Pesquisar neste blog

Comunicado

Comunico a todos que tiverem interesse de compartilhar meus artigos, textos, ensaios, monografias, etc., por favor, coloquem as devidas referências e a fonte de origem do material usado. Caso contrário, você estará cometendo plágio ou uso não autorizado de produção científica, o que consiste em crime de acordo com a Lei 9.610/98.

Desde já deixo esse alerta, pois embora o meu blog seja de acesso livre e gratuito, o material aqui postado pode ser compartilhado, copiado, impresso, etc., mas desde que seja devidamente dentro da lei.

Atenciosamente
Leandro Vilar

sexta-feira, 8 de março de 2019

Percy Fawcett e a cidade perdida de Z

Desde o século XVI a América do Sul é destino de exploradores que buscaram ao longo dos séculos, supostas cidades perdidas como Eldorado, Paititi, Atlântida, entre outras. Geralmente essas cidades são situadas na região Amazônica ou nos Andes, compreendendo dos territórios do Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. Até hoje nenhuma dessas cidades foram encontradas, sendo consideradas por alguns como apenas lendas criadas pelos exploradores espanhóis e portugueses, após confundirem relatos indígenas ou suporem que realmente haveriam prósperas cidades, algumas ricas em ouro. Por outro lado, há quem diga que essas cidades possam ter sido baseadas em lugares reais, mas não sendo iguais como informado nas lendas. 

E no presente texto falo de uma dessas cidades sul-americanas lendárias, mas que foi julgada ser real. Trata-se da cidade perdida de Z, teoria concebida pelo coronel britânico Percy Fawcett, a qual tornou-se uma obsessão ao longo de vários anos de sua vida, levando-a a viajar ao Brasil várias vezes para encontrar indícios dessa misteriosa civilização perdida, a qual Fawcett acreditava que estaria situada no atual estado do Mato Grosso. Assim, procurei contar um pouco da história de Fawcett referente a suas expedições para buscar Z, embora que em vida, ele realizou outras expedições no Brasil e na Bolívia, para fins de mapeamento geográfico, mas nesse tempo ele coletou informações as quais iam formando o quebra-cabeça que ele chamou de Z. 

Breve histórico sobre Fawcett: 

Embora seja lembrado pela fama de explorador com interesse em arqueologia, Fawcett era militar de formação, tendo servido a Coroa Britânica na Ásia, África, Europa e na América do Sul. Vários anos antes de ele iniciar suas missões exploratórias no Brasil, Fawcett já havia percorrido as selvas africanas e lutado em guerras. Percy Harrison Fawcett nasceu em 18 de agosto de 1867, em Torquay na Inglaterra, era filho do militar Edward Boyd Fawcett (1839-1884), capitão do exército e jogador profissional de críquete. Edward era casado com Myra Elizabeth Fawcett (1844-1876). Percy possuía um irmão mais velho, chamado Edward Douglas (1866-1960), que tornou-se montanhista e escritor esotérico. (FAWCETT, 2010). 

Percy como seu irmão mais velho, foram educados no Propriety College em Newton Abbot. Com a morte da sua mãe em 1876, isso afetou bastante o seu pai, o qual profundamente magoado, passou a beber e jogar, contraindo dívidas. Edward Fawcett morreu aos 44 anos devido a tuberculose. Como os filhos não eram mais crianças, cada um seguiu sua vida. Em 1886, aos 19 anos, Percy ingressou na Academia Militar Real em Woolich, decidindo seguir carreira militar como seu pai. Diferente de seu irmão Edward, que seguiu uma vida mais aventureira, com direito a virar budista e se interessar por esoterismo e ocultismo. No ano de 1897, Percy foi nomeado para a patente de capitão e designado para missões na Ásia, passando por Hong Kong e o Ceilão (atual Sri Lanka). Foi no Ceilão que conheceu sua futura esposa, Nina Agnes Patton (1871-1954). Os dois voltariam a se encontrar mais vezes, iniciando um relacionamento. Em 1901 se casaram. Da união do casal nasceram três filhos: Jack (1903-?), Brian (1906-1984) e Joan (1910-2005). (FAWCETT, 2010). 


Percy Fawcett e sua esposa Nina Agnes Patton. 
No ano de 1901, Fawcett recebeu o convite para trabalhar na Royal Geographical Society, sendo enviado para missões no norte da África, participando de expedições geográficas e cartográficas. Foi nesse tempo que ele aprendeu técnicas de sobrevivência, assim como, ganhou gosto pela exploração de terrenos. Fawcett passou os anos seguintes servindo no continente africano até que no ano de 1906, já morando na Irlanda, o governo da Bolívia solicitou da Royal Geographical Society, que enviassem uma expedição para mapear suas fronteiras com o Brasil. A sociedade decidiu enviar Fawcett, que contava com experiência na África, e estava no momento de licença. Com isso, ele foi enviado ao Brasil. (BERTRAN, 1995). 

Percy Fawcett viaja ao Brasil: 

O interesse por Z ainda demoraria alguns anos para surgir. Naquele momento, Fawcett era um major inglês de 39 anos, que pouco sabia falar português e espanhol, e estava em missão para mapear algumas localidades próximas as fronteiras da Bolívia com o Brasil. Fawcett permaneceu alguns meses no Brasil, viajando pelo interior do estado do Mato Grosso, depois seguindo até La Paz, capital da Bolívia. A maior parte do território percorrido por ele e seus homens, tratava-se de selva densa, além da condição de ainda naquele tempo, haviam tribos indígenas que mal falavam o português ou espanhol, e viviam de maneira antiga, andando nus, e até conservando hostilidade com os forasteiros. Em seus diários de viagem, ele relata ter visto animais estranhos, além de ter atirado numa cobra gigante, ter visto aranhas grande e peludas, lobos de pelugem alaranjada, entre outras espécies. (FAWCETT, 2010).

Em 1908, ele percorreu o rio Guaporé, através dos estados do Mato Grosso e Rondônia (embora que naquela época não havia ainda o estado de Rondônia), chegando a sua fonte. No ano de 1909, ele participou de nova expedição, tendo inclusive recebido apoio de soldados brasileiros, que estavam a serviço do marechal Cândido Rondon (1865-1958), famoso militar e explorador brasileiro, de origem indígena, dedicou vários anos de sua vida servindo o Exército e explorando os sertões do Mato Grosso. Rondon não conheceu Fawcett na ocasião de 1909, mas anos depois eles viriam a se conhecer no Rio de Janeiro. De qualquer forma, alguns problemas ocorridos em 1909, levou Percy Fawcett a abortar sua expedição, se desentendo com os soldados brasileiros. (RAMOS; ERTZOGUE, 2016). 


Coronel Percy Fawcett em fotografia de 1911. 
No ano de 1910, de volta ao Brasil, Fawcett seguiu para a Bolívia, onde navegou pelo rio Heath, que percorre aquele país e o Peru, procurando mapeá-lo até sua fonte. Nessas andanças mais ao norte, Fawcett entrou em contato com a extração da borracha na Amazônia, a exploração do trabalho dos seringueiros e até o comércio ilegal de escravos indígenas, para trabalhar nos seringais ou em minas. Ele relata algumas das impressões sombrias que teve sobre isso, em seus diários. De qualquer forma, no ano de 1911, uma notícia surpreendeu parte do mundo, e Fawcett ficou interessado. Naquele ano foi descoberta a cidade inca de Macchu Picchu. Sua descoberta ou redescoberta como alguns sugerem, impulsionou uma onda de exploradores ao Peru e países vizinhos atrás de novas cidades. (BERTRAN, 1995). 

Na sua expedição seguinte, em 1913, percorrendo novamente território brasileiro e boliviano, Fawcett diz que foi naquela época que começou a surgir a teoria de que haveria uma cidade pré-colombiana, situada em algum lugar do interior do Mato Grosso. Influenciado pela descoberta de Macchu Picchu, além de ler matérias sobre pesquisas na região andina, e ter ouvido histórias dos habitantes locais, sobre estranhas formações e objetos raros, Fawcett acreditava que outras cidades perdidas poderiam se encontrar por ali, ocultas nas selvas sul-americanas. Ele pretendia retomar ao Brasil para prosseguir nas investigações, mas seus planos foram adiados, pois em 1914 eclodiu a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Fawcett foi convocado para atuar na guerra, além do fato que várias expedições da Royal Geographical Society foram suspensas nesse período. Fawcett somente retornou ao Brasil em 1920, já com uma teoria em mente, buscar evidência da cidade perdida de Z. (FAWCETT, 2010). 

A teoria da cidade perdida de Z: 

Fawcett passou parte do período que esteve servindo na Primeira Guerra, pesquisando da melhor forma que podia, a respeito de cidades perdidas no Brasil. Chegando a ler sobre história brasileira, algo que ele comenta em alguns de seus diários. Ainda em 1919, ele conheceu o presidente brasileiro, Epitácio Pessoa (1865-1942), o qual visitou Londres, na ocasião. Segundo informa o militar inglês, o presidente Pessoa demonstrou interesse em seu trabalho realizado em seu país, nos anos anteriores. No ano de 1920, em visita ao Rio de Janeiro, ele conheceu o marechal Rondon e se reencontrou com Epitácio Pessoa. Nesse período Fawcett também visitou arquivos e bibliotecas na cidade, procurando por livros, relatórios, mapas e outros documentos que pudessem lhe fornecer subsídios para sustentar sua teoria sobre Z. 

Um dos documentos que lhe chamou a atenção foi o manuscrito 512, cujo subtítulo é Relação histórica de uma oculta e grande povoação antiquíssima, sem moradores, que se descobriu no ano de 1753. A obra de autoria anônima, falava a respeito de uma expedição de bandeirantes ao interior da então Capitania da Bahia. O relato passou vários anos esquecido no acervo da Biblioteca Nacional, até ser encontrado durante uma pesquisa em pilhas de documento. O manuscrito foi publicado em 1839, no tomo I da Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (RIHGB). O manuscrito apresenta alguns trechos incompletos, ainda assim, pode-se ler seu relato sobre ruínas de pedra, e a descoberta de artefatos de ouro no local. Fawcett que tomou conhecimento desse manuscrito, acreditava que Z, talvez pudesse ter existido, pois esse manuscrito referia-se a uma antiga cidade supostamente real, também situada no Brasil.


Primeira página do manuscrito 512. Esse relato influenciou Percy Fawcett a manter sua teoria sobre cidades perdidas no Brasil. 
No mês de maio, Fawcett se reuniu a Rondon e o presidente Pessoa, para debater uma proposta de missão exploratória diplomática. Não se sabe ao certo detalhes da conversa, mas Fawcett solicitava apoio e recursos do governo federal para liderar uma expedição ao Mato Grosso, a fim de procurar a cidade de Z, que ele acreditava que estivesse situada na parte serrana daquele estado. Sendo uma cidade supostamente construída por povos europeus, que migraram há muito tempo para a América do Sul. (RAMOS; ERTZOGUE, 2016).

O interessante na teoria inicial de Fawcett, era que para ele Z, não seria oriunda de culturas indígenas sul-americanas, como os Incas e outros povos andinos, conhecidos por suas cidades de pedra. Ele achava que algum povo do Mediterrâneo, como gregos, cartagineses ou fenícios, poderiam ter navegado há muitos séculos até a América do Sul, adentrado o interior do continente e fundado uma cidade no Mato Grosso. Apesar de soar bem fantasiosa essa ideia, Fawcett, seu filho Jack, na época com seus 17 anos, e o amigo deles, Raleigh Rimmel, acreditavam nessa história. É preciso sublinhar que a ideia de Fawcett para uma cidade de origem "branca" no interior do Brasil, estaria associada com o mito de Atlântida e com a visão racial da época, onde se imperava o racismo científico, no qual dizia que povos negros e pardos, não seriam "evoluídos" o suficiente para realizar grandes feitos. Além disso, ainda no século XIX, teorias sobre a presença de fenícios, cartagineses, gregos, hebreus e vikings, os quais teriam visitado o Brasil entre a Antiguidade e o Medievo, já existiam. (RAMOS; ERTZOGUE, 2016). 

De qualquer forma, Fawcett conseguiu verba do governo brasileiro, apesar que negou-se de receber ajuda de Rondon e seus homens. Aquilo o irritou, pois, para Rondon, Fawcett estava sendo arrogante e tratava-se de um caçador de tesouros, não de um explorador sério, preocupado com a arqueologia e a história. Esse foi o início do desentendimento entre Fawcett e Rondon, que até virou notícia de jornal na época. A expedição de 1920 chegou a ocorrer, mas devido as fortes chuvas que acometeram o Centro-Oeste, o que atrasou a viagem em semanas, Percy Fawcett decidiu abandonar a busca. Porém, no ano seguinte, ele retornou ao Brasil, mais ao invés de ir procurar Z, Fawcett retornou com seu filho e amigo, e outros colaboradores, partindo para o interior da Bahia, a fim de encontrar a cidade citada no manuscrito 512. Fawcett passou semanas percorrendo os sertões baianos, sem encontrar nenhum vestígio da tal cidade que o manuscrito falava. Além disso, antes dele, expedições brasileiras tinham percorrido a região e nada encontram, fosse as ruínas de pedra, as minas de prata ou ouro, que alegavam ali existir. Fawcett era visto por alguns já naquele tempo, como um homem obcecado por lendas.  (BERTRAN, 1995; RAMOS & ERTZOGUE, 2016). 

Em seu diário nota-se que ele estava cansado, já que naquela altura, era um homem com seus 52 anos, já não possuía o vigor de antes para enfrentar longos dias de marcha, e caminhadas pela selva e o cerrado. Embora ele acreditasse que Z pudesse existir, por um lado, ele demonstrava frustração e não conseguir encontrar patrocínio. Posteriormente ele foi aposentado do Exército, apesar de ter ganho uma medalha pela Royal Geographical Society, e outras comendas, Fawcett relata em 1924, que estava frustrado e insatisfeito com sua vida e aposentadoria. Porém, ele ainda estava disposto a retornar ao Brasil. Com isso, Fawcett foi procurar patrocínio, recorrendo aos seus contatos. (FAWCETT, 2010). 

A última expedição: 

No ano de 1925, Percy, Jack e Raleigh retornam ao Brasil, compondo uma expedição patrocinada pela Northern American Newspaper Alliance, a qual Fawcett prometeu matéria exclusiva sobre sua descoberta; além de ser patrocinado pela Sociedade Geográfica Americana, o Museu do Índio Americano e o Instituto Rockfeller. A expedição de 1925 era de suma importância, pois Percy havia recebido dinheiro e outros recursos, além de estar em dívida com seus patrocinadores, ele tinha a obrigação de encontrar algo, do contrário, além de ser um homem endividado, seria chacota internacional, e isso poderia pôr fim a qualquer outra chance de empreender nova jornada ao Brasil. Em março a expedição chegou a São Paulo, de onde após alguns dias se preparando, seguiu de trem até o Mato Grosso, até a capital do estado, Cuiabá. Eles permanecem alguns dias em Cuiabá, cidade onde Percy possuía amigos, devido a suas várias viagens ao Mato Grosso. Apesar de ter trabalhado com outras pessoas no passado, naquela ocasião, Fawcett decidiu empreender a jornada apenas em companhia de seu filho e amigo. (BERTRAN, 1995). 


Jack Fawcett e Raleigh Rimmel, em fotografia de 1925. 
Relatos da época contam que Fawcett estava empolgado com a viagem, e apresentava ideias ocultistas. Diziam que ele falava que estava próximo de fazer uma grande descoberta. O jornalista Edmar Morel em 1936 publicou matéria sobre a última expedição de Fawcett, referindo-se a ele como um homem obcecado por lendas e o sobrenatural, o qual falava pelos cotovelos. E que parecia acreditar em Atlântida. Inclusive teria levado consigo uma estatueta dourada, dada-lhe pelo seu amigo Sir Haggard, um escritor de aventura e interessado em ocultismo, que alegava ter ganho aquela estátua que possuía ligação com Eldorado. Embora haja suspeitas quanto a fidelidade do relato de Morel, quanto ao estado mental de Fawcett no ano de 1925, ele comenta que o último relato que se tem do trio, é datado do final de abril, da fazenda do coronel Hermenegildo Galvão, que acolheu os três ingleses. (BERTRAN, 1995). 

Fawcett em seu diário comenta que já era o mês de maio, tendo ficado cinco dias na fazenda do senhor Galvão, descansando e recobrando as forças. Ele informa que pretendia prosseguir para o norte, em direção ao território dos índios Xingu. Nas páginas seguintes de seu diário, Fawcett relata suas impressões sobre a fauna e a flora, a cultura indígena, os mantimentos, alimentos, acontecimentos ocorridos na estadia na fazenda, além de informar que havia tirado fotografias que seriam enviadas ao jornal que o patrocinava. Parte do trajeto feito ao território Xingu, foi realizado com apoio de peões da fazendo do senhor Galvão, porém, já estando naquela região, Fawcett dispensou eles, prosseguindo somente ele, o filho e o amigo. O último relato de seu diário, data de 29 de maio de 1925. (FAWCETT, 2010).

Nesse relato ele escreve suas reclamações sobre os mosquitos e outros insetos que eram um incômodo contínuo. Fala que dispensou os peões e as mulas de carga, pois atrasariam o avançar da expedição. Comenta que necessitavam caçar pequenos animais para complementar a alimentação, que o clima à noite e pela manhã era agradável, mas à tarde era um calor terrível. Ele comenta que Jack e Raleigh estavam entusiasmados, e que eles haviam parado no Acampamento Cavalo Morto (Dead Horse Camp), local onde em 1920, seu cavalo faleceu. Ou seja, Percy havia retornado a uma localidade conhecida por ele, pois em seu diário, ele diz que ainda podia ver os ossos do animais, e sabia que dentro de uma semana chegaria a aldeia mais próxima. Isso significa que aquele território não lhe era totalmente desconhecido. Esse foi o último relato de Fawcett, tendo entregue tal cópia aos peões que deixaram a expedição. 

O que houve depois? 

Após a data de 29 de maio, nenhuma outra notícia sobre Percy, Jack e Raleigh foi obtida. Eles sumiram. Dias, semanas e meses se passaram. Alguns dos amigos de Percy acharam de início que fosse algo comum, pois ele costumava passar semanas na mata e sem enviar mensagem alguma de seu paradeiro ou condição. Não se sabe a causa da morte dos três. Não se sabe se adoeceram, se foram envenenados ou atacados por animais, ou se feriram, ou foram mortos por indígenas ou caçadores. O paradeiro e a causa da morte deles até hoje é uma incógnita. Percy conhecia parte daquela região, mas acabou se perdendo. Como? Além disso, outras expedições nacionais e estrangeiras já haviam passado pelo Xingu desde o século XIX, e nunca relataram alguma evidência de ruínas - embora que as vezes elas estejam soterradas ou encobertas pela vegetação, o que suscite o seu não avistamento -, ainda assim, Percy estava convencido de que Z estaria naquela região. Mas seu convencimento era sustentado por evidências ou uma obsessão paranoica? 

O "Ponto Z" que Fawcett se referia ao local onde estaria sua suposta cidade perdida, ficava situado entre os rios Xingu e Araguaia, apesar que alguns jornalistas e estudiosos da jornada de Fawcett, sugerem que abarque a região da Serra do Roncador, local onde se encontra vestígios de arte rupestre. Bertran (1995) comenta que a tal serra se estende do Rio das Mortes, desde o Vale dos Sonhos até a cidade de Nova Xavantina. O folclore local fala que naquela região estariam enterrados tesouros indígenas ou tesouros da época colonial, fruto de saques dos bandeirantes. 


Região entre os rios Xingu e Araguaia, no estado do Mato Grosso. Possivelmente trata-se da área onde Percy, Jack e Raleigh tenham desaparecido, enquanto procuravam pela cidade Z. 
Ainda em 1925 expedições de busca, realizadas pelos moradores locais do Mato Grosso, para localizar o trio, foram feitas, mas nada encontraram. Em 1927, em uma entrevista com Nina Fawcett, ela dizia que ainda tinha esperança que seu filho e marido estivessem vivos, mesmo tendo passado dois anos desde o desaparecimento deles. Inclusive alguns jornais já cogitavam a possibilidade de morte. No mesmo ano, um engenheiro francês de nome Roger de Courteville, disse ter encontrado no estado de Minas Gerais, um homem velho, que dizia ser o coronel Percy Fawcett, o qual estaria vivendo como ermitão. A família Fawcett ao saber da notícia, a tratou com suspeita e boato. Nina e o filho Brian, se irritaram com aquilo. Esse não seria o último boato sobre o paredeiro e destino do trio. Nos anos seguintes outras histórias surgiram. (GRANN, 2009). 

No ano de 1928, o jornal Newspaper Alliance, que havia patrocinado a  última expedição de Fawcett, enviou o comandante George Miller Dyott, experiente militar, para procurar os Fawcett e Raleigh. Diott que tinha experiência na selva, apenas encontrou uma caneca que supunha ter pertencido a um dos três. A caneca foi achada por índios do povo Nafaquá, porém, nenhuma outra notícia foi conseguida. As expedições para localizar Fawcett e os outros, continuaram nos anos seguintes, mas algumas delas acabaram mal para os que o buscavam. O nobre inglês Albert de Winton, buscando fama, entrou ilegalmente no Brasil e foi atrás deles em 1930, foi dado como desaparecido. Em 1931 o jornalista e aventureiro suíço, Stefan Rattin, alegou que o coronel Fawcett era prisioneiro de uma tribo indígena, mas negou a dizer como obteve tal informação e partiu sozinho para resgatá-lo. Rattin depois sumiu. Nos anos seguintes, expedições brasileiras foram organizadas, e boatos que os três estavam vivos, começaram a circular pelo Mato Grosso, mas todas as expedições falharam em encontrá-los. (GRANN, 2009). 

O mistério do sumiço dos Fawcett e de Raleigh continuou a ser tema de jornais e livros sensacionalistas nas décadas de 1920 e 1930, até que na década de 1940, a poeira do caso baixou, e as expedições se encerraram. Na década de 1950, nova polêmica envolvendo a expedição veio à tona. No ano de 1952, Orlando Villa-Boas, irmão mais velho dos Irmãos Villa-Boas, conhecidos sertanistas e exploradores dos sertões brasileiros, e responsáveis pelo reconhecimento do Parque Nacional do Xingu, conversando com indígenas do povo Calapalo, esses lhe contaram uma antiga história que três homens brancos foram mortos há vários anos. Orlando que conhecia a história da expedição de Fawcett, pensou que pudesse ser algo referente a eles. Os homens lhe indicaram uma ossada, enterrada sob uma árvore. Orlando recolheu os ossos e os enviou para serem examinados. No entanto, a perícia não confirmou que se tratava de Percy, Jack ou Raleigh. (BERTRAN, 1995). 


Orlando Villa-Boas e dois indígenas diante da suposta ossada de Percy Fawcett. Foi constatado que não eram os ossos dele. A começar pela diferença de altura. O esqueleto tem 1,70 de altura, Fawcett e o filho tinham mais de 1,80 de altura. 
Ainda na época de 1952 e 1953, Brian Fawcett aproveitando que o pai e o irmão estavam novamente em evidência, devido ao achado do esqueleto no Brasil, ele aproveitou para publicar o livro de memórias de seu pai. Segundo Bertran (1995), na época do achado da ossada supostamente pertencente ao coronel Fawcett, sua viúva não lhe deu muita atenção. Anos depois, próximo do fim da vida, Nina Fawcett que havia se tornado espírita, disse ter se comunicado numa sessão espírita com seu marido e filho, o que a deixou mais tranquilizada. Boatos sobre novos esqueletos ou túmulos se seguiram, mas a história voltou a sair de evidência. 

Kuhikugu: 

Na década de 1990, o arqueólogo e antropólogo americano Michael J. Heckenberger, em seus estudos de campo com o povo Cuicuro, no Parque Nacional do Xingu, relatou que os indígenas lhe mostraram locais como fossos, canais, estradas, que indicavam terem sido feitos há bastante tempo, e teriam sido usados para irrigar vários hectares. Heckenberger achou estranho as dimensões daqueles canais e fossos, pois indicavam uma grande área de cultivo, o que sugeria que a plantação devesse abastecer uma comunidade de centenas de pessoas talvez de mais de mil habitantes. 

Heckenberger com o auxílio de sua equipe e dos indígenas, começaram a mapear as construções no território dos Cuicuros, abrangendo uma área de mais de 30 km de extensão, permitindo desenterrar estradas, pontes de terra, canais, fossos, poços, etc. Sua equipe posteriormente identificou locais onde existiam casas, cercas, muros e outras habitações. Tudo indicava que trava-se de um povoado ou uma vila. Apesar que até hoje não se considere que tenha sido uma cidade. Por outro lado, os vestígios apontam que as construções eram feitas de madeira, folhas, palha e barro, diferente das ruínas de pedra com as quais Fawcett esperava se deparar. Kuhikugu ou sítio X11 como também é conhecido, consiste em um dos quinze povoamentos encontrados na região do Alto Xingu, compondo um conjunto urbanístico com vilas, estradas, canais, plantações, paliçadas e fortificações. 


Projeção gráfica de como seria o povoado de Kuhikugu, as margens do lago homônimo, no Mato Grosso, Brasil. 
Heckenberger comenta que de certa forma, Fawcett não estava totalmente errado; de fato houve uma civilização antiga, hoje ainda desconhecida, situada na região do Alto Xingu, mas diferente do que Fawcett esperava, não havia cidades de pedra, ou tão pouco foi fundada por povos europeus. Heckenberger comenta que datações do solo e por carbono 14, sugerem que as vilas possam datar do século VI d.C em diante, não tendo como definir com precisão seu início. Tais vilas, teriam sido fundadas por um povo hoje desconhecido, que é considerado antepassado dos Cuicuros. Porém, não se pode confirmar se Fawcett tivesse conhecimento sobre os sítios arqueológicos do Alto Xingu, e os teria usado para embasar sua teoria de Z. 

NOTA: Sobre as expedições de Percy Fawcett à América do Sul, relatos sobre elas podem ser lidos em livros como Lost trails, lost cities (1953), obra organizada por seu filho Brian, o qual pegou os diários e cartas do pai sobre essas expedições. Esse livro foi reeditado posteriormente com o título de Exploration Fawcett (2010).
NOTA 2: David Grann no livro The Lost City of Z (2009), comenta sobre várias expedições de resgate enviadas para encontrar os Fawcett. 
NOTA 3: Percy Fawcett foi amigo do médico e escritor Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), autor de Sherlock Holmes. As aventuras de Fawcett pelo Brasil e Bolívia, inspiraram Doyle a escrever o livro O Mundo Perdido (The Lost World), publicado em 1912. O qual fala de uma expedição a um misterioso platô na Amazônia, onde supostamente viveriam dinossauros.
NOTA 4: O livro Brazilian Adventure (1933), escrito por Peter Flaming, narra a jornada de Fawcett em busca de Z, e algumas das missões de busca realizadas até então para encontrar ele e os demais. 
NOTA 5: Percy Fawcett também foi amigo do escritor Sir Henry Rider Haggard (1856-1925), autor de populares obras de aventura, envolvendo expedições à África e Ásia, atrás de cidades e civilizações perdidas. Haggard teria dado uma estatueta dourada a Fawcett, alegando ter vindo de Eldorado. 
NOTA 6: O famoso arqueólogo dos cinemas, Indiana Jones, criado por Steven Spielberg e George Lucas, teria em parte, sido baseado em Percy Fawcett. 
NOTA 7: O filme A Cidade Perdida de Z (The Lost City of Z) de 2017, conta parcialmente alguns aspectos da jornada de Percy Fawcett para descobrir sua cidade. O filme omite vários aspectos de como Percy construiu sua teoria, além de representar a idade de Percy e Jack de forma incompatível, pois no filme Percy aparenta ter no máximo 40 anos, diferente dos 58 anos que possuía, e por sua vez, Jack era um homem de 22 anos, alto, louro e belo, diferente do filme, que ele é um adolescente, baixo e de cabelo preto. Além disso, Raleigh é excluído da história. O filme apresenta sua hipótese de como pai e filho teriam morrido. 
NOTA 8: No jogo Shadow of the Tomb Raider (2018), a história de Percy, Jack e Raleigh é mencionada através de páginas perdidas do diário dos Fawcett, alegando que eles teriam seguido rumo ao Peru, e que a cidade Z seria Paititi. Cidade a qual Lara Croft está a procura. 
NOTA 9: Jack Fawcett antes de ir ao Brasil em 1920, morou alguns anos nos Estados Unidos, chegando a atuar como caubói e até fazer umas pontas em filmes. Sobre Raleigh quase nada se sabe de sua vida.
NOTA 10: Boatos que falavam sobre o paradeiro dos Fawcett, sobre a localização de seus túmulos ou ossos, que Jack teria tido filhos com índias, etc. ainda continuaram a ser divulgados nas décadas de 1950 a 1970. 
NOTA 11: O ocultista e líder de seita, o suíço Udo Oscar Luckner, na década de 1970, instituiu uma seita na região da Serra do Roncador, chamada de Monastério Teúrgico do Roncador, com direito a dizer que encontrou os túmulos de Percy, Jack e Raleigh, e teria encontrado a cidade de Z, a qual era chamada de Letha e ficava no subterrâneo, abrigando uma cultura perdida e avançada. A seita de Luckner ganhou certa popularidade por alguns anos. 

Referências bibliográficas:
ANÔNIMO. Relação histórica de uma occulta e grande povação antiquíssima, sem moradores, que se descobriu no anno de 1753, nos sertões do Brazil; copiada de um manuscrito da Bibliotheca Publica do Rio de Janeiro. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo 1, n. 1, 1839, p. 151-156.  
BERTRAN, Paulo. A Atlântida e a tradição de Percy Fawcett. Câmara Legislativa do Distrito Federal, suplemento cultural, ano. II, n. 17 a 20, 1995, p. 30-37. 
FAWCETT, Percy. Exploration Fawcett: Journey to the Lost City of Z. Edited by Brian Fawcett. New York, Overlook Press, 2010. 
GRANN, David. The Lost City of Z: A tale deadly obsession in Amazon. New York, Doubleday, 2009. 
RAMOS, Dernival Venâncio; ERTZOGUE, Marina Hainzenreder. "Temporariamente inacessível": José Viera Couto de Magalhães, Percy Harrison Fawcett e a racionalização do Eldorado (1868-1925). Hlb. Revista de História Iberoamericana, vol. 9, n. 2, 2016, p. 78-98. 

Referência da internet: 
HECKENBERGER, Michael J. As cidades perdidas da Amazônia. Disponível em: https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=2551737695039525556#editor/target=post;postID=5909443290565685480;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=0;src=link

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Sites para se acessar conteúdo sobre a história do Brasil

Diante da percepção que muitas pessoas não tem ciência do potencial da internet para se realizar pesquisa histórica a arquivos, bibliotecas, museus, acervos, etc. Sendo em geral mais fácil essas pessoas recorrerem a sites, blogs e canais de conteúdo simplista e até de caráter duvidoso. Por outro lado, existe a condição que algumas pessoas não sabem exatamente como utilizar as ferramentes dos buscadores online para acessar sites específicos que contenham bibliografia online ou disponível para download, ou até mesmo que concedam acesso a consulta ou download de fontes primárias ou secundárias. Desta forma, decidi redigir esse texto listando alguns dos mais significativos sites que disponibilizamos para estudar a história brasileira do período colonial até o republicano. No caso, não coloquei os sites em ordem alfabética, mas optei em dividi-los por tipo, além de também citar sites estrangeiros que possuem conteúdo sobre história brasileira. 

Acervos e coleções: 

Coleção Brasiliana Eletrônica

Idealizada por Octales Marcondes Ferreira, presidente da Companhia Editora Nacional, como a "quinta série" de uma coleção mais ampla, intitulada Biblioteca Pedagógica Brasileira, a Brasiliana compõe-se de 387 volumes, acrescidos de 26 da série Grande Formato e de 2 da Série Especial. A Coleção foi lançada logo após a Revolução de 1930 e a criação do Ministério da Educação, tendo a dirigi-la, por 25 anos, o grande educador Fernando de Azevedo, depois substituído pelo historiador Américo Jacobina Lacombe.

Sua abrangência se estende pelas principais áreas do saber, da História à Antropologia, da Ciência Política à Geografia, da Sociologia à Lingüística, da Economia às Ciências Naturais, reunindo autores nacionais e estrangeiros que se debruçaram sobre o Brasil, inclusive a importante contribuição dos viajantes europeus que percorreram o país no século XIX.

A coleção Brasiliana não está disponível para download, mas seus livros podem ser lidos online no próprio site da coleção. As obras versam sobre temas diversos e específicos referentes aos períodos colonial, imperial e republicano brasileiro. Todavia, tais obras não consistem em fontes primárias, mas produção secundária de estudiosos do século XX, sobre o Brasil. A coleção pode ser consultada em: http://www.brasiliana.com.br/brasiliana/colecao/obras

Coleção Brasiliana Fotográfica

Para além do acervo impresso de mais de trezentos volumes, a Brasiliana também disponibiliza de um vasto acervo iconográfico. O acervo é formado por pinturas, fotografias, desenhos, gravuras, mapas, etc. O site além de fornecer acesso a esse material iconográfico, também disponibiliza a leitura de alguns artigos, apesar de seu foco ser a produção iconográfica formada por dezenas de milhares de obras. Consulte: http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/

Acervo digital do Museu da Imigração do Estado de São Paulo


O projeto Memória da Imigração integra, por meio de um banco de dados online, o acervo digital do Museu da Imigração e documentos pertencentes ao Arquivo Público do Estado de São Paulo. No total são mais de 250 mil imagens disponíveis para consulta e download gratuito, em uma ferramenta que revoluciona o acesso a fragmentos da história paulista e brasileira.

O trabalho teve início em janeiro de 2011, coordenado pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, e envolveu etapas de organização documental, intervenções de conservação e preservação, digitalização e tratamento das imagens digitais. Como resultado, o banco de dados desenvolvido oferece acesso amplo, público, democrático e organizado a um acervo de inestimável valor material e imaterial relacionado à memória da imigração no Brasil, garantindo ainda a preservação dos documentos originais. A ferramenta permite buscas baseadas em diferentes parâmetros, disponibilizando resultados organizados entre os critérios:
  • Cartas de chamada: Cerca de 32 mil documentos que declaravam garantia de auxílio ao imigrante que pretendesse se juntar à família já instalada no Brasil. Os formulários e cartas facilitavam a entrada do imigrante que viesse trabalhar no país, pois comprovavam a existência de um responsável pelos gastos com passagens e alimentação.
  • Registro de matrícula: Documentação que comprova a passagem do imigrante pela Hospedaria. Por meio do sobrenome é possível encontrar informações referentes à data de chegada, idade, familiares, entre outras. A página do livro em que consta o registro pode ser visualizada em formato digital.
  • Cartográfico: Conjunto de mapas e plantas de núcleos coloniais, loteamentos, fazendas, edificações e da Hospedaria de Imigrantes, contabilizando mais de 2.800 arquivos.
  • Iconográficos: Pesquisa que disponibiliza cerca de oito mil documentos que compõe o acervo de imagens. Entre os materiais, estão retratos de imigrantes, cartões postais, fotografias de viagens e da antiga Hospedaria.
  • Requerimentos da Secretária da Agricultura, Comércio e Obras Públicas (SACOP): Documentos formulados pelos imigrantes buscando obter a restituição de despesas de transporte até a chegada ao Brasil. Alguns desses requerimentos solicitavam antecipadamente passagens ou serviam para prestar contas de adiantamentos.
  • Jornais: Disponibiliza mais de duas mil edições de jornais de colônias de imigrantes no Brasil, publicadas entre os anos de 1886 e 1987. A maior parte dos títulos está na língua materna do grupo de imigrantes ao qual a publicação era dirigida. As edições pertencem ao acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo, Instituto Italiano di Cultura de São Paulo e Instituto Histórico Geográfico de São Paulo.
  • Lista Geral de Passageiros para o Porto de Santos: Relação nominativa dos imigrantes embarcados no período de 1888 a 1965, principalmente em portos europeus, com desembarque previsto no Porto de Santos. Nesta lista constam informações sobre parentesco, nacionalidade, sexo, estado civil, profissão, idade, religião, grau de instrução, dados do passaporte, procedência e destino. Esta documentação era preenchida pelas companhias de navegação e entregue a um funcionário da Inspetoria de Imigração no Porto de Santos. Existem também listas de passageiros brasileiros e estrangeiros, que se movimentaram entre portos da América do Sul ou entre portos brasileiros neste período. Podem ser encontrados ainda, documentos anexos variados, de alguma forma vinculados aos dados constantes nas listas.

O acervo do museu pode ser acessado em: http://www.inci.org.br/acervodigital/sobre.php

Arquivos: 

Arquivo Nacional do Brasil

Fundado em 1838 como o Arquivo Público do Império, o atual Arquivo Nacional reúne documentos impressos, cartas, relatórios, manuscritos, passaportes, decretos, entre outros documentos de ordem administrativa, referentes ao período imperial e republicano. O arquivo também possui uma biblioteca interna que possui livros, jornais, revistas, folhetos, teses, dissertações, obras de referência, etc. Todavia, grande parte da documentação do arquivo não pode ser consultada de forma online, requisitando dos interessados agendamento para consultar o arquivo físico. No entanto, algumas obras estão disponíveis para consulta online, requerendo do pesquisador ter que consultar as várias base de dados vinculadas ao arquivo, para poder ver o que se encontra disponível No caso, grande parte da documentação é referente aos brasileiros, mas há arquivos que abordam sobre imigrantes na época imperial e republicana. Consulte: http://www.arquivonacional.gov.br/br/consulta-ao-acervo.html

Arquivo do CPDOC-FGV

O Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC) é vinculado a Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com sede na cidade do Rio de Janeiro. O CPDOC tem sua produção focada na história política do Brasil no século XX, reunindo documentos escritos, gravados, filmados, etc. de vários políticos, funcionários públicos e pessoas ligadas a política. Atualmente o acervo possui mais de 1,8 milhões de obras, sendo que 80 mil documentos e centenas de entrevistas gravadas, estão disponíveis para consulta online. Além desse material, o arquivo também permite acesso a Revista Estudos Históricos, publicada desde 1988, e ao Dicionário de Histórico Bibliográfico Brasileiro (BHBB), iniciado em 1974, sendo que no caso do dicionário, apenas alguns verbetes e páginas estão disponíveis para consulta online. Para mais informações, acesse: https://cpdoc.fgv.br/sobre

Arquivos da Ditadura 

Site idealizado pelo jornalista ítalo-brasileiro Elio Gaspari, reúne uma série de informações, além de documentos da época da Ditadura Militar. Muitos dos documentos foram reunidos e por Gaspari durante os anos que esteve pesquisando para escrever sua coleção de 5 livros sobre a ditadura. Parte dessa documentação pode ser acessada no site, além de que Gaspari ainda mantém atualização sobre suas pesquisas, publicando alguns artigos a respeito. Acesse: http://arquivosdaditadura.com.br/

Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ)

O Rio de Janeiro historicamente é uma das cidades mais importantes do Brasil, tendo sido capital colonial, imperial e republicana. Instituído oficialmente apenas em 1893, o arquivo geral possuí milhares de obras entre livros, documentos impressos, fotografias, mapas, periódicos, fitas cassetes, fitas VHS, CDs, DVDs, etc. Evidentemente que nem todo essa material está disponível para consulta online, mas parte dele sim, especialmente obras referentes a fins administrativos, como decretos, relatórios, boletins, códigos de obras, catálogos de exposições, inventários, etc. No caso, destaca-se o acesso digital a Série Estudos dos Cadernos de Comunicação, periódico informativo sobre a produção cultural da cidade, a Série Memória que aborda a história de alguns dos principais jornais da cidade; monografias premiadas pelo Concurso do AGCRJ, a Coleção Memória Carioca, que apresenta teses e dissertações sobre a história local e regional; a Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, além de outros conteúdos diversos, como uma produção própria sobre os 450 anos da cidade, disponível para leitura online no próprio site. Para maiores informações, acesse: http://www.rio.rj.gov.br/web/arquivogeral/principal#

Arquivo Público Mineiro (APM)

Criado em 1895 o APM é o maior arquivo do estado de Minas Gerais, contendo milhares de obras, das quais algumas estão disponíveis para consulta online. O acervo permite o acesso a documentos administrativos, fotografias, gravuras, etc. além de permitir o acesso a Revista do Arquivo Público Mineiro, iniciada em 1896, e algumas teses médicas publicadas no século XIX. Para maiores informações, acesse: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/

Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP)

Surgido no século XVIII, o arquivo público estadual de São Paulo continua até hoje produzindo e recebendo documentos, sendo que desde 1940, muitos deles tornaram-se arquivos de categoria permanente. Nos anos 2000 parte desse longo acervo foi digitalizado e também está disponível para consulta presencial. O repositório digital disponibiliza documentos impressos, fotos, filmes, mapas, livros de referência e periódicos. No caso, os documentos impressos versam principalmente sobre temas do século XX, sendo destaque para a documentação do DEOPS (Departamento de Ordem Política e Social), surgido em 1924, e reelaborado durante a ditadura de Vargas (1930-1945) e a ditadura militar (1964-1985).

No tocante as fotos e filmagens, a maioria referem-se a cidade de São Paulo ou o estado, durante o século XX, apesar de haver algumas fotografias do final do século XIX. Já o acervo cartográfico disponibiliza mapas produzidos entre os séculos XIX e XX. Por fim, o acervo também disponibiliza consulta a alguns anuários e relatórios, ao jornal Última Hora, fundado em 1951, além de disponibilizar outros jornais e revistas dos séculos XIX e XX. Salientando que grande parte do acervo não foi digitalizado, a consulta online é apenas uma pequena fração das obras que o arquivo público paulista possui. Para maios informações,consulte: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/acervo/repositorio_digital

Bibliotecas: 

No Brasil existem algumas notórias bibliotecas públicas de âmbito público e privado, que disponibilizam o acesso de parte de seu acervo, fornecendo obras digitalizadas, fotografadas, microfilmadas, ou até mesmo em versão digital, em formatos de PDF, Epub, entre outros. 

Biblioteca Nacional do Brasil 

Fundada em 1810 na cidade do Rio de Janeiro, a partir do acervo da Biblioteca Real Portuguesa, trazida pela Família Real, consiste em uma das bibliotecas públicas mais antigas do Brasil em funcionamento, possuindo o maior acervo bibliotecário da América Latina. Atualmente a Biblioteca Nacional possuí várias funções administrativas para além de ser uma biblioteca tradicional como normalmente estamos habituados. Apesar de grande parte de seu acervo de milhões de livros e obras, não estar disponível online, ainda assim, a biblioteca nos fornece várias possibilidades de consulta online.
  • A Biblioteca Nacional Digital do Brasil: criada em 2006, permite buscar na base de dados da BNDB, obras que estejam disponíveis para consulta online ou download. Incluí-se livros, mas também imagens destes. 
  • Hemeroteca Digital: maior acervo online de jornais digitalizados no Brasil, reunindo 7.141 periódicos de distintos estados brasileiros, publicados desde o século XIX. 
  • Acervo cartográfico: disponibiliza mais de 22 mil mapas, quase 2.500 atlas e várias monografias e obras referentes ao tema. A maior parte dos mapas é referente ao Brasil, mas existem obras de outras regiões.
  • Acervo iconográfico: disponibiliza milhares de imagens entre gravuras, pinturas, retratos, fotografias, desenhos, caricaturas, livros de arte, etc.  referentes a história brasileira, do período colonial ao republicano, tendo sido produzido por artistas brasileiros e estrangeiros. O acervo também contém obras estrangeiras, das quais, algumas foram doadas a biblioteca. Parte do acervo está disponível para consulta online e download. 
  • Acervo de manuscritos: formado por mais de 900 mil documentos, datados desde o século XI, estão dividido em 240 coleções. Uma pequena parte desses documentos está disponível para consulta online. 
  • Acervo musical e sonoro: formado por 250 mil peças entre livros, fotografias, partituras, manuscritos, discos, programas de concertos, livros de ópera, etc. da produção nacional e internacional. Parte dessa produção está disponível para consulta online. 
Sede da Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro. 
A biblioteca também possuí outros acervos, mas estes não estão disponíveis para acesso online, apenas para consulta sobre suas referências e localização no acervo geral. Para maiores informações consultar: https://www.bn.gov.br/explore/acervos

Biblioteca do Museu Nacional


O Museu Nacional do Brasil que havia completado seus 200 anos, foi vítima em outubro de 2018, de um terrível incêndio. Que destruiu grande parte de seu acervo e alguns dos andares de sua estrutura. Apesar dessa tragédia histórica, a biblioteca digital ainda continua em operação, permitindo acessar alguns documentos digitalizados, remontando a produções arqueológicas, botânicas, paleontológicas, antropológicas, históricas e geográficas, desde o século XIX. Alguns documentos inclusive foram redigidos por autores estrangeiros, em língua francesa e alemã. Para acessar o site da biblioteca, confira: http://www.museunacional.ufrj.br/obrasraras/documentos.html

Biblioteca do Senado Federal


Talvez alguns brasileiros não saibam, mas o Senado Federal possui uma biblioteca, editora e livraria, a qual publica obras de teor geralmente histórico e biográfico. Além disso, parte do acervo da biblioteca foi digitalizado o que inclui obras antigas e raras. Apesar que muitos dos senadores nem se quer façam uso dessa importante biblioteca, não significa que o restante da população deva agir da mesma forma. 

O acervo online é composto por milhares de obras entre livros, jornais, revistas, documentos e manuscritos, que versam sobre assuntos de política, economia, sociologia, história, biográfica, literatura, geografia, urbanismo, etc. O acervo inclui produções referentes a história brasileira e portuguesa, mas também algumas obras sobre outros lugares. Quanto aos jornais, o acervo online disponibiliza acesso a 16 jornais, o que inclui edições recentes do ano de 2018. A biblioteca digital também permite se acessar obras de produção própria do Senado Federal, que versam sobre normas, política, direito, etc. O site da biblioteca pode ser acessado em: http://www2.senado.leg.br/bdsf/.

Todavia, além dessas obras disponíveis gratuitamente para download, a editora do Senado Federal possui sua livraria, na qual permite se comprar, inclusive por preços baixos, livros sobre história colonial, imperial e republicana, direito, jurisprudência, biografia, literatura, etc. sendo alguns publicações novas, outras sendo edições de obras mais antigas. Há alguns livros sobre história internacional também. A coleção Edições do Senado Federal atualmente consta com mais de 250 volumes. Sendo que 103 volumes, podem ser baixados gratuitamente no site da livraria: https://livraria.senado.leg.br/index.php?route=common/home

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindin


A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin é um órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo (USP). Foi criada em janeiro de 2005 para abrigar e integrar a coleção brasiliana reunida ao longo de mais de oitenta anos pelo bibliófilo José Mindlin e sua esposa Guita. A coleção foi doada pela família Mindlin à USP em um gesto de extrema generosidade para com a nação. Com o seu expressivo conjunto de livros e manuscritos, a brasiliana reunida por Guita e José Mindlin é considerada a mais importante coleção do gênero formada por particulares. São 32,2 mil títulos que correspondem a 60 mil volumes aproximadamente.


Em 2002, o professor István Jancsó, então diretor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, concebeu, juntamente com José Mindlin, o projeto de construção de um moderno edifício capaz de abrigar as duas importantes coleções brasilianas da USP (a do próprio IEB, fundado em 1962 pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, e a de José e Guita Mindlin). A Biblioteca Mindlin, enquanto instituição da Universidade de São Paulo, foi criada em função desse projeto e a doação do acervo foi confirmada em cerimônia realizada em maio de 2006. A nova sede da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin foi inaugurada em março de 2013.

O acervo online disponibiliza milhares de obras que vão do século XVI ao XX, distribuídas em almanaques, cartas, dicionários, folhetos, livros, manuscritos, periódicos, obras de referência, mapas, imagens, etc. Podendo ser acessado em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm-ext/1

Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD)

Criada em 2002 pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), e em parceria de outras coordenações e instituições, a BDTD é o maior acervo online do Brasil em matéria de teses e dissertações, além de disponibilizar outros tipos de documentos. No site informa-se que atualmente o site disponibiliza 408.274 dissertações, 151.837 teses, 560.110 documentos, todos oriundos de 114 instituições. No caso, é preciso sublinhar que o site disponibiliza teses e dissertações de todas as áreas que existem pós-graduação no Brasil, porém, aos interessados em estudar história, pode-se utilizar o buscador da BDTD para localizar trabalhos sobre história brasileira ou de outros países, caso haja obras a respeito. Acesse: http://bdtd.ibict.br/vufind/

Biblioteca Nacional de Espanha (BNE)

Fundada em 1712, a BNE possui um acervo de milhões de obras, sendo parte desse acervo tendo sido digitalizado nas últimas décadas. Diferente de Portugal, onde se encontram mais obras referentes ao Brasil, a Espanha possuí livros sobre o Brasil, especialmente referentes ao período da União Ibérica (1580-1640), época na qual Portugal e suas colônias estiveram sob dominação espanhola. Mas além de livros sobre esse período, a biblioteca digital também disponibiliza gravuras, mapas, documentos e livros referentes ao século XVIII e XIX, consistindo em obras doadas a biblioteca. Para mais informações, acesse: http://www.bne.es/es/Catalogos/BibliotecaDigitalHispanica/Inicio/index.html

Biblioteca Nacional de Portugal (BNP)


Fundada em 1796, a BNP conta com um acervo de milhões de obras, sendo que milhares dessas se encontram disponíveis para download. É evidente que a maior parte dessa produção diz respeito a história portuguesa, porém, encontram-se livros, periódicos, mapas, pinturas, etc. referentes ao Brasil. Já que o Brasil esteve sob domínio português de 1500 a 1822. O site também fornece várias outras informações, para consultá-las, acesse:http://purl.pt/index/geral/PT/index.html

Institutos:

Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)

Fundado em 1838 na cidade do Rio de Janeiro, é a mais antiga entidade brasileira em funcionamento, que fomenta a pesquisa e a produção histórico e geográfica brasileira. Embora em determinadas épocas o instituto também tenha publicado artigos de caráter biográfico, antropológico, etnológico, arqueológico, etc. Contando com o imperador D. Pedro II como presidente emérito, o IGHB há mais de 180 anos mantém a produção de sua revista ativa, a qual foi publicada originalmente em 1839, e até hoje mantém-se em circulação. Embora o instituto possua uma acervo formado por seu arquivo, biblioteca, museu, hemeroteca, mapoteca e acervo iconográfico, esses não estão disponíveis para consulta online, apenas consulta presencial. 


Todavia, a disponibilidade de se consultar online e até de realizar download de mais de 450 exemplares da Revista do IHGB, consiste numa grande fonte de estudo. As edições do século XIX são conhecidas por trazerem bastante matérias sobre o período colonial, com direito a terem publicado monografias, ensaios, artigos, transcrições de manuscritos, traduções de textos em francês, inglês, holandês, alemão, etc. que se referem ao Brasil; além de terem publicado também livros coloniais, dividindo-os em capítulos. Para consultar a revista do IHGB, acesse: https://www.ihgb.org.br/publicacoes/arquivo-rihgb.html

Periódicos: 

Revista de História

Fundada em 2005 pela Biblioteca Nacional em colaboração com centenas de historiadores brasileiros, a Revista de História teve 122 edições ao longo de 10 anos, abordando principalmente temas ligados a história brasileira, mas eventualmente tratando de assuntos pelos quais o Brasil se conectava a outros países como Portugal, Espanha, Uruguai, Paraguai, Angola, França, Itália, etc. Através de dossiês, artigos, entrevistas, matérias, notícias e resenhas, a revista trouxe uma gama de assuntos sobre cultura, política, economia, sociedade, ciências, artes, folclore, guerra, moda, costumes, arqueologia, religião, etc. Parte do acervo pode ser consultado em: https://web.archive.org/web/20160204123541/http:/rhbn.com.br:80/revista/edicoes-anteriores


NOTA: O Brasil possui vários Institutos Históricos e Geográficos, no entanto, a maioria não disponibiliza suas revistas online de forma integral. Posteriormente trarei uma lista dos institutos que fazem isso. 
NOTA 2: As universidades federais brasileiras e algumas universidades privadas que possuem pós-graduação, costuma disponibilizar suas teses e dissertações, basta acessar os sites para verificar isso. Devido a haver muitas universidades, optei e não listá-las aqui. Uma alternativa para não ter que acessar o site de cada universidade, é procurar no BDTD ou na CAPES. 



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

História da Epilepsia: um ponto de vista epistemológico


História da Epilepsia: um ponto de vista epistemológico


Marleide da Mota Gomes


INTRODUÇÃO

Poucas doenças chamaram tanta atenção e geraram tanto debate quanto a epilepsia. A sua literatura é extensa e precursora das neurociências, da diferenciação explícita entre práticas culturais religiosas, mágicas e científicas(1). Ela demonstra como a exposição à história dos cuidados médicos é importante pedagogicamente. Os estudiosos da medicina reconhecem que todos os conhecimentos médicos são sujeitos à mudança e adquiridos em contextos específicos. Isso pode ser inferido ao longo do presente texto, a partir de uma revisão narrativa, que procura fazer uso da filosofia das neurociências para entender a construção do conhecimento sobre a epilepsia, o que se pensa sobre ela e porque se pensa desta forma. Assim, a autora além de expor fatos históricos principais também procura explorar criticamente a construção do conhecimento sobre a epilepsia ao longo do tempo, especialmente por John Hughlings Jackson (1834-1911).

MARCOS HISTÓRICOS ATÉ O INÍCIO DA EPILEPTOLOGIA MODERNA

Etiologia

As crenças predominam na história da epilepsia. As pessoas com epilepsia (PCE) da Roma antiga eram evitadas por medo de contágio(2). Na Idade Média, elas foram perseguidas como bruxas(2). Em 1496, foi lançado o manual de caçar bruxas, Malleus maleficarum, escrito por dois frades dominicanos vinculados à famigerada Inquisição Católica. Nesse tratado, a presença de crises epilépticas (CE) era uma característica de feitiçaria(2). A orientação do mencionado tratado levou à perseguição, tortura e morte a mais de milhares de mulheres(2), conclui-se que várias delas eram PCE. Na primeira metade do século passado nos EUA, essas pessoas eram rotuladas como desviantes e o seu matrimônio e reprodução eram restringidas através de legislação e médicos eugenicistas, como Gordon Lennox (1884-1960)(2,3). Existem também relatos de conversão religiosa relacionada temporalmente à CE, assim como o acometimento de epilepsia de vários líderes religiosos(2).

A visão da epilepsia como devida a influências ocultas ou más teve partidários até mesmo na Medicina durante os tempos antigos. Conseqüentemente, foram prescritos tratamentos mágicos ou religiosos, algumas práticas que persistem até hoje em parte da população leiga. No Renascimento, houve a tentativa de se ver a epilepsia como uma manifestação de doença física em lugar de uma mais obscura. No entanto, foi durante o Iluminismo que a epilepsia começou a ser considerada de forma mais moderna, com a ajuda de avanços da anatomia, patologia, química, farmácia e fisiologia(2). A evolução do conhecimento sobre o transtorno é pontificado por nomes como Hipócrates, Galeno, Arateus, Avicena, Paracelsus, Willis, Boerhaave e Tissot.

Nas seções seguintes, mencionamos outros personagens e aquisições nesta saga para entender este complexo sintomatológico e os cuidados às CE e às PCE. O Corpus Hipocraticum, conceitos médicos de Hipócrates e de sua escola, com abordagem holística, se fez valer até meados dos anos de 1700. Esses conceitos se apoiavam em variados aforismos sendo que alguns ainda norteiam a Medicina e a ética médica. Vários dos textos a seguir apresentados e transcritos por Pearce (1998)(4) demonstram como ao longo do tempo teorias fisiopatogênicas das CE se somaram escalarmente. Andréas Vesalius (1514-1564) reconheceu a epilepsia focal. Brown-Séquard (1858) teve um papel importante na teoria da irritabilidade de nervo aferente periférico, sendo a medula o componente central do mecanismo reflexo. Robert Bentley Todd acreditou que as CE eram conseqüentes ao acometimento inicial dos lobos hemisféricos, logo seguido pelo corpo quadrigêmino, sendo a intensidade da perturbação dependente do comprometimento da medula oblongata e da espinha dorsal. Nothnagel gerou a hipótese do “centro convulsivo” adjacente ao do da respiração.

Hammond no seu tratado On the diseases of the nervous system (1871) pensou que a localização da epilepsia era na medula e as lesões no córtex a excitariam para produzir a convulsão. No entanto, várias teorias patofisiológicas da epilepsia identificaram corretamente o cérebro como a origem do problema, mas enfatizando causas incorretas. Galeno (130-200) deduziu que a epilepsia era um transtorno do cérebro devido ao acúmulo de humores espessos, sendo que Paracelsus reconhecia uma ebulição para cima dos espíritos vitais (spiritus animalis). Thomas Willis (1621-1675) indicou que a predisposição do cérebro para ter CE era hereditária ou adquirida. De acordo com Brown-Séquard, o vasospasmo cerebral reflexo, em lugar de congestão venosa cerebral, seria a causa da perda de consciência. Jacobus Schroeder van der Kolk (1797-1862) realizou autópsias e caracterizou: “dilatação das veias que apareceram cheias de sangue no córtex, medula e espinha dorsal.”

Assim, no decorrer desses 2.400 anos passamos da hipótese do supernatural, com denominações de “doença sagrada” e “lunáticos”, para uma natural orientada por Hipócrates e texto védico Charaka Samhita(5) até as idéias mais modernas. Como poderemos concluir mais a seguir, na seção sobre as Escolas precursoras, as concepções mais modernas sobre as raízes do transtorno começaram a ocorrer apenas a partir dos séculos XVIII e XIX.



Terapêutica

O relato das tentativas malsucedidas terapêuticas é extenso. Muitas não somente eram aleatórias e ineficazes como poderiam também ser cruéis, a considerar algumas como: consumo de sangue de ser humano recentemente morto, pó de crânio humano, digitalis ou nitrato de prata, além de sangria, purgação, emese, diurese, sudorese e recomendação para exercer ou coibir atividade sexual ou trepanação craniana, p. ex.(2). Como as CE estavam muitas vezes relacionadas a causas sobrenaturais, a elas se recorriam para neutralizá-las: amuletos e santos tais como São Valentim. Conclui-se que esses tratamentos eram usualmente ineficazes, mas comumente baseados nas hipóteses fisiopatogênicas em curso das CE recorrentes.

EPILEPSIA EM PERSONALIDADES DESTACADAS E NA ARTE

Ressalta-se que a maioria das PCE era vista com preconceito, mas alguns tiveram sucesso e ficaram famosas, sendo várias estadistas, santos, cientistas, artistas, havendo notório viés masculino(2). No entanto, Hughes (2005)(6) alerta sobre o exagero de imputar a várias personalidades a condição de epiléptico tendo ao contrário outros problemas de saúde como os que mais freqüentemente também confundem o diagnóstico na prática clínica como as crises psicogênicas, de angústia, nervosas, de medo, de agitação, de fraqueza ou de abstinência ao álcool.

Em alguns casos, o autor não encontrou nenhuma evidência de qualquer sintoma episódico. Ele considera pouco provável ou mesmo inadequado o diagnóstico de epilepsia, ou apenas de epilepsia, para Pitágoras (582-500 a.C), Aristóteles (384-322 a.C), Aníbal (247-183 a.C), Dante Alighiere (1265-1321), Joana D’Arc (1412-1431), Leonardo da Vinci (1452-1519), por exemplo. No Brasil, algumas personalidades brasileiras de mais a menos famosas eram notoriamente epilépticas, como Dom Pedro I (1798-1834)(7), ícone da independência do Brasil, célebre pela sua impulsividade e sexualidade, com epilepsia de incidência familiar, que gerou muitos filhos, a independência do Brasil e a reconquista de Portugal para os liberais; Antônio Moreira César (1850-1897)(8), desastrado e feroz comandante da 3ª tropa contra os jagunços de Antonio Conselheiro em Canudos e Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)(9), o mundialmente consagrado elegante e discreto escritor brasileiro.

A comentar que a Faculdade de Medicina da UFRJ foi fundada pela família real portuguesa, dentre outros marcos desenvolvimentistas do Brasil por ela lançados. Essa família tinha entre os seus familiares, muitos sofredores de epilepsia de natureza familiar, dentre eles o já mencionado Pedro I. Quanto à literatura, ela é pródiga nos relatos a PCE e ou CE. Wolf (2006)(10) lembra que textos literários são uma parte importante da história cultural de muitos campos de medicina. Segundo esse autor, relatos sobre epilepsia e sua semiologia são freqüentemente descritas: por escritores que sofreram CE, sendo que alguns provêem relatos perspicazes notáveis e modernos sobre os sintomas subjetivos e experiências ictale periictal; outros que observam com objetividade que pode ser clínica de CE em parentes íntimos ou estranhos fortuitos; e o último grupo de escritores que relatam crises não observadas por eles próprios mas reconhecidas de outros tipos de testemunhos.

O livro mais famoso, a Bíblia, no seu novo testamento, como no evangelho segundo São Marcos – 9:14-29, apresenta um pai que relata as CE de seu filho. O mais prolífico dos escritores a escrever sobre a epilepsia foi Fiodor Mikhailovitch Dostoievski (1821-1881), ele próprio uma PCE. Em contrapartida, um dos mais discretos a lidar com o transtorno e também PCE, foi José Maria Machado de Assis (1839-1908). Algumas passagens de sua obra são mais textual quanto a essa relação, como as sugestivas crises de automatismo, outras bem menos. Essas descrições se atêm ao estilo literário sutil do escritor e têm seu significado apenas sugerido, mas nunca ostentado. Wolf (2006)(10) lembra que Machado de Assis fez uso literário de sua experiência com CE parciais complexas, possivelmente por epilepsia do lobo temporal direito(9) em uma época que a sua semiologia era virtualmente desconhecida.

LIVROS MÉDICOS SOBRE EPILEPSIA E PERIÓDICOS PRECURSORES

A epilepsia induziu a literatura médica a privilegiar esta área do conhecimento humano. Existe mesmo um livro clássico (1945, 1971)(11) sobre a sua história produzido por Owsei Temkin (1902-2002), que aborda dos primórdios da história da medicina ocidental até John Hugling Jackson. Várias obras ressaltam a importância da epilepsia em estudos pioneiros. Dentre elas, destacamos algumas a seguir. Do conjunto de setenta escritos atribuído à escola de Hipócrates denominado de Corpus hippocraticum(12), apenas um é referente a um complexo sintomatológico:

Da Doença Sagrada. Nele se lê: “Parece-me que ela não é mais divina ou sagrada do que qualquer outra doença; mas ela tem causa natural como as outras doenças”. Várias das obras a seguir apresentadas favoreceram/sistematizaram o conhecimento da época e a classificação da epilepsia(13,14): Samuel-Auguste Tissot, Traité de l’epilepsie (1770); Jean Baumes, Traité des convulsions de l’enfance (1787 e 1805); Theodore Herpin (postumamente), Des accès incomplets
d’épilepsie, (1867); William Richard Gowers, Epilepsy and other chronic convulsive diseases; their cause etc. (1881); Russel R Reynolds, Epilepsy: its symptoms, treatment, and relation to other chronic convulsive diseases (1861); Frederic e Erna Gibbs publicaram Atlas of electroencephalography (1941, 1951); William Gordon Lennox e Margaret Lennox, Epilepsy and Related Disorders (1960).

Ressaltamos dois periódicos, um internacional e outro nacional. Epilepsia, órgão oficial da International League against Epilepsy (ILAE). O seu 1o volume foi editado em 1909. No Brasil, a Liga Brasileira de Epilepsia (LBE) lançou pioneiramente um órgão de divulgação de uma subespecialidade neurológica: Boletim da LBE, 1978-1981, após Jornal da LBE (1988) que se transformou em Brazilian Journal of Epilepsy and Clinical Neurophysiology até a designação atual de Journal of Epilepsy and Clinical Neurophysiology.

MEDICINA MODERNA E EPILEPTOLOGIA

Escolas precursoras

Mencionaremos os berços da moderna epileptologia, a começar pelo Neurological Institute – Londres, Hospital for the “paralyzed and epileptic” (1857). Outros a reconhecer são: Harvard University e Illinois University; Neurological Institute of Montreal; Hospital La Timone de Marselha e Hospital Saint-Anne de Paris. Do primeiro Centro, três neurologistas ingleses se destacaram no início da era moderna da epilepsia: além de Jackson, Russell Reynolds e William Richard Gowers (1845-1915).

Jackson favoreceu a localização funcional cerebral e a organização hierárquica do sistema nervoso. Isso foi um grande avanço conceitual que tornou possível o desenvolvimento da neurociência moderna no século XIX. Na base da reconstrução histórica sobre a epilepsia, a heurística de Jackson gerou uma transformação adicional que favoreceu o conhecimento da medicina atual. Ela pôde responder aos
fenômenos da epileptogenicidade que seriam comprovados mais tarde em bases experimentais. A definição de Jackson (1873) de epilepsia como “uma descarga súbita, excessiva e rápida da substância cinzenta” ainda hoje é acertada, precedendo os estudos sobre excitabilidade elétrica cerebral de David Ferrier (1874), na Inglaterra, e Gustav Fritsch e Eduard Hitzig (1870), na Alemanha(5,15). Jackson postulou o mecanismo da psicose pós-epiléptica considerando que o cérebro é um sistema hierárquico, com a consciência no seu mais alto nível. Em vigência da CE, ela seria inibida permitindo a expressão dos níveis mais primitivos(15). Isso conduziu à teoria da: evolução-dissolução (na primeira referente ao níveis, na segunda, o nível mais alto seria mais vulnerabilizado e o mais inferior, retido); sintomas positivo-negativos, isto é lesões transitórias levariam tanto a fenômenos negativos, como a paralisia, quanto positivos (irritativos), como a epilepsia.

Assim, esses fenômenos seriam liberados por perda da inibição ou modulação dos níveis funcionais mais altos(2,15,16). A idéia sobre o “dreamy state”, de “diplopia mental”, que levou ao conceito de epilepsia do lobo temporal também tem essa base(15). Os princípios evolucionistas de Herbert Spencer influenciaram as teorias de Jackson sobre a organização cerebral(15,16). Lembra-se que a Ciência moderna caminha principalmente sobre os preceitos do racionalismo e empirismo e na Medicina há uma tendência ao uso simultâneo e complementar dessas duas tendências epistemológicas.

Jackson usou esses recursos nas suas teorias e o racionalismo fundamentou a sua teoria fisiopatogênico da epilepsia, a partir do método hipotético-dedutivo(17). A ressaltar na escola francesa, Theodore Herpin (1799-1865), que se aproximou do requinte de conhecimentos sobre epilepsia de Jackson, segundo Eadie (2002)(14). No seu livro, Des accès Incomplets d’épilepsie, publicado postumamente (1867) ele relata uma gama pormenorizada e extensa
de possíveis manifestações não convulsivas das CE(14). Para Eadie (2002)(14), ele pode ser considerado “um dos grandes documentos na história da epileptologia”. Porém, o médico não notou a presença de CE de ausência em quaisquer dos seus 300 pacientes(14). A palavra “epilepsia” se referia às CE tônico-clônica generalizadas, sendo que as outras manifestações eram consideradas como manifestações incompletas de epilepsia(14).

Herpin reconheceu que todos as CE, completas ou incompletas, se originam no mesmo lugar do cérebro o que pode ser depreendido a partir de um relato de caso(14). As suas observações e interpretação parecem ter precedido o desenvolvimento independente de Jackson sobre conceitos semelhantes, mas a exploração intelectual mais extensa do inglês das implicações das suas observações lhe fez uma figura mais importante do que Herpin na história da epileptologia(14). No entanto, a obra de Herpin parece ter influenciado o trabalho de Jackson, como lembra Eadie (2002)(14).


No outro lado do Canal da Mancha, vicejava a “doença” chamada de histero-epilepsia por Jean Martin Charcot (1825-1893)(18) que combinava transtorno da mente e do cérebro, da histeria e da epilepsia(2). Na Salpêtrière, o local de nascimento e epicentro de neurologia moderna, Charcot encontrou as PCE ao lado dos oligofrênicos, pacientes com sífilis crônica, criminosos insanos e histéricos. Sendo que esses últimos, vulneráveis à sugestão e persuasão, começaram a imitar os ataques epilépticos que testemunhavam repetidamente. Assim, a epileptologia francesa era derivada principalmente de PCE de asilos e hospitais de pacientes mentalmente crônicos(14).

A diferenciar, ao contrário, a clientela de Herpin mais representativa da comunidade(14). Charcot reconheceu a importância de Jackson e é dele a designação da epilepsia Bravais-Jacksoniana, inicialmente vinculada apenas à Bravais, por conta da sua tese (1824)(14). Lembra-se que Jackson designava esse tipo de epilepsia a “convulsões epileptiformes”(15). Voltando à escola inglesa pioneira, lembramos de Gowers claramente favorável a ser no córtex a gênese das CE: “... todos os fenômenos das crises da epilepsia idiopática podem ser explicados pela descarga da substância cinzenta; que a hipótese de espasmo vascular é tão desnecessária quanto não está comprovada; ... que epilepsia é uma doença da substância cinzenta, e não tem nenhum local uniforme”. Gowers (1881) classificou epilepsia como grand mal, petit mal e histeróide(19).

J. Russell Reynolds (1861) classificou as convulsões associadas com
um transtorno estrutural do sistema nervosa de epilepsia sintomática, as associadas com condições fora do sistema nervoso central (insuficiência renal, por exemplo) de epilepsia simpática(19). Na Harvard University e Illinois University, o EEG se desenvolveu e teve importante papel na clínica da epilepsia: início dos anos de 1930, 1 canal EEG; 1935, 3 canais, com Albert Grass e Frederic Andrews Gibbs (1903-1992), em Harvard; 1944, Erna e Frederic se mudaram para a Universidade de Illinois. Gibbs também é considerado o primeiro a enfatizar a associação da epilepsia do lobo temporal a transtornos comportamentais(2).

Lennox, da Escola de Harvard, “o pai” do tratamento moderno da epilepsia, ficou quatro anos como um médico missionário na China de lá retornando para Boston quando sua filha mais nova desenvolveu epilepsia(3,20). Ele trabalhou com Frederic Gibbs e estudou circulação e metabolismo cerebral, enquanto localizava a doença em milhares de famílias e mantinha registros cuidadosos de muitos gêmeos, tentando determinar se epilepsia era uma característica herdada. Ele foi presidente da ILAE de 1935-1946, co-editor e depois editor da Revista Epilepsia. Ele organizou a American Epilepsy League, Committee for Public Understanding of Epilepsy, foi chefe da Divisão de Epilepsia Children’s Medical Center de Boston onde estabeleceu um programa de treinamento para médicos em epilepsia. Lennox escreveu, com a sua filha Margaret um importante livro sobre epilepsia que contém a descrição da síndrome de Lennox-Gastaut. No Neurological Institute de Montreal, pontificaram Herbert Henri Jasper (1906-1999), Wilder Penfield (1891-1976) e Theodore Brown Rasmussem (1910-2002).

A partir de 1939, Jasper colaborou com Penfield. O trabalho deles proveu bases para localização de foco de crises epilépticas pelo EEG. A
estimulação cortical direta favoreceu a definição da anatomia funcional do cérebro humano. Nesse Centro, foi reconhecida a esclerose mesial temporal e epilepsia por Murray Falconer e o grupo dele e William Feindel e a consequente base cirúrgica mais comum da epilepsia focal tratável. Rasmussen sucedeu Penfield como diretor do Instituto Neurológico de Montreal. Realizou muitas cirurgiaspara epilepsia. Em Marselha, no Hospital La Timone, Henri Gastaut (1915-1995) foi consagrado como grande epileptologista pelas suas bases anatomopatológicas, neurofisiológicas em aliança ao seu intelecto arguto(21).

Ele foi chefe dos Laboratórios de Neurobiologia do Hospital de
Marselha (1953) e diretor do centro regional para epilepsia em 1960(21). De 1973 a 1984, assumiu a cadeira de neurofisiologia clínica(21). Ele promoveu o estudo do EEG e epilepsia (1947-1987)(21). Foi secretário geral e presidente da ILAE com várias contribuições ao desenvolvimento dos seus capítulos(21), a destacar o brasileiro presidido por Paulo Niemeyer. Com a sua esposa e parceira nos estudos de EEG, Ivete, reconheceu padrões diversos do EEG tais como ondas lambda, ritmo mi, ritmo pi, ritmo teta posterior e pontas rolândicas. Ele favoreceu o uso de vários métodos de ativação dessa técnica, fez correlações fisiológicas das parassonias e uso em vários estados de alteração de consciência natural ou artificial (meditação ou
biofeedback, por exemplo)(21).

Ele valorizou a semiologia da epilepsia e contribuiu com: nosografia, classificação da epilepsia adotada pela ILAE, definição da síndrome HHE (hemiplegia, hemiconvulsão e epilepsia), epilepsia do susto (startle epilepsy), colaboração na definição das síndromes de Lennox-Gastaut e West e epilepsia parcial benigna occipital (forma de Gastaut), associação da epilepsia com o comportamento e diagnóstico diferencial com os eventos não epilépticos(21). A sua abordagem reconhecia o valor da integração biopsicossocial das PCE(21). Ele também procurou entender possíveis vínculos entre epilepsia e genialidade artística. Não desconsiderava a importância do estudo da arte e literatura.

Em Paris, no Hospital Saint-Anne o trabalho consagrou o neurocirurgião Jean Tailarach e o neurofisiologista clínico Jean Bancaud (1921-1993). O início da era moderna da Epileptologia no Brasil veio com Paulo Niemeyer (1914-2004) que foi: fundador da LBE (1949); promotor da 1a Jornada da LBE (1957), uso pioneiro da eletrocorticografia e exploração eletrográfica com eletrodos implantados no Brasil; inventor da amigdalahipocampectomia na epilepsia do lobo temporal e descritor da anormalidade elétrica neocortical pós-cirúrgica(22). Helio de Paiva Bello, Ilustre discípulo de Henri Gastaut, da “Escola de Marselha”, foi o genial parceiro de Paulo Niemeyer(23) nas mencionadas conquistas e líder de uma grande e clássica escola de eletroencefalografia brasileira.

Neurofisiologia clínica

Após os descobrimentos iniciais da Eletroencefalografia em seres humanos por Hans Berger (1873-1941) houve sua aplicação clínica na epilepsia, nos anos de 1930(24): 1934, Fisher e Lowenback foram os primeiros a demonstrar pontas epileptiformes; 1935, Gibbs, Davis e Lennox descreveram ponta-onda interictal e padrões 3 Hz do complexo ponta-onda, na ausência epiléptica dando alento ao campo da EEG clínica; 1936, Gibbs e Jasper definiram as pontas interictais como assinatura focal da epilepsia.

A localização de descargas epilépticas pela EEG ampliou as possibilidades de tratamento cirúrgico, mais amplamente disponível a partir dos anos de 1950. A análise quantitativa do EEG nos anos de 1940 e 1950 incrementou a análise temporal e espacial do EEG(25). Mary Brazier (1904-1995) foi a pioneira da utilização da função de coerência e de fase para o estudo da propagação da atividade epiléptica crítica registrada com eletrodos intracranianos (1968)(25).

Terapêutica medicamentosa e outras

A idéia de que a irritação focal podia causar CE apoiou o controle das CE por sedativos, primeiro pelos brometos (Charles Locock em 1857) e barbitúricos (Hauptmann em 1912), introduzidos na clínica sem avaliação pré-clínica(26). Mais especificamente, o brometo foi inicialmente usado para sedar mulheres jovens com histeria, após para as com epilepsia até chegar à epilepsia catamenial e às PCE de modo geral(2). A introdução da fenitoína (Merrit e Putnam em 1937) demonstrou que as drogas não sedativas também poderiam ser efetivas no controle dessas crises, sendo que o modelo pré-clínico usado foi a CE promovida por eletrochoque máximo(26).

Várias drogas foram experimentadas e aquelas demonstradas eficazes levaram ao estudo de outras da mesma família farmacológica, muitas não referendando a droga protótipo. Conclui-se que algumas dessas drogas usadas foram conseqüentes a achados serendipiticos, como o valproato, ou avaliação experimental de compostos usando modelos de epilepsia(26). O primeiro desses modelos foi para testar o aumento do GABA no cérebro(26). Mais recentemente, o crescimento da compreensão dos mecanismos da epileptogênese levaram a uma base mais racional para essas descobertas, a partir da década de 1980(26). Apontamos a terapêutica que teve mais êxito e permaneceu mais tempo no mercado: 1857, Brometo (já há muito desconsiderada no tratamento humano das PCE); 1912, Fenobarbital; 1920, Dieta cetogênica (de uso clínico iniciado nos anos de 1920(27); 1938, Fenitoína(26); 1963, Carbamazepina(26); 1958, Etosuximida(26); 1967, Valproato de sódio(26); 1997, Estimulação nervo vago – CE focal adulto (usada inicialmente no ser humano em 1988 e aprovada pela FDA em 1997(27)). Foram lançadas no mercado várias DAE na década de 1990, a destacar as introduzidas no Brasil tais como gabapentina, lamotrigina, topiramato e oxacarbazepina.

Cirurgia para epilepsia

A proximidade dos fundamentos da Escola de Jackson e de sua influência direta deram o impulso necessário a Victor Horsley (1857-1916) para os primórdios da cirurgia para epilepsia(28). Em 1886, dos três pacientes operados descritos, dois eram pacientes de Jackson, sendo que em um foi feita lesionectomia e no outro ressecção mais extensa de tumor(15). Outros avanços permitiram a evolução desse procedimento, como o do mapeamento cortical funcional cerebral. Fedor Krause (1857-1937) e Otfrid Föster (1878-1941) foram importantes nesse desenvolvimento(28).

Krause introduziu a estimulação farádica para mapear o córtex motor humano(28). Isso foi continuado por Föster, usando anestesia local e assim favorecendo a responsividade do paciente o que possibilitou excisão cortical extensa das cicatrizes corticais sem lesão relevante das áreas eloqüentes(28). No Neurological Institute of Montreal, houve a introdução do EEG complementar à avaliação pré e per-cirúrgica com a colaboração Jasper. Penfield lá militou, mas antes estagiou com Förster (1928), e expandiu os seus conhecimentos do mapeamento das funções cerebrais corticais. Em princípios dos anos 1950, Penfield/equipe (incluindo Falconer que estagiou no Instituto) definiu características anatômicas e patológicas das CE do lobo temporal mesial o que levou ao “procedimento de Montreal” que consiste na lobectomia temporal anterior inclusive com remoção da amígdala e hipocampo(28).

Frederic e Erna Gibbs, já transferidos de Boston para Chicago, se associaram ao cirurgião Percival Bailey o que favoreceu a cirurgia da epilepsia do lobo temporal sem lesão aparente, por orientação do EEG expresso na região temporal anterior(28). No entanto, Bailey evitava ressecar nesses casos as estruturas mesiais e inferiores do lobo temporal(28). No Hospital Saint- Anne de Paris houve o desenvolvimento da estereoEEG e terminologia de zonas lesional, irritativa e epileptogênica(29). Nesse Centro, pontificaram Tailarach e Bancaud. No final dos anos de 1980 e 1990, o advento da neuroimagem moderna deu ímpeto novo ao tratamento cirúrgico. A ressaltar que ela e o desenvolvimento da genética favoreceram a melhor definição classificatória das crises e síndromes epilépticas.

Abordagem mais ampla

Tentativas mais sistematizadas de humanizar o tratamento das PCE ocorreram simultaneamente à inauguração do Hospital for the “paralyzed and epileptic” (1857). Nessa época foram estabelecidas colônias para o cuidado e emprego de PCE, em Dianalund na Dinamarca, Chalfont na Inglaterra, Bielefeld – Bethel na Alemanha, Heemstede na Holanda, Sandviakain na Noruega e Centro de Epilepsia em Zurique(5).

O mito da epilepsia como uma maldição foi largamente derrotado em culturas modernas, mas o transtorno ainda permanece com um estigma social para muitos pacientes. Conseqüentemente, para real crescimento da epileptologia efetiva houve necessidade de maior atenção às necessidades psicológicas e sociais e qualidade de vida das pessoas com epilepsia, em contrapartida aos avanços tecnológicos. Ressalta-se que eles são de pequena ou nenhuma relevância para 80% das PCE dos países em desenvolvimento(5).

Assim, Organizações se associaram para atendê-las, a saber a ILAE (fundada em 1909), International Bureau for Epilepsy – IBE (fundada em 1961) e a Organização Mundial de Saúde. Essas três instituições estabeleceram a Campanha Global Contra Epilepsia, Saindo das sombras (1997) que tem como objetivo melhorar a prevenção, tratamento, cuidado e serviços para pessoas com epilepsia e elevar consciência pública sobre o transtorno e promover ambiente encorajador no qual as PCE possam viver melhor(5,30).

CONCLUSÃO

“Quanto mais distante para trás você puder olhar, mais distante à frente é provável que você veja” Winston Churchill. Essa visão de Jano, deus da mitologia romana, de reconhecer os términos e os começos, de ter a perspectiva do futuro, mas conhecendo o passado é muito útil para o progresso criterioso da medicina. Para o futuro não muito remoto, aventamos a possibilidade para as PCE com CE focais, cirurgias não ablativas, mas aumentativas ou restauradoras, através da liberação focal de DAE, enxerto neuronal, além do uso de células tronco e implantação de estimuladores cerebrais(31).

A terapêutica medicamentosa poderá ter avanço significativo ao se conhecerem os mecanismos intrínsicos específicos das CE e formulação de drogas a eles relacionados, por exemplo. No entanto, sempre haverá espaço da idéia hipocrática de primum non nocere e relevância da integração biopsicossocial que norteia a atual campanha promovida pela OMS, ILAE e IBE. O pai da medicina criou uma abordagem holística recomendando o uso de terapias disponíveis com o máximo de parcimônia. Dele também vêm os conceitos ainda vigentes da ética médica a serem considerados em contrapartida à pressão do mercado para o consumo de alternativas tecnológicas novas e dispendiosas, mas não necessariamente efetivas. A ressaltar a importância de metodologias científicas complementares para o crescimento da epileptologia.

Referências:

1. Riggs AJ, Riggs JE. Epilepsy’s role in the historical differentiation of religion, magic, and science. Epilepsia. 2005;46(3):452-3.
2. Masia SL, Devinsky O. Epilepsy and behavior: A brief history. Epilepsy Behav. 2000;1(1):27-36.
3. Offen ML. Dealing with “defectives” Foster Kennedy and William Lennox on eugenics. Neurology. 2003;61(5):668-73.
4. Pearce JM. Early accounts of epilepsy: a synopsis. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 1998;64(5):679-82.
5. World Health Organization. Epilepsy: historical overview. Fact sheet n. 168. Revised February 2001.
6. Hughes JR. Did all those famous people really have epilepsy? Epilepsy Behav. 2005;6(2):115-39.
7. Macaulay N. D. Pedro: a luta pela liberdade no Brasil e em Portugal, 1798-1834. Trad. André Villalobos. Rio de Janeiro: Record, 1993.
8. Yacubian EM. When epilepsy may have changed history: Antonio Moreira Cesar as the commander of the third expedition in the war of Canudos. Arq Neuropsiquiatr. 2003;61(2B):503-9.
9. Guerreiro CA. Machado de Assis’s epilepsy. Arq Neuropsiquiatr. 1992;50(3):378-82
10. Wolf P. Descriptions of clinical semiology of seizures in literature. Epileptic Disord. 2006;8(1):3-10.
11. Temkin O. The Falling Sickness: A History of Epilepsy from the Greeks to the Beginnings of Modern Neurology. 2. ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press; 1971. 467 p.
12. Great book index. An index to online great books in English translation. Hippocrates (about 460-about 377 BC). URL: http://
books.mirror.org/gb.hippocrates.html
13. Gomes MM. Aspectos históricos da epilepsia. Rev. Bras. Neurol
1996;32(5):169-76.
14. Eadie MJ. The epileptology of Theodore Herpin (1799-1865). Epilepsia. 2002;43(10):1256-61.
15. Sengoku A. The contribution of J. H. Jackson to present-day epileptology. Epilepsia. 2002;43(suppl 9):6-8.
16. Swash M. John Hughlings Jackson (1835-1911). J Neurol. 2005;
252(6):745-6.
17. Anderman AAJ. Huglings Jackson’s deductive science of the nervous system: a product of his though collective and formative years. Neurology 1997;48:471-81.
18. McHugh PR. Multiple Personality Disorder: Dissociative Identity Disorder. URL: http://www.psycom.net/mchugh.html
19. Epilepsy foundation. Epilepsy: a brief history. URL: http://
www.epilepsyfoundation.org/answerplace/history.cfm
20. William Lennox Obituary. New York Times, 1960-07-23. URL:
http://www.laskerfoundation.org/awards/obits/lennoxobit.shtml
21. Dravet C, Roger J. In memoriam, Henri Gastaut, 1915-1995. Epilepsia. 1996;37(4):410-5.
22. Gomes MM, Guerreiro MM. Liga Brasileira de Epilepsia no final
do século XX: 50 anos de história. Brazilian Journal of Epilepsy and
Clinical Neurophysiology. 1999;5:134-45.
23. Bello H. Homenagem ao Dr. Paulo Niemeyer. J Epilepsy Clin Neurophysiol 2004;10(4):241-4.
24. Swartz BE, Goldensohn ES. Timeline of the history of EEG and
associated fields. Electroencephalogr Clin Neurophysiol. 1998;
106(2):173-6.
25. Gotman J. A brief history of EEG analysis before the 2001 odyssey. Epileptic Disorders. 2001;3(3):7-10.
26. Klitgaard H. Antiepileptic drug discovery: lessons from the past and future challenges. Acta Neurol Scand. 2005;181(suppl):
68-72.
27. Forcadas-Berdusan MI. Indications and results of nonpharmacological treatments of epilepsies: vagal stimulation, ketogenic diet and gamma rays. Rev Neurol. 2002;35(suppl 1):S144-50.
28. Feindel W. Role of Brain Science in the Evolution of Epilepsy
Surgery. URL: http://www.med.mcgill.ca/mjm/v01n02/epilepsy. html
29. Wichert-Ana L, Carlotti Jr CG, Assirati JÁ, Machado HR,  Meneghelli UG, Sakamoto AC. Landmarks in the history of epilepsy surgery. J Epilepsy Clinical Neurophysiology. 2003;9(2):77-86.
30. Reynolds EH. The ILAE/IBE/WHO epilepsy global campaign history. International League Against Epilepsy. International Bureau for Epilepsy. Epilepsia. 2002;43(Suppl 6):9-11.
31. Gomes MM. Epilepsia focal refratária: perspectivas. Rev Bras Neurol. 2005;41(2):37-43.

Fonte:  GOMES, Marleide da Mota. História da Epilepsia: um ponto de vista epistemológico. Journal of Epilepsy and Clinical Neurophysiology, v. 12, n. 3, 2006, p. 161-167.