 fazendas. (LOGAN, 1991, p. 73-74). 

A partir da colonização viking da Groenlândia, os noruegueses tomaram conhecimento dos esquimós ou inuítes, os quais possuíam aldeias no norte da ilha, sendo o contato com este povo mais comum a partir do Vestribyggd. Porém, mais a diante voltarei a falar dos esquimós, mas por hora a partir da formação dos assentamentos e das fazendas, alguns marinheiros e pescadores decidiram explorar os mares a oeste da terra verde. 

Markland, Helluland e Vinland: 

Segundo informa a Graenlendiga Saga, ainda na época da fundação do primeiro assentamento, o Vestribyggd, um homem chamado Bjarni Herjólfsson, filho de Herjolf Bárdsson e Thorgerd, os quais se mudaram para a Groenlândia na missão de colonização comandada por Erik, seguiu depois para a ilha, no intuito de encontrar seus pais, mas ventos tiraram sua embarcação do rumo, fazendo-a seguir para o oeste. Após poucos dias Bjarni e sua tripulação avistaram terras que não possuíam montanhas, eram bastantes arborizadas e possuíam pequenas colinas. Era uma terra verdejante, isso se pensarmos que a existência de árvores na Groenlândia é raríssima e apesar de naquele tempo haver algumas árvores, ainda era pouco para manter uma população crescente. De qualquer forma a terra descoberta por Bjarni Herjólfsson foi posteriormente chamada de Markland ("Terra da Madeira") por Leif, devido a abundância de florestas. 

Segundo continua o relato da saga, Bjarni e seus homens não aportaram naquela localidade, e continuaram a navegar para o norte, achando que assim retornariam para a Groenlândia. Cerca de dois ou três dias depois eles avistaram novas terras, dessa vez descritas como sendo montanhosa, com poucas árvores e era rochosa. Tal local foi chamado posteriormente de Helluland ("Terra das Rochas") por Leif, devido ao território rochoso. A partir dessa localidade eles decidiram seguir para o leste, ao avistarem glaciares deduziram que poderia ser a Groenlândia, pois a ilha era conhecida por ser congelada ao norte, com isso seguiram a sua costa ocidental rumo ao sul até encontrar o assentamento estabelecido por Erik. 


Em verde a rota de Bjarni (985/986), o descobridor de Markland e Helluland. Em vermelho a rota de Leif Eriksson (1000), o descobridor de Vinland. 
As "descobertas" de Bjarni e sua tripulação entre os anos de 985 e 986 são considerados por alguns historiadores como o primeiro relato histórico do avistamento do continente americano. No século XX Helluland foi identificada a Ilha Baffin e Markland a região de Labrador, ambos no atual Canadá. Bjarni e seus homens são vistos como os primeiros europeus que se tem notícia a avistar e descrever a costa da América do Norte, isso mais de cinco séculos antes de Colombo. (GRAHAM-CAMPBELL, 2006, p. 177). 

Apesar de tal façanha para nós hoje em dia ser vista como um grande feito, em seu tempo não se sabe como foi a recepção dessa notícia. A saga conta que Bjarni tempo depois viajou a Noruega seu país de origem, onde conversou com o jarl Erik Hákonsson, lhe falando a respeito de suas descobertas, as quais foram recebidas com grande entusiasmo. Mas apesar desse entusiamos apresentado na corte do nobre norueguês, uma nova expedição as terras descobertas demorou a ocorrer, o motivo da demora não é conhecido.

Quinze anos depois da descoberta de Bjarni, um dos filhos de Erik, Leif Erkisson decidiu encontrar as terras avistadas por Bjarni, mas também no intuito de tentar descobrir novas terras. Leif havia trabalhado algum tempo na Noruega para o rei Olaf Tryggvason, mas depois decidiu retornar para a Groenlândia onde se casou com Thorgunna, uma mulher de origem nobre, com quem teve um filho chamado Thorgils. A Saga de Erik fornece mais alguns detalhes sobre a família de Erik, mas de qualquer forma o que nos interessa aqui é que ele reuniu uma tripulação de trinta e cinco homens então zarpou por volta do ano 1000. 

"Deixando a Colônia Oriental, navegou ao longo da costa da Groenlândia e passou diante da Colônia Ocidental, até chegar à ilha de Disko. Daí cruzou o estreito de Davis e chegou a Helluland, agora identificada como a ilha de Baffin. Continuando para sul, encontrou a costa do Lavrador (Markland), povoada de árvores tal como Bjarni a descrevera, e depois continuou, navegando durante mais dois dias, até chegar a um promontório de terra a sudoeste que chamou de Vinland ("Terra das uvas"), devido às uvas silvestres ou bagas que encontrou ali. Leif e seu grupo desembarcaram e passaram ali o inverno antes de regressar à Groenlândia". (GRAHAM-CAMPBELL, 2006. p. 177). 


Estátua de Leif Eriksson, em Reykjavik, capital da Islândia. O monumento foi erguido em 1930 para celebrar Leif como o descobridor de Vinland, e supostamente dos Estados Unidos, pois naquela época achava-se que Vinland fizesse parte do atual território estadunidense, mas hoje sabe-se que isso não está correto. Vinland compreende território canadense. 
Pelo fato de ser filho do notório Erik, o Vermelho a notícia da descoberta de Leif ganhou maior notoriedade na Groenlândia e até na Islândia, onde seu filho Thorgils anunciou os feitos do pai. Leif ganhou o epiteto de o "Sortudo" (hinn heppni) por causa da sua descoberta. Ele informou que aquelas terras eram verdejantes, possuíam praias de areia branca, clima mais quente comparado ao da Groenlândia e da Islândia, e também era habitada por estranhas pessoas de cor escura, as quais pareciam com os skraelingar que viviam no norte da Groenlândia. Neste caso, Leif referia-se aos indígenas. Os vikings não desassociavam os povos indígenas que encontraram em suas viagens à América, para eles todos eram iguais e assim chamados pelo termo genérico de skraelingar (no singular skraelings). 

Leif segundo conta-nos as sagas, estava entusiasmado em retornar para Vinland, mas na ocasião seu pai estava gravemente doente ou teria falecido, pois não se sabe a data exata que Erik morreu. Por ser o filho mais velho, Leif teve que ficar em casa para cuidar dos negócios da família, com isso seu irmão Thorvald decidiu ir em seu lugar. Reunindo trinta homens ele zarpou para Vinland por volta de 1001, achando as casas erguidas por Leif e seus homens para passar o inverno do ano anterior. 

A tal terra chamada de Vinland por Leif é hoje reconhecida como a ilha de Terra Nova, na costa canadense. Voltarei a falar a respeito mais adiante, quando abordar as fontes arqueológicas. No momento vejamos o que a Saga dos Groenlandeses e a Saga de Erik tem a nos dizer a respeito de outras viagens ao Canadá. Thorvald e seus companheiros residiram alguns meses em Vinland, até que decidiram explorar suas cercanias. Em certa ocasião ao adentrarem um "fiorde", eles avistaram os skraelingar, os quais amedontrados teriam os atacados. Thorvald foi atingido por uma flecha e morreu na ocasião. Seus companheiros retornaram para Groenlândia sem lhe levar o corpo. 


Gravura representando a morte de Thorvald Eriksson, morto num ataque dos indígenas. Henry Davenport Northrop, c. 1901. 
Mas apesar da morte de Thorvald, os Eriksson não desistiram de reclamar Vinland ao seu controle. Outros dos filhos do falecido Erik, Thorstein decidiu seguir para lá. Não se sabe quantos filhos ao todo Erik teve, mas as sagas de Vinland informam que ele teve três filhos: Leif, Thorvald e Thorstein e uma filha chamada Freydis, apesar de não serem filho da mesma mãe. Neste caso Thorstein reuniu uma tripulação de 25 homens fortes, pois além de tomar posse daquela terra, ele tinha o intuito de combater os skraelingar e reaver o corpo de seu irmão. 

Thorstein ao lado de sua esposa Gudrid Thorbjorndóttir e a tripulação, zarparam rumo a Vinland, mas os ventos como estavam desfavoráveis, acabaram sendo empurrados para o norte. Devido a proximidade do inverno, Thorstein decidiu adiar a viagem, indo morar nos arredores do Vestribyggd, porém, um rigoroso inverno acabou acometendo a todos. Thorstein faleceu na ocasião, mas Gudrid sobreviveu. Passado o inverno ela retornou para Brattahild, a propriedade dos Eriksson e lá sepultou o marido. Posteriormente as sagas informam que Gudrid casou-se com Thorfinn Karlsefni, homem de posses, a quem a esposa incentivou colonizar Vinland. Na Saga de Erik é dado maior destaque a Gudrid, principalmente por falar de sua família. 

Thorfinn Karlseni segundo informa a Saga dos Groenlandeses, conseguiu o apoio e permissão de Leif Eriksson para comandar sua própria expedição à Vinland. Acompanhado por 60 homens, 5 mulheres e alguns animais de gado, a expedição de Thorfinn zarpou para Vinland em data incerta, mas pelo que sugerem alguns historiadores, a expedição teria ocorrido por volta do ano de 1010. A iniciativa de Thorfinn foi a primeira que efetivamente partiu no intuito de estabelecer um assentamento, o qual de fato como será visto adiante, os vestígios arqueológicos encontraram as bases de casas. 


Após o primeiro inverno passado na ilha, com a chegada do verão, aquela comunidade de colonos vikings se depararam a primeira vez com os skraelingar que habitavam os arredores. Diferente do confronto ocorrido com Thorvald Eriksson, Thorfinn procurou evitar gerar algum pretexto que levasse aqueles "selvagens" a atacá-los. Para a visão dos vikings, os indígenas eram um povo rude, que se vestia com peles de animais, não sabiam falar nenhuma língua conhecida. Com isso manteve-se a política da boa vizinhança, os vikings evitariam de adentrar o território indígena e esses evitariam de se aproximar do vilarejo sem autorização. 

Por pelo menos três anos a comunidade de Thorfinn manteve-se em paz com os skraelingar, inclusive um dos filhos de Thorfinn, chamado Snorri, teria nascido em Vinland. Uma das primeiras crianças europeias que se tem notícia a nascer nas Américas. A Saga dos Groenlandeses também informa que os indígenas forneciam madeira e peles em troca de leite, já a Saga de Erik conta que Thorfinn e seus homens empreenderam viagens de exploração nos arredores da ilha de Terra Nova, chegando mesmo ao continente em si. Todavia, não se sabe exatamente por quais locais eles passaram, apesar de vestígios arqueológicos duvidosos apontarem que algumas inscrições encontradas no norte dos Estados Unidos e sul do Canadá seriam escrita rúnica, alfabeto usado pelos vikings. 

A convivência com os indígenas foi pacífica, apesar de não saber até onde isso era verdade. De qualquer forma em certa ocasião como informam as sagas, os skraelingar que estavam no vilarejo se assustaram com os bois, isso gerou desentendimento entre eles os vikings, o que levou a uma briga. 

Não se sabe se houve mortos de ambos os lados, mas o confronto foi suficiente para fazer Thorfinn ordenar que o vilarejo fosse fortificado com uma paliçada. Os indígenas retornaram e tentaram invadir o vilarejo, mas foram repelidos, apesar de que houve baixas de ambos os lados. Após esse ataque Thorfinn decidiu abandonar Vinland. Todos retornaram para a Groenlândia. Thorfinn, Gudrid e seu filho Snorri se mudaram para a Islândia. 

Passado algum tempo, uma última expedição foi realizada a terra das vinhas, pelo menos última no sentido de ser narrada nestas sagas. Freydis Erikdaughter (no original é Eiríksdóttir), única filha de Erik, decidiu procurar os irmãos Helgi e Finnbogi, os quais haviam levado Thorfinn e sua família no translado da Groenlândia para a Islândia, a fim de saber se os irmãos estavam interessados em ir a Vinland. Helgi e Finnbogi aceitaram a proposta, então reuniram uma tripulação de trinta homens e algumas mulheres. Freydis e seu marido Thorvard levaram sua própria tripulação. 

Todavia, eles zarparam em data incerta para Vinland. Alguns historiadores sugerem o ano de 1015 para possível viagem. O navio de Helgi e Finnbogi chegou antes do de Freydis, e segundo informa as duas sagas, Freydis ao chegar a ilha, não gostou de ver que os irmãos e seus homens haviam se apossado das casas do vilarejo, alegando que aquela era propriedade sua, pois algumas das casas foram erguidas por seus irmãos. Nesse ponto Freydis não estava errada, mas estava equivocada, pois grande parte do vilarejo foi construído durante o governo de Thorfinn o qual residiu ali por quase três anos. 

Mas a queixa dela era que os irmãos tomaram para si as melhores casas, lhe legando construções menores. Ela na posição de filha de Erik, o Vermelho se sentiu ultrajada com aquilo. Freydis teria mandado erguer novas casas próximo do vilarejo. Porém a situação piorou. Freydis alegou ao seu marido Thorvard que havia ido a casa dos irmãos para fazer as pazes, mas estes a insultaram e lhe bateram. Ela pedia ao marido que lhe vingasse a honra, caso contrário pediria divórcio. Thorvard indignado com aquilo, reuniu seus homens e invadiu o vilarejo na calada da noite matando todos os dois irmãos e seus companheiros, porém decidiram poupar as mulheres. No entanto, Freydis alegou que também fosse traidoras e se nenhum homem iria matá-las, ela mesma faria isso. Na Saga dos Groenlandeses Freydis pede um machado para poder matar aquelas cinco mulheres. 

O relato de Freydis em Vinland lembra muito uma história de desentendimento, de briga de vizinhança. A arrogância de Freydis, a qual acabou sendo taxada de "mulher de louca", levou a desentendimentos problemáticos com os irmãos Helgi e Finnbogi, que culminou em assassinatos. Freydis, Thorvard e os demais permaneceram cerca de um ano em Vinland, até que retornaram para casa. A chacina ocorrida foi abafada. Mas eventualmente Leif ficou sabendo do ocorrido, mas não soube o que fazer ao certo. Como iria punir sua irmã e o cunhado. A saga não nos fornece mais detalhes acerca disso. 

No entanto, após o fim das viagens dos Eriksson a Vinland, a Saga dos Groenlandeses e a Saga de Erik ainda narram o que houve com Gudrid e Thorfinn Karlsini, os quais haviam morado em Vinland por pelo menos três anos. Não abordarei essas últimas páginas, pois não possuem ligação com Vinland. São mais informações acerca do que houve com essa família, além de informar que alguns de seus descendentes chegaram a serem bispos na Islândia.

Alguns comentários sobre as sagas: 

Tanto a Saga dos Groenlandeses quanto a Saga de Erik abordam as mesmas viagens, apesar de fornecerem algumas informações a mais ou a menos, mas curiosamente ambas as narrativas focam na empresa da família Eriksson e de Thorfinn Karlsini na tentativa de colonizar Vinland, principalmente tal fato é mais evidenciado na Saga de Erik ao ponto de Bjarni Herjólfsson nem se quer é mencionado como o "descobridor" de Markland e Helluland. Recaíndo todo o mérito da descoberta daquelas três terras a Leif Eriksson. (LOGAN, 1983, p. 91-92). 

Pelo fato de serem narrativas com elementos dramáticos, voltados para a história de uma família, desentendimentos, assassinatos, disputas de interesses etc., por muito tempo considerou-se tais obras como sendo uma narrativa de ficção. Não no sentido da existência de algumas pessoas, mas na veracidade dos acontecimentos, daí como dito, somente a partir do XIX é que começou a se olhar propriamente para as sagas como possíveis narrativas com dados históricos. Porém, apesar de hoje saber-se que Vinland realmente existiu, não se deve tomar ao pé da letra a narrativa dessas sagas, pois a forma de se redigir história naquela época não estava preocupada em conferir a credibilidade de todo o relato.

Neste caso podemos fazer uma recapitulação das viagens empreendidas às Américas segundo constam nessas narrativas. As datas são aproximadas, pois não a certeza de quando realmente ocorreu tais viagens. 
  • c. 985/986: Bjarni Herjólfsson descobriu Markland (Labrador) e Helluland (Ilha de Baffin), atualmente no Canadá. 
  • c. 1000-1002: Leif Eriksson descobriu Vinland (Ilha de Terra Nova), atualmente no Canadá. 
  • c. 1002-1003/1004: Thorvald Eriksson retornou a Vinland, tendo passado o inverno lá. Foi morto num ataque dos indígenas. 
  • c. 1010-1013: Thorfinn Karlsini estabeleceu um assentamento em Vinland. Após quase três anos o local foi abandonado devido a um ataque indígena. 
  • c. 1015-1016: Freydis Erikdaugther promove nova expedição a Vinland. O assentamento acaba sendo abandonado após um ano, devido a brigas internas. 
Porém, Donald Logan (1983, p. 92) comenta que essa datação normalmente apresentada para as sagas deve ser questionada. Ele salienta que segundo informa a Saga de Erik, Leif Eriksson serviu o rei Olavo Tryggvason da Noruega, mas esse rei governou por cinco anos de 995 a 1000, tendo sido assassinado pelo jarl Erik Hákonsson, o qual se tornou regente da Noruega (1000-1014), pois o país foi reivindicado pelo rei Sueno I da Dinamarca. O que nos interessa nesse ponto é que Erik Hákonsson de acordo com a Saga dos Groenlandeses foi o homem que ouviu de Bjarni a narrativa de sua descoberta, mas isso teria ocorrido antes ou depois de ele virar regente? E em que ano teria sido contado tal relato? 

Além disso, Donald Logan indaga quando exatamente Leif tomou conhecimento da descoberta de Bjarni. Teria sido enquanto residia na Noruega ou em retorno a Groenlândia? Mas esse retorno ocorreu quando? Pois tradicionalmente aponta que Leif teria chegado a Vinland por volta do ano 1000, mas o que sugere Logan, Leif ainda nesse tempo estaria à serviço do rei Olavo, na Noruega, tendo retornado para sua casa em Brattahild apenas em 1001 ou 1002, talvez até mesmo depois. 

Donald Logan (1983, p. 93) também menciona o caso de Snorri Thorfinnson, filho de Thorfinn Karlsini e Gudrid Thorbjorndaughter. Segundo informam as sagas ele teria nascido em Vinland. Um dos netos de Snorri foi Thorlak, o qual como informam as sagas, tornou-se Bispo de Skallhold. Thorlak como apontam registros históricos da época, nasceu em 1085. Não se sabe quantos anos sua mãe Hallfrid teve quando Thorlak nasceu, porém Donald Logan sugere que se Snorri teve sua filha com 40 anos, ele teria que ter nascido em 1025, ou seja, vários anos depois do que se supõe a época que seus pais teriam colonizado Vinland. 40 anos era uma idade avançada para se ser pai naquele tempo. Recuar o nascimento dele antes de 1025, também teria que se recuar o nascimento de Hallfrid, e neste caso, mulheres costumavam ter filhos cedo, logo, Hallfrid não poderia ser uma mãe jovem em 1085, a não ser que ela nasceu bem tardiamente. 

Essas problemáticas comentadas por Donald Logan não eram novidades na época. Entre as décadas de 1830 a 1960, ou seja, por mais de um século, estudiosos debateram se Vinland teria sido um local real, onde ficaria, em que ano realmente Leif Eriksson a teria descoberto, em quais anos seus irmãos teriam viajado para lá, em que ano Gudrid e Thorfinn teriam fundado um vilarejo. Essas perguntas permearam o imaginário por bastante tempo até que em 1965 um antigo mapa veio à tona e empolgou os historiadores, arqueólogos, entusiastas no geral. 

O Mapa de Vinland: 

Chamado de Mapa de Vinland, tal projeção cartográfica foi apresentada pela Universidade Yale no Dia de Colombo, 12 de outubro do ano de 1965. O anúncio oficial dizia que se tratava de uma obra talvez datada de 1440, mas possivelmente cópia de um mapa bem anterior, no qual representava Vinland. A notícia causou um alvoroço mundial. Vários jornais noticiaram o fato como uma grande descoberta. Aquele mapa-múndi, pois mostrava a Europa, Ásia e África, além de apresentar a Islândia, Groenlândia e uma ilha chamada Vinland. Consistia numa prova documental e cartográfica de que tal local poderia ser real. 


Fotografia do Mapa de Vinland. 
Na época a autenticidade do mapa foi atestada por alguns estudiosos de respeito como R. A. Skelton, superintendente da seção de cartografia do Museu Britânico, George D. Painter, especialista em livros impressos, também funcionário do Museu Britânico e Thomas E. Marston curador de manuscritos medievais e renascentistas da Biblioteca da Universidade Yale. Segundo foi informado, o mapa de Vinland junto a outra obra a Hystoria Tartarorum, foram adquiridos pelo Museu Britânico de um vendedor italiano de livros e documentos antigos, chamado Enzo Ferrajoli de Ry. Ninguém sabe como Enzo Ferrajoli encontrou esse mapa e por qual preço foi vendido aos ingleses em 1957. Pois só tempo depois em data não conhecida, o mapa foi vendido a Universidade Yule. Mas o intrigante é que apenas em 1965, o mapa foi oficialmente levado ao conhecimento público. Por que dessa demora? (LOGAN, 1983, p. 106; SEAVER, 2010, p. 211-212). 

O motivo da demora não são totalmente conhecidos. O Mapa de Vinland apesar de ter causado alvoroço com sua publicação, não convenceu a todos. Havia gente cética quanto a sua autenticidade. Especialistas em cartografia solicitaram o mapa ou cópias suas para fazerem análises a fim de determinar em que época realmente ele teria sido feito, além de tentar identificar em que país a obra poderia ter sido desenhada. O mapa possui uma inscrição em latim, na área sobre Vinland, que diz o seguinte:

"Por vontade de Deus, depois de uma longa viagem desde a ilha da Groenlândia rumo ao sul para as partes ocidentais do distante mar oceano, navegando para o sul em meio ao gelo, os companheiros Bjarni [Byarnus] e Leif Eiriksson [Leiphus Erissonius] descobriram uma nova terra, extremamente férteis e até mesmo possuíam vinhas, ilha que eles chamaram Vínland. Eric [Henricus] legado da Sé Apostólica e bispo da Groenlândia e da regiões vizinhas, chegou a essa terra verdadeiramente vasta e muito rica em nome do Deus Todo-Poderoso, no último ano de nosso bem-aventurado pai Pascal, permaneceu muito tempo no verão e no inverno, e mais tarde retornou rumo ao nordeste em direção a Groenlândia e depois prosseguiu na mais humilde obediência à vontade de seus superiores". (Tradução minha feita a partir da versão apresentada por SEAVER, 2010, p. 212). 

Pelo que é mencionado na Saga dos Groenlandeses e na Saga de Erik, Bjarni e Leif não viajaram juntos, nem se quer se tem certeza se eles chegaram a se conhecer. Além disso, pelo relato, Bjarni avistou Markland e Helluland, não Vinland. Não obstante o mapa diz que o bispo Eric teria viajado para Vinland também. Logan (1983, p. 109) sugere que a suposta viagem do bispo teria ocorrido entre 1117 e 1118, pois no ano de 1121, o mesmo bispo referiu-se nos Anais Islandeses acerca da existência de Vinland. Entretanto isso significava que ele teria viajado para lá? 

Apesar de haver essas aparentes contradições no documento, o mapa seguiu quase incólume por vários anos até que em 1974, uma conferência realizada em Londres, por Helen Wallis, sucessora de R. A. Skelton na direção de cartografia no Museu Britânico. Wallis reuniu defensores e opositores do Mapa de Vinland, tendo organizado um grande debate para se atestar a veracidade do documento. Análises materiais feitos no mapa desde 1967 para atestar a datação do pergaminho e da tinta, apontaram que de fato o pergaminho é antigo, mas pigmentos achados na tinta usada, continham óxido de titânio, substância que somente passou a ser sintetizada a partir do século XX. (SEAVER, 2010, p. 213). Ainda nos resultados preliminares houve tentativas de refutar a autenticidade do mapa, mas a oposição foi ferrenha, apenas nove anos depois é que alguns estudiosos do assunto começaram a perceber que a repetição das análises por outros laboratórios chegavam a conclusões similares. 

Essa prova contrária já punha em dúvida a veracidade do mapa, mas outras análises foram sendo feitas nos anos seguintes e hoje sabe-se que o mapa é falso, apesar de que houve gente que tentou provar o contrário. Todavia, enquanto a veracidade do Mapa de Vinland ainda era atestada, nessa mesma época, pesquisas arqueológicas realizadas no Canadá, fizeram uma grande descoberta. 

As fontes arqueológicas: 

Antes do século XVIII a literatura islandesa medieval ainda não havia sido traduzida, estando restrita a um grupo de estudiosos que não apenas eram falantes dessa língua, mas que sabiam paleografia para entender a escrita medieval, pois estamos falando de manuscritos dos séculos XII ao XIV. A partir do XVIII e XIX, estudiosos islandeses, noruegueses, dinamarqueses, suecos, ingleses e alemãs começaram a traduzir as Eddas (principais fontes sobre a mitologia nórdica) e algumas sagas. Isso permitiu que o conhecimento sobre a literatura islandesa medieval se espalhasse e novos estudos de interpretação pudessem ser feitos. Apesar de que no século XIX, como visto com Rafn e Anderson, estes chegaram a ler as Sagas de Vinland, e defendiam se tratar de relatos históricos, ainda havia uma forte resistência quanto a veracidade dos textos islandeses. 

Existem distintas formas de classificar as sagas islandesas, mas uma delas separam as narrativas entre conteúdo histórico e conteúdo mítico e lendário. Embora que algumas sagas se mantivessem no meio desta divisão, possuindo tanto elementos reais quanto míticos e legendários. As Sagas de Vinland foram tidos por alguns como sendo desse tipo. Narravam a colonização da Groenlândia, algo já considerado um fato, pois a ilha ainda era habitada naquele tempo, apesar de ter sofrido problemas devido ao clima rigoroso. Porém, as regiões chamadas de Vinland, Markland e Helluland não eram consideradas locais reais. 

Mitos e lendas de ilhas e continentes perdidos, fantásticos e paradisíacos remontam os tempos antigos e existem em diferentes culturas. Logo, para muitos estudiosos do XIX e na primeira metade do XX, Vinland pudesse ser uma ilha lendária, inclusive na Historia Norwegiae (2006, p. 157, 177) Vinland ("a terra das vinhas") era considerada uma terra real ao lado de outros lugares como a "Terra dos Gigantes" e a "Terra dos Skraelings". Por mais que os noruegueses da época pudessem ter convicção de que fossem locais reais, história e lenda nem sempre eram desassociáveis em algumas culturas. Com isso, há quem visse os trabalhos de Carl C. Rafn e Rasmus B. Anderson como teorias mirabolantes de tentar "comprovar lendas". 

Apesar de haver ceticismo por parte de alguns estudiosos, outros realmente acreditavam que Vinland pudesse se referir a alguma localidade dos Estados Unidos. Durante o final do século XIX e começo do XX, encontram-se artigos em revistas científicas e acadêmicas, apresentando teorias de que Vinland ficasse no norte dos Estados Unidos, logo, caso aquelas histórias fossem reais, os vikings e não os espanhóis foram os descobridores da América. Neste caso, tais estudiosos não cogitavam a ideia de que Markland e Helluland foram avistadas antes, para eles interessava apenas Vinland, pois ali formou-se uma pequena colônia nórdica. Não obstante, a divulgação do Mapa de Vinland em 1965, foi recebida por tais estudiosos como uma prova a mais para a existência daquela terra encontrada pelos vikings. 

Mas a resposta derradeira, pelo menos em parte, pois como veremos, ainda encontram-se respostas acerca dessa história, sem respostas, vieram na década de 1960. Desde o começo do século XX, escavações arqueológicas estavam sendo realizadas na Groenlândia, tendo encontrados alguns vestígios da presença nórdica na ilha, assim, um arqueólogo norueguês de nome Helge Marcus Ingstad (1899-2001), já alguns anos vinha estudando os relatos das Sagas dos Groenlandeses e da Saga de Erik, determinado a encontrar a localização de Vinland. Para ele, Vinland não se tratava de um local imaginário ou lendário, mas uma terra real a qual cinco séculos antes de Colombo empreender sua jornada, havia sido encontrada pelos noruegueses. 


Helge Ingstad, o descobridor de L'Anse aux Meadows, assentamento nórdico na América do Norte. 
Baseado de que Markland seria uma referência concreta da costa do Labrador, no Canadá, e Vinland ficava ao sul de Markland, em 1960, Ingstad e sua equipe partiram para o Canadá, para a ilha de Terra Nova (Newfoundland). Ele decidiu iniciar suas investigação no norte da ilha, pois a partir de conversas com os habitantes locais, alguns disseram que haviam ruínas que aparentavam ser bem antigas, nas cercanias do Ribeiro do Pato Preto, ao sul da Baía de Epaves. O local era conhecido pelo nome francês de L'Anse-aux-Meadows (Caverna das Águas Vivas). (GRAHAM-CAMPBELL, 2006, p. 178). 


Localização do sítio arqueológico de L'Anse aux Meadows, em Terra Nova, no Canadá. Único sítio arqueológico até hoje encontrado que atesta a presença viking no continente americano. 
Na época que se iniciaram as escavações, os moradores locais não faziam a miníma ideia de quem teria vivido ali. Uns achavam que eram restos de alguma aldeia indígena, ou até mesmo do período colonial, podendo remeter aos ingleses, franceses ou até piratas. As escavacações de L'Anse aux Meadows se iniciaram em 1961 e continuaram até 1968, sendo dirigidas por Helge Ingstad, mas principalmente por sua esposa Anne Stine Ingstad. Posteriormente entre 1973 e 1976, Bengt Schonback e Birgitta Linderoth Wallace também realizaram escavações no sítio. (LOGAN, 1983, p. 99). 


Anne Stine Ingstad, esposa de Helge Ingstad, numa fotografia de 1963, tirada no sítio arqueológico de L'Anse aux Meadows. Enquanto seu marido trabalhava em outros assuntos, Anne dirigiu as escavações ao longo de sete anos. 
No ano de 1977, Helge e Anne publicaram um relatório sobre suas pesquisas, apresentando provas de que se tratava não de um assentamento indígena, britânico, francês, tão pouco era datado da Idade Moderna, mas remontava ao medievo e possivelmente fosse de origem escandinava, tal dúvida depois foi esclarecida como de fato pertencente a cultura nórdica medieval. 

No sítio foram achados na ocasião oito construções: três casas, uma ferraria, três armazéns, uma oficina e alguns fornos. A arquitetura das casas era idêntica ao estilo usado na Groenlândia e na Islândia no período viking, até os materiais empregados, como os blocos de tepe, era similares aos fabricados na Groenlândia. A disposição das casas também apontava esquema habitacional em comum. Além disso, vestígios de objetos em ferro e em bronze, especialmente uma insígnia anelada era do mesmo modelo usado pelos escandinavos da Era Viking. Posteriormente a datação por Carbono 14 foi realizada em diversas amostras, apontando a data do século XI, como a origem de tais objetos. (GRAHAM-CAMBPELL, 2006, p. 178-179; WALLACE, 2008, p. 606; LOGAN, 1983, p. 101-102). 


Reconstituição de uma longa casa e dois armazéns, encontradas no sítio arqueológico de L'Anse aux Meadows, Terra Nova, Canadá. 
Enquanto o Mapa de Vinland era desacreditado na década de 1970, a publicação do relatório dos Ingstad, depois de Bengt Schonback e de Birgitta Wallace, forneciam cada vez mais provas, fontes, artefatos, argumentos e material para corroborar que ali pudesse ser Vinland, e de fato aquelas ruínas eram de um assentamento viking, encontrado na ponta de uma ilha canadense. 

Considerações finais:

Depois de todo essa material e explanações apresentados é hora de passar em revista os dados coletados e o que se possui de fontes que atestem a presença escandinava no século XI, na América do Norte. Primeiramente vamos começar dissecando os vestígios arqueológicos, pois como eu havia comentado, seria a descoberta de L'Anse aux Meadows a solução definitiva sobre a presença nórdica na América? A resposta é não. 

Provavelmente algumas pessoas não tenham gostado de minha afirmação categórica. Mas vamos a explicação. A datação por Carbono 14 nos fornece datas aproximadas, as quais podem variar entre anos, décadas e até mesmo séculos ou milênios, quanto mais antigo for a amostra estudada. Os objetos metálicos e outras amostras encontradas no assentamento viking em Terra Nova, de fato foram datados da primeira metade do século XI, isso coincide com a questão de que nessa época a Groenlândia já era habitada, logo, os vikings que se encontravam por lá teriam vindo dessa ilha, apesar de poderem ser originários de outras terras. 

Não obstante, por mais que a datação remonte a primeira metade do XI, o assentamento não nos fornece dados sobre quem o teria construído. Alguns tentaram afirmar na época que se tratava da colônia fundada por Leif Eriksson, chamada de Leifsbúdir pelos estudiosos. Tal opinião advinha da condição de que Thorfinn Karlsini teria fundado pelo menos dois assentamentos, como sugerem os relatos escritos. 

Quanto a Thorfinn Karlsini, como salienta Wallace (2008, p. 605), as sagas informam que durante a estada de pelo menos três anos em Vinland, Thorfinn e seus homens aproveitaram para explorar as terras locais, inclusive nomeando alguns locais que até hoje não foram identificados. O relato fala de dois grandes acampamentos, o Straumfjord, situado no norte de Vinland, de onde ocorriam expedições de exploração, caça e pesca durante o verão, e o acampamento de Hóp, situado mais ao sul numa região cercada por lagunas, era uma paragem mais agradável, abundante em vinhas silvestres e em árvores. 

Com isso a arqueólogo Birgitta Wallace (2008, p. 605-606) indagou se L'Anse aux Meadows, local que ela chegou a participar das escavações, poderia ser uma referência a Leifsbúdir ou ao Straumfjord? Não há uma resposta clara. Pois o assentamento de L'Anse aux Meadows parece ter abrigado poucas pessoas, assim como, a arqueóloga sugere que parece ter tratado de um entreposto e não um vilarejo ou vila. De fato Leif apenas teria erguido algumas casas temporária, tendo cabido a Thorfinn erguer um vilarejo para dezenas de pessoas. Por tal condição, se descartaria a hipótese de que aquelas ruínas fossem de Straumfjord ou até mesmo de Hóp, sugerindo que pudessem ser a localidade que Leif e Thorvald se estabeleceram durante alguns meses.

Porém, isso não é uma certeza. Primeiro não se sabe quando Leif viajou para a América do Norte e há gente que até mesmo questiona se realmente ele existiu. Logo, não se pode dizer que tais ruínas sejam de seu assentamento. Para Birgitta Wallace (2008, p. 609) L'Anse aux Meadows seria a "porta de entrada" de Vinland, mas aqui no sentido de um entreposto de armazenamento. Normalmente os vikings costumavam realizar o armazenamento em casa, exceto quando a produção era grande, isso os levava a construir um armazém. Mas a existência de pelo menos três armazéns no sítio, sugere que se tratasse de um porto para escoamento de mercadorias, ainda mais por sua posição privilegiada no norte de Terra Nova. 

Isso também nos leva a recordar o fato de que nas sagas falam que durante a colônia de Thorfinn, os noruegueses negociavam com os indígenas, em geral madeira e peles de animais em troca de leite. Não podemos confirmar se houve realmente esse comércio entre os dois povos, mas também não podemos descartá-lo. Entretanto, a existência de armazéns não atesta a existência de um comércio, mas possivelmente de uma zona de extração de recursos, lembrando que a Groenlândia ainda hoje é uma ilha pobre em recursos naturais. 

Diante de tais perspectivas, L'Anse aux Meadows atesta em parte a veracidade das Sagas dos Groenlandeses e da Saga de Erik, por confirmar que realmente os vikings chegaram a América do Norte e estabeleceram um assentamento em Vinland, no século XI. Porém, L'Anse aux Meadows não atesta a história da jornada da Família Eriksson pelo controle de Vinland e tão pouco se Thorfinn Karlseni e Gudrid teriam fundado uma colônia que durou três anos. Apesar de estas histórias não serem confirmadas, pelo menos hoje se sabe que realmente Colombo e sua expedição não consistiram nos primeiros europeus a chegarem nas Américas. 

NOTA: O suposto assentamento chamado de Hóp, o qual teria sido erguido durante o governo de Thorfinn Karlseni parece que não estaria localizado na ilha de Terra Nova. Até hoje sua localização não foi encontrada. Hipóteses sugerem que ele poderia ficar em alguma localidade no Golfo de São Lourenço, pois a ilha de Terra Nova fica na entrada do golfo. Outras teorias sugerem que Hóp ficaria ainda mais para o sul, em direção a ilha da Nova Escócia, ainda em território canadense. Os entusiastas da presença viking nos Estados Unidos, sugerem que Hóp poderia estar no MaineNova Hampshire ou na Nova Inglaterra
NOTA 2: Nas últimas décadas encontrou-se moedas escandinavas em algumas localidades no norte do Canadá. Devido a falta de mais objetos na região, não se sabe como tais moedas ali chegaram? Teriam sido perdidas por algum explorador escandinavo? Teriam sido dadas para algum indígena como pagamento? Teriam sido roubadas durante um ataque indígena a alguma acampamento? Todavia, a presença de tais moedas são um indicativo a mais para corroborar que os groenlandeses costumavam visitar o Canadá com regularidade. 
NOTA 3: Encontra-se em um documento islandês a menção de uma viagem a Markland no ano de 1347. Na ocasião a viagem tinha como intuito coletar madeira. No entanto, não sabemos se tal viagem realmente chegou a ocorrer. 
NOTA 4: Alguns romances foram escritos com base nas Sagas dos Groenlandeses e da Saga de Erik. Temos o livro The Thrall of Leif the Lucky: A story of viking days (1902) de Ottilie A. Liljencrantz, a qual aborda Leif Eriksson. The Greenlanders (1988) de Jane Smiley, que aborda a vida na Groenlândia, principalmente na época da crise da sua colonização. E o livro Eiriksdottir: A Tale of Dreams and Luck: A Novel (1994) de Joan Clark, cuja história romantiza a vida de Freydis Erikdaugther. 
NOTA 5: No ano de 1964, o presidente americano Lyndon B. Johnson instituiu o feriado do Dia de Leif Eriksson, celebrado na data de 9 de outubro, no intuito de celebrar a chegada dos vikings ao continente americano. O curioso é que a data já era celebrada por alguns estados americanos desde a década de 1920, tendo sido um de seus idealizadores o escandinavista Rasmus B. Anderson. Apesar de que antes de 1965 não houvesse comprovação da presença escandinava no continente americano, ainda assim, esse feriado havia sido validado. 
NOTA 6: A descoberta de Vinland serviu de inspiração para o mangá Vinland Saga (2005-presente) de Makoto Yukimura. Leif Ericson é um dos personagens que aparece no mangá. Todavia, apesar de se falar sobre Vinland, a história se desenrola na Islândia, Inglaterra, França e outras localidades, não indo para Vinland ainda. 

Referências Bibliográficas:

Fontes:
BREMEN, Adam of. History of Archbishops of Hamburg-Bremen. Translated and note by Francis J. Tschan. New York, Columbia University Press, 1959. 
HISTORIA Norwegie. Edited by Inger Ekrem and Lars Boje Mortensen. Translated by Peter Fisher. Copenhagen, Museum Tuscalunum Press/University of Copenhagen, 2006. 
THE VINLAND sagas: The Norse discovery of America. Translated and introduction by Magnus Magnusson and Hermann Pálsson. London: Penguin Books, 1965. 

Referências: 
BOULHOSA, Patricia Pires. Sagas islandesas como fonte de história da Escandinávia Medieval. Signum, n. 7, 2005, p. 13-39. 
GRAHAM-CAMPBELL, James. Os Vikings. Barcelona, Edições Folio S.A, 2006. 
HAYWOOD, John. The Penguin Historical Atlas of the Vikings. London, Penguin, 1995. 
HOLMAN, Katherine. Historical dictionary of the vikings. Lanham: Scarecrow Press Inc, 2003.
LOGAN, T. Donald. The vikings in the history. 2. ed. London/New York: Routledge, 1991.
SEAVER, Kirsten A. The Last Vikings. London/New York, I. B. Tauris, 2010. 
WALLACE, Birgitta. The discovery of Vinland. In: BRINK, Stefan (ed.). The Viking World. London/New York, Routledge, 2008. p. 604-612.