Pesquisar neste blog

Comunicado

Comunico a todos que tiverem interesse de compartilhar meus artigos, textos, ensaios, monografias, etc., por favor, coloquem as devidas referências e a fonte de origem do material usado. Caso contrário, você estará cometendo plágio ou uso não autorizado de produção científica, o que consiste em crime de acordo com a Lei 9.610/98.

Desde já deixo esse alerta, pois embora o meu blog seja de acesso livre e gratuito, o material aqui postado pode ser compartilhado, copiado, impresso, etc., mas desde que seja devidamente dentro da lei.

Atenciosamente
Leandro Vilar

domingo, 27 de maio de 2018

200 anos do nascimento de Karl Marx

A proposta desse texto não foi abordar a teoria econômica, política e social de Karl Marx, mas comentar alguns aspectos da sua vida, carreira, obras e ideias, pois passados dois séculos de seu nascimento muita gente pouco conhece o homem por trás da imagem de filósofo, pensador, revolucionário, tolo, louco, etc. imagens que se desenvolveram ao longo do século XX e ainda influenciam o imaginário atual. Marx em seu tempo irritou muitas pessoas com suas ideias, e ainda hoje isso ocorre. Não é incomum ler xingamentos a sua pessoa e ideias, mas na maior parte das vezes os detratores nem se quer leram algo de seu trabalho. Agem por ignorância. 

Embora eu não seja marxista, tenha minhas críticas a visão de Marx de como estudar a história social, ache sua versão de comunismo ainda utópica, discorde de alguns de seus apontamentos sobre acontecimentos históricos, desenvolvimento econômico, mas principalmente discordo dos governos que em nome do marxismo, socialismo e comunismo cometeram atrocidades, eu não poderia deixar esse ano passar em branco sem falar dele. Um homem cujas ideias podem não ter dado certo ou não foram devidamente aplicadas, mas inegavelmente ajudaram a mudar a História. Nesse texto procurei contar alguns aspectos da vida e obra desse jornalista e filósofo político. 


Karl Marx por volta de 1875. 
Contexto: 

Karl Marx como qualquer estudioso é fruto de seu tempo e local. O historiador Michel de Certeau chama isso de "lugar social" do autor, ou seja, as referências sociais, políticas, econômicas, culturais, religiosas, familiares, ideológicas, etc. que influenciam um estudioso. Marx como um homem do século XIX vivenciou grandes questões: desdobramento da Revolução Industrial, Romantismo alemão, Hegelianismo, Darwinismo, Socialismo, Comunismo, Anarquismo, Sindicalismo, Primavera dos Povos, guerras, colonialismo, desenvolvimento das ciências sociais, progresso tecnológico, descobertas científicas, etc. Tudo isso confluiu para influenciar suas decisões e ideias. Algo que foi mostrado ao longo do texto. 

Infância e adolescência (1818-1835)

Karl Heinrich Marx nasceu no dia 5 de maio de 1818, na cidade de Trier (também conhecida como Tréveris), no estado da Renânia-Palatinado, região que anos antes esteve sob domínio de Napoleão Bonaparte. Na época de seu nascimento, Trier possuía uma população estimada em 15 mil habitantes. Era uma bela cidade com bosques e vinhedos nos arredores. A cidade contava com uma população de judeus, católicos e protestantes. A cidade na ocasião fazia parte do Reino da Prússia (1701-1918), um dos mais poderosos Estados alemãs que por anos defendeu sua emancipação. Lembrando que na época a Alemanha ainda não estava unificada, mas era uma federação de Estados quase independentes. (MCLELLAN, 1995, p. 35-36).

Marx era o segundo de oito filhos gerados pelo casal Heinrich Marx (1777-1838) e Henriette Pressburg (1788-1863). Seus irmãos eram Sophie (1816-1886), Hermann (1819-1842), Henriette (1820-1845), Louise (1821-1893), Caroline (1824-1847) e Eduard (1826-1837). No entanto, seus pais adotaram uma menina chamada Emilie (1824-1888). Totalizando nove crianças. Marx assim como os irmãos, eram judeus; sua mãe pertencia a uma família de judeus holandeses, sendo seu pai o rabino Isaac Pressburg. Além do avô materno, seu avô paterno Meier Halevi Marx (também chamado de Levi Marx) foi rabino em Trier. Assim nota-se que pelos dois lados da família, Marx possuiu antepassados que foram rabinos. (MEHRING, 1962, p. 1).

No caso da linhagem paterna, Marx Levi teve dois filhos, Herschel e Samuel. O primeiro formou-se em Direito e passou a atuar como advogado. Posteriormente para poder assumir um cargo jurídico no Estado, teve que mudar de nome e se converter ao cristianismo, pois começava a despontar antissemitismo na época. Assim, Herschel se tornou Heinrich Marx, e em 1824, foi batizado cristão pela Igreja Luterana. Por sua vez, seu irmão Samuel Marx, manteve-se judeu e seguiu os passos do pai, tornando-se rabino. (BERLIN, 1959, p. 26-27). 

Devido ao crescimento do antissemitismo na região, além de temer poder perder o cargo que conseguiu, Heinrich Marx decidiu batizar os filhos também. Assim, Sophie, Karl e Hermann foram batizados em 1825, no cristianismo luterano. Embora que a mãe deles mantevesse judia, e talvez conservou alguns costumes judios no lar. Na mesma época do batismo, Karl ingressou na escola. Karl se interessou a partir de sua mãe, por literatura, passando a ler as obras de Goethe, Lessing e Schiller, expoentes do Romantismo alemão na época. Por sua vez, seu pai Heinrich Marx era ligado ao movimento liberal da Renânia, sendo membro do Trier Cassino Club, fundado durante a ocupação francesa, o clube mostrou-se opositor a interveção de Napoleão, e posteriormente passou a defender pautas liberais, mesmo sendo a Prússia governada por um rei quase absolutista. A militância de seu pai teria em parte influenciado o jovem Marx.

No ano de 1830, Marx ingressou na escola. Na época contava com seus 12 anos. Ele como outros jovens da época recebeu sua educação inicial em casa. No caso, ele passou a estudar numa antiga escola jesuítica, nomeada Frederick William High School. Nome dado em homenagem ao monarca Frederico II, o Grande, então governante do país. Na escola Marx teve contanto com uma educação baseada nos princípios do Iluminismo, desenvolvido no século passado. No caso, ele teve contato com filósofos como Jean-Jacques Rousseau, Voltaire e Immanuel Kant. Posteriormente na universidade passou a se interessar pela obra de Hegel. (MCLELLAN, 1995, p. 9).

Formação universitária (1836-1841)


Jenny von Westphalen
Concluído os estudos escolares no ano de 1835, Marx mudou-se para Bonn, onde ingressou na universidade local, passando a estudar Direito. A ideia era seguir os passos de seu pai. Foi no outono de 1835, enquanto já estava estudando na Universidade de Bonn, que Marx conheceu sua futura esposa, Jenny von Westphalen (1814-1881), o grande amor de sua vida, com quem manteve-se casado por 40 anos. Jenny não era descrita como uma bela mulher, mas era carinhosa e virtuosa, duas características que encantaram Marx. Ela era amiga de Sophie Marx, e foi por intermédio da irmã, que Karl lhe foi apresentado. Jenny era filha do barão Johann Ludwig von Westphalen (1770-1842), que trabalhava como professor universitário. Johann era um homem erudito, falava quatro a cinco idiomas, gostava de música, literatura, história e filosofia. Com os anos ele despertou apresso pelo futuro genro, mesmo que ele fosse quatro anos mais jovem que sua filha. De qualquer forma, Marx não iniciou de imediato sua relação com Jenny, ele como um rapaz de seus 18 anos, ainda era imaturo para vários aspectos da vida, e como tantos jovens, acabou sendo influenciado por más amizades. Marx passou cerca de um ano matriculado em Bonn, mas devido a sua irregularidade como aluno, no que repercutiu em notas baixas, trabalhos atrasados, falta as aulas, e várias idas as tavernas locais com seus amigos, especialmente ao Trier Tavern Club, onde ele passava horas jogando conversa fora, bebendo e escrevendo poesia. Heinrich decidiu mudar o filho de universidade, afastando-o dessas más companhias. (MEHRING, 1962, p. 6-7).


Georg W. F. Hegel
Assim, no verão de 1836, Marx mudou-se para Berlim, onde ingressou na Universidade de Berlim. Lá ele deveria retomar seus estudos de Direito, porém, Marx nesse tempo que estudou em Bonn percebeu que sua vocação não era ser advogado como o pai. Ele queria estudar Filosofia e Literatura, disciplinas que seu pai desaprovou anteriormente. Porém, em Berlim, Marx teve a oportunidade de estudar Filosofia, e lá ele se familiarizou com a obra de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), o qual havia sido professor e reitor da Universidade de Berlim, e um dos mais notórios e respeitados filósofos daquela época, e ainda hoje. Revigorado pela repreensão que seu pai lhe deu, Marx dessa vez passou a se dedicar aos estudos; continuou a estudar Direito e começou a estudar Filosofia e História. Nesse período ele também passou a se corresponder por carta com Jenny, e assim, em 1837, formalizaram seu namoro. Marx permaneceu em Berlim até a conclusão de sua graduaçãoSeu interesse pela filosofia hegeliana o levou a ingressar no movimento dos Jovens Hegelianos, composto por professores, alunos e funcionários da universidade, o qual consistia num movimento dividido entre direita e esquerda, os quais disputavam espaço na universidade. Além dessa rixa profissional, os hegelianos em geral tinham assuntos em comum. Baseados nas obras de seu mentor, eles debatiam política, filosofia, história, sociedade, economia, justiça, leis, religião, etc. 

No ano de 1838, seu pai Heinrich Marx faleceu. Aquilo abalou Marx e o restante da família. Mesmo assim ele continuou seus estudos e iniciou o doutorado em 1839, se formando em 1841, como Doutor em Filosofia na Universidade de Jena. Sua tese foi repudiada por motivos políticos, devido ao fato de fazer parte dos Jovens Hegelianos. Sua tese defendeu uma comparação entre as diferenças da filosofia de Demócrito e Epicuro, expoentes entre os filósofos gregos antigos. Concluindo seus estudos, Marx contava em 1841 com 23 anos, ainda jovem. Ele planejava seguir carreira acadêmica, mas devido ao fato de pertencer aos Jovens Hegelianos isso prejudicou suas expectativas. A reitoria da Universidade de Berlim, controlada por conservadores e reacionários, barraram qualquer tentativa dos Jovens Hegelianos de se tornarem parte de seu quadro de funcionários. Inclusive professores que pertenciam a esse movimento como Bruno Bauer, foram demitidos. 

Início da carreira jornalística (1842)

Marx retornou para casa em Tries, e após seis semanas seguiu para Bonn, a fim de prestar exame para ser professor universitário. Ele estava em companhia de seu professor e agora amigo Bauer. Um dos requisitos para que pudesse prestar exame em Bonn, era que sua tese de doutorado fosse publicada. Marx passou semanas revisando seu trabalho, realizando correções e acréscimos. Porém, as editoras não estavam interessadas em publicar algo sobre antigos filósofos gregos. Hegel era o filósofo da moda naquele tempo. Além disso, os doutores de Bonn, fortemente influenciados pela filosofia hegeliana, discordavam de vários pontos da filosofia de Demócrito e Epicuro. Em outros termos, eles não agiram profissionalmente, deixaram que suas ideologias prevalecem-se no lugar de seu profissionalismo. As semanas se estendiam nesse problema. 

Mas se por um lado, Marx estava sem sorte, seu amigo Bauer também. Sua crítica aos Evangelhos Sinóticos não foi bem recebida, e Bauer foi acusado de ser ateu, mesmo sendo ele um protestante. Apesar das críticas opostas a Bauer, Marx decidiu apoiar o amigo. Nesse período Marx começou a se tornar mais cético e se distanciar do cristianismo, até a vir declarar-se posteriormente ateu. No final de 1841, o barão Johann von Westphalen estava muito doente. Marx foi visitar seu sogro. Esse faleceu em 3 de março de 1842. Marx na época já estava noivo, mas optou em adiar o casamento, por não ter conseguido emprego. Como a tentativa de ingressar na Universidade de Bonn fracassou, Marx conseguiu emprego de jornalista no jornal Rheinische Zeitung (Gazeta Renana), fundado em 1 de janeiro de 1842, em Colônia. Logo, tratava-se de um jornal bem novo e sem renome. Ainda assim, foi o sustento e Marx. (MCLELLAN, 1995, p. 38). 

Marx passou o meses seguintes trabalhando no jornal, além de escrever matérias para outros jornais e ajudar seu amigo Bauer, na escrita ou revisão de seus artigos, os quais envolviam temas políticos e teológicos. Devido ao seu bom serviço prestado no Rheinische Zeitung, foi promovido ao cargo de editor. Nesse tempo que esteve no jornal, realizou algumas viagens a trabalho. Foi nessa época que seu interesse por política e questões sociais começou a despertar. Em sua estada em Colônia, conheceu Arnold Ruge (1802-1880), que era filósofo e havia sido um jovem hegeliano. Ruge atuava no meio jornalístico na época, e tornou-se amigo de Marx. 

As críticas jornalísticas promovidas pelo Rheinische Zeitung sobre questões relacionadas a temas liberais, a laicidade do Estado, intervenção do poder monárquico, republicanismo, etc. passaram a serem vistas como incômodos pelo governo da Renânia-Palatinado. Marx como era editor do jornal, recebeu em algumas ocasiões cartas com reclamações, acusações e ofensas. Ele era taxado de tumultuador. O órgao censor do governo nos últimos meses de 1842 e começo de 1843 começou a ficar cada vez mais ríspido quanto a aprovação das matérias publicadas pelo Rheinische Zeitung. Isso culminou no ato de que o jornal foi fechado por ordem do govenro. No começo de 1843, Marx desgostoso em saber que não poderia exercer a liberdade de imprensa em Colônia, e provavelmente em outra parte do reino prussiano e na própria Alemanha também, decidiu se mudar para um lugar onde pudesse trabalhar e não ser perseguido pelo governo, assim, ele mudou-se com sua noiva para Paris. 

Casamento e vida em Paris (1843-1845)

Antes de mudar para Paris, seu amigo, o jornalista e filósofo Arnold Ruge, havia proposto Marx fazer algo do tipo. Ruge havia conseguido dinheiro para fundar uma revista a qual foi a Deutsche-Französische Jahrbiicher (Anais Franco-Alemães). Meses depois, Ruge propôs uma vaga de emprego na mesma revista, a ofertando para Marx, e isso foi a solução para ele deixar Colônia e mudar-se para Paris. Em 19 de junho de 1843, Marx casou-se com Jenny von Westphalen. Em Paris, ele passou a trabalhar com Ruge, atuando como co-editor. O Deutsche-Französische Jahrbiicher seguiu uma tendência similar ao Rheinische Zeitung, consistindo num jornal de crítica bem ácida para a época. (MEHRING, 1962, p. 56). 

A estada de Karl Marx em Paris foi bastante significativa em sua vida. Nesse quase dois anos que ali residiu na capital francesa, Marx publicou suas críticas a filosofia de Hegel, sua primeira filha, Jenne Caroline Marx (1844-1883) nasceu; ele aproximou-se das ideias políticas e sociais do Socialismo e do Comunismo, além de ter conhecido Engels, seu grande amigo e colaborador em vários trabalhos, dentre os quais, O Manifesto do Partido Comunista (1848). Mas antes de prosseguir, vejamos alguns pontos a serem destacados na permanência da família Marx em Paris.

Enquanto co-editor da revista Deutsche-Französische Jahrbiicher, Marx deu segmento as suas críticas e análises políticas e sociais. Na época, ele ainda não havia aderido ao pensamento socialista ou comunista. Marx ainda se considerava um liberal moderado. Provavelmente tinha um posicionamento de centro ou centro-esquerda, diferente de seu amigo Arnold Ruge que era um liberal conservador de direita. Até esse ponto, ambos não discordavam entre si. Marx aproveitou a revista para publicar dois de seus primeiros estudos, Crítica a filosofia do Direito de Hegel (1843-1844) e A questão judaica (1843).

No primeiro estudo, Marx já se apresentava distinto do hegelianismo, pois se no passado foi um dos seguidores do mesmo, ele agora rompia com as ideias de Hegel. No caso seu estudo era uma crítica ao livro Princípios da Filosofia do Direito (1820) de Georg Hegel. No caso, do seu segundo estudo, Marx analisou algumas ponderações feitas pelo seu amigo Bruno Bauer sobre as tentativas dos judeus de criarem um Estado próprio na Prússia, além de sua defesa de um Estado secular. Marx discordou em vários pontos do amigo, além dessa questão religiosa quanto ao papel da religião sobre o Estado, Marx também debateu ideias de emancipação política, direitos civis e liberalismo. 

Ainda em 1844 ele continuou a escrever outras matérias, além de colaborar com críticas ao governo prussiano e germânico. Algumas cópias do períodico foram distribuídas nas grandes cidades prussianas, e isso não agradou as autoridades. Por outro lado, em sua estada em Paris, Marx começou a se aproximar de novas ideias. Ele conheceu a Liga dos Justos, fundada em 1836, baseada em ideias socialistas. A Liga dos Justos anos depois tornaria-se a Liga dos Comunistas. Além desse contato com os socialistas, Marx também entrou em contato com os anarquistas, como Mikhail Bakunin (1814-1876) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), embora ele não tenha sido concordante com a forma de pensar dos anarquistas e até chegou a discutir com Proudhon em certa ocasião. Além desse contato com os socialistas e anarquistas, Marx passou a ler autores economistas liberais como Adam Smith (1723-1790), autor de A Riqueza das Nações (1776); François Quesnay (1684-1774) e David Ricardo (1772-1823), um dos principais economistas liberais que o influenciaram. (BERLIN, 1959, p. 86). 

Embora tenha lido as obras de renomados economistas liberais clássicos, Marx já apresentava suas discordâncias, as quais foram se assentuando-se a medida que ele estudava cada vez mais o capitalismo e o socialismo. Quanto as ideias socialistas e comunistas, esse é um tema que merece um pouco de atenção. Eu já li e ouvi pessoas dizerem que Karl Marx inventou o socialismo e o comunismo. Isso são afirmações errôneas. Ele não inventou essas doutrinas político-econômicas. Pelo contrário, Marx foi um entre tantos outros filósofos, economistas, cientistas políticos, intelectuais, etc. que escreveram a respeito do socialismo e do comunismo. Por serem termos complexos, o que demandaria textos bem mais extensos, apesar de haver livros que abordem especificamente os vários sentidos e posicionamentos que esse movimentos foram tomando ao longo da história, optei em apresentar uma breve definição de ambos. 

O socialismo consiste numa doutrina de organização político-econômica que visa planejar a administração pública a respeito da propriedade privada, produção industrial, oferta de serviços públicos, cobrança de impostos, divisão e organização do trabalho, coletivismo, além de procurar proporcionar uma sociedade mais igualitária, entre outros fatores. É evidente que essa descrição sucinta, a grosso modo, não corresponde a totalidade de ideias socialistas, as quais mudaram nos últimos duzentos anos, mas de qualquer forma, o Socialismo surgiu no século XVIII, com os filósofos e economistas Robert Owen (1771-1858) e Henri de Saint-Simon (1760-1825). No começo do século XIX, outros filósofos e economistas como Pierre Leroux (1797-1871) e Marie Roch Louis Reybaud (1799-1879) escreveram a respeito. Com exceção de Owen que era galês, os demais eram todos franceses, inclusive o uso do termo socialismo é creditado a Saint-Simon. Os filósofos acima ficaram conhecidos como "socialistas utópicos", uma forma de diferenciar dos "socialistas científicos", surgidos a partir da década de 1830, o que inclui Marx e Engels. 

No caso, o Socialismo quando surge ainda em fins do XVIII, era proposto como uma alternativa ao modelo capitalista liberal industrial vigente na época. Owen e Saint-Simon propunham uma reestruturação do Estado, o qual interviria para reorganizar a produção e a divisão do trabalho, mas posteriormente se tornaria minímo, pois a administração seria feita a partir de um âmbito local, comunal e regional, uma tendência vista entre os federalistas da época. Na década de 1800, as ideias socialistas ganharam simpatia entre ativistas e militantes, passando a endossar o movimento operário da época. Assim, o socialismo deixava de ser apenas uma doutrina político-econômica para se tornar os preceitos de um movimento operário que protestava contra a exploração do trabalho, reivindicava direitos trabalhistas, melhores condições de emprego, etc. Essa visão vai ser fortemente difundida pelo restante do século XIX. Quando Marx e Engels em 1848 publicaram o manifesto, eles o fizeram tomando essa visão sobre socialismo. (PIANCIOLA, 1998, p. 1198-1206). 

No caso caso do Comunismo, essa palavra foi proposta pelo filósofo francês Victor d'Hupay (1746-1818), para se referir a sua ideia de comunas. Somente na década de 1820 é que vemos o termo comunista sendo usado para se referir a membros surgidos a partir do socialismo. Apesar que Robert Owen tenha dito que socialistas e comunistas não fossem sinônimos, mas havia quem os usava naquele tempo como sinônimos. Todavia, na década de 1840, os termos ganharam separação. O Comunismo passou a representar ideias diferentes do Socialismo, como o fim das classes sociais, o fim da propriedade privada e a coletivização das terras, a descentralização do governo, e até sua dissolução em alguns casos; o desenvolvimento de uma produção fabril planejada e racional, não mais pautada no lucro ou no consumismo desnecessário, além de pensar também numa sociedade mais igualitária, sem haver aquelas divisões abruptas entre ricos e pobres. Serão essas ideias que Marx e Engels passariam a defender. (BEDESCHI, 1998, p. 207-208)

As ideias socialistas e comunsitas comentadas acima a grosso modo, começaram a encantar Marx, pois ele via nestas doutrinas, algumas respostas para problemas enfrentados entre as monarquias parlamentaristas de seu tempo, o liberalismo conservador e o capitalismo industrial. Todavia, tais ideias acabaram fazendo Marx entrar em conflito com Arnold Ruge, que era averso a ideia de movimento operário, sindicalismo, crítica ao capitalismo, etc. Assim, em meados de 1844, a amizade entre ambos terminou. Marx se retirou da revista Deutsche-Französische Jahrbiicher


Friedrich Engels
Ainda em 1844, após se corresponder com o filósofo prussiano Friedrich Engels (1820-1895), esses finalmente se encontraram em Paris. O contato foi o início de uma longeva amizade e colaboração. Engels embora fosse oriundo de uma família rica que possuías fábricas têxteis, sua experiência em gerenciar uma dessas fábricas na Inglaterra, o fez repensar sua visão sobre o capitalismo, a industrialização, a exploração do trabalho, o liberalismo, etc. Engels deixou a gerência da fábrica e em 1844 viajou para Paris, permaneceu alguns dias lá, em conversas com Marx e outras pessoas, antes de retornar para a Prússia. A partir da sua vivência como gerente de uma fábrica têxtil, Engels decidiu apoiar a causa operária, passou a se interessar pelo socialismo e o comunismo, ideias que compartilhou com Marx. Os contatos com Engels e outros pensadores socialistas da época levaram a Marx escrever Manuscritos Econômicos-Filosóficos, uma série de anotações sobre reflexões que ele teve a respeito da forma como o trabalho era organizado na época. Marx na ocasião começou a pensar as ideias de exploração e alienação do trabalho, abuso econômico, abuso de poder, etc. Os cadernos que continham tais anotações nuncam foram publicados em vida, somente após a sua morte eles foram publicados. No entanto, são interessantes, pois mostram as primeiras tentativas de Marx de pensar o capital e o trabalho, algo que somente desenvolveria de forma mais coesa e detalhada anos depois quando escreveria O Capital

Após ter saído da editoração da revista Deutsche-Französische Jahrbiicher, a revista meses depois faliu. Para sorte ou não de Marx, ele saiu antes de isso acontecer. Todavia, no segundo semestre de 1844, Marx foi contatado para se tornar jornalista colaborador do jornal quinzenal Vorwärts! (Adiante!), uma publicação radical e de caráter revolucionário que debatia pautas sobre política, cultura, sociedade, economia, literatura, teatro, música, ciência, costumes, etc. O jornal foi concebido por artistas alemãs, e era instalado na França, mas publicava matérias em alemão, já que na Prússia e Alemanha teria sido censurado. Devido ao seu teor radical, o jornal contou com matérias de socialistas, anarquistas, sindicalistas, revolucionários, liberais exaltados, etc. Marx foi um de seus colaboradores. 


Página de 10 de junho de 1844, do Vorwärts! 
Ainda no ano de 1844, em julho estourou na região da Silésia, território dividido entre Alemanha, Polônia e República Checa, que na época fazia parte da Prússia. Na ocasião, uma grande revolta de operários da indústria têxtil, eclodiu. A chamada Revolta dos Tecelões ou Greve da Silésia, tornou-se matéria em vários períodicos europeus na época. No caso do Vorwärts! isso não foi diferente. Na ocasião, Karl Marx foi quem escreveu acerca. A matéria foi publicada em 10 de agosto de 1844, onde Marx apoiou as medidas drásticas tomadas por cerca de 5 mil operários nos meses anteriores. No caso, a revolta ocorrida na Silésia, contou com conflitos entre a polícia e o exército, além de vandalismo, invasão das residências dos gerentes e donos das fábricas, invasão das fábricas, dano ao patrimônio público e privado, etc. Apesar desse efeito colateral, Marx viu de forma positiva a iniciativa, a qual ele considerou como manifestação do ódio do proletariado frente a opressão dos donos das fábricas. Além de comentar sobre a revolta, Marx também aproveitou para discursar sobre algumas de suas ideias a respeito da alienação do trabalho, exploração do trabalho, capitalismo, industrialismo, greve, socialismo, etc. Seu artigo intitulado O rei da Prússia e a reforma social. Por um prussiano, não agradou as autoridades prussianas.  

Nos meses seguintes o Vorwärts! continuou a publicar matérias sobre o caso da Silésia e outros assuntos, Marx também continuou a escrever no jornal. Em outubro de 1844, o embaixador prussiano em visita a Paris, apresentou as queixas do rei Frederico Guilherme IV ao jornal Vorwärts!, pois Sua majestade dizia que o jornal tratava-se de um folhetim barato para tumultuadores que insultavam e zombavam de seu governo e país. Assim, o então Ministro do Interior francês, François Guizot (1787-1874), para evitar uma crise política entre França e Prússia, decidiu decretar a ilegalidade do Vorwärts! e seus colaboradores deveriam deixar o país, sob risco de irem para a prisão. Marx, Ruge, Bakunin, Engels, Börnstein, Barneys, entre outros colaboradores do jornal, receberam aviso de exílio. Na ocasião, Engels propôs que Marx, sua esposa e filha mudassem-se para Bruxelas na Bélgica. (THOMAS, 2012, p. 75). 

Vida em Bruxelas (1845-1848)

O jornal Vorwärts! chegou ao fim, após sua breve existência polêmica, em 25 de janeiro de 1825, quando definitivamente foi fechado por ordem do ministro Guizot. Marx e sua família no mês de fevereiro deixaram Paris, e mudaram-se para uma casa na rua Aliança, em Bruxelas, Bélgica. A família Marx passaria os próximos anos na capital belga, embora Marx tenha se mudado brevemente com eles para Londres, em 1846, e depois viajou de volta a Paris e Colônia, nos anos seguintes. Porém, o que se destaca da vida dele em sua permanência na Bélgica, deve-se a sua cooperação com Engels, e a escrita de vários trabalhos, além do fato, de que foi em Bruxelas que Marx amadureceu suas ideias sobre Socialismo, Comunismo e revolução. 

Antes de deixar Paris, Marx já havia iniciado um projeto parceira com Engels, tratava-se de Die heilige Familie (A Sagrada Família). Apesar do título remeter a uma ideia religiosa, a obra o adotou num tom sarcástico e sem relação com a religião. Em 1843, Bruno Bauer e seus irmãos Edgard e Egbert, os quais todos eram Jovens Hegelianos, escreveram algumas críticas sobre temas religiosos, políticos e filosóficos, envolvendo cristianismo, judaísmo, Revolução Francesa (1789-1799), industrialização na Inglaterra, Liberalismo, Socialismo, etc. Embora Bruno Bauer tenha sido professor e amigo de Marx no passado, os dois haviam se desentendido antes mesmo de Marx deixar a Prússia. Por sua vez, Marx abandonou a filosofia hegeliana e tornou-se crítico da mesma. Por fim, Marx e Engels rebateram as críticas dos irmãos Bauer, sobre os assuntos acima, inclusive os irmãos teriam desmerecido a importância da Revolução Francesa e da Revolução Industrial, questões que não agradaram Marx e Engels. Por sua vez, os irmãos Bauer não gostaram do tom sarcástico do livro A Sagrada Família (1845) e isso iniciou uma série de trocas de farpas entre os autores pelos anos seguintes. Os quais rebatiam suas críticas, postando-as em jornais. (MEHRING, 1962, p. 99-101).


Ludwig Feuerbach
Ainda criticando os Jovens Hegelianos, Marx redigiu em 1845, as Teses sobre Feuerbach, obra que somente foi publicada postumamente. No caso, o livro tratou-se de 11 notas críticas a filosofia e trabalho de Ludwig Feuerbach (1804-1872), importante filósofo hegeliano na época. Feuerbach antes de estudar filosofia, havia ingressado no curso de teologia, mas acabou abandonando o mesmo e foi estudar filosofia em Berlim, especializando-se na obra de Hegel. Por sua vez, ele deixou de ser cristão e tornou-se ateu, apesar que escreveu obras sobre o Cristianismo. Marx criticava as ideias de Feuerbach quanto ao idealismo filosófico dos hegelianos, e outros assuntos referentes as ideias, a sociedade e a política. Todavia, as críticas de Marx a Feuerbach foram produtivas para ambos os filosófos, pois eles se influenciaram um pelo trabalho do outro. 

Enquanto Marx prosseguia com suas críticas a filosofia hegeliana, Engels na ocasião publicou um de seus importantes trabalhos, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (1845). Escrito durante sua estada na Inglaterra, especialmente em Londres e Manchester, entre os anos de 1842 e 1844, a obra redigida em alemão, foi publicada em 1845, apresentando um retrato sobre as péssimas condições de trabalho e vida dos operários ingleses, nas duas cidades que Engels esteve. O livro foi o resultado de pesquisa de campo e observação do autor quanto a dura realidade da exploração do trabalho e a falta de leis trabalhistas para ajudar aquelas pessoas. Engels também fez denúncias contra o trabalho infantil, falta de segurança no trabalho, insalubridade, alojamentos e bairros operários decadentes e mal-estruturados, etc. O livro influenciou Marx quanto a sua visão acerca da exploração do trabalho. (MCLELLAN, 1995, p. 125-126).

Em julho de 1845, Marx e a família viajaram para Londres, onde permaneceram alguns meses lá. Na ocasião Jenny estava grávida, e deu a luz a Laura Marx (1845-1911) em setembro daquele ano. Posteriormente, após alguns meses de permanência em Londres, onde Marx com o apoio de Engels, entrou em contato com militantes, jornalistas, editores, escritores, intelectuais, etc. a família Marx retornou para Bruxelas. Ainda em 1845, os dois amigos estavam trabalhando em outros projetos, um deles tratava-se da obra intitulada A ideologia alemã, apresentada em 1846. Embora o livro somente foi publicado em capítulos nos anos seguintes. Apenas em 1933 ele recebeu uma publicação integral com todos os capítulos.

Resultado de vários meses de trabalho, o livro intitulado A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas. O longo subtítulo da obra já deixa destacado as intenções dos autores as quais foram criticar três renomados filósofos hegelianos da época, Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer e Max Stirner, além de criticar como as ideias socialistas eram desenvolvidas e pensadas na Prússia e Alemanha. No caso, Marx e Engels criticavam o que eles consideravam uma excessiva filosofia idealista dos hegelianos, sua sonsatez em alegarem ser "revolucionários", pois Marx e Engels os acusaram de serem conservadores sonsos. Eles combateram o idealismo de Feuerbach com o materialismo histórico; responderam as ideias seculares de Bauer, e ao anarquismo individualista de Stirner, além do que chamaram de "desvirtuamento do socialismo alemão". (MEHRING, 1962, p. 110). 

É evidente que as críticas apresentadas ao livro, excedem aos meus comentários singelos, somente lendo a respeito pode-se ter um real conhecimento do que Marx e Engels escreveram. Todavia, destaca-se nesse caso, como apontado por Rolf Hosfeld (2009, p. 29), o livro A ideologia alemã não foi apenas uma crítica aos autores supracitados, mas também uma demonstração argumentativa de Marx e Engels sobre suas visões acerca do desenvolvimento histórico, o pensamento materialista, o papel da filosofia não apenas como forma de pensar, mas também de agir, pois os dois autores criticavam o "inatismo" dos hegelianos frentes as necessidades sociais, econômicas e políticas. Marx e Engels neste caso, apresentavam-se como filósofos mais preocupados com a urgência de se ensinar a sociedade a pensar e ser crítica, para tomar decisões políticas que repercutissem em melhorias diretas e úteis, e não a ficar em devaneios sobre regimes políticos, leis, direito, a religião, etc. como os hegelianos as vezes faziam. 

A ideologia alemã não foi publicada em 1846, pois estava ainda incompleta e sofreu revisões e modificações, sendo publicada parcialmente nos anos seguintes, o que contribuiu por manter o contato entre Marx e Engels, com Feuerbach, Bauer e Stirner. Marx passou os dois anos seguintes trabalhando em projetos pessoais e em outros conjuntamente com Engels. No caso, ele passou a colaborar com jornais, revistas e editoras, além de entrar em contato com socialistas que viviam na Bélgica, Inglaterra, Alemanha, Prússia e França. Ainda em 1846, seu primeiro filho, Edgar Marx (1847-1855) nasceu em dezembro daquele ano. Devido a dificuldade financeiras, Marx teve que mudar de casa, pediu dinheiro emprestado para mãe e Jenny procurou um emprego temporário. (MCLELLAN, 1995, p. 138-139). Em outro momento comentarei essa questão financeira sobre ele e sua família, motivo de desinformação grande. 

Na passagem de 1846-1847, Marx prosseguiu com seus escritos políticos e sociais, e publicou A Miséria da Filosofia, sua famosa e polêmica, crítica ao trabalho do anarquista Proudhon, intitulado A Filosofia da Miséria (1846). Em novembro de 1846, Marx recebeu de seu livreiro um exemplar da mais recente obra de Proudhon, enviado como presente pelo senhor Pável V. Annenkov. No dia 28 de dezembro ele redigiu uma carta agradecendo o presente e tecendo comentários breves sobre a obra de Proudhon, que chamava de um trabalho mau escrito, mau acabado, ingênuo, ridículo etc. como pode ser lido nesse trecho de sua carta.


“Confesso-lhe francamente que acho o livro em geral mau e muito mau. Na sua carta, V. mesmo brinca "com o naco de filosofia alemã" que o sr. Proudhon alardeia nessa obra informe e presunçosa, mas supõe V. que o desenvolvimento económico não foi infectado pelo veneno filosófico. Também eu estou muito longe de imputar os erros da explanação económica à filosofia do sr. Proudhon. Não é por estar na posse de uma filosofia ridícula que o sr. Proudhon apresenta uma falsa crítica da economia política, ele apresenta uma filosofia ridícula por não ter compreendido o estado social actual no seu encadeamento [engrènement], para usar uma palavra que o sr. Proudhon foi buscar a Fourier, como muitas outras coisas”. (MARX, 2017, p. 232). 

Após a carta redigida ao senhor Annenkov, Marx dedicou-se a redigir um pequeno livro criticando mais expressivamente o trabalhou de Proudhon, no que resultou em A Miséria da Filosofia (1847), que chegou a ser publicada na época, sofrendo boicote na Prússia e Alemanha por causa da má fama que Marx tinha por lá, além de que os anarquistas tentaram boicotá-la também. Pois além de criticar Proudhon, dizendo que ele não sabia de história, sabia pouco de filosofia e economia, Marx também criticou algumas de suas ideias anarquistas, lembrando que os dois já se conheciam desde de Paris. 

Todavia, o período de 1846-1847 também foi marcado pelos contatos de Marx com o Comitê Comunista, que resultou em 1847 a sua adesão a Liga dos Comunistas. Dentre os fatores que levou Marx e também Engels a se aliarem a liga internacional dos comunistas estava a crítica por eles apresentadas no livro A ideologia alemã ao socialismo alemão, que eles consideravam desvirtuado em alguns pontos. Com base na leitura de artigos e matérias redigidos por socialistas alemãs como Mose Hess, Karl Grün, Otto Lünning, Hermann Püttman, entre outros, os quais se chamavam de "verdadeiros socialistas", Marx e Engels até chegaram a colaborar com alguns desses, como Hess e Grün, mas passaram a discordar da visão deles acerca da luta de classes, dos privilégios burgueses, exploração do trabalho, justiça social, etc. Para Marx e Engels, esse socialistas ainda estavam presos ao pensamento do socialismo-utópico, algo que eles já haviam abandonado, por isso esse desentendimento como os chamados "verdadeiros socialistas", termo que consideravam egocêntrico. (BERLIN, 1959, 132-133). 

Paris-Colônia (1848-1849)

Pensando nesse caminho que o "verdadeiros socialistas" estavam tomando e queriam inculcar entre outros ciclos socialistas e até comunistas, Marx e Engels já vinculados a Liga dos Comunistas, começaram a redigir um manifesto. Em 1848, ano que eclodiu vários protestos e tentativas revolucionárias pela Europa, as quais ficaram conhecidas como a Primavera dos Povos (1848), uma série de revoltas e pequenas revoluções que eclodiram pela Prússia, Alemanha, França, Itália, Áustria, Hungria, etc. que consistiam na mobilização das classes baixas que reivindicavam representatividade política, leis trabalhistas, leis civis, além de lutarem pela abolição da servidão, da cobrança de tributos feudais, o fim das monarquias autocráticas, a proclamação de democracias e repúblicas, etc. 


Cena da revolução de 1848, em Berlim. 
De caráter nacionalista, liberal e socialista, as revoluções obtiveram alguns sucessos, e no afã dessa agitação, em Londres, foi publicado O Manifesto do Partido Comunista (1848). Marx viajou com Engels para Paris e depois Colônia, a fim de divulgar o manifesto. Embora seja uma das obras mais comentadas dos dois autores, o manifesto em si é um trabalho simples. Basicamente consistiu nas pautas e críticas que a Liga dos Comunistas, surgida em 1847, contando com a colaboração direta de Marx e Engels, que mobilizaram contatos em alguns países europeus para isso. Sendo assim, o manifesto apresentava suas críticas aos socialistas-utópicos, aos "verdadeiros socialistas", aos chamados "socialistas burgueses", assim como, propunha a mostrar a diferença do comunismo perante o socialismo, além de informar a respeito da luta de classes, exploração do trabalho, problemas do sistema capitalista, necessidade de união do proletariado, etc. 

Embora seja um documento curto, a obra recebeu várias traduções e prefácios durante a vida dos autores. Ganhou uma boa repercussão, porém, o sonho de Marx e Engels de conseguir mobilizar o proletariado europeu em dar segmento a revolução comunista, nunca se realizou. Apenas em 1917, na Rússia, com Vladimir Lenin houve uma tentativa do tipo, mas que acabou não vingando. Lenin se baseou mais nas suas reinterpretações sobre o socialismo-comunismo, no que na teoria proposta por Marx e Engels. 

Mesmo não obtendo o resultado desejado, Marx ainda estava empolgado. Ele passou algumas semanas em Paris, divulgado o manifesto e falando a respeito da Liga dos Comunistas, fundada em Londres. Então seguiu para Colônia, lá ele comandou um breve jornal de caráter revolucionário comunista, o Neue Rheinische Zeitung (Nova Gazeta Renana), que operou de junho de 1848 a maio de 1849, período que Marx e sua família viveram em Colônia. O jornal fazia referência ao antigo periódico que Marx trabalhou no ano de 1842, naquela mesma cidade. Agora o novo jornal tinha como função difundir informes sobre as revoluções, movimentos, revoltas, e comunicados sobre a Liga dos Comunistas. Todavia, o jornal voltou a irritar as autoridades e em março de 1849 ele foi fechado. A última edição foi publicada no dia 19 de março, ficando conhecida como o "número vermelho". Marx despedia-se com um tom agressivo e de revolta, por novamente ter sido censurado e ameaçado pelo governo. (MCLELLAN, 1995, p. 200-2001). 


Primeira página do Neue Rheinische Zeitung, de 19 de março de 1849. O "número vermelho".
Ele e os demais envolvidos com o jornal, foram ameaçados de serem presos, caso não deixassem o país. A revolução de 1848 na Prússia, havia falhado. Marx se retirou com sua família para Paris, chegando em julho. Eles ficaram na casa de amigos. Em agosto compraram passagem para Londres. Por sua vez, Engels mudou-se para Genebra, na Suíça. (BERLIN, 1959, p. 165). 

Exílio em Londres (1850-1851)

Não era a primeira vez que Marx e sua família iam para a Inglaterra, mas dessa vez seria derradeira. Os Marx viveriam por vários anos na capital inglesa. Londres na segunda metade do século XIX era a maior metrópole da Europa e do Ocidente, com uma população de mais de 1,5 milhão de habitantes. Uma cidade grande, abarrotada de pessoas, animais, carruagens, fábricas, fumaça, lama, riqueza e miséria. Engels já havia apontado como vários bairros londrinos eram bem pobres; formados por cortiços, ruas não calçadas, falta de saneamento básico, problemas na coleta de lixo, casas pequenas e superlotadas, além de que alguns desses bairros ficavam próximos a fábricas, sendo que algumas delas exalavam de suas chaminés fumaça e fuligem. Escritores famosos como Percy Shelley, Charles Dickens e Arthur Morrison escreveram a respeito da dura vida que muitos londrinos levavam. (VILAR, 2011). 

O fato de Marx ter-se mudado para Londres não se devia nem a tanto a ser a mais rica capital europeia (e uma das mais miseráveis também), mas pela condição que a sede da Liga dos Comunistas estar sediado ali. Assim, Marx como um membro bastante ativo, decidiu ficar mais próximo da liga. Por um lado isso foi uma escolha acertada, pois a LC bancou as publicações de Marx, e ele manteve-se em contato com vários amigos e outros membros e militantes, o que ajudaria na divulgação de seu trabalho e na mobilização do proletariado para uma futura revolução (que como dito, nunca ocorreu).

Ao chegarem em agosto de 1849, os Marx se mudaram para um apartamento de dois cômodos na Dean Street, n. 64, próximo a King' Road, em Chelsea. Ali viveram por seis meses. Devido a terem que abandonar Colônia, passar por Paris e depois seguir para Londres, a família estava financeiramente debilitada por hora. Jenny conta em algumas cartas como aqueles meses foram difíceis, pois tinham pouco dinheiro, vivendo das economias que haviam feito. Em Novembro nasceu o quarto filho do casal, Henry Edward Guy (1849-1850), apelidado de Guido. A situação  financeira da família, melhoraria quando Marx começou a trabalhar num novo jornal, o Neue Rheinische Revue (Nova Revista Renana), que na prática era uma continuação do antigo jornal comunista que Marx e seus amigos editavam em Colônia. A ideia era que em Londres, o jornal pudesse ter mais repercussão, pois o público alvo era a classe operária. Embora seja principalmente lembrado como filósofo, profissão que lhe rendeu fama, mas foi o jornalismo que consistiu na profissão que lhe garantiu o sustento ao longo da vida. (MCLELLAN, 1995, p. 208). 


Os vários anos que viveu na Inglaterra, Marx aproveitou para observar como o sistema capitalista funcionava, já que a Inglaterra era o país mais industrial e capitalista do mundo, naquele momento. Isso ajudou muito na escrita de seus trabalhos econômicos, como O Capital, do qual falarei adiante. (BERLIN, 1959, p. 169). Porém, neste começo, Marx esteve mais ocupado com os assuntos do jornal, da liga e do apoio dado aos refugiados alemães, na German Workers Education Association. Em 1850, Engels mudou-se para a Inglaterra, visitou Marx e amigos, debatendo novos projetos, e seguiu para Manchester, onde foi trabalhar com o pai. Além disso, o pequeno Guido faleceu em setembro daquele ano. As causas da morte não são conclusivas, mas biógrafos como Mcllelan (1995, p. 209), aponta meningite como possível causa da morte de Guido.

No caso, é preciso sublinhar que em Londres e nos arredores havia uma alta taxa de mortalidade infantil devido as pobres condições de saúde pública. Doenças como sarampo, cólera, tifo, rubéola, meningite, etc. afligiam a população. Sem contar que no passado, Londres foi assolada por surtos de peste negra, em pleno século XVII. Após a morte de Guido, em dezembro de 1850, a família se mudou para outra casa na mesma Dean Street, agora o número 28. 

Também data de 1850 o ingresso de Wilhelm Stieber (1818-1882), espião prussiano, enviado pelo governo para destabilizar a Liga dos Comunistas. Não se sabe ao certo como Stieber conseguiu obter sucesso em sua missão, mas segundo seu relatório, ele invadiu a casa de Marx na rua Dean, e ali roubou documentos que continham o nome de todos os membros da Liga, inclusive membros secretos, cuja informação não era pública. Com os nomes em mão, os membros que viviam em território prussiano foram perseguidos e presos. A Liga entrou em crise e em 1852 ela definitivamente foi cancelada. Uma nova organização somente surgiria vários anos depois. 

Tempos difíceis (1852-1856)

O período de quatro anos entre 1852 e 1856 foi tenso para a famíla Marx. Sua filha Jenny Eveline Francisca faleceu em abril de 1852, com um ano de idade. As causas da morte não são exatas. Em janeiro de 1855, nasceu Jenny Julia Eleanor Marx (1855-1898), mas em abril daquele mesmo ano faleceu Edgar Marx, que contava com 8 anos na época. Vítima de doenças comuns que acometiam os londrinos. Por fim, em 1856, a sogra de Marx faleceu também. Nota-se que nesse espaço de quatro anos, Marx perdeu dois filhos e a sogra. (THOMAS, 2012, p. 108-109). 

Um segundo ponto a destacar é que desde 1850 os Marx vinham passando por dificuldades financeiras e essas continuaram até 1854. Em cartas escritas por Marx e Jenny a amigos e familiares, nota-se o tom de sufoco do casal para conseguir pagar as contas, comprar comida, remédios e lenha. Alguns dos inimigos e desafetos de Marx chegaram a escrever que a família viveria numa casa imunda e não teriam dinheiro para pagar o aluguel e nem para comprar remédios, por isso, seus filhos pequenos faleceram. Se isso fosse verdade, Marx e a família teriam sido despejados do apartamento por causa de aluguel atrasado, mas moraram nele por seis anos; segundo, dizer que Francisca e Edgar morreram por falta de higiene na casa, não explica como os outros filhos não foram acometidos, e nem como a recém-nascida Eleanor não foi alvo disso. Ora, ela era a mais prematura e indefesa das crianças, com poucos anticorpos, por que não faleceu também? Já que convivia com os irmãos num apartamento de dois cômodos. Terceiro, dizer que Marx e a esposa foram relapsos com o cuidado dos filhos, vai de encontro as cartas que os dois escreveram falando sobre seus problemas, que repercutiu na ajuda de parentes e amigos, e o fato de Marx ter penhorado algumas coisas suas e da esposa, para comprar remédio e comida. (MCLELLAN, 1995, p. 239-242). 


Fotografia do prédio n. 28 da rua Dean, Soho, Londres. No terceiro andar viveram os Marx entre 1850 e 1856. Foi um dos momentos mais difíceis da vida da família, sendo anos de penúria. 
Não obstante, Mehring (1962) comenta que embora a produção de Marx tenha sido grande no jornal Neue Rheinische Revue, onde em 1855, ele já tinha escrito mais de 100 artigos, seu salário era pequeno, daí os problemas financeiros enfrentados nos últimos anos. A situação começou a mudar depois que sua renda foi incrementada como contratos feitos para os jornais Neue Oder-Zeitung e o New York Daily Tribune, algo que teve início em 1854. De posse desse dinheiro, Marx decidiu mudar de casa. Ele aguardou o retorno da esposa e das filhas, as quais haviam viajado para Trier, pois como dito, a sogra de Marx faleceu em 1856. Após o enterro da mesma, meses depois, Jenny e as filhas retornaram a Londres. Ela usou sua parte da herança recém-adquirida e junto com o marido se mudaram para uma casa no subúrbio, a qual era de alguel mais barato e mais espaçosa e confortável. 

Luís Bonaparte
Nesse período conturbado da vida de Marx, destacou-se um livro. Em março de 1852, Marx publicou o livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, que consistiu em sua análise criticando o golpe de Estado dado por Luís Bonaparte (1808-1873), o sobrinho de Napoleão I (1769-1821). No caso, Luís era o então presidente da França, tendo governado de 1848 a 1852, quando no ano de 1852 realizou um golpe de Estado e proclamou-se imperador, adotando o nome de Napoleão III, governando até 1870. Luís Bonaparte havia abolido a república francesa a qual Marx admirava, para restaurar a monarquia quase absolutista aos moldes da de Napoleão I. A obra de Marx analisava como o então presidente orquestrou seu golpe de Estado, mas além disso, o livro também apresenta algumas ideias mais amadurecidas de Marx, sobre a luta de classes, o Estado burguês, revolução, proletariado, política, etc. O livro foi originalmente publicado como uma edição especial do jornal A Revolução (Die Revolution) de Joseph Wedmeyer (1818-1866), jornalista, editor e militar, o qual era amigo de Marx e Engels desde Bruxelas. (MEHRING, 1962, p. 214-215). 

Economia, política e Lassalle (1857-1864)

Em sua nova residência, Marx e a família poderam levar uma vida mais confortável e tranquila. Suas filhas que sobreviveram, viveriam até a fase adulta. Sobre elas comentarei depois. De qualquer forma, Marx nesse período voltou a se dedicar aos estudos econômicos e políticos. Destacaram-se nessa fase dois livros seus: Os Elementos fundamentais para a crítica da economia política (Grundisse der Kritik der polistischen Ökonomie), conhecido também como Grundisse. A obra consiste em uma série de anotações que Marx redigiu entre os anos de 1857 a 1859. Ele nunca chegou a concluir esse livro, por considerá-lo que estava incompleto, já que passou por problemas de saúde na época. A obra somente foi publicada no século XX. 

No caso, embora de fato estivesse incompleto como alegado pelo autor, o Grundisse apresenta várias ideias que seriam mais tardes abordadas no Capital. Alguns estudiosos da obra de Marx, consideram esse livro uma preparação teórica de Marx para escrever O Capital. No Gundrisse, Marx aborda como temas principais a noção de mercadoria, o dinheiro, a circulação de bens, meios de pagamento, relação de compra e venda, custo e benefício, produção consumo e troca, distribuição e circulação do dinheiro e mercadorias, relações do Estado e da família com a economia, etc. (MARX, 2007). A obra consistia num manual sobre teoria econômica, além de esboçar seu método para estudar economia política, lembrando que Marx dez anos antes, havia criticado Proudhon por não saber fazer um estudo sobre economia e política. 


Karl Vogt
O segundo livro importante desse período foi o Herr Vogt (Senhor Vogt), obra publicada em 1860, consistia em outra crítica política de Marx. Dessa vez o alvo das suas críticas foi o filósofo Karl Vogt (1817-1895), o qual possuía estudos no campo das ciências da natureza, física e política. Além de ter assumido cargos políticos no Parlamento de Frankfurt e depois na Suíça. Vogt era um político de esquerda, mas aos olhos de Marx era um embusteiro. Anos mais tarde ele acusou-o de ser espião do imperador Napoleão III. De qualquer forma, o tema do livro Herr Vogt consistiu numa réplica a algumas falas e acusações de Vogt. Tudo começou em 1859, quando Karl Vogt após publicar um artigo intitulado Ensaios sobre a atual situação europeia, trabalho que recebeu duras críticas de publicações anônimas em jornais como o Das Volk e o Allgeimenung Zeitung. Na época, ainda em 1859, Vogt não gostou das críticas e da acusação de ser corrupto, então acusou Karl Marx de ser o autor dessas calúnias. Marx ficou espantando por tal acusação, já que não havia escrito nada contra Vogt, a quem nem conhecia direito. Mas em resposta a acusação e denúncia de calúnia e difamação, ele redigiu ao longo de 1859, o Herr Vogt, um dossiê no qual ele se defendia das acusações de Vogt, e tentava mostrar que o mesmo era corrupto, mentiroso e trapaceiro, estando envolvido com esquemas. 

O Herr Vogt não é uma das obras mais conhecidas ou significativas de Marx, mas é importante ser citado por se tratar de mais uma polêmica no qual ele se envolveu, e dessa vez tentou limpar seu nome. De qualquer forma, outro ponto importante do período que segue de 1860 a 1864, época marcada por conflitos na Prússia, Áustria, França, Itália, Estados Unidos, etc. foi a reaproximação de Marx com Ferdinand Lassalle (1825-1864), jurista, filósofo e ativista político de origem judia-germana. Marx havia conhecido Lassalle ainda em 1848, no período que voltou a residir em Colônia, por causa das Revoluções de 1848, contexto no qual Lassalle participou ativamente, inclusive foi acusado de ser tumultuador, agitador, tentar promover desordem pública, etc. Na época Lassalle era um militante bem radical e estava profundamente ligado aos protestos sindicais e até a luta armada como foi acusado. Tais acusações que lhe renderiam cadeia, então o levaram a deixar a Prússia. Marx aconselhado por Engels, cortou contato com Lassalle, apesar que anos depois, eles chegaram a trocar algumas cartas, e passaram a manter correspondência amigável. (MCLELLAN, 1995, p. 159). 


Ferdinand Lassalle
A partir de abril de 1861, Marx realizou uma longa viagem pela Holanda e Prússia, retornando para casa apenas em fevereiro de 1862. Na ocasião ele reencontrou Lassalle e sua passagem pela Prússia, já que o mesmo havia voltado a morar em Berlim, alguns anos antes. Ali Lassalle lhe informou a respeito de suas ideias para criar sindicatos, associações e até um partido de trabalhadores. Marx interessou-se por suas ideias, então sugeriu que Lassalle o visita-se em Londres. Em julho de 1862, Lassalle visitou Londres para se encontrar com Marx. Naquele momento ele era outro homem. Havia deixado para trás o radicalismo de 1848, tendo amadurecido suas ideias sobre política, sociedade e economia. Havia publicado o livro O sistema de direitos adquiridos (1861), uma obra em defesa da democracia. Em sua longa estada em Londres, Lassalle chegou a pedir dinheiro a Marx e Engels para poder levar a cabo seu plano de publicar outro de seus livros, e angariar fundos para a formação de um partido, algo que ocorreu em 1863. Engels na época embora tenha emprestado dinheiro, não simpatizava com Lassalle. Via como um homem de ideias precipitadas e até irresponsável com algumas delas. (MEHRING, 1962, p. 306).

Concluído o acordo financeiro, Lassalle deixou Londres e retornou a Berlim, onde ainda no mesmo ano publicou seu livreto Sobre a conexão particular entre o presente período da história e a ideia da classe trabalhadora (1862). A obra foi censurada pelo governo prussiano, Lassalle se revoltou e afrontou o governo, o qual lhe deu voz de prisão, levando-o a ser julgado. Ele acabou pagando fiança e foi solto. Depois desses acontecimentos, Lassalle praticamente cortou contato com Marx e Engels, voltando a se falarem em 1864.

Ainda em 1864 Marx mudou-se com a família para uma boa casa em Modena Villas, ao sul  do Grafton Terrace, endereço da sua antiga moradia. Na nova casa Marx viveria o restante da sua vida. Foi ali que ele concluiu um de seus mais importantes livros, O Capital (1867). (MCLELLAN, 1995, p. 318). 

A Primeira Internacional (1864)

Em 28 de setembro de 1864, Marx e Engels fundaram em Londres a Associação Internacional dos Trabalhadores (International Working Men's Association), conhecida também como Primeira Internacional ou Internacional dos Trabalhadores, cuja associação funcionou até o ano de 1872. Pelo fato de Londres ser a maior metrópole da Europa e do Ocidente naquela época, a cidade concentrava grande quantidade de trabalhadores e sindicatos. Assim, Marx e Engels viram que Londres era o local mais propício para se fundar essa primeira associação que buscou integrar os sindicatos, associações, grupos, grêmios e movimentos trabalhistas de esquerda de toda a Europa e dos Estados Unidos. 

Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) procurou na época formar um consenso entre os partidos e movimentos de esquerda, numa tentativa de entrar e acordo e assim fortalecê-los. Com isso dialogou-se com as diferentes frentes do Socialismo, Comunismo, Anarquismo, Social-Democracia, etc. A AIT procurou nos seus anos de atividades promover e apoiar greves, passeatas, protestos, assim como, conscientizar a classe trabalhadora sobre seus direitos e deveres, neste caso, Marx aproveitou para difundir seus estudos e teorias; assim como, tentar levar a cabo a aprovação de leis trabalhistas, como jornada diária de oito horas, folga semanal, salário igualitário para mulheres, proibição do trabalho infantil, melhores salários, melhores condições de trabalho, fundo de aposentadoria, etc. (MEHRING, 1962, p. 316-318).


Gravura representando a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores, ocorrida em 28 de setembro de 1864, no Saint Martin Hall, Londres. 
ATI procurava pôr em prática a convocação do Manifesto do Partido Comunista a qual dizia: "operários do mundo, uni-vos". Assim, com a ATI em funcionamento isso passava a ser uma realidade. Os sindicatos ingleses foram os primeiros a aderir a Associação, depois vieram sindicatos e movimentos da França, Bélgica, Holanda, Suíça, Alemanha e Itália. Ainda em 1864 com a definição do Grande Conselho, o órgão administrador da ATI, Karl Marx foi eleito como secretário-geral da mesma, cabendo a ele a redação das normas e pauta de interesses da ATI, intitulado Discurso inaugural e regras provisórias da Associação Internacional dos Trabalhadores, chamada posteriormente de "regras gerais". (MCLELLAN, 1995, p. 355-357). 

Em 1866 aconteceu o Primeiro Congresso Internacional dos Trabalhadores, realizado em Genebra, Suíça. Na época, Marx e Engels não puderam participar. Os 60 delegados presentes representavam sindicatos ingleses, franceses, belgas, alemãs e suíços. Na ocasião houve atrito, pois uma ala defendia o comunismo marxista, e enquanto outra formada por suíços e franceses passou a defender o anarquismo proudhiano. Além dessa cisão interna, o congresso foi abalado pelo contexto da Guerra Austro-Prussiana (1866), travada entre Prússia e Áustria, que resultou na vitória dos prussianos, os quais dominaram os Estados Alemães e parte da Itália. Devido ao conflito, vários delegados ficaram de fora do congresso. Os desentendimentos que permaneceram a partir dessa guerra, seriam retomados anos depois na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). 

De qualquer forma, o congresso de 1866 resultou na aprovação do Programa do Primeiro Congresso Internacional. O referido documento foi o resultado dos debates ocorridos durante o congresso, os quais abordaram como tema: relações de capital e trabalho, trabalho feminino, trabalho infantil, redução das jornadas de trabalho, manutenção de exércitos, trabalho cooperativo, críticas a Rússia czarista e a ocupação da Polônia, etc. Além desses temas associados com trabalho e guerra, o congresso também deliberou a respeito da organização do ATI, adotando o modelo federativo, a criação de núcleos regionais (bureaus), validação do estatuto da ATI, o qual foi escrito de forma provisória por Marx, em 1864. (MEHRING, 1962, p. 353-355).


Cartão de membro da Associação Internacional dos Trabalhadores. 
Após o Congresso de Genebra outros quatro se sucederam. O Congresso de Lausanne (1867), também na Suíça; o Congresso de Bruxelas (1868), na Bélgica; o Congresso de Basileia (1869), novamente na Suíça; e o Congresso de Haia (1872), na Holanda. Por se tratar de um tema que merece ser abordado mais especificamente, o qual é a história dos cinco congressos trabalhistas antes do fim da ATI, algo ocorrido em 1872, motivado pela crise gerada a partir da Guerra Franco-Prussiana e o conflito interno entre marxistas e anarquistas seguidores de Bakunin, algo que comentarei adiante. Assim, optei em encerrar por aqui esse breve comentário, apresentando o papel da ATI, como a primeira organização internacional em prol dos sindicatos, do proletariado e direitos trabalhistas. Inclusive entre os anos de 1866 a 1869 houve várias greves pela Europa, motivadas direta ou indiretamente pela ATI, além do fato de que a Associação apoiou a Comuna de Paris (1871), tentativa revolucionária de implantar um governo socialista em Paris. Mas que acabou falhando. 

O Capital (1867)

Durante sua ligação com a ATI, Marx em 1867 publicou seu maior trabalho sobre economia, no caso, o primeiro volume de O Capital. Obra dividida em quatro volumes e publicada ao longo de anos, não chegou a ser concluída pelo autor. O Capital: crítica da economia política (Das Kapital: Kritik der polisthicen öekonomic) pode ser considerado como o auge da teoria econômica de Marx, desenvolvida ao longo de mais de vinte anos. Se considerarmos que ele começou a se dedicar a estudar economia ainda na década de 1840, enquanto redigia anotações que se tornaram o livro Manuscritos Filosóficos-econômicos (1844), passando pela Miséria da Filosofia (1847), O Manifesto do Partido Comunista (1848) e chegando aos Os Elementos fundamentais para a crítica da economia política (1857-1859), além de vários artigos que escreveu para distintas revistas ao longo desses anos. Assim, O Capital que e segundo Marx, seria a continuação da obra Os Elementos, representava o desenvolvimento de sua teoria econômica e a consolidação dela, já que como comentado, o livro levou anos para ser escrito, sendo a obra que mais tomou tempo de seu autor.

Marx começou a escrever o Capital possivelmente por volta de 1859, período que estava redigindo sua obra anterior. O biógrafo David McLellan (1995, p. 318) comenta que no ano de 1861, Marx estava escrevendo ainda o terceiro capítulo do livro, o qual somente foi publicado seis anos depois. McLellan (1995) sublinha que a demora para Marx publicar o livro deveu-se a problemas de saúde (Marx era fumante e sedentário), além de outras ocupações que ele encontrou, dentre as quais a criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, da qual ele atuou como secretário por alguns anos. Em 1865 o primeiro volume havia sido concluído. Assim, Marx passou o ano de 1866 revisando o material para publicá-lo em 1867. (MEHRING, 1962, p. 357).


Frontispício de O Capital, 1867. 
O livro foi impresso em Hamburgo na Prússia (atualmente na Alemanha), por Otto Meissner, o qual possuía contato com Engels, tendo publicado algumas de suas obras anteriores. O Capital volume 1 passou a ser vendido em abril de 1867. Tendo sido escrito em alemão e sendo o único volume publicado por Marx, já que os volumes 2, 3 e 4 são publicações póstumas. Além do mais, Marx corrigiu e acrescentou anotações e dados. Essas alterações foram incluídas na segunda edição do livro em língua alemã, lançada em 1873, e na primeira edição do livro em francês, publicada em 1875. 

No que se refere ao volume 1 do Capital, o único que Marx concluiu, esse volume é subintitulado como O processo de produção do capital, consiste numa obra de crítica a economia capitalista-liberal. Nesse extenso e denso livro de escrita pesada, e com partes de ironia, algo visto em outras obras de Marx, o autor procurou ao longo de 25 capítulos comentar os seguintes assuntos: a ideia de mercadoria, produção, consumo, troca, distribuição, circulação; compra e venda; dinheiro, salário, relação do dinheiro com o capital, como surge o lucro, a relação do valor gasto para produzir um produto e o salário pago ao produtor; direitos trabalhistas, jornada de trabalho, trabalho manual e mecanizado, trabalho feminino e infantil, exploração do trabalho, divisão contemporânea do trabalho, teoria da acumulação, o processo colonizador, etc. (MARX, 2013). 


“É que O capital constitui, por excelência, uma obra de unificação interdisciplinar das ciências humanas, com vistas ao estudo multilateral de determinada formação social. Unificação entre a economia política e a sociologia, a historiografia, a demografia, a geografia econômica e a antropologia”. (GORENDER, 2013, p. 46). 

Após a morte de Marx em 1883, seu melhor amigo Friedrich Engels recolheu as anotações, comentários, críticas e esboços dos capítulos para as continuações do Capital, e tratou de organizá-las e até mesmo teria escritos trechos dele, algo que se percebe na diferença de escrita em determinadas partes da obra. O volume II recebeu o subtítulo de O processo de circulação do capital e foi pulicado em 1885. Por sua vez, o volume III que recebeu o subtítulo de O processo global da produção capitalista, foi publicado em 1894, na época Engels estava com 73 anos. No caso, Engels chegou a lançar uma segunda edição do volume II em 1893, com algumas revisões e anotações pessoais. Como faleceu em 1895, não pode lançar nova edição do volume III. Quanto ao volume IV, subintitulado Teorias da mais-valia, a obra foi editada por Karl Kaustky (1854-1938), filósofo e jornalista checo-austríaco, especialista no trabalho de Marx, editou com base nos manuscritos dele o que se tornou o volume IV de O Capital. Embora seja uma obra pouco conhecida do grande público. 

“Sob a perspectiva de conjunto, há uma linha divisória entre os Livros I e II, de um lado, e o Livro III, de outro. Linha divisória que não diz respeito à separação entre questões microeconômicas e macroeconômicas, pois nos três livros encontramos umas e outras, conquanto se possa afirmar que o Livro II é o mais voltado à macroeconomia. A distinção estrutural obedece a critério diferente. Os dois primeiros livros são dedicados ao “capital em geral”, ao capital em sua identidade uniforme. O Livro III aborda a concorrência entre os capitais concretos, diferenciados pela função específica e pela modalidade de apropriação da mais-valia”. (GORENDER, 2013, p. 46). 

Desentendimentos (1870-1875)

A década de 1870 na vida de Marx foi marcada por três acontecimentos importantes: a Comuna de Paris (1871), o fim da Primeira Internacional (1872) e a crítica ao Programa de Gotha (1875). Comecemos pelo primeiro. No ano de 1870, no dia 19 de julho eclodiu formalmente a Guerra Franco-Prussiana. O imperador Napoleão III da França declarou guerra ao kaiser Guilherme I da Prússia

A guerra durou menos de um ano, chegando ao fim em maio de 1871, porém, durante os últimos meses da guerra ocorreu a revolução ou pretensa revolução que originou a Comuna de Paris. Em março de 1871, o imperador Napoleão III estava preso, após a derrota na Batalha de Sedan. Ele estava sob guarda do primeiro-ministro prussiano, Otto von Bismarck. Um governo provisório foi instituído em Versalhes, então capital da França, para negociar o resgate do imperador e o fim da guerra. A Guarda Nacional formada para auxiliar o exército francês, continuava acampada em Paris, quando membros dessa guarda que consistia numa milícia convocada, se rebelaram e tomaram a prefeitura. Entre 26 ou 28 de março os communards como ficaram conhecidos, proclamaram a independência de Paris, tornando-a uma comuna. Porém, o governo de Versalhes e o imperador Napoleão III foram contrários a essa tentativa dos trabalhadores, operários e soldados de instaurarem um governo socialista em Paris. Dando início a uma guerra que durou até maio. (MCLELLAN, 1995, p. 357-359). 


Communards na barricada da Rua Voltaire, durante a Comuna de Paris,1871. 
Nesse meio tempo, os communards, formados por socialistas, comunistas, anarquistas, democratas, republicanos e pessoas não filiadas a partidos e ideias políticas, promoveram uma série de reformas trabalhistas, legais e civis, embora todas foram revogadas depois da derrota da comuna. Todavia, Marx e Engels que acompanharam as notícias pelos jornais, aplaudiram o acontecimento. Para eles, o proletariado parisiense estava pondo em prática um governo socialista, apesar de ter iniciado esse governo a partir de um golpe de Estado. Entretanto, o exército francês e prussiano confrontaram os communards, os levando a derrota e o fim de um governo socialista do proletariado. (MEHRING, 1962, p. 455-456). 


Mikhail Bakunin
Com a derrota de mais uma tentativa de promover uma revolução socialista, isso prejudicou não apenas os planos de alguns integrantes da ATI, a qual apoiou a comuna, mas também contribuiu para que posteriormente a oposição contra socialistas, comunistas e anarquistas endurecesse, sem contar que desde 1868, a ATI vivia uma crise interna devido a desentendimentos entre socialistas, comunistas, anarquistas e social-democratas. No ano de 1872 foi convocado o quinto congresso da ATI, realizado na ocasião em Haia, na Holanda. No caso, Marx e Engels compareceram a esse congresso, e Bakunin também, o principal representante da oposição interna. É preciso salientar que Marx nunca se entendeu bem com os anarquistas desde a época que morou em Paris, tendo entrado em conflito com as ideias de Proudhon. Décadas depois, o conflito retornou, dessa vez entre ele e Bakunin. No caso, os anarquistas liderados por Bakunin propunham métodos diferentes para se promover uma revolução esquerdista, além de pensar no uso de ações enérgicas e agressivas, contrariar a ideia de uma necessidade de desenvolvimento histórico como sugerido por Marx, o qual defendia que a mudança de um Estado capitalista para um socialista não poderia ser abrupta, o país deveria fornecer condições materiais, estruturais e de recursos para poderem ser aplicadas na mudança. Bakunin discordava de parte dessas necessidades. (THOMAS, 2012, p. 153-154). 

De qualquer forma, em 1872, em Haia, o congresso foi tumultuado. Os representantes de 14 países entre França, Inglaterra, Prússia, Bélgica, Holanda, Suíça, Espanha, Estados Unidos, etc. estavam divididos basicamente entre marxistas e bakunistas. Na ocasião, Engels e Marx presidiram os debates, o que foi tomado pelos anarquistas e seus aliados com desconfiança e favorecimento para os interesses deles. Os dias de reunião que buscaram um consenso para restaurar a concórdia na ATI e pensar em estratégias para fortalecê-la frente os problemas externos e internos, não deu certo. A expulsão de membros do conselho nova-iorquino, dos anarquistas como Bakunin e de membros dos blanquistas e social-democratas, não foi bem recebido. Gerando tumulto. Por fim, a ideia de Engels de transferir a sede do Conselho Geral, de Londres para Nova York, devido a disputas internas pelo comando do conselho, algo que vinha ocorrendo desde 1870, não foi benquista. E isso foi a gota d'água, levando a cisão interna e o fim da ATI. (MCLELLAN, 1995, p. 200-201).


Gravura retratando Engels e Marx durante o V Congresso da ATI, em Haia, em 1872. 
O terceiro acontecimento marcante nesse período foi a crítica de Marx e Engels ao Programa de Gotha. Entre 22 a 27 de maio de 1875, ocorreu em Gotha, na Alemanha, um congresso entre os dois partidos políticos socialistas alemães. O Partido Operário Social-Democrata, chamados de Eisenachianos, devido a cidade na qual o partido se constituiu em 1869. Era liderado por socialistas marxistas como Ferdinand August Bebel (1840-1913) e Wilhelm Liebknecht (1862-1900). O outro partido era a União Geral dos Operários Alemães, chamados de Lassallianos devido a influência de Lassalles sobre eles. O partido era liderado por Wilhelm Hasselman (1844-1916) e Wilhelm Hasenclever (1837-1889). No caso, Hasenclever ajudou a fundar o Partido Operário, mas por desavenças saiu deste. Além disso, ele foi um dos fundadores do jornal Vörwats!, o qual Marx e Engels havia contribuído na França. 

A proposta do Programa de Gotha era unificar os dois partidos, um socialista marxista e o outro social-democrata lasselliano. Assim, unificando os dois, se formaria um partido socialista alemão forte e consolidado, porém, Marx e Engels ao lerem o programa resultante desse congresso, ficaram decepcionados. Para eles o programa era um embuste, disfarçado de boas ideias, mas que na prática mostrava interesses por trás. Talvez parte da decepção de ambos advenha ao fato de que Bebel e Liebknecht que eram marxistas, terem concordados com ideias de Hasselman e Hasenclever que eram lassallianos, lembrando que Engels não considerava Lassalle de confiança, e Marx se desentendeu com ele algumas vezes, o que incluiu questões de empréstimo de dinheiro para ajudá-lo a fundar seu partido. 

Assim, a Crítica ao Programa de Gotha (1875), consistiu num pequeno livro que Marx pontuava as propostas do programa e assinalava problemas de aplicação, e como algumas propostas eram frutos de erros de interpretação propostos pelo radicalismo de Lassalle. Sem contar que alguns dos membros da União Geral foram acusados de serem anarquistas, o que põe em jogo a pauta socialista que alegavam defender. (MARX, 2000). 

Os últimos anos de Karl Marx (1876-1883)

Os últimos sete anos da vida de Marx não foram marcados por grandes obras. Embora tenha continuado a escrever artigos e matérias para jornais, sua produção literária decaiu muito. Segundo Engels, foi por volta de 1878 que o amigo parou de escrever a continuação de o Capital. Mas se por um lado ele interrompeu seu grande trabalho econômico, Marx ainda esteve atenado a questões políticas, realizando algumas viagens e participando de reuniões e congressos. 

Entre 1876 e 1877 Marx realizou algumas viagens a Alemanha. Em 1876, Bakunin, seu último grande rival faleceu. No ano de 1877, Marx publicou o livro O Anti-Dühring, sua última grande obra de crítica. Karl Eugen Dühring (1821-1921) foi um advogado, filósofo, economista alemão, além de ter estudado matemática e física. Declarava-se seguidor do pensamento positivista de Augusto Comte (1798-1857), e defendia ter elaborado uma nova forma de se repensar o socialismo e como aplicá-lo. Dühring foi visto com desconfiança na própria Alemanha. Engels chegou a redigir alguns artigos comentando as propostas dele, e finalmente Marx, escreveu um livro contrapondo-se as ideias políticas, econômicas, morais e filosóficas de Dühring. 

A queixa de Marx, Engels e outros filósofos e militantes da época é que Dühring se dizia o "reformador" do socialismo. Ele estava fazendo muita propaganda sobre sua pessoa e ideias, dizendo que havia encontrado meios de corrigir problemas da teoria socialista e de como proporcionar sua aplicação na sociedade. Marx ao analisar as obras de Dühring, chamou-o de farsante, arrogante e ignorante. O qual queria através de sua boa escrita e lábia conquistar apoio dentro do Partido Socialista Alemão. (MARX, 2001). 

Em 1878 o primeiro-ministro alemão, Otto von Bismarck aprovou uma lei proibindo o socialismo no país. A medida de Bismarck foi um golpe baixo para frear o avanço dos sociais-democratas (partido de centro-esquerda) que crescia na Alemanha. No ano de 1878, o imperador Guilherme II sofreu dois atentados contra sua vida. Bismarck culpou os sociais-democratas e socialistas, mas os responsáveis nunca foram encontrados ou identificados. Assim, Bismarck tentou aprovar uma lei que proibisse o socialismo, comunismo, a social-democracia e o anarquismo na Alemanha. A lei foi foi votada duas vezes e reprovada. Bismarck valendo-se da sua autoridade suspendeu o Parlamento Alemão (Reichestag), e convocou eleições imediatas para compor um novo parlamento, agora favorável a suas ideias, o qual aprovou a lei antissocialismo. 

Para Marx, essa foi uma notícia muito lamentável. Ele desde 1848 vinha lutando para legalizar o socialismo como partido e suas ideias para serem aplicadas na Prússia e Alemanha, e agora o governo alemão proibia todas elas. Marx não pode fazer nada para tentar reverter o caso, porém, os próprios alemães, mesmo na clandestinidade, não desistiram de suas ideias e propostas e continuaram a pressionar o governo para revogar a lei. 

No ano de 1880, Marx recebeu a visita do político e jornalista francês Jules Guesde (1845-1922), o qual era editor do jornal L'Égalité (A Igualdade), além de ter sido um dos fundadores do Partido Socialista Francês e difusor do marxismo na França. No caso, Guesde estava organizando a criação de uma Segunda Internacional dos Trabalhadores, que seria sediada em Paris. Assim ele viajou para Londres para conhecer e conversar com Karl Marx, o qual inclusive colaborou na redação do Programa da Associação Francesa dos Trabalhadores (1880). Guesde retornou para a França esperançoso, a Associação Francesa dos Trabalhadores permaneceu em atividade até 1902, quando foi fechada e Guesde tomou outros rumos. 

Em 2 de dezembro de 1881, Jenny Marx faleceu aos 67 anos. A morte dela abalou muito Marx. Suas filhas e Engels relataram em cartas como o pai foi pego por um forte luto. Alguns historiadores sugerem um princípio de depressão pós-luto. Na prática sabe-se que a saúde de Marx se agravou nos anos seguintes após a morte da esposa. E a situação piorou em janeiro de 1883, quando sua filha Jenny Caroline Marx, na época conhecida pelo nome de casada de Jenny Longuet faleceu aos 38 anos. 


Charles Longuet e Jenny Marx Longuet na década de 1870. 
Jenny Longuet havia nascido em Paris, sendo a filha mais velha de Karl e Jenny. A menina seguiu os caminhos do pai e tornou-se militante socialista, passando a escrever a respeito para jornais. Apesar que não tornou-se uma erudita. Casou-se com Charles Longuet, veterano da Comuna de Paris. O casal teve seis filhos. Porém, Jenny faleceu em 11 de janeiro 1883, por problemas abdominais, os quais acarretavam grandes dores. Os historiadores sugerem que teria sido algum tipo de câncer. A aparência de Jenny também estava debilitada nos últimos meses antes da sua morte. 

A perda da filha mais velha abalou ainda mais Marx, o qual já sofria de depressão e problemas respiratórios devido ao tabagismo e o sedentarismo. E assim, ele faleceu em 14 de março de 1883, aos 64 anos. Engels organizou o velório e sepultamento do amigo. Marx continua até hoje sepultado no Cemitério Highgate, em Londres. 


Túmulo de Karl Marx no cemitério Highgate, Londres. O busto foi um presente posterior. 
Controvérsias sobre sua vida e família: 


a) Marx e suas discordâncias e desafetos

Ao longo da vida Karl Marx colecionou uma série de rivalidades, boas e ruins. Seu temperamento genioso, especialmente mostrado na sua escrita sarcástica, irônica, de humor ácido e as vezes até ofensiva, lhe rendeu problemas com a censura prussiana, com críticos e com uma série de opositores. Marx ao longo da vida foi conhecido por seu senso crítico; ele as vezes sozinho ou em colaboração de amigos, como Engels, criticou os jovens hegelianos, socialistas, anarquistas, liberais, etc. Obras como Crítica a Filosofia do Direto em Hegel (1843), Teses sobre Feuerbach (1845), A ideologia alemã (1846), Miséria da Filosofia (1847), Elementos fundamentais para a crítica da economia política (1858), O Capital (1867), Crítica ao Programa de Gotha (1875) e o Anti-Dühring (1880), são algumas das principais obras que representam esse seu gênio crítico. 

Nessas obras Marx ora destilou suas acusações, mas também rebateu acusações de calúnia e difamação. Apesar de aparentemente não ter feito inimigos, Marx teve problemas principalmente com os hegelianos nas décadas de 1840 e 1850 e depois com os anarquistas, especialmente com Proudhon e Bakunin. Porém, a inimizade gerada contra os liberais, capitalistas, conservadores, burgueses, empresários, etc. foi algo que carregou por décadas, desde que começou a publicar obras sobre economia, ainda na década de 1840. 

Mas além dos seus livros, Marx também arranjou problemas na sua carreira como jornalista. No texto acima vimos que por motivos de polêmica, Marx deixou Colônia em 1843, foi expulso de Paris em 1845, e expulso de Colônia em 1848. Sem contar que ele continuou a escrever artigos inflamados para criticar não apenas questões filosóficas e econômicas, mas para reclamar das atitudades de governos republicanos e monarquistas, crises, guerras, etc. Seu apoio a greves, revoltas, as Revoluções de 1848 e a Comuna de Paris, também não foram bem vistos pela oposição. Até chamaram-no de o "doutor vermelho" devido ao seu apoio a Comuna de Paris. 

b) Marx e a religião

É comum ouvir ou ler que Karl Marx foi um terrível ateu ou até satanista, como alegam alguns, o qual defendia destruir todas as religiões do mundo. A história não foi bem assim. Marx nasceu judeu, tornou-se cristão luterano, depois cometeu apostasia e assumiu-se como ateu. Todavia, em sua longa produção literária, Marx pouco escreveu sobre religião. Sua famosa frase: "a religião é o ópio do povo", dita na década de 1840, por um Marx cético que estava migrando para o ateísmo, era resultado de suas queixas ao uso da religião para se enganar a população. 

Os detratores e opositores de Marx costumam usar essa frase para dizer que ele pregava o Estado ateu, o fim do cristianismo, e de outras religiões. Mas ele nunca deixou isso claro. Marx defendia o Estado laico, era contra a igreja influenciar em decisões políticas. Isso na época não agradou líderes religiosos. Sem contar que os marxistas passaram a defender não apenas a laicidade, mas o ateísmo, deturpando a crítica de Marx as religiões. De fato, ele perdeu sua fé, mas dizer que isso seria motivo para ele abominar todas as crenças religiosas é exagerado, já que o mesmo não manifestou isso com clareza. 

Por exemplo, Engels manteve-se cristão, inclusive ele escreveu que o socialismo e o comunismo não eram opositores a religião. Ele procurou conciliar cristianismo com o socialismo. Nesse ponto Engels discordava de Marx quanto a dizer que as religiões seriam um empecilho para a conscientização das classes oprimidas, as quais ludibriadas pelos dirigentes evitavam de se rebelar, pois os padres, pastores e bispos ensinavam que isso era pecado. 

c) A polêmica da morte dos filhos

Os opositores de Marx costumavam e costumam citar a morte dos seus filhos como sendo algo do descaso de Marx. Vimos ao longo do texto que de fato quatro filhos seus morreram na infância por problemas de saúde e um deles por ter nascido prematuro. Porém, as cartas de Marx, da esposa e dos amigos revelam a preocupação do casal quanto a saúde da família e ao desespero que enfrentaram entre 1852 e 1856. Além do fato que comentei anteriormente que a hipótese de uma casa insalubre tem seus problemas, pois na mesma época que morreram Guido, Francisca e Edgar, nasceu Eleanor, a qual viveu no mesmo local dito "terrivelmente imundo", mas a recém-nascida sobreviveu. Além disso, naquela época, não era incomum crianças morrerem por doenças simples. Por exemplo, os dois filhos do imperador do Brasil, D. Pedro II, faleceram ainda crianças, mesmo eles tendo os melhores médicos e cuidados disponíveis. 

Outro problema envolvendo os filhos de Marx, diz respeito a suas filhas que sobreviveram: Jenny Caroline, Jenny Laura e Jenny Eleanor. Todas elas chegaram a fase adulta, casaram-se e tiveram filhos, exceto Eleanor. Porém, aqueles que costumam desprezar a vida de Marx, apontam que duas das filhas cometeram suicídio, mas esquecem de explicar o contexto e motivo. Já li gente dizer que as duas filhas que se mataram, fizeram isso por causa do pai, só que aí temos o primeiro problema: Jenny Laura e Jenny Eleanor, morreram anos depois do pai. Logo, dizer que elas morreram durante a vida dele é um dado errado, e culpá-lo por isso, também é errado. Sem contar que as filhas não sofreram perseguições por causa do pai, ou ficaram pobres. 


Engels, Marx e suas filhas Caroline, Eleanor e Laura. Foto tirada na década de 1860. 
Jenny Laura (1848-1911) faleceu aos 66 anos. A causa da morte, suicídio. Porém, ela se matou junto ao marido, Paul Lafargue (1842-1911), jornalista, crítico literário e militante socialista. O motivo do suicídio do casal não é conclusivo, mas eles concordaram em fazer isso e foram achados mortos. No caso, sublinha-se o fato que Laura Lafargue morreu já idosa, inclusive dois anos mais velha do que a idade na qual o pai faleceu. 


Jenny Laura Marx Lafargue.
Por sua vez, Jenny Eleanor (1855-1898), assim como a irmã mais velha, tornou-se militante socialista. Ela passou a escrever a respeito para jornais, e até se tornou escritora e tradutora. Aderiu também ao movimento sufragista, e trabalhou como professora e secretária de organizações trabalhistas. Casou-se com Edward Aveling (1849-1898), professor de biologia e militante socialista. Em 1848, Eleanor cometeu suicídio após descobrir que o marido tinha uma amante. Segundo a história, ela havia descoberto isso tempos antes, porém, não conseguiu se conformar com a traição e se matou. 


Eleanor Marx Aveling. 
Como observado, as filhas de Marx cometeram suicídio, mas não foi durante a vida dele, ou por sua causa. Não tem como saber o que os filhos farão ou serão depois que você se for. No caso, já li pessoas dizerem que se elas fossem bem educadas, não teriam feito isso. Isso é uma desculpa que não tem validade. Outros disseram que se elas fossem cristãs, não teriam feito isso. Outra resposta que também não tem validade. Émile Durkheim em seu famoso estudo O Suicídio (1897), observou que várias pessoas cristãs ou ditas cristãs, se mataram. Além desse fator religioso, Durkheim analisou fatores sociais, econômicos, morais, familiares, culturais, etc. 

d) Marx foi extremamente pobre ou muito rico?

Algo que costuma circular na internet são duas informações bem erradas: uma diz que ele e a família eram pobres, quase miseráveis, pois Marx era um vagabundo e nunca arranjou um emprego. Como comentado, Marx ao longo da vida foi jornalista, tendo trabalhado em jornais de distintos países. Além de ter assumido cargos na Associação Internacional de Trabalhadores e outras associações. Sendo assim, dizer que ele nunca arranjou um emprego é uma afirmação falsa.

Outra informação que é comum ser difundida na internet, diz que ele era muito rico, pois sua esposa era filha de barão. De fato, Jenny von Westphalen era filha de barão, mas ela não tinha título, e a herança da família não a salvou dos anos de penúria, especialmente entre 1850 e 1856. Período que ela teve que procurar emprego temporário mais uma vez, e até penhorou joias. Ora, se ela realmente fosse rica como alguns alegam, como é que a família passou anos tendo que economizar dinheiro e com problemas financeiros? 

Segundo, Marx ficou desempregado em alguns momentos da sua vida, o pior foi na época que se mudou para Londres com a família, onde passou pelo menos seis anos difíceis, como comentado. Mesmo tendo arranjado dinheiro, o salário era baixo. Mas excetuando-se essas fases de crise econômica familiar, os Marx a partir da década de 1860, começaram a melhorar de situação financeira, apesar que teve que recorrer a Engels algumas vezes, para pedir dinheiro emprestado, como no caso de pagar o casamento das filhas mais velhas. Somente a partir da década de 1870 é que sua situação financeira se estabilizou de vez e ele viveu confortavelmente até o fim da vida. Em contra-partida, Engels descendia de uma família rica, dona de fábricas na Inglaterra. 

e) Marx pregava o fim da família?

Essa é uma das afirmações deturpadas que se fazem de sua fala. Marx era crítico do que ele chamava de "modelo de família burguês", algo um tanto complicado de se entender, pois alguns de seus escritos não são de fácil compreensão. No caso, ele dizia que era contrário a esse modelo específico de família, o qual privilegiava o individualismo, a falsa meritocracia, o uso da família como entidade política para governar cidades, estados, províncias, etc. Marx era contrário a ideia de que uma mesma família se apossasse de cargos públicos e se revesassem no poder. Ele também criticava o fato que o "modelo de família burguês" se sobrepujasse sobre os outros modelos familiares. 

Marx comentava que as famílias do proletariado não eram concebidas na mesma forma que uma família burguesa. A família burguesa educava os filhos para exercerem cargos de comando e prestígio, mas não para trabalharem em serviços braçais ou dito inferiores. Seus filhos deveriam estudar em boas escolas e fazer universidade. Lembrando que Marx nasceu numa família burguesa judia. Ele mesmo vivenciou tal condição. Em contra-partida ele apontava que a família burguesa não queria permitir que o proletariado e outras classes pobres tivessem os mesmos direitos. Não interessava a eles que os pobres frequentassem escolas e/ou universidades. 

Outra crítica apontada por Marx em alguns de seus livros sobre economia como o Capital, era a questão do trabalho feminino e infantil. Segundo ele, a família burguesa não permitia que suas mulheres e filhos trabalhassem em fábricas ou em situações degradantes, porém, ignoravam esse zelo para as mulheres e os filhos dos pobres. 

Nesse ponto, ele lembra que mulheres burguesas dificilmente iriam trabalhar, porém, as mulheres do proletariado trabalhavam muito e recebiam bem menos do que os homens, mesmo que exercendo atividades iguais. Sem contar que enquanto a família burguesa defendia o zelo com as crianças, abominando que uma criança não deveria trabalhar, descartava tal opinião caso a criança fosse filha de um operário. De fato, as crianças ajudavam os pais em seus serviços, pois isso consistia na continuidade do ofício da família: sapateiros, tecelões, artesãos, ferreiros, comerciantes, etc. iniciavam seus filhos desde cedo em seus ofícios. Porém, a crítica de Marx se dava sobre o trabalho infantil em fábricas e a hipocrisia da família burguesa quanto a isso. 

NOTA: Das três filhas de Marx que viveram que se tornaram adultas, Caroline e Eleanor seguiram os passos do pai, tornando-se militantes socialistas.
NOTA2: As cinco filhas de Marx receberam o nome de Jenny, em homenagem a mãe delas. 
NOTA 3: Jenny Caroline Marx Longuet teve seis filhos: Harry, Jean, Edgar, Harry, Marcel e Jenny. 
NOTA 4: Jenny Laura Marx Lafargue teve três filhos, mas ambos morreram prematuramente. 
NOTA 5: Jenny Eleanor Marx Aveling não teve filhos. 
NOTA 6: Karl Marx teve nove netos e nove bisnetos. Se desconhece com exatidão o restante da sua descendência. 
NOTA 7: Marx teve um filho bastardo chamado Frederik (1851-1949), oriundo de um caso que teve com Helena Demuth (1820-1890), que trabalhou algum tempo como empregada e babá na casa da família Marx. No caso, ele nunca reconheceu o filho como sendo seu. Eleanor e Engels descobriram a respeito. A história do menino encontra divergências, pois alguns apontam que Engels teria sabido logo de início e ajudou a acobertar o caso. Outros alegam que Engels só descobriu posteriormente. 
NOTA 8: Marx apresentou-se relutante com os namorados e noivos das filhas, tendo sido um pai protetor e as vezes rigoroso de mais.
NOTA 9: A Escola Austríaca de Economia (ou Escola de Viena) tornou-se uma das principais opositoras ao marxismo e suas teorias econômicas. Entre seus fundadores estavam Carl Menger, Ludwig von Mises e Eugon von Böhm-Bawerk. Os membros iniciais da escola eram árduos defensores do modelo capitalista clássico. O mesmo modelo que Marx e Engels atacavam em seus livros e artigos. 
NOTA 10: A esposa de Marx, Jenny além de ter trabalhado fora em algumas ocasiões, debatia com o marido a respeito de seu trabalho, ajudava a editá-los e revisá-los. Inclusive ela escreveu algumas obras próprias também, apesar de serem pouco conhecidas. 
NOTA 11: Karl Marx é um dos personagens históricos que aparece no jogo Assassin's Creed Syndicate (2015). 
 
Referências bibliográficas: 
BEDESCHI, Giusipe. ComunismoIn: BOBBIO, Norbert (org.). Dicionário de política. Tradução de João Ferreira. Brasília, Editora da UnB, 1998. p. 204-220. 
BERLIN, Isaiah. Karl Marx: his life and enviroment. New York, Oxford University Press, 1959. 
GORENDER, Jacob. Apresentação. In: MARX, Karl. O Capital, vol. 1: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo, Boitempo, 2013. p. MARX, Karl. O Anti-Dühring. São Paulo: Jahar, 2001. 
MARX, Karl. O Capital, vol. 1: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo, Boitempo, 2013. 
MARX, Karl. Carta a Pável V. AnnenkovGerminal, v. 9, n. 2, 2017, p. 232-240.
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Tradução e introdução de Florestan Fernandes. 2a ed. São Paulo, Editora Expressão Popular, 2008. 
MARX, Karl. Crítica ao Programa de Gotha
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Luis Cláudio de Castro e Costa. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
MARX, Karl. Manuscritos econômicos-filosóficos. Tradução, apresentação e notas de Jesus Ranieri. São Paulo, Boitempo, 2004. 
MCLELLAN, David. Karl Marx: a biography. 2a ed. London, Macmillan Press, 1995. 
MEHRING, Franz. Karl Marx: the story of his life. Translated by Edward Fitzgerald. New York, University Michigan Press, 1962. (Routledge Library Editions, Economics). 
PIANCIOLA, Cesare. Socialismo. In: BOBBIO, Norbert (org.). Dicionário de política. Tradução de João Ferreira. Brasília, Editora da UnB, 1998. p. 1187-1202. 
THOMAS, Paul. Karl Marx. Glasgow, Reaktion Books, 2012. 


domingo, 13 de maio de 2018

130 anos da abolição da escravidão no Brasil

Neste domingo, 13 de maio de 2018, data que se comemora no Brasil o Dia das Mães, relembramos o marco histórico dos 130 anos da abolição da escravidão. Sendo que o Brasil foi o último país das Américas a abolir essa desumana prática que vigorou em seu território desde meados do século XVI. Todavia, o processo abolicionista no Brasil foi algo que percorreu décadas, e mesmo tendo recebido apoio por parte da nobreza, o que incluiu membros da família real como a princesa D. Isabel e alguns de seus filhos, ainda assim, a abolição sofreu fortes entraves. As aprovações de leis que concediam alforria aos escravos demoraram anos para serem aprovadas e os abolicionistas que frequentavam os salões das elites, em muitas vezes não eram levados a sério. No caso eu estava para escrever a respeito desse processo de abolição que culminou com a Lei Áurea de 13 de maio de 1888, aprovada pelo Senado e assinada pela princesa Isabel, mas a BBC Brasil publicou um belo infográfico a respeito, então preferi postar aqui o link para a matéria deles.

Todavia se faz necessário comentar, mesmo de forma breve, algumas questões relacionadas a real significância da abolição de 1888. Embora tenha posto fim definitivamente a escravidão, a lei não contribiu para a reintegração dos ex-escravos a sociedade. Com o advento da República em 15 de novembro de 1889, pretensões de se fazer reforma agrária, pagar indenização aos escravizados, políticas públicas para lhes fornecer habitação e emprego, foram abandonados. A população negra e mestiça tornou-se marginalizada no novo regime político que passou a vigorar no Brasil. E essa marginalização infelizmente ainda hoje perdura. O movimento negro tardou a ganhar força e reconhecimento no Brasil. Os crimes de racismo eram velados e ignonarados. Somente nos últimos 30 anos tivemos a criação de leis para combater o racismo contra negros e indígenas, além de políticas de valorização das suas culturas, consideradas como algo primitivo, bárbaro, inferior, exótico, etc. Por outro lado, o Brasil além dos problemas relacionados ao preconceito de cor, ainda sofre com o trabalho semi-escravo e em alguns casos até mesmo escravo. 

Embora tenha se passado 130 anos desde o término da escravidão, a mentalidade cultural de alguns brasileiros é de que a população negra ainda conserva o estigma de serem descendentes de escravizados. O preconceito de cor ainda sobrevive mesmo com políticas de combate ao racismo, mesmo com o movimento negro que tenta mostrar que ter preconceito por cor é ruim e errado, mesmo com a revigoração do ensino de história com a lei 10.639/03 sobre o ensino de história africana e afro-brasileira, e a lei 11.645/08 sobre o ensino da história dos povos indígenas, e a própria criação do Dia da Consciência Negra, celebrado anualmente na data de 20 de novembro, como forma de conscientizar a população brasileira, que ser negro não significa ser algo ruim, ser inferior, ser estigmatizado como descendente de escravo, pois há negros cujos antepassados não foram escravos, e mesmo que tenham sido, isso não é motivo para insultá-los ou menosprezá-los. 

Então fiquem com o trabalho da BBC Brasil: http://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Krampus e os festejos natalinos sombrios

Originário de data incerta na Alemanha e Áustria, existem lendas antigas que falam de um demônio caprino que durante o final do ano visitava as casas para pregar travessuras ou punir as crianças que foram malvadas. A lenda do Krampus possui variações de acordo com a época e o local, indo desde um demônio em forma de bode negro que simplesmente assustava a população das vilas e aldeias, até passa a ser associado a São Nicolau e depois o Papai Noel, tornando-se uma figura natalina. Nesse texto procurei contar alguns aspectos da história dessa bizarra criatura que ainda hoje é lembrada anualmente em festivais dedicados especialmente a ele. 

Quem é o Krampus?

O nome Krampus advém do alto-alemão antigo, krampem que pode ser traduzido como garra ou grampo. O termo é antigo, pois existem relatos do século XVI que falam de uma criatura sinistra que no mês de dezembro aparecia nas vilas e cidades. Nesse ponto, o Krampus ainda não estava associado necessariamente ao Natal. Adiante veremos como se desenvolveu essa associação. 

Neste caso, o Krampus  é uma figura antiga que se desconhece exatamente quando ele surgiu. Inclusive suas funções e aparência se confundem com outros seres monstruosos como o Percht, o Klaubauf, o Knecht Ruprecht e o Stampa. Para Claude Lecouteux (2016), o Krampus e os demais monstros podem ser entendidos como figuras locais do bicho-papão (bogeyman), especialmente oriundas do sul da Alemanha e da Áustria, regiões com grande contato cultural, tenham desde o final do medievo disseminado a crença nesses seres bestializados, que foram incorporados pelo folclore cristão, associando-os a São Nicolau e depois ao Natal. 

Todavia, Lecouteux (2016) assinala que não devemos considerar tais criaturas como sinônimos, pois as características delas mudam. Além disso, ele sublinha rapidamente que tais seres sejam também reflexo de práticas medievais e modernas das mascaradas, festejos nos quais em determinadas épocas do ano, as pessoas (geralmente adolescentes e jovens), vestiam máscaras ou fantasias sombrias, para assustar, pedir dinheiro, comida, pregar travessuras, fazer procissões, baderna, etc. Adiante comentaremos acerca desses festejos e suas implicações sociais e religiosas com o carnaval, o Halloween, o dia dos mortos, o Natal.


Propaganda alemã natalina do Krampus, c. 1900. 
Representações iconográficas do Krampus anterior ao século XX, são raras e bastante difíceis de achar, porém, os relatos escritos falam dessa criatura antes do século XVIII. Tais relatos preservados em livros sobre folclore e cultura popular, falam a respeito de uma criatura sombria, com aspectos de um bode bípede, o qual era descrito tendo geralmente pelos negros ou marrons, apesar de haver menções a pelos cinzas e até vermelhos. O Krampus também é normalmente descrito possuindo chifres, garras, olhos grandes e pavorosos, uma língua vermelha grande e fina. As vezes é descrito como tendo cauda ou não. Carregando um saco, cesta, correntes e sinos. Os sinos eram usados para avisar de sua chegada. Embora em algumas histórias ele use o ranger de correntes para isso, que também serviria para aprisionar as crianças, as quais as colocaria em seu saco ou cesta. (CARTER, 2016, p. 16). 

As mascaradas

Apesar do Krampus ser uma criatura oriunda do folclore pagão-germânico, que por sua vez, mesclou-se com o folclore cristão-germânico, o Krampus é um ser que não aparece de forma isolada nas histórias, ele passou a ser retratado junto aos festejos de fim de ano, estando associado com São Nicolau (ou o Papai Noel). Mas antes de chegar nesse ponto, falarei um pouco sobre as mascaradas. O conceito de mascarada possui distintos significados, pode se referir a prática de usar máscaras somadas ou não a fantasias diversas, para se realizar distintos tipos de festejos, em diferentes épocas do ano. Porém, o termo também era aplicado para um tipo de festejo popular em alguns países europeus entre os séculos XVI e XVIII, estando associado ao carnaval. (HONIGMANN, 1977, p. 274-275)

No caso, o uso de máscaras entre os povos europeus é algo antigo. Os gregos já faziam uso de máscaras em seu teatro, os romanos usavam máscaras em festejos. Temos povos celtas, germânicos e eslavos usando máscaras para motivos ritualísticos, religiosos, militares, etc. E mesmo após a cristianização do continente, tal motivo manteve-se. Antigas práticas pagãs, fossem de ordem social, religiosa ou festiva continuaram a ser realizadas, sendo assimiladas pela cultura cristã, e em alguns casos foram reformuladas. Esses festejos públicos eram praticados tanto no meio rural quanto no urbano, por ricos e pobres. A partir do século XI encontramos relatos da Festa do Burro, Festa dos Loucos, Festa dos Inocentes, etc. considerados por alguns como os antecessores do Carnaval. (BORGES, 2001, p. 32). No século XIII encontram-se relatos sobre o carnaval em Veneza, e festejos similares em outras cidades italianas e francesas. 

Peter Burke (2010) comenta que as mascaradas foram populares ao longo de séculos em vários países europeus, e ainda hoje algumas dessas práticas ocorrem. Burke salienta que em geral as mascaradas estavam associadas com datas ou período religiosos, oriundos de tradições pagãs e cristãs. Assim, encontramos essas folias e festejos durante os meses de dezembro, janeiro, fevereiro e março, estando associados com o Natal, a Epifania, Dia de Reis, o Carnaval, a Quaresma e a Páscoa. Posteriormente em junho, temos celebrações associadas aos folguedos de São João e outros santos do período. No final de outubro e começo de novembro, temos o período do Halloween, Dia de Todos so Santos, Dia de Finados

Nessas datas as mascaradas poderiam conservar um tom que transintava entre o sagrado e o profrano. Por exemplo, os festejos do Halloween, que consiste em uma cristianização de práticas pagãs celtas, associadas com o festival do Samhain, que envolvia o culto aos antepassados (ou aos mortos na visão cristã), no século XVI, época que esse antigo rito pagão foi absorvido pelo cristianismo, o Halloween já apresentava jovens usando máscaras, os quais carregavam tochas e sinos para assinalar a procissão da "véspera de dia de santos". Procissão esse que percorria cidades, vilas e fazendas, anunciando o início da vigília pelos santos, e em alguns casos indo até igrejas e cemitérios, onde se levavam flores, leite e pão, depositados como oferendas. Esses jovens em alguns casos, pediam dinheiro ou comida, ou poderiam fazer travessuras durante o trajeto, ou aproveitar a ocasião. Além disso, tal mascarada poderia durar três dias, e não apenas a data de 31 de outubro. (ROGERS, 2002). 

No entanto, Burke (2010) comenta que não necessariamente esses festejos fossem algo religioso. Algumas dessas mascaradas mantinham vínculo a datas religiosas tanto de origem pagã, quanto cristã, mas já se apresentavam dessacralizadas, tornando-se algo mais "profano", relacionadas a diversão, comilança, bebedeira, etc. como no caso do carnaval. O autor também comenta que mesmo festejos associados com a Epifania e o Dia de Reis, durante a Idade Moderna, já apresentavam um viés dessacralizado, reunindo banquetes e jogos. Por outro lado, em alguns casos, essas mascaradas poderiam representar críticas sociais, reproduzindo-se estereótipos sociais: o herói, o vilão, o bobo, o médico, o padre, o rei, o papa, etc. e até criticarem governantes ou pessoas ilustres. Algo bem comum nos festejos carnavalescos. 

O Dia de São Nicolau

Chamado de Nicolau de Mira (?-350), nasceu em local e data incertos na Ásia Menor (atualmente Turquia), atuando como bispo de Mira, tendo supostamente em vida realizado milagres curativos, que lhe renderam a fama de taumaturgo (milagreiro). Além dessa fama como taumaturgo, Nicolau envolveu-se em disputas teológicas, foi perseguido pelos romanos e até cristãos opositores a suas ideias; teria demonstrado atenção em acolher e ajudar os pobres, especialmente as crianças carentes e órfãs. Teria falecido em 6 de dezembro de 350, em Patara, na Ásia Menor. Seus restos mortais mais tarde foram levados para a cidade italiana de Bari, onde se construiu uma igreja e difundiu-se seu culto pela península italiana. 


Ícone russo representando São Nicolau. Século XVIII. 
Todavia, em data incerta na época das Cruzadas (XI-XIII) foi que São Nicolau começou a ganhar fama. Desse período datam histórias (mais lendas do que realidade), que em algumas campanhas de cruzados, foram achados relíquias desse santo, as quais deram boa sorte aos cruzados e foram levadas para a Europa. A história desse antigo bispo e santo foram resgatadas e difundidas pela Grécia, Rússia, Itália, França e posteriormente em outros países. (WALTER, 2014, p. 84). No caso, Castro e Coelho (2015, p. 257) comentam que ainda no século XII, já aparecem histórias populares falando sobre os milagres de São Nicolau e a condição de que nas noites do dia 5 e 6 de dezembro, homens se vestiriam com capa de viagem, usariam uma mitra ou outro tipo de chapéu, e sairiam pelas vilas distribuindo esmolas e outros presentes. 

No século XVI com o advento da Reforma Protestante em voga, a figura de São Nicolau nos territórios protestantes foi abandonada ou escanteada, sendo trocada em alguns casos pela imagem do Menino Jesus (Christkindl). Um adolescente usando um traje longo, passou a assumir a função de São Nicolau, assim durante o mês de dezembro, o garoto distribuia presentes, geralmente as crianças. Porém, essa tentativa dos luteranos de querer suplantar a fama do santo católico não deu certo. Em territórios alemães do sul, onde prevaleceu o catolicismo, Nicolau ainda continuou a ser representado em seus festejos. Até países posteriormente que se tornaram protestantes como a Holanda, Bélgica e Inglaterra, a figura do santo presenteador permaneceu. (CASTRO; COELHO, p. 257). 

No século XVII surgem poemas, canções, contos e outras histórias sobre acompanhantes de São Nicolau, entre os quais dependendo da região encontram-se anjos, gnomos, fadas e seres chamados Klaubauf e Knecht Ruprecht. No caso do primeiro, o Klaubauf era descrito como um ser monstruoso, podendo ser baixo como um anão ou ter a estatura de um homem comum. Sendo uma criatura peluda e de cara grotesca. O Klaubauf aparecia mais como acompanhante de São Nicolau na região austríaca de Tyrol. Por sua vez, no sul da Alemanha tínhamos o Knecht Ruprecht (servo Ruprecht) o qual era representado de distintas formas, podendo ser um homem barbudo com trajes de servo, um homem negro, ou um demônio preto com chifres, ou um homem usando vestes pretas e uma máscara com barba e chifres, etc. No caso, o Ruprecht já era descrito como o responsável por castigar as crianças mal-comportadas. (LECOUTEUX, 2016, p. 137-139).



São Nicolau e o Knecht Ruprecht. Imagem retirada do livro Encyclopedia of Norse and Germanic folklore, mythology and magic (2016). 

Gerry Bowler (2007, p. 31) sublinha que entre os séculos XVI e XIX, a Europa vivenciou uma onda de manifestações folclóricas associadas a revalorização de sua cultura ou a adaptação de antigas crenças para a modernidade. Assim, antigos seres como duendes, gnomos, fadas, bruxas, ogros, bichos-papões, lobisomens, fantasmas, demônios e outros seresm fantásticos foram trazidos a tona, tornando-se presentes nas narrativas folclóricas, nos contos de fada e nas mascaradas. 

Sobre isso, Honigmann (1977, p. 273-275) comenta que na Idade Moderna e começo do XIX, as mascaradas passaram a representar em alguns casos a contra-ordem, a rebeldia, o satírico, o carnavalesco depravado, a crítica social, etc. mas também observou-se um dualismo moral, onde figuras representavam as noções de bem e mal cristãs, mas transvestidas com aspectos pagãos. Assim, o bom velhilho São Nicolau não poderia mais punir as crianças malvadas com tapas ou puxões de orelha, alguém teria que aplicar o castigo, e no melhor exemplo de mentalidade cristão da época, o trabalho sujo sobrava para seres repugnantes. 

Surge o Krampus

Como comentado anteriormente não há uma data exata de quando o Krampus surgiu. Mas provavelmente ele tenha surgido entre os séculos XVII e XIX, época na qual como comentado por Bowler (2007) e Honigmann (1977) houve uma revalorização de criaturas folclóricas em alguns países europeus, ao mesmo tempo em que mudanças morais eram percebidas quanto a figura desses santos e os próprios festejos de fim de ano. O que Honigmann chamou de "carnavalização", concedeu a antigos festejos como o Dia de São Nicolau uma aparência não necessariamente extravagante, mas uma dualidade entre sagrado e profano, e um crescimento desse festejo, com direito a criar desfiles de krampusses (plural de Krampus). 

Por outro lado, segundo Bowler (2007), a ideia de ajudantes macabros de São Nicolau, talvez tenha sido uma resposta a mudanças propostas pelos protestantes luteranos na Alemanha. Ao substituir a figura do santo pela imagem do Menino Jesus (Christkindl), como forma de aproximar esse festejo ainda mais da celebração do Natal, no dia 25 de dezembro, a nova formulação retirou do Menino Jesus a função de punir as crianças desobedientes e malcriadas, passando-o a pôr no lugar, diabretes, bichos-papões e outras criaturas que fariam esse serviço. Para Bowler e Honigmann isso seja reflexo da incorporação da imagem do Diabo. Jesus salva e agracia, mas o Diabo castiga. Por tal viez, seres como o Klaubauf, o Knecht Ruprecht e o Krampus tomam essa função, passando a serem os agentes castigadores. 


São Nicolau visita uma família. VJurij Subic, Viena, 1886-1902. Nessa gravura, vemos Nicolau acompanhado de um anjo, e atrás deles uma criatura chifruda que é o Krampus. 
Assim com a mudança cultural sobre o papel de São Nicolau em dar presentes agora somente para as crianças boas e comportadas, sendo lhe retirado a função de castigar as crianças malcriadas, essa segunda função foi atribuída a outros seres, entre os quais, o Krampus. O qual como comentado incorpora essa imagem do Diabo. Enquanto o Klaubauf lembra um monstro peludo com cara grande e grotesca, e o Knecht Ruprecht possui diferentes formas dependendo da região, o Krampus normalmente era descrito com aspectos caprinos, como comentado anteriormente. Possuindo chifres de carneiro ou de bode, e pés de cascos. No caso essa visão caprina remete a identificação desse animal com Satanás no medievo, um elemento a mais para tornar a figura do Krampus ainda mais assustadora. Passando ele a ser o "demônio do Natal", aquela criatura sinistra que no dia 6 de dezembro surge para punir as crianças. 

Mas embora as lendas falem que o Krampus era uma criatura que castigava as crianças, na prática isso não ocorria. Nos festejos do Dia de São Nicolau, os homens vestidos de Krampus não iam bater nos filhos dos outros. Eles fantasiados de Krampus, acompanhavam o santo em sua entrega de presentes ou apenas na formalidade de passear pela vila ou bairros de uma cidade, então o Krampus aproveitava para gritar, fazer barulho, assustar as crianças e os adultos. 


Foto antiga de São Nicolau e do Krampus. Século XX. 

O Krampus atualmente

Na transição do século XIX para o XX se popularizou gravuras, imagens, cartões natalinos, propagandas, etc. retratando o Krampus. O qual apesar de ainda ser retratado como uma criatura sinistra, tenha ainda assim ganhado fama, tornando-se um personagem folclore natalino, especialmente na Alemanha e na Áustria. Porém, a trajetória do Krampus ao longo do século XX foi incerta. Em determinadas áreas sua presença ao lado de São Nicolau era simplista, em outras perdeu a importância. Todavia, por volta da década de 1970, anos o Krampus se renovou em ganhou grande destaque. (HONIGMANN, 1977). A afeição por esse personagem sombrio levou grupos de amigos a criarem desfiles e passeatas apenas com a presença de krampusses, ao ponto que em alguns casos a figura de São Nicolau é excluída desses festejos que ainda ocorrem em dezembro, mas podendo variar de data. (CARTER, 2016). 


Fotografia do Krampusnacht em 2015.
Atualmente em alguns estados alemães e austríacos ocorrem os maiores festejos dos Krampus, chamados de Krampusnacht (Noite do Krampus), sendo celebrados no dia 5 de dezembro. Carter (2014) dedicou alguns capítulos da sua tese a analisar como em pequenas cidades alemães e austríacas a Noite do Krampus (5 dezembro) e o Dia de São Nicolau (6 de dezembro) tornaram-se datas bem movimentadas para o turismo. A atenção dada especialmente mais ao Krampus, gerou um comércio local específico para produtos desse personagem. Assim, ao longo de alguns dias de dezembro chegam a ocorrer desfiles de krampusses, jogos, shows, espetáculos, procissões e outras atividades, o que alavanca o comércio local e o turismo. A autora percebe como o Krampus deixou de ser uma figura obscura e remota do folclore germânico e tornou-se um novo símbolo para o turismo natalino, passando sua data ser comparada ao Halloween americano devido a grande movimentação de pessoas nas ruas, desfiles de fantasias e outras atividades. 


O Krampuslauf em Munique, Alemanha, 2017. 
NOTA: O Krampus tornou-se tão popular que ele passou a ser representado em livros, desenhos animados, filmes, séries, videogames, histórias em quadrinhos, etc.
NOTA 2: Enquanto o Dia de São Nicolau é celebrado em vários países europeus, os festejos associados apenas ao Krampus ainda estão restritos a Alemanha e a Áustria, embora cidades de países vizinhos começaram a aderir a brincadeira. Nos Estados Unidos e no Brasil também existem de forma bem modesta a Noite do Krampus. No caso americano temos o Krampusnacht sendo realizado em algumas cidades na Filadélfia, Indiana, Califórnia, etc. Já no Brasil, esse se concentra no estado de Santa Catarina, na região do Vale do Itajaí, sendo chamado de Pensenique, Pelznickel, Papai Noel do Mato, etc. 

Referências bibliográficas: 
BORGES, Paulo Alexandre Esteves. Da loucura da cruz à festa dos loucos. loucura, sabedoria e santidade no cristianismo. Cadernos Vianenses, tomo XXIX, jan. 2001.  
BOWLER, Gerry. Papai Noel: uma biografia. São Paulo, Planeta do Brasil, 2007. 
BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo, Companhia de Bolso, 2010. 
CARTER, Molly. Perchten and Krampusse: living mask traditions in Austria and Bavaria. PhD in Folklore and Cultural Tradition, National Centre for English Cultural Edition, 2016. 
CASTRO, Álisson Sousa; COELHO, Ilanil. Percursos de personagens natalinos da Europa para a América: entre familiaridade e estranhamento. Métis: história e cultura, v. 13, n. 27, jan/jun 2015, p. 253-276. 
HONIGMANN, John J. The masked face. Ethos, vol. 5, n. 3, 1977, p. 263-280. 
LECOUTEUX, Claude. Encyclopedia of Norse and Germanic folklore, mythology and magic. Translated by Jon E. Graham. Vermont, Inner Traditions, 2016. 
ROGERS, Nicholas. Hallowenn: from pagan ritual to party night. New York, Oxford University Press, 2002. 
WALTER, Philippe. Christian Mythology: revelations of pagan orginsTranslated by Jon E. Graham. Vermont, Inner Traditions, 2014.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

A trajetória de Martin Luther King Jr

Em memória aos 50 anos do assassinato do ativista político-social e pastor Martin Luther King Jr, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, além de ser lembrado por seu engajamento no movimento negro estadunidense, promovendo passeatas e comícios, como seu famoso comício em 1963, em Washington D.C, onde ele usou uma das frases mais célebres pela qual ficou conhecido: "Eu tenho um sonho". Sendo assim, trago o seguinte texto do prof. Dr. e bispo Paulo Ayres Matos, apresentado em homenagem a King Jr, em 2006.

Martin Luther King Jr fotografado diante da multidão da famosa Marcha de Washington D.C, ocorrida em 23 de agosto de 1963. 
“Quem se importa hoje com Martin Luther King? Quem se interessa hoje por Martin Luther King?”, essa foi a questão colocada há quase duas décadas atrás pelo Don L. Davis, Diretor do Instituto de Pastoral Urbana ligado à Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, num excelente ensaio sobre a relevância do pensamento e obra de Martin Luther King, vinte anos após a sua morte, por ocasião do estabelecimento da terceira segunda-feira do mês de Janeiro como feriado nacional norte-americano, em celebração do seu aniversário no dia 15 do mesmo mês”.1

O argumento central do ensaio de Davis tem a ver com a dura constatação de que a melhor maneira de nos livrarmos do legado da vida do grande ativista social norte-americano em favor dos direitos civis da população negra tem sido a crescente veneração dele por parte da elite norte-americana e, me atreveria a dizer, de todo o mundo, na mesma medida em que os princípios, valores e estratégias que nortearam sua prática revolucionária são negados no cotidiano das relações sociais. Dizia, então, o Dr. Davis, citando um dos biógrafos de King:

“O mesmo congresso e presidente que aprovou o dia do aniversário de Martin King, como feriado nacional, se recusaram a assinar uma nova lei de direitos civis nos anos 80. ... Não seria o caso do Presidente Reagan ter se apercebido de que a melhor maneira de não se confrontar com King é venerá-lo? Honrá-lo com um feriado que, se ele estivesse vivo, nunca teria aceitado? ... É muito mais fácil honrar um herói morto do que reconhecer e seguir um profeta vivo! A melhor maneira de se furtar a qualquer desafio é exaltar e adorar a fonte concreta da qual se originou tal desafio”.

Reunimo-nos hoje aqui neste espaço do Memorial da América Latina, construí- do para celebrar e nos comprometer com o nosso comum destino latino-americano, para mais uma vez honrar a memória e a luta de um dos maiores seres humanos que o século XX teve oportunidade de oferecer a todas as gerações – Martin Luther King Jr. Mas o que será que nos trouxe aqui? Será que nos importamos realmente com sua vida e obra? Haverá realmente algum interesse de nossa parte de nos comprometermos, pelo menos de uma vaga maneira, com os mesmos valores e princípios que fizeram dele um ardoroso lutador pela erradicação das injustiças não só em seu país mas em outros cantos do mundo? O que será que nos motiva na realização dessa III Semana Martin Luther King?

O que me proponho apresentar nesta sessão de abertura dessa importante realização do PALAS ATHENA é uma reflexão sobre a trajetória de um homem que sempre teve diante de si a certeza de que sua obra era anterior a ele mesmo e que não estaria terminada quando de sua morte. No dia anterior à sua morte, na conclusão do discurso proferido aos grevistas dos serviços de água e esgoto da cidade de Memphis, no Estado de Tennessee, King, alegorizando a passagem bíblica que diz ter Moisés visto de longe, do alto da montanha, a terra prometida onde por sua morte não pôde entrar, afirmou:

“O que fariam a mim alguns de nossos doentes irmãos brancos? Bem, eu não sei o que me acontecerá agora. Temos diante de nós duros dias. Mas, isto não me importa agora. Porque eu tenho estado no alto da montanha. E eu não me importo. Como qualquer um, eu gostaria de viver uma vida longa. Longevidade é coisa boa. Mas, eu não estou preocupado com ela agora. A única coisa que quero fazer é cumprir com a vontade de Deus. E Deus me tem permitido chegar ao alto da montanha. E eu a tenho contemplado – a terra prometida. Talvez eu não entre nela acompanhando vocês. Mas, nesta noite quero que vocês saibam que como um povo vamos entrar na terra prometida. E por isto estou feliz esta noite. Eu não temo nada. Nenhum homem me faz ter medo. Meus olhos viram a glória do Senhor”.2

Esta profunda convicção de que a obra na qual estava engajado, era muito maior do que ele mesmo fez de Martin Luther King um símbolo para todas as pessoas que em qualquer lugar lutam pela superação de todas as formas de exclusão e descriminação. A obra de sua curta vida – morreu antes de completar quarenta anos de idade – é e sempre será uma referência maior onde quer que mulheres e homens estejam comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Mas, quem foi este Martin Luther King? Permitam-me apresentar alguns traços que considero importantes em sua trajetória desde Atlanta, onde nasceu, até seu martírio em Memphis.3 King nasceu no dia 15 de janeiro de 1929. Como seu pai, King tornou-se pastor batista, sendo ordenado quanto tinha somente 19 anos de idade, quando também se graduou em sociologia na conceituada faculdade negra Morehouse College. Foi nesta mesma época que King pela primeira vez tomou contato com a vida e obra de Mahatma Ghandi, passando a partir daí a estudar com seriedade os seus ensinos sobre a não-violência como estratégia para radicais mudanças sociais.

Sua carreira acadêmica foi desenvolvida, primeiro no Seminário Teológico Crozer, na Pennsylvania, onde se bacharelou em teologia, e posteriormente na Faculdade de Teologia da Universidade de Boston, onde recebeu o título de doutor em filosofia na área de teologia sistemá- tica. Foi em Boston, sob a orientação do teólogo metodista Harold DeWolf, introduzido à filosofia do personalismo, uma escola filosófica norte-americana que afirma o valor fundamental de cada ser humano enquanto tal.

A formação religiosa de King se deu dentro de um lar e de uma igreja fortemente enraizada na vibrante tradição evangélica negra norte-americana. Ao longo dos tempos, as igrejas negras, principalmente as batistas e metodistas, vieram a ser espaços de resistência e luta contra o racismo e a segregação racial nos Estados Unidos. Foram elas nutridas na aplicação do ensino bíblico à sofrida vida cotidiana da população afroamericana, tanto antes como depois de sua emancipação, tão bem expressa nos cânticos dos Negro Spirituals.

Essa formação religiosa foi fundamental para o desenvolvimento não somente de sua teologia, mas, acima de tudo para uma forte espiritualidade manifesta de modo particular em sua prática social. King se insere numa tradição religiosa afroamericana extremamente ampla e rica em que resistência e luta pela liberdade se conjugam através da interconexão no imaginário religioso das lembranças da mãe-África com a mensagem na Bíblia do Deus do Êxodo, o libertador dos pobres escravos no Egito. Certamente, cânticos como Go down, Moses, tell the Pharoh e War no more! inspiraram gerações e gerações de afro-americanos em sua luta, primeiro contra a própria escravidão e depois contra a descriminação e a segregação raciais.

E isso não foi diferente com Martin Luther King. Neste sentido, a mística e a espiritualidade de King foram sempre caracterizadas pela firme convicção de que o Deus da Bíblia, em meio às lutas de cada dia, sempre está do, no e ao lado dos pobres, dos marginalizados, dos discriminados e dos excluídos da sociedade. Outro aspecto da religiosidade afroamericana que se introjetou profundamente em King foi o estilo oratório peculiar aos pregadores negros norteamericanos. King, quer como pregador, quer como conferencista, quer como ativista social, nunca abriu mão da retórica própria das igrejas negras norte-americanas.

Por outro lado, as pesquisas mais recentes sobre o pensamento de King mostram que sua formação teológica, tanto no Crozer como em Boston, o levaram a aprofundar sua resistência e crescentemente oposição a qualquer forma intimista ou individualista da fé religiosa. Neste sentido, King assumiu crescentemente a agenda teológica do liberalismo norteamericano, especialmente do Evangelho Social (Social Gospel)4. A forte piedade e espiritualidade místicas de King, insertadas na cultura religiosa afro-americana, foram, cada vez mais ao longo de sua curta existência, determinadas por seu crescente e radical compromisso social na luta em favor da justiça e da paz. Os estudiosos, que nas últimas duas décadas têm se dedicado ao resgate do pensamento teológico e social de King, estão afirmando com mais veemência a importância de sua formação teológica e filosófica em sua prática política, de maneira particular a influência da filosofia da não-violência como ensinada e praticada por Mahatma Ghandi.

Entretanto, em que pese a importância tanto de sua formação religiosa na casa de seus pais e na igreja batista negra, como de sua formação acadêmica no Seminário Crozer e na Universidade de Boston, a verdade é que sua vida vai ter uma mudança radical com a sua designação para o pastorado da Igreja Batista da Avenida Dexter em Montgomery, Alabama, no coração racista do chamado Deep South, a terra da mais abjeta descriminação e segregação raciais. Um ano depois de sua chegada a Montgomery, King não teve como escapar ao desafio colocado pela inusitada e radical decisão de Rosa Parks, uma mulher negra de 42 anos de idade, ao recusar ceder seu lugar a um branco num dos ônibus da cidade5 . Rosa, recentemente falecida, por causa de seu aparente tresloucado gesto no dia 1o de dezembro de 1955, acendeu a chama de uma fogueira que logo estaria incendiando a vida de milhares e milhares de mulheres e homens negros em todo sul dos Estados Unidos, inclusive de Martin Luther King.

Quatro dias depois, simultaneamente, ocorreu o boycott contra as companhias de ônibus, o julgamento de Rosa Parks, e a eleição de King por unanimidade para presidente da Associação para o Progresso [de Pessoas de Cor] de Montgomery. Neste mesmo dia aconteceu a virada na vida de King. Naquele dia, King estava virando a página de sua vida de forma irreversível. A tranqüilidade dos tempos escolares, acadêmicos e ministeriais, de êxito pessoal, daria lugar a uma vida tempestuosa de grandes vitórias e terríveis derrotas. Ele e o mundo já não seriam os mesmos. Logo o doutor em teologia teria de dar lugar ao audacioso pastor-ativista. Em menos de dois meses King provou o gosto amargo e ao mesmo tempo desafiador das cadeias de uma sociedade racista.

Daí em diante até o final de sua vida King nunca se envergonhou por um minuto passado em um recinto presidiário; antes pelo contrário, pois, em suas próprias palavras, se envergonhava sim da sociedade que construíra cadeias para encerrar aqueles e aquelas que lutavam em favor da justiça e da igualdade entre todas as pessoas, quer fossem elas brancas ou negras.

Daí em diante King e seus familiares estiveram sempre correndo risco de morte, sendo alvo de uma série infindável de tentativas de assassinato, de atentados a bomba contra sua casa, de acusações infames contra sua integridade moral, intelectual, política e espiritual, inclusive de plágio de sua tese doutoral e de adultério, sendo que muitas dessas acusações foram forjadas pelos próprios órgãos de segurança do governo norte-americano.

É verdade que a luta em Montgomery contra a segregação nos ônibus acabou por ser exitosa, sendo eliminada por ato da Suprema Corte Americana qualquer discriminação; um ano depois do ato corajoso de Rosa Parks o sistema de transporte público no Estado de Alabama foi integrado. Mas, a luta contra o racismo norte-americano estava somente no início. Muito mais havia por fazer, primeiro no sul dos Estados Unidos, depois no norte do país, e tempos depois além das fronteiras do seu país.
As complicações no ano de 1958 não foram poucas e culminaram em setembro com o atentado que King sofreu no Harlem, em Nova Iorque. Em plena recuperação, King resolve, no início do ano seguinte, passar com sua esposa Coretta um mês na Índia se aprofundando nas técnicas das marchas não-violentas de Gandhi, a convite de Jawaharal Nehru, primeiro-ministro daquele país. No início de 1960, outro fato importante vai catapultar as atividades de King: sua transferência para Atlanta a fim de assumir com seu pai o co-pastorado da histórica Igreja Batista Ebenezer.

Os anos seguintes vêm King cada vez mais articular politicamente a luta contra o racismo, tanto local como nacionalmente. Demonstrações sitin, marchas, piquetes, vigílias de oração, tudo isto é motivo para prisões, julgamentos, e atentados, não só contra King, mas contra outros ativistas dos direitos civis, inclusive com o assassinato de Medgar Evers, líder do NAACP no Mississipi. Por outro lado, foram se criando as condições para maior mobilização e organização em níveis local, regional e nacional do movimento dos direitos civis de tal sorte que no verão de 1963 foi possível organizar-se a primeira grande demonstração em escala nacional que se realizou no dia 28 de agosto quando King proferiu seu célebre discurso “I have a Dream”.6

Nessa ocasião King e outros líderes do movimento se encontram uma vez mais com o presidente norte-americano John Kennedy. Os meses seguintes foram de dramáticos acontecimentos: em setembro, quatro meninas negras são mortas num atentado à bomba a uma igreja negra na cidade de Birmingham, Alabama, e em novembro o Presidente Kennedy é assassinado. O ano de 1964 vê King envolvido em diversos protestos por todo o sul dos Estados Unidos, a morte por assassinato de dois estudantes brancos e um negro que estavam fazendo campanha para inscrição eleitoral de negros no Mississipi, a assinatura da primeira parte da Lei dos Direitos Civis, e a concessão do Prêmio Nobel da Paz a King.

No início de 1965 Malcom X, ex-líder do movimento muçulmano negro, é assassinado por antigos companheiros muçulmanos. King, apesar de suas profundas divergências ideológicas com Malcolm, devido a questão do uso estratégico da não-violência, expressa seu profundo pesar pela morte do outro líder negro norte-americano mais importante naquela década. Neste mesmo ano a cidade de Selma, no Alabama, vai se tornar o principal foco das ações do movimento dos direitos civis.

Mas, é no ano de 1966 que King tomar a decisão que terá graves conseqüências para os três anos finais de sua vida: ele resolve deslocar sua ação no movimento dos direitos civis para as cidades do norte dos Estados Unidos. Isto vai lhe custar problemas praticamente insuperáveis tanto com os brancos liberais que o apoiavam, enquanto sua luta estava se dando na região sul do país, como com os setores negros do norte que crescentemente se exasperavam com o pouco progresso de sua situação sócio-econômica num contexto de certo não-segregacionismo, mas, ainda sim, profundamente racista. Os distúrbios urbanos, particularmente no norte do país exemplificavam em grande parte o desencanto com a estratégia não-violenta ardorosamente defendida por King. A manifestação mais veemente dessa desilusão é a proclamação do “Black Power” exatamente por dois dos principais líderes do Movimento Estudantil Não-Violento7.

Ao alugar um apartamento no gueto negro de Chicago, King passa a viver com o cotidiano da vida dos negros numa grande metrópole do norte do país e de um grande centro do liberalismo norteamericano. É neste mesmo ano que King vai começar a se envolver no movimento contra a guerra no Vietnam. No ano seguinte, em março de 1967, no Coliseu de Chicago, durante uma grande demonstração contra a guerra, King lança um forte ataque à política militarista norte-americana não só no Vietnam, mas também em outras partes do mundo. Menos de um mês depois, King pronuncia outro discurso que veio a ser famoso: Além do Vietnam – Tempo de romper o silêncio, 8 no qual explicita de maneira clara sua percepção da íntima conexão entre racismo, pobreza e militarismo. No restante do ano a situação social se agrava e se torna cada vez mais tensa e conflituosa com distúrbios urbanos explodindo em distantes partes do norte do país com enorme número de feridos e mortos. Diante de tal quadro, King cada vez mais articula sua luta não-violenta contra o racismo com as lutas contra a guerra e a pobreza, explicitando cada vez mais com maior clareza a natureza estrutura-econômica de suas causas.

Em fevereiro de 1968 é deflagrada a greve dos trabalhadores dos serviços de água e esgoto de Memphis, no Estado do Tennessee. King resolve apoiar o movimento e durante uma marcha de protesto, a violência irrompe e deixa o saldo de um morto e cerca de cinqüenta feridos. No dia 3 de abril, King profere diante da assembléia dos grevistas o seu discurso “Eu estive no alto da montanha”. No dia seguinte King é assassinado.

Permitam-me, depois desta exposição da caminhada de Martin Luther King, fazer algumas observações sobre o seu legado.

O legado de King não admite a construção de nenhuma mitologia em torno de sua pessoa e obra. Como já foi dito no início desta apresentação, a melhor maneira de não se levar a sério a vida e a obra de King é transformá-lo em um mito que deve ser reverenciado. Certamente isso seria para ele mais do que repugnante. A verdade é, contudo, que muitos círculos isto é o que acontece hoje com a figura de King, à semelhança do que ocorre com outras figuras tais como o próprio Ghandi e, entre nós, Dom Helder Câmara e Ernesto Che Guevara, ideologicamente tão distantes, humanamente tão próximos.

Uma das dimensões mais daninhas à figura histórica de King é sua apresentação como o líder solitário na luta pelos direitos civis. E a mídia tem sido em grande parte responsável por essa distorção histórica. Tal mito se afasta da realidade histórica da qual emergiu a maiúscula figura de King, colocando-se demasiada ênfase em suas extraordinárias qualidades como líder e não considerando devidamente os fatores conjunturais que possibilitaram e contribuíram para sua aparição e atuação em momento tão singular da luta contra o racismo nos Estados Unidos. Na verdade, a liderança nacional de King emergiu como fruto de uma rede de extraordinários líderes locais e regionais que junto às suas comunidades criavam as condições de mobilização e organização para que ações mais amplas promovidas e apoiadas pelas lideranças nacionais pudessem ser bem sucedidas9.

Outra dimensão dessa distorção mítica da figura de King é a ênfase em sua capacidade oratória. Claro que King, como já foi dito, era um extraordinário pregador batista negro, que sabia usar magistralmente a retórica peculiar dos pregadores negros que, influenciados pela forma dialogal das narrativas africanas, fazem com que haja durante os serviços religiosos uma espécie de dança e contradança, entre quem prega e quem ouve o sermão, que resulta num envolvimento comunitário de alta densidade emocional. Aliás, um parêntese, isto é o que faz a pregação pentecostal ter tanto sucesso em contextos africanos, quer na África, quer na diáspora africana em outros países como o Brasil, Cuba e o próprio Estados Unidos.

Tal ênfase em sua retórica, muitas vezes parece insinuar certa manipulação emocional e religiosa – da parte de Luther King – de seus ouvintes, o que seria de fato uma grave distorção de sua mensagem, já que freqüentemente King, em seus sermões e discursos, ia contra a corrente conservadora teológica e política prevalecente entre brancos e negros protestantes norte-americanos. Ao lado da distorção de seus poderes oratórios, há certa ênfase em seu carisma como líder que carregava as massas a realizar o que lhe pare cia o mais apropriado na atual conjuntura. Os estudos mais recentes mostram que, ao contrário de manipulações carismáticas e emocionais, os ativistas sociais viam as ações lideradas por King como a expressão maior de muitos outros líderes, especialmente em nível local. Estudos recentes estão mostrando que grande parte das conquistas da luta pelos direitos civis sob a liderança de King foi resultado de um grande movimento de massa com base nas comunidades locais.10

É claro que King tinha clara consciência de seus carismas, homem profundamente religioso que era. Mas, ele também reconhecia que, diante do racismo prevalecente na sociedade americana, carisma não seria suficiente para embasar e impulsionar a luta a que se propunha junto a muitos outros líderes. Também, King sempre demonstrou profunda consciência com respeito a suas próprias limitações, inclusive com dúvidas profundas sobre os caminhos a seguir em certos momentos mais conflitivos. Uma das suas maiores angústias foi exatamente o fracasso em sua pregação da não-violência, mensagem que nunca conseguiu ganhar o apoio da grande massa de afroamericanos, especialmente entre os mais jovens.
Outra grande frustração de King foi sua incapacidade em ajudar a muitos de seus colegas pastores, negros como ele, a superarem suas ideologias e teologias conservadoras que, segundo ele, se constituíam em grande entrave para o avanço da causa dos direitos civis.

Outra grande angústia de King foi sua constatação que, ao mover sua atuação para o norte dos Estados Unidos, os liberais brancos que estavam dispostos a apoiá-lo enquanto ele lutava somente no sul do país, pouco a pouco foram retirando o respaldo à luta pelos direitos civis, especialmente quando passou a expressar com veemência suas opiniões contrárias à guerra no Vietnam e a vincular racismo, pobreza e militarismo, pregando, mais do que reformas políticas, a reestruturação do sistema econômico-militar que produzia tanto o racismo, como a pobreza, no país e no mundo. O que de fato ele passou a defender tinha muito mais a ver com revolução do que com reforma, ainda que fosse uma revolução não-violenta!

Se for verdade que sua formação religiosa e acadêmica foram importantes para a formação de sua estratégia de mudanças sociais, muito mais verdade, entretanto, é o fato que foi a própria realidade do racismo, da pobreza e do militarismo que se encarregou de mudar sua percepção da realidade socio-políticaeconômica de seu país e do mundo, e, acima de tudo, de suas causas. Foi a decisão aparentemente estapafúrdia de Rosa Parks que jogou King no redemoinho dos direitos civis.

Foi Chicago que fez com que King percebesse que as causas da pobreza eram muito mais intrincadas do que a segregação nos ônibus e escolas do sul dos Estados Unidos, e perceber que elas estavam profundamente interrelacionadas com a pobreza dos guetos negros das grandes cidades do país. Foi o envolvimento do seu país no conflito no Vietnam que o levou a perceber o caráter internacional da exploração econômica sustentado pelo aparato capitalista-militar norte-americano. Quando se apercebeu finalmente de todas estas interconexões, o acadêmico pastor de Montgomery tornou-se perigoso para o sistema.

Na medida em que seu idealismo liberal foi dando lugar a um não-violento realismo radical, o liberal The New York Times, após o discurso contra a ação do governo de seu país no Vietnam, o chamou de demagogo populista. Na medida em que King vai além de seu amor nacionalista, por seu país, e firma, em nome de sua fidelidade, à fé que abraça o seu compromisso internacional com os pobres, marginalizados e excluídos de todo mundo — seja no Peru, na África do Sul, ou no mundo dominado pelo comunismo soviético — King se torna uma grande ameaça, talvez mais perigosa que os militantes do Black Power. Na medida em que é capaz de, em seu caleidoscópio, perceber que pobreza, racismo e militarismo estão intrinsecamente relacionados com o poder econômico, King ultrapassa os limites liberais do permissível. Por isso, seu assassinato é seu destino inevitável. Para isso ele estava preparado. Por isso, como já vimos, termina o seu discurso aos grevistas de Memphis, na noite anterior ao seu assassinato, dizendo:

“Como qualquer um, eu gostaria de viver uma vida longa. Longevidade é coisa boa. Mas, eu não estou preocupado com ela agora. A única coisa que quero fazer é cumprir com a vontade de Deus. E Deus me tem permitido chegar ao alto da montanha. E eu a tenho contemplado – a terra prometida. Talvez eu não entre nela acompanhando vocês. Mas, nesta noite quero que vocês saibam que como um povo vamos entrar nessa terra prometida. E por isto estou feliz esta noite. Eu não temo nada. Nenhum homem me faz ter medo. Meus olhos viram a glória do Senhor”.

Diante dos desafios de um mundo globalizado debaixo do pensamento único e da ditadura do poderoso capitalismo financeiro internacional, a percepção de Martin Luther King Jr. da interconexão entre pobreza, racismo e militarismo, e a mesma luta que ele travou contra os poderes que produzem tal mundo, continuam reclamando um compromisso inabalável para todas as pessoas que acreditam que um mundo diferente é possível.

Notas:
1 Davis, Don L. (Director of the Urban Ministry Institute. Word Impact, Inc.), Who Cares about King?, www.livedtheology.org/pdfs/Davis.pdf, acessado em 20/03/2006.
2 King Jr., Martin Luther. Discurso “I've Been to the Mountaintop”, pronunciado em 3 de abril de 1968, em Memphis, Tennessee, Estados Unidos, www.americanrhetoric.com/speeches/ mlkivebeentothemountaintop.html. Acessado em 20/03/2006.
3 Dados sobre a vida de Martin Luther King Jr. são encontrados no site Martin Luther King Jr. Chronology, http://www.lib.lsu.edu/hum/mlk/srs216.html.
4 Carson, Clayborne. Martin Luther King, Jr., and the African-American Social Gospel. In AfricanAmerican Christianity, editado por Paul E. Johnson, 159-177. Berkeley: University of California Press, 1994. Reimpresso African-American Religion: Interpretive Essays in History and Culture, editado por Timothy E. Fulop e Albert J. Raboteau. New York: Routledge, 1997; http://www.stanford.edu/group/King/additional_res ources/articles/ gospel.htm, acessado em 20/03/2006.
5 Biografia de Rosa Parks, http://www.achievement.org/autodoc/page/par0bio -1, acessado em 20/03/2006.
6 King Jr., Martin Luther. Discurso “I have a dream”, pronunciado em 28 de agosto de 1963, em Washington, DC, Estados Unidos. http://www.usconstitution.net/dream.html, acessado em 20/03/2006.
7 McCartney, John T. Black Power Ideologies: An Essay in African American Political Thought. Philadelphia: Temple University Press (Re-edição em setembro de 1993).
8 King Jr., Martin Luther. Sermão “Beyond Viet-Nam”, pronunciado em 4 de abril de 1967, na Riverside Church, em Nova Iorque, Estados Unidos. http://rriverstone.com/netart/mlk.html, acessado em 20/03/2006.
9 Veja nota número 3.
10 Idem.

Fonte: 
MATTOS, Paulo Ayres. A trajetória de Martin Luther King Jr. Revista Caminhando, v. 11, n. 18, p. 2006, p. 69-80.