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Leandro Vilar

domingo, 10 de maio de 2020

Leonardo e Michelangelo: a batalha dos pintores

Leonardo da Vinci e Michelangelo Buonaroti foram dois dos maiores artistas da Renascença, sendo contemporâneos e rivais. E o ápice dessa rivalidade ocorreu no ano de 1504, quando os dois receberam contratos do governo de Florença para realizar pinturas em um dos seus palácios. Na época, se existissem jornais, o assunto teria sido tema de capa, pois aquela disputa entre os dois gênios virou assunto comentado por semanas pelos florentinos, ainda mais, pelo fato de que publicamente Leonardo e Michelangelo já tinha trocado ironias e até ofensas no meio da rua. O presente texto conta um pouco dessa inusitada "batalha dos pintores". 

Dois gênios: 

Em 1504, Leonardo da Vinci contava com seus 51 anos, já era um pintor respeitado, apesar de ter a fama de ser teimoso e não cumprir com os prazos. Leonardo era então pintor, engenheiro, inventor, urbanista e anatomista, além de ter atuado como decorador também do palácio do Duque de Milão, seu então mecenas. Leonardo possuía uma vida agradável em Milão, apesar de ser criticado por sua falta de palavra com os prazos de suas obras, além de ter quebrado contratos várias vezes, e ser até inadimplente com seus clientes. Ainda assim, ele era considerado um mestre e já visto como grande artista. 

Por sua vez, Michelangelo Buonarroti tinha seus 29 anos, já era renomado como pintor e escultor, tendo feito Pietá (1499) e Davi (1501-1504). Michelangelo era descrito como sendo antissocial, embora tivesse poucos amigos (a antissocialidade deveria ser por causa do fato de ele não gostar de ir a festas e bailes, mesmo que a negócios ou convite de seus mecenas), era de aspecto descuidado, o que tornou malfalado, inclusive sendo considerado como louco; bastante magro, alimentando-se pouco, além de usar roupas sujas e até velhas, não ligando para aparência, o que favoreceu opiniões negativas sobre ele. Porém, era descrito como caridoso e um mestre atencioso. Michelangelo também como Leonardo era viciado no trabalho, apesar de em geral ser mais responsável com os prazos, embora que alguns de seus projetos poderiam levar anos para ficarem concluídos. 

Leonardo da Vinci e Michelangelo Bunarroti.

A proposta: 

Em 1503, o gonfaloneiro (magistrado) Piero Soderini enviou uma proposta para Leonardo, que vivia no Ducado de Milão, propondo que ele pintasse um mural na Sala do Grande Conselho ou Sala dos Quinhentos, no Palazzo Vecchio. A proposta solicitava que a pintura abordasse algum tema histórico de Florença, e naquela época em geral os temas históricos diziam respeito a história da guerra, sendo assim,  o gonfaloneiro Soderini sugeriu a Batalha de Anghiari (1440), na qual o comandante florentino Giampaolo Orsini derrotou as tropas milanesas de Filippo Maria Visconti. Tal pintura que seria algo enorme, ficaria situada na parede direita a cadeira do gonfaloneiro, cuja parede media 18x7m, embora não se saiba qual teria sido o tamanho da pintura, pois Leonardo não era obrigado a preencher a parede toda. (ABRIL, 2011, p. 118).

Em outubro de 1503, Leonardo visitou Florença e recebeu as chaves da Sala do Grande Conselho e foi com dois assistentes, Rafael d'Antonio di Biagio e Fernando Spagnolo, averiguar o local e começar a planejar os esboços. De dezembro aos primeiros meses de 1504, os três retornaram mais algumas vezes e até chegaram a preparar a parede para receber os primeiros esboços, até então desenhados no papel; mas como Leonardo era um homem cheio de pedidos e ele tinha o costume de demorar mais do que o habitual para concluir suas pinturas, nada foi feito até o final de 1504. (ABRIL, 2011, p. 118).

O gonfaloneiro Piero Soderini provavelmente irritado com o descaso de Leonardo em ter passado meses e nem começado a pintar o afresco, decidiu contratar outro pintor para pintar um segundo afresco, dessa vez, na parede oposta. O escolhido foi Michelangelo, que havia executado novas obras em Florença, Siena e Roma, e no ano de 1504, estava concluindo a escultura de Davi, além de ter concluído um baixo-relevo para a Igreja de Santa Maria del Fiori em Florença, e trabalhava numa pintura da Sagrada Família na ocasião, quando recebeu o convite para pintar a segunda batalha que deveria enfeitar o Salão do Grande Conselho. Na ocasião sugeriu-se a Batalha de Cascina (1364), um conflito travado entre Florença e Pisa. A parede onde o afresco seria pintado, possuía dimensões similares a parede que Leonardo deveria realizar sua pintura. (COLEÇÃO GÊNIOS DA ARTE, 2007a, p. 20). 

Assim, quando Leonardo soube que teria que dividir espaço como seu rival Michelangelo Buonarroti, aquilo não agradou a ambos, pois, anteriormente quando se encontraram pelas ruas de Florença, eles já haviam trocado sarcasmos, pois Leonardo considerava Michelangelo um péssimo pintor, apesar de reconhecer que ele tivesse talento para a escultura, embora ele desdenha-se da aparência de Michelangelo e o fato de ele as vezes estar com as mãos e sapatos sujos por causa de sua oficina. Já Michelangelo considerava Leonardo um pintor, esnobe e invejoso, o qual não era tão mais famoso e agora tinha inveja de que o nome Michelangelo se sobressaia ante o nome Leonardo. 

Todavia, infelizmente não temos relatos da época que narrem como teria sido tais encontros. Provavelmente Leonardo evitava de estar presente na Sala do Grande Conselho, quando soubesse que Michelangelo estaria ali fazendo suas medições e esboços, sendo possível que alguns casos ambos mandassem seus ajudantes fazer as medições e preparar as massas para as paredes receberem a pintura. Mas eventualmente eles teriam se encontrado em algumas ocasiões, apesar que o ano de 1504 passou e nenhum dos dois artistas concluíram suas pinturas, embora Leonardo estivesse mais avançado nesse quesito. 

As duas pinturas: 

Hoje em dia somente conhecemos alguns esboços que são cópias de outros pintores baseados nos esboços originais ou cópias dos originais, pois tais afrescos nunca foram concluídos. Ainda assim, antes de chegar ao motivo de não terem sido concluídos, se faz necessário comentar um pouco dos esboços conhecidos. 

No caso da Batalha de Anghiari que estava sendo pintada por Leonardo, são conhecidos alguns esboços que mostram guerreiros lutando a pé e com espadas, mas também guerreiros lutando a cavalo. Outros dos esboços temos rascunhos dos cavalos e de alguns rostos dos guerreiros, os quais mostram suas feições bastante agressivas, com bocas gritando e caras ferozes. A ideia supõe-se que era mostrar toda a ação e violência do conflito. 

Um dos esboços da Batalha de Anghiari feito por Leonardo da Vinci, talvez entre 1504 e 1505. Hoje guardado na Galeria da Academia de Veneza.

Na época Leonardo estava interessado em cavalos, tendo feito vários desenhos desses e até projetado uma estátua equestre para o Duque de Milão. Em sua pintura da batalha, haveria cenas de cavaleiros em ferrenho conflito, empunhando suas espadas e lanças, disputando um estandarte, algo que inclusive um século depois influenciou o pintor Peter Paul Rubens a fazer uma homenagem a esta cena, criando sua própria versão do roubo do estandarte. (ABRIL, 2011, p. 121).

Informações da época apontam que Leonardo chegou a iniciar a pintura, aplicando uma técnica a óleo, experimental, pois seu gênio criativo o levava a fazer vários experimentos, mesmo que nem todos fossem exitosos. A tinta óleo por ele aplicada não reagiu bem ao material da parede, da massa e a temperatura ambiente, e o esboço começou a deteriorar-se após alguns meses, surgindo algumas rachaduras, aquilo teria irritado bastante Leonardo, o frustrando. (COLEÇÃO GÊNIOS DA ARTE, 2007b, 66). 

Quanto a Michelangelo, até onde se sabe, ele não teria iniciado a pintura na parede. O esboço mais famoso da sua Batalha de Cascina é uma cena um tanto inusitada. Enquanto Leonardo focava em seus cavaleiros para contrastar a robustez de corpos equinos com as faces enrugadas e agressivas de seus soldados, Michelangelo pelo que se conhece de seus esboços quis também destacar as formas físicas, e como ele era expert nisso, algo visto principalmente em suas estátuas e mais tarde em outras pinturas, Michelangelo escolheu uma cena relatada nos livros da época que falam que os soldados florentinos após uma longa marcha num dia quente e por uma estrada empoeirada, decidiram banhar-se num rio e na ocasião foram surpreendidos pelo soldados de Pisa. 

Esboço de Aristotele da Sangallo, discípulo de Michelangelo, baseado no esboço original de seu mestre. 

Na imagem acima vemos uma das cenas imaginadas por Michelangelo, onde os soldados florentinos, enquanto banhavam-se em um rio, tinham que vestir-se as pressas e pegar suas armas para confrontar os soldados de Pisa que os cercaram. Provavelmente a ideia de Michelangelo de retratar tão peculiar momento fosse apenas para ele destacar seu talento em retratar a musculatura de corpos masculinos, algo visto em suas esculturas como comentado. Aqui ele mostrava toda a robustez dos guerreiros florentinos. Todavia, essa pintura nunca chegou a ser pintada na parede, apenas foi copiada de um cartão de esboço que um de seus discípulos teve acesso. (COLEÇÃO GÊNIOS DA ARTE, 2007a, p. 21). 

Uma batalha perdida: 

Entre 1505 e 1506, Leonardo frustrado com os danos causados a sua pintura, e provavelmente já impaciente e sendo cobrado pelos atrasos de outros projetos, decidiu abandonar tudo e voltou para Milão. De acordo com Vasari, o esboço ainda continuou pintado na parede direita da Sala do Grande Conselho por vários anos até ser apagado para dar espaço para novas pinturas, já que o trabalho de Leonardo ficou inconcluído. (COLEÇÃO GÊNIOS DA ARTE, 2007b, p. 66). 

Com Michelangelo a situação foi um pouco pior. Se por um lado, Leonardo já estava a mais de dois anos sem concluir seu trabalho, mesmo tendo já iniciado a pintura, por sua vez, Michelangelo nem ao menos começou seu trabalho. Era o começo de 1505 quando ele desistiu de continuar com aquele projeto e seguiu para Roma, pois havia recebido o convite do papa Júlio II para realizar dois projetos para esse: o primeiro seria esculpir em mármore o túmulo papal, e o segundo foi pintar o teto da Capela Sistina, ambos os projetos lhe tomaram vários anos de trabalho, e foram concluídos entre 1513 e 1514, aumentando ainda mais o renome de Michelangelo. 

Dessa forma, ambos gênios da pintura desistiram de pintar os dois temas das batalhas florentinas, abandonando as propostas, e tendo deixado o governo de Florença a ver navios. Se por um lado isso foi ruim para a imagem de Leonardo e Michelangelo, por outro, os projetos que eles conseguiram em 1505 e 1506 ajudaram a apagar aquele momento problemático em Florença, sem contar que infelizmente nunca poderemos ter noção de como teria ficado ambas as pinturas se os dois tivessem as concluído. Além disso, a história do porque do longo atraso de iniciar as pinturas, também está cheia de lacunas, embora saibamos que os dois artistas eram homens atarefados, que executavam vários trabalhos de vez, ainda assim, é estranho o fator de terem levados meses para iniciar os desenhos, lembrando que Michelangelo nem teria chegado a começar a pintar de fato. (COLEÇÃO GÊNIOS DA ARTE, 2007a, p. 22). 

E assim, a batalha dos pintores em Florença de 1504-1505 foi um capítulo inusitado da história da arte renascentista, onde dois gênios com seus egos inflamados tiveram a oportunidade de provocar e tentar mostrar ao rival quem seria o melhor, mas eles acabaram desistindo. 

O Grande Salão do Conselho ou Salão dos Quinhentos, no Palazzo Vecchio, em Florença. Nestas paredes deveriam estar pinturas das batalhas que deveriam ter sido pintadas por Leonardo e Michelangelo, mas tais projetos nunca se concretizaram, então nos anos seguintes outros artistas preencheram as paredes e o teto com suas artes. 

Referências bibliográficas: 

ABRIL. Leonardo da Vinci. Tradução de José Ruy Gandra. São Paulo, Abril, 2011. 
COLEÇÃO Gênios da Arte. Leonardo. Tradução de Mathias Abreu Lima Filho. Barueri, Girassol, 2007b. 
COLEÇÃO Gênios da Arte. Michelangelo. Tradução de Mathias Abreu Lima Filho. Barueri, Girassol, 2007a. 

Links relacionados: 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A grande invasão viking à Inglaterra (866-878)

A segunda metade do século IX foi marcada na história da Inglaterra medieval como um período problemático, pois as incursões vikings à ilha acentuaram-se ao ponto de exércitos invadirem a região no intuito não apenas de saquear, mas de ocupação, de conquista de território. E essa ideia de conquista realmente veio a se concretizar, originando o território do Danelaw, o qual ocupou quase metade do atual território inglês, que passou a estar sob domínio de chefes e reis dinamarqueses e noruegueses por quase um século. No presente artigo, o objetivo foi abordar essa grande invasão que levou a origem do Danelaw. 

Antecedentes 

Até o fatídico ano da grande invasão ocorrer, os vikings já frequentavam a Inglaterra, Escócia e Irlanda desde o século VIII pelo menos, indo como comerciantes, visitantes, ou mapeando a costa para possíveis incursões de pirataria. O ano de 793 entrou para a História devido ao ataque viking realizado ao mosteiro de Lindisfarne, situado na costa do antigo Reino da Nortúmbria. O breve relato contido nas Crônica Anglo-saxã não fornece detalhes sobre o ocorrido, informando que:

“793: neste ano apareceram presságios terríveis na Nortúmbria, que assustaram muito as pessoas. Consistiam em imensos torvelinhos e relâmpagos, e viam-se dragões chamejantes voando pelo ar. Aqueles sinais foram imediatamente seguidos por uma época de grande fome, e pouco depois, em 8 de junho do mesmo ano, os homens pagãos destruíram a igreja de Deus em Lindisfarne, saqueando e matando”. (OLIVEIRA, 2018a, p. 

Tal ocorrido é até hoje considerado por alguns historiadores como o marco de início da Era Viking (793-1066). No entanto, nos anos seguintes novos ataques ou avistamentos de embarcações nórdicas continuaram a ser relatados nas Crônica Anglo-saxã, onde informa-se que entre 794 e 799, avistou-se possivelmente (as vezes os relatos não confirmam a origem do povo) o que seriam navios vikings rondando as águas da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Todavia, do ano 800 a 850, ou seja, um período longo de cinquenta anos, novas incursões continuaram a ocorrer àquelas ilhas, as quais aconteciam durante os meses de verão e primavera, pois os invasores não tinham o costume de atacar no outono e inverno devido aos empecilhos climáticos. No entanto, ressalva-se que em alguns momentos podia-se passar anos sem nenhum novo ataque, pois não significou que em todo ano houvesse ataques. 

Por volta do ano 850, registra-se o primeiro acampamento de inverno conhecido. Ele foi montado na ilha de Yahnet, no rio Tâmisa. A ideia com aquele acampamento era ao invés dos vikings retornarem para seus lares e aguardar o inverno passar e depois ter que preparar nova tripulação, navio e unir suprimentos, algo que levaria meses, optou-se em permanecer aquartelado em território inimigo, aguardando o inverno passar. A questão era assegurar que houvesse lenha e comida para manter a permanência ali. Se desconhece de quem teria sido a ideia para esse acampamento, mas sabe-se que outros acampamentos de inverno foram realizados nos anos seguintes. (OLIVEIRA, 2018b, p. ).

No entanto, a partir desses acampamentos de inverno, a presença escandinava sobretudo na Inglaterra, tornou-se mais recorrente nos quinze anos seguintes, ao ponto que alguns chefes vikings começaram a cobrar o danegeld (tributo danês ou "ouro danês"), um tributo de extorsão que teria sido iniciado na França, e aplicado na Inglaterra, onde basicamente um grupo de invasores ameaçava a população de uma vila, aldeia ou até cidade, para que não fossem atacados, saqueados e mortos, deveriam pagar uma taxa geralmente em ouro e prata, mas as vezes em outras mercadorias, para que os invasores os deixassem em paz. Essa taxa em alguns casos era cobrada até anualmente, pois via-se que era mais proveitoso ficar extorquindo os moradores do que guerrear contra eles. (HOLMAN, 2003, p. 73-74). 

Entretanto o pagamento do danegeld nem sempre assegurava que não haveria novos ataques. A Crônica Anglo-saxã relata que no ano de 865, a população da cidade de Kent, na Ânglia Oriental, havia pago o tributo naquele ano, mesmo assim o local foi atacado. Não se sabe os invasores eram os mesmos que cobravam o danegeld ou teria sido outro grupo. Somente sabe-se que o ataque ocorreu à noite, onde a cidade foi saqueada e parte da população foi assassinada. Porém, no ano seguinte, o povo da Ânglia Oriental aguardava que os vikings retornassem como de costume, de fato, eles voltaram, mas não com o intuito de cobrar o danegeld, mas de conquistar aquelas terras. 

A chegada do Grande Exército Pagão (866)

A Crônica Anglo-saxã usa o termo mycel heathen here que costuma ser traduzido como "grande exército pagão", embora haja dúvidas qual seria o tamanho desse exército, pois a fonte não aponta valores, ainda assim, sabe-se que teria sido uma força de ataque considerável para iniciar uma série de conflitos que duraram meses, inclusive resultando na conquista do Reino da Nortúmbria. Marcando assim a ocorrência de uma guerra que se estendeu por doze anos. (OLIVEIRA, 2018, p. 

Entretanto, as fontes do período não apresentam explicações sobre como teria começado essa invasão. Quem teriam sido seus líderes, os responsáveis por planejar ousado ataque, de onde partiram os navios, quais reinos participaram. Porém, existem duas versões para compreender como essa invasão teve início: a versão histórica com poucas informações, e a versão literária a qual fornece mais informações, no entanto, seu caráter lendário põe em dúvida sua veracidade. 

a) Versão histórica

Na versão histórica não há registros de nomes de quem foram os líderes que arquitetaram o plano de enviar um exército para conquistar territórios na Inglaterra. Pois naquele período do século IX, a Escandinávia era um conjunto de pequenos territórios governados por reis e chefes. Ainda não havia os reinos da Dinamarca, Noruega e Suécia. Não obstante, relatos dos monarcas desse período são escassos e o que se conhece é de caráter duvidoso, pois são nomes mencionados em listagens reais escritas séculos depois, não se sabendo se realmente foram governantes reais ou lendários. 

Normalmente considera-se que a maior parte dos vikings que participaram desse conflito, fossem de origem dinamarquesa, mas tendo contato com guerreiros da noruegueses e talvez suecos. O problema é que nas fontes anglo-saxãs e inglesas, os vikings eram genericamente chamados de daneses, e não necessariamente significasse que viriam da Dinamarca. Além disso, não tem como se saber se todos os guerreiros vieram ao na mesma frota saída da Escandinávia, ou vieram de outras localidades como França e Irlanda, onde ocorriam simultaneamente invasões. Alguns historiadores trabalham com a segunda hipótese de que navios e tropas localizadas em diferentes lugares foram coordenados para se unirem e invadirem a Ânglia Oriental no ano de 866. 

Um outro aspecto desconhecido é o motivo ou motivos para essa invasão. Pois como assinalado anteriormente, desde 793 ocorriam ataques à Inglaterra, Escócia e Irlanda, durante a primeira metade do século IX, várias incursões se sucederam, e a partir de 850 teve início os acampamentos de inverno, mas em 866 temos um ousado plano de realizar ataques para se saquear ou extorquir os moradores cobrando o danegeld, mas de conquistar terras, fixar domínios. O porque dessa mudança ter surgido, não se sabe. As especulações são muitas, mas nada certo. 

b) versão literária 

A versão literária costuma agradar mais o público, pois nos fornece líderes e motivos para explicar porque o grande exército pagão decidiu invadir os reinos anglo-saxões naquele ano de 866. Nessa versão temos o lendário rei Ragnar Lothbrok como estopim para essa invasão iniciar. Segundo as sagas, poemas e crônicas que narram os feitos de Ragnar, como Saga de Ragnar Lothbrok (XIII), o poema Krákumál (XII), a Saga dos Filhos de Ragnar (XIII), e as crônicas Gesta Danorum (XII), Libellus de exordio (XII), Historia Regum Britanniae (XII) e a Floris Historarium (XIII), dizem que Ragnar foi executado pelo rei Aella II da Nortúmbria em um poço de cobras, e assim, seus filhos decidiram realizar uma vingança. E a invasão teria sido ordenada por Ivar, o Sem-Ossos Halfdan. (HADLEY, 2000, p. 8). 

Tais fontes não sugerem datas para tal acontecimento, mas como a invasão se deu em 866, Ragnar se tivesse existido, teria que ter morrido no ano anterior, pelo menos. De qualquer forma, segundo os relatos acima citados, os filhos de Ragnar (dependendo da fonte, o nome deles mudam), Ivar, Ubbe, Sigurd, Halfdan e as vezes Bjorn, Flanco de Ferro, derrotaram Aella II e o executaram com o uso da "águia de sangue". Historicamente Aella teria morrido no começo de 867. Com a vingança tendo sido executada, os filhos de Ragnar deram continuação a invasão, partindo para conquistar territórios. 


Cena da série Vikings mostrando os Ragnarson em uma das batalhas do grande exército pagão. A série popularizou essa versão para a origem da invasão. 

Observa-se que a versão literária nos fornece várias respostas que historicamente não possuímos: a) motivo: morte do Ragnar Lothbrok e vingança dos seus filhos; b) planejadores e líderes: os Ragnarson; c) origem das tropas: Dinamarca ou Noruega. Porém, ressalvo que essa versão não deve ser considerada como real, pois tais personagens são lendários ou semilendários, pois embora hajam menções a chefes vikings chamados Ivar e Ubbe não se pode afirmar que fossem os tais filhos de Ragnar Lothbrok, até porque cronologicamente a data de seu reinado não confere com os acontecimentos históricos, e Ubbe somente destaca-se anos depois nos conflitos na Inglaterra, e Ivar é reportado realizando campanhas na Irlanda. Além disso, tais homens podem ter sido posteriormente associados com Ragnar Lothbrok, pois as sagas e crônicas que falam sobre suas façanhas datam dos séculos XII e XIII, mais de 400 anos depois de tais acontecimentos. 

A primeira fase da invasão (866-869)

Historicamente não temos relatos de como tais campanhas ocorreram, apenas sabemos os anos onde algumas batalhas teriam ocorrido, ainda assim, não se sabe em que data, quem foram os envolvidos ou como ocorreu o conflito, assim, nas linhas a seguir veremos por alto esses marcos cronológicos, pois sublinha-se que Crônica Anglo-saxã embora seja nomeada dessa forma, ela foi escrita em formato de anais, formato que preza por informações breves e sem detalhes, limitando-se a citar o ano, e alguma informação sobre local e alguém envolvido de destaque. 


No ano de 867 as tropas do grande exército pagão invadiram o Reino da Nortúmbria, como isso ocorreu não se sabe, todavia, o então rei, Aella II foi morto, e no local elegeu-se um rei fantoche chamado Ecgberth I, o qual passou a estar a serviço dos vikings. A cidade de Eoforwic foi capturada e posteriormente renomeada para Jorvik, tornando-se a capital do Reino de Jorvik, um dos territórios nórdicos surgidos com o Danelaw. (HALL, 2008, p. 379). 


Até o século IX, o Reino da Nórtumbria ocupava os atuais territórios do norte da Inglaterra e sul da Escócia. Suas fronteiras mudaram com o tempo. Em 867 o reino foi conquistado por invasores vikings que permaneceram ali até 954. 

A cidade de Jorvik que era chamada pelos ingleses de York, era uma importante cidade mercante no norte da Inglaterra, conhecida pela produção de calçados, ferramentas, objetos de metal, acessórios etc. além de exportar produtos agrícolas. Katherine Holman (2003) observa que Jorvik tornou-se um importante polo manufatureiro, ao ponto de que o nome de algumas ruas refletia os produtos ali fabricados. Assim encontramos ruas cujos nomes se referiam a produção de vidro, metal, joalheria com âmbar, prata e ouro, carpintaria, tecelagem, etc. Uma das ruas mais conhecidas era a chamada rua Coppergate, escavada entre 1976-1981.

Não se sabe como ocorreu a capitulação do reino da Nórtumbria, mas pelo que parece, quando isso estabilizou-se o inverno havia chegado, e as campanhas militares foram suspensas como de costume. No ano seguinte as tropas do grande exército pagão estavam espalhadas pelos territórios da Nórtumbria, Ânglia Oriental e agora adentravam o Reino da Mércia, que na época era o reino mais extenso, o que gerou dificuldades para mobilizar as tropas, fato esse que os chefes desse exército tentaram promover acordos com o rei Burgredo da Mércia (r. 852-874), o qual buscou apoio dos reinos da Ângila Oriental e Wessex para formar uma aliança contra os invasores nórdicos. De fato, a aliança veio a se formar, não como o esperado, e a Mércia ainda demorou alguns anos para ser subjugada. 

Mas enquanto a Mércia resistia as pressões do exército viking, a Ânglia Oriental foi conquistada no ano de 869, onde o rei Edmundo foi morto em combate. Os relatos apontam que dois chefes teriam sido responsáveis pela vitória, Hingwar e Ubbe, o qual mais tarde a tradição literária creditou Ubbe como sendo um dos filhos de Ragnar Lothbrok. E essa primeira fase de campanhas, encerrou-se no ano de 870 com dois reinos anglo-saxões conquistados. 

A segunda fase da invasão (870-874)

O segundo momento da guerra nórdica pela conquista dos reinos anglo-saxões foi marcado pelas batalhas para se conquistar o Reino da Mércia, consolidar os domínios na Ânglia Oriental e Nortúmbria e tentar se conquistar o reino de Wessex. Assim, as fontes que pouco comentam sobre esse período, assinalam várias batalhas, sem detalhes, as vezes apenas informando que a vitória foi anglo-saxã ou danesa. 

No ano de 871 destacam-se duas batalhas importantes, a primeira foi a Batalha de Reading, ocorrida em território de Wessex, o segundo maior reino anglo-saxão. Ainda era inverno quando o conflito ocorreu, apesar de normalmente não se travar batalhas durante essa estação do ano, o então rei de Wessex, Etereldo (r. 865-871) decidiu atacar de surpresa o acampamento viking situado em Reading. Na ocasião o rei marchou com seu exército e acompanhando ele estava seu irmão, o príncipe Alfredo. A Crônica Anglo-saxã relata sobre o ocorrido informando que o exército viking era liderado por dois reis, Begseac e Halfdan (não se sabe se eram realmente reis, pois os cronistas anglo-saxões tinham o hábito de nomear muitos chefes militares como sendo reis), o qual cada um comandava uma parte do exército. A batalha foi acirrada e houve muitas mortes, no entanto, as forças de Wessex foram derrotadas e Etereldo ordenou que recuassem, mas Begsec e Halfdan decidiram persegui-los e quatro dias depois em Ashdown ocorreu a Batalha de Ashdown, que resultou na vitória de Wessex. 


Ilustração retratando a Batalha de Ashdown (871), que resultou na vitória anglo-saxã de Wessex contra o exército viking invasor. 

Nesse momento a crônica informa que um impasse foi gerado e ambos os lados suspenderam os ataques. Etereldo e Alfredo retornaram para casa, mas o exército viking ficou mais alguns meses em Reading e depois marchou para Londres. Durante a época da Páscoa de 871, Etereldo adoeceu e faleceu, sendo sucedido por seu irmão Alfredo. 

No ano de 872, a cidade de Londres foi atacada a primeira vez pelos vikings, sendo saqueada. Enquanto as tropas de Begsec e Halfdan saqueavam Londres, em outras localidades, outros chefes lideravam novas investidas. Novamente os relatos da época são sucintos e a Crônica Anglo-saxã informa que acampamentos foram erguidos próximos a Torksey e Lindsay, ambos no território da Mércia, cujas cidades seriam próximos alvos de ataques. Assim, no ano de 873, ambas as cidades foram atacadas por tropas vindas da Nortúmbria. Naquele período o rei Burgredo da Mércia tentou propor um acordo de paz, mas não se sabe se o acordo foi concretizado, pois no ano seguinte, a crônica informa que a Mércia sofreu novos ataques e o rei Burgredo foi assassinado e em seu lugar assumiu Ceowulf, o qual fez acordo com os vikings. 

Para o ano de 875 novos ataques à Wessex ocorreram, o qual havia se tornado o último reino anglo-saxão a não ter sido conquistado, apesar que nesse período, o País de Gales, a Escócia e a Irlanda também continuavam a resistir. Halfdan deixou a região de Londres e voltou para a Nortúmbria indo enfrentar os pictos na Escócia. Porém, outros três chefes chamados Gudrum, Oschetel e Anund a partir de Cambridge deram início as suas tentativas de conquistar Wessex

A terceira fase da invasão (875-878)

O rei Alfredo de Wessex (849-899), o qual estava a frente do reino apenas cerca de um ano, ordenou que tropas fossem treinadas e mobilizadas, assim como, ordenou a construção de fortificações para proteger os domínios de Wessex. Ao longo de seu reinado vários buhrs foram construídos, os quais consistiam em vilas e cidades fortificadas com muralhas, torres, paliçadas e em alguns casos, fossos. Embora tais fortificações não mantiveram os vikings longe, no entanto, fora úteis em evitar que tais vilas e cidades em Wessex fossem conquistadas. 


Desenho retratando um burh anglo-saxão. 

A Crônica Anglo-saxã não dá muita atenção a Wessex no que se refere aos anos de 865 e 866, ocupando-se mais em falar de Halfdan em sua campanha no que hoje seria na Escócia. Porém, em 877, a crônica retoma a Wessex, informando que os chefes Gudrum, Oscetel e Anund realizaram ataques naquele reino, sendo que Gudrum ocupou a cidade de Exeter, o que levou o rei Alfredo, o Grande a propor uma trégua para Gudrum. A trégua permitia que o chefe viking continuasse com o domínio de Exeter, mas ordenasse que suas tropas parecessem de atacar outras partes do reino, além disso, Gudrum também deveria convencer seus aliados a suspender os ataques. Todavia, essa trégua durou alguns meses, pois no ano seguinte ele invadiu a cidade de Chippeham, levando Alfredo a lhe declarar guerra novamente.

Mapa mostrando as possíveis rotas e principais batalhas dos exércitos vikings durante a fase de conquista dos reinos anglo-saxões entre 866 a 878. 

Porém, Gudrum não estava interessado em guerra, mas em forçar um novo tratado entre ele e o rei Alfredo. Gudrum propôs a Alfredo que sairia de Wessex, levando consigo seu exército, caso o rei o ajudasse a obter os domínios do antigo Reino da Ânglia Oriental. Historicamente não se sabe ao certo como isso foi feito, mas ainda em 878, Gudrum foi reconhecido por Alfredo como rei legítimo da Ânglia Oriental, e com isso, o novo governante nórdico encerrou seus ataques a Wessex pelos anos seguintes, apesar que outros chefes vikings continuaram invadindo o reino anglo-saxão. 

O ano de 878 foi marcado pelo fim das contínuas guerras iniciadas doze anos antes pelo grande exército pagão. Isso não significou que cessaram-se todos os conflitos, pois chefes vikings ainda continuaram a atacar os territórios de Wessex, Gales, Mércia, Escócia e Irlanda, obtendo vitórias ou derrotas. Fato esse como dito antes, durante o seu longo reinado, Alfredo, o Grande teve que lidar com a constante ameaça dos vikings ao seu reino, por isso, a construção de burhs se manteve até mesmo após a sua morte. 

Não obstante, com a consolidação dos domínios nórdicos na Nortúmbria, Mércia oriental e a Ânglia Oriental, isso originou o território que ficou mais tarde conhecido como Danelaw, conjunto de territórios governados por reis e chefes, o qual perdurou até 954. 

NOTA: O pagamento do danegeld durou por mais de um século, pois no século XI, ainda tinha-se relatos do pagamento desse tributo. 
NOTA 2: A série Vikings baseia-se na vida de Ragnar Lothbrok e retrata a invasão à Inglaterra como contado nas sagas sobre ele, usando sua morte e motivo de vingança como fator para aquela invasão ter ocorrido. 
NOTA 3: A série O último reino que é baseada nos livros das Crônicas Saxônicas de Bernard Cornwell retrata a formação do Danelaw e os conflitos contra o rei Alfredo, o Grande. Todavia, nos primeiros livros há menções sutis a Ragnar Lothbrok, valendo-se do motivo que aquelas batalhas começaram por ato de vingança promovido pelos filhos dele. 
NOTA 4: Gudrum, Alfredo, Ubbe e outros personagens históricos, aparecem nas Crônicas Saxônicas e no seriado O último reino
NOTA 5: A Ubisoft informou que seu novo jogo, Assassin's Creed: Valhala abordará o período histórico das invasões vikings à Inglaterra. 

Referências bibliográficas: 
THE ANGLO-saxon Chronicle. Translation Rev. James Ingram. London: Everyman Press Edition, 1912. 
HADLEYDawn M. The Creation of Danelaw. In: BRINK, Stefan (ed.). The Viking World. London/New York: Routledge, 2008, p. 375-378.
HALL, Richard. York. In: BRINK, Stefan (ed.). The Viking World. London/New York: Routledge, 2008. p. 379-384.  HOLMAN, Katherine. Historical Dictionary of the Vikings. Lanham, The Scarecrow Press Inc, 2003. 
OLIVEIRA, Leandro Vilar. Grande armada danesa (866-878). In: LANGER, Johnni (org.). Dicionário de história e cultura da Era Viking. São Paulo, Hedra, 2018b, p. 323-325. 
OLIVEIRA, Leandro Vilar. Lindisfarne. In: LANGER, Johnni (org.). Dicionário de história e cultura da Era Viking. São Paulo, Hedra, 2018a, p. 476-477. 

Referência da internet:
VILAR, Leandro. Ragnar Lothbrok: entre a lenda e a história. Disponível em: http://seguindopassoshistoria.blogspot.com/2017/11/ragnar-lothbrok-entre-lenda-e-historia.html

terça-feira, 14 de abril de 2020

Rudolf Diesel e o motor a diesel

No final do século XIX, o engenheiro mecânico alemão, Rudolf Diesel inventou seu próprio modelo de motor a combustão interna, o qual se tornou um primor tecnológico por sua versatilidade em ser potente, ter múltiplos usos, ser relativamente econômico e ser um dos primeiros motores a funcionar de forma eficiente utilizando-se biocombustível. O presente texto procurou contar um pouco da história desse importante engenho que até hoje é utilizado, embora os motores a combustão à base de gasolina e etanol predominem, os motores a base de óleo diesel não perderam seu espaço e mérito. 

Rudolf Diesel: 

Rudolf Diesel
Rudolf Diesel nasceu em Paris em 1858, sendo naturalizado alemão posteriormente. Ele era o segundo filho de Theodor Diesel e Elise Diesel. Seus pais migraram para a França atrás de oportunidades, indo morar em Paris em 1854. O casal teve três filhos. Theodor trabalhava com encadernação de livros, emprego que pagava pouco. Assim a família Diesel vivia com problemas de falta de dinheiro. Rudolf estudou numa escola protestante em Paris, e em 1870 com o advento da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), os Diesel abandonaram Paris e mudaram-se para Londres, seguindo com outros imigrantes alemães que viviam na capital francesa. Após alguns meses na Inglaterra, Rudolf foi enviado a Augsburgo na Alemanha, para viver com seus tios Christopher e Barbara. Seu tio era professor de matemática no Königliche Kreis-Gewerbeschule (Faculdade Profissional de Royal County). (MOLLENHAUER; SCHREINER, 2010, p. 3). 

Em Augsburgo, Diesel descobriu a paixão pela engenharia, estando determinado a fazer o Curso de Engenharia. Em 1880 ele graduou-se em engenharia mecânica, conseguindo a oportunidade de emprego em ser ajudante de um de seus professores, o doutor Carl von Linde, que havia ido trabalhar em Paris, com isso, Diesel voltou para sua cidade natal, ajudando seu professor nos projetos dele. Diesel e Linde formaram uma parceria de cooperação de vários anos, produzindo peças, máquinas e aparelhos. Nesse tempo ele casou-se e teve três filhos. Finalmente em 1893, ele mudou-se com a família para Berlim, onde dedicou-se a criar seu próprio motor a combustão, projeto que ele já vinha trabalhando já algum tempo. (MOLLENHAUER; SCHREINER, 2010, p. 3). 

Diesel no começou do século XX, mudou-se para os Estados Unidos, a fim de tentar dar prosseguimento a seus inventos e a comercialização de seu motor. Porém, os Estados Unidos era dominado por motores a vapor e a combustão interna abastecidos por petróleo e gasolina. Diesel teve dificuldades em convencer empresários, fabricantes e engenheiros de usarem seu motor, o que rendeu prejuízos financeiros e sua saúde foi abatida. Anos depois de infrutífero sucesso comercial, Diesel viajou para a França e de lá sem sorte também, seguiu para a Inglaterra. Ele morreu misteriosamente enquanto atravessava de navio o Canal da Mancha em 1913. Seu corpo foi encontrado dias depois boiando. Não se sabe se ele foi morto, cometeu suicídio ou caiu da embarcação e não o viram. (MOLLENHAUER; SCHREINER, 2010, p. 6). 

O motor Diesel: 

Motores a combustão surgiram no século XVIII e existiam em vários modelos, sendo movidos por diferentes formas de combustível como petróleo, vapor, gás, gasolina e alguns tipos de óleos. Alguns já possuíam até ignição elétrica. Quando Diesel decidiu trabalhar com motores, estava decidido a criar um modelo compacto, potente e mais eficiente dos quais eram normalmente comercializados. Pois alguns motores eram usados em trens, embarcações e veículos pesados, sendo motores grandes, pesados e não necessariamente eficientes e potentes. 

Antes de falar do motor invetado por Rudolf Diesel, se faz necessário comentar brevemente como funciona um motor a combustão interna. Hoje em dia existem diferentes tipos de motor que funcionam dessa forma, mas na época de Diesel, o principal modelo era o desenvolvido pelo engenheiro alemão Nikolaus Otto (1854-1891), que aperfeiçoou patentes da época e lançou em 1866 um motor a combustão de quatro tempos, o que significava que ele funcionava com quatro cilindros e pistões. 


Representação de um motor a combustão interna de quatro tempos.
O motor de Otto ainda hoje é utilizado em veículos devido a sua fácil produção e facilidade de funcionamento. Basicamente ele gera energia mecânica através de um ciclo termodinâmico, onde mistura-se combustível com ar, comprimindo ambos dentro de um cilindro e depois eles entram em combustão quando são iniciados por uma ignição controlada. O resultado dessa pequena combustão interna que ocorre no cilindro, movimenta o pistão e as peças a ele conectadas, gerando potência para movimentar outras peças as quais juntas permitem que veículos ou máquinas funcionem. Os gases residuais dessa combustão são expelidos pelo escapamento. 

Explicado a grosso modo como um motor a combustão interna funciona, é preciso salientar que havia também motores a vapor, e até mesmo motores elétricos que usavam baterias, todavia, Diesel optou por trabalhar com a combustão interna. Na época ele estava procurando uma forma de aperfeiçoar os motores a vapor, utilizados nas locomotivas, navios e alguns automóveis e caminhões, e até para fazer funcionar maquinário. Assim, partindo do princípio básico de como um motor a combustão interna opera, onde injeta-se ar e combustível dentro de um cilindro para esses serem inflamados, gerando uma descarga de energia que movimenta as peças, Diesel manteve essa premissa basicamente sem alteração, as mudanças que ele propôs foi alterar algumas das etapas de como isso era feito. 

Ele começou a trabalhar em seu motor pelo menos em 1891 ou 1892, quando deu entrada numa patente de motor no Escritório Imperial de Patentes na Alemanha. Somente no ano seguinte sua patente foi validada sob a numeração DRP 67207, intitulada Método de trabalho e design de motores a combustão (Arbeitsverfahren und Ausführungsart für Verbrennungsmaschinen)

Patente do motor a combustão de Rudolf Diesel, 23 de fevereiro de 1893. 
Sobre seu motor, Diesel escreveu o seguinte: 

"O método de trabalho para motores de combustão caracterizados por ar puro ou outro gás (ou vapor) indiferente com um funcionamento de um pistão  para comprimir o ar puro com tanta intensidade em um cilindro que a temperatura gerada como resultado está muito acima da temperatura de ignição do combustível utilizado, pelo que, devido ao pistão de expulsão e à expansão do ar comprimido (ou gás) acionado como resultado, o combustível é fornecido gradualmente do ponto morto em diante que a combustão ocorre sem aumentar significativamente a pressão e a temperatura, após o término do fornecimento de combustível, a massa de gás no cilindro de trabalho se expande ainda mais". (MOLLENHAUER; SCHREINER, 2010, p. 3, tradução minha). 

Como dito anteriormente, o motor Diesel segue o princípio do motor Otto, a diferença está nas etapas de funcionamento. No motor Diesel, o combustível não é injetado ao mesmo tempo que o ar, onde primeiro o cilindro é preenchido com ar pressurizado e este é comprimido, e logo após ser comprimido, a bomba injetora, libera uma pequena quantidade de combustível que sofre reação com o ar comprimido e aquecido, e ambos são incendiados pela vela de ignição, gerando assim uma combustão ainda mais potente. Depois os gases residuais são expelidos pelo sistema de escapamento. Lendo pode parecer bem simples a ideia, mas na época foi uma inovação, pois o motor Diesel consumia menos combustível, além de gerar maior potência, o que gerava mais energia para o trabalho ser executado.


Esquema representando o funcionamento de um motor Diesel. 
Estando de posse de sua patente, Diesel conseguiu um contrato da empresa Krupp, para construir um motor protótipo, o qual foi concluído em julho de 1893, porém, durante os testes usando-se petróleo como combustível, o motor acabou explodindo. Assim, Diesel voltou para a prancheta de desenho e cálculo e teve que reelaborar a estrutura de seu motor. Somente em 1894 é que o segundo protótipo ficou pronto. Nesse período ele solicitou novas patentes de peças para seu motor. No ano de 1895 o segundo protótipo foi testado de forma eficiente várias vezes. (MOLLENHAUER; SCHREINER, 2010, p. 4). 


Réplica do segundo protótipo de motor Diesel, o primeiro a funcionar de forma eficaz. 
Em 1896, Diesel apresentou um terceiro protótipo já com algumas diferenças em relação aos anteriores, além de demonstrar melhor desempenho de funcionamento. Finalmente em 1897 é que seu motor foi reconhecido como sendo capaz de ser utilizado em máquinas, isso após quatro anos de testes. Um empresário canadense solicitou comprar alguns desses motores para mover seu maquinário fabril. No ano seguinte, Diesel mudou-se para os Estados Unidos, fechando acordo com algumas empresas para produzir seus motores. Os quais eram produzidos para operar maquinários essencialmente. Apesar desses acordos comerciais, nem sempre significou que os negócios deram certo. Pois Diesel perdeu dinheiro com investimentos ruins. (MOLLENHAUER; SCHREINER, 2010, p. 4). 

Além de operar maquinários, nos anos seguintes o motor Diesel ganhou novas utilidades. Os primeiros barcos comercializados com este motor, começaram a ser vendidos em 1903, as locomotivas a diesel surgiram apenas a partir de 1912, no ano seguinte surgiu tratores, mas somente em 1923, caminhões a diesel começaram a ser comercializados. Todavia, os carros a diesel somente surgiram na década de 1930, tendo como grande incentivador, o inventor e empreendedor Clessie Cummins (1888-1968) que adaptou um motor Diesel para seu carro e viajou de Los Angeles a Nova York em 1931, mostrando a eficiência do motor. Nos anos seguintes ele convenceu montadoras de automóveis a investir nestes motores. (MOLLENHAUER; SCHREINER, 2010, p. 8). 


Clessie Cummins usando um dos automóveis com motor a diesel. Na década de 1930 ele ajudou a incentivar a produção de automóveis com motor a diesel. 
O óleo a diesel e o biodiesel: 

O primeiro motor protótipo fabricado por Diesel, utilizou petróleo como combustível, no que resultou na explosão do mesmo. Então Diesel nos anos seguintes decidiu testar diferentes misturas para servirem de combustível para seu motor. 

Entre os anos de 1894 e 1897, Diesel testou misturas alternativas de petróleo até chegar em uma que viria dar a origem ao óleo diesel. Ele chegou a usar gasolina, mas essa não demonstrou-se adequada a combustão que ele queria. Porém, o óleo diesel, se revelou mais adequado. No caso, esse combustível é produzido a partir do refino do petróleo, apresentando altos índices de hidrocarbonetos, além de possuir grande quantidade de carbono e hidrogênio, e baixas quantidades de enxofre, nitrogênio e oxigênio. Em comparação com a gasolina, o óleo diesel tem maior poder de combustão. O óleo diesel oficialmente foi apresentado na World's Fair de Paris em 1911. (DEMIRBAS, 2007, p. 74). 


Três diferentes tipos de óleo diesel usados atualmente. No caso, o tipo de óleo diesel varia de acordo com sua utilidade. Locomotivas, aviões, navios e grandes maquinários usam um óleo mais potente do que usado em carros e motocicletas. Até mesmo caminhões, tratores e ônibus já usam um diesel diferente também. 
Todavia, até Diesel chegar a uma mistura adequada, vários tipos de óleo diesel foram feitos, porém, nesse ponto reside seu engenho e visionarismo em buscar combustíveis alternativos e até mesmo autossustentáveis. Embora seja evidente que Diesel provavelmente não teria a percepção de que o petróleo poderia um dia se tornar escasso, no entanto, ele sabia que esse produto era raro em alguns países, então isso o levou a procurar tipos alternativos de combustível. 

O primeiro teste relativamente bem sucedido dele, foi apresentado em 1900 na Exposição Mundial de Paris, onde a Companhia Otto exibiu um motor Diesel movido com uma mistura de óleo diesel e óleo de amendoim, sendo esse o primeiro registro oficial de biodiesel que apresentou teste prático. Na época os visitantes da feira não perceberam que aquele motor de exposição era movido a óleo vegetal, tendo ficado surpresos com isso. Entretanto, o uso de biodiesel não foi algo viável naquele momento, até porque o óleo de amendoim foi apenas usado em um motor pequeno de testes. Posteriormente Diesel fez testes usando óleo de soja, gordura animal e outros tipos de óleo vegetal, notando que eles sendo refinados e tratados, serviam para movimentar motores testes. Mas ainda não eram eficientes para serem usados em motores de veículos ou de maquinários, por não possuírem poder de combustão adequado para fazer os motores funcionarem de forma eficiente. (DEMIRBAS, 2007, p. 74). 

Entretanto, o uso de biodiesel naquele tempo não despertou o interesse da indústria, pois eram combustíveis pouco eficientes e deixavam resíduos no motor, que necessitavam limpeza regular, assim optou-se pela gasolina e o óleo diesel. Posteriormente a ideia de explorar o biodiesel foi abandonada, somente retornada após a década de 1970, época que ocorreu as crises do petróleo, e assim decidiu-se investir em combustíveis alternativos como o etanol, energia solar, energia eólica e o biodiesel. Atualmente o biodiesel é mais sofisticado e eficiente do que há um século. 

NOTA: As primeiras motocicletas comercializadas com motores a diesel, surgiram na década de 1980. 
NOTA 2: Aviões a diesel foram usados durante a Segunda Guerra Mundial. 
NOTA 3: O ator Vin Diesel não pertence a família Diesel, esse nome é artístico.
NOTA 4: Atualmente nos Estados Unidos, Brasil e outros países, o biodiesel é produzido principalmente a partir da soja.
NOTA 5: A Mercedes-Benz foi a primeira empresa de automóveis a adotar uso de biodiesel em alguns veículos da sua linha. 
NOTA 6: Resíduos de óleos usados para a fritura de alimentos podem ser utilizados para se fazer biodiesel. Atualmente restaurantes e lanchonetes em alguns países vendem o óleo de fritura usado para empresas que fabricam biodiesel. 
NOTA 7: Embora o biodiesel seja uma alternativa ao consumo de combustíveis fósseis, em alguns países existem leis que reduzem o acesso a tal combustível ou até mesmo o proíbe. E em geral o biodiesel é usado para completar a produção diesel, não sendo usado sozinho. 

Referências bibliográficas: 
DEMIRBAS, Ayhan. Biodisel: a realistc fuel alternative for Diesel Engines. Berlin: Springe Science, 2007. 
MOLLENHAUER, Klaus; SCHREINER, Klaus. History and Fundamental Principles of the Diesel Engines. In: MOLLENHAUER, Klaus; TSCHÖKE, Helmut (eds.). Handbook of Diesel Engines. Berlin: Springer, 2010, p. 3-30. 
RAMOS, Luiz Pereira [et. al]. Biodiesel. Revista Biotecnologia, Ciência e Desenvolvimento, n. 31, 2003, p. 28-37. 

sábado, 11 de abril de 2020

Américo Vespúcio e a origem do nome América

Hoje é comum falarmos em América do Norte, América Central, América do Sul e até América Latina. Todavia, por mais que o nome América remonte ao começo do século XVI, nem sempre ele foi regularmente utilizado. Até o século XVII não era incomum referir-se aos continentes americanos pelos nomes de Índias Ocidentais ou Novo Mundo. No entanto, embora Américo Vespúcio foi que emprestou o nome para nomear o novo continente, pois naquele momento não existiam a divisão em três, isso esteve envolto em certos equívocos e até mesmo em tornar Vespúcio o "descobridor das Américas", retirando tal feito creditado a Cristóvão Colombo. Fato esse, que falsas viagens atribuídas a este navegador surgiram para justificar que ele e não Colombo, chegou primeiro, e graças a isso, aquele "novo mundo" merecia ser nomeado em sua homenagem. 

Quem foi Américo Vespúcio?

Nascido em Florença em 9 de março de 1454, era o segundo filho do rico comerciante Nastagio Vespúcio e de Lisa di Giovanni Minni. Os Vespúcio eram uma família tradicional florentina que fez riqueza com o comércio de tecidos, especialmente de seda e lã. Alguns membros também assumiram cargos políticos, públicos e eclesiásticos, além de terem negócios marítimos com outros países. Américo teve uma educação humanista dirigida pelo seu tio Giorgio Antonio Vespúcio, o qual era homem importante em Florença e cheio de contatos. No ano de 1478, seu tio que possuía contato com os Médici, recebeu uma proposta de emprego de representá-los em negócios em Paris. Dessa forma, Giorgio convidou Américo para ser seu secretário, e assim viajaram para a França e depois para outras cidades italianas, permanecendo uns dois anos fora. (GOMES, 2012, p. 27).


Estátua de Américo Vespúcio na Galeria de Uffizi, em Florença. 
Por volta de 1480, Américo retornou a Florença, tentando estreitar os contatos com os Médici, a poderosa família de banqueiros que governava a república florentina. Nesse tempo, Vespúcio passou os anos seguintes agindo como comerciante, cobrador de dívidas, administrador, secretário, mediador de justiça e procurador de justiça. Oito anos depois, os Médici enviaram Vespúcio para a Espanha, mais especificamente Sevilha e depois outras cidades. Mas no caso de Sevilha, ele viajava para coletar informações comerciais e financeiras que interessavam os negócios dos Médici. Foi na época que morou alguns meses na Espanha, que Vespúcio começou a se interessar ainda mais pelo negócios ultramarítimos, vendo nestes um grande potencial de enriquecimento. Assim, no ano de 1492, ele reuniu suas economias e mudou-se para Sevilha, a fim de tentar a sorte no "negócio das Índias". (FÉRNADEZ-ARMESTO, 2006, p. 58). 

Ao se mudar para Sevilha, Américo Vespúcio contava com seus 38 anos de idade, tendo trocado negócios e trabalhos certos, pelo duvidoso. Quando finalmente ele se estabeleceu na Espanha, tomou conhecimento que o navegador Cristóvão Colombo (1451-1506), havia partido para ocidente em busca de uma rota marítima para às Índias, ou estava indo em busca de um novo continente, como sugerem outros estudos. Mas enquanto Colombo não retornou de sua expedição, Vespúcio começou a trabalhar como armador em Sevilha, equipando navios e tripulações para fazer expedições ou negócios. Nem sempre os investimentos davam certo, a ponto de Vespúcio ter perdido muito dinheiro em algumas ocasiões. (GOMES, 2012, p. 29)

Os anos se passaram, Colombo havia retornado para a Espanha, noticiando sua "descoberta" e viajado novamente. Interessado no êxito duplo de Colombo, Vespúcio começou a escrever cartas para o navegador, para tentar fazer contato e até mesmo tornar-se um de seus armadores. As negociações se deram entre 1495 e 1497 através de intermediários. No ano de 1498, Colombo realizou sua terceira viagem, retornando no ano seguinte, quando os Reis Católicos de Espanha, lhe removeram o monopólio das expedições às "Índias Ocidentais". Assim, vários outros armadores, investidores, navegantes, nobres, mercadores etc. estavam interessados em realizar suas próprias expedições. E entre as pessoas interessadas em realizar tais viagens estava o próprio Américo Vespúcio. (FÉRNADEZ-ARMESTO, 2006, p. 81). 

As viagens de Vespúcio (1499-1503):

Com o fim do monopólio de Colombo de somente ele poder comandar as expedições para o Novo Mundo, várias outras expedições começaram a ser armadas. No ano de 1499, Vespúcio partiu na expedição do capitão Alonso de Ojeda (1466-1516), rumo ao Ocidente. A expedição de Ojeda chegou ao Norte do que hoje é o Brasil e ao atual território da Venezuela. Eles chegaram a avistar a foz do rio Orinoco (atualmente na Venezuela). Após semanas de viagem, a expedição retornou e Vespúcio embora tenha adoecido durante a viagem, ainda assim ele a tomou como bastante exitosa, devido as descobertas que fizeram, aquilo atiçou sua vontade de querer retornar outras vezes. 


Retrato de Alonso de Ojeda, com que Vespúcio realizou sua primeira expedição ás Américas. 
Entre 1500 e 1501, Vespúcio mudou-se para Lisboa, capital portuguesa para participar de novas expedições. O motivo de ele ter deixado a Espanha, ainda é fator de controvérsia. De qualquer forma, quando ele chegou a Portugal, naquele momento, Vasco da Gama já havia retornado de sua expedição às Índias e Pedro Álvares Cabral já havia chegado ao Brasil. Neste caso, os portugueses tinham basicamente duas rotas de viagem: o caminho que seguia para suas colônias e feitorias na África e depois o "caminho das Índias" determinado por Gama, e a rota que levava a Terra de Santa Cruz (o vindouro Brasil). 

Sua expedição de volta ao Novo Mundo, ocorreu no ano de 1501, onde Vespúcio embarcou no navio capitaneado por Gaspar Lemos, cuja missão era mapear a costa da Terra de Santa Cruz. Logo, é creditado a Lemos a "descoberta" da Baía de Todos os Santos e da Baía de Guanabara, a qual ele achou que se tratava da foz de um grande rio, por isso que a nomeou Rio de Janeiro. A expedição de Lemos, na qual Vespúcio seguia viagem, retornou à Portugal em 1502. Todavia, sua visita ao Brasil ficou marcada na história, pois ele relatou as "descobertas" do capitão Lemos. (COARACY, 1988, p. 302-302). 

Ao retornar para Lisboa em 1502, ainda naquele mesmo ano, Vespúcio estava de volta a Sevilha, onde casou-se com Maria Cerezza. Segundo um dos documentos escritos por ele, chamado de Lettera (Carta), entre 1503 e 1504, ele teria voltado a servir aos portugueses, retornando ao Brasil numa expedição comandada pelo capitão Gonçalo Coelho, porém, tal relato é encarado por alguns historiadores como duvidoso, pois, naquele tempo surgiram falsificações creditadas a Vespúcio e outras pessoas, as quais relatavam viagens que ele teria feito, mas sabe-se que nunca realizou. 

A fama de grande navegador: 

Como navegador, Vespúcio não se destacou, pois as expedições que ele participou, não esteve no comando propriamente. Tampouco ele foi autor de descobertas de novas localidades ou povos. Todavia, no ano de 1503, em Paris começou a ser vendido um livro intitulado Mundus Novus, cuja autoria era atribuída a um tal Albericus Vespuccius. O livro consistia numa compilação de cartas e relatórios que Vespúcio teria escrito a um de seus patrocinadores, Pierfrancesco de Médici. Embora hajam controvérsias se realmente Vespúcio escreveu tal livro ou ele teria sido forjado, sabe-se que ele se tornou um sucesso imediato, sendo traduzido e publicado em outros países nos anos seguintes. 


“Em Florença enviaram à sua casa o fogo comunal, dando-lhe o título de "amplificador do globo"; em 5 anos, de 1503 a 1508, e em nove cidades, fizeram-se doze edições latinas do Mundus Novus e, no mesmo espaço de tempo, em sete cidades alemãs, doze edições germânicas . Em Antuérpia foi feita uma edição em holandês e outros arranjos nessa língua e em inglês”. (LEVILLIER, 1958, p. 104). 

Uma edição de 1903 do Mundus Novus de Américo Vespúcio, livro que ajudou a torná-lo famoso na Europa. 
Além da rápida popularidade que o livro obteve, a fama que ele gerou também foi veloz. Em 1505, Vespúcio foi naturalizado espanhol e no ano seguinte já trabalhava na diretoria da Casa de Contração em Sevilha, órgão responsável por administrar os negócios das Índias. E por volta dessa época foi publicado outro livro atribuído a autoria de Vespúcio chamado de Lettera, Carta a Sordini ou Quatro Viagens, a qual consistia num compilado baseado no diário de Vespúcio sobre quatro expedições que ele realizou entre 1497 e 1503, porém, sabe-se que somente duas dessas expedições ele participou com certeza. A nova publicação não foi um fenômeno como o livro anterior, mas fez relativo sucesso, sendo traduzida e publicada em outros países nos anos seguintes. Nessa obra, o autor relatou duas expedições espanholas e duas portuguesas, incluindo o fato que na segunda expedição portuguesa, ele teria ido supostamente para África. (FÉRNADEZ-ARMESTO, 2006, p. 126). 

E essa fama foi tão rápida que até mesmo começaram a dar maior importância a Vespúcio pelas supostas navegações que fez ao Novo Mundo, do que as expedições realizadas por Colombo, fato esse que um dos filhos de Colombo, comenta que estavam roubando o mérito de seu pai. 

No ano de 1508, o rei de Espanha nomeou Vespúcio como piloto-mor do reino, título honorífico e o encarregou de lecionar em escolas navais, para turmas especiais, principalmente sobre questões de posicionamento náutico. Ele manteve-se no cargo até o fim da vida, falecendo em 22 de fevereiro de 1512, aos 58 anos, sem deixar herdeiros. Seu testamento dedicou seus pertences, dinheiro e propriedades para sua esposa, mãe, irmãos, sobrinhos, amigos e para saudar antigas dívidas. Apesar da fama, ele não se tornou rico como sonhava, mas conseguiu marcar seu nome na História. (FÉRNADEZ-ARMESTO, 2006, p. 181-182). 

Surge o nome América: 

Devido a fama crescente de Vespúcio através da popularidade do livro Mundus Novus, e das honrarias que ele ganhou do governo espanhol e de outros países, sendo elogiado como navegador e até mesmo cartógrafo, isso levou o cartógrafo Martin Waldessemüller (c. 1470-1520) em seu livro Universalis Cosmographia (1507), a sugerir que o "novo mundo" fosse nomeado de América, seguindo a lógica que os nomes Europa, África e Ásia eram femininos. Porém, a escolha de América era uma forma de homenagear Américo Vespúcio, que na época era conhecido como um famoso navegador que teria feito várias viagens ao continente americano, e alguns boatos diziam que ele o teria descoberto e não Colombo. O próprio Waldessemüller considerava tal fato, apesar que anos depois mudou de ideia, reconhecendo que Colombo era o "verdadeiro descobridor". 

Detalhe do mapa-múndi de Waldessemüler para seu livro Universalis Cosmographia (1507). Nesse mapa vemos a primeira menção ao nome América. 
A obra de Waldessemüller influenciou outros cartógrafos de diferentes países, que nos anos seguintes até mais ou menos 1520, publicaram mapas apresentando o nome América, como forma de se referir ao novo continente, o problema é que fora dos mapas e de alguns livros, o nome América não era usado comumente. As pessoas seguiam referindo-se como Novo Mundo, Índias Ocidentais, ou pelos nomes regionais que expressavam os domínios portugueses, espanhóis, franceses e ingleses. Nesse tempo Vespúcio já havia morrido, e embora seu livro ainda seguisse sendo publicado, o nome América não causou tanto impacto assim. 

Ele somente começou a ser usado no século XVIII propriamente, como forma de se referir ao continente. Mais tarde é que dividiram o continente americano em três partes. No entanto, já no século XVII, alguns estudiosos já contestavam o uso da palavra América, por considerarem oriunda de uma farsa construída para enaltecer a pessoa de Américo Vespúcio, homem que ficou famoso através de fraudes sobre várias viagens e pretensas descobertas que ele teria feito. Apesar de hoje em dia saber que vários relatos atribuídos a supostas viagens de Vespúcio, sejam falsos, e que haja dúvidas sobre o que ele escreveu no Mundus Novus, isso se foi ele quem escreveu aquele livro mesmo, ainda assim, o nome América permanece oficialmente. 

NOTA: O professor Roberto Levillier escreveu uma análise de várias edições do Mundus Novus, sobre seu conteúdo, a fama e importância da obra, apesar de sua controvérsia. 

Referências bibliográficas: 
COARACY, Vivaldo. Memórias da Cidade do Rio de Janeiro. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1988.  
GOMES, Plínio Freire. Américo antes da América. Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7, n. 84, 2012, p. 26-29. 
FERNÁNDEZ-ARMESTO, Felipe. Amerigo. The man who gave his name to America. London, Weidenfeld & Nicolson, 2006. 
LEVILLIER, Roberto. Mundus Novus. A carta de Vespúcio que revolucionou a geografia. Revista de História da USP, v. 16, n. 33, 1958, p. 103-148.