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Leandro Vilar

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A face de Cleópatra: as polêmicas sobre sua aparência

Após o anúncio de que um novo filme sobre a última rainha do Egito, será produzido em breve, e contará com a atriz Gal Gadot no papel principal, uma série de polêmicas vieram a tona. Alguns defendem que Cleópatra seria negra, pois nasceu no Egito; outros alegam que ela não seria egípcia, pois descenderia de gregos; outros apontaram que Hollywood deveria ter escalado uma atriz grega ou egípcia para o papel; alguns alegaram que o filme será fiasco, pois Gal é israelita, e atualmente o Egito é predominantemente de vertente árabe e islâmica, havendo problemas diplomáticos entre os dois países. O filme acabou sendo cancelado. 

Mas apesar dessas polêmicas atuais, outras vieram a tona: Cleópatra seria bela ou feia? Ela era realmente branca como uma europeia? Ou seria uma branca mais escura ou até mesmo com bronzeado? Ela poderia ser parda? A proposta deste texto foi comentar brevemente sobre o visual de Cleópatra.

Introdução:

Cleópatra VII Filópator (69-30 a.C) é envolta em polêmicas, controvérsias e escândalos. Ora referida como uma mulher inteligente, bela, sedutora, controladora e ardilosa, a qual com sua beleza e lábia, conseguiu encantar os generais romanos Júlio César (100-44 a.C) e Marco Antônio (83-30 a.C), conseguindo usar esses relacionamentos para conquistar poder, ludibriando seus irmãos e tomando o trono egípcio para si. Porém, Cleópatra já foi considerada uma mulher feia, inculta, mas ardilosa, que soube ainda assim, enganar César e Antônio. 

Escritores e pintores a retrataram como uma rainha exótica, formosa, sensual, megalomaníaca, inclusive boatos sobre excentricidades como encontrar César escondida dentro de um tapete, cujo escravo o desenrolou, revelando a rainha nua, ou tomar banho com leite de jumenta para hidratar a pele, ou fazer orgias, ou sempre andar com muitas joias, ou ter cobras de estimação, etc. foram divulgados, incluindo a condição de ela ser cruel, mandando executar os irmãos, matar escravos e outros desafetos. No meio político, uma visão negativa de Cleópatra perdurou por algum tempo, retratando-a como uma oportunista, a qual se valeu do sexo para poder conquistar poder e autoridade. E depois a retrataram como uma louca, que decidiu cometer suicídio, usando uma cobra para picá-la. 

Todavia, não foi o intuito desta postagem apresentar uma biografia sobre Cleópatra, mas sim debater a questão da sua aparência, que ainda hoje suscita polêmicas e controvérsias, embora deve-se ser algo que nem deveria mais causar tanto alarde assim. 

Dinastia Ptolomaica

Cleópatra VII nasceu no ano de 69 a.C em lugar não definido, apesar que os historiadores acreditem que o mais provável tenha sido em Alexandria, uma cidade fundada três séculos antes por Alexandre, o Grande (356-323 a.C), e que tornou-se a capital da Dinastia Ptolomaica em 303 a.C, sob o governo de Ptolomeu I Sóter (366-283 a.C), um dos generais de Alexandre. Mas na época que Cleópatra nasceu, Alexandria era uma cidade bem maior e cosmopolita, sendo um dos centros culturais do mundo antigo, afamada pela Biblioteca de Alexandria e o Museu

Neste caso, Ptolomeu I quando deu início ao seu governo sobre o Egito, ele tomou algumas atitudes como se vestir como os faraós, adotar títulos reais e alguns costumes da realeza egípcia. Porém, um erro que comumente alguns dizem, é que atribuem a Ptolomeu I a adoção do incesto real, mas isso não é verdade. Os primeiros reis ptolomaicos casaram com nobres de origem macedônica, grega, persa e síria, eles não praticaram o incesto, exceto Ptolomeu II Filadefo (309-246 a.C) que casou-se com sua irmã Arsinoe II, mas o herdeiro do trono, foi um filho que ele teve com outra esposa. 

Entretanto, a prática do incesto real entre os ptolomaicos começou a se estabelecer com Ptolomeu VI Filómetor (180-145 a.C), o qual casou-se com sua irmã Cleópatra II, gerando um filho chamado Ptolomeu VII (?-145 a.C). Porém, o jovem monarca apenas governou por algumas semanas, quando foi traído por seu tio e foi assassinado. O novo rei adotou o título de Ptolomeu VIII Fiscão (182-116 a.C), e casou-se com Cleópatra II, que era sua irmã também. (BURSTEIN, 2010, p. 10). 

Ptolomeu VIII deu continuidade a prática do incesto real, após a morte da esposa, ele casou-se com sua sobrinha, Cleópatra III, com quem teve Ptolomeu IX. As gerações seguintes mantiveram o incesto real entre irmãos, primos e sobrinhos. 

Posteriormente no século I a.C, o rei Ptolomeu XII (c. 117-51 a.C) assumiu o trono em 80 a.C, após uma disputa com seu irmão Ptolomeu XI. Neste caso, sublinha-se que o novo monarca era também fruto de incesto e, por sua vez, ele casou-se com Cleópatra V Trifena, que era uma prima próxima. Desse relacionamento eles tiveram alguns filhos, sendo os primeiros Berenice IV e Cleópatra VI, as quais governaram brevemente o Egito, no exílio de seu pai, o qual ameaçado em ser destronado, exilou-se em Roma em 58 a.C, retornando alguns anos depois. (BURSTEIN, 2010, p. 155). 

Neste ponto, a história fica bastante confusa. Ptolomeu XII teve outros filhos também, os quais foram Arsinoe IV, Cleópatra VII, Ptolomeu XIII e Ptolomeu XIV, entretanto, não se sabe exatamente quem foram as mães deles, pois Cleópatra V teria morrido em algum momento entre 68 e 57 a.C. Com isso, a História não registra com certeza se Cleópatra V foi mãe desses quatro filhos, ou seu marido os teria tido com concubinas ou outra esposa, cujo nome foi esquecido ou até mesmo apagado. 

Diante dessa indeterminação se Cleópatra V foi ou não a mãe de Cleópatra VII, surgiram hipóteses alegando que a mãe de Cleópatra VII poderia ter sido de origem grega, romana, egípcia ou até mesmo persa ou síria. 

Posto essa problemática em pauta, vamos retomar a questão da aparência da rainha. Dizer que Cleópatra VII seria negra porque nasceu no Egito, não é uma afirmação correta. No século I a.C, o Egito era um país já miscigenado, possuindo contato com gregos, romanos, trácios, sírios, líbios, etíopes, persas, citas, hebreus e outros povos. O que concede a condição de haver distintas etnias, além de pessoas brancas, pardas e negras vivendo em seu território. 

Um segundo ponto a ser considerado é que desde Ptolomeu VI, o incesto real começou a ser praticado. Logo, possuímos mais de cem anos de gerações frutos de incestos. E sobre isso, aqueles que dizem que Cleópatra VII seria "puramente" descendente de gregos ou macedônios, também estão equivocados, pois os reis Ptolomeu II ao V, casaram-se com sírias e persas, logo, o elemento grego não era único. Além da condição que alguns reis ptolomaicos desposaram primas, que eram filhas de estrangeiras. 

Terceiro ponto a ser considerado é que não se sabe se Cleópatra V foi mãe de Cleópatra VII, havendo a possibilidade de que Ptolomeu XII possa ter se casado ou ter tido filhos com alguma amante, pois sabe-se que os reis Ptolomeu II ao V, tiveram mais de uma esposa, e o rei Ptolomeu X era conhecido por ser bastardo. 

Um quarto ponto é que Ptolomeu XII poderia ter se casado com sua filha Cleópatra VI, porém, escritores antigos como Estrabão, Porfírio e Eusébio de Cesareia, apresentam relatos contraditórios, ora dizendo que Cleópatra V e Cleópatra VI seriam mãe e filha, ou dizendo que ambas seriam a mesma pessoa. (ROLLER, 2010, p. 165-166). Essa confusão não foi a única, outros monarcas egípcios também foram confundidos com irmãos, filhos e primos. Os reis Ptolomeu IX, X e XI também chegaram a serem confundidos. 

Diante dessas condições, afirmar que Cleópatra seria negra, é impreciso, pois se desconhece quem teria sido sua mãe. E levando em consideração a prática do incesto real, tudo indica que ela era branca como os gregos e macedônios da época. No entanto, existe o fator de mestiçagem, o que poderia conceder a ela uma pele até mesmo parda. Mas esse fator também é hipotético, devido a falta de mais evidências a respeito. 

Outro aspecto a ser considerado é que Cleópatra V que é cogitada como sua possível mãe, também não possui uma origem precisa. Os documentos da época pouco falam sobre essa rainha, e ora se referem a ela como filha legítima ou bastarda de Ptolomeu IX ou Ptolomeu X. Além de não se saber quem seria a mãe dela, o que abre espaço para a possibilidade de que Cleópatra V poderia ser filha até mesmo de uma egípcia. Ainda mais se ela fosse fruto do relacionamento com uma amante. (GRANT, 1972, p. 4-5).

No ano de 2009 um esqueleto encontrado na cidade de Éfeso, atualmente na Turquia, foi considerado como sendo pertencente a princesa Arsinoe IV, irmã caçula de Cleópatra VII. A qual na época foi exilada do Egito, ao tentar dar um golpe de estado na irmã. Porém, embora a tumba tenha sido descoberta em 1926, somente décadas depois é que alguns estudiosos como a arqueóloga Hilke Thuer, defenderam que aqueles restos mortais pertenceram a Arsinoe IV, e ao se realizar a análise do esqueleto, constatou que ele conteria traços africanos e europeus, o que sugeriu ser uma mulher mestiça. Isso foi bem recebido na época pelos defensores que alegavam que Cleópatra VII seria fruto de mestiçagem. O problema é que outros arqueólogos contestaram não o exame do esqueleto, mas se realmente ele pertenceu a princesa Arsinoe, como afirmado por Thuer. A contestação se deve a condição de que não existem evidências nenhuma que corroborem que aquela tumba pertenceu a essa princesa. (QUEIRÓS, 2009). 

Esclarecido esses vários problemas que envolvem a origem de Cleópatra, passaremos agora para analisar algumas imagens produzidas sobre ela em vida. 

A iconografia egípcia e romana sobre Cleópatra

Cleópatra foi rainha do Egito ao longo de quase três décadas, atuando a contragosto como consorte de seus irmãos Ptolomeu XIII (62-47 a.C) e Ptolomeu XIV (60-44 a.C), nesse período, Cleópatra tornou-se amante de Júlio César, tendo conspirado contra seus irmãos, levando a morte de ambos, e dessa forma, ela passou a governar sozinha. Posteriormente seu filho com César, chamado Cesarião (47-30 a.C), foi eleito novo rei com o nome de Ptolomeu XV, em 44 a.C, mas por ter apenas três anos de idade, Cleópatra agiu como rainha-mãe e regente, educando o garoto para dar continuidade ao domínio ptolomaico. 

Com o assassinato de César em 44 a.C, posteriormente Cleópatra tornou-se amante de Marco Antônio, relação que manteve até o fim da vida, até que eles se casaram em 32 a.C. Do relacionamento com Antônio, Cleópatra deu à luz a três filhos: os gêmeos Alexandre Hélio e Ptolomeu Filadelfo, e uma filha chamada  Cleópatra Selene II. Vale ressalvar que nessa época, Marco Antônio era casado, tinha outros filhos, mas abandonou tudo, incluindo trair Roma, para ir morar no Egito. 

Durante o período que Cleópatra governou atuando como regente de seu filho, imagens foram produzidas dela, o que incluiu estátuas, altos-relevos e moedas. 

Cleópatra VII e Ptolomeu XV Cesarião, representados como os antigos faraós e rainhas, numa parede do Templo de Dendarah, século I a.C.

Os ptolomaicos chegaram a fazer representações suas de acordo com a arte egípcia de representar os faraós e rainhas. E por ser um padrão artístico, não é possível ter aspectos fisionômicos precisos na maioria dessas imagens. Mas citei esse exemplo para que o leitor saiba que existem representações egípcias de Cleópatra, pois alguns acham que somente houve representações de origem romana e grega da rainha. Já na imagem abaixo, temos um busto egípcio de Cleópatra, o qual mostra um rosto levemente arredondado, queixo curto, mas nariz, olhos e orelhas, padrão de outras estátuas egípcias. Além disso, a rainha usa uma peruca e uma tiara real. 

Busto de Cleópatra VII, séc. I a.C. Exibido no Museu Real de Ontario, Canadá. 

Enquanto as representações egípcias da face de Cleópatra suscitam dúvidas quanto a sua real aparência, a iconografia romana apresenta aspectos mais interessantes e detalhados sobre o rosto dessa dita formosa rainha. Entretanto, as representações romanas padecem também de uma problemática, pois existem diferentes estátuas e bustos creditados como sendo de Cleópatra, mas não há uma certeza se realmente seria o rosto da rainha ou de uma outra mulher qualquer. E por serem vários casos, decidi apenas abordar alguns deles. 

Busto romano que possivelmente seria uma representação de Cleópatra, feito durante a época que ela morou em Roma, entre os anos de 46-44 a.C. Atualmente está exposto no Museu Britânico. 

Embora haja dúvidas se esse busto seria uma retratação da rainha Cleópatra VII, no entanto, observa-se que ele apresenta traços em comum com o visual da monarca: o nariz adunco e o queixo curto e levemente pontudo, dois aspectos que voltaremos a ver em outras representações creditadas a ela. No entanto, nessa estátua, a mulher utiliza tranças em estilo romano, algo que seria apenas uma escolha artística do escultor ou uma referência a época que Cleópatra viveu em Roma, onde ela passou a se vestir e seguir à moda romana. Entretanto, a imagem abaixo é provavelmente a representação mais famosa que se tem de Cleópatra. 

Busto de Cleópatra VII, no Museu Altes, Berlim, Alemanha. 

O busto acima é creditado como sendo uma representação de Cleópatra. Se comparado a outras estátuas notamos a mesma curvatura do queixo, o nariz adunco, além da rainha esta usando cabelo preso em coque, e um diadema real. No caso, em algumas representações, Cleópatra costuma usar um diadema ou tiara, como forma de indicar seu status como governante do Egito. Todavia, alguns estudiosos suscitam indagações se as estátuas apresentadas acima pertenceriam a Cleópatra mesmo, porém, se compararmos a uma outra iconografia dela, encontramos mais pistas a respeito. 

Durante o período que Cleópatra governou o Egito, atuando como rainha-mãe e regente de Ptolomeu XV, e nessa época ela foi amante de Marco Antônio, alguns denários de prata foram cunhados para celebrar a união do casal e a vitória de Antônio na Armênia. Abaixo podemos ver uma dessas moedas, a qual num lado apresenta a efígie do general romano e do outro encontra-se a efígie da rainha egípcia. 

Denários de prata, representando Marco Antônio e Cleópatra VII.

Aqui temos novamente um questionamento quanto a famosa beleza da rainha. Nesses denários cunhados por volta do ano 34 a.C, observa-se Cleópatra retratada novamente com o nariz adunco, cabelos curtos, queixo curto, além de usar um diadema real. Alguns estudiosos chegaram a dizer que devido aos poucos detalhes presentes nessas moedas, não poderia se confirmar que Cleópatra teria essa fisionomia, porém, quando o comparamos com as possíveis estátuas que a representaria, observa-se as mesmas características em comum: o corte de cabelo, o diadema, o nariz e o queixo. 

No entanto, algumas pessoas poderão dizer que com base nessas imagens, Cleópatra não teria sido uma mulher bela como vemos em filmes, pinturas ou ouvimos falar. Aqui é preciso pensar um pouco. A beleza é algo que varia de acordo com a cultura e a época, logo, pensar a beleza de Cleópatra de acordo com padrões dos séculos XX e XXI, é anacronismo, pois são padrões distintos dos quais os egípcios, gregos e romanos tinham há mais de dois mil anos. Sendo assim, se Cleópatra pode parecer feia para os padrões atuais, mas em sua época ela poderia ser considerada uma mulher muito bela. 

Além disso, é preciso também considerar que o forte destaque a sua beleza, tenha sido algo proposital, surgido a partir de alguns autores que repudiavam a pessoa dela, e a consideravam apenas um "rostinho bonito" que se valeu de sua sexualidade para seduzir Júlio César e Marco Antônio. Mas esses autores viam isso como uma forma de rebaixar Cleópatra apenas como tendo sido uma rainha fútil e luxuriosa, algo citado no início desse texto e até comentado por historiadores. Mas se ela tivesse sido apenas uma mulher bela, então ela deveria ter tido uma boa equipe de governo, para poder governar por mais de vinte anos e sobreviver a tentativas de golpe de estado. 

Como alguns biógrafos atuais relatam, Cleópatra não teria sido apenas um "rostinho bonito", ela seria uma mulher sagaz, com uma boa assessoria e talvez até mesmo tivesse um nível considerado de governança, entendendo mais de política e diplomacia do que supomos. Fato esse que o biógrafo grego Plutarco não menciona Cleópatra VII como uma bela mulher, apesar que os relatos dele sobre a rainha são contraditórios em alguns aspectos, no entanto, é interessante ele não ter destacado ainda no século I d.C, este fator de beleza pelo qual a rainha é até hoje conhecida. (BALTHAZAR, 2013). 

Todavia, ainda resta uma questão a ser esclarecida e que normalmente gera muitas dúvidas e debates calorosos: qual seria a cor da pele dela? Ela seria branca como os gregos e romanos? Ou seria parda ou até mesmo negra? As fontes escritas da época não citam esse detalhe, apenas a descrevem como uma mulher que se vestia bem, seria bonita, elegante e portava-se como uma grega.  

A ideia de que somente o fato de ela ter nascido no Egito, a tornaria automaticamente negra, é um erro. Havia gente negra que nasceu na Grécia e na Itália, naquele tempo. Pois é preciso recordar que Roma embora ainda fosse uma república, possuía um território que se estendia em três continentes, logo, a migração de distintos povos pelo território romano era intensa. E isso era intensificado por conta do modelo escravocrata da época, onde os romanos escravizavam povos de distintas nacionalidades e etnias para diversas finalidades. Fato esse que há relatos de soldados pardos e negros servindo nas legiões romanas. 

Sendo assim, o local de nascimento de Cleópatra não seria uma determinante para sua cor. Aqui retomamos ao caso da sua família, a qual a partir de Ptolomeu VI começou a praticar regularmente o incesto real, todavia, antes de isso acontecer, houve reis dessa dinastia que se casaram com persas e sírias, além de reis que desposaram primas de primeiro ou segundo grau, as quais eram filhas de estrangeiras e de egípcias. A ideia de que os ptolomaicos sempre odiaram os egípcios e jamais teriam tido relações com eles, é exagerada. Houve animosidade, sim, mas o quão grande ela teria sido, isso é algo que não temos como informar. 


Nesta representação acima, vemos uma Cleópatra de pele de tom médio, podendo variar entre o chamado "moreno claro" e o "oliva" (a depender do padrão adotado, essa variação é considerada como sendo uma pele parda), cores de pele comum entre os europeus e africanos da região mediterrânica, ainda hoje presente em tais populações; além disso vemos, olhos pretos e cabelo cacheado. Aqui é importante salientar que a ideia de que todo grego e romano teriam cabelos lisos, não é bem assim, a predominância de cabelos cacheados era grande, algo inclusive vistas em estátuas e pinturas. No próprio Egito, os cabelos lisos que vemos rainhas e nobres usando, em muitas vezes se tratavam de perucas e não cabelos naturais. 

Na reconstituição abaixo, apresentada em 2017, com base no estudo da egiptóloga Sally-Ann Ashton, também baseada no busto de Altes, vemos uma Cleópatra de pele um pouco mais clara, mas mantendo os cabelos cacheados, o nariz adunco, olhos castanhos e lábios finos. Por essa imagem, algumas pessoas disseram que estaria errada, pois aqui não temos uma Cleópatra bela como vemos no cinema e em pinturas. Mas novamente recordo que a ideia de beleza é cultural e varia com o tempo. 


Diante disso, à guisa de conclusão, não é possível definir com segurança qual seria a cor de Cleópatra, todavia, pelas evidências arqueológicas e estudos realizados, a rainha teria tido uma cor que oscilaria entre o branco-amarelado ao pardo, isso por conta de não se conhecer a procedência de sua mãe. Além disso, a ideia de que ela seria "grega pura", também é equivocada. Aqui devemos considerar que a rainha teria um porte grego no sentido dos costumes e por falar essa língua, já que parte de seus antepassados eram também macedônios, persas e sírios. Além disso, Cleópatra também tinha costumes egípcios e romanos e até mesmo morou brevemente em Roma, na época que era amante de Júlio César. E quanto a ela ter sido uma sedutora fatal, isso também é questionável; ela até pode ter seduzido César e Antônio, mas tal condição foi exagerada por escritores e pintores. 

NOTA 1: A atriz britânica Elizabeth Taylor (1932-2011) interpretou a rainha no filme Cleópatra (1963), tornando-se ainda hoje a representação cinematográfica mais icônica da rainha, apesar que Taylor fosse bastante branca e tivesse olhos claros. 
NOTA 2: No filme Asterix e Obelix: Missão Cleópatra (2002), a rainha foi interpretada pela musa italiana, Monica Belucci, que representou uma Cleópatra bastante sensual e abobalhada. 
NOTA 3: Nos quadrinhos de Asterix, Cleópatra que aparece em algumas poucas histórias, sendo representada com um tom de pele que varia do branco-amarelado ao pardo. 
NOTA 4: No jogo Assassin's Creed: Origins (2017), Cleópatra é representada como sendo parda. 
NOTA 5: Na série de jogos Civilization, Cleópatra normalmente aparece como sendo branca. 
NOTA 6: No jogo Civilization Revolution (2008), Cleópatra é retratada como sendo negra e tendo cabelo crespo. 
NOTA 7: Em outros filmes onde a rainha aparece, ela também é retratada como sendo branca, segundo padrões estadunidenses e europeus. Essa tendência é inclusive vista nas pinturas sobre a rainha, onde algumas até mesmo a retrataram com olhos claros, e algumas poucas a representaram como loura ou ruiva. 
NOTA 8: O romance da rainha com Marco Antônio, inspirou uma das tragédias de William Shakespeare, intitulada Antônio e Cleópatra (1607). No caso, Shakespeare colheu informações nas Vidas Paralelas de Plutarco para escrever essa peça e a tragédia Júlio César (1599). 
NOTA 9: A ideia de que todos os europeus são brancos da mesma forma é equivocada. Os europeus do sul do continente possuem uma tonalidade mais escura em relação aos que vivem mais ao norte, os quais tem uma pele mais branca, podendo chegar a tonalidade do leite ou neve. Além disso, os europeus do sul costumam ser morenos e terem olhos escuros. Sendo o louro pouco comum, e o ruivo é raro. Já os europeus do norte também são morenos, mas há mais facilidade de achar pessoas com cabelos louros e ruivos, olhos azuis e verdes. 
NOTA 10: A série documental Rainha Cleópatra (2023) da Netflix gerou polêmica ao mostrar uma Cleopátra negra, o que levou a protestos no próprio Egito, acusando a produção de deturpar fatores históricos. 

Referências bibliográficas:

BALTHAZAR, Gregory da Silva. A(s) Cleópatra(s) de Plutarco: As múltiplas faces da última monarca do Antigo Egito nas Vidas Paralelas. Dissertação de Mestrado em História, Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2013. 

BURSTEIN, Stanley M. The Reign of Cleopatra. London, Greenwood Press, 2010. 

GRANT, Michael. Cleopatra. Edison, Barnes and Noble Books, 1972.

ROLLER, Duane W. Cleopatra: A Biography. Oxford, Oxford University Press, 2010. 

Referência da internet:

QUEIRÓS, Luís Miguel. Irmã de Cleópatra era africana. 2009. Disponível em: https://www.publico.pt/2009/03/17/jornal/irma-de-cleopatra-era-africana-299302

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