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domingo, 4 de agosto de 2019

Uma história não contada: o campo de concentração para flagelados de 1915 em Fortaleza-Ceará


Uma história não contada: o campo de concentração para flagelados de 1915 em Fortaleza-Ceará


Lidiany Soares Mota Travassos

A SECA NO CEARÁ

O longo período de estiagem no Ceará desde o ano de 1913 fazia com que a chegada dos retirantes à capital cearense afetasse e alterasse o cotidiano dos habitantes locais. Os espaços urbanos, como ruas e praças, tornavam-se moradias para esses desabrigados. A cidade que, para alguns, deveria ser distinta da imagem de pobreza trazida pelos retirantes transforma-se, segundo jornalistas e memorialistas, em caos e desordem. O centro, a cada dia, recebia novos integrantes, que vinham em busca de auxílios e das frentes de trabalhos.

Alguns proprietários de terras, políticos, membros ilustres da sociedade, jornalistas e médicos e que traziam debates sobre a seca, em sua maioria, como fenômeno natural e que precisava ver essa multidão de famintos contida. Jornais de oposição como o – O Cearense – traziam manchetes que exigiam uma atitude capaz de manter a ordem e de afastar os retirantes das principais áreas de contato com a população citadina. Os indícios dos debates deixados ao longo da história do Ceará nos levam a crer que os estudos e a compreensão do papel da multidão de retirantes flagelados é relevante para analisar como o poder público estava organizando a cidade e quais as mobilidades e tensões que essas pessoas consideradas por muitos representantes da elite local como indesejáveis, estavam provocando no espaço urbano de Fortaleza, tendo a seca de 1915 como estopim.

O medo de saques, violência gerada pela loucura da fome e a propagação de doenças, eram fatores que pressionavam o poder público a buscar nos campos de concentração uma alternativa para conter a leva de famintos que dia após dia, mais se aproximava da cidade. O medo das autoridades diante dos flagelados da seca tinha um precedente. Em 1877, uma leva de cerca de 110 mil famintos saiu dos sertões e tomou as ruas de Fortaleza, assombrando os moradores. No livro A Fome, o mais consistente relato sobre o cenário de 1877 nas ruas da capital, o farmacêutico, cientista social e escritor Rodolfo Teófilo assim descreve o que viu:

 “A peste e a fome matam mais de 400 por dia! O que te afirmo é que, durante o tempo em que estive parado em uma esquina, vi passar 20 cadáveres: e como seguem para a vala! Faz horror! Os que têm rede vão nela, suja, rota, como se acha; os que não a têm, são amarrados de pés e mãos em um comprido pau e assim são levados para a sepultura. E as crianças que morrem nos abarracamentos, como são conduzidas! Pela manhã os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco; e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura”. (TEÓFILO, 1890)

O objetivo do campo de concentração era evitar que os retirantes alcançassem Fortaleza, trazendo “o caos, a miséria, a moléstia e a sujeira”, como informavam os boletins do poder público à época. Em 1915 criou-se o Campo de Concentração do Alagadiço, nos arredores da capital cearense, cenário do livro O Quinze de Rachel de Queiroz (1930). Ele chegou a juntar oito mil esfarrapados, que recebiam alguma comida e permaneciam vigiados por soldados. À medida que a vida urbana tornava-se mais complexa e afeita às influências exteriores a exemplo das alterações feitas pelo governo francês, com suas remodelações em busca do aformoseamento da cidade, maior era a exigência de implementar a higiene dos espaços e a busca por uma higiene também para os corpos como uma norma de distinção social e decência.

Já no século XVIII muitas cidades européias, a exemplo de Paris e Inglaterra passaram por grandes mudanças no rural e principalmente no urbano. Mudanças estas profundamente geradas pelas relações entre a burguesia e o operariado, o que refletia as disparidades entre ricos e pobres. A vida sócio-econômica passa a ser influenciada pelos grandes núcleos populacionais, por epidemias, situações de violência e revoltas urbanas passaram a ser mais freqüentes. A cidade representava um espaço de desigualdades e de tensão entre classes sociais.

Tornou-se necessário alterar o espaço urbano para que este se adequasse a estas transformações sociais. A cidade e seu grande número de habitantes necessitavam de uma melhor organização quanto ao lixo produzido, à sujeira, à contenção de epidemias enfim, a tudo que pudesse gerar doenças que se proliferassem pela água, ar e terra. As intervenções nas cidades passaram a fazer parte das preocupações de médicos e sanitaristas.

O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO ALAGADIÇO

No contexto de 1915, o Campo de Concentração do Alagadiço deixava muito a desejar quanto aos cuidados no tocante à higiene dos flagelados que ali permaneceram. Rodolfo Teófilo, farmacêutico e escritor, figura atuante na secas de 1877 e de 1915 assim descreveu sua primeira visita ao campo de concentração dizendo estar diante de em breve um “Campo Santo”:

“Em um quadrilátero de quinhentos metros de face estavam encurralados cerca de sete mil retirantes. Percorri todos os departamentos daquele depósito de seres humanos. Abrigavam-se à sombra de velhos cajueiros. Via-se aqui e ali, uma ou outra barraquinha coberta de esteira ou de estopa, mas tão miserável era a coberta que não impedia que a atravessassem os raios de sol. A cozinha era também ao tempo. Em algumas dúzias de latas, que haviam sido de querosene, ferviam em trempes de pedra grandes nacos de carne de boi, misturados a maxixes, quiabos e tomates. Achei esquisitas as verduras e mais ainda os tomates. Pendia de um galho de cajueiro um quarto de boi. Pude então avaliar a péssima qualidade da carne, só digna de urubus. Informaram-me que aquela era boa, comparada a outras que mandara o fornecedor. Disse-me pessoa idônea que as reses que morriam de magras ou do mal, eram mandadas para o ‘campo de concentração’”. (TEÓFILO, 1980).

Percebemos que não existem acomodações apropriadas para os desvalidos, que ficavam expostos ao sol e dependendo da caridade das senhoras da Igreja Católica que visitavam o campo e levavam ajuda em alimentos e roupas para muitos que nem mais as tinham. O local onde eram depositadas as matérias fecais dos flagelados também era bastante preocupante ficando a sotavento (lado oposto ao lado do qual sopra o vento) no fundo do cercado, ao poente. Vale destacarmos que esta área era coberta apenas por pequenos arbustos, onde os famintos, conforme destacado por Teófilo ficavam numa promiscuidade de bestas e defecavam, ficando as fezes expostas às moscas.

Os locais de provisão de água doce, as chamada aguadas, também eram preocupantes, visto que ficavam em buracos à flor da terra. Expostos desse modo, a todo tipo de doenças causadas pela falta de higiene. Localizado a oeste da cidade, por meio do governo provincial de Benjamim Liberato Barroso (militar e engenheiro), de modo a deixar os retirantes concentrados mais distante dos bairros de famílias mais abastadas da cidade. Desse modo, o processo era o de segregar à pobreza e as doenças a este espaço. A então Inspetoria de Obras Contra as Secas – IOCS, aliada ao governo provincial era a instituição responsável pela criação e administração do campo de concentração. Inicialmente apenas um local cercado por arame farpado, com algumas árvores que davam alguma sombra, para onde os retirantes eram levados quando desciam dos trens que chegavam às estações mais próximas de Fortaleza, como a do Alagadiço. Estas pessoas eram encaminhadas para estes locais e lá poderiam construir seus barracos com o material que dispusessem ou que encontrassem.

O papel do interventor (normalmente um engenheiro da própria IOCS) era ser responsável pela gerência do campo, ou seja, organizar aqueles que iriam para as frentes de trabalhos (construção de açudes, praças, estradas, calçadas, etc.), distribuição da ração (como era chamada a comida), manutenção da ordem dentro do campo, garantida por soldados que patrulhavam a área de modo a manter a ordem e a moral.

Nossa hipótese é de que, apoiados nos indícios advindos das fontes pesquisadas, o Higienismo teria ditado as decisões para a criação do abarracamento para os inúmeros flagelados da seca de 1877. Baseados em relatórios como o Relatório do Inspector de saúde pública Antonio Domingues da Silva de 31 de maio de 1876 e Relatório do Inspector de saúde pública Dr. João da Rocha Moreira de 29 de maio de 1877, nos mostram a preocupação dos sanitaristas quanto à proximidade com esta população de famintos e doentes e da necessidade de mantê-los num local separado do restante da população de Fortaleza.

Já em 1915, o Higienismo, fortemente atrelado a Eugenia teria incentivado a criação do campo de concentração do Alagadiço em 1915, visto que já não era mais possível a livre circulação pela cidade por parte dos flagelados. Estes passaram a ser vigiados por soldados e tinham suas vidas controladas pelos inspetores do campo. Estes, amparados pela autoridade dos guardas, ditavam as regras de convivência, a alimentação, ou seja, a chamada ração; assim como a distribuição dos remédios aos doentes. Muitos se recusavam a tomar as vacinas e o medo da propagação das doenças a exemplo do que ocorreu em 1877, com a epidemia de varíola, fez com que muitos flagelados, sem o tratamento adequado aliado as debilidades físicas e todos os sofrimentos causados pela seca chegassem ao óbito.

Nosso objetivo é identificar os debates que consubstanciaram a criação os campos de concentração para flagelados da seca no Ceará em 1915, buscando ter uma interface entre os debates presentes nos âmbitos das teorias sanitaristas e a teoria de evolução social. Buscamos ainda compreender a seca da forma como está era vista pela maioria das personalidades da época e os indícios que demonstram que o higienismo esteve presente no cenário da seca de 1877 e esteve aliado aos ideais da eugenia em 1915, fortalecendo o cenário que criaria o Campo de Concentração do Alagadiço.

PRINCIPAIS FONTES ANALISADAS

Temos por base a análise dos debates de personalidades importantes para a formação das idéias que se faziam circular sobre a seca no período estudado (1915), a opinião de intelectuais, proprietários de terras e/ou fazendeiros (cartas aos jornais), políticos (discursos e atas), engenheiros que foram interventores da IOCS nos campos de concentração do Ceará (relatórios de obras e funcionamentos do campo de concentração do Alagadiço - 1915), escritores, médicos e/ou sanitaristas, revistas e jornais, presentes em pastas como a das Obras da IOCS e Socorros públicos catalogadas pelo acervo documental do Arquivo Público de Fortaleza. Usamos ainda dissertações, teses e obras literárias.

Para tratarmos do pensamento dos principais atores que participaram do contexto das secas de 1877 e 1915 no Ceará destacamos Capanema (engenheiro da época do 2º Reinado enviado para uma expedição de reconhecimento da situação de seca do sertão, das possibilidades de solução e de dados como solo, vegetação etc.), José do Patrocínio (jornalista enviado pelo imperador D. Pedro II para saber a realidade da seca no Ceará - 1879), Nogueira Acioly (político que representava uma tradicional família cearense, que na época da seca de 1901 fazia oposição as investidas de Rodolfo Teófilo para tentar sanar problemas com vacinação contra a varíola), Rodolfo Teófilo (cientista, romancista, poeta, farmacêutico, investigador incansável e benfeitor da comunidade.), Tomás Pompeu de Sousa Brasil (Senador cearense que publicou o 1º livro sobre o clima e as seca em 1877) e Miguel Arrojado Lisboa (Interventor da IOCS).

Para entendermos melhor o papel da imprensa no Ceará a respeito da seca temos, os Jornais: O Retirante. Período: anos de 1877 e 1878, que se posicionou a favor dos retirantes que chegavam a então capital da província do Ceará, adotando, por um viés literário, um discurso contestatório e de denúncia; outro seria o A Lucta. Que em outubro de 1915 A Lucta noticiou a chegada dos engenheiros chefes responsáveis pela tomada do início das construções da Comissão de Obras Novas Contra as Secas. Período: jan a dez/1915. Ambos encontrados na biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico Cearense.

A TEORIA SANITARISTA E A TEORIA DE EVOLUÇÃO SOCIAL

Para proporcionarmos uma interface entre os debates presentes nos âmbitos das teorias sanitaristas e a teoria de evolução social, fizemos uso de análises dos artigos que retrataram o debate nacional em torno da teoria higienista. Importante salientar que a palavra “higiene” não só significava polir os espaços urbanos, como a limpeza de ruas e praças; neste termo estavam embutidas ações constrangedoras e disciplinadoras, nas quais se revelavam a moral e a estética requerida pela elite.

O HIGIENISMO NO BRASIL

Vale destacarmos que o higienismo brasileiro só pode se definir, devido sua tensão constitutiva, ou seja, pelo que tinham de comum, por um objetivo central: o estabelecimento de normas e hábitos para conservar e aprimorar a saúde coletiva e individual. É somente neste aspecto que podemos encontrar certa homogeneidade. Fora isto, podemos encontrar uma mentalidade higienista em uma generalidade difusa e heterogênea, tanto no âmbito político quanto no científico (Hochman; Lima, 1996; Hochman, 1993).

Deste modo, defendemos que o “movimento higienista” ou sanitarista do início do século XX no Brasil extrapola a periodização tradicional que lhe imputa o término nos anos 30 ou 40, e prossegue com suas tradições e ideais heterogêneos até o fim do século XX, e muito possivelmente, até hoje, no início do século XXI, não ganhando características que determinem uma diferenciação histórica absoluta entre as duas intervenções (Góis Junior, 2003).

Contudo existem análises mais tradicionais e restritas em relação ao movimento higienista. Na publicação da obra História da Vida Privada no Brasil, em volume dirigido por Fernando Novais (1997) e organizado por Nicolau Sevcenko, Paulo César Garcez Marins, no capítulo “Habitação e Vizinhança: limites da privacidade no surgimento das metrópoles brasileiras” atribuiu uma homogeneidade ao discurso higienista, caracterizando-o como um movimento social orientado pelos interesses das classes dirigentes. Nos seus estudos sobre a urbanização, o autor considera o discurso higienista um reflexo do pensamento das elites, que pretendiam perseguir o povo em suas próprias habitações. Em suas palavras as populações pobres seriam:

“Acusadas de atrasadas, inferiores e pestilentas, essas populações seriam perseguidas na ocupação que faziam das ruas, mas sobretudo ficariam fustigadas em suas habitações”. (Marins, 1998, p.133).

Nesta posição de análise o “movimento higienista” seria um aliado das elites econômicas em todas suas manifestações, como se reflete na passagem abaixo:

“A ambição de arrancar do seio da capital as habitações e moradores indesejados pelas elites dirigentes começou a se materializar com as medidas visando à demolição dos numerosos cortiços e estalagens, espalhados por todas as freguesias centrais do Rio de Janeiro, o que se procedeu sob a legitimação conferida pelo sanitarismo.” (Marins, 1998, p.141).

Usamos ainda artigos de autores do cenário local cearense tais como o artigo de Maria Clélia Lustosa Costa, intitulado Teorias médicas e gestão urbana: a seca de 1877-79 em Fortaleza. Neste artigo publicado na Revista Scielo de 2004 percebemos uma remontagem das novas teorias médicas sobre a origem das doenças que influenciaram normas e regulamentos de controle do comportamento da população e do espaço urbano. Neste trabalho, apresentaram-se e discutiram-se as idéias, práticas médicas e ações administrativas adotadas durante a seca de 1877-79 em Fortaleza, capital da província do Ceará. Já no artigo A cidade e o pensamento médico: uma leitura do espaço urbano, publicado na Revista Mercator - Revista de Geografia da UFC, ano 01, número 02, 2002, a autora argumenta que os médicos, fundamentados em teorias que localizam a doença no meio ambiente, elaboram discurso que se propõe a medicalizar o espaço e a sociedade, influenciando as práticas e as políticas urbanas.

Tratados de Higiene Pública sugerem normas de construção, repercutindo nos Códigos de Posturas e legislações. Uma nova concepção de cidade emerge e um novo espaço urbano se estrutura com base no discurso médico neo-hipocrático dominante no século XIX. Normas que sugerem localizações de espaços que remontem perigo a saúde da população fossem redirecionados, de modo a se instalarem na direção oeste de Fortaleza, o que faria com que as doenças, segundo concepções miasmáticas da época, fossem levadas com o vento para mar a dentro, não atingindo aos moradores da capital. Como ocorreu com a construção do Campo de Concentração do Alagadiço na tentativa de evitar, assim, novo surto de varíola.

A EUGENIA NO BRASIL

Para os debates acerca da teoria da evolução social usamos artigos tais como os de Maria Lúcia Boarini, intitulado Higienismo e Eugenia: discursos que não envelhecem, publicado em Psicologia Revista, vol. 13, n.1, SP. Educ. 2004. p. 59-72, que discute o fato de ser estranho aos olhos da autora atribuir o sucesso ou insucesso do indivíduo unicamente às suas características pessoais ou biológicas (cor da pele, gênero etc.), estranheza maior causa a constatação de que estes discursos são recorrentes há, no mínimo, um século. Outra obra de Boarini que merece destaque é seu livro Higiene e raça como projetos: higienismo e eugenismo no Brasil, de 2003. Nesta obra, Higienismo e eugenismo, apesar de, habitualmente, não fazerem parte dos conceitos mais abordados pelas teorias 'psi', fazem parte da inextrincável teia de complexas e polêmicas discussões que hoje permeiam os mais diversos temas ligados à bioética. Muitas discussões sobre os dois temas estão na ordem do dia, suscitadas pelo avanço das ciências e das biotecnologias.

Mas um outro olhar, de cunho histórico-crítico, também tem se voltado para eles, no sentido de assinalar suas marcas e raízes, em nosso país. Trata-se, na verdade, de um olhar múltiplo e complexo, que percorre a linha do tempo, através da produção de pesquisadores de áreas diversas das ciências humanas e sociais, como a psicologia, a psicanálise, a história, a filosofia e a educação. Outro destaque é a dissertação de mestrado transformada em livro de Pietra Diwan, Raça Pura: uma história da eugenia no Brasil e no mundo (Contexto, 2007), nesta obra Diwan nos apresenta ao mundo moderno no qual temos o dever de sermos belos, magros, ter cabelos lisos e parecer "naturais" diante do espelho, de nós mesmos, diante dos outros. E, para conquistar mais saúde, juventude e beleza, os caminhos científicos e industriais não cessam de se multiplicar. 

A autora nos faz perceber que o Brasil atualmente é o segundo país no mundo em número de cirurgias plásticas, só perdendo para os Estados Unidos. Assim, evoluir a cada geração, se superar, ser saudável, ser belo, ser forte. A democratização da beleza, para alguns; ou a vulgarização dos corpos, para outros; todas essas afirmativas estão contidas na concepção de eugenia. Diwan (2007) destaca que com este status de disciplina científica, a eugenia pretendeu implantar um método de seleção humana baseado em premissas biológicas. E isso através da ciência que sempre se dizia neutra e analítica, segundo as explicações de seu mentor Francis Galton.

OS RESULTADOS DE 1877 E DE 1915

Os levantamentos parciais das mortes nas épocas de seca no sertão são assustadores. Somente entre 1877 (ano da grande seca em que morreram 5% da população brasileira (Segundo VILLA, 2001) e 1913, portanto ainda sem os números da seca de 1915 (ano de criação do Campo de Concentração do Alagadiço). O governo federal, por intermédio da Inspetoria de Obras Contra as Secas - IOCS estimava que dois milhões de pessoas houvessem morrido em conseqüência da miséria e fome da estiagem. As estatísticas oficiais, que não conseguiam abarcar todos os alistados nos “currais”, como eram chamados os campos de concentração pelos flagelados da seca, dão conta de que a população de Fortaleza, que somava em 1910, um número de 65.816 habitantes, aumentou em 1920, para 78.536 habitantes, isto é, cinco anos após a implantação do Campo do Alagadiço, o que pode vir a ser um indício de que alguns flagelados optaram por se estabelecer em Fortaleza após o fechamento do Campo do Alagadiço ainda em 1915.

ALGUMAS CONCLUSÕES

Alguns modelos e ações higienistas, aliados a antigas teorias sanitaristas que já apareceram em 1877 dentro da intervenção nos espaços urbanos com a criação dos abarracamentos para flagelados da seca, se repetiram entre 1914 e 1915. Nesse período teorias miasmáticas, ou seja, de que doenças eram transmitidas pelo ar, influenciaram na localização do que veio a ser o primeiro campo de concentração do Ceará, ou seja, o Alagadiço. Notamos que as grandes somas de dinheiro que eram destinadas ao campo de concentração no combate à seca não eram encaminhados de forma total para os desvalidos.

Não sendo observados na alimentação, na limpeza do local ou mesmo na construção de habitações melhores. Percebemos o descaso por parte da Inspetoria de Obras Contra as Secas no tocante ao local de depósito das matérias fecais, que deixava os flagelados expostos aos olhos de qualquer um assim como a exposição a inúmeras doenças, visto que ficavam às moscas. O evento da vacina em 1901, onde o próprio presidente da província, Nogueira Acioly, fez campanha contra a vacina produzida por Teófilo dizendo que esta vacina iria matar os flagelados ao invés de curar, pode ter sido o resultado por inúmeras mortes por parte dos que se negaram a ser vacinados.

A água também ficava a céu aberto, em buracos no chão. Isto demonstra que muitas das doenças que os mesmos vieram a ter e resultar em óbitos podem ter sido resultado direto do local e das péssimas condições de vida a que estavam sujeitos no campo de concentração, o que nos remete a péssimas condições sanitárias e nos fazem pensar sobre a teoria de evolução social que privilegiava os sãos, os bem-nascidos, bem alimentados, com boa capacidade física e mental. O que possibilitaria o desenvolvimento do local e não um possível fardo social, o que era fortemente combatido pelos teóricos da eugenia, como Francis Galton.

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Fonte: TRAVASSOS, Lidiany Soares Mota. Uma história não contada: o campo de concentração para flagelados de 1915 em Fortaleza-Ceará. V Colóquio de História: Perspectivas Históricas, 16 a 17 de novembro de 2011. 




terça-feira, 23 de julho de 2019

O Castelo de São Jorge de Lisboa

Situado sobre o morro mais alto de Lisboa, encontra-se o milenar Castelo de São Jorge, símbolo defensivo e real do povo português. Símbolo também de sua história de conquistas e resistências. Atualmente o castelo é um museu e local também para espetáculos teatrais e de living history. Recentemente tive a oportunidade de visitá-lo e decidi escrever esse breve texto, contando um pouco de sua história. Embora o castelo seja mais lembrado pela sua história associada ao período das Cruzadas, ele é anterior a essa época e nem se quer foi uma construção de origem lusitana ou portuguesa. 

Antecedentes: 

O castelo somente foi construído no século XI, porém, muitos séculos antes de sua construção, existiu um forte romano naquele morro. De datação incerta, sabe-se que no século II a.C, a pequena cidade de Olisipo, tornou-se ponto estratégico das campanhas romanas para assegurar seu domínio sobre tribos lusitanas rebeldes. Graças as conquistas obtidas na região, em 48 a.C, os habitantes de Olisipo ganharam a cidadania romana. Apesar dessa importância a cidade não era capital da Lusitânia, ainda assim, isso não desmerece sua importância como posto comercial e defensivo na entrada do rio Tejo. O forte da cidade foi reformado e reconstruído no séculos seguintes. Mesmo após a queda do governo romano no final do século V d.C, os lusitanos, suevos e visigodos que ocuparam a cidade, mantiveram a fortificação ativa. (ARAÚJO, 1944, p. 11). 

Entre os séculos V ao VIII a cidade de Olisipo, renomeada como Ulishbona, foi alvo de vários ataques e pilhagens, o que a fez perder sua importância econômica e política dos tempos romanos, reduzindo-a a uma simples vila lusitana. Somente no final do século VIII, com a conquista dos árabes, a vila voltaria a ganhar importância. A partir do século seguinte os árabes renomearam Ulishbona para Al Uzbuna, e empreenderam reformas, construções e a expansão da cidade. O comércio voltou a movimentar a cidade. O antigo forte romano foi adaptado para se tornar uma alcáçova, espécie de cidadela árabe, que abrigava a residência do governador e uma fortificação. O atual bairro de Alfama, também se desenvolveu nesse período. Mesquitas, praças e outras obras como a ampliação da Cerca Moura e muralhas, foram realizadas. A fortaleza de Almada na margem oposta do Tejo, também foi construída nesse período. (SANTOS, 2017, p. 2). 

O Castelo de São Jorge ainda hoje conserva traços da arquitetura árabe, especialmente vistos nas suas muralhas e torres. 
No período da dominação árabe sobre Lisboa, os cristãos continuaram a viver lá, inclusive comunidades judias também se estabeleceram. Embora que o governo fosse controlado pelos muçulmanos. 

A Reconquista: 

Entre os séculos IX e XI, os reis Afonso II de Astúrias (759-842), Ordonho III de Leão (926-956) e Afonso VI de Leão e Castela (1043-1109) atacaram a cidade árabe, até obtendo sucesso imediato, mas efêmero, pois não conseguiram manter o controle da cidade. Os árabes mantiveram Lisboa sob seu controle por mais de dois séculos. Em 1142 o rei D. Afonso Henriques (1109-1185), o então primeiro rei de Portugal desde 1139, decidiu atacar Al Uzbuna, mas sem obter sucesso. Após aquela derrota, o monarca adiou em alguns anos os planos para um novo ataque, que somente veio a ocorrer em 1147, através de um cerco que durou três meses. Reza a lenda que a vitória somente foi obtida, pois um valente cavaleiro de nome Martim Moniz, para impedir que um dos portões da cidadela fosse fechado, jogou-se neste e o segurou até ser esmagado. Como os mouros não conseguiram fechar o portão, o exército português invadiu a cidadela por lá. Em referência a essa lenda, a tal suposta porta é conhecida hoje como Porta Martim Moniz. (SANTOS, 2017, p. 2). 

O Cerco de Lisboa de 1147. Roque Gameiro, 1917. Embora seja uma imagem romanceada, apresentando barcos vikings e uma muralha maior do que era, ainda assim, pode-se ter uma ideia de como poderia ter sido a cidade de Al Uzbuna e o castelo no topo da colina. 
Lendas a parte, o cerco foi demorado e árduo, o rei D. Afonso Henriques em parte somente obteve sucesso graças ao apoio que recebeu de cruzados ingleses, normandos e de outras origens, e armas de cerco. A vitória veio em 25 de outubro, tendo ocorrido a rendição das defesas do castelo e a capitulação do mesmo e da cidadela. Os mouros que não foram mortos na ocasião do cerco, foram expulsos e Al Uzbuna finalmente conquistada para domínio português. Naquele primeiro momento, a configuração do castelo e da cidadela foi mantida da forma que se encontrava. O rei nomeou a cidadela como freguesia de Santa Cruz da Alcáçova, renomeada tempos depois para Santa Cruz do Castelo. Todavia, apenas em 1179 um floral reconhece que Alusbuna como era chamada na forma aportuguesada, passou a integrar o Reino de Portugal. (DA CRUZ, 2013, p. 46). 

Paço Real: 

No ano de 1255, a cidade de Lisboa tornou-se capital de Portugal, com isso a corte mudou-se para lá, indo habitar o antigo palácio mouro na cidadela. Naquele tempo o palácio, o castelo e as demais fortificações já haviam passado por algumas reformas simples desde 1147, no entanto, com a mudança da corte do rei D. Afonso III (1210-1279) para Lisboa, novas reformas foram realizadas. 


"O Castelo foi uma estrutura bastante intervencionada e alterada ao longo dos séculos, não só por obras de reabilitação e adaptação por parte dos reis, destacando-se as obras de D. Dinis em 1279; de D. Afonso I em 1383, que manda retirar as portas do lado da cidade e entulhar o fosso e das obras de D. Manuel em 1495 que se estenderam até 1521, mas também pelos efeitos do terramoto de 1530, que viria a afectar as suas estruturas originais, destruindo parte do Castelo e a sua envolvente, demolindo as torres norte e nordeste da Alcáçova e algumas casas adjacentes na zona de S.to André e da Costa do Castelo, levando a um progressivo abandono e despovoamento do local". (DA CRUZ, 2013, p. 46).

No século XIII com Lisboa tornando-se capital do Reino de Portugal, a cidade voltou a ganhar proeminência nacional e internacional, consolidando-se politicamente e comercialmente. Nessa nova fase, o castelo seria a sede da corte e lar dos reis de Portugal, DE 1255 a 1500. Sofrendo várias reformas ao longo do período, como as reformas em estilo gótico ocorridas na transição do século XIII para o XIV, novas reformas agora de caráter defensivo, promovidas pelo rei D. Fernando (1345-1383), no que originou na criação de uma nova muralha para a cidade, chamada de Cerca Nova ou Cerca Fernandina, construída entre 1373 e 1375. Data do ano de 1378 do governo de D. Fernando, a criação da Torre do Tombo, nome dado a arquivo real, instalado em uma das torres do castelo. (DA CRUZ, 2013, p. 47). 


Muralhas e ponte do Castelo de São Jorge. Foto do autor, tirada em 2019. 
Em 1383 com a morte de D. Fernando, o último rei da Casa de Borgonha, e como este não deixou herdeiros, iniciou-se uma crise sucessória que durou dois anos, lançando Portugal numa guerra pelo trono. Defendendo seu direito ao trono, estava um irmão bastardo do rei, D. João (1357-1433). Com a vitória sobre as tropas rebeldes e o exército invasor do rei de Castela, João era proclamado rei e inaugurou a Dinastia de Avis. Com sua vitória o rei nomeou o Castelo para Castelo de São Jorge em referência ao santo mártir guerreiro, reverenciado pelos cruzados, considerado um dos padroeiros de Portugal e pelo fato do rei ser devoto do santo também. 

A função de paço real do castelo foi mantida até o século XVI. Nesse período o castelo e a cidadela também serviram para outros propósitos, atuando como palácio dos bispos e albergue dos nobres. Foi também no paço real que Vasco da Gama em 1499 foi recebido com honrarias pelo rei D. Manuel I (1469-1521), pelo seu retorno das Índias. Anos depois o Monólogo do Vaqueiro, escrito por Gil Vicente (c.1465 - c. 1536), foi representado no paço. (CARVALHO, 2008, p. 3). 


Gil Vicente representando O Monólogo do Vaqueiro no Paço Real no Castelo de São Jorge, segundo imaginado pelo autor Roque Gameiro, 1917. 
Retorno a status de fortificação e perda de importância:

No ano de 1498 o rei D. Manuel I ordenou a construção de um novo palácio real, dessa vez situado mais próximo da ribeira do Tejo. O palácio foi concluído em 1503. Chamado de Paço da Ribeira ele tornou-se a nova sede da corte. Inclusive de caráter permanente após 1530, quando um terremoto acometeu Lisboa e destruiu parte do Paço de Alcáçova no Castelo de São Jorge, além de danificar a muralha, casas em Alfama e outros bairros e levar ao desabamento de duas torres. Com a destruição do antigo palácio, na época, o então rei D. João III preferiu não empreender gastos para recuperá-lo e com isso decidiu desativar gradativamente o antigo palácio, firmando assim o estabelecimento definitivo da corte na Ribeira. Após o terremoto de 1530 foi decidido que o castelo retomaria sua função apenas defensiva, e com isso as antigas instalações foram reformadas para se tornar casernas de um quartel e até um presídio. 


A cidade de Lisboa e o Castelo de São Jorge no começo do século XVI. Duarte Galvão, 1505. Por essa pintura e algumas outras do mesmo século, ainda notam-se os telhados piramidais nas torres do castelo, hoje os telhados não existem mais. 
Nos quase duzentos anos seguintes o castelo seguiu como quartel e fortificação. Apesar que nesse tempo reformas de manutenção foram realizadas e até mesmo a tentativa do rei D. Sebastião I (1554-1578) de tentar retomar o antigo paço para ser habitável, não foram adiante. Apesar que a planta encomendada revela-se profundas reformas no castelo ao ponto de torná-lo algo ainda mais imponente e pomposo. Com a morte do rei Sebastião em campanha militar no Magreb (atual Marrocos), uma crise sucessória se instaurou. O rei sem filhos, foi sucedido por um tio idoso que faleceu dois anos depois, abrindo espaço para a disputa do trono que culminou com a conquista espanhola sobre Portugal, inaugurando a União Ibérica (1580-1640). Os reis Filipe não tiveram interesse no castelo e mantiveram sua função de fortificação e quartel. 

Projeto de reforma do Castelo de São Jorge e sua fortaleza, feito por Francisco de Holanda em 1571. O projeto nunca foi realizado. 
Com o fim do governo espanhol sobre Portugal através da Restauração promovida por D. João IV (1604-1655), o governador espanhol do castelo entregou o comando para o português D. Álvaro de Abranches, que permaneceu cerca de cinco anos no comando da fortificação, sendo em 1645 substituído pelo Marquês de Cascais, D. Álvaro de Pires de Castro. Data da segunda metade do século XVII o projeto de reforma do engenheiro e arquiteto-militar Nicolau de Langres (?-1665) para transformar o castelo num genuíno forte moderno, com seus vários bastiões. A arquitetura seria baseada em fortificações flamengas, francesas e italianas. Embora que Portugal já adotasse esse modelo em fortes e fortalezas nas suas colônias. Mas devido aos grandes gastos para empreender essa mudança, o governo desistiu do projeto. 


“Na segunda metade do século XVIII o cunho militar do Castelo é ainda reforçado pela edificação de mais uma prisão e pela implantação do Hospital dos Soldados, por ordem do rei D. João V. Ainda neste século, o terramoto de 1755 devastaria uma vez mais a cidade de Lisboa, deixando em ruínas, além de outras, a zona do Castelo - muralhas, Castelo, Paço Real da Alcáçova, Palácios, Ermidas, Igreja, etc. – levando ao abandono civil e militar da zona. Progressivamente vão-se adaptando as estruturas conforme as necessidades: implementava-se o observatório astronómico numa das torres em 1779; noutra torre o observatório geodésico em 1788; instalava-se a Casa Pia, que ocuparia quase metade da área do Castelo, composta de recolhimentos, escolas, oficinas, casas de correcção e prisões, utilizando edifícios, quartéis e espaços reutilizáveis do Paço, com obras de adaptação que alterariam as estruturas existentes. Construía-se ainda uma cisterna, aproveitando algumas ruínas do castelo e na área da actual Praça Nova implantam-se oficinas de cordoaria, sendo a Igreja de S.ta Cruz o único edifício a ser reconstruído. O castelo converter-se-ia ‘em local de tudo: presídio ou cadeia, casernas militares, Casa Pia, oficinas e manufacturas, postos geodésicos e de observação’”. (ABEL & CONSIGLIERI, 2011, p.7 apud DA CRUZ, 2013, p. 49).

No século XIX o castelo retomou sua função de fortificação e quartel, passando a abrigar o Quinto Batalhão de Caçadores, o que levou a sua reforma anterior para comportar escritórios, depósitos de armas e munição, cavalariças, salas de recreação, pátios, alojamentos, etc. O antigo palácio já não existia há bastante tempo já naquela época. Em 1897 ele perdeu o status de praça de guerra, perdendo gradativamente seu papel como fortificação e quartel, reduzindo suas atividades e legando-o ao abandono. Finalmente em 1910, o último rei de Portugal, D. Manuel II classificou o Castelo de São Jorge como monumento nacional. Naquele momento a fortificação estava praticamente abandonada e em deteriorada. Na tentativa de não deixar o castelo ruir, foram propostos projetos para torná-lo um hotel luxuoso, mas as propostas foram rejeitadas. Apenas em 1938 após décadas de abandono, teve início as primeiras ações para restaurar e preservar a milenar fortificação. (DA SILVA, 2014, p. 54). 

Tais medidas se estenderam até 1947, quando parte do castelo estava recuperada e jardins o cercavam. Apesar que várias outras alas da fortificação e da cidadela estivessem em ruínas. Na segunda metade do século XX a preocupação patrimonialista, arquitetônica, museóloga e arqueológica pressionaram a prefeitura de Lisboa a tornar o castelo em um museu e local de preservação. O aspecto atual do castelo mantém parte das estruturas erguidas no século XIX e reformadas no século XX, apesar que algumas das torres, portões e muralhas que formam a cidadela, datem de pelo menos o século XVI. 

Entrada do castelo com sua ponte sobre um fosso seco. Foto do autor, tirada em 2019. 
Atualmente os visitantes podem conhecer as muralhas da cidadela, embora não seja permitido andar sobre elas; pode-se visitar o interior do castelo, subir em suas muralhas e torres; visitar seu jardim e praças, das quais possui-se uma bela vista de Lisboa. Há um museu com artefatos encontrados nas escavações do castelo e da cidadela. Vestígios de pórticos do antigo Paço de Alcáçova; apresentações musicais, teatrais e de living history em algumas épocas do ano. O local também dispõe de restaurante, cafeteira e loja de lembrancinhas. De qualquer forma, o Castelo de São Jorge sobreviveu a guerras, cercos, dois terremotos e o descaso humano. E passados mais de mil anos ele se mantém sua vigília sobre Lisboa, observando a capital portuguesa do alto de sua colina. 

Nota: O nome Olisipo ou Ulisipo advém da lenda grega a qual conta que o herói Odisseu (Ulisses para os romanos), teria sido o fundador dessa cidade. A lenda perdurou por séculos entre os escritores. O próprio Luís de Camões a menciona em Os Lusíadas no século XVI. 
NOTA 2: O nome Al Uzbuna também é grafado como Alusbuna, mas foi latinizado depois para Lissabona. A partir dessa latinização originou-se Lisbonne que deu origem a Lisboa. 
NOTA 3: Desde 1915 a freguesia de Santa Cruz do Castelo chama-se apenas Castelo. 
NOTA 4: O dia 25 de outubro comemora-se o Dia do Exército em Portugal, em memória a vitória do Cerco de Lisboa em 1147. 
NOTA 5: O famoso escritor José Saramago escreveu o livro História do Cerco de Lisboa (1989), um romance histórico que reimagina o Cerco de Lisboa ocorrido em 1147. 

Referências bibliográficas: 
ARAÚJO, Norberto de. Castelo. In: Inventário de Lisboa, fascículo 1. Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1944, p. 9-22.  
CARVALHO, Ana Rita. Castelo de S. Jorge. Jornal do Exército, ano XLIX, n. 575, julho de 2008, p. 4. 
DA CRUZ, António Miguel Godinho. Reabilitação do Patrimônio: Castelo de S. Jorge: Do Estado Novo à Actualidade. Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa, 2013, 163p. 
DA SILVA, Rita Nobre Neto. Monumentos e Museografia: Dois espaços museológicos no Castelo de São Jorge, em Lisboa. Dissertação de Mestrado em Arquitetura, Instituto Superior Técnico, Lisboa, 2014, 222p. 
SANTOS, Joaquim Rodrigues dos. Castelo de S. Jorge e Paço da Alcáçova. In: Lisboa em Azulejo Antes do Terramoto de 1755. Lisboa, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas / Universidade Nova de Lisboa, 2017. 




quinta-feira, 18 de julho de 2019

Santiago de Compostela: o destino dos peregrinos

Na Idade Média europeia, a pequena cidade de Santiago de Compostela, situada na Galiza, atualmente província espanhola, tornou-se um dos três mais importantes destinos de peregrinação dos cristãos. Tornando-se tão famoso quanto a peregrinação para Roma e para Jerusalém. Neste ano tive a oportunidade de visitar essa antiga cidade que se desenvolveu graças as peregrinações ao longo de séculos. A partir das fotos, conversas e material ali coletado, decidi escrever um pouco da história dessa cidade, mas focando o período medieval. Dessa forma dividi o texto nas seguintes partes: uma apresentação de quem foi São Tiago e sua relevância para o cristianismo medieval, a lenda das relíquias do santo que foram parar na Galiza, o surgimento da igreja, a origem das peregrinações. Por fim, alguns comentários turísticos sobre a cidade. 

Tiago Maior, o apóstolo: 

Na tradição cristã existem três Tiago importantes. Tiago Maior e Tiago Menor foram dois dos Doze Apóstolos. Por sua vez, Tiago, o Justo era parente de Jesus, tendo sido se meio-irmão ou primo. Tiago Maior era filho de Zebedeu e Salomé, sendo irmão de João - outro dos apóstolos. Tal como o pai, Tiago e João eram pescadores que viviam na Galileia. Segundo os relatos de Mateus 4:21-22 e Lucas 5:10, Tiago e João seriam amigos ou conhecidos de André e Simão Pedro, outros dois pescadores que também se tornaram apóstolos. Os Evangelhos descrevem Tiago Maior como um dos apóstolos mais próximos de Jesus, ao lado de Pedro e João. Fato esse que Tiago é mencionado em vários acontecimentos significativos do missionarismo do Cristo. Embora não seja um dos apóstolos mais lembrados, sendo principalmente ofuscado por seu irmão João. (MANZANARES, 2005, p. 418). 


Ícone representando São Tiago Maior ou Tiago Apóstolo.
Após a morte, ressurreição e ascensão de Cristo como informa os Evangelhos, cada um dos apóstolos tomou a missão de dar continuidade aos ensinamentos de Jesus, partindo em missões de conversão. A trajetória de Tiago após a ida de Jesus é desconhecida, o mesmo vale para os outros apóstolos que também possuem poucas informações a respeito dessa fase missionária. Porém, no livro de Atos 12:1-2 é dito que o rei Herodes Agripa I (c. 10 a.C - 44 d.C) ordenou a captura dos cristãos, e dentre estes estava Tiago, o qual foi preso e executado. Segundo a tradição bíblica, Tiago foi o primeiro dos apóstolos a morrer, tendo sido martirizado. Assim como outros dos apóstolos como Tiago Menor, Simão, Tomé, Filipe, Bartolomeu, Judas Tadeu e André, Tiago Maior praticamente é esquecido nas primeiras décadas do cristianismo, onde enfatizava-se Pedro, João, Mateus e posteriormente Paulo. Tido por alguns como o "décimo terceiro apóstolo". Passado os séculos os apóstolos ganharam suas igrejas, porém, a fama de Tiago Maior despontaria num lugarejo da Hispânia no século IX. 

A lenda de São Tiago do Campo da Estrela:

O Novo Testamento não narra as missões de todos os discípulos, e tende a focar mais nas missões de Pedro e Paulo, e eventualmente cita as participações de Barnabé, Marcus, Mateus, Lucas, João etc. Porém, com o passar do tempo surgiram narrativas extra-testamentárias que falavam que Marcus viajou ao Egito, Tomé foi à Índia, Matias foi à Etiópia e por sua vez, Tiago Maior teria viajado a província romana da Hispânia. De acordo com a tradição extra-testamentária citada no manuscrito latino Concórdia de Antealtares (1077), atribuído ao bispo Diogo Paéz de Santiago de Compostela, está contida o mais antigo registro conhecido das missões evangelísticas de São Tiago na Galiza. 

De acordo com o relato, Tiago pouco tempo depois da ascensão de Jesus aos céus, seguiu viagem como os outros apóstolos e discípulos faziam. No caso, Tiago teria viajado para mais longe, indo até a região da Galiza, no noroeste da Hispânia. Ali ele pregou o evangelho, converteu e batizou a população da Galiza e do que hoje representa o norte de Portugal, como as cidades de Guimarães e Braga. O apóstolo teria visitado outras cidades da Hispânia e Lusitânia, permanecendo por tempo desconhecido naquelas províncias até que decidiu retornar para Judeia, onde faleceu em 44. 

Como não existem relatos verídicos e seguros sobre a suposta viagem de Tiago a Hispânia e Lusitânia, tais acontecimentos são tomados como lendários, porém, no século IX, conta a história que os restos mortais de Tiago foram recolhidos de sua tumba na Judeia e levados de volta a Hispânia, a região da Galiza. Os discípulos do santo, aportaram em Iria Flávia, local dominado pela rainha Lupa. Os discípulos contaram a rainha que aqueles ossos eram do apóstolo Tiago Maior e clamaram pelo apoio da monarca a qual atendeu e lhes concedeu uma carroça e bois. No entanto, Lupa não era cristã, mas pagã, e ardilosamente ofereceu bois raivosos, os quais poderiam acabar causando problemas aos discípulos. De qualquer forma, eles seguiram com os restos mortais e foram até o monte Illicinus, onde Teodoro e Atanasio, os líderes da missão, foram surpreendidos por um dragão que cuspia fogo. Não temendo a fera, os dois e demais discípulos fizeram o sinal da cruz, e com isso afugentaram o monstro e amansaram os bois bravios. Com esse milagre Lupa teria se convertido e o local do ocorrido foi renomeado para Pico Sacro. Posteriormente a comitiva chegou a um lugar chamado Libredón, antiga localidade num povoado romano que estava abandonado há muito tempo. Lá havia uma tumba de mármore, na qual os restos mortais do santo foram sepultados. Teodoro e Atanasio foram designados como guardiões do túmulo e ali permaneceram até o fim da vida. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 14-15). 

Após a morte de Teodoro e Atanasio, o túmulo de São Tiago acabou caindo no esquecimento e a vegetação o encobriu. Anos se passaram e por volta de 813 ou 814, como informa o relato do bispo Diogo Paéz, um camponês de nome Paio ou Pelagio, que vivia de forma eremita em Libredón, localidade da tumba, durante algumas noites, o homem teve a visão de estranhas luzes e pensou que poderiam ser anjos ou um sinal de Deus. Posteriormente Paio viajou até Iria e relatou ao bispo Teodomiro sobre o ocorrido. O bispo ficou intrigado com aquela visão do eremita e decidiu acompanhá-lo até Libredón. Ele não avistou as tais luzes, no entanto, deparou-se com antigas ruínas encobertas pela vegetação. Vasculhando a área, o bispo encontrou uma tumba, após adentrá-la constatou que se tratava da tumba na qual os restos mortais de São Tiago haviam sido sepultados. Maravilhado com aquilo, Teodomiro mandou avisar o rei Afonso II das Astúrias (759-842), que foi pessoalmente conferir o local da tumba e ficou maravilhado com a descoberta. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 16). 

Apenas no século X o topônimo Compostela aparece associado ao santo. Existem quatro teorias para tal palavra. A primeira é que trata-se de uma variação de composita, termos usado para se referir a localidade bela, adornada. Que seria reflexo as antigas ruínas romanas de Librédon. A segunda teoria diz que compostela seria uma corruptela de palavras de origem celta, que designaria "colina dos metais". A terceira teoria diz que trata-se de uma referência ao latim vulgar, onde compostum + ela = compostela, significaria local de enterros, algo até apropriado, já que em Libredón havia um cemitério com ricas tumbas. A quarta teoria que é a mais conhecida, sugere que compostela seja uma aglutinação das palavras campus stellae (campo da estrela), que foram unidas para formar compostela. O termo seria baseado nas luzes que Paio avistou durante à noite. De qualquer forma, somente tempos depois é que a designação começou a ser comumente utilizada. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 17). 

A primeira igreja e milagre:

O rei Afonso II, o Casto realmente existiu, embora não se saiba de fato se ele visitou Libredón para reconhecer a tumba que conteria os restos mortais de São Tiago. No entanto, é creditado a ele a ordem de se construir uma igreja para guardar aquela relíquia sagrada. A pequena igreja foi construída com pedras e argamassa, sem nenhum requinte, e depois recebeu três altares dedicados a Jesus, São Pedro e São João Evangelista, e um batistério a São João Batista. A igreja teria vinte sete metros de comprimento, e passou a ser cuidada por monges, havendo necessidade de criar-se um anexo para abrigar o monastério. Segundo a lenda, ainda nessa fase inicial no século IX, a igreja já recebia peregrinos, apesar que os historiadores apontem que o fenômeno da peregrinação seja algo bem mais tardio. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 18). 


Gravura do rei Afonso II das Astúrias no Livro dos Testamentos, c. 1118. Responsável por ordenar a construção da primeira igreja para São Tiago na Galiza. 
No ano de 844 é datado o primeiro grande milagre dedicado a São Tiago na região. Na época, o sucessor de Afonso II, seu primo, Ramiro I (c. 790-850) passava por problemas ao enfrentar o emir mouro Abderramán II. Segundo a lenda, no ano de 844 ocorreu a Batalha de Clavijo, decisiva para assegurar que a Galiza e as Astúrias não fossem conquistadas pelos mouros. Ramiro I e seu exército era inferior ao inimigo, mas segundo o relato, São Tiago surgiu montado em um cavalo branco e levantando uma espada. O santo cavaleiro teria cruzado o exército cristão e liderado o ataque contra os chamados infiéis, conseguindo assim a vitória para a cristandade. A partir desse suposto milagre, Tiago passou a ser referido também como São Tiago Cavaleiro ou São Tiago Matamoros. Em agradecimento pela intervenção divina, o rei Ramiro I instituiu que além do dízimo, uma parcela da produção das fazendas de seu reino deveria ser entregue como tributo a Igreja de São Tiago pelo resto dos anos. Isso foi chamado de Voto de São Tiago. E por sua vez, o santo converteu-se no padroeiro da Galiza. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 18). 

Pintura retratando São Tiago Cavaleiro ou Matamoros. Foto minha, tirada no Museu dos Peregrinos, Santiago de Compostela, 2019. 
A lenda da aparição do santo cavaleiro ecoou pelo restante do século e teria sido um dos fatores para originar as peregrinações, já que esse tido milagre verdadeiro atraiu a curiosidade e fé da população da região. 

A Vila de Santiago

No século X, a Villa Sancti Iacobi ou Vila de São Tiago (Vila de Santiago) estava formalizada. Ao centro encontrava-se sua igreja principal e outras igrejas menores, além de um pequeno monastério. A localidade foi cercada por uma paliçada, devido ao temor que invasores assaltassem o local atrás de tesouros, apesar que naquele momento a igreja ainda fosse pobre. Nos arredores assentaram-se agricultores, pecuaristas e artesãos, criando fazendas, ruas e suas casas. A rua do Vilar é uma das primeiras a ser constituída e ainda hoje existe. Nela ergueram-se casas e alguns prédios administrativos. 


Mapa da Vila de Santiago entre 900 e 1040. 
No mapa podemos ver o centro da vila com a igreja de São Tiago que virou catedral no século XI, o monastério e igrejas menores e o campo de São Pelaio. Ao longo do século IX surgiram o Convento de São Paio de Antealtares, o mosteiro de São Martinho Pinário e a Igreja de Santa Maria da Corticella. Todos ainda existentes atualmente. No ano de 899 o rei Afonso III, o Grande visitou a vila com uma comitiva de nobres e clérigos, a fim de conferir as reformas realizadas na igreja do santo apóstolo. A presença do monarca e sua corte naquele ano era testemunho do prestígio que a pequena vila dispunha. Fora da paliçada inicial, estendeu-se as antigas ruas de Vilar e Penario, ainda hoje existentes, além de outras construções. O campo de São Martininho com seu pequeno mosteiro, que ainda hoje existe. Nota-se também o Vicus Francorum, um bairro mais afastado do centro e o Preconitorium, um conjunto de hospedarias erguidos para abrigar os peregrinos e viajantes. 


Maquete da Igreja de São Tiago no século X. Foto tirada por mim no Museu dos Peregrinos, em Santiago de Compostela, 2019. 
Com o crescimento da vila, as ameaças se seguiram e o bispo de Iria Flávia, Sisnando II ordenou a construção de um muro em torno da vila. Um dos motivos para que o bispo ordenou a construção de muros, devia-se ao temor das invasões vikings à Galiza, que vinham ocorrendo desde o final do século IX. Embora não haja registros históricos conhecidos que os vikings tenham se aventurado ao interior da Galiza, pois na Hispânia e Lusitânia eles se limitaram a costa e algumas localidades conectadas por grandes rios, de qualquer forma, o bispo temendo um possível ataque deles, ordenou a construção dos muros. Segundo a história, Sisnando II foi assassinado em 968 num ataque viking, enquanto refugiava-se num forte romano no rio de Arousa

De qualquer forma, o muro que o bispo ordenou a construção, foi concluído e protegeu a vila de Santiago até 997, quando um exército mouro do califa Almançor (c. 938-1002) um dos mais poderosos governantes do Califado de Córdova (929-1031), atacou a Vila de Santiago. O ataque ocorreu em julho daquele ano. Segundo o relato o bispo Pedro de Mezonzo (930-1003) ordenou a evacuação da vila, pois sabia que seus fracos muros não iriam manter o exército mouro distante. O relato do ataque a Santiago é impreciso e possui elementos romanceados. Fala-se que o califa ordenou a destruição da vila, incluindo as igrejas, porém, ao visitar a igreja de São Tiago ele teria tido um pressentimento e decidiu não destruí-la, mas ordenou que os sinos e as portas fossem levados embora. O relato também diz que Almançor levou seu cavalo para beber água na pia batismal da igreja. E teria poupado a vida de alguns monges que ficaram para trás, os quais rezavam diante da tumba do santo. Dize-se também que o saque a vila durou sete dias. O problema é que tratava-se de uma pequena povoação que facilmente seria pilhada num dia. Provavelmente o discurso destrutivo e de vários dias de pilhagem, sejam exageros. Além disso, nem se sabe se Almançor visitou a vila mesmo. Independente de como tenha sido a história, sabe-se que de fato a vila foi atacada e quase totalmente destruída. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 22). 

Após a invasão e pilhagem, os mouros foram embora e a população de Santiago retornou. Pedro de Mezonzo faleceu em 1003 e foi velado na Igreja de São Tiago, considerado herói local por ter comandando a operação de fuga da população e sua dedicação ao seu ofício. Tempos depois o mesmo foi canonizado. A vila foi reconstruída, mas passou por novas obras significativas. O bispo Cresconio II no século XI, preocupado que novos ataques viessem a destruir mais uma vez Santiago de Compostela como era conhecida na época a vila, ordenou que uma nova muralha fosse construída. Dessa vez uma muralha de pedra, com torreões e sete portões. Os portões eram chamados: Francigena ou Caminho, Penna, Subtrafibus ou Sanfrancisco, Sancto Peregrino ou Trindade, Faxeira, Sussanis ou Mamoa, Mazarellas. No século XVI a muralha foi derrubada para comportar o crescimento da cidade. Mas resquícios dela ainda são encontrados atualmente. 

Por sua vez, no ano de 1075, o rei Afonso VI, o Bravo (1047-1109) e o bispo Diogo Paéz - o mesmo que redigiu a história da origem da tumba do apóstolo Tiago - se reuniram para empreender obras de ampliação a igreja, a qual a tornou em uma catedral no estilo românico. As obras prosseguiram até 1088, quando foram concluídas. A catedral sofreu ampliações pequenas se comparadas com as dos séculos posteriores. Seu interior em parte foi reorganizado e redecorado, havendo também alterações no monastério e nos limites exteriores da catedral. De qualquer forma, a conclusão das obras foi um sucesso para a época, ainda mais se pensarmos que a catedral havia sido parcialmente destruída em 997 e apenas reformas de reparo foram feitas nos anos seguintes. Finda as melhorias em 1088, a Catedral de Santiago de Compostela tinha mais espaço para abrigar os peregrinos nas missas e receber comitivas de nobres. Ao mesmo tempo, a atenção dada pelo rei Afonso VI e a importância do bispo Diogo, levaram em 1095 o papa Urbano II a ordenar a transferência do bispado de Iria Flávia para Compostela. Legalmente a transferência somente foi confirmada em 1101 pelo papa Pascal II(LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 26-28). 

Durante a década de 1120 o então bispo de Compostela era Diego Gilmerez (c. 1070-1140), o homem de respeito e dedicado, que trabalhou com Paéz, serviu na corte de Afonso VI e até viajou em missão para Roma. Sobre seu bispado, Gilmerez buscou com o papa Calixto II que Santiago de Compostela torna-se um arcebispado. Na hierarquia católica, o arcebispo possui autoridade sobre vários bispos e suas dioceses. Compostela tornando-se sede metropolitana do arcebispado, concederia a Gilmerez prestígio e controle sobre as dioceses da Galiza. E isso ocorreu em 1124 com a autorização do papa Calixto II. A partir dessa vitória, Gilmerez empreendeu novas viagens à França e Itália, a fim de conseguir donativos, estabelecer acordos comerciais, religiosos e políticos, mas também de entrar em contato com artistas e arquitetos, pois sob seu governo reformas foram realizadas na apenas na catedral, mas na vila também. Graças a esses contatos, nota-se na arquitetura da catedral, influências francas e românicas inexistentes até então, além da difusão de Compostela como destino para peregrinações, o que contribui para a firmação de rotas saídas da França e Itália. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 28). 


Maquete representando a Vila de Santiago de Compostela no século XII. Foto tirada por mim na exposição do Aeroporto de Santiago de Compostela, 2019. 
Os Caminhos de Santiago de Compostela: 

Embora seja comum ouvirmos falar do Caminho de Santiago, na verdade é uma acepção incompleta, pois não existe apenas um caminho, mas vários deles. O chamado Caminho Primitivo ainda surgido no século IX, quando a igreja era pequena e a vila também, partia da cidade de Oviedo nas Astúrias, pela condição de ser a capital daquele reino que detinha domínio sobre a Galiza. Segundo a narrativa tradicional o próprio rei Afonso II, o Casto seguiu por esse caminho até Libredón, época que nem existia a Vila de Santiago ainda. O Caminho Primitivo depois foi ampliado de Oviedo, indo para Santander, Bilbao e terminando em Irun, já próximo a fronteira da Francia, sendo chamado de Caminho do Norte

Mas além desse caminho, existiam outras estradas locais na Galiza que conduziam a Compostela. De qualquer forma, o grande fluxo de peregrinos para a vila somente começou a se manifestar no século XII propriamente, embora já houvessem peregrinos antes disso, mas em menor número. Graças aos governos dos bispos Diogo Paéz e  Diego Gilmerez, Santiago de Compostela tornou-se mais conhecida pela Lusitânia, Hispânia, Francia, Inglaterra e a Península Itálica. Após o ano de 1140 começaram a construção de igrejas, monastérios e hospedarias pelos caminhos de peregrinação à Compostela. Inclusive isso é um fato interessante, pois nesse período, os católicos possuíam três grandes rotas de peregrinação: Roma, Jerusalém e Santiago. Os viajantes que seguiam para Roma eram chamados de romeiros, os que iam para Jerusalém era chamados de palmeiros, e os que seguiam para Santiago de Compostela passaram a ser chamados de peregrinos

No entanto, as peregrinações para Roma e Jerusalém estavam em baixa no século XII. As Cruzadas falharam em retomar a Terra Santa de forma efetiva, tornando inseguro que os palmeiros continuassem à ir a Jerusalém. Por sua vez, Roma embora fosse uma cidade bela e sede do papado, era mal frequentada na época, suja e perigosa, o que também fez cair o número de romeiros, algo que se agravou com os conflitos entre os Estados Italianos, que tornavam as rotas inseguras. Por sua vez, o norte da Hispânia vivia uma relativa segurança, que permitia que viajantes pudessem realizar longas viagens sem muitos problemas ou ameaça de guerra. Em parte isso contribuiu para que entre os centros de peregrinação da cristandade europeia medieval, Santiago de Compostela começasse a ser o mais procurado. 

O chamado Codex Calixtino ou Liber Sancti Jacobi, foi redigido entre 1140 e 1160 por distintos autores e dedicado ao papa Calixto II. A obra tinha como função promover a sé de Santiago de Compostela que era então sede metropolitana na Galiza. Ricamente ilustrado e escrito, o códice é dividido em cinco partes (ou livros), a primeira contém material litúrgico para instrução e pregação, a segunda parte é bastante interessante, pois relatava 22 milagres atribuídos a São Tiago, servindo inclusive de propaganda para atrair mais peregrinos a cidade; a terceira parte tem caráter histórico e narra as missões de São Tiago na Hispânia e a história de sua tumba e descoberta dela. A quarta parte aborda uma lenda sobre o imperador Carlos Magno (742-814) e seu nobre cavaleiro Rolando, creditando a eles terem descoberto a tumba do apóstolo Tiago Maior. Embora Carlos Magno e Rolando tenha visitado a Hispânia no começo do século IX, nunca foram além dos Pirineus propriamente. Porém, como se tornaram figuras famosas, a história foi bem recebida entre os francos. Por fim, a quinta e última parte do códice, aborda um guia para os peregrinos. Esse livro é atribuído ao clérigo Aymerico que teria feito a peregrinação e decidiu escrever o guia para auxiliar outros viajantes. A descrição de Aymerico é o guia de peregrinação a Santiago de Compostela, mais antigo que se conhece. O relato de Aymerico informa as rotas a seguir, saindo principalmente da Francia, os lugares a onde descansar, buscar abrigo, igrejas, relíquias e locais santos a se ver na viagem. O relato também descreve cidades, vilas e igrejas, e é claro, contém descrições da Vila de Santiago. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 62). 


Representação de Santiago Maior em um dos fólios do Codex Calixtino. 
Com a popularização de Santiago de Compostela como importante centro de peregrinação da Europa, novos caminhos foram surgindo. Por exemplo, os ingleses que eram conhecidos por fazerem peregrinações há vários pontos de seu arquipélago, passaram a se interessar no final do século XI a ir visitar Compostela, então partindo de distintos portos eles seguiam até a vila de A Coruña no norte da Galiza, de onde seguiam a pé até Compostela. Essa rota ficou conhecida como Caminho Inglês. Apesar de levar este nome, os francos e outros povos vindos do norte, que viajavam pelo mar, aportavam em A Coruña e faziam o mesmo trajeto. Advindo do sul, do então Condado Portucalense (868-1139) - que somente no século XII tornou-se o Reino de Portugal -, surgiu o chamado Caminho Português. Entretanto, na época ele começava no Porto, então capital do condado e seguia um percurso próximo da costa. Posteriormente com o crescimento das vilas de São João de Rates, Braga e Guimarães, por supostamente terem sido visitadas pelo apóstolo Tiago Maior, o caminho ganhou ramificações. Somente tempos depois quando Lisboa tornou-se capital de Portugal é que o início do caminho foi estendido para o sul, para a nova capital. 


Mapa com os caminhos mais antigos: Caminho Francês em vermelho, o Caminho da Prata em amarelo, o Caminho Inglês em azul claro, o Caminho Português em verde, o Caminho Primitivo em azul escuro e o Caminho do Norte em azul. 
Na Hispânia, além do Caminho Primitivo e do Caminho Inglês, havia outras rotas de peregrinação e também a mais importante de todas, o Caminho Francês. Uma das rotas hispânicas, foi chamada de Caminho da Prata, que inicia-se em Sevilha e segue por uma antiga estrada romana usada para o comércio e transporte de minério de prata, passando por cidades como Caceres, Salamanca, Zamora, entre outras até virar para noroeste e adentrar a região da Galiza. Quando Madrid passou a ser uma cidade de destaque, surgiu o Caminho de Madrid, mas partindo rumo ao norte até o Caminho Francês, de onde os peregrinos seguem viagem por tradicional percurso. O mesmo vale para o Caminho de Barcelona, que se inicia em Barcelona e liga-se ao Caminho Francês. 

Neste caso o Caminho Francês se populariza no final do século XIII, após o destaque dado pelo Codex Calixtino, embora seja uma das rotas mais extensas. Em território espanhol, essa estrada estende-se de Santiago de Compostela até Roncesvalles nos Pirineus, depois adentra território franco (hoje francês), subdividindo-se em quatro estradas que seguem até Paris, Vézelay, Le Puy e Arles. Por sua vez, a partir de Arles começa o Caminho Italiano que segue até Roma. A partir das rotas francesas outras rotas menores se estendem pela França, indo também para a Bélgica, Holanda, Alemanha, Suíça e além. 


Mapa com os principais caminhos para Santiago de Compostela, em destaque o Caminho Francês em vermelho e suas ramificações principais, em azul. 
Aos peregrinos que decidem fazer a viagem hoje em dia, qualquer um dos caminhos é válido, vai depender da disposição física, financeira, tempo e outros fatores para percorrê-los, pois aqueles que optam por caminhos mais curtos, seguir o Caminho Primitivo, o Caminho Inglês e outras rotas na Galiza, são uma boa pedida. Os que preferem caminhos medianos com mais de 200 Km, podem recorrer ao Caminho Português saindo do Porto ou de Lisboa, o Caminho da Prata ou o próprio Caminho Francês, seção espanhola. Os que estão dispostos a seguir por uma rota bem mais longa, com mais de 500 ou 800 km, podem pegar o Caminho Italiano ou as ramificações do Caminho Francês, como partindo de Paris. 

O fenômeno da peregrinação: 

Primeiramente é preciso comentar um pouco sobre o fenômeno da peregrinação. A ideia de peregrinar não é uma invenção cristã ou exclusiva do Cristianismo, outras religiões também fazem isso. Os muçulmanos possuem o hábito de peregrinar anualmente a Meca; os antigos hebreus faziam peregrinações a Jerusalém; budistas na Índia, China, Tailândia, Coreia do Sul, Japão e outros países asiáticos, também possuem o costume da peregrinação. No Japão, os seguidores do Xintoísmo também fazem peregrinações. Hinduístas de diferentes denominações, também realizam peregrinações na Índia. Na Antiguidade, povos como os gregos, romanos, egípcios e persas também realizavam peregrinações, geralmente para consultar oráculos. Posto isso, observa-se que o fenômeno da peregrinação é uma prática antiga e difundida entre três continentes, embora haja evidências de também ter ocorrido nas Américas. De qualquer forma, a peregrinação consiste numa prática de caráter religioso, para distintos fins. 


A Caaba em Meca, em época de peregrinação (Hajj). 
Diana Webb (1999) explica em seu livro Pilgrimns and Pilgrimage in the Medieval West a respeito do papel das peregrinações para a Europa cristã. Embora ela trate de um recorte específico, os comentários postos por ela, alguns são aplicáveis a outros povos também. No caso, Webb aponta que a prática de peregrinar é antes de tudo, uma decisão motivada por fins religiosos, apoiada por outras demandas, as quais levam o fiel a se sujeitar a aquele sacrifício. No caso, a peregrinação é considerada uma provação, um ato de sacrifício, no qual o fiel deixa seu lar e sua família, e parte numa longa jornada que leva dias, semanas ou meses. Além de ser um ato de desapego e de provação, também é um ato de fé no sentido que os fiéis não sabiam se chegariam no seu destino e se conseguiriam voltar vivos para casa. Muitos peregrinos morriam durante a jornada, por isso que tal viagem é encarada como uma provação e uma expectativa de fé, por não saber se você sobreviveria a jornada.

Mas por quais motivos pessoas decidiam passar por essa provação? Anteriormente eu disse que era por uma questão de fé. Conrad Rudolph (2004) comenta que cada pessoa pode ter suas próprias prerrogativas religiosas para levá-las a fazer tal jornada, porém, na Idade Média, observou-se alguns fatores em comum: devoção, cumprimento de promessas, busca por graças ou milagres e penitência. Diante disso, a autora explana que os peregrinos, mas também romeiros e palmeiros realizavam tais viagens objetivando testar sua fé pessoal e sua fé em Deus e nos santos; a devoção também pode ser refletida como a obediência aos costumes, pois entre algumas pessoas, o ato de peregrinar regularmente é visto como uma exigência ao fiel; buscavam realizar a jornada como forma de penitência aos seus pecados; viajavam em busca de graças ou milagres; caso tenham realizado alguma promessa e essa foi atendida, eles viajavam até determinado local de peregrinação para exibir sua gratidão. Embora se tratem de prerrogativas medievais, ainda hoje elas são motivos para levar a peregrinação de cristãos e até de outros povos. 

Em minhas viagens pessoais, tive a oportunidade de visitar outros locais de peregrinação, como o Vaticano, Fátima em Portugal, Juazeiro do Norte e Aparecida do Norte, ambos no Brasil. Essas quatro cidades são centros de peregrinação e anualmente a população as visitas. No caso sublinha-se a condição que a visita a tais cidades não seja realizada a pé, os devotos tendem a ir de ônibus e carro. Para essas pessoas o importante não é fazer a caminhada em si, mas mostrar sua fé de anualmente ir até esses lugares, geralmente o fazem na época de feriados religiosos. Percebi em minhas visitas os peregrinos comentando que estavam indo por lá para apresentar sua devoção, agradecer por promessas ou pedir por graças e milagres. Em alguns casos eles também aproveitavam para levar crianças, ensinando-as sobre a importância do ato de peregrinar. 


A Romaria do Terço dos Homens na Catedral de Nossa Senhora Aparecida, Aparecida do Norte, Brasil. 
No caso dos peregrinos de Santiago de Compostela, já pelo século XII, estava consolidado vários aspectos que os caracterizavam. O chapéu de abas largas, uma capa de viagem ou hábito, um bastão usado para ajudar na caminhada e na defesa, pois a ponta inferior era afiada e a ponta superior possuía um pomo usado para bater. Apesar que em alguns casos o bastão fosse um simples galho longo, sem esses adereços defensivos. No bastão também poderia se encontrar uma cabaça para se carregar água ou vinho. Na cintura, amarrada ao cordão do hábito ou das vestes, carregava-se uma bolsa retangular, onde iam as provisões alimentares e outros objetos necessários para a viagem. Os peregrinos de Santiago também usavam uma concha, símbolo já identificado no Codex Calixtino, representando o Caminho Jacobeu como também se referia o Caminho Francês. Como parte da rota seguia próximo ao mar, as conchas foram usadas para identificar o trajeto e os peregrinos. Simbolicamente ela representa devoção, fé, pureza, esperança, vida, etc. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 77-78).


Estátua de São Tiago Peregrino. A imagem representa a indumentária usada pelos peregrinos na Idade Média. 
A importância econômica das peregrinações: 

Para além do valor religioso que essa prática traz aos devotos, ela também gera renda, e isso foi importante para que vilas, cidades e templos pudessem sobreviver ao longo de séculos. A forma como as peregrinações geram renda ocorre de duas formas: a primeira é através de donativos. Entre diferentes povos era e ainda é comum, que os peregrinos ofertem algo aos templos, santuários, igrejas, mesquitas etc. Essa oferta hoje em dia geralmente é feita na forma de quantias de dinheiro, mas no passado poderiam ser objetos, vestes, mercadorias no geral. O ato de ofertar serve tanto para manter as atividades dos clérigos responsáveis por aqueles locais, mas também seria encaminhado aos pobres e necessitados - ou pelo menos é o que se espera -. 

A segunda forma de renda advém da condição que os peregrinos possuem necessidades, duas delas são as mais comuns: abrigo e comida. Com isso, nos locais de peregrinação e pelas estradas que conduzem até lá, surgiram hospedarias, albergues, pousadas, hotéis e locais para se alimentar como tavernas, restaurantes, lanchonetes mais recentemente, além de feiras e mercados. O interessante no caso das feiras e mercados diz respeito a condição de que os camponeses e comerciantes locais aproveitavam aquele aglomerado de viajantes, para poderem vender seus produtos. Dependendo do local de peregrinação, centenas ou milhares de pessoas se reúnem por alguns dias, logo, eles precisam se alimentar, com isso a venda de comida é um ponto alto. 

Por outro lado, havia peregrinos com dinheiro para comprar mercadorias diversas. Alguns necessitavam reparar suas vestes ou calçados, os que tinham mais dinheiro, compravam novas roupas e calçados ou pagavam para se fazer os consertos. Os de maior poder aquisitivo, lembrando que pessoas ricas e até nobres também realizavam tais viagens, como no caso de Santiago de Compostela, há relatos de nobres fazendo essa jornada. E como eles tendiam a viajar em geral com comitivas, levavam donativos, mas também fundos para serem gastos. Diana Webb (1999, p. 124-126) comenta que mesmo no medievo esse comércio de outros tipos de produtos como tecidos, roupas, calçados, alimentos, bebidas, etc. foi comum. E ela até destaca o fato de que em alguns casos já se vendiam souvenires também. É evidente que naquele tempo havia poucas opções de lembrancinhas, mas objetos como terços, cruzes, escapulários, conchas etc. já eram vendidos no caso do medievo cristão. Porém, o comércio de souvenires somente se intensifica propriamente a partir do século XX.  

Considerações finais: 

Santiago de Compostela e sua catedral continuaram a crescer nos anos seguintes. A catedral ganhou novas torres, como a Torre do Relógio no século XIV, além de ter recebido reformas internas e externas, mas somente nos séculos XVI ao XVIII que o estilo barroco que lhe dá a beleza atual, começou a ser aplicado. No século XIV apesar das novas reformas que a catedral passou, a cidade foi alvo de conflitos políticos e da Peste Negra, que matou boa parte da população. A cidade levou décadas para se recuperar. No século XV, a cidade começou a se expandir propriamente para fora das muralhas. Em 1495 foi fundada a Universidade de Santigo de Compostela, uma honra para poucas cidades naquele tempo. No período as peregrinações estavam em baixa e isso afetava a economia da cidade. Mas com a fundação da universidade, atrairia recursos, já que apenas os ricos estudavam. Em 1501 teve início da construção do Hospital Real ou Hospital dos Reis Católicos - atualmente é uma hospedaria -, uma grande aquisição à cidade. No mesmo século devido ao surto regular de doenças, hospitais religiosos foram fundados, como o hospital de San André na Rua do Vilar, Santa Ana, San Miguel, San Lázaro, Santa Marta e San. Data do período também a construção de colégios religiosos para educar os filhos da elite, assim como, para atuar como seminários. (LOPEZ; SEIJAS, 2010, p. 114-115). A cidade continuou a crescer de forma lenta nos séculos seguintes, recebendo mudanças na estrutura das casas, pavimentação de ruas, expandindo-se inclusive para fora de suas muralhas que vieram a ser demolidas. No caso desse texto, prezei em comentar mais a época medieval, pois remonta a origem da vila, da igreja, da tradição e das peregrinações. 


Fachada principal da Catedral de Santiago de Compostela. Tal aparência apenas foi obtida na Idade Moderna e em obras posteriores. Foto minha, tirada em junho de 2019. 
Dicas turísticas: 

Se você vai a Santiago de Compostela par fins religiosos como peregrino, ou está indo para turismo, estudo ou trabalho. Aqui vão algumas dicas. 
  • A catedral está em reforma. Logo você irá encontrar muitos andaimes e tapumes no interior. Porém, a visitação segue regularmente. 
  • É costume ao visitar a catedral, abraçar a estátua de São Tiago. Se você não tiver problema com isso, sugiro participar do rito. 
  • Na catedral a partir da Praça do Obradoiro, pode-se ter acesso ao Museu da Catedral, que permite visitar outras áreas do complexo religioso.  
  • A Missa dos Peregrinos atualmente ocorre na Igreja de São Francisco, as 12h, horário local. Como a catedral está em reforma, a missa foi transferida. 
  • Na Rua do Vilar encontram-se lojas de souvenires, cafeterias, a Livraria San Pablo e também o Hotel Rua Villar. Sua proximidade da catedral é uma ótima escolha, especialmente para quem tem condições financeiras de gastar mais com hospedagem. 
  • A Rua da Rainha (Rúa da Raiña) e a Rua do Franco, são bons locais no centro histórico para se fazer refeições, por possuírem muitos restaurantes, bares e lanchonetes. Ambas as ruas são vizinhas da Rua do Vilar e ficam bem próximo da catedral. Embora que outras ruas do centro também contém com restaurantes, bares e lanchonetes. 
  • O Museu das Peregrinações que fica ao lado da catedral, na Praça das Pratérias, é uma boa recomendação, por reunir objetos sobre as peregrinações a Santiago além de contar a história a respeito e também mostrar outras peças. Seu ingresso custa 2,40 euros e em alguns feriados religiosos a entrada é gratuita. O museu não abre nas segundas. 
  • Passeio de trem na Praça do Obradoiro. Ao custo de 6 euros, o passeio dura de 30 a 40 minutos, visitando o centro histórico antigo e novo, além de passar diante de algumas praças, parques, igrejas e das faculdades.  
  • Praça de Cervantes. Em homenagem ao grande escritor espanhol, Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote de La Mancha, embora seja uma praça pequena, mas vale apena visitar pelo monumento ao escritor, além de haver cafeterias, lojas e uma igreja. Da praça, seguindo pela Rua da Acibecheria, pode-se visitar a Ruela de Jerusalém (Ruela de Xerusalém), local do pequeno gueto judio que existiu na cidade há muito tempo, e ir à Rua da Troia, famosa pelos antigos albergues estudantis, e atualmente tem-se o Museu Casa da Troia, que preserva essa história estudantil universitária da cidade. 
  • A Praça da Quintana que foi um antigo cemitério, é um local belo para se fotografar um dos lados da catedral e o Convento de San Paio de Antealtares. Também há cafeterias no local. À noite, no lado da catedral, existe um pilar que projeta sua sombra na parede da catedral. O mesmo é chamado de Sombra do Peregrino
  • A partir da Praça do Obradoiro, pode-se visitar o Paço de Roxoi, tirar foto do Hostal dos Reis Católicos e seguir a pé até dois parques conhecidos como As Hortas
  • No centro histórico também é possível visitar alguns dos prédios da universidade, como o da Faculdade de Geografia e História, sendo possível ter acesso a sua biblioteca para pesquisa. Ao redor da faculdade há algumas pequenas praças para se tirar fotos. 
  • O Museu do Povo Galego fica um pouco distante da catedral, mas é um bom local para se visitar, especialmente se tiver interesse em conhecer a história da Galiza. 
  • Algumas das maiores igrejas do centro histórico possuem museus, aos interessados em visitá-las, saibam que determinadas áreas dessas igrejas somente são acessíveis mediante ingresso pago. 
  • A escultura das Duas Marias fica situada no Parque da Alameda e é bem famosa. A estátua dupla, representa as irmãs Maruxa e Coralia, que nas décadas de 1950 e 1960, se tornaram famosas por serem figuras excêntricas. 
  • Quem for passar alguns dias em Santiago pode aproveitar para fazer passeios pela Galiza, indo para A Coruña, Lugo e Finisterra, pontos turísticos bem conhecidos e que normalmente fazem parte dos pacotes de viagem local. 
  • A Festa do Apóstolo que é uma das mais importantes da cidade, é celebra em 25 de julho. Quando o feriado cai no domingo, o festejo é maior. 
  • Durante a Semana Santa não há grandes festejos, mas ocorrem pequenas procissões.
  • O Dia de São Roque que é o segundo padroeiro da cidade, é celebrado em 16 de agostoEm maio ocorrem alguns festejos populares importantes. 
  • No centro histórico após escurecer, muitos restaurantes e cafeterias fecham e as lojas estão fechadas, uma alternativa é ir aos bares e tavernas que ficam abertos de madrugada. Ou se dirigir para fora do centro histórico. 
  • A famosa Torta de Santiago é vendida em mercados, restaurantes, lanchonetes, cafeterias e lojas, pois normalmente vende-se a versão industrializada que vem numa caixa. Uma dica para economizar é comprar a torta em mercados ou pegar alguma promoção nas lojas, pois a fatia em alguns lugares custa o equivalente a comprar uma torta inteira. 
NOTA: Data também da segunda metade do século XII a criação da Ordem de Santiago, ideia proposta pelo rei Afonso VIII e efetivada pelo papa Alexandre III em 5 de junho de 1175. Originalmente a ordem chamava-se Ordem de Cáceres, tendo sido fundada em 1164. Mas com o crescimento e importância do arcebispado de Santiago, o rei Afonso VIII decidiu trocar o nome da ordem e eleger São Tiago como seu padroeiro. A ordem passou a possuir duas vertentes principais, a castelhana e a portuguesa. Apesar de estar ligada a São Tiago, necessariamente ela não tem relação direta com Santiago de Compostela e as peregrinações. 
NOTA 2: A Quintana dos Mortos e Vivos, importante praça ao lado da catedral, somente tornou-se praça no século XVIII, anteriormente era um cemitério, por isso a referência aos mortos. No século XVIII ao XIX, foi uma das mais significativas praças no centro histórico da cidade, havendo feiras regularmente lá. 
NOTA 3: Em 1985 o centro histórico da cidade foi eleito Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Em 1995 o Caminho de Santiago - Caminho Francês ou Caminho Jacobeu - foi eleito como Patrimônio da Humanidade. 
NOTA 4: O livro Diário de um Mago (1987) é um dos clássicos do escritor brasileiro Paulo Coelho. A obra é baseada na peregrinação do autor a Santiago de Compostela. 

Referências bibliográficas: 
MANZANARES, César Vidal. Dicionário Histórico do Cristianismo. Aparecida, Editorial Santuário, 2005. 
LÓPEZ, Simón Vicente; SEIJAS, Julio Prado. Compostela una historia entretenida. Santiago de Compostela, Sotelo Blanco, 2010. 
RUDOLPH, Conrad. Pilgrimage to the End of the World: The Road to Santiago de Compostela. Chicago, Chigago University Press, 2004. 
WEBB, Diana. Pilgrims and Pilgrimage in the Medieval West. London/New York, I. B. Tauris, 1999. 

Outras referências foram baseadas na exposição do Museu das Peregrinações e na exposição do Aeroporto de Santiago de Compostela.