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Leandro Vilar

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Almirante Tamandaré, o patrono da Marinha brasileira

Tão importante quanto o general Duque de Caxias, patrono do Exército brasileiro, encontra-se na história do Brasil as ações do Almirante Tamandaré, militar e nobre que viveu na época do império e participou de guerras, revoltas e conflitos decisivos para a história daquele período. O Dia do Marinheiro é celebrado no Brasil na data de 13 de dezembro, aniversário de nascimento do almirante, o qual no fim da vida ganhou entre algumas alcunhas a de Velho marinheiro, referência a sua vida dedicada a marinha. No presente texto decidi contar um pouco da história desse importante homem que em geral é esquecido.

Joaquim Marques Lisboa, o Almirante Tamandaré, em 1873. 
Introdução: 

Joaquim Marques Lisboa nasceu em 13 de dezembro de 1807, na Vila de Rio Grande, na Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul, era o sexto filho do casal de portugueses Francisco Marques Lisboa e Eufrásia Joaquina de Azevedo e Lima, imigrados para o Brasil em 1800. Em Rio Grande, Francisco Marques passou a trabalhar no comércio marítimo que crescia na localidade. Com os anos Francisco passou a exercer atividades navais, tornou-se proprietário de embarcações e ingressou na marinha, chegando ao posto de capitão, e recebendo títulos honoríficos de Segundo Tenente Honorário da Marinha e Comendador da Marinha. A dedicação de Francisco Marques a marinha brasileira influenciou o filho caçula a seguir seus passos. (ALVES, 2007, p. 4). 

Em 1813 com seis anos de idade, Joaquim viajou com seu pai de navio para a capital imperial, o Rio de Janeiro. Ali deu início aos seus estudos laicos e religiosos, pois tornou-se católico. Retornou para casa em 1819, e depois voltou para concluir os estudos escolares em 1820. Devido a convivência com os ofícios náuticos, mostrou logo cedo interesse em seguir a carreira do pai. Todavia, Francisco Marques era receoso de que o filho caçula torna-se militar, pois dois de seus irmãos mais velhos, foram militares e morreram em combate. Apesar desse receio, o senhor Lisboa aceitou a escolha do filho. Em 1822, ano da Independência do Brasil, Joaquim Marques se voluntariou para lutar pelo nascente império. Na ocasião, se voluntariava também Francisco Manuel Barroso (1804-1882), seu amigo de longa data. (MAIA, 1936, p. 129-130).

Voluntário na Guerra de Independência (1822-1825)

A proclamação da Independência do Brasil a 7 de setembro de 1822, pelo príncipe-regente D. Pedro I não foi aceita de forma unânime. Primeiro, isso pegou de surpresa seu pai, o rei de Portugal, D. João VI e sua corte; segundo, a proclamação da independência foi repentina, sem consulta popular do reino. Assim, várias regiões só tomaram conhecimento semanas depois do ocorrido, e a população devota a monarquia lusitana não viu com bons olhos o ato decidido pelo príncipe e seus ministros. Isso gerou revoltas. Assim, o futuro imperador D. Pedro I convocou as forças armadas para sufocar tais revoltas e fazer valer sua decisão. (CALMON, 2002, p. 188-189). 

Como o Brasil não dispunha de uma marinha propriamente naquele momento, a opção foi pedir ajuda. O ministro José Bonifácio, um dos importantes nomes por trás do processo de independência, solicitou apoio urgente de Thomas Cochrane (1775-1860), Conde de Dundonald, experiente militar da marinha inglesa. Cochrane aceitou o pedido de ajuda ainda em 1822. Antes de chegar ao Brasil, a bordo do navio Pedro I, o primeiro-almirante ordenou que soldados e voluntários fossem recrutados para formar uma esquadra. No dia 21 de novembro de 1822, o jovem Joaquim Marques Lisboa com seus 15 anos de idade, se voluntariou para servir na esquadra. O almirante Cochrane chegou ao Brasil em 1823, em março daquele ano. Os primeiros navios partiram do Rio de Janeiro, rumo as províncias da Bahia e Maranhão. Na ocasião, abordo do navio Niterói, Joaquim Marques partiu para lutar na Bahia. (ALVES, 2007, p. 5).

A Niterói (Nictheroy na grafia original) era uma veloz fragata brasileira, capitaneada por João Taylor (1796-1855), marinheiro inglês designado pelo próprio Cochrane para comandar a Nitéroi. Sendo um de seus oficiais, o jovem Joaquim Marques. Neste caso, a fragata atuou na perseguição e combate na costa e no alto mar, contra os navios portugueses que estavam dando suporte aos rebeldes da Bahia e Pernambuco. Inclusive uma das perseguições os levaram rumo a Portugal. (MAIA, 1936, p. 55-56). Além de servir na Nitéroi, durante o mês de maio, Joaquim esteve a serviço do próprio almirante Cochrane, enquanto passou algum tempo no navio Pedro I. (COSTA, 1944, p. 16). 



Thomas Cochrane, Conde de Dundonald, Primeiro-Almirante do Brasil. 
Retornou ainda em 1823 ao Rio de Janeiro, sendo dispensado da marinha. No mesmo mês ingressou na Academia Imperial, estava decidido a se tornar oficial da Marinha. Entretanto, as revoltas continuavam pelo país, e isso levou Joaquim a tentar retomar seu posto como voluntário, mas o então Ministro da Marinha, Francisco Vilela Barbosa, Marquês de Paranaguá, não queria convocar voluntários, preferia manter o efetivo oficial. Porém, o almirante Cochrane alegava que todo o apoio era necessário, pois as revoltas ainda se mantinham. Todavia, Joaquim Marques devido aos seus bons serviços prestados na fragata Nitéroi, conseguiu uma carta de recomendação. Em 27 de julho de 1824 ele recebeu autorização para retomar a marinha. Embarcou no navio Pedro I e zarpou para Alagoas. Naquele ano eclodira a Confederação do Equador (1824). (ALVES, 2007, p. 6). 

Em 25 de março de 1824 foi aprovada a Constituição Imperial que outorgava poderes quase absolutistas ao imperador, o chamado Poder Moderador. Embora o absolutismo tivesse decaído em grande parte da Europa, em outros lugares do mundo como Rússia, China, Coreia, e outras nações asiáticas e africanas ideias similares se mantinham. Porém, adeptos do republicanismo encararam essa constituição como algo ofensivo e descabido. A América do Sul vivenciava um cenário de emancipação de suas colônias, as quais lutavam para se tornarem repúblicas, mas o Brasil seguia o caminho oposto, tornando-se uma monarquia. Assim, eclodiu em Pernambuco uma revolta com preceitos revolucionários, a Confederação do Equador. (PEIXOTO, 1944, p. 208). 

O nome Equador era referência a Linha do Equador, devido a proximidade de Pernambuco com essa faixa geográfica. Após a aprovação da constituição em março, alguns jornais pernambucanos como o Tamoio, Sentinela da Liberdade e o Tifís Pernambucano começaram a publicar matérias críticas a aprovação da constituição e a retomar ideias republicanas, lembrando que anos antes em 1817, houve uma tentativa de proclamar Pernambuco em uma república independente. Assim, idealistas daquele tempo como Manuel de Carvalho e Frei Caneca estavam de volta para comandar uma nova tentativa de revolução que teve início a 2 de julho. (FAUSTO, 1995, p. 153). 


Bandeira da Confederação do Equador. 
Tomando conhecimento da formação dessa confederação que uniu Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Alagoas, o imperador D. Pedro I enviou novamente o exército e a marinha para conter essa tentativa revolucionária separatista. Na ocasião, o jovem Joaquim Marques partiu em missão. A Confederação do Equador conseguiu ser derrotada ainda em 1824. Ao retornar ao Rio de Janeiro, Joaquim Marques ainda não era oficial de marinha, porém, seu irmão José Marques Lisboa decidiu ajudá-lo, enviando cartas ao almirante Cocharen e o capitão Taylor, solicitando recomendações dos mesmos. Para felicidade de Joaquim Marques, ambos os militares responderam as cartas, elogiando o serviço do rapaz. Cochrane ordenou que o adolescente fosse designado oficial da marinha imediatamente. No dia 29 de julho é autorizado a embarcar no navio Pedro I, já como oficial. (COSTA, 1944, p. 19-20).

Maia (1936, p. 95-97) conta que o almirante Cochrane em encontro com o imperador D. Pedro I, no Rio de Janeiro, no ano de 1824, teria dito que sua decisão de nomear imediatamente como oficial, o jovem Joaquim Marques Lisboa, na época por completar seus 18 anos de idade, devia-se ao testemunho do bom serviço prestado pelo rapaz, e que ele era promissor na Marinha. Ele seria o "Nelson brasileiro". Uma alusão ao Visconde Horatio Nelson (1758-1805), notório comandante da marinha inglesa, entre seus feitos esteve de derrotar a frota de Napoleão Bonaparte

A Guerra da Cisplantina (1825-1828)

Já efetivado na Marinha, Joaquim Marques Lisboa no final do ano de 1825, foi designado a servir na fragata Paula, a qual tinha como missão, participar da Guerra da Cisplatina. Quando Joaquim Marques partiu para à Cisplatina, atual Uruguai, contava na época com seus 18 anos, e aguardando ser efetivado como segundo-tenente, algo que ocorreu em janeiro de 1826. (COSTA, 1944, p. 24). Outro importante contemporâneo seu, Luís Alves da Lima e Silva (futuro Duque de Caxias), contava com 22 anos e já era capitão. Tendo seguido também para a Cisplatina. O amigo de Lisboa, Francisco Barroso também estava presente naquela guerra. O motivo central para o início dessa guerra deveu-se a condição de que a Província da Cisplatina sob controle brasileiro, iniciou uma revolta pela sua emancipação. Apoiada pelos argentinos e os paraguaios, que junto formavam as Províncias Unidas do Rio da Prata, tinham o intuito de ajudar a libertar a Cisplatina do controle monarquico brasileiro, e os três territórios formariam uma grande república. 


“Marques Lisboa participava assim de seu primeiro conflito na região platina, lugar em que ele voltaria às lides bélicas em várias outras ocasiões de sua vida. Na Leal Paulista, ele participou da Batalha Naval de Corrales, em maio de 1826, vindo depois a embarcar na Niterói, na qual atuou no bloqueio aos portos de Buenos Aires e Montevidéu, e pouco depois, em julho de 1826, foi nomeado comandante da escuna Constança. Durante a Guerra da Cisplatina, o 2º Tenente participaria de expedições à Patagônia, no encalço de corsários que atacavam embarcações brasileiras. No comando da Constança, atuou no salvamento de 280 companheiros da corveta Duquesa de Goiás, que encalhara e se partira ao meio. A expedição à Patagônia acabaria por não ter êxito, com a perda de navios e vidas, além do que muitos brasileiros foram feitos prisioneiros, dentre eles o jovem militar nascido no Rio Grande. O 2° Tenente Lisboa participaria de um grupo de resistência a seus carcereiros, o qual conseguiu a recuperação da liberdade e do brigue Anna, depois de meses de prisão, voltou a Montevidéu em agosto de 1827, onde embarcaria na corveta Maceió e partiria para nova expedição à Patagônia. Em abril de 1828, Marques Lisboa assumia o comando da escuna Bela Maria, na qual atuaria no combate e aprisionamento do Ocho de Febrero. Quase três meses depois, em julho de 1828, como a Bela Maria parou para reparos, Lisboa assumiu o comando da escuna Rio da Prata, a qual compunha a divisão naval que visava a liquidar os pontos controvertidos da convenção de paz. Em outubro do mesmo ano regressou a Montevidéu, onde encontrou sua promoção a 1º Tenente (estabelecida por Decreto de 12 de outubro de 1827), e embarcou na fragata Príncipe Imperial, em novembro de 1828”. (ALVES, 2007, p. 9-10). 

Os três anos de conflito não foram bons para o Brasil. O imperador D. Pedro I decidiu aceitar uma trégua e posteriormente cedeu o direito de domínio sobre a Cisplatina, vindo essa a se tornar o Uruguai. Após três anos de guerra o saldo de perdas de homens, gastos e a insatisfação popular eram grandes. Isso abalou o governo do imperador brasileiro. 


“A Guerra da Cisplatina constituiu um momento de inflexão para o I Reinado, agravando uma crise que resultaria na abdicação de D. Pedro I. Era o primeiro conflito internacional no qual participava o recém-criado Estado Nacional Brasileiro, mas advinha um processo histórico bem mais antigo, ainda da época colonial, em que Portugal e Espanha digladiaram-se pelas terras no sul da América do Sul”. (ALVES, 2007, p. 9).

A situação para D. Pedro I foi se agravando, levando o imperador perder interesse pelo seu país e voltar os olhos para o outro lado do Altântico. Assim, em 1831, ele abdicou do trono brasileiro, retornando para Portugal, a fim de se tornar rei daquele país. Luís Alves da Lima e Silva naquele momento, testemunhou o processo de abdicação, estando ele na patente de major. Quanto a Joaquim Marques Lisboa, esse permaneceu no Uruguai até abril de 1831, atuando como primeiro-tenente e comandante do navio Rio da Prata. Sua participação na Guerra da Cisplatina foi um grande aprendizado, pois naquele período, ainda com menos de 20 anos de idade, mas já na patente de segundo-tenente, teve que tomar decisões difíceis, foi capturado, conseguiu libertar-se, recuperou e perdeu embarcações, além de ter comandado navios. A experiência naquela guerra havia preparado Joaquim Marques para os conflitos que estavam por vir, dessa vez, em território brasileiro. 

A crise regencial (1831-1840)

Ao retornar ao Rio de Janeiro em 1831, o tenente Joaquim Marques chegou em momento contubardo para a capital. D. Pedro I abdicou em 7 de abril, pressionado por seus ministros e chefes militares, desgostosos com sua falta de tato e irresponsabilidade com o país. Para evitar uma possível abdicação forçada que viesse a se tornar um escandâ-lo público, Pedro I aceitou abdicar, mas passando a sucessão ao seu filho Pedro II, na época com seus cinco anos de idade. Porém, a abdicação do imperador bem vista por alguns, foi mal vista por outros, e abriu espaço para novas revoltas de ordem civil e militar. O major Luís Alves cuidou de algumas dessas revoltas na capital imperial, e como Joaquim Marques estava de retorno ao país, foi convidado para tratar dessas revoltas também. 

"O período regencial foi um dos mais agitados da história política do país e também um dos mais importantes. Naqueles anos estava em jogo a unidade territorial do Brasil, e o centro de debate político foi dominado pelos temas da centralização ou descentralização do poder, do grau de autonomia das províncias e da organização das Forças Armadas". (FAUSTO, 1995, p. 161).

“Mas, nas províncias, a anarquia caminhava: na Bahia, uma sedição militar; em Pernambuco soldados rebeldes, e, logo depois, outra, que dura quatro anos; no Pará os rebeldes depõem o presidente antigo, matam o novo presidente nomeado e o novo comandante das armas, só subjugados depois de tropelias, em 37; é a Cabanagem no Maranhão, tropa e povo são reacionários, querem o poder absoluto, e são vencidos; no Ceará apareceu um partido “restaurador”, que o General Labatut reprimiu, sendo executado, em 34, o chefe, o coronel Joaquim Pinto Madeira; em Minas, em 33, sedição militar, sem maior importância; no Amazonas outro levante de soldados em 32, 33, com morticínio e crimes; em Mato-Grosso revolta de alguns meses. Foi um andaço: contágio vindo do Rio”. (PEIXOTO, 1944, p. 215).


Joaquim Marques Lisboa. Desenho em data desconhecida. 
O tenete Joaquim Marques Lisboa foi designado a prosseguir em 1831 para Pernambuco, a fim de conter pequenas revoltas. Permaneceu atuando entre Pernambuco e Ceará até 1833. O tenente Lisboa participou diretamente dos conflitos envolvidos contra a Abrilada (1832), uma revolta iniciada por comerciantes, a qual contou com a participação de soldados. Embora tenha começado em abril de 1832, a revolta contagiou outros movimentos locais que levaram ao surgimento da Cabanada (1832-1835). No caso, o tenente Lisboa conseguiu conter a Abrilada, mas devido a ter ficado doente, teve que se retirar para tratamento em Salvador, na Bahia. Posteriormente já recuperado, se desentendeu com seus superiores quanto a questões burocráticas, tendo pedido exoneração do comando de duas escunas e quase sofrido um processo interno por desacato de ordem. Porém, retornou a ativa em 1835, a bordo da corveta Príncipe Imperial e depois do Cacique. Ainda no ano de 1835, foi designado ir para o Pará, a fim de combater os insurretos da Cabanagem (1835-1840). (ALVES, 2007, p. 11). 

No Pará, o tenente Lisboa reencontrou seu amigo o tenente Barroso, lá cada um comandou seu próprio navio. Lisboa ficou ao encargo do Cacique e Barroso do BrazileiroA situação de Belém do Pará era problemática na ocasião. Os cabanos, como eram chamados os moradores que viviam a beira de rios, em cabanas, se uniram a escravos negros rebeldes, alguns índigenas e juntos invadiram o palácio do governador do Pará, assassinando-o. Na ocasião, o comandante das armas também foi morto, e os cabanos tiveram acesso ao paiol de armas e munição. Porém, desentendimentos internos levaram a uma cisão do grupo, apesar de não ter contribuído para seu fim imediato. Quando o tenente Lisboa chegou semanas depois, deparou-se com a cidade de Belém tomada pelos cabanos. Joaquim Marques se uniu ao comando do brigadeiro Francisco José de Sousa Soares de Andrea, o qual ordenou bloqueio naval de Belém, o que pressionou os cabanos perante a fome e um surto de varíola, começaram a abandonar seus postos. Apesar da fuga destes, os cabanos ainda resistiram no interior da província até 1840. (COSTA, 1944, p. 36). 

O brigadeiro Francisco José foi nomeado novo governador da província, e Joaquim Marques recebeu a patente de capitão-tenente em 22 de outubro de 1836. Adoeceu novamente em 1837, retornando ao Rio de Janeiro. Devido a eclosão da Sabinada (1837-1838) na Bahia, foi convocado para ali servir. Tendo partido em fevereiro de 1838. A Sabinada foi a tentativa de se implantar uma pequena república em Salvador e arredores, embora contasse com outras pautas em jogo. A revolta durou alguns meses. Concluído seu serviço na Bahia, permaneceu na região até maio, quando recebeu aviso convocando-o para ir lutar na Guerra dos Farrapos (1835-1845), que se desenrolava nas províncias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. (COSTA, 1944, p. 38). 

A Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha foi outra iniciativa emancipatória e republicana, sendo que obteve êxito, especialmente no Rio Grande do Sul, onde entre 1835 e 1845 foi instituída a República Rio-Grandense ou República Piratini. Por sua vez, uma tentativa similar foi promovida na província de Santa Catarina, no ano de 1839, no que resultou na República Juliana, mas essa teve duração curta, sendo desbaratada ainda no mesmo ano. 


Proclamação da República Piratini. Antônio Parreira, 1915. 
Embora tenha recebido a convocação, a ordem efetiva tardou a ser decretada. O capitão Lisboa permaneceu alguns meses no Rio de Janeiro, aguardando as ordens específicas. Na ocasião realizou seu casamento com sua noiva, Maria Eufrásia Lisboa (1817-1869), vindo a se casar em 19 de fevereiro de 1839. Na época, Joaquim contava com seus 32 anos, sendo que sua esposa era dez ano mais nova. Da união matrimonial o casal teve seis filhos: Joaquim, Maria Izabel, Maria Eufrásia, Fernando de Borja, Fernando, e uma outra criança que faleceu prematuramente. (ALVES, 2007, p. 12).

Em março de 1839 foi designado comandante do brigue 29 de Agosto, cuja missão era patrulhar as águas do Uruguai, a fim de interceptar apoio naval para os farroupilhos. Permaneceu naquela missão até agosto, quando foi convocado de volta a capital imperial, pois necessitava-se de um capitão experiente para enfrentar uma revolta no Maranhão, tratava-se da Balaiada (1838-1841), revolta iniciada por Manoel Francisco dos Anjos Ferreira, conhecido pelo apelido de o Balaio, devido a sua condição de confeccionar cestos de palha, chamados de balaio. Indignado com a opressão do governo e dos fazendeiros, Balaio reuniu homens pobres e escravos para se sublevar, e a revolta foi ganhando proporções, escapando do controle das autoridades locais. (FAUSTO, 1995, p. 167).

O capitão Lisboa no comando da brigue 3 de Maio, seguiu ao Maranhão, onde residiu em serviço por dois anos, até que a província fosse definitivamente pacificada, algo que somente ocorreu nos primeiros meses do ano de 1841. O bom serviço prestado por Joaquim Marques lhe rendeu a promoção a patente de capitão de fragata em 1840, e a condecoração de Oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro, em 18 de julho de 1841. (ALVES, 2007, p. 12). Por sua vez, o coronel Luís Alves da Lima e Silva também participou da repressão aos balaios, obtendo mais fama do que outros militares. Seu bom desempenho e comando lhe renderam o título de Barão de Caxias. (AMORA, 1968, p. 14). 

Mares calmos (1840-1849)

Por quase uma década o capitão de fragata Joaquim Marques Lisboa praticamente não esteve envolvido mais em conflitos no Brasil ou no exterior. Ainda entre 1840 e 1842, comandou os navios 2 de Julho e Patagônia, na região do Rio do Prata, onde passou a chefiar a Força Naval Brasileira. Pediu baixa do cargo, retornando ao Rio, onde foi designado a fazer parte da comissão que transportaria a imperatriz D. Teresa Cristina, na época, em visita a Itália. Lisboa recusou o convite. Foi enviado de volta ao sul do Brasil, onde permaneceu até 1844. Retornando ao Rio de Janeiro, foi enviado como Comandante da Divisão do Centro, passando a atuar na Bahia, onde permaneceu por dois anos. Seu bom serviço lhe rendeu em 1847, a promoção de Capitão de Mar e Guerra Graduado. (ALVES, 2007, p. 13).

Entre 1847 e 1848 foi designado para supervisionar questões burocráticas, passando a fazer parte de comissões ligadas ao Regimento Provisional da Marinha, a Escola de Aprendizes Marinheiros, as obras do Asilo de Inválidos da Marinha, organização do pessoal e do material da Armada e do Arsenal Naval, entre outras atividades. Porém, foi dispensado dessas comissões devido a ser designado a viajar a Inglaterra, para buscar o navio a vapor D. Afonso, do qual se tornara comandante. Na viagem de volta da Inglaterra, o capitão Lisboa e sua tripulação socorreram o brigue americano Ocean Monarch, o qual viajava de Boston para Liverpool. Próximo de chegar ao seu destino, o navio sofreu um incêndio. (COSTA, 1944, p. 42-43).


O incêndio do Ocean Monarch. Samuel Walters, 1850. Detalhe para o navio D. Afonso, o qual exibe a bandeira do Império do Brasil. 
O navio Ocean Monarch contava com mais de 300 passageiros, o que incluía a tripulação. Ele foi socorrido pelo D. Afonso, e dois navios menores, o Queen of the Ocean, e o Prince of the Wales, além de contar com apoio de um barco pesqueiro. Apenas o navio do capitão Lisboa, resgatou pelo menos 156 pessoas. Porém, nem todos a bordo do Ocean Monarch sobreviveram. Pelo menos, metade tenha falecido. O imperador D. Pedro II quando soube do ocorrido, doou 100 libras esterlinas as vítimas. O governo britânico premiou o capitão Joaquim Lisboa com um cronômetro folheado a ouro. (COSTA, 1944, p. 45).

Passada essa tragédia em alto mar, a viagem seguiu tranquila. No entanto, já de volta ao Brasil, Joaquim Marques seria convocado para lutar contra nova rebelião. 

A Revolta da Praieira (1848-1850)

Chamada por alguns de revolta, por outros de revolução, o movimento da Praieira teve início no ano de 1848, na Província de Pernambuco. De caráter liberal e federalista, e até socialista em alguns casos, não atentou propriamente pela luta por uma república, apesar de haver alguns membros que pensanssem assim. Todavia, os praieiros defendiam maior autonomia a província pernambucana e a promulgação de uma nova constituição ou a revisão da mesma. Eles se queixavam das atitudes monopolistas de mercadores e latifundiários, a postura conservadora do imperador, do senado e dos ministros, etc. O movimento da praieira, nome que se devia a localidade do jornal liberal Diário Novo, localizado na Rua da Praia, em Recife, reuniu militares e civis, sendo que entre os militares envolvidos estava o general José Inácio de Abreu e Lima (1794-1869). Figura controversa da história imperial brasileira. Abreu e Lima defendeu por alguns anos os movimentos republicanos na Venezuela e Colômbia, tendo servido ao lado de Símon Bolívar (1783-1830). Porém, de regresso ao Brasil, sugeitou-se ao monarquismo. Sua atuação na Praieira é controversa, pois não se sabe ao certo até onde foi sua influência. Porém, foi inocentado da acusação de traidor. (FAUSTO, 1995, p. 178). 

Os ataques dos praieiros tiveram início em Olinda e depois seguiram para Recife e outras localidades próximas. No ano de 1849, o capitão Joaquim Marques foi designado a participar daquele conflito. Chegando em 1 de fevereiro daquele ano, une-se a outros capitães e chefes militares nos confrontos contra os praieiros. Destacando-se o ataque destes a Recife, em 2 de fevereiro, no qual contaram com uma força de dois mil homens, lideradas pelos capitães rebeldes Pedro Ivo Veloso da Silveira e João Ignácio Ribeiro Roma. A invasão de Recife teve início as 5h da manhã, e pela tarde havia se findado. Se desconhece o número exato de mortos e feridos. Os praieiros foram derrotados. Joaquim Marques Lisboa e o capitão J. J. Ignácio posteriormente foram honrados por tal façanha. No caso de Lisboa, esse em 14 de março de 1849 foi graduado a Capitão de Guerra. (MAIA, 1936, p. 117-118; COSTA, 1944, p. 46). 

Os praieiros ainda continuaram a resistir por mais um ano, mas agindo de forma bem mais fraca e desorganizada. A grande derrota sofrida em Recife, no dia 2 de fevereiro, praticamente pôs fim ao movimento. Por sua vez, o capitão Lisboa ao retornar ao Rio de Janeiro, recebeu honrarias pelo resgate do Ocean Monarch e sua breve e exitosa ação contra os praieiros. Em 5 de maio de 1849 realizou novo ato de resgate marítimo, ao rebocar o navio Vasco da Gama, encalhado na entrada da baía de Guanabara. Em junho daquele ano pediu exoneração do comando do D. Afonso, indo cuidar de assuntos burocráticos em terra, pelos meses seguintes. (COSTA, 1944, p. 47-48). 

O Barão de Tamandaré (1850-1860)

A década de 1850 foi tranquila para o capitão Joaquim Marques Lisboa, o qual manteve-se longe de revoltas, conflitos e guerras, embora alguns tenha ocorrido nesse período de tempo. Todavia, o capitão nesse período esteve ocupado com obrigações burocráticas, além de ter permanecido de licença com a família por alguns meses. Em 1850, Lisboa foi nomeado para o comando da Divisão Naval do Rio da Prata, região que ele conhecia muito bem. Porém, devido a motivos de saúde, permaneceu menos de um mês no cargo, pedindo licença médica. Retornou ao Rio, e se mudou com a família para a Vila de Nova Friburgo. Permaneceu de licença de setembro de 1851 até março de 1852, quando totalmente recuperado, foi convocado das suas férias para assumir o cargo de Chefe de Divisão. Em setembro daquele ano foi nomeado ao cargo de Capitão dos Portos da Corte e da Província do Rio de Janeiro. (ALVES, 2007, p. 14).

Voltou a participar da comissão de supervisão das obras do Asilo dos Inválidos da Marinha em 1853. No ano de 1854 foi exonerado do cargo de capitão dos portos para assumir o de Inspetor de Arsenal de Marinha da Corte, cargo que ocupou até 1857. No final de 1854 foi graduado como Chefe de Esquadra e depois como Veador do imperador e da imperatriz. Em 1856, na data de de 2 de zembro foi promovido a Vice-Almirante, quando contava com seus 49 anos. Em 1857 sua saúde voltou a se agravar, embora até hoje os biógrafos e historiadores não saibam exatamente os motivos por esses problemas regulares de saúde dele. O vice-almirante Lisboa solicitou dispensa do cargo de inspertor e outras comissões, requerendo tratamento de saúde, dessa vez, na Europa. Lhe foi autorizado. Ele e a família se mudam, permanecendo dois anos no continente europeu. (COSTA, 1944, p. 52). 

Em 24 de julho de 1858 foi nomeado membro efetivo do Conselho Naval, embora somente tomou posse em retorno ao Brasil, quase um ano depois. De retorno ao Brasil, em setembro de 1859, foi nomeado comadante-em-chefe da esquadra que levou o imperador e a família em visita as províncias do Norte do país. A viagem durou meses e contou com quatro navios, Amazonas, Paraense, Belmonte e Apa, sendo a última que transportava o imperador e a imperatriz. Os demais faziam parte da proteção. A esquadra do imperador retornou ao Rio de Janeiro em fevereiro de 1860. Na ocasião, o vice-almirante foi despensado do comando da esquadra e solicitou sua remoção do quadro de membros do Conselho Naval. Em março daquele ano, ele solicitou ir a Europa para trazer sua família de volta. Em 14 de março de 1860, o vice-almirante Joaquim Marques Lisboa foi agraciado com o título de Barão de Tamandaré


“Durante a viagem ao Nordeste, Marques Lisboa solicitara ao Imperador a possibilidade de trasladar para o Rio de Janeiro os restos mortais de seu irmão, Manoel Marques Lisboa, que se encontrava no cemitério da Vila de Tamandaré, em Pernambuco, onde perecera durante a Confederação do Equador, ao que o Imperador aquiesceu. Posteriormente, em 1860, o Governo cogitava dar um título nobiliárquico ao Vice-Almirante Lisboa, como homenagem aos serviços prestados, sugerindo um dos ministros que fosse atribuído o nome de algum lugar de sua província natal, ao que atalhou o Imperador, determinando o título de Tamandaré, como lembrança do irmão tombado em luta. À constatação de que Manoel Marques Lisboa lutara ao lado dos rebeldes, o Imperador argumentou que o mesmo militar, pouco antes, havia lutado como voluntário em prol da independência, permanecendo a denominação de Barão de Tamandaré”. (ALVES, 2007, p. 16).

Brasão de Armas de Tamandaré. Devido a união de seus filhos com outras famílias, o brasão foi recebendo acréscimos. 
Ainda em 1860 foi designado para o cargo de Conselheiro de Guerra, e autorizado a ir a Europa buscar a família. Retornando em novembro daquele ano, onde foi nomeado ao cargo de Encarregado do Quartel-General da Marinha, cargo de chefia que ocupou por menos de um ano, vindo a pedir dispensa em 1861. Todavia, ocupou comissões e comandou embarcações, além de acompanhar o imperador em suas visitas de revista ao porto e navios. Recebe nos anos seguintes condecorações honoríficas por sua dedicação a carreira na Marinha, e suas ações de comando e altruísmo. (COSTA, 1944, p. 57-58).

A Guerra do Uruguai (1864-1865) e a Guerra do Paraguai (1865-1870)

Apesar do nome, a guerra teve como estopim desentendimentos entre o governo brasileiro e o governo uruguaio. No caso, o então presidente uruguaio, Atanasio Cruz Aguirre (1801-1875), do partido conservador dos Blancos, manteve a política de austeridade do seu antecessor, o presidente Berro. Essa política gerou problemas diplomáticos entre os brasileiros e uruguaios. As tentativas de um acordo desandaram, então a guerra contra o Uruguai foi declarada em 1864. O presidente Aguirre recorreu ao ditador paraguaio Francisco Solano López (1827-1870), para auxiliá-lo no conflito. Solano López por sua vez, tomou suas próprias decisões, altuando navios brasileiros que navegavam pelo rio Paraguai, gerando uma crise diplomática contra o Império do Brasil. 

A revolta de Aguirre foi derrotada, porém, isso não impediu que Solano López prosseguisse com suas escolhas erradas, dentre as quais, ordenar a invasão da fronteira da Província do Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul). Tal condição foi encarada pelo governo brasileiro como um ato de guerra, dando início a um conflito que duraria cinco anos. Os uruguaios e argentinos vieram se aliar aos brasileiros e declaram guerra ao Paraguai. O barão de Tamandaré, então vice-almirante, já se encontrava no Uruguai na ocasião, devido a Guerra do Uruguai (1864-1865), participando nos meses de dezembro a fevereiro dos ataques as forças uruguais. Devido a tal feito, foi nomeado Visconde de Tamandaré, em 8 de feveiro de 1865. 

“Sob o comando de Joaquim Marques Lisboa, barão de Tamandaré, divisão naval dominava ameaçadoramente a baía de Montevidéu. Ela era composta pela fragata Amazonas, pelas corvetas Belmonte, Beberibe, Jequitinhonha, Niterói, Parnaíba; pelas canhoneiras Marim, Araguaia, Ivaí, Itajaí e Maracanã e pelo vapor Recife. Força desmedida, considerando-se o quase nulo poderio naval oriental”. (MAESTRI, 2013, p. 10).

“Diante do encerramento da Campanha do Uruguai, ultimavam-se os preparativos para o enfrentamento com o Paraguai, naquele que viria o maior dos confrontos em que o Brasil se envolveu à época. Na preparação para essa guerra, o Vice-Almirante Tamandaré passou a elaborar a planificação da Campanha, numa empreitada que teve grandes obstáculos, tendo em vista razões múltiplas, como as dificuldades impostas pelo terreno, a luta em águas fluviais, que exigia a adaptação e a aquisição de novas belonaves para a esquadra brasileira, além das desinteligências dos procedimentos de natureza política e diplomática para com os objetivos de cunho militar somando-se finalmente aos desacertos entre os próprios aliados. Apesar desses constantes contratempos e intempéries, o avanço inicial dos paraguaios começaria a refluir, como no caso da vitória na Batalha Naval do Riachuelo, empreendida por uma parte da esquadra comandada por Tamandaré, sob as ordens do Chefe de Divisão Francisco Manuel Barroso, em junho de 1865, e da Rendição de Uruguaiana, que marcou o fim da invasão paraguaia no território do Rio Grande do Sul, em setembro de 1865, triunfo no qual Marques Lisboa esteve presente”. (ALVES, 2007, p. 17-18).

A Batalha Naval do Riachuelo. Victor Meirelles, 1882. 
A vitória em Riachuelo, um dos riachos que desagua no rio Paraguai, já em território argentino, foi a primeira grande conquista de Tamandaré no contexto do final da Guerra do Uruguai e começo da Guerra do Paraguai. Porém, a vitória em Riachuelo guardou uma amarga expectativa. Acreditava-se que a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai derrotaria facilmente os paraguaios, mas a história não foi bem assim. O ano de 1866 foi bastante grave, gerando consideráveis perdas para os exércitos da aliados, o que forçou o Ministro da Guerra do Brasil, a pedir socorro, convocando o Marquês de Caxias, na época, afastado de suas funções por motivos de saúde. O já idoso general Caxias seguiu para a guerra, e mesmo ele, condecorado por suas grandes vitórias no passado, não conseguiu pôr fim nesta, pedindo para se retirar em 1869.  

Por sua vez, Tamandaré também não permaneceu para ver o fim da guerra. Após as vitórias obtidas entre 1864-1866, solicitou licença para retornar para casa. Apesar do reforço encaminhado por Caxias, a Marinha brasileira ficava em boas mãos na ausência de Tamandaré, o qual ao retornar ao Brasil em 1867, foi graduado como Almirante, em janeiro daquele ano. Passando a ser conhecido pelos seus títulos de Almirante Tamandaré. (COSTA, 1944, p. 76). 

O Almirante Tamandaré (1870-1897)

Os últimos grandes feitos militares de Tamandaré foram realizados durante a Guerra do Paraguai. As décadas seguintes ele não voltou a entrar em nenhum novo conflito, até porque após o Paraguai, o Brasil entrou em paz com os Estados vizinhos e dentro do território nacional, nenhuma grande onda de revoltas voltou a eclodir. Assim, o almirante pode se dedicar aos serviços burocráticos. Ainda em 1869 acumulou alguns desses como Ajudante de Campo do Imperador, Gentil-Homem da Imperial Câmara, Ministro do Supremo Tribunal Militar, Membro do Conselho Superior Militar, além de fazer parte de comissões e comandar alguns navios. Todavia, o ano de 1869 também foi marcado pelo falecimento da Viscondessa Eufrásia Lisboa, algo que abalou bastante o marido e a família. (ALVES, 2007, p. 20).

Na data de 16 de dezembro de 1887 foi nomeado Conde de Tamandaré, e no ano seguinte, em 16 de maio de 1888, tornou-se Marquês de Tamandaré. Assumia o título de marquês aos 81 anos de idade. (COSTA, 1944, p. 76). Devido a suas corriqueiras obrigações burocráticas e de chefia, os biógrafos do almirante pouco relataram entre os anos de 1870 a 1887. Porém, Alves (2007), sublinha que nesse período o movimento republicano começou a despontar no país, mas Tamandaré, assim como, Caxias e Osório, também não aderiram a causa republicana, diferente de outros militares como Deodoro e Floriano. No ano e 1889, após o golpe de Estado de 15 de novembro, que instituiu a república no Brasil, o almirante Tamandaré fez questão de não se envolver no golpe e tão pouco fornecer apoio. Inclusive isso o teria magoado muito. 

No dia 17 de novembro de 1889, data da partida da Família Real para o exílio na França, o idoso almirante Tamandaré compareceu ao porto, para se despedir dos monarcas. Os tendo levado até a bordo. Posteriormente o almirante solicitou exoneração de seus cargos e pediu aposentadoria, apesar que ainda continuou a figurar como conselheiro e a estar ligado ao Supremo Tribunal Militar. Os biógrafos comentam que o motivo foi em parte por sua idade avançada, mas também pelo desgosto do fim da monarquia. Lembrando que ele havia dedicado seis décadas de sua vida a lutar pelo império brasileiro. 

Já idoso, ouviu falar das revoltas que eclodiam na recente república brasileira. Como a Revolta da Armada (1891-1894) e a Revolta Federalista (1893-1895), ambas contaram com a participação dos militares que ainda defendiam a monarquia, ou eram contra a ditadura militar de Deodoro e Floriano. De qualquer forma, o Almirante Tamandaré nada fez a respeito disso, permanecendo residindo em sua casa na Gávea, no Rio de Janeiro. Vindo a falecer em 20 de março de 1897, aos 89 anos de idade. O velório como solicitado pelo próprio almirante foi simples e não contou com a presença pública. 

No ano de 1893, o almirante havia escrito seu testamento quanto as diretrizes a respeito do seu velório e sepultamento, comentando o seguinte: 


"Não havendo a Nação Brasileira prestado honras fúnebres de espécie alguma por ocasião do falecimento do imperador, o senhor D. Pedro II, o mais distinto filho desta terra, tanto por sua moralidade, alta posição, virtudes, ilustração, como pela dedicação no constante empenho ao serviço da Pátria durante quase 50 anos que presidiu a direção do Estado, creio que a nenhum homem de seu tempo se poderá prestar honras de tal natureza, sem que se repute ser isso um sarcasmo cuspido sobre os restos mortais de tal indivíduo pelo pouco valor dele em relação ao elevadíssimo merecimento do grande imperador.

Não quero pois, que por minha morte que me prestem honras militares, tanto em casa como em acompanhamento para sepultura.

Exijo que meu corpo seja vestido somente com camisa, ceroula e coberto com um lençol, metido em caixão forrado de baeta, tendo uma cruz na mesma fazenda, branca, e sobre ela colocada a âncora verde que me ofereceu a Escola Naval em 13 de dezembro de 1892, devendo colocar no lugar que faz cruz a haste e o cepo, um coração imitando o de Jesus, para que assim ornado signifique que a âncora cruz, o emblema da fé, esperança e caridade que procurei conservar sempre como timbre dos meus sentimentos. Sobre o caixão não desejo que se coloque coroas, flores nem enfeites de qualquer espécie, e só a Comenda do Cruzeiro que ornava o peito do Sr. D. Pedro II em Uruguaiana, quando compareceu como o primeiro dos Voluntários da Pátria para libertar aquela possessão brasileira do jugo dos paraguaios, que a aviltavam com a sua pressão; e como tributo de gratidão e benevolência com que sempre me honrou e da lealdade que constantemente a S.M.I. tributei, desejo que essa Comenda Relíquia esteja sobre meu corpo até que baixe a sepultura, devendo ficar depois pertencente a minha filha D.M.E.L. (Dona Maria Eufrásia Marques Lisboa) como memória d’Ele e lembrança minha.

Exijo que se não faça anúncios nem convites para o enterro de meus restos mortais, que desejo sejam conduzidos de casa ao carro e deste à cova por meus irmãos em Jesus Cristo que hajam obtido o foro de cidadãos pela lei de 13 de maio.

Isto prescrevo como prova de consideração a esta classe de cidadãos em reparação à falta de atenção que com eles se teve pelo que sofreram durante o estado de escravidão, e reverente homenagem à Grande Isabel Redentora, benemérita da Pátria e da Humanidade, que se imortalizou libertando-os.
Exijo mais, que meu corpo seja conduzido em carrocinha de última classe enterrado em sepultura rasa até poder ser exumado, e meus ossos colocados com os de meus pais, irmãos e parentes, no jazigo da Família Marques Lisboa.
Como homenagem à Marinha, minha dileta carreira, em que tive a fortuna de servir à minha Pátria e prestar algum serviço à humanidade, peço que sobre a pedra que cobrir minha sepultura se escreva: Aqui jaz o Velho Marinheiro."


Almirante Joaquim Marques Lisboa

Apesar de ter sido um funeral simples, e o apelo do almirante em não se noticiar a respeito de sua morte, a notícia rapidamente se espalhou pela cidade do Rio de Janeiro, sendo convocado luto público de oito dias. Alguns militares da Marinha chegaram a escrever cartas para a família de Tamandaré, ou emitir notas públicas sobre o falecimento do mesmo. Todavia, nenhuma autoridade política se manifestou pessoalmente, apenas enviou representantes. (COSTA, 1944, p. 78). O ímpeto monarquista de Tamandaré, não agradava os militares republicanos. De qualquer forma, eles mesmo não deixavam de reconhecer o valor e dedicação daquele homem ao país. O qual em vida já havia sido reconhecido como herói nacional. Curiosamente, foi no período republicano que Tamandaré tornou-se Patrono da Marinha. 

NOTA: Nas biografias mais antigas do almirante, consta que ele teria nascido na Vila de São José do Norte. Porém, a partir da década de 1940, os historiadores e biógrafos corrigiram o equívoco, tendo encontrado documentação que apontava o nascimento na Vila de Rio Grande. 
NOTA 2: Pelo Aviso 3.322 de 4 de dezembro de 1925, foi instituído que o Dia do Marinheiro no Brasil, seria celebrado na datada de 13 de dezembro, em homenagem ao nascimento do Almirante Tamandaré. 
NOTA 3: Atualmente no Brasil existem duas cidades em homenagem ao almirante. Almirante Tamandaré no Paraná, e Almirante Tamandaré do Sul, no Rio Grande do Sul. 
NOTA 4: Por todo o Brasil existem avenidas, ruas, praças, escolas e estátuas em homenagem ao almirante. Uma das estátuas mais notórias foi inaugurada em 1937 no Rio de Janeiro, que contou com a participação do presidente Getúlio Vargas e vários representantes do governo e das Forças Armadas, além da população no geral. 
NOTA 5: Em 1890 foi lançado o cruzador Almirante-Tamandaré
NOTA 6: O Almirante Barroso, Barão do Amazonas, foi amigo de longa data de Tamandaré, inclusive lutaram juntos em várias ocasiões desde a Guerra de Independência até a Guerra do Paraguai. 
NOTA 7: O Clube de Regatas Almirante Tamandaré foi fundado em 1903, poucos anos após o falecimento do Velho marinheiro. O clube ainda hoje existe, ficando sediado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. 
NOTA 8: Informações sobre os filhos e netos do almirante são escassas. Mesmo os biográfos antigos, esses preferiram focar na carreira militar do mesmo, e pouco informam sobre sua vida pessoal e familiar. 
NOTA 9: Em seus últimos anos de vida, Tamandaré costumava receber a visita de seu amigo o almirante Luís Filipe de Saldanha da Gama (1846-1895). Inclusive o almirante Saldanha foi responsável por presentear Tamandaré com uma cruz verde, em 1892. 
NOTA 10: Embora tenha sido contemporâneo do Duque de Caxias, a história praticamente nada sabe sobre a relação de ambos. O que sugere é que praticamente não se conheciam, mesmo tendo participado de guerras em comum. 

Referências bibliográficas:
ALVES, Francisco das Neves. O bicentenário do Almirante Tamandaré: o homem, o cidadão, o militar e sua conjuntura histórica. Caderno de História Memorial do Rio Grande do Sul, v. 1, 2007, p. 1-38. 
AMORA, Paulo. Vultos de dois regimes. Rio de Janeiro, Reper Editora, 1968. (Coleção Civismo Brasileiro).
CALMON, Pedro. História da Civilização Brasileira. Brasília, Senado Federal, 2002.
COSTA, Didio. Tamandaré: Almirante Joaquim Marques Lisboa. 3a. ed. Rio de Janeiro, Imprensa Naval, 1946. 
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2a ed. São Paulo, Fundação do Desenvolvimento da Educação, 1995.
MAESTRI, Mário. A intervenção do Brasil no Uruguai e a Guerra do Paraguai: A Missão Saraiva. V Encuentro de História sobre las Operaciones Belicas Durante la Fuera de la Triple Alianza, República Oriental del Uruguay, Montevideo, 23 a 25 de octubre de 2013. 
MAIA, João do Padro. Através da história naval brasileira. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1936. (Coleção Brasiliana, série 5, vol. 69). 
PEIXOTO, Afrânio. História do Brasil. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1944. (Série 3a - História e Biografia). 


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Entrevista com Abdias Nascimento


Entrevista com Abdias Nascimento 
dada a Revista Acervo, em 2009


Obs: as imagens presentes não constam no texto original. Optei em acrescentá-las para motivo de ilustrar alguns temas e acontecimentos citados. 


Abdias Nascimento nasceu em Franca (SP), em 1914, em uma família coesa, carinhosa e organizada, porém pobre. Em 1929 diplomou-se em Contabilidade pelo Ateneu Francano. Com 15 anos, alista-se no Exército e vai morar na capital paulista. Na década de 1930, engaja-se na Frente Negra Brasileira e luta contra a segregação racial. Prossegue na luta contra o racismo organizando o Congresso Afro-Campineiro em 1938. Funda, em 1944, o Teatro Experimental do Negro (TEN), entidade que patrocina a Convenção Nacional do Negro em 1945-1946.

Abdias do Nascimento com seus 90 e poucos anos. 
A Convenção propõe à Assembleia Nacional Constituinte de 1946 a inclusão de políticas públicas para a população afro-descendente e um dispositivo constitucional definindo a discriminação racial como crime de lesa-pátria. À frente do TEN, Abdias organiza o I Congresso do Negro Brasileiro em 1950. Militante do antigo PTB, após o golpe de 1964 participa desde o exílio na formação do PDT. Já no Brasil, lidera em 1981 a criação da Secretaria do Movimento Negro do PDT.

Na qualidade de primeiro deputado federal afro-brasileiro a dedicar seu mandato à luta contra o racismo (1983-1987), apresenta projetos de lei definindo o racismo como crime e criando mecanismos de ação compensatória para construir a verdadeira igualdade para os negros na sociedade brasileira. Como Senador da República (1991, 1996-1999) continua essa linha de atuação. Em 1991, o governador Leonel Brizola o nomeia secretário de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro (1991-1994). Mais tarde, é nomeado primeiro titular da Secretaria de Cidadania e Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro (1999-2000).

Acervo. O senhor nasceu 26 anos após a abolição da escravatura, o que pode ser considerado tecnicamente como uma geração após a abolição. Como foram sua infância e juventude?

Abdias Nascimento. Minha avó Francelina e minha avó Ismênia haviam sido escravas. Francelina, a mãe de minha mãe, não aguentou com as marcas daquilo, ficou “variada da cabeça” e a internaram no famigerado Asilo Juqueri, no interior de São Paulo. Ela voltou para casa quando eu era adolescente. A avó Ismênia faleceu quando eu era bem pequeno. Minha infância foi cercada de amor numa família estável, e isso me preparou para a vida adulta. Minha mãe fazia tudo para nós nos educarmos e ir em frente, nos deu apoio e nos incentivou.

Éramos pobres, mas havia comida porque ela criava galinhas e cultivava legumes no quintal, além de fazer e vender doces. Ela guardava um conhecimento muito grande de ervas de uso medicinal, e as pessoas da cidade se consultavam com ela. Uma lembrança que guardo é do Engenho Queimado, uma comunidade de negras e negros que lavavam roupa por encomenda. Lembro-me daquelas senhoras negras, vestidas de branco, que vinham em procissão à cidade carregando as encomendas de roupa lavada sobre as cabeças. Nós tínhamos uma vivência rural também, porque minha mãe ia às fazendas como ama de leite e muitas vezes nos levava. Assim, a gente vivia aquele momento de substituição da mão de obra negra escravizada por trabalhadores brancos, imigrantes europeus. Na verdade, para o negro pouco mudou com o fim da escravatura.

Acervo. Nesta fase da vida (infância e juventude) o senhor já percebia a condição social do negro brasileiro?

Abdias Nascimento. Nas fazendas que visitávamos, praticamente todos os negros que existiam, homens e mulheres, eram crias, filhos, netos e ex-escravos que trabalhavam em serviços domésticos. Haviam assimilado a cultura do branco. É provável que não tivessem interesse pelas suas origens, pela cultura africana. Não se chamavam eles como escravos, mas a estrutura do regime escravocrata ficava mantida ali, como se fosse imutável. Eu me irritava às vezes, mesmo criança, com o eterno paternalismo do branco brasileiro. Evidentemente, eu não o identificava dessa forma, não tinha capacidade para analisar assim, mas eu sentia que havia algo errado naquelas atitudes. Quando eu e meus irmãos ganhávamos presentes de algum desses fazendeiros, por exemplo, eu não me sentia bem, fechava a cara. Acho que, de forma instintiva, eu percebia aquilo como um cala-a-boca.

Acervo. Houve um marco vivencial em que pela primeira vez se compreendeu o que seria injustiça ou preconceito racial? Como isto o impactou e qual foi a sua reação?

Abdias Nascimento. O episódio mais marcante envolveu minha mãe, uma vizinha e um colega do grupo escolar onde eu estudava na minha infância lá em Franca, o Felisbino. Ele era órfão, o coitadinho, e vivia perambulando pela rua, contando com uma ou outra pessoa para lhe dar um prato de comida. Um dia, uma vizinha branca nossa resolveu lhe dar uma surra tremenda. A minha mãe, que era uma pessoa muito meiga, cresceu com raiva e foi enfrentar a mulher, arrancando o menino das mãos dela. As palavras de minha mãe, a atitude dela, foram a minha primeira lição de solidariedade racial, a primeira lição de panafricanismo, que recebi ainda menino.

Depois, com o incentivo de minha mãe, eu estudei muito e me formei em contabilidade ainda adolescente. Ofereceram-me um emprego em uma fazenda, onde eu iria, aos 14 anos, ganhar mais que a maioria dos adultos de minha família e vizinhança. Combinamos o dia de eles irem me buscar para me levar à fazenda. No dia, chegou uma carroça carregada com galinhas, cabras e suprimentos que haviam comprado na cidade. E me mandaram subir lá atrás, na traseira, junto com as galinhas e as cabras. Eu me recusei, afinal estava sendo contratado para o cargo de auxiliar de guarda-livros, cuja função era a de dar conta de toda a escrituração comercial do estabelecimento. Não iria me submeter a esse tipo de tratamento. Desisti na mesma hora do tal emprego. Minha família ficou atônita.

Acervo. De Franca, sua cidade natal, qual o seu caminho ao encontro do ativismo?

Abdias Nascimento. Saí de Franca me alistando no Exército. Era a maneira de ir à capital e começar uma vida nova. Minha mãe era amiga de muitas pessoas de influência na cidade, fregueses dos doces que ela fazia ou clientes dos seus tratamentos fitoterápicos. Um deles, o então secretário da Prefeitura ou da Câmara de Vereadores de Franca, Antônio Constantino, me deu um encaminhamento e fui a São Paulo para ser soldado. Só havia visitado a capital em uma outra ocasião, em 1927. Eu fazia parte de uma delegação de jovens atletas de Franca aos jogos estaduais ligados à campanha política de Júlio Prestes. Tinha treze anos e corria a prova de cem metros.

Naquela época, uma das mais prestigiadas instituições do município de São Paulo era a sua Guarda Civil, e era de Franca o seu fundador e diretor, Antônio Pereira Lima. Um orgulho de nossa cidade. A seu convite, a delegação francana foi assistir um desfile dessa Guarda Civil, e eu fiquei estarrecido: todos os seus integrantes eram brancos, louros de olhos azuis; não havia um negro sequer no meio daquela força municipal. Acontece que o senhor Antônio Pereira Lima era nosso vizinho e cliente de minha mãe. Naquele tempo não havia telefone, e os poderosos quando queriam se comunicar mandavam um “moleque de recado”.

Eu e meus irmãos levamos e entregamos muito recado do fundador da Guarda Civil do Município de São Paulo. Tentei saber com ele a razão daquela exclusão dos negros nos quadros da guarda, e ele evidentemente tentou me enrolar numa conversa mole. Mas quem era eu para interpelar um homem poderoso assim? Conversava era com minha mãe sobre o assunto, e ela ficava indignada também, pois era amiga daquele homem; como é que ele poderia sustentar uma atitude dessas? Mais tarde, já na capital, participei de outras iniciativas em relação a essa exclusão dos negros da Guarda Civil, e, finalmente, a Frente Negra Brasileira conseguiu um posicionamento oficial das autoridades sobre o assunto, supostamente acabando com a discriminação.

Acervo. Qual o primeiro passo da sua atuação política e social, qualquer que seja ela? Qual foi a sua primeira manifestação ou participação ativista?

Abdias Nascimento. Eu era um soldado do Exército, e lá era proibido qualquer tipo de ativismo político. Mas dentro do quartel havia muita inquietação, afinal éramos jovens procurando um rumo. Participei de um grupo que publicou e distribuiu um jornal, um panfleto chamado Lanterna Vermelha. E às vezes participava de atos públicos da Frente Negra Brasileira. Mas não podia participar de forma efetiva ou regular por ser soldado do Exército. Conheci nas fileiras do Exército Sebastião Rodrigues Alves, grande amigo de toda a vida. Apesar de qualquer proibição, nós não aceitávamos a discriminação e saíamos quebrando bares e barbearias, entre outras coisas, como protesto inútil de dois jovens ousados. Fui excluído do Exército por causa de um desses incidentes em que eu e Rodrigues Alves reagimos contra o racismo – no caso, não queriam nos deixar entrar numa boate. Depois disso, em 1938, eu, Aguinaldo Camargo e Geraldo Campos de Oliveira puxamos a organização do Congresso Afro-Campineiro. Já me dedicava à luta contra o racismo.

Acervo. Publicamente a percepção da sua atuação começa pelo Teatro Experimental do Negro (TEN). Como e por que ele se formou?

Abdias Nascimento. Foi no Teatro Municipal de Lima, no Peru, que assisti a uma apresentação da peça O imperador Jones, do grande dramaturgo norte-americano Eugene O’Neill, em que Brutus Jones, o principal personagem, um negro, era representado por um ator branco argentino, Hugo d’Evieri, pintado de preto. Da minha indignação diante daquele espetáculo, que apenas refletia o procedimento “normal” no teatro ocidental – um procedimento racista –, nasceu a vontade de criar um teatro negro. Depois, passei um ano em Buenos Aires, onde participei dos espetáculos abertos do Teatro del Pueblo. Era uma riqueza enorme, porque os espetáculos eram acompanhados de sessões onde se discutia a dramaturgia e as questões estéticas e políticas envolvidas nas apresentações. Foi uma grande escola para mim, uma verdadeira formação teatral. Já me sentia pronto para fundar o meu teatro negro.

Mas na minha volta ao Brasil eu fui preso. Havia sido condenado à revelia, quando estava fora do país, por causa daquele mesmo incidente de recusa à discriminação racial, e fui cumprir pena na Penitenciária do Carandiru. Lá criei minha primeira iniciativa teatral, o Teatro do Sentenciado, junto com outros presos e com o apoio e incentivo do então diretor da penitenciária, um médico e homem culto chamado Flamínio Fávero. Só quando saí da prisão pude, finalmente, levar à frente a minha intenção e criar o Teatro Experimental do Negro no Rio de Janeiro.

Acervo. O que o TEN gerou? E como artisticamente o TEN se relacionou no meio cultural?

Abdias Nascimento. O TEN formou o primeiro grupo de artistas, atrizes e atores negros, assim rompendo a barreira de cor no teatro brasileiro. Antes do TEN, os negros não pisavam no Teatro Municipal a não ser para fazer faxina! Além disso, o TEN incentivou a criação de uma literatura dramática que tratasse com os temas e conflitos que surgem da experiência histórica e humana dos africanos e seus descendentes no Brasil. Nelson Rodrigues escreveu uma peça para nós, Anjo negro, e outros autores como Rosário Fusco e Lúcio Cardoso também. O TEM publicou uma antologia chamada Dramas para negros e prólogo para brancos (1961). Fundamentalmente, o TEN propunha-se a resgatar, no Brasil, os valores da cultura negro africana, degradados e negados pela violência da cultura branco-europeia; propunha-se à valorização social do negro através da educação, da cultura e da arte.

Ensaio da peça Sortilégio pelo Teatro Experimental do Negro, em 1957. O homem de joelhos é Abdias, e a sua direita, a atriz Léa Gárcia, a qual foi sua terceira esposa. 
Teríamos que agir urgentemente em duas frentes: promover, de um lado, a denúncia do racismo e uma ação de valorização da estética negra e, por outro lado, fazer com que o próprio negro tomasse consciência da situação social em que estava inserido. Foi nesse sentido que realizamos a Convenção Nacional do Negro, em 1945, cujo Manifesto à nação brasileira embasou a proposta de legislação antirracista e de políticas positivas apresentada à Assembléia Nacional Constituinte de 1946. O I Congresso do Negro Brasileiro, que o TEM realizou em 1950, foi outro marco dessa busca de conscientização e organização política por parte do TEN.

Quanto à afirmação artística do TEN no meio cultural, não há dúvida de sua seriedade e competência. Basta para constatar esse fato ler as crônicas e críticas da época a respeito de nosso trabalho. Havia um grande ceticismo em torno da proposta, gerado pelo próprio preconceito, e muitas vezes a crítica se espantava com a qualidade artística de nossas produções. Reunimos várias resenhas e críticas no livro Teatro Experimental do Negro: testemunhos (1966), compondo um retrato da repercussão de nossos trabalhos no meio cultural da época. Alguns dos mais destacados artistas plásticos brasileiros colaboraram conosco como voluntários. Santa Rosa, Enrico Bianco e Anísio Medeiros criaram cenários para nossas peças, e muitos outros do projeto Museu de Arte Negra a partir de 1950.

Acervo. A partir do trabalho do TEN qual foi sua atuação como liderança ativista?

Abdias Nascimento. Minha atuação sempre teve uma dupla conotação, cultural e política (política no sentido mais amplo da palavra). Aliás, para mim essas esferas são dimensões da mesma iniciativa, que é a defesa e promoção dos direitos e da cultura da população de origem africana. Então meu trabalho como ativista se ligava ao cenário artístico e vice-versa; eram diferentes expressões da mesma coisa. No caso da política, no jornal Quilombo do TEN eu escrevia editoriais sobre a necessidade de o negro atuar na política como candidato e não mais apenas como cabo eleitoral dos outros. Quilombo abria suas páginas a todos os candidatos negros, de qualquer partido.

Uma página do jornal Quilombo editado por Abdias Nascimento.

Acervo.
Mestre Abdias, neste percurso como o senhor se integrou à vida político-partidária? Qual foi o cenário político no seu mandato como deputado federal? E depois como era o cenário quando foi senador?

Abdias Nascimento. Nesse início, nas décadas de 1940, 1950 e 1960, minhas candidaturas foram sempre preteridas ou esvaziadas por alguma desculpa burocrática. Fui candidato a vereador, uma vez, com o lema “Não vote em branco, vote no negro Abdias”. Na histórica ocasião em que Leonel de Moura Brizola se elegeu deputado federal com um terço dos votos do estado da Guanabara, maior votação da história política do Brasil em 1962, eu me candidatei a deputado estadual e pela primeira vez me senti realmente identificado com a proposta de um partido político. O PTB de João Goulart e de Brizola tinha tudo a ver com minha orientação política, embora a questão racial ainda não ganhasse ressonância.

Mais tarde, ainda no exílio, ao reorganizar o antigo PTB, a Carta de Lisboa afirmava o compromisso do partido “com a causa da população negra”. Isto foi resultado de nossas conversas com Brizola em Nova Iorque, em companhia do cientista político Clóvis Brigagão. No Brasil, já no período da anistia e da redemocratização, o PDT consolidaria esse compromisso como prioridade de seu programa político. Dentro do partido, os próprios negros organizaram a sua Secretaria do Movimento Negro, fato inédito na vida partidária brasileira. E o governador Brizola concretizou essa prioridade ao compreender e agir de acordo com a necessidade de incluir negros em seu secretariado de governo, bem como nas suas listas de candidatos a cargos eletivos. O PDT elegeu dois governadores negros, Alceu Collares (RS) e Albuíno Azeredo (ES), e deu posse aos primeiros secretários de estado negros, Carlos Magno de Nazareth Cerqueira, Carlos Alberto de Oliveira Caó e Edialeda Salgado do Nascimento, no governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987).

Quando exerci o mandato de deputado federal (1983-1986), eu era o único negro assumido no Congresso e dedicava o mandato à defesa dos direitos humanos e civis da população negra. Ainda prevalecia, na esquerda daquela época, a ideia de que as questões sociais específicas, como a racial e a de gênero, eram inoportunas e politicamente equivocadas porque dividiriam e enfraqueceriam a luta do proletariado contra a exploração econômica e de classe. Deputados de esquerda e de direita me aparteavam anunciando a ausência do “problema racial” no Brasil e às vezes até invocando, como prova disto, o carinho deles por suas amas de leite negras. Poucos se solidarizavam comigo.

Quando assumi o mandato de senador em 1991, essa situação havia mudado um pouco. Na Constituinte de 1988, havia três deputados negros comprometidos com a causa: Caó (PDT-RJ), Benedita da Silva (PT-RJ) e Paulo Paim (PT-RS). E em 1994 duas mulheres negras assumiram seus mandatos no Senado: Marina Silva (PT-AC) e Benedita da Silva (PT-RJ).

Abdias Nascimento discursando na tribuna do Senado, em 1991. 
A questão racial ficou mais em evidência a partir de 1995, tricentenário da imortalidade de Zumbi dos Palmares, e no contexto da III Conferência Mundial Contra o Racismo (2001). A participação do Brasil nessa Conferência foi um marco importante, e desde então houve vários avanços. Hoje, existe a Frente Parlamentar pela Igualdade Racial, uma reunião de senadores e deputados dedicada à proposição de políticas públicas como o Estatuto da Igualdade Racial e a lei n. 10.639/2003.

Resumindo: quando cheguei à Câmara como deputado pelo PDT, não me deixavam falar, queriam cortar a minha palavra, achavam que eu falava inverdades absurdas. Depois de anos passados fazendo a minha pregação, juntavam-se outras vozes a minha e até recebia o aval dos senadores aos meus projetos de lei. A sociedade vem mudando, à medida que a gente bate, bate, bate na mesma tecla. É verdade que é assim aos pouquinhos, mas é um processo irreversível.

Acervo. Durante o período do seu exílio, o senhor teve uma experiência e atuação internacional, com relações com o Movimento Pan-Africano. Como foi esta experiência? O que lhe trouxe de novo aquele momento? O que o senhor levou da vivência brasileira das lutas pelos direitos humanos e igualdade racial para estes interlocutores?

Abdias Nascimento. Essa experiência internacional foi um desdobramento natural de minha atuação e experiência aqui no Brasil. O grupo do TEN era talvez a única voz no Brasil a defender e divulgar a ideia da negritude de Aimé Cesaire, Léopold Sedar Senghor e Leon Gontran Damas, uma linha de ação poética e política que lutava pela independência dos países africanos, contra o colonialismo e pelo respeito à cultura e à dignidade humana dos africanos e seus descendentes. Nos Estados Unidos, eu me identificava com a corrente de pensamento parecida a essa. Além dos que adotavam essa linha de ação, havia os negros de “linha correta” marxista, e havia os mais conservadores, liberais democratas. Eu tive boas relações com todas essas correntes, porque a luta pelos direitos da população negra nos unia, mas me identificava mais com o que na época se chamava nacionalismo negro e hoje se identifica como a linha do pensamento afrocentrado.

No VI Congresso Pan-Africano, que se realizou em Dar-es-Salaam, em 1974, o conflito entre essa linha e a marxista-leninista se caracterizou de forma nítida. Intelectuais do Caribe, opositores aos governos locais (de direita e de esquerda), foram excluídos do encontro e prevaleceu a linha socialista que proclamava a ascendência da luta de classes sobre qualquer outra consideração.
Esse cenário nós já havíamos vivido no Brasil, quando a esquerda “democrática” se recusava a reconhecer a legitimidade de nossas demandas. Hoje, com a evolução do movimento negro internacional na direção de uma ação e de um pensamento independentes, é fácil constatar que a nossa posição prevaleceu e se desenvolveu ao longo do tempo.

Acervo. Como foi sua descoberta pessoal como artista plástico?

Abdias Nascimento. O I Congresso do Negro Brasileiro votou uma resolução sobre a necessidade de haver um museu de arte negra para estudar e mostrar a nítida, porém ocultada, ligação entre a arte negra e a arte moderna ocidental expressa na arte contemporânea no Brasil. O TEN assumiu o projeto e eu me tornei curador dessa coleção. Junto com Guerreiro Ramos, Ironides Rodrigues e outros do TEN realizamos um trabalho extenso com as artes plásticas, em que tiveram e ainda têm destaque o escultor José Heitor e o pintor Sebastião Januário. A coleção hoje se encontra sob a guarda do Ipeafro, Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, que fundei ao voltar do exílio. O Ipeafro realizou uma mostra importante aqui no Arquivo Nacional, nos anos de 2004 e 2005.

O IPEAFRO foi fundado em 1981 por Abdias Nascimento, sendo sua primeira sede, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), graças ao apoio do arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, na época uma das vozes contra a ditadura militar. 
Na época da inauguração da primeira exposição da coleção do projeto Museu de Arte Negra, que realizamos no Museu da Imagem e do Som em 1968, Efraín Tomás Bó, meu amigo e companheiro da Santa Hermandad Orquídea, me fez um desafio: “Abdias, você que tanto trabalha com as obras dos outros, por que não cria suas próprias pinturas?” A partir desse momento, comecei a desenvolver minha pintura. Mas ela realmente passou a ter vida própria na década de 1970, nos Estados Unidos, onde fiz várias exposições em galerias, museus e universidades em diversas regiões do país.

Acervo. E como foi fazendo a sua coleção de obras de arte? E do que se compõe o seu acervo?

Abdias Nascimento. As obras chegavam, a maioria delas doadas por iniciativa dos próprios artistas, que conheciam o nosso trabalho e colaboravam. Temos telas de pintura em diversos tamanhos, obras em papel (desenhos e gravuras) e esculturas. São aproximadamente 450 obras de outros autores e 160 minhas. A coleção contém obras criadas por alguns dos mais importantes artistas contemporâneos no Brasil, entre eles Bess, Darel, Volpi, Lóio Pérsio, Ivan Serpa, Aldemir Martins, Ana Letícia, Nélson Nóbrega, Iberê Camargo, Manabu Mabe, Fayga Ostrower, para mencionar apenas alguns.

Acervo. Estão fazendo vinte anos da libertação de Nelson Mandela. Como as lideranças políticas brasileiras se representaram nesta luta?

Abdias Nascimento. A esquerda brasileira não se preocupava muito com essa questão. Em 1982, foi o Ipeafro que trouxe ao Brasil, pela primeira vez, uma representação do Congresso Nacional Africano da África do Sul. O Ipeafro realizou em 1984 um seminário internacional sobre a luta da Namíbia por sua independência, com a presença de um representante da SWAPO, também uma iniciativa inédita até então no Brasil. Na Câmara dos Deputados, na qualidade de integrante da Comissão de Relações Exteriores, eu propus e vários deputados assinaram uma moção de rompimento das relações diplomáticas e econômicas com o regime do Apartheid. Em 1988, Benedita da Silva levou essa proposta à Constituinte. Mas a proposta não vingou.

Abdias Nascimento cumprimenta Nelson Mandela, em visita deste ao Brasil em 1991. 
Acervo. Em 1991, o senhor ficou à frente da Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Negras (Sedepron). Já havia alguma secretaria com esta missão no Brasil, seja na esfera municipal ou estadual? Em que contexto político foi criada a secretaria? Como foi sua gestão?

Abdias Nascimento. A criação da Sedepron foi um ato de coragem que demonstrou como o governador Leonel Brizola tinha uma compreensão da questão racial inédita entre os políticos de grande expressão nacional. Brizola criou o primeiro órgão de primeiro escalão com a missão de formular e executar políticas públicas de igualdade racial. Essa ideia era muito ousada na época, pois só existiam até aquele momento órgãos consultivos, conselhos e assessorias. Pouco depois da Sedepron, foi criada a Secretaria Municipal de Assuntos da População Negra de Belo Horizonte, cuja secretária foi a brava ativista Diva Moreira

A Sedepron realizou várias iniciativas, como o curso Sankofa de preparação de educadores e o I Fórum Estadual sobre o Ensino da História Africana na Escola Pública (1991), realizados em conjunto com o Ipeafro. A Sedepron levou essas iniciativas a diversos municípios do interior do estado. Também idealizou o projeto Força Jovem de preparação de jovens para o mercado de trabalho e propôs a criação da Delegacia Especializada em Crimes de Racismo e Discriminação, primeira iniciativa dessa natureza no país. O governador Nilo Batista inaugurou a delegacia, localizada no coração do Centro do Rio de Janeiro, mas o governo posterior o desativou. A Sedepron tomou outras iniciativas, mas ela teve o mesmo destino que essa delegacia: ao tomar posse, o próximo governo extinguiu a Sedepron.

Acervo. A lei n. 10.639, de 2003, que institui a obrigatoriedade do ensino da história africana e da cultura afro-brasileira nos currículos escolares, é uma grande conquista para o cidadão brasileiro na sua compreensão de nação, mas com sete anos de vigência vemos, na prática, lacunas na sua implementação. Qual o passo efetivo que o senhor pensa que se deve dar para a completa adoção desses conteúdos nos currículos disciplinares?

Abdias Nascimento. Precisamos desvincular a imagem do afro-descendente da condição escrava. No Brasil, as palavras “escravo” e “negro” ainda são sinônimos, o que revela o quanto essa ligação penetra fundo na consciência coletiva nacional. Parece uma sugestão pequena, modesta, talvez ingênua, mas é o que me ocorre com mais urgência. E efetivamente é muito mais complexo do que pode parecer. Agora, para a completa adoção desses conteúdos não há um só passo efetivo, depende de nossa ação em todos os campos, junto às escolas, aos educadores e às secretarias de educação municipais e estaduais, junto às universidades e faculdades de licenciatura e pedagogia, enfim... precisamos de uma ação ampla, intensa e a longo prazo.

Acervo. Mestre Abdias, o Estatuto da Igualdade Racial foi aprovado em 2009 entre comemorações, críticas e reações. Qual o futuro que o senhor projeta para a igualdade racial no Brasil?

Abdias Nascimento. Como vemos com a lei n. 10.639, de 2003, é mais difícil implantar e efetivar a execução da lei do que fazê-la tramitar e ser aprovada. O mesmo valerá para o Estatuto da Igualdade
Racial. Mas com isso não quero dizer que não vale a pena tê-lo aprovado. Vale sim, como arma de luta na demanda por sua efetivação.

Acervo. Dos seus 96 anos de idade, da sua trajetória, percepções e visão histórica qual é o possível destino para a maior nação afro-descendente, o Brasil? Abdias Nascimento. O negro neste país está acordado, alerta, e vai continuar sua luta sempre. Isto é um processo irreversível! Espero que o Brasil tenha a sensatez de ouvir-lhe os gritos em vez de se fazer de surdo. O negro no Brasil é maioria, e democraticamente no futuro deve assumir a direção do país! É só uma questão de tempo e de aprimoramento das instituições democráticas.

Abdias Nascimento. O negro neste país está acordado, alerta, e vai continuar sua luta sempre. Isto é um processo irreversível! Espero que o Brasil tenha a sensatez de ouvir-lhe os gritos em vez de se fazer de surdo. O negro no Brasil é maioria, e democraticamente no futuro deve assumir a direção do país! É só uma questão de tempo e de aprimoramento das instituições democráticas.

FONTE: Entrevista com Abdias Nascimento. Revista Acervo, Rio de Janeiro, v. 22, n. 2, 2009, p. 5-14.