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Leandro Vilar

sexta-feira, 29 de março de 2019

A fé dos assassinos: um estudo da religião do Deus de Muitas Faces em As Crônicas de Gelo e Fogo e Game of Thrones


Aviso: algumas informações contidas nesse texto, contém spoilers sobre os livros 4 e 5, além de spoilers até a 5a temporada do seriado. 

A série Game of Thrones produzida pelo Canal HBO, e lançada em 2011, tornou-se um sucesso mundial de público e crítica, tendo recebido várias indicações ao Emmy, a premiação mais importante da televisão estadunidense. O imenso sucesso somente foi alcançado graças a origem dessa história de fantasia medieval que adveio da série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire) do escritor e roteirista George Raymond Richard Martin, o qual publicou o primeiro livro em 1996, sendo que ainda hoje a série de sete livros não foi concluída. E a partir de 2011, com o lançamento do seriado, seus livros se tornaram mundialmente conhecidos.

De qualquer forma, o universo literário desenvolvido por Martin é marcado por grande riqueza de detalhes e diversidade de cenários, personagens, crenças e histórias. No caso, sublinha-se a condição que ele inventou algumas religiões e deuses para essa série de livros, como a Religião dos Sete, os Deuses Antigos, R’hllor, o Senhor da Luz, O Grande Garanhão, o Deus Afogado, o Deus de Muitas Faces entre outras divindades. A proposta desse artigo é analisar a fé no Deus de Muitas Faces devido as seguintes particularidades: uma religião monoteísta; sem liturgia; com um só templo conhecido; sacerdotes que atuam como assassinos; dogma que incentiva a violência como um ato sagrado e a devoção cega de seus sacerdotes.

O que nos chama a atenção na descrição na crença do Deus de Muitas Faces é a condição de ela ser uma religião que prega o uso da violência e do homicídio como meios para servir o deus, assim como, realizar sua vontade divina. Nesse ponto a violência torna-se sacralizada e a morte é considerada um ato de misericórdia. Porém, alguns devem se perguntar que o fato de se tratar de uma religião fictícia, logo apresentaria essa incoerência, pois religiões tendem a pregar a paz, o bem, o amor e a vida. Elas não pregariam a violência, crimes e a morte.

Essa visão da religião como algo apenas bom é fruto do senso comum. Na prática muitas religiões necessariamente não possuem normas, ritos, cultos ou dogmas que determinam que elas sejam pregadoras da paz, do amor, da caridade, da harmonia, etc. e por outro lado, existe o uso da violência como algo legitimado pelas religiões. E mesmo as religiões que abominam atos violentos como o Cristianismo e o Budismo, já fizeram uso da violência, o que inclui um uso próprio, dado por seus fiéis, sacerdotes e instituições.

Vesselin Popovski (2009) comenta que a relação entre religião e violência é complexa e ambígua. Ora se proíbe determinados atos violentos, mas ora também permite por motivos de punição, ritualística, crença, proteção, guerra, etc. Apesar de várias religiões não incentivarem diretamente atos violentos, hostis e agressivos, não significa que elas não possam ser usadas para esse intuito.

Assim, a proposta desse artigo foi analisar a relação de religião e violência pensada a partir da fé do Deus de Muitas Faces. Para isso aponta-se que estudos sobre as religiões na série As Crônicas de Gelo e Fogo já foram publicados em livros como Mastering the Game of Thrones (2015) e Game of Thrones versus History (2017). Ambas as obras serviram de referencial de conteúdo e modelo para se pensar como trabalhar o tema da religião com base nessa literatura de fantasia.

Não obstante, também adotamos autores que estudam o tema da religião, violência e guerra para poder analisar a fé dos assassinos, chamados Homens Sem-Rosto, os quais servem o Deus de Muitas Faces; e fazer um paralelo com a realidade, mostrando casos de crenças religiosas reais que agiram de forma similar, ou seja, legitimando atos de violência e assassinatos como preceitos sagrados e até soteriológicos.

A religião do Deus de Muitas Faces

Antes de entrar no debate de religião e violência é preciso apresentar o objeto de estudo, o qual trata-se dessa antiga e misteriosa religião, surgida no continente de Essos. Martin conta que existem vários continentes no mundo das Crônicas de Gelo e Fogo, apesar que somente os continentes de Westeros e de Essos foram apresentados e onde transcorrem a história dos livros. Os Homens Sem-Rosto (Faceless Men), nome pelo qual são conhecidos os assassinos que seguem o Deus de Muitas Faces (The Many-Faced God), são mencionados desde o primeiro livro da série, A Guerra dos Tronos (Game of Thrones).

Ilustração de um Homem Sem-Rosto. 
No entanto, a história sobre seu credo é melhor detalhada no quarto livro, intitulado O Festim dos Corvos (A Feast for Crows), em cuja obra acompanhamos a jornada de Arya Stark, uma das protagonistas da série, para se tornar um Homem Sem-Rosto. No caso, as informações que Martin apresenta sobre essa peculiar religião são contadas para Arya pelos sacerdotes e acólitos do Deus de Muitas Faces ou a partir das impressões que ela tem convivendo com eles. Tanto nos livros quanto no seriado, Arya após ter seus familiares e alguns amigos assassinados, e ser feita prisioneira algumas vezes, ela conseguiu escapar e viajou até Bravos, uma das cidades livres, situada na costa ocidental de Essos. Lá existe um templo chamado a Casa do Preto e Branco, o único templo da cidade dedicado ao misterioso Deus de Muitas Faces. Arya ingressa no templo a fim de se tornar um Homem Sem-Rosto e dessa forma poder realizar sua vingança[1].

A origem do culto ao Deus de Muitas Faces e seu primeiro seguidor, segundo é contado a Arya, pelo Homem Gentil (The Kindly Man), nome pelo qual ela chama um dos sacerdotes, remontam séculos antes da fundação de Bravos. O Homem Gentil narra que:

"Florescemos em Bravos por entre os nevoeiros do norte, mas lançamos raízes em Valíria, entre os desventurados escravos que trabalhavam nas profundas minas sob as Catorze Chamas que iluminavam as noites da Cidade Franca de outrora. [...]. Cadáveres queimados e enegrecidos eram frequentemente encontrados em poços onde as rochas estavam rachadas ou cheias de buracos. Mesmo assim, as minas tornavam-se mais profundas. Escravos pereciam às vintenas, mas seus donos não se importavam". (MARTIN, 2012, p. 279).

O Homem Gentil é o sumo-sacerdote da Casa do Preto e Branco, e mestre de Arya. No seriado o personagem foi alterado. 
No diálogo de Arya com o Homem Gentil, a garota indaga se os escravos de Valíria não se rebelavam contra aquela nefasta realidade. O sacerdote diz que sim. Havia revoltas, mas os valirianos possuíam dragões e eram hábeis feiticeiros, assim, conseguiam sufocar qualquer revolta. Porém, houve um rebelde que conseguiu mudar a história. Ele teria sido o primeiro Homem Sem-Rosto, cuja identidade é desconhecida, como comenta o Homem gentil:

"Há quem diga que ele próprio era escravo. Outros insistem que era filho de um proprietário, nascido de uma família nobre. Alguns até lhe dirão que era um capataz que se apiedou dos homens que tinha sob seu comando. A verdade é que ninguém sabe. Homens de cem nações diferentes trabalhavam nas minas, e cada um rezava ao seu próprio deus em sua própria língua, mas todos suplicavam a mesma coisa. Era a libertação que pediam, um fim para a dor". (MARTIN, 2012, p. 280).

O primeiro Homem Sem-Rosto diante daquelas orações e indagações de por quais motivos os vários deuses não atendiam às súplicas dos escravos que clamavam por liberdade e pelo fim daquele sofrimento, teve uma revelação. A revelação dele como sugerida pelo Homem Gentil, teria sido uma epifania. O primeiro Homem Sem-Rosto descobriu que os escravos não oravam para deuses diferentes, mas para o mesmo deus que possuía vários rostos e muitos nomes, esse deus era a Morte. E o homem tomou para si a missão sagrada de o Deus de Muitas Faces. Ele procurou um escravo de fé fervorosa e lhe concedeu a liberdade, assassinando-o. Assim, o Homem Sem-Rosto passou a dizer que ele era um instrumento da Morte. E dessa forma iniciou sua obra divina, “libertando” outros sofredores e recrutando seguidores.

George Martin não fornece informações se houve uma rebelião em seguida e como os Homens Sem-Rosto escaparam de Valíria e chegaram a Bravos, e ali se estabeleceram. Mas enquanto essa parte da história deles é uma incógnita, outros elementos são revelados. Como visto nas citações acima, a religião do Deus de Muitas Faces é uma fé de origem humilde e num contexto opressor, surgida entre os escravos das minas das Catorze Chamas

O primeiro Homem Sem-Rosto alegava que só haveria um único deus, que era a Morte. Sobre isso, o Homem Gentil fala que: “O Das Muitas Faces. E de muitos nomes. Em Qohor é a Cabra Preta; em Yi Ti, o Leão da Noite; em Westeros, o Estranho”. (MARTIN, 2012, p. 435).

Apesar desses vários nomes e faces diferentes, no fim trata-se da mesma divindade, que é a Morte. Para a fé dos Homens Sem-Rosto a Morte é o maior de todos os deuses. Pois ele é o responsável por ditar uma das regras que não podem ser quebradas ou evitadas: todos os homens têm de morrer (Valar morghulis). “Mas no fim de todos os caminhos está o Deus de Muitas Faces à espera”. (MARTIN, 2012, p. 89).

Nota-se que por tais dados temos a identidade do Deus das Muitas Faces que é a personificação da Morte, e de seus seguidores, os chamados Homens Sem-Rosto, que se tornaram assassinos, pois passaram a se considerar como instrumentos da vontade do seu deus. Quando eles se estabeleceram em Bravos e ergueram o seu templo, a Casa do Preto e Branco, instituindo uma organização religiosa com ritos e dogmas. 

A Casa do Preto e Branco como representada no seriado. 
A fé no Deus de Muitas Faces possui ritos, como o ato de orar regularmente para o deus, todos os dias, pela manhã cedo. “Rezam à aurora, antes de quebrarem o jejum, ajoelhando-se em volta do tanque imóvel e negro”. (MARTIN, 2012, p. 273). Todavia, Arya diz que eles não possuíam liturgia como visto na Fé dos Sete. Pelo fato de que nos livros ela está descobrindo ainda a respeito sobre essa religião, não sabemos se haveria ou não liturgia, mas Arya comenta que: “Não havia serviços religiosos, nem canções, nem hinos de louvor para agradar o deus”. (MARTIN, 2012, p. 273). Isso sugere que aparentemente os sacerdotes e acólitos não se dedicavam a essas oficialidades, porém, eles tinham outras obrigações como cuidar do templo, limpando-o, preparando as refeições, recebendo os visitantes que iam orar, pedir conselhos ou cometer suicídio.

A questão do suicídio é interessante. Arya enquanto trabalhava nos afazeres domésticos no templo, observou algumas pessoas que faziam preces diante de uma das várias estátuas situadas na câmara principal. Alguns não se dirigiam as estátuas, mas acendiam velas e oravam diante delas. Porém, havia casos de pessoas que decidiam beber da água escura, que ficava numa fonte ao centro da câmara. Depois de beber daquela água, a pessoa escolhia uma das alcovas situada na câmara, deitava-se e morria. A água contém um veneno que adormece e mata.

Arya ao indagar o Homem Gentil porque as pessoas decidiam cometer suicídio, ele responde o seguinte: “Mas, no final, todos os homens têm de se submeter a Ele, não importa se adoram os Sete ou o Senhor da Luz, a Irmã da Lua, o Deus Afogado ou o Grande Pastor”. (MARTIN, 2012, p. 435). Por mais que aquelas pessoas não fossem devotas ao de Muitas Faces, elas em dado momento tinham a revelação de que no fim ele era o único deus real.

No entanto, o mais interessante na resposta do Homem Gentil é que ele diz que a morte é uma benção, não uma maldição ou algo ruim como muitos pensam. “A morte não é a pior coisa que existe – respondeu o homem amável. – É o presente que Ele nos dá, um fim para as carências e a dor”. (MARTIN, 2012, p. 275). Se recordarmos que os escravos de Valíria oravam por liberdade e o primeiro Homem Sem-Rosto decidiu que matá-los era melhor do que ajudá-los a escapar, a ideia da morte é que essa consista num ato de misericórdia. Pela fé deles, viver é algo difícil e passível de amarguras e sofrimentos.

Arya descobre a Câmara dos Rostos. Os Homens Sem-Rosto utilizam essas faces para se disfarçar. 
"No dia em que nascemos o Deus de Muitas Faces nos manda um anjo negro para atravessar a vida ao nosso lado. Quando nossos pecados e nosso sofrimento se tornam muito grandes para ser suportados, o anjo pega nossa mão para nos levar até as terras da noite, onde as estrelas brilham sempre fortes. Aqueles que vêm beber da taça negra estão em busca do seu anjo". (MARTIN, 2012, p. 275).

Por essa visão a morte seria uma libertação de todo o sofrimento terreno. Nesse ponto chegamos a uma questão intrigante. Pelo que sugere o comentário do personagem, a fé no de Muitas Faces acredita que só exista um único mundo da morte, que é simplesmente chamado de “terras da noite”. Mas pelo que ele sugere, não seria um lugar ruim. Tal condição se encaixa nas outras religiões criadas por Martin.

Os dothraki, povo nômade das estepes e desertos orientais de Essos, acreditam que só exista um único mundo da morte, onde eles cavalgarão por campos verdes sem-fim, ao lado de seu deus cavalo, o Grande Garanhão (Great Stallion). Por sua vez, a população das Ilhas de Ferro, arquipélago situado a oeste de Westeros, acredita que ao morrerem, suas almas se unirão ao Deus Afogado (The Drowned God) em seus salões submarinos, onde viverão em banquetes com ele e sereias. Os devotos da fé nos Antigos Deuses (Old Gods) não esclarecem para onde suas almas iriam. Já a religião do Deus Vermelho, R’hllor também não deixa claro como seria o pós-morte. Porém, no caso da Fé dos Sete (The Faith of the Seven), nessa religião acredita-se que hajam Paraísos e Infernos.

Observa-se pela menção as outras religiões inventadas por Martin, que elas não apresentam uma preocupação com a divisão das almas, entre boas ou más, exceto a Fé dos Sete, devido a essa ser inspirada em parte, no catolicismo medieval. Todavia, no caso da fé no de Muitas Faces, quando Arya indaga para onde iriam as pessoas más, o Homem Gentil responde que para o mesmo lugar que as pessoas boas. A dádiva da morte é dada a todos, sem nenhuma diferença. “Não cabe a você decidir quem vive e quem morre. Esse dom pertence ao das Muitas Faces”. (MARTIN, 2012, p. 272). O de Muitas Faces não julga seus pecados ou atos, ele apenas envia a morte.

Outro aspecto importante que George Martin comenta sobre essa religião, diz respeito aos deveres e obrigações do clero. Arya na sua jornada para se tornar um Homem Sem-Rosto é várias vezes confrontada pelos sacerdotes e acólitos a aprender a mentir, fingir e se desapegar de seu passado. Podemos considerar que os Homem Sem-Rosto devem fazer votos, algo que nos lembra as ordens monásticas. O primeiro voto é o da renúncia. “Aqueles que entram ao Seu serviço têm de renunciar a tudo o que faz deles quem são”. (MARTIN, 2012, p. 277).

Na história, o Homem Gentil e a Criança Abandonada ensinam Arya a se desapegar de seu passado e abandonar sua vingança. Eles falam para ela esquecer quem foi Arya Stark de Winterfell, e torna-se uma "ninguém". Um Homem Sem-Rosto não possui passado, família, identidade, sonhos e desejos. Sua obrigação é com seus irmãos de fé e com o Deus de Muitas Faces. Por isso eles são chamados de Homens Sem-Rosto, pois isso reforça a ideia de serem ninguém, pois o rosto é a principal evidência física de identidade. Uma pessoa sem rosto é uma pessoa sem identidade definida.

Porém, decidir ser um assassino a serviço da Morte é uma escolha muito difícil. “O que oferecemos não pode ser comprado com ouro. O preço é sua pessoa por inteiro. Os homens seguem muitos caminhos através deste vale de lágrimas e dor. O nosso é o mais duro”. (MARTIN, 2012, p. 276-277). Para se tornar um Homem Sem-Rosto além do voto de renúncia, devem ser feitos o voto de obediência: “Todos têm de servir sob este teto. Valar dohaeris é como dizemos aqui. Fique se quiser, mas saiba que exigiremos sua obediência”. (MARTIN, 2012, p. 275).

E o voto de servidão: “Nós não somos mais do que seus servos, presos ao juramento de cumprir sua vontade”. (MARTIN, 2012, p. 272), ambos implicam numa dedicação plena. “Antes de beber da taça fria, deve oferecer tudo o que você é ao das Muitas Faces. Seu corpo. Sua alma. Você. Se não conseguir fazer isso, deve deixar este lugar”. (MARTIN, 2012, p. 274). Isso tudo resulta num autossacrifício.

Um outro ponto que ainda não foi devidamente explorado por Martin nos livros, mas já melhor explicado no seriado, diz a escolha das vítimas. Arya comenta que existe um conselho de sacerdotes os quais deliberam os alvos a serem assassinados. No caso, o Homem Gentil diz que qualquer pessoa está passível de ser alvo, seja um pobre camponês ou até mesmo um rei. A questão é quem solicita isso. Pelo o que o Homem Gentil instrui, a escolha seria algo misterioso, e ele não dá detalhes a respeito.

Wittingslow (2015) comenta que os Homens Sem-Rosto apesar de serem guiados por um ideal religioso, eles ainda assim, estão ligados a interesses de outros tipos. Ele sublinha que disfarçado de “escolha divina”, os sacerdotes ocultam as intenções de seus clientes. No segundo livro, A Fúria dos Reis (A Clash of Kings), quando Arya conhece o soldado Jaqen H’ghar, posteriormente ele revelou ser um Homem Sem-Rosto, o qual estava infiltrado. Jaqen em agradecimento por Arya ter salvo a vida dele, lhe concede três assassinatos. Bastaria ela escolher a pessoa, ele não indagaria o motivo, apenas obedeceria. (MARTIN, 2011).

Além dessa condição em específico entre Arya e Jaqen, há trechos nos livros que dizem que os Homens Sem-Rosto poderiam ser “contratados” pelo preço certo. Ou seja, eles também atuavam como assassinos de aluguel. No seriado isso é mais explícito, quando Arya começa a questionar seu mentor a respeito dos alvos que ele lhe deu como missão. A condição dos Homens Sem-Rosto matarem não apenas por motivos religiosos como prega a doutrina de sua fé, mas por outros fatores, põem em dúvida a ideia de que eles não seriam os juízes de seus atos, mas apenas servos da vontade de seu deus, como alegam.

Para Wittingslow (2015) mesmo havendo esse fato da escolha dos alvos não ser algo imparcial, como alegado pela doutrina da fé no Deus de Muitas Faces, os assassinos realmente dedicados a este credo, concebiam que seus atos eram sagrados. Wittingslow assinala que o fato de Arya ter salvo Jaqen H’ghar e mais dois amigos, havia interferido no propósito deles. Era como se eles esperassem morrer em missão, mas aquela intervenção teria sido vista por Jaqen como um ato divino. E assim ele decidiu recompensar Arya. Ela pediu para que ele a libertasse, Jaqen disse que seu ofício era conceder mortes ao de Muitas Faces. Se ela era uma garota de fé, ele atenderia os pedidos dela.

Assim percebemos que a fé no Deus de Muitas Faces consiste numa religião de caráter monoteísta ou de monolatria, ao conceber que todas as divindades são interpretações oriundas da Morte; uma religião de ritos ocultos, somente revelados aos iniciados; sem liturgia; um dogma pautado em três principais votos: renúncia, servidão e obediência, os quais perfazem o autossacrifício para poder servir o deus, mas também para tornar-se um Homem Sem-Rosto, que consiste em seus instrumentos de misericórdia, pois o dogma diz que eles não julgam, apenas concedem o presente da morte.

No entanto, a religião do Deus de Muitas Faces não era a única a empregar a violência. Maureen Attali (2017) comenta que outras religiões de Westeros e Essos também faziam uso da violência. Attali dá alguns exemplos como o rito de iniciação da fé do Deus Afogado, onde os homens são afogados e depois trazidos a vida. Esse batismo afogado é apresentado como um dos principais ritos dessa religião natural das Ilhas de Ferro.

Outro exemplo é a condição do rei Stannis Baratheon que ao adotar a fé em R’hllor, o Senhor do Fogo e da Luz, Stannis convencido pela sacerdotisa vermelha Melisandre, ordena que hereges fossem queimados vivos. Tal fato é mais evidente no seriado do que nos livros. Outro exemplo dado por Attali consiste nos atos da Fé Militante, uma ordem militar religiosa a serviço do Alto Septão, o chefe religioso da Fé dos Sete. A Fé Militante foi inspirada nas ordens militares medievais além de agregar características inquisitoriais, já que uma ala de seus membros, chamados de Pobres Companheiros ou Estrelas (devido a usarem esse símbolo para serem identificados) era incumbida de investigar, procurar, aprisionar, julgar, torturar e executar os hereges.

Os comentários assinalados por Attali (2017) nos mostra como a violência e a morte são pensadas de formas diferentes nas quatro religiões apontadas acima. Os Homens Sem-Rosto consideram a morte uma dádiva de seu deus. O afogamento é parte essencial de um rito de iniciação na religião do Deus Afogado. Por sua vez, os seguidores de R’hllor e a Fé Militante, matam os hereges como forma de punição. Embora Melisandre diga que em alguns casos as pessoas queimadas para R’hllor possam servir de oferenda a ele, ou numa forma de purificar suas almas.

Religião e violência

Na introdução foi assinalado inicialmente como o senso comum tende a pensar de forma ambígua a relação entre religião e violência. Para algumas pessoas, as religiões jamais pregariam a violência. Mas para outros existem religiões que pregam a violência, o ódio e a maldade como o Islão e o Satanismo. Aqui nota-se essa ambiguidade. Mas academicamente falando, será que as religiões pregariam a violência ou não? Neste caso é preciso destacar que a religião e a violência estão suscetíveis a história e a cultura[2]. Logo, como as culturas são diferentes em distintos lugares e épocas, assim como, a cultura continua em constante transformação, e é preciso pensar as religiões e as noções de violências como estando suscetíveis a essas mudanças locais e temporais.

Assim, a percepção que as sociedades e as pessoas individualmente possuem da violência mudam. Em determinadas épocas e lugares certas ações podem ser vistas como violentas, mas em outros contextos não. Essa diferença interfere na forma como nós nos comportamentos frente a atos de violência, lembrando que tais atos podem ser aprovados legalmente ou moralmente, além da condição que a violência também seja usada para entretenimento. (FLANNERY; VAZSONYI; WALDMAN; 2007).

No caso é preciso expressar um conceito de violência, a qual pode ser entendida como todo ato e ação que procura causar algum tipo de dano e afronta a outrem, seja esse dano físico, psicológico, emocional, moral, material, social, legal, etc. Assim a violência pode se manifestar por palavras, imagens, gestos, agressões, guerras, discursos, ideias, crenças, atitudes, comportamentos, etc. E os atos violentos se manifestam através da violência física, psicológica, emocional, moral, sexual, e até mesmo através do racismo, discriminação, intolerância, homofobia, xenofobia, etc. E tais motivos podem ser gerados por fatores culturais, sociais, econômicos, políticos, religiosos, ideológicos, morais, neurológicos, biológicos, ignorância, medo, repúdio, ódio, apatia, etc. (KITTS; JUERGENSMEYER; JERRYSON, 2013). 

Diante desse sucinto conceito de violência e algumas formas de como a mesma pode se manifestar, percebe-se que o contexto religioso é um dos fatores possíveis para o surgimento de atos violentos. Mas como a religião se relacionaria com a violência? McCormick (2006) comenta que no começo do século XXI, a ideia de violência relacionada com crenças religiosas ficou bastante associada com o terrorismo islâmico, especialmente após o 11 de setembro de 2001.

Ainda hoje em 2019, é comum as pessoas associarem terrorismo e fanatismo religioso como fatores que conectam religião e violência. No entanto, eles não são os únicos. Purzycki e Gibson (2010) comentam que a violência nas religiões é oriunda de suas crenças, dogmas, doutrinas, ritos, mitos, imaginário, artes, literatura religiosa, mas também pode ser uma interpretação deturpada de seus dogmas e doutrinas. Alcorta e Sosis (2013) destacam que dependendo da crença religiosa, possuímos distintas formas de compreender os usos dados a violência.

No caso, a violência pelo viés religioso pode ser a manifestação de deuses, espíritos, divindades e seres sobrenaturais, os quais de acordo com suas atitudes, emoções e sentimentos podem gerar guerras, tragédias, discórdia, ódio, maldição, problemas entre eles ou para os humanos. Ou pode ser o resultado de punição contra a humanidade. A Bíblia possui casos clássicos de atos violentos promovidos por Deus para punir a humanidade.

A violência também pode ser o resultado de doutrinas dessas religiões, como as ideias de pecado e carma, as quais indicam que devido a fragilidade da condição espiritual, a humanidade está suscetível a atos vis, daí a existência da violência e do mal. Ou pode ser resultante de ritos, como os sacrifícios de animais e de humanos, onde se oferece sangue e sua carne as divindades. Ainda no campo da ritualística temos ritos de iniciação, de passagem, e marciais, onde a provação através do combate, caça, guerra ou a resistência a dor, são vistos como atos nobres, honrosos e louváveis. O próprio martírio visto em algumas religiões como o Judaísmo, Cristianismo, Islão e Budismo é a representação da resistência a dor e o sofrimento, como forma de provação da sua fé.

Em algumas religiões existem orações e a união com a magia, pela qual as pessoas pedem força, coragem, resistência, ferocidade, proteção, etc. para intuitos bélicos. E tais crenças não estão associadas apenas a deuses da guerra, mas a divindades distintas. Judeus, cristãos e muçulmanos já recorreram a Deus pedindo tais virtudes para ajudá-los no campo de batalha. Completando esses exemplos, podemos citar Margo Kitts (2013) a qual salienta que para além de uma questão teológica, ritualística e mitológica, a violência pode se manifestar através das religiões sendo amparada por outros fatores como o medo, o trauma, a intolerância, o ódio, a ignorância, o fanatismo, etc.

Observa-se por tais exemplos que a relação entre religião e violência é ampla e complexa, possuindo conexão que a envolve com uma série de fatores e condições internas e externas, os quais moldam as formas de como a violência era percebida a favor ou contra os desígnios religiosos. Se pensarmos que o Cristianismo, onde Jesus Cristo em várias passagens dos Evangelhos ordena que o bem, a tolerância, a amizade, a caridade, bondade e o amor sejam compartilhados com os judeus, gentios, pagãos e hereges, mas na prática, em nome dele, guerras foram feitas para se matar essas pessoas, é algo absurdamente incoerente.
        
Mas essa incoerência está presente nas religiões. Popovski (2009) assinala que embora essa incoerência possa ser gritante, ela deve ser percebida de um lado como fruto do contexto histórico da origem de determinada religião, os desafios enfrentados pelo povo ou povos que a profetizavam. Por outro lado, deva ser observada no seu desenvolvimento ao longo da história o que inclui reapropriações e mudanças de interpretação. No caso, Popovski comenta que ideias religiosas influenciaram na elaboração de leis, na estruturação política, na adoção ou banimento de costumes, na permissão ou proibição de determinadas práticas, e até em normas de conduta e motivos para se fazer guerras justas ou guerras santas.

Alguns usos para a violência sacralizada

Como apresentado no tópico anterior, as possibilidades de se estudar a relação da violência com a religião são várias: guerras, sacrifícios, perseguições, intolerância, punição, ritos, mitos, imaginário, etc. Só no âmbito da guerra tem-se uma vasta gama de possibilidades para isso. Mas o intuito desse texto foi tentar fazer um paralelo entre a religião fictícia do Deus de Muitas Faces com a realidade histórica. Teriam havido religiões ou crenças religiosas que pregariam algo similar, onde seria incentivado atos violentos ou homicidas, sendo alegados como ações divinas? À primeira vista pode-se pensar nos terroristas islâmicos da atualidade. Aqueles homens pertencentes a grupos como a Al Qaeda e o Estado Islâmico (ISIS), e os famosos “homens-bomba”, que se matavam em nome de Alá.

O caso desse fanatismo religioso que repercute em atentados terroristas é um exemplo válido, apesar de ter seus problemas. A doutrina islâmica seja a Sunita ou a Xiita, não prega propriamente o suicídio e o terrorismo como atos religiosos. No caso, tais homens tornam-se fanáticos religiosos e são induzidos a acreditar que o sacrifício que estariam fazendo, seria recompensado por Alá. Essa ideia não é exclusiva do Islão e tão pouco é uma invenção do século XX. Ela na prática é bem mais antiga.

No caso do Islão, na Idade Média houve a chamada Ordem dos Assassinos (1090-1273), ordem militar religiosa, criada por Hassan ibn Sabbah (?-1124) na Pérsia (atual Irã). Sabbah durante sua vivência no Egito, tornou-se xiita, mas acabou conhecendo a seita do Ismaelismo. Neste caso, o Ismaelismo era uma seita originada de outra seita, chamada Doze Imanes, a qual por sua vez, era oriunda do Xiismo. (LEWIS, 2003). 

A seita dos Doze Imanes defendia que os verdadeiros califas eram os descentes de Ali (600-661), sobrinho e genro de Maomé, e último califa rashadun (inspirado). Com o seu assassinato em 661, teve-se início a Dinastia Omíada (661-750), considerada ilegítima pelos xiitas. Por sua vez, alguns xiitas passaram a reconhecer os supostos descendentes do califa Ali, chamados de ímãs. Porém, uma nova cisão originou-se. O sexto ímã Jafar as-Sadiq teve dois filhos, Ismael e Musa (Moisés). Ismael era o sucessor por direito, mas morreu misteriosamente. Alguns dos seguidores de seu pai, postulavam que ele foi assassinado. Seus adeptos defendiam que Musa não teria direito, mas o direito de sucessão caberia a Mohammed, filho de Ismael. Com isso surgiu os ismaelitas, uma nova seita. (HOURANI, 1991).

O Ismaelismo sofreu perseguição e intolerância por não ser bem aceito, mas ganhou terreno fértil em alguns lugares da Pérsia. E Hassan ibn Sabbah usou isso a seu favor para criar sua Ordem dos Assassinos. Bernard Lewis (2003) conta que a história dos Assassinos é envolta entre fatos e lendas, mas ele sublinha que tal ordem militar islâmica de vertente ismaelita foi real. No caso, os Assassinos não seriam sacerdotes, mas eram guerreiros que se dedicavam ao seu líder espiritual, chamado de Ancião, Velho da Montanha, Aoladin, etc. O qual se valia de sua autoridade, poder e riqueza para recrutar homens destemidos e determinados a fazerem votos de obediência, servidão e dedicar suas vidas aos propósitos da Ordem, dentre os quais, criar um Imanato Ismaelita. Os homens eram instruídos a terem uma lealdade cega e lhes era dito que seu serviço árduo seria recompensado no Paraíso.

Observamos algumas similaridades entre a Ordem dos Assassinos e a religião do Deus de Muitas Faces. Em ambos os casos os recrutados são homens que abandonam suas vidas e passam a se dedicar de corpo e alma ao seu credo. Apesar que os Assassinos fossem autorizados a se casar e ter filhos, mas estariam reclusos as fortalezas e vilas sob controle da ordem. Diferente dos Homens Sem-Rosto que lhes era proibido isso. Se por um lado os Assassinos receberiam uma recompensa na outra vida, nada se sabe se os Homens Sem-Rosto receberiam algo do tipo. Pelo que Martin sugere, a ideia não era essa. A recompensa deles era apenas o ato de servir, pois no fim todos as pessoas irão para a “longa noite” da mesma forma.

Mas se tal condição é uma diferença significativa entre as duas crenças, em ambos os casos, Assassinos e Homens Sem-Rosto atuavam como assassinos de aluguel. Eram contratados para participar de guerras, atos de vingança, e assassinatos que requeressem discrição. Mas nesse caso observa-se outra diferença. Os Homens Sem-Rosto cometiam assassinatos como parte da sua missão sagrada, pois a morte era encarada como uma dádiva. Os Assassinos matavam pelo dever a eles imposto. A morte não seria algo sagrado, mas um meio para mostrar serviço ao seu líder espiritual, que se proclamava como representante do ímã, que por sua vez, era representante de Alá.

Mat Hardy (2017) assinala que os Homens Sem-Rosto teriam sido inspirados na crença dos “assassinos do Oriente”, algo que remonta desde a Antiguidade, a qual os europeus falavam dos Zelotes, dos Sicários, dos Nizaris e dos próprios Assassinos. Hardy comenta que para o imaginário europeu, esses grupos políticos e/ou religiosos ganharam fama ao ponto de se tornarem lendários. Daí se desenvolverem histórias na maioria das vezes exageradas sobre a fama de seus membros como exímios e perigosos assassinos fanáticos.

Entretanto não foram apenas os muçulmanos que tornaram o uso da violência e da guerra como algo legalmente aceito pela sua fé, mesmo que essa apresente disparidade quanto a forma de se fazer guerra e o uso da violência. Os cristãos também fizeram isso. Maureen Attali (2017) compara a Fé Militante com os cruzados e as inquisições. A Fé Militante detinha parte da sua ordem chamada de Espadas, dedicada a guerra e proteção dos reinos, algo que lembra os cruzados enviados para a Terra Santa, como informa o autor. Por sua vez, os Estrelas, anteriormente comentado, atuariam como inquisidores, caçando os hereges, julgando-os e os punindo. Essa punição poderia ser através de prisão, difamação e súplicas públicas (como os autos de fé da inquisição portuguesa e espanhola), ou a execução para crimes mais graves.

Sublinhamos também a condição de que durante a Primeira Cruzada (1096-1099), o papa Urbano II, no Concílio de Clermont-Ferrand (1095), convocou os reis e senhores feudais para uma cruzada, dizendo que aqueles que servissem nessa guerra santa, estariam bem quistos perante a Deus, além de ser um ato de servidão, dedicação, obediência, honra e gratidão ao Senhor, eles receberiam a indulgência plenária, o perdão de todos os seus pecados. O que lhe concederia ida direta ao Paraíso. Matar naquele contexto não seria algo ruim, desde que se matasse os “inimigos de Deus”. (FRANCO JR, 1989).

Outro exemplo histórico que mescla grupos de assassinos agindo em prol de uma divindade da morte, dizia respeito aos Tugues, uma misteriosa seita formada por criminosos que adoravam a deusa da morte Kali, na Índia. Os Tugues atuaram ao longo de séculos, pelo menos entre os séculos XVI ao XIX. Pouco se sabe a respeito de como funcionava sua organização e credo, mas eram conhecidos por sacrificarem suas vítimas a deusa da morte. (WAGNER, 2007).

Os Tugues também apresentam semelhanças com os Homens Sem-Rosto por serem um grupo com segredos, ritos ocultos, uso da violência para fins religiosos, políticos e pessoais, pois além de assassinos, os tugues eram ladrões. E durante a colonização britânica no século XIX, eles foram um dos problemas enfrentados pelos britânicos. E isso rendeu uma série de lendas sobre sua fama como assassinos fanáticos cruéis e temíveis. (WAGNER, 2007).

Considerações finais:

Observamos neste estudo, ao se analisar uma religião fictícia e compará-la com religiões e crenças da realidade, como a violência pode estar associada de formas distintas com crenças religiosas. Essa ligação complexa e ambígua como comentada por alguns autores citados anteriormente, revela-nos que as religiões estão mais suscetíveis a influências pessoais e externas do que se imagina, pois geralmente se pensa no poder da autoridade que elas exercessem sobre a sociedade, mas esquece-se que parte da sociedade exerce autoridade sobre os dogmas, instituições e seus ritos.

Por outro lado, percebeu-se que as religiões apesar de criticarem atos violentos, também os permite. Inclusive essa permissão é curiosa pois dentro do contexto sagrado, divino, mágico-religioso de uma religião, o que poderia ser considerado violento não é visto dessa forma. Por exemplo, o ato de cometer sacrifícios humanos é algo abominável, mas entre algumas religiões isso era comum. O ritual de antropofagia praticado por alguns povos indígenas no Brasil, era visto como canibalismo, barbárie, violência, crueldade, mas para eles era uma honra ao morto e a sua comunidade. Causar guerras com pretextos vagos é ruim, mas quando se justifica elas por um viés religioso, salvacionista, profético, divino, sagrado, etc. matar, roubar, destruir e estuprar não são crimes graves, mas consequências daquela guerra santa ou justa.

Referências:
ALCORTA, Candance S; SOSIS, Richard. Ritual, Religion, and Violence: An Evolutionary Perspective. In: JUERGENSMEYER, Mark; KITTS, Margo; JERRYSON, Michael (eds.). The Oxford Handbook of Religion and Violence. Oxford/New York: Oxford University Press, 2013. p. 670-700.
ATTALI, Maureen. Religious violence in Game of Thrones. An historical background from antiquity to the European Wars of Religion. In: PAVLAC, Brian A (ed.). Game of Thrones versus History. Malden: Willey Blackwell, 2017. p. 185-194.
BURKE, Peter. O que é história cultural? Tradução de Sérgio Goes de Paula. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
FLANNERY, Daniel J; VAZSONYI, Alexander T; WALDMAN, Irwin D. The Cambridge Handbook of Violent Behavior and Aggression. New York: Cambridge University Press, 2007.
FRANCO JR, Hilário. As Cruzadas. 6. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.
HARDY, Mat. The Eastern Question. In: PAVLAC, Brian A (ed.). Game of Thrones versus History. Malden: Willey Blackwell, 2017. p. 97-110.
HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia de Bolso, 1991.
KITTS, Margo; JUERGENSMEYER, Mark; JERRYSON, Michael.  Introduction: The Enduring Relationship of Religion and Violence. In: JUERGENSMEYER, Mark; KITTS, Margo; JERRYSON, Michael (eds.). The Oxford Handbook of Religion and Violence. Oxford/New York: Oxford University Press, 2013. p. 16-28.
KITTS, Margo. Religion and Violence from Literary Perspectives. In: JUERGENSMEYER, Mark; KITTS, Margo; JERRYSON, Michael (eds.). The Oxford Handbook of Religion and Violence. Oxford/New York: Oxford University Press, 2013. p. 469-496.
LEWIS, Bernard. Os Assassinos: os primórdios do terrorismo no Islã. Tradução de Mauro Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: O Festim dos Corvos, livro 4. 8ª reimpressão. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo: Leya, 2012. 5v
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Fúria dos Reis, livro 2. 8ª reimpressão. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo: Leya, 2011. 5v
MCCORMICK, Patrick T. Violence: religion, terror, war. Theological Studies, n. 67, 2006, p. 143-162.
POPOVSKI, Vesselin. Religion and War. In: POPOVSKI, Vesselin; REICHEBERG, Gregory M; TURNER, Nicholas. World religions and Norms of War. New York: United Nations University Press, 2009. p. 11-29.
PURZYCKI, Benjamin Grant; GIBSON, Kyle. Religion and Violence: an antropologhical study on religious belief and violent behavior. Skpetic Magazine, vol. 16, n. 2, 2010, p. 1-7.
WAGNER, Kim A. Thuggee: banditry and the British in Early Nineteenty-Century. New York: Palgrave MacMillan, 2007.
WITTINGSLOW, Ryan Mitchell. “All men must serve”: Religion and Free Will from the Seven to the Faceless Men. In: BATTIS, Jes; JOHNSTON, Susan (eds.). Mastering the Game of Thrones. Essays on George R. R. Martin’s, A Song of Ice and Fire. Jefferson, NC: McFarland & Company, Inc, Publishers, 2015. p. 113-131.



[1] Nos livros o treinamento de Arya Stark para se tornar uma assassina ainda continua, enquanto que no seriado ele já terminou, e ela se encontra em sua vingança. Para este estudo prezamos o uso dos livros, pois o seriado desde a 5ª temporada já ultrapassou a trama dos livros, seguindo caminhos diferentes.
[2] Um seria "todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade". (BURKE, 2006, p. 44).

sexta-feira, 22 de março de 2019

Baba Yaga

Uma das personagens mais conhecidas do folclore russo e do folclore de outros países de origem eslava, é Baba Yaga, sombria bruxa que vive solitária nas florestas, e que costuma causar mal as pessoas. As histórias sobre Baba Yaga possui distintas versões, ao ponto de alterar alguns aspectos sobre suas lendas e o temor que ela gerava nas crianças e até em adultos. Baba Yaga no século XX deixou as narrativas orais russas e os livros de contos para ser reutilizada em filmes, livros, jogos, etc. tornando-se inclusive uma figura ainda mais conhecida. 

Chamada de Baba Yaga, Yegi Baba, Baba Jaga, Yagishna, Baba Jedza, Babaroga e por outros nomes, essa personagem folclórica desde o século XIX, assombra as crianças e adultos, seja através de relatos folclóricos ou de contos de fadas, essa terrível bruxa tornou-se um dos vilões mais conhecidos do folclore do leste europeu. Em língua russa Baba Yaga é referida nos relatos mais antigos como ved'ma, palavra usada para se referir a bruxa, mas que também poderia ser usada para se referir a vidente ou advinha, o que sugere que antes de encarnar o estereótipo da bruxa velha, feia e má, Baba Yaga pode ter sido uma figura associada com a adivinhação, algo comum em narrativas folclóricas europeias. (FORRESTER, 2013, p. XXI-XXII; OLESZKIEWICZ-PERALBA, 2015, p. 15). 

Sibelan Forrester (2013, p. XXII) ao analisar a etimologia do nome da bruxa, comenta que trata-se de um nome composto com palavras coloquiais. A autora aponta que atualmente a palavra baba é usada num sentido pejorativo para se referir a mulheres pobres, mulheres feias e até no sentido de vadia. Por outro lado, ela comenta que no passado baba tivesse outros sentidos, significando parteira, velha e talvez sendo uma alusão a borboleta. No caso, a autora aponta que normalmente uma parteira é uma mulher mais velha, que tem experiência com partos. Além disso ela aponta que a ideia de velha não significa no sentido de idoso, mas pode se referir a mulheres com seus 40 ou 50 anos. No caso da borboleta, existe a crença que borboletas personifiquem a alma, e Baba Yaga em algumas narrativas está associada com a morte. 


Baba Yaga. Ivan Bilibin, c. 1900. 
Quanto a palavra yaga, Forrester diz que essa é mais difícil de ser definida. Filólogos sugeriram que poderia se referir a caçadora, viajante, perseguidora, mas também poderia significar horrível e horripilante. Nesse ponto Baba Yaga a grosso modo poderia significar algo como "velha horripilante" ou "a velha que persegue", duas possíveis interpretações que fazem sentido, quando pensamos que ela em algumas narrativas é descrita vagando pelas florestas atrás de suas próximas vítimas. No entanto, isso não são conceitos conclusivos. 

O folclorista russo Vladimir Propp (1895-1970), que observou que Baba Yaga possuía características e atitudes diferentes conforme o conto. Isso por um lado revela que não havia apenas uma história sobre essa bruxa, mas várias histórias, apesar que a maioria ele recolheu do folclore russo, não se aprofundando nos países vizinhos que também possuem histórias sobre ela. De outro lado, essa diversidade também é resultado da condição que se tratavam de narrativas transmitidas oralmente, que vivenciavam o dinamismo da oralidade e da língua. No Brasil, Monteiro Lobato fez algo parecido ao recolher histórias sobre o Saci-Pererê notando que apenas no estado de São Paulo havia várias versões do mesmo personagem folclórico. 

De qualquer forma, no estudo de Propp, ele observou que Baba Yaga nem sempre aparecia como a figura da bruxa má, ela em algumas narrativas é retratada como a velha sábia, que vive como ermitã na floresta. A qual possui conhecimento curandeiro e mágico e ajuda as pessoas. Em outras narrativas, Baba Yaga é retratada como uma bruxa que sequestra crianças, joga feitiços em caçadores, rapta mulheres ou homens, causa maldades ou até mesmo assassinatos. No entanto, tornou-se mais recorrente a visão negativa de Baba Yaga como uma bruxa macabra e cruel. (PROPP, 2012; OLESZKIEWIEZ-PERALBA, 2015). 

Nesse ponto tem-se relatos e representações iconográficas que mostram Baba Yaga, usando um saco para carregar as crianças sequestradas; representações dela voando numa vassoura, num caldeirão, num batedor de manteiga ou morando numa casa (izba) de madeira que tem pernas de galinha ou de outro pássaro - representação bem típica hoje em dia -, o que concederia o fato de sua casa ser difícil de ser localizada, pela condição de ser uma residência móvel. Forrester (2013, p. XXVII) comenta com base num estudo sueco que a casa da Baba Yaga poderia ter sido inspirada em casas de palafita, as quais são construídas em terrenos pantanosos ou ribeirinhos. Isso justificaria o fato da casa dela ter "pernas". Porém, é apenas uma suposição, já que não se sabe a origem desse relato propriamente. 


Representação mais recente de Baba Yaga. Mostrando sua casa com patas, caveiras humanas no quintal, e a bruxa arrastando uma criança. 
Oleszkiewiez-Peralba (2015, p. 18) aponta que no conto Vasilisa a bela, a protagonista que está perdida na floresta, acaba chegando a casa da bruxa, e depara-se com ossos humanos tendo sido usados para fazer cercas, postes e outros adornos.  Forrester (2013) comenta que em outros contos como: O irmão, A princesa sapa e O jovem rapaz e as maçãs da juventude, a casa da bruxa não é referida tendo pernas e é descrita como sendo uma pequena cabana. Não obstante, em outras narrativas, Baba Yaga não tem a capacidade de voar, locomovendo-se a pé. Além disso, a bruxa necessariamente não voa numa vassoura como citado anteriormente. 

Oleszkiewiez-Peralba (2015) comenta com base no estudo dos folcloristas Propp e Toporov, que as histórias macabras sobre Baba Yaga possa ser resultado de interpretações equivocadas sobre antigas práticas pagãs, que envolviam ritos e cultos a divindades da floresta e espíritos da natureza, que eventualmente foram demonizadas pelo cristianismo. Por outro lado, a bruxa também poderia representar o medo que se tem da floresta e seus perigos, além de ter uma utilidade moral para fins de instruir as crianças a ficarem longe da floresta, a não falar com estranhos, a não ficar perambulando sozinhas ou de noite, para não serem sequestradas pela Velha do Saco. No entanto, esse lado sombrio também possa advir do próprio imaginário da bruxaria, desenvolvido desde o século XV na Europa. 

O fato que nas narrativas de Baba Yaga conhecemos elementos do cotidiano dos camponeses russos. Temos casas feitas de toras, ou cabanas; uso de vassouras, pilões, batedores de manteiga, baldes, caldeirões, fusos, utensílios de cozinha, etc. A bruxa as vezes está acompanhada de gatos, sapos,cobras, morcegos, insetos, animais que concedem um tom sombrio devido a associação com a bruxaria. Em algumas narrativas onde ela é benéfica, há referência ao uso de ervas utilizadas para fins medicinais. (AFANAS'EV, 1975; FORRESTER, 2013). 


Propp (2012) sugeria a interpretação que Baba Yaga também em algumas narrativas, pudesse expressar o elemento de guardião de fronteira. Havendo interpretações que apontam que a bruxa estaria associada com o mundo dos mortos, e a condição de ela vagar por florestas, poderia representar o medo das pessoas quanto ao desconhecido e a crença de que o mundo dos mortos poderia ser acessado por meios físicos, fosse atravessando-se rios, entrando em florestas, cavernas ou subindo em montanhas. Para Forrester (2013), essa relação da bruxa com os mortos e o submundo seria mais visível em contos ucranianos, e não necessariamente russos. Para Oleszkiewiez-Peralba (2015), Baba Yaga teria surgido a partir de alguma antiga deusa eslava associada com os mortos, mas sofrido várias variações com o tempo, até chegar a imagem da bruxa que conhecemos.Embora os contos tenha começado a serem recolhidos no século XIX, as histórias sobre essa bruxa são anteriores e se perdem no tempo, não sabendo quando surgiram. 

As histórias sobre Baba Yaga são diversas, e para um melhor conhecimento sobre essa icônica bruxa, seria necessário a leitura de tais contos. Por sorte, folcloristas como Propp reuniram vários desses contos. No entanto, recomendou o livro de Sibalan Forrester, a qual reúne 26 contos a respeito de Baba Yaga. Sendo assim, para concluir esse breve texto, volto a destacar que apesar da imagem perversa e sombria dessa bruxa ser atualmente mais conhecida através de outras mídias, é notável como na tradição folclórica, personagens por nós tidos como sendo apenas vilões ou heróis, possam possuir características ambíguas e contrastantes. 

NOTA: No jogo Rise of the Tomb Raider (2015) em uma das DLCs, Lara Croft confronta a bruxa Baba Yaga. 
NOTA 2: No jogo Castlevania: Lord of Shadows (2010), Baba Yaga aparece no jogo e ajuda o protagonista Gabriel Belmont
NOTA 3: Baba Yaga aparece em algumas histórias de Hellboy
NOTA 4: Na série de filmes John Wick, o protagonista é apelidado de Baba Yaga, por ser um temido assassino. 

Referências bibliográficas: 
AFANAS'EV, Aleksandr. Russian Fairy Tales. Toronto, Pantheon Books, 1975.
FORRESTER, Sibelan. Baba Yaga: The wild witch of the East in Russian fairy tales. Jackson, University Mississippi Press, 2013. 

PROPP, Vladimir. The Russian Folktales. Edited e translated by Sibalan Forrester. Detroit, Wayne State University Press, 2012. 
OLESZKIEWIEZ-PERALBA, Malgorzata. Fierce feminine divinities of Eurasia and Latin America. Baba Yaga, Kali, Pombagira and Santa Muerte. New York, Palgrave Macmillan, 2015. 

sexta-feira, 8 de março de 2019

Percy Fawcett e a cidade perdida de Z

Desde o século XVI a América do Sul é destino de exploradores que buscaram ao longo dos séculos, supostas cidades perdidas como Eldorado, Paititi, Atlântida, entre outras. Geralmente essas cidades são situadas na região Amazônica ou nos Andes, compreendendo dos territórios do Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. Até hoje nenhuma dessas cidades foram encontradas, sendo consideradas por alguns como apenas lendas criadas pelos exploradores espanhóis e portugueses, após confundirem relatos indígenas ou suporem que realmente haveriam prósperas cidades, algumas ricas em ouro. Por outro lado, há quem diga que essas cidades possam ter sido baseadas em lugares reais, mas não sendo iguais como informado nas lendas. 

E no presente texto falo de uma dessas cidades sul-americanas lendárias, mas que foi julgada ser real. Trata-se da cidade perdida de Z, teoria concebida pelo coronel britânico Percy Fawcett, a qual tornou-se uma obsessão ao longo de vários anos de sua vida, levando-a a viajar ao Brasil várias vezes para encontrar indícios dessa misteriosa civilização perdida, a qual Fawcett acreditava que estaria situada no atual estado do Mato Grosso. Assim, procurei contar um pouco da história de Fawcett referente a suas expedições para buscar Z, embora que em vida, ele realizou outras expedições no Brasil e na Bolívia, para fins de mapeamento geográfico, mas nesse tempo ele coletou informações as quais iam formando o quebra-cabeça que ele chamou de Z. 

Breve histórico sobre Fawcett: 

Embora seja lembrado pela fama de explorador com interesse em arqueologia, Fawcett era militar de formação, tendo servido a Coroa Britânica na Ásia, África, Europa e na América do Sul. Vários anos antes de ele iniciar suas missões exploratórias no Brasil, Fawcett já havia percorrido as selvas africanas e lutado em guerras. Percy Harrison Fawcett nasceu em 18 de agosto de 1867, em Torquay na Inglaterra, era filho do militar Edward Boyd Fawcett (1839-1884), capitão do exército e jogador profissional de críquete. Edward era casado com Myra Elizabeth Fawcett (1844-1876). Percy possuía um irmão mais velho, chamado Edward Douglas (1866-1960), que tornou-se montanhista e escritor esotérico. (FAWCETT, 2010). 

Percy como seu irmão mais velho, foram educados no Propriety College em Newton Abbot. Com a morte da sua mãe em 1876, isso afetou bastante o seu pai, o qual profundamente magoado, passou a beber e jogar, contraindo dívidas. Edward Fawcett morreu aos 44 anos devido a tuberculose. Como os filhos não eram mais crianças, cada um seguiu sua vida. Em 1886, aos 19 anos, Percy ingressou na Academia Militar Real em Woolich, decidindo seguir carreira militar como seu pai. Diferente de seu irmão Edward, que seguiu uma vida mais aventureira, com direito a virar budista e se interessar por esoterismo e ocultismo. No ano de 1897, Percy foi nomeado para a patente de capitão e designado para missões na Ásia, passando por Hong Kong e o Ceilão (atual Sri Lanka). Foi no Ceilão que conheceu sua futura esposa, Nina Agnes Patton (1871-1954). Os dois voltariam a se encontrar mais vezes, iniciando um relacionamento. Em 1901 se casaram. Da união do casal nasceram três filhos: Jack (1903-?), Brian (1906-1984) e Joan (1910-2005). (FAWCETT, 2010). 


Percy Fawcett e sua esposa Nina Agnes Patton. 
No ano de 1901, Fawcett recebeu o convite para trabalhar na Royal Geographical Society, sendo enviado para missões no norte da África, participando de expedições geográficas e cartográficas. Foi nesse tempo que ele aprendeu técnicas de sobrevivência, assim como, ganhou gosto pela exploração de terrenos. Fawcett passou os anos seguintes servindo no continente africano até que no ano de 1906, já morando na Irlanda, o governo da Bolívia solicitou da Royal Geographical Society, que enviassem uma expedição para mapear suas fronteiras com o Brasil. A sociedade decidiu enviar Fawcett, que contava com experiência na África, e estava no momento de licença. Com isso, ele foi enviado ao Brasil. (BERTRAN, 1995). 

Percy Fawcett viaja ao Brasil: 

O interesse por Z ainda demoraria alguns anos para surgir. Naquele momento, Fawcett era um major inglês de 39 anos, que pouco sabia falar português e espanhol, e estava em missão para mapear algumas localidades próximas as fronteiras da Bolívia com o Brasil. Fawcett permaneceu alguns meses no Brasil, viajando pelo interior do estado do Mato Grosso, depois seguindo até La Paz, capital da Bolívia. A maior parte do território percorrido por ele e seus homens, tratava-se de selva densa, além da condição de ainda naquele tempo, haviam tribos indígenas que mal falavam o português ou espanhol, e viviam de maneira antiga, andando nus, e até conservando hostilidade com os forasteiros. Em seus diários de viagem, ele relata ter visto animais estranhos, além de ter atirado numa cobra gigante, ter visto aranhas grande e peludas, lobos de pelugem alaranjada, entre outras espécies. (FAWCETT, 2010).

Em 1908, ele percorreu o rio Guaporé, através dos estados do Mato Grosso e Rondônia (embora que naquela época não havia ainda o estado de Rondônia), chegando a sua fonte. No ano de 1909, ele participou de nova expedição, tendo inclusive recebido apoio de soldados brasileiros, que estavam a serviço do marechal Cândido Rondon (1865-1958), famoso militar e explorador brasileiro, de origem indígena, dedicou vários anos de sua vida servindo o Exército e explorando os sertões do Mato Grosso. Rondon não conheceu Fawcett na ocasião de 1909, mas anos depois eles viriam a se conhecer no Rio de Janeiro. De qualquer forma, alguns problemas ocorridos em 1909, levou Percy Fawcett a abortar sua expedição, se desentendo com os soldados brasileiros. (RAMOS; ERTZOGUE, 2016). 


Coronel Percy Fawcett em fotografia de 1911. 
No ano de 1910, de volta ao Brasil, Fawcett seguiu para a Bolívia, onde navegou pelo rio Heath, que percorre aquele país e o Peru, procurando mapeá-lo até sua fonte. Nessas andanças mais ao norte, Fawcett entrou em contato com a extração da borracha na Amazônia, a exploração do trabalho dos seringueiros e até o comércio ilegal de escravos indígenas, para trabalhar nos seringais ou em minas. Ele relata algumas das impressões sombrias que teve sobre isso, em seus diários. De qualquer forma, no ano de 1911, uma notícia surpreendeu parte do mundo, e Fawcett ficou interessado. Naquele ano foi descoberta a cidade inca de Macchu Picchu. Sua descoberta ou redescoberta como alguns sugerem, impulsionou uma onda de exploradores ao Peru e países vizinhos atrás de novas cidades. (BERTRAN, 1995). 

Na sua expedição seguinte, em 1913, percorrendo novamente território brasileiro e boliviano, Fawcett diz que foi naquela época que começou a surgir a teoria de que haveria uma cidade pré-colombiana, situada em algum lugar do interior do Mato Grosso. Influenciado pela descoberta de Macchu Picchu, além de ler matérias sobre pesquisas na região andina, e ter ouvido histórias dos habitantes locais, sobre estranhas formações e objetos raros, Fawcett acreditava que outras cidades perdidas poderiam se encontrar por ali, ocultas nas selvas sul-americanas. Ele pretendia retomar ao Brasil para prosseguir nas investigações, mas seus planos foram adiados, pois em 1914 eclodiu a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Fawcett foi convocado para atuar na guerra, além do fato que várias expedições da Royal Geographical Society foram suspensas nesse período. Fawcett somente retornou ao Brasil em 1920, já com uma teoria em mente, buscar evidência da cidade perdida de Z. (FAWCETT, 2010). 

A teoria da cidade perdida de Z: 

Fawcett passou parte do período que esteve servindo na Primeira Guerra, pesquisando da melhor forma que podia, a respeito de cidades perdidas no Brasil. Chegando a ler sobre história brasileira, algo que ele comenta em alguns de seus diários. Ainda em 1919, ele conheceu o presidente brasileiro, Epitácio Pessoa (1865-1942), o qual visitou Londres, na ocasião. Segundo informa o militar inglês, o presidente Pessoa demonstrou interesse em seu trabalho realizado em seu país, nos anos anteriores. No ano de 1920, em visita ao Rio de Janeiro, ele conheceu o marechal Rondon e se reencontrou com Epitácio Pessoa. Nesse período Fawcett também visitou arquivos e bibliotecas na cidade, procurando por livros, relatórios, mapas e outros documentos que pudessem lhe fornecer subsídios para sustentar sua teoria sobre Z. 

Um dos documentos que lhe chamou a atenção foi o manuscrito 512, cujo subtítulo é Relação histórica de uma oculta e grande povoação antiquíssima, sem moradores, que se descobriu no ano de 1753. A obra de autoria anônima, falava a respeito de uma expedição de bandeirantes ao interior da então Capitania da Bahia. O relato passou vários anos esquecido no acervo da Biblioteca Nacional, até ser encontrado durante uma pesquisa em pilhas de documento. O manuscrito foi publicado em 1839, no tomo I da Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (RIHGB). O manuscrito apresenta alguns trechos incompletos, ainda assim, pode-se ler seu relato sobre ruínas de pedra, e a descoberta de artefatos de ouro no local. Fawcett que tomou conhecimento desse manuscrito, acreditava que Z, talvez pudesse ter existido, pois esse manuscrito referia-se a uma antiga cidade supostamente real, também situada no Brasil.


Primeira página do manuscrito 512. Esse relato influenciou Percy Fawcett a manter sua teoria sobre cidades perdidas no Brasil. 
No mês de maio, Fawcett se reuniu a Rondon e o presidente Pessoa, para debater uma proposta de missão exploratória diplomática. Não se sabe ao certo detalhes da conversa, mas Fawcett solicitava apoio e recursos do governo federal para liderar uma expedição ao Mato Grosso, a fim de procurar a cidade de Z, que ele acreditava que estivesse situada na parte serrana daquele estado. Sendo uma cidade supostamente construída por povos europeus, que migraram há muito tempo para a América do Sul. (RAMOS; ERTZOGUE, 2016).

O interessante na teoria inicial de Fawcett, era que para ele Z, não seria oriunda de culturas indígenas sul-americanas, como os Incas e outros povos andinos, conhecidos por suas cidades de pedra. Ele achava que algum povo do Mediterrâneo, como gregos, cartagineses ou fenícios, poderiam ter navegado há muitos séculos até a América do Sul, adentrado o interior do continente e fundado uma cidade no Mato Grosso. Apesar de soar bem fantasiosa essa ideia, Fawcett, seu filho Jack, na época com seus 17 anos, e o amigo deles, Raleigh Rimmel, acreditavam nessa história. É preciso sublinhar que a ideia de Fawcett para uma cidade de origem "branca" no interior do Brasil, estaria associada com o mito de Atlântida e com a visão racial da época, onde se imperava o racismo científico, no qual dizia que povos negros e pardos, não seriam "evoluídos" o suficiente para realizar grandes feitos. Além disso, ainda no século XIX, teorias sobre a presença de fenícios, cartagineses, gregos, hebreus e vikings, os quais teriam visitado o Brasil entre a Antiguidade e o Medievo, já existiam. (RAMOS; ERTZOGUE, 2016). 

De qualquer forma, Fawcett conseguiu verba do governo brasileiro, apesar que negou-se de receber ajuda de Rondon e seus homens. Aquilo o irritou, pois, para Rondon, Fawcett estava sendo arrogante e tratava-se de um caçador de tesouros, não de um explorador sério, preocupado com a arqueologia e a história. Esse foi o início do desentendimento entre Fawcett e Rondon, que até virou notícia de jornal na época. A expedição de 1920 chegou a ocorrer, mas devido as fortes chuvas que acometeram o Centro-Oeste, o que atrasou a viagem em semanas, Percy Fawcett decidiu abandonar a busca. Porém, no ano seguinte, ele retornou ao Brasil, mais ao invés de ir procurar Z, Fawcett retornou com seu filho e amigo, e outros colaboradores, partindo para o interior da Bahia, a fim de encontrar a cidade citada no manuscrito 512. Fawcett passou semanas percorrendo os sertões baianos, sem encontrar nenhum vestígio da tal cidade que o manuscrito falava. Além disso, antes dele, expedições brasileiras tinham percorrido a região e nada encontram, fosse as ruínas de pedra, as minas de prata ou ouro, que alegavam ali existir. Fawcett era visto por alguns já naquele tempo, como um homem obcecado por lendas.  (BERTRAN, 1995; RAMOS & ERTZOGUE, 2016). 

Em seu diário nota-se que ele estava cansado, já que naquela altura, era um homem com seus 52 anos, já não possuía o vigor de antes para enfrentar longos dias de marcha, e caminhadas pela selva e o cerrado. Embora ele acreditasse que Z pudesse existir, por um lado, ele demonstrava frustração e não conseguir encontrar patrocínio. Posteriormente ele foi aposentado do Exército, apesar de ter ganho uma medalha pela Royal Geographical Society, e outras comendas, Fawcett relata em 1924, que estava frustrado e insatisfeito com sua vida e aposentadoria. Porém, ele ainda estava disposto a retornar ao Brasil. Com isso, Fawcett foi procurar patrocínio, recorrendo aos seus contatos. (FAWCETT, 2010). 

A última expedição: 

No ano de 1925, Percy, Jack e Raleigh retornam ao Brasil, compondo uma expedição patrocinada pela Northern American Newspaper Alliance, a qual Fawcett prometeu matéria exclusiva sobre sua descoberta; além de ser patrocinado pela Sociedade Geográfica Americana, o Museu do Índio Americano e o Instituto Rockfeller. A expedição de 1925 era de suma importância, pois Percy havia recebido dinheiro e outros recursos, além de estar em dívida com seus patrocinadores, ele tinha a obrigação de encontrar algo, do contrário, além de ser um homem endividado, seria chacota internacional, e isso poderia pôr fim a qualquer outra chance de empreender nova jornada ao Brasil. Em março a expedição chegou a São Paulo, de onde após alguns dias se preparando, seguiu de trem até o Mato Grosso, até a capital do estado, Cuiabá. Eles permanecem alguns dias em Cuiabá, cidade onde Percy possuía amigos, devido a suas várias viagens ao Mato Grosso. Apesar de ter trabalhado com outras pessoas no passado, naquela ocasião, Fawcett decidiu empreender a jornada apenas em companhia de seu filho e amigo. (BERTRAN, 1995). 


Jack Fawcett e Raleigh Rimmel, em fotografia de 1925. 
Relatos da época contam que Fawcett estava empolgado com a viagem, e apresentava ideias ocultistas. Diziam que ele falava que estava próximo de fazer uma grande descoberta. O jornalista Edmar Morel em 1936 publicou matéria sobre a última expedição de Fawcett, referindo-se a ele como um homem obcecado por lendas e o sobrenatural, o qual falava pelos cotovelos. E que parecia acreditar em Atlântida. Inclusive teria levado consigo uma estatueta dourada, dada-lhe pelo seu amigo Sir Haggard, um escritor de aventura e interessado em ocultismo, que alegava ter ganho aquela estátua que possuía ligação com Eldorado. Embora haja suspeitas quanto a fidelidade do relato de Morel, quanto ao estado mental de Fawcett no ano de 1925, ele comenta que o último relato que se tem do trio, é datado do final de abril, da fazenda do coronel Hermenegildo Galvão, que acolheu os três ingleses. (BERTRAN, 1995). 

Fawcett em seu diário comenta que já era o mês de maio, tendo ficado cinco dias na fazenda do senhor Galvão, descansando e recobrando as forças. Ele informa que pretendia prosseguir para o norte, em direção ao território dos índios Xingu. Nas páginas seguintes de seu diário, Fawcett relata suas impressões sobre a fauna e a flora, a cultura indígena, os mantimentos, alimentos, acontecimentos ocorridos na estadia na fazenda, além de informar que havia tirado fotografias que seriam enviadas ao jornal que o patrocinava. Parte do trajeto feito ao território Xingu, foi realizado com apoio de peões da fazendo do senhor Galvão, porém, já estando naquela região, Fawcett dispensou eles, prosseguindo somente ele, o filho e o amigo. O último relato de seu diário, data de 29 de maio de 1925. (FAWCETT, 2010).

Nesse relato ele escreve suas reclamações sobre os mosquitos e outros insetos que eram um incômodo contínuo. Fala que dispensou os peões e as mulas de carga, pois atrasariam o avançar da expedição. Comenta que necessitavam caçar pequenos animais para complementar a alimentação, que o clima à noite e pela manhã era agradável, mas à tarde era um calor terrível. Ele comenta que Jack e Raleigh estavam entusiasmados, e que eles haviam parado no Acampamento Cavalo Morto (Dead Horse Camp), local onde em 1920, seu cavalo faleceu. Ou seja, Percy havia retornado a uma localidade conhecida por ele, pois em seu diário, ele diz que ainda podia ver os ossos do animais, e sabia que dentro de uma semana chegaria a aldeia mais próxima. Isso significa que aquele território não lhe era totalmente desconhecido. Esse foi o último relato de Fawcett, tendo entregue tal cópia aos peões que deixaram a expedição. 

O que houve depois? 

Após a data de 29 de maio, nenhuma outra notícia sobre Percy, Jack e Raleigh foi obtida. Eles sumiram. Dias, semanas e meses se passaram. Alguns dos amigos de Percy acharam de início que fosse algo comum, pois ele costumava passar semanas na mata e sem enviar mensagem alguma de seu paradeiro ou condição. Não se sabe a causa da morte dos três. Não se sabe se adoeceram, se foram envenenados ou atacados por animais, ou se feriram, ou foram mortos por indígenas ou caçadores. O paradeiro e a causa da morte deles até hoje é uma incógnita. Percy conhecia parte daquela região, mas acabou se perdendo. Como? Além disso, outras expedições nacionais e estrangeiras já haviam passado pelo Xingu desde o século XIX, e nunca relataram alguma evidência de ruínas - embora que as vezes elas estejam soterradas ou encobertas pela vegetação, o que suscite o seu não avistamento -, ainda assim, Percy estava convencido de que Z estaria naquela região. Mas seu convencimento era sustentado por evidências ou uma obsessão paranoica? 

O "Ponto Z" que Fawcett se referia ao local onde estaria sua suposta cidade perdida, ficava situado entre os rios Xingu e Araguaia, apesar que alguns jornalistas e estudiosos da jornada de Fawcett, sugerem que abarque a região da Serra do Roncador, local onde se encontra vestígios de arte rupestre. Bertran (1995) comenta que a tal serra se estende do Rio das Mortes, desde o Vale dos Sonhos até a cidade de Nova Xavantina. O folclore local fala que naquela região estariam enterrados tesouros indígenas ou tesouros da época colonial, fruto de saques dos bandeirantes. 


Região entre os rios Xingu e Araguaia, no estado do Mato Grosso. Possivelmente trata-se da área onde Percy, Jack e Raleigh tenham desaparecido, enquanto procuravam pela cidade Z. 
Ainda em 1925 expedições de busca, realizadas pelos moradores locais do Mato Grosso, para localizar o trio, foram feitas, mas nada encontraram. Em 1927, em uma entrevista com Nina Fawcett, ela dizia que ainda tinha esperança que seu filho e marido estivessem vivos, mesmo tendo passado dois anos desde o desaparecimento deles. Inclusive alguns jornais já cogitavam a possibilidade de morte. No mesmo ano, um engenheiro francês de nome Roger de Courteville, disse ter encontrado no estado de Minas Gerais, um homem velho, que dizia ser o coronel Percy Fawcett, o qual estaria vivendo como ermitão. A família Fawcett ao saber da notícia, a tratou com suspeita e boato. Nina e o filho Brian, se irritaram com aquilo. Esse não seria o último boato sobre o paredeiro e destino do trio. Nos anos seguintes outras histórias surgiram. (GRANN, 2009). 

No ano de 1928, o jornal Newspaper Alliance, que havia patrocinado a  última expedição de Fawcett, enviou o comandante George Miller Dyott, experiente militar, para procurar os Fawcett e Raleigh. Diott que tinha experiência na selva, apenas encontrou uma caneca que supunha ter pertencido a um dos três. A caneca foi achada por índios do povo Nafaquá, porém, nenhuma outra notícia foi conseguida. As expedições para localizar Fawcett e os outros, continuaram nos anos seguintes, mas algumas delas acabaram mal para os que o buscavam. O nobre inglês Albert de Winton, buscando fama, entrou ilegalmente no Brasil e foi atrás deles em 1930, foi dado como desaparecido. Em 1931 o jornalista e aventureiro suíço, Stefan Rattin, alegou que o coronel Fawcett era prisioneiro de uma tribo indígena, mas negou a dizer como obteve tal informação e partiu sozinho para resgatá-lo. Rattin depois sumiu. Nos anos seguintes, expedições brasileiras foram organizadas, e boatos que os três estavam vivos, começaram a circular pelo Mato Grosso, mas todas as expedições falharam em encontrá-los. (GRANN, 2009). 

O mistério do sumiço dos Fawcett e de Raleigh continuou a ser tema de jornais e livros sensacionalistas nas décadas de 1920 e 1930, até que na década de 1940, a poeira do caso baixou, e as expedições se encerraram. Na década de 1950, nova polêmica envolvendo a expedição veio à tona. No ano de 1952, Orlando Villa-Boas, irmão mais velho dos Irmãos Villa-Boas, conhecidos sertanistas e exploradores dos sertões brasileiros, e responsáveis pelo reconhecimento do Parque Nacional do Xingu, conversando com indígenas do povo Calapalo, esses lhe contaram uma antiga história que três homens brancos foram mortos há vários anos. Orlando que conhecia a história da expedição de Fawcett, pensou que pudesse ser algo referente a eles. Os homens lhe indicaram uma ossada, enterrada sob uma árvore. Orlando recolheu os ossos e os enviou para serem examinados. No entanto, a perícia não confirmou que se tratava de Percy, Jack ou Raleigh. (BERTRAN, 1995). 


Orlando Villa-Boas e dois indígenas diante da suposta ossada de Percy Fawcett. Foi constatado que não eram os ossos dele. A começar pela diferença de altura. O esqueleto tem 1,70 de altura, Fawcett e o filho tinham mais de 1,80 de altura. 
Ainda na época de 1952 e 1953, Brian Fawcett aproveitando que o pai e o irmão estavam novamente em evidência, devido ao achado do esqueleto no Brasil, ele aproveitou para publicar o livro de memórias de seu pai. Segundo Bertran (1995), na época do achado da ossada supostamente pertencente ao coronel Fawcett, sua viúva não lhe deu muita atenção. Anos depois, próximo do fim da vida, Nina Fawcett que havia se tornado espírita, disse ter se comunicado numa sessão espírita com seu marido e filho, o que a deixou mais tranquilizada. Boatos sobre novos esqueletos ou túmulos se seguiram, mas a história voltou a sair de evidência. 

Kuhikugu: 

Na década de 1990, o arqueólogo e antropólogo americano Michael J. Heckenberger, em seus estudos de campo com o povo Cuicuro, no Parque Nacional do Xingu, relatou que os indígenas lhe mostraram locais como fossos, canais, estradas, que indicavam terem sido feitos há bastante tempo, e teriam sido usados para irrigar vários hectares. Heckenberger achou estranho as dimensões daqueles canais e fossos, pois indicavam uma grande área de cultivo, o que sugeria que a plantação devesse abastecer uma comunidade de centenas de pessoas talvez de mais de mil habitantes. 

Heckenberger com o auxílio de sua equipe e dos indígenas, começaram a mapear as construções no território dos Cuicuros, abrangendo uma área de mais de 30 km de extensão, permitindo desenterrar estradas, pontes de terra, canais, fossos, poços, etc. Sua equipe posteriormente identificou locais onde existiam casas, cercas, muros e outras habitações. Tudo indicava que trava-se de um povoado ou uma vila. Apesar que até hoje não se considere que tenha sido uma cidade. Por outro lado, os vestígios apontam que as construções eram feitas de madeira, folhas, palha e barro, diferente das ruínas de pedra com as quais Fawcett esperava se deparar. Kuhikugu ou sítio X11 como também é conhecido, consiste em um dos quinze povoamentos encontrados na região do Alto Xingu, compondo um conjunto urbanístico com vilas, estradas, canais, plantações, paliçadas e fortificações. 


Projeção gráfica de como seria o povoado de Kuhikugu, as margens do lago homônimo, no Mato Grosso, Brasil. 
Heckenberger comenta que de certa forma, Fawcett não estava totalmente errado; de fato houve uma civilização antiga, hoje ainda desconhecida, situada na região do Alto Xingu, mas diferente do que Fawcett esperava, não havia cidades de pedra, ou tão pouco foi fundada por povos europeus. Heckenberger comenta que datações do solo e por carbono 14, sugerem que as vilas possam datar do século VI d.C em diante, não tendo como definir com precisão seu início. Tais vilas, teriam sido fundadas por um povo hoje desconhecido, que é considerado antepassado dos Cuicuros. Porém, não se pode confirmar se Fawcett tivesse conhecimento sobre os sítios arqueológicos do Alto Xingu, e os teria usado para embasar sua teoria de Z. 

NOTA: Sobre as expedições de Percy Fawcett à América do Sul, relatos sobre elas podem ser lidos em livros como Lost trails, lost cities (1953), obra organizada por seu filho Brian, o qual pegou os diários e cartas do pai sobre essas expedições. Esse livro foi reeditado posteriormente com o título de Exploration Fawcett (2010).
NOTA 2: David Grann no livro The Lost City of Z (2009), comenta sobre várias expedições de resgate enviadas para encontrar os Fawcett. 
NOTA 3: Percy Fawcett foi amigo do médico e escritor Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), autor de Sherlock Holmes. As aventuras de Fawcett pelo Brasil e Bolívia, inspiraram Doyle a escrever o livro O Mundo Perdido (The Lost World), publicado em 1912. O qual fala de uma expedição a um misterioso platô na Amazônia, onde supostamente viveriam dinossauros.
NOTA 4: O livro Brazilian Adventure (1933), escrito por Peter Flaming, narra a jornada de Fawcett em busca de Z, e algumas das missões de busca realizadas até então para encontrar ele e os demais. 
NOTA 5: Percy Fawcett também foi amigo do escritor Sir Henry Rider Haggard (1856-1925), autor de populares obras de aventura, envolvendo expedições à África e Ásia, atrás de cidades e civilizações perdidas. Haggard teria dado uma estatueta dourada a Fawcett, alegando ter vindo de Eldorado. 
NOTA 6: O famoso arqueólogo dos cinemas, Indiana Jones, criado por Steven Spielberg e George Lucas, teria em parte, sido baseado em Percy Fawcett. 
NOTA 7: O filme A Cidade Perdida de Z (The Lost City of Z) de 2017, conta parcialmente alguns aspectos da jornada de Percy Fawcett para descobrir sua cidade. O filme omite vários aspectos de como Percy construiu sua teoria, além de representar a idade de Percy e Jack de forma incompatível, pois no filme Percy aparenta ter no máximo 40 anos, diferente dos 58 anos que possuía, e por sua vez, Jack era um homem de 22 anos, alto, louro e belo, diferente do filme, que ele é um adolescente, baixo e de cabelo preto. Além disso, Raleigh é excluído da história. O filme apresenta sua hipótese de como pai e filho teriam morrido. 
NOTA 8: No jogo Shadow of the Tomb Raider (2018), a história de Percy, Jack e Raleigh é mencionada através de páginas perdidas do diário dos Fawcett, alegando que eles teriam seguido rumo ao Peru, e que a cidade Z seria Paititi. Cidade a qual Lara Croft está a procura. 
NOTA 9: Jack Fawcett antes de ir ao Brasil em 1920, morou alguns anos nos Estados Unidos, chegando a atuar como caubói e até fazer umas pontas em filmes. Sobre Raleigh quase nada se sabe de sua vida.
NOTA 10: Boatos que falavam sobre o paradeiro dos Fawcett, sobre a localização de seus túmulos ou ossos, que Jack teria tido filhos com índias, etc. ainda continuaram a ser divulgados nas décadas de 1950 a 1970. 
NOTA 11: O ocultista e líder de seita, o suíço Udo Oscar Luckner, na década de 1970, instituiu uma seita na região da Serra do Roncador, chamada de Monastério Teúrgico do Roncador, com direito a dizer que encontrou os túmulos de Percy, Jack e Raleigh, e teria encontrado a cidade de Z, a qual era chamada de Letha e ficava no subterrâneo, abrigando uma cultura perdida e avançada. A seita de Luckner ganhou certa popularidade por alguns anos. 

Referências bibliográficas:
ANÔNIMO. Relação histórica de uma occulta e grande povação antiquíssima, sem moradores, que se descobriu no anno de 1753, nos sertões do Brazil; copiada de um manuscrito da Bibliotheca Publica do Rio de Janeiro. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo 1, n. 1, 1839, p. 151-156.  
BERTRAN, Paulo. A Atlântida e a tradição de Percy Fawcett. Câmara Legislativa do Distrito Federal, suplemento cultural, ano. II, n. 17 a 20, 1995, p. 30-37. 
FAWCETT, Percy. Exploration Fawcett: Journey to the Lost City of Z. Edited by Brian Fawcett. New York, Overlook Press, 2010. 
GRANN, David. The Lost City of Z: A tale deadly obsession in Amazon. New York, Doubleday, 2009. 
RAMOS, Dernival Venâncio; ERTZOGUE, Marina Hainzenreder. "Temporariamente inacessível": José Viera Couto de Magalhães, Percy Harrison Fawcett e a racionalização do Eldorado (1868-1925). Hlb. Revista de História Iberoamericana, vol. 9, n. 2, 2016, p. 78-98. 

Referência da internet: 
HECKENBERGER, Michael J. As cidades perdidas da Amazônia. Disponível em: https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=2551737695039525556#editor/target=post;postID=5909443290565685480;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=0;src=link