Pesquisar neste blog

Comunicado

Comunico a todos que tiverem interesse de compartilhar meus artigos, textos, ensaios, monografias, etc., por favor, coloquem as devidas referências e a fonte de origem do material usado. Caso contrário, você estará cometendo plágio ou uso não autorizado de produção científica, o que consiste em crime de acordo com a Lei 9.610/98.

Desde já deixo esse alerta, pois embora o meu blog seja de acesso livre e gratuito, o material aqui postado pode ser compartilhado, copiado, impresso, etc., mas desde que seja devidamente dentro da lei.

Atenciosamente
Leandro Vilar

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Yakuza: a máfia japonesa

Conhecida internacionalmente como Yakuza, a máfia japonesa já existe há quase quatrocentos anos, embora tenha ganhado destaque mundial no século XX. A Yakuza é reconhecida por seu estrito código hierárquico e de obediência e lealdade, sendo dividida em clãs e territórios. Seus membros também são reconhecidos por suas tatuagens, algumas que cobrem grande parte do corpo. Neste texto escrevi um pouco sobre essa curiosa e polêmica máfia, pois, a relação da Yakuza com a lei japonesa é ambígua, pois legalmente ela não é proibida, sendo vetado os crimes que ela venha praticar. 

Origem

Já li pessoas dizendo que a Yakuza teria surgido há mil anos ou somente no XIX, entretanto, a história de origem dessa máfia passa por dois momentos distintos. Os primórdios remontam ao século XVII com gangues de rua, já durante o regime militar do Xogunato Tokugawa ou Período Edo (1603-1868). Todavia, foi no XIX, que alguns dos aspectos centrais da Yakuza como hoje conhecemos, se formalizaram, mas somente na segunda metade do XX, essa máfia ganhou influência nacional e virou manchete em outros países. 

O Xogunato Tokugawa foi o último dos xogunatos a governar o Japão, sendo o mais poderoso e longevo deles. Sua formação remeteu diretamente das ações de Tokugawa Ieyasu (1543-1616), o qual participou das campanha militares durante o Período Sengoku (1467-1603), época de intensa guerra civil no país. Tokugawa conseguiu consolidar o plano de reunificação do Japão, iniciado por Oda Nobunaga e continuado por Toyotomi Hideyoshi. Finalmente concluído esse plano, as guerras feudais chegaram ao fim, e Tokugawa ascendeu como xogum ("generalíssimo comandante").

Sob o novo xogunato o país entrou numa fase de paz, havendo alguns conflitos pontuais, mas nada equiparado a beligerância e carnificina de antes. Além disso, a organização administrativa, legal e social foram alteradas. Nesse período as cidades começaram a crescer e o comércio prosperou de forma significativa, graças as iniciativas começadas ainda no século XVI, com os contatos com os portugueses, ingleses e holandeses. 

Apesar da paz, não significou que a prosperidade veio junto. Grande parte da população japonesa pertencia a classe dos camponeses (hyakusho), que apesar da importância como produtores de alimentos, eram pobres. Além deles havia a classe dos artesãos (shokunin) e dos comerciantes (akindo), ambas eram subvalorizadas socialmente. Abaixo desses três, os quais formavam a plebe, estavam as subclasses que eram compostas pelos marginalizados (eta, hinin, burukamin) da sociedade feudal japonesa. Foi preciso comentar isso, pois a Yakuza surgiu a partir da plebe e dos marginalizados. 

Com a expansão do comércio e das cidades na segunda metade do século XVII, surgiram guildas de artesãos e comerciantes, mas também pequenas organizações informais, para apostas, agiotagem, extorsão, prostituição e contrabando. Essas organizações criminosas ao lado de gangues de ladrões, mercenários e assassinos, foram os embriões da Yakuza. É preciso destacar que naquele tempo, os ricos eram formados pela nobreza, a aristocracia feudal e a aristocracia militar. Teoricamente um samurai era um homem que fazia parte da elite, mesmo que ele não fosse rico, pois no Japão feudal, a ideia de pertencer a elite não era baseado na riqueza, mas a classe que pertencia. No entanto, os samurais não eram tratados da mesma forma, havendo aqueles que eram apenas soldados, enquanto outros eram funcionários públicos e daimiôs (senhores feudais). 

Sendo assim, mesmo ricos artesãos e comerciantes, eram socialmente malvistos por pertencerem a plebe. Entretanto, grande parte da população japonesa era pobre, além disso, soma-se a condição de que os marginalizados não tinham condições para ascender de classe, exercendo trabalhos degradantes e socialmente considerados inferiores e até imorais. Assim, em meio a esse cenário desolador, muitos homens que acabavam estando fadados a pobreza por conta da sua classe de origem, aceitavam entrar nas organizações criminosas para tentar fazer dinheiro, ganhar alguma proteção e até arranjar um propósito de vida, pois estamos falando de uma sociedade feudal em que a servidão era a base das relações sociais. Encontrar um mestre ou chefe para servir, pertencer a um grupo, era algo comum daquela sociedade. 

Kaplan e Dubro (2003, p. 4) comentam que no começo do século XVII existiam bandos de criminosos chamados kabuki-mono ("os malucos"), o que poderia ser equivalente a hoje aos punks (aqui no sentido pejorativo). Esses homens formavam pequenos grupos, usavam roupas velhas ou espalhafatosas, tinham cortes de cabelo considerados esquisitos; eram descritos como rudes e falavam empregando muitas gírias, além de se referirem uns aos outros por apelidos. Os kubuki-mono também eram referidos como hatamoto-yakko ou machi-yakko

Os autores apontam que parte desses homens eram ex-soldados ou ex-samurais, que com o fim das guerras feudais, ficaram desempregados, mas ao invés de se tornarem agricultores ou artesãos, optavam em entrar para gangues, adotando uma vida de crimes. Em outros casos, alguns dos kabuki-mono já eram criminosos desde a infância ou adolescência, como forma de tentar escapar do trabalho pesado no campo, ou acreditavam que no crime conseguiriam melhorar de vida. (KAPLAN, DUBRO, 2003, p. 5).

Esses grupos de criminosos operavam de forma errante, viajando entre as províncias, mas alguns se estabeleciam em fazendas, vilas, portos e cidades. Com o crescimento das cidades, vários negócios se desenvolveram, e alguns kabuki-mono acabaram se tornando gangues urbanas, envolvendo-se com jogos de azar, agiotagem, prostituição, bares, contrabandos, extorsão e outros crimes. Eles formaram territórios e clãs, isso ainda no século XVII. E, assim, essas organizações criminosas ainda informais foram se desenvolvendo ao longo do XVII e XVIII, já que as autoridades nunca conseguiram eliminá-las ou faziam vista grossa, pois alguns chefes criminosos eram homens que se tornaram influentes, além de que algumas gangues disfarçavam seus negócios ilícitos. 

Kaplan e Dubro (2003, p. 6) destacaram que no século XVIII, lendas, poemas, canções, contos e peças teatrais sobre os machi-yakko se desenvolveram. Algumas dessas histórias tratavam eles como criminosos perigosos e rudes, mas várias outras os representavam como heróis, retratando-os como os protetores dos fracos e oprimidos, irmandade de homens leais, e até mesmo os comparando como "bons ladrões" (otokodate) no melhor estilo do Robin Hood. Entretanto, essa propaganda benéfica se tratava mais de ficção do que realidade. 

No entanto, na transição do XVIII para o XIX, surgiu duas nomenclaturas para se referir a alguns tipos de criminosos: os bakuto (jogadores apostadores) e os tekiya (vendedores ambulantes). Esses dois grupos começaram a ganhar destaque no cenário criminoso japonês. Os bakuto atuavam em estradas e cidades, já os tekiya trabalhavam nas feiras, mercados e portos. Eles são considerados por vários historiadores como os grupos que viriam originar a yakuza, pois os machi-yakko estariam mais próximos de gangues de rua, mas esses dois no XIX começaram a constituir o que poderíamos chamar de "sindicatos do crime".

Siniawer (2008, p. 12) aponta que no século XIX os bakuto ganharam influência em várias cidades e vilas do país. Tendo se organizado em clãs (famílias), eles operavam apostas, agiotagem, controlavam casas de jogos, também tinham negócios envolvendo prostíbulos, bares, restaurantes, aluguéis de imóveis etc. No caso, Siniawer salienta que não necessariamente os bakuto fossem ladrões, pois naquele tempo, não havia leis rígidas para controlar jogos de azar e a prostituição não era totalmente proibida. No entanto, eles eram auxiliados por homens chamados de shishi ("matador"), geralmente ex-guerreiros ou ronins que se tornavam guardas, mercenários ou assassinos de aluguel, os quais protegiam os bakuto ou lutavam por eles nas brigas contra outros clãs. Inclusive, shishi foram convocados para lutar nas guerras que marcaram o final do xogunato Tokugawa, em que eles lutaram por ambos lados. 

Os bakuto também usavam trajes específicos, faziam uso de gírias, apelidos, mas dois aspectos se destacaram em sua cultura: a adoção de tatuagens e a prática do yubitsume ou otoshimae, em que um homem cortava um dos dedos das mãos (geralmente o mindinho) como forma de pedir desculpas por algum erro ou ofensa a um superior. Em alguns casos o ato era incentivado como prova de mostrar lealdade ao clã. 

Dois bakuto com suas tatuagens, fotografados na década de 1870. 

No caso do grupo dos tekiya, esses também não eram necessariamente criminosos, pois tratavam-se de comerciantes ambulantes ou caixeiros viajantes. Dessa forma, haviam tekiya que negociavam honestamente, mas existiam aqueles que vendiam mercadorias roubadas, contrabandeadas, falsificadas e adulteradas, além de participarem de lavagem de dinheiro, subornos e financiamento do crime. Por conta disso, existiam comerciantes que trabalhavam legalmente, no entanto, mantinham negócios ilícitos. Além de estarem associados as guildas de mercadores, os tekiya possuíam suas próprias organizações baseadas num patriarca ou chefe, seguindo uma hierarquia severa com código de lealdade e submissão. Eles também cooperavam com os bakuto e outros criminosos. (HILL, 2006, p. ). 

Nomenclatura

Até aqui vimos que nos séculos XVII ao XIX, não se empregava o termo yakuza, havendo vários nomes para se referir a esses criminosos, embora que no XIX prevaleceu o uso do termo bakuto. No caso da palavra yakuza essa é a junção de três palavras ya-ku-za as quais significam 8-9-3, que corresponde a uma sequência numérica de cartas usadas no jogo oicho-kabu, que é jogado com o baralho kabufuda ou hanafuda. Esse jogo tem regras parecidas com o bacará, por conta disso, quem tira a mão 8-9-3 tem azar, por ser uma jogada ruim. Pela condição dos bakuto serem envolvidos com jogos de azar, que naquele tempo, eram principalmente os jogos de cartas e de dados, o termo yakuza acabou se tornando uma gíria para se referir aos bakuto. Mas somente no XX essa palavra passou a ser normalmente empregada para se referir a esses homens num sentido pejorativo. 

O baralho kabufuda usado para se jogar oicho-kabu, jogo que originou a palavra yakuza. 

Mas embora a palavra yakuza seja atualmente mundialmente conhecida, no entanto, ela ainda hoje é considerada pejorativa entre os japoneses. Os membros da máfia não gostam de usá-la, optando em usar outros termos como gokudô ("caminho extremo ou caminho árduo"), em referência, a ser uma vida de submissão, lealdade e de perigos. No entanto, mais raramente alguns deles usam a expressão ninkyo dantai ("organização cavalheiresca"), uma referência as histórias do século XVIII, em que esses criminosos eram retratados como bons. (HILL, 2006). 

Mas a polícia, o governo e a imprensa do Japão costumam usar os termos gokudô ou boryuokudan ("grupo violento"), embora que a segunda palavra também possa ser usada no sentido de organização criminosa. Não obstante, existem também algumas gírias locais usadas em determinadas cidades e regiões para se referirem a yakuza. 

Hierarquia da yakuza

A forte hierarquia da yakuza é um legado direto dos tempos feudais do Xogunato Tokugawa, pois ali, surgiu a condição de que os grupos formados apenas por homens, os quais se sujeitavam a um chefe ou patriarca, chamado obayun. Esse líder organizava seu grupo no sentido de uma família ou clã (ikka), por conta disso, o obayun ser referido também como pai. Essa relação era reflexo do sistema feudal de suserania e vassalagem (no caso da yakuza, chamado de oyabun-kobun, relação pai e filho), mantido até hoje, embora não seja algo exclusivo da máfia japonesa, pois as máfias na Itália e Estados Unidos também são conhecidas por se organizarem em famílias, possuindo seu padrinho ou patriarca. (KAPLAN, DUBRO, 2003, p. 8).

A relação entre o oyabun e seus subordinados era selada por uma cerimônia com saquê, chamada de sakazuki, em que os membros de maior prestígio da família, tem o direito de beber, almoçar ou jantar com o chefe. Além disso, dependendo da hierarquia do indivíduo a quantidade de saquê servida variava, para expressar se sua hierarquia era alta ou baixa. Essa prática surgida no período do xogunato, ainda hoje é mantida por algumas famílias. Inclusive as hierarquias mais baixas também costumam se relacionar com os novatos e membros de poucos anos, levando-os para beber saquê, a fim de celebrar sua entrada para a família ou sua promoção. (HILL, 2008, p. 67). 

Ainda no final do século XVII encontramos menções a esse sistema de clãs, o qual foi sendo desenvolvido nos séculos seguintes até chegar a versão atual, surgida no XX, como se poder ver no quadro abaixo. 

Hierarquia de um clã da yakuza. 

No topo temos o chefe (patriarca, pai ou presidente) chamado de oyabun, mas também pode ser referido como kumicho. Em cada clã existe um chefe, embora que seja comum clãs menores serem vassalos de clãs maiores, logo, oyabun dessas famílias mais poderosas tem vários outros oyabun ao seu serviço. 

Não obstante, abaixo do chefe existem dois tipos de subchefes: o saiko-komon ou saiko-kanbu que atua como um administrador-sênior, as vezes comparado a um diretor-executivo ou o consigliere da máfia ítalo-americana. O saiko-komon cuida da parte burocrática e administrativa dos negócios da família, tendo subordinado diretamente a ele executivos (kanbu), advogados (shingiin), contadores (kaikei), além de gestores, administradores e secretários. Dependendo da extensão dos negócios da família, pode haver mais de um saiko-komon a serviço. (HILL, 2008, p. 66-67). 

Já os outros subchefes cuidam da parte da defesa e da atuação. Eles são o wakagashira (primeiro-tenente ou primeiro-capitão) e o shateigashira (segundo-tenente ou vice-capitão), ambos possuem cargos elevados na família, ditando ordens diretas. Eles cuidam de supervisionar os empregados, além de cuidar de negócios em distritos ou áreas específicas em que a família atue. Tais homens em alguns casos possuem direito para organizar seus funcionários, delegando cargos de chefia e confiança, incluindo o de so-honbucho (chefe de sede), em que um yakuza é nomeado para controlar alguma gangue ou negócio local, tendo que se reportar aos tenentes, já que dificilmente terá acesso ao chefe. (HILL, 2008, p. 66-67). 

Yakuzas numa fotografia da década de 1960. O uso de ternos foi um padrão adotado com base nas máfias ocidentais. 

No entanto, a maior parte dos membros da yakuza são formados pelos kumi-in ("soldados"), os quais são divididos nos kyodai (membros veteranos, os senpai no linguajar japonês) e os shatei (que inclui os membros com poucos anos de casa e os novatos). Genericamente esses homens eram chamados no passado de kobun (capangas). Os kyodai assumem cargos de mais confiança já que estão a mais tempo em serviço, podendo inclusive controlar shatei em alguns negócios. Já os shatei compreende grande parte da força de trabalho de uma família, atuando como vendedores, atendentes, garçons, apostadores, agiotas, capangas, seguranças, motoristas etc. (HILL, 2006, p. 67-68). 

Outro aspecto a ser comentado diz respeito a presença das mulheres. Ainda hoje formalmente mulheres não fazem parte da yakuza, nem são chamadas de gokudô. Todavia, elas trabalham para a máfia, em geral, exercendo cargos baixos como vendedoras, ajudantes, acompanhantes, prostitutas, cafetinas, secretárias, faxineiras, cozinheiras, garçonetes etc. Tecnicamente elas são vistas como "empregadas avulsas", as quais estão subordinadas aos negócios da máfia. Por outro lado, mesmo as esposas e filhas do chefe, dos tenentes e dos administradores não possuem participação nos negócios, embora existam algumas exceções em que esposas de chefes assumiram de forma interina o comando devido ao falecimento dos maridos. 

Além disso, dentro da yakuza ao longo de décadas imperou até mesmo casamentos arranjados, em que chefes para firmar alianças com outros clãs, negociavam suas filhas, irmãs e sobrinhas para criarem laços matrimoniais. Em outros casos, alguns chefes até ofereciam suas filhas em casamento para subordinados seus de confiança. E em situações mais extremas, algumas dessas mulheres foram obrigadas a se prostituir. O livro Yakuza Moon (2004), escrito pela filha de um oyabun, apresenta essa realidade difícil das mulheres que servem a máfia japonesa. 

As tatuagens na yakuza

A tatuagem no Japão é algo antigo, entretanto, foi a partir do século XVIII, que alguns bakuto começaram a se tatuar, condição essa, que no XIX possuímos pinturas, gravuras e até fotografias como a vista anteriormente mostrando homens tatuados. No xogunato Tokugawa ainda havia a prática em algumas épocas, de se tatuar (bokkei) ou marcar a ferro e fogo os criminosos, como forma de facilitar em saber caso fossem capturados novamente. Todavia, isso acabou gerando estigmas. Alguns desses homens como não conseguiam mais trabalho por conta disso, pois algumas marcas eram infligidas em lugares visíveis como no pescoço e até no rosto, migravam para o crime. Então em dado momento, alguns bakuto, tekiya e outros criminosos passaram a adotar tatuagens como forma de protesto ou identidade pessoal de sua cultura considerada marginal. No caso, a tatuagem se tornou uma marca estereotipada associada a yakuza, em que se ver homens com muitas tatuagens, mas nem sempre foi assim. Além disso, a tatuagem no país é tratada por alguns como arte, chamada de irezumi. (SINIAWER, 2008, p. 21-22). 

O uso de tatuagens dentro da yakuza é algo de caráter espiritualista e honorífico. Por exemplo, a depender do clã, determinados tipos de símbolos e imagens são vetados para qualquer membro, sendo que o gokudô deve provar sua lealdade e empenho com o clã, para ter a permissão de se tatuar com determinados símbolos e imagens. Por outro lado, as tatuagens normalmente remetem-se a figuras da mitologia e do folclore, pois para a cultura da yakuza, essa referência ao mitológico e até o religioso, faz parte da identidade cultural como ser japonês, mas também por ser parte da máfia. 

Yakuzas apresentando suas tatuagens. 

Outro aspecto a ser salientado é que diferente do que vemos em filmes, jogos, desenhos e quadrinhos, os yakuzas não ficam exibindo suas tatuagens, por questão de dois motivos principais: primeiro, isso ainda é tabu no Japão, em que pessoas com muitas tatuagens são suspeitas de serem criminosos (embora nem todo yakuza seja criminoso). Condição essa que existem lugares como praias, piscinas públicas, parques aquáticos, casas de banho, praças, em que é proibido homens tatuados de tirarem a camisa, pois pode gerar mal-entendido entre os demais frequentadores. 

Segundo, as tatuagens são um símbolo de identidade do homem (e até da mulher), em que deve-se zelar pela discrição. Ou seja, as tatuagens não são apenas pinturas, mas possuem todo um significado que deve ser reservado apenas a outros membros do clã e de pessoas próximas. Fato esse que normalmente não se tatua a nuca, o rosto, cabeça e as mãos, pois são partes visíveis, mas as tatuagens devem ficar ocultas. Todavia, há casos de alguns eventos e cerimônias, em que os gokudô são autorizados a exibirem suas tatuagens, como forma de mostrar respeito ao seu clã, mas também seu valor perante a sociedade. 

Fotografia dos anos 1960 ou 1970, mostrando algumas mulheres a serviço da yakuza, exibindo suas tatuagens. 

Não obstante, atualmente fazer tatuagens deixou de ser obrigatório em alguns clãs. Além disso, yakuzas que exibem corpos com muitas tatuagens costumam ser veteranos e saudosistas dessa prática, já que em geral, os yakuzas têm poucas tatuagens, normalmente nas costas, braços e peito. 

A máfia legalizada? 

Enquanto em outros países a máfia é algo ilegal, e ser associado ou membro dela é crime, no Japão a situação é mais complexa. a yakuza desde seus primórdios agiu na chamada "zona cinzenta", operando legalmente e ilegalmente na margem da lei. Tentativas de combatê-la são antigas, mas por conta de alguns clãs da yakuza terem negócios lícitos, agindo em prol da sociedade e até mesmo praticando filantropia, a yakuza conseguiu escapar as algemas da lei em várias ocasiões. Entretanto, no auge da máfia, época que os historiadores costumam apontar como tendo entre os anos de 1960 e 1990, a yakuza se organizou principalmente como sindicatos do crime, e isso contribuiu para aumentar sua má fama. (KAPLAN, DUBRO, 2003, p. 112-113).

Nesse período os sindicatos dominantes eram o Yamaguchi-gumi, o Inagawa-kai e o Sumiyoshi-kai. Segundo dados da polícia de 1989, esses três sindicatos reuniam pelo menos 3.197 clãs, os quais contabilizavam mais de 86 mil homens, apesar que estimativas sugiram que nas décadas de 1960 e 1970, houvessem mais de 100 mil ou 200 mil homens envolvidos com a máfia. (HILL, 2006, p. 65). 

Em seu auge a yakuza cometeu uma série de crimes como extorsão, contrabando, tráfico de drogas, tráfico de mulheres, pirataria, chantagem, sequestros, prostituição, apostas ilegais etc. No entanto, não é do feitio dessa máfia assaltos, roubos e assassinatos que chamem a atenção. Todavia, apesar dessa grande quantidade de homens envolvidos com a máfia, esses três sindicatos ainda continuam a existir, mesmo sabendo-se que cometeram vários crimes ao longo de décadas, mas por que isso acontece?

A resposta é complicada, pois a percepção japonesa sobre organização criminosa é diferente da vista em outros países. Por conta da yakuza operar na "zona cinzenta", isso não a torna totalmente ruim, pois existem clãs que como dito, agem legalmente. Mesmo o Yamaguchi-gumi, o qual é o maior sindicato da yakuza, possui negócios lícitos e até mesmo pratica filantropia, faz caridade, e ordena que seus membros evitem cometerem assaltos, roubos, se envolverem com tráfico de drogas, vandalismo e coisas do tipo. Além disso, você ser membro da yakuza, não é taxado como crime. Todavia, se você cometer algum ato ilícito sendo gokudô, então a polícia irá incriminá-lo. 

Outro exemplo para entender essa problemática quanto a legalidade da máfia, diz respeito a prostituição no Japão. Legalmente ela é proibida desde 1958, mas existem meios lícitos de ocultar a prostituição como clubes de stripper, clubes de acompanhantes (hostess clubs), clubes de fetichismo sexual, as soaplands (casas de banho eróticas) etc. Observa-se assim, como a legislação japonesa é bastante flexível, por conta disso, a yakuza ainda hoje existe, mesmo que tenha havido tentativas de proibi-la. 

Vale lembrar que nem todo empregado que atue num negócio que pertence a yakuza, seja um gokudô, pois como a máfia se expandiu para muitos negócios, é comum contratarem pessoas comuns, os chamados jun-kosei-in, que as vezes nem sabem que a loja, restaurante, bar, empresa, escritório, clínica, banca de revistas etc., em que trabalham, pertence a yakuza. 

Em 1991 o governo decidiu caçar os yakuzas, dando início a lei anti-boryukudan (ou lei anti-yakuza), a qual tornava ilegal organizações criminosas. Essa foi a grande ação do século XX em combate a máfia, no que resultou no fim de várias gangues e pequenos clãs. Segundo dados oficiais, pelo menos 192 clãs foram desmantelados. Pode parecer um número grande, mas em 1989, eram reconhecidos mais de 3.100 clãs, sendo assim, um valor ainda pequeno. (HILL, 2008, p. 251-253). No entanto, a lei anti-boryukudan continuou em operação, desmantelando outras famílias nos anos seguintes. Atualmente estima-se que existam mais de mil clãs em atividade, o que significa que uns dois mil chegaram ao fim durante trinta anos de ação dessa lei. 

Nos anos de 2010 e 2011 houve tentativas de algumas prefeituras de diminuir ainda mais a influência da máfia. A cidade de Fukoaka, em abril de 2010, lançou campanha para multar e desencorajar empresas e estabelecimentos comerciais e industriais que fizessem negócios com empresas controladas pela máfia. No ano seguinte, Okinawa, Tóquio e outras cidades adotaram medidas similares, incluindo impedir que empresas da yakuza pudessem disputar licitações e fazer negócios com o governo. Algumas dessas medidas seguem em ação. 

Mas se nas últimas três décadas a lei anti-yakuza conseguiu enfraquecer consideravelmente a máfia, incluindo diminuir os índices de violência, em parte graças aos regulamentos de forte controle de armas de fogo, condição essa que hoje em dia, raramente um gokudô utiliza pistolas e revólveres, diferente do que era no século passado. Por conta disso, a máfia acabou tendo que melhorar a ocultação de seus esquemas, assim como, passou a agir em outros países para suprir a perda de investimentos e territórios. Condição essa que hoje sabe-se que alguns clãs atuam na Coreia do Sul, China, Filipinas, Estados Unidos, Brasil e em outros países. 

Muitos clãs que caíram com a lei anti-yakuza eram clãs pequenos ou que não dispunham de contatos e dinheiro suficiente para subornos. Vale ressalvar que os três grandes sindicatos possuem contatos no meio político e policial, e isso concede proteção para seus negócios, além de que, eles também mascaram suas ações ilegais por trás de seus negócios ilícitos, o que dificulta classificá-los como "organizações criminosas" segundo a legislação japonesa, por conta disso, a yakuza ainda segue existindo. 

NOTA: A temática da yakuza rendeu filmes, livros, mangás, músicas, jogos, peças teatrais etc. 

NOTA 2: A franquia de jogos Ryu Ga Gotoku, mais conhecida internacionalmente pela tradução Like a Dragon ou Yakuza, é famosa por retratar o mundo da máfia japonesa, mesmo que apelando para visuais e ideias caricatas. 

NOTA 3: No cinema japonês os chamado yakuza eiga ou gokudo film, começaram a se popularizar no final dos anos 1950. 

NOTA 4: Os jogos Yakuza Kenzan! (2008) e Yakuza Ishin! (2014), retratam o bakuto durante o Xogunato Tokugawa. 

Referências bibliográficas: 

HILL, Peter B. E. The Japanese Mafia: Yakuza, Law, and the State. Oxford, Oxford University Press, 2006. 

KAPLAN, David E; DUBRO, Alec. Yakuza: Japan's criminal underworld. Berkeley, University of Californian Press, 2003. 

SINIAWER, Eiko Maruko. Ruffians, Yakuza, Nationalists. The violent politics of Modern Japan, 1860-1960. Ithaca, Cornell University Press, 2008. 

Links: 

O tatuador da Yakuza explica por que tatuagens nunca devem ser vistas

A Yakuza virou minha família': a artista que viveu no submundo da máfia japonesa para retratar suas mulheres


quarta-feira, 14 de setembro de 2022

150 anos do primeiro Censo do Brasil

Para não deixar passar em branco o sesquicentenário do Censo Demográfico no Brasil, redigi esse singelo texto para comentar um tema que normalmente é pouco conhecido pelos brasileiros, condição essa que a cada dez anos o Censo é realizado e as pessoas acham algo estranho, alguns chegam a dizer que nunca ouviram falar dele, sendo que são pessoas com seus trinta ou cinquenta anos, as quais passaram por três censos no mínimo. 

Uma lista para contabilizar número de moradores num domicilio. 

Introdução

No Ocidente a ideia para o censo adveio dos romanos, tendo surgido no final do Reino (753-509 a.C), mas somente aplicado propriamente ao longo da República (509-27 a.C). O censor era um cargo inicialmente restrito aos patrícios (elite), somente no século IV a.C, os plebeus tiveram acesso a esse cargo. O censor realizava basicamente três funções: a contagem populacional e de imóveis (residencial e comercial), isso normalmente era feito nas cidades; outra função era de zelar pela moral pública (regimem morum), denunciando qualquer imoralidade e determinados crimes a ordem pública; por fim, a terceira função era de fiscalizar obras públicas como estradas, aquedutos, pontes, praças, termas etc. Durante a época Imperial (27 a.C - 453 d.C) o cargo de censor teve alterações, e os imperadores tomaram para si também a função de zelar pela moral pública, pelo menos, em algumas épocas. 

Após o Império Romano o censo na Europa foi raramente aplicado, embora em outras localidades como o Império Inca, o Império Chinês e alguns domínios islâmicos o censo demográfico foi realizado algumas vezes. Entretanto, por séculos a ideia de se fazer o censo foi relegada, somente no XIX alguns países decidiram pô-la em prática, e o Brasil foi um dos pioneiros a estabelecer o censo e instituir mais tarde sua obrigatoriedade e regularidade. 

Instituindo o censo no Brasil

A ideia para o censo brasileiro se originou em 1846, sugerindo que o censo seria realizado a cada 8 anos. Entretanto, a ideia não foi aplicada de imediato, somente como o Decreto n. 797 de 1851 foi estabelecido o início do censo para o ano seguinte, porém, devido a falta de divulgação do que se tratava, somado a ignorância do povo, revoltas ocorreram no país, levando o governo a desistir de aplicar o censo em 1852. A ideia acabou sendo engavetada e esquecida. 

Vários anos se passaram e a ideia para o censo foi retomada com a Lei 1.829 de 9 de setembro de 1870, a qual instituía a extrema necessidade do país realizar um censo demográfico para se mensurar o número de habitantes e outros dados estatísticos. Para se ter ideia, ainda no XIX, muitos países não realizavam o censo, logo, o governo tinha uma ideia parcial da quantidade de habitantes, quantos eram homens, quantos eram mulheres, a faixa etária populacional, o número de empregados, desempregados, a renda etc. Já que o censo que deveria ter ocorrido em 1852 não foi concretizado, dessa vez, ele deveria ser feito.

Em 1871 foi criado o Departamento Geral de Estatística (DGE), o qual seria responsável por realizar o censo a cada 10 anos, além de analisar os dados coletados. Instituído o DGE, foi dada a ordem para se iniciar apuração de recursos e o planejamento para executar o censo. Finalmente em 1 de agosto de 1872 ele teve início. Naquela época o Brasil ainda um império, sendo governado por D. Pedro II (1825-1891).

Mapa do Império do Brasil na época do Censo de 1872. 

Os dados apurados pelo Censo de 1872

Tendo o censo finalmente sido realizado no ano de 1872, o Brasil, pôde conhecer nos anos seguintes, dados nunca antes contabilizados, já que valores equivalentes existiam somente em algumas cidades e províncias, mas nada equivalente a nível nacional. Todavia, o censo daquele ano não foi total como alguns pensam. Os recenseadores somente visitaram parte dos domicílios (chamados de "fogos" por conta dos fogões a lenha), principalmente nas cidades, vilas e algumas fazendas. Por sua vez, aldeias indígenas remotas, quilombos e fazendas de difícil acesso, ficaram de foram do censo. Além disso, o país era dividido em duas regiões (Norte e Sul), 20 províncias, 641 municípios e 1.473 paróquias.

No entanto, como o censo de 1872 foi realizado? Alguns brasileiros podem pensar que ele foi feito segundo os padrões atuais, em que recenseadores vão às ruas, indo de domicílio a domicílio, para entrevistar as pessoas. De fato, isso realmente ocorreu, mas não de forma tão abrangente como hoje. 

Os recenseadores de 1872 de início recorreram principalmente as informações das 1.473 paróquias, pois naquele tempo a Igreja Católica possuía função de cartório e tabelionato, logo, os arquivos das paróquias guardavam certidões de nascimento, casamento, óbito, adoção, alforria etc. Além dos arquivos paroquiais havia os arquivos públicos e militares, os quais forneceram informações para o censo. Além disso, tinha-se os registros dos funcionários públicos, das juntas de comércio, dos portos, dos tribunais etc. Logo, todos esses arquivos ajudaram em muito a facilitar o trabalho do censo, e quando tais dados não eram obtidos, os recenseadores iam a campo. Mas para se ter ideia, esse trabalho todo não levou meses como os censos mais recentes, mas demorou alguns anos. 

No quesito dos dados apurados, o censo avaliou:

  • População geral
  • População masculina
  • População feminina
  • População por raça (cor)
  • População por faixa etária
  • População por religião
  • População livre e escrava
  • Estado civil
  • Número de pessoas com deficiência
  • Número de estrangeiros 
  • Número de pessoas alfabetizadas
  • Número de pessoas por profissão

Esses resultados ainda hoje podem ser conferidos no site do IBGE. 

Um dos quadros resultantes do censo de 1872, apresentando alguns dos principais dados catalogados, no caso, para a Província do Espírito do Santo. 

O Censo de 1872 estimou que a população brasileira era de 9.930.478 habitantes, mas esse valor facilmente passaria dos 10 milhões, já que várias aldeias indígenas ficaram de fora, além de quilombos, fazendas distantes e nem todos os imigrantes foram identificados. De qualquer forma, desse total, 5.123.869 eram de homens e 4.806.609 eram de mulheres, um dado curioso, pois normalmente a população feminina costuma ser maior do que a masculina (homens vão para a guerra, se envolvem com a criminalidade e não costumam cuidar da saúde), mas naquele contexto o oposto ocorreu. Uma das hipóteses para isso seria o alto índice de mortes de mulheres sobretudo por conta do parto e doenças comuns. Aqui se salienta que naquele tempo, as mulheres costumavam casar a partir dos 12 anos de idade e ao chegarem aos 18 já teriam tido três ou quatro filhos, e por conta dessa precocidade, elas acabavam desenvolvendo distintos problemas de saúde. 

Mas quanto a questão da faixa etária, o censo demográfico informou:

  • 24,6% de crianças de 1 a 10 anos
  • 21,1% de adolescentes de 11 a 20 anos
  • 32,9% de adultos de 21 a 40 anos
  • 8,4% de adultos de 41 a 50 anos
  • 12,8% de adultos e idosos de 51 a 70 anos
  • 3,4% de idosos acima dos 71 anos

Por tais dados observa-se que havia uma alta taxa de crianças e adolescentes no país, sendo o número de idosos pequeno, já que dos 12,8%, uma parcela compreendia os idosos, identificados a partir dos 60 anos. Entretanto, um aspecto intrigante era a condição da faixa etária dos 40 anos ser pequena, talvez reflexo das mortes causadas pelas guerras que o Brasil participou, em que homens de distintas idades foram recrutados. 

Quanto a população dividida pela raça (pois se empregava esse conceito na época), aqui tivemos alguns problemas de identificação, pois as categorias elencadas: branco, pardo, negro e caboclo (indígena) mostrou margem de erro de interpretação. No caso, vários pardos eram na verdade indígenas, que optaram em não se declarar caboclos devido ao preconceito que existia. 

  • 38,3% de pardos
  • 38,1% de brancos
  • 19,7% de negros
  • 3,9% de caboclos (indígenas)

Tal valor não agradou os conservadores e eugenistas da época, os quais consideravam que o atraso social, moral, cultural e econômico do país se devia a miscigenação com "raças inferiores", o que gerou uma população degenerada. Por conta disso houve campanhas de incentivo de imigrantes italianos e alemães para tentar branquear a população que na sua maioria era escura (61,9% do total). De fato, atualmente grande parte da população brasileira segue ainda escura. 

Quadro com os dados sobre os escravizados da Província do Rio Grande do Norte, no censo de 1872. 

No aspecto religioso, o censo também apresentou dados bastante imprecisos. O resultado contabilizou que 99,7% dos brasileiros eram católicos, sendo o restante formado por não católicos como protestantes e judeus, sendo esses imigrantes. O problema é que esse resultado ignorou as religiões afro-brasileiras, indígenas, o espiritismo, o brasileiros protestantes e até outras religiões que existiam no país. Além disso, o senhor de escravos dizia que todos seus escravos eram católicos, mesmo que eles praticassem rituais para suas divindades, isso foi omitido ou ignorado. 

Um dos motivos para tais omissões talvez tenha se dado por causa da Questão Religiosa (1870-1874) que ocorreu em Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, em que os bispos dessas províncias entraram em embate contra a maçonaria e os mediadores da corte. Basicamente os bispos defendiam a proibição da maçonaria, de igrejas protestantes e de outras religiões no país. O censo apresentar um resultado de que a maioria da população era católica contribuía para o argumento dos bispos, apesar que eles foram derrotados em sua disputa dois anos depois. 

Acerca da escolaridade o censo não contabilizou os níveis escolares, apenas se a população era alfabetizada (sabia ler e escrever). Do total de entrevistados, 23,4% dos homens eram alfabetizados, já as mulheres representavam 13,4%. Entretanto, o número de analfabetos era bastante grande, correspondendo a 63,2% de pessoas. Isso se devia principalmente a falta de políticas públicas para a educação, sem contar que o acesso ao ensino superior era ainda mais restrito, reservado aos ricos e a burguesia. 

Por mais que Dom Pedro II fosse um erudito, nunca houve um incentivo a educação massiva da população; condição essa que poucas escolas foram criadas, apesar do Colégio Pedro II ter servido de modelo; nenhuma universidade foi fundada, mantendo-se apenas as faculdades e academias existentes. Não obstante, a própria sociedade não via a necessidade de se enviar os filhos às escolas, sobretudo, a população pobre. Para finalizar, os escravizados eram na maior parte das vezes, proibidos de estudar. 

Um dado interessante apurado pelo Censo de 1872 foi a respeito das pessoas com deficiência. Vale lembrar que D. Pedro II autorizou a criação do Imperial Instituto de Surdos-Mudos em 1857, sendo uma escola especial pioneira no país e nas Américas. Por conta disso, houve a presença dessa pesquisa no censo, o qual avaliou as seguintes deficiências: cegueira, surdo-mudo, aleijado, demência e alienado. É evidente que atualmente tais classificações são diferentes hoje em dia, pois uma pessoa surda não necessariamente seja muda, além de que o mudo não seja necessariamente surdo. Já a categoria de aleijado, para aquela época, normalmente se referia a pessoas que perderam uma das pernas. O alienado seria alguém com problemas mentais leves, já o demente possuía problemas mentais graves, inclusive alguns autores do período usavam a palavra como sinônimo de loucura. 

Por fim, um último dado a ser citado diz respeito ao da profissão. O censo definiu algumas categorias profissionais sendo elas: religiosos, juristas, profissionais liberais, comerciantes, militares, industriais, agricultores, operários, pessoas assalariadas, empregado doméstico, sem profissão definida. 

Na categoria de juristas estavam os advogados, notários, escrivães, juízes, procuradores e oficiais de justiça. Entre os profissionais liberais incluíam-se os médicos, cirurgiões, farmacêuticos, professores, funcionários públicos, parteiras e artistas. 

Na categoria de operários englobava uma série de atividades manuais como costureiras, alfaiates, chapeleiros, sapateiros, pedreiros, serralheiros, carpinteiros, mineradores, ferreiros, curtidores, tintureiros etc. 

Já as pessoas assalariadas foram definidas como aquelas que trabalhavam como criados domésticos ou eram jornaleiros (diarista). Lembrando que apesar de ainda existir a escravidão naquele tempo, alguns criados domésticos eram homens e mulheres livres e assalariados. Não obstante, o censo identificou um grande número de pessoas que declararam não possuir uma profissão definida, atuando em vários ofícios. Seriam trabalhadores avulsos. 

Considerações finais

Apesar de algumas lacunas, omissões e dados questionáveis quanto a determinadas categorias apresentadas, ainda assim, o Censo de 1872 foi uma grande façanha na história do Brasil e até no século XIX, pois como dito, poucos países realizam o censo naquele tempo. E o império brasileiro conseguiu computar dados de suas 20 províncias e 641 municípios. As várias tabelas geradas podem ser conferidas hoje, mostrando o grande empenho dos envolvidos no censo para poder proporcionar essas informações sobre o império. Mas infelizmente nem todo mundo deu valor isso, incluindo os políticos e autoridades. 

O Departamento Geral de Estatística (DGE) foi desmanchado em 1879, sem motivos claros, com isso, o censo de 1880 não ocorreu, no entanto, decidiu-se marcar ele para 1887, mas o projeto acabou sendo rejeitado. Em 1889 o império chegou ao fim, sendo proclamado a república, a qual querendo mostrar serviço imediato, realizou o Censo de 1890, seguindo o padrão do seu antecessor, mas com algumas mudanças, e a mais importante foi não conter informações sobre os escravos, já que a abolição havia sido aprovada em 13 de maio de 1888. Todavia, o censo de 1890 teve vários atrasos, durando anos para ser finalizado, quando ocorreu o censo de 1900. Apesar desses entraves e atrasos, o censo demográfico brasileiro continuou a ser realizado ao longo do século XX e agora no XXI. 

NOTA 1: Em 1936 foi criado o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o qual a partir de 1940 passou a ser responsável pelos censos no país. 

NOTA 2: Os censos brasileiros ocorreram nos anos de 1872, 1890, 1900, 1920, 1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1990, 2000, 2010 e 2022. 

NOTA 3: O censo de 1856 não ocorreu devido a ignorância do povo e protestos. O de 1880 foi cancelado sem motivos claros, o de 1910 não aconteceu por problemas políticos, o de 1930 foi adiado por conta da Revolução de 30, o de 2020 foi adiado por conta da pandemia de Covid-19.

NOTA 4: O IBGE, o INSS e outros institutos brasileiros, ainda adotam o termo antiquado de raça para se referir a cor das pessoas. Sendo um legado do racismo científico que imperou no censo imperial e nos primeiros censos republicanos. 

Fonte:

Dados do Censo de 1872

Referências bibliográficas: 

BISSIGO, Diego Nones. A "eloquente e irrecusável linguagem dos algarismos": A estatística no Brasil imperial e a produção do recenseamento de 1872. Dissertação de Mestrado em História, Universidade Federal de Santa Catarina, 2014. 

RIO CAMARGO, Alexandre de Paiva. O censo de 1872 e a utopia estatística do Brasil imperial. História Unisinos, vo. 22, n. 3, 2018, p. 414-428. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

200 anos da Independência do Brasil

Para se celebrar o bicentenário da independência brasileira, resolvi escrever esse resumo histórico sobre o processo de independência, o qual não começou em 1822, e também não terminou com ele. Sendo assim, abordei alguns momentos decisivos entre 1820 e 1825, que conotaram o início, desenvolvimento e conclusão da independência brasileira. 

Introdução

Ideias para emancipar algumas regiões do Brasil já existiam desde o período colonial, como o caso de Amador Bueno que tentou governar em 1641 como rei de São Paulo, ou a Inconfidência Mineira (1789) que tentou separar Minas Gerais do domínio português, ou a Insurreição Pernambucana (1817), que tentou promover a independência de Pernambuco. Além desses três casos, outros também ocorreram, no entanto, observa-se que ideias separatistas já existiam há bastante tempo, mas todas fracassaram. 

Todavia, a independência brasileira ocorrida em 1822 teve conexão direta com o contexto histórico pelo qual o Brasil e Portugal vivenciavam, sendo uma consequência do desgosto de parte da população lusitana por conta que a Família Real Portuguesa deixou o país em 1808, mudando-se para o Rio de Janeiro, estabelecendo-o como nova capital do império português pelos próximos anos. Além disso, com a mudança da corte para o Brasil, a antiga colônia foi gradativamente ganhando mais status político e alguns benefícios, vindo a partir de 1815 ser elevada ao posto de reino, formando o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815-1822). (MORAIS, 2006). 

Os portugueses que eram adeptos do colonialismo, não gostaram dessa mudança de status quo do Brasil, e isso acirrou os ânimos nos cinco anos seguintes, levando a protestos em Portugal que obrigaram o rei D. João VI a ter que voltar ao país para impedir um possível golpe de estado. 

A Revolução Liberal do Porto (1820)

A chamada revolução liberal iniciada no Porto, em Portugal, em 24 de agosto de 1820, reuniu algumas ideias políticas distintas: de um lado havia a proposta de manter o controle sobre o Brasil, incluindo restituir sua posição como colônia; de outro lado, os liberais exigiam o retorno da corte para Lisboa, e pediam também uma constituinte, ou seja, a criação de uma Constituição, já que Portugal não dispunha disso, sendo considerado uma nação absolutista. Tais ideias não tinham surgido em 1820, mas já circulavam no país há pelo menos cinco anos. (MORAIS, 2006). 

Em 1815 o exército francês de Napoleão Bonaparte que ainda ocupava terras em Portugal e Espanha, foi derrotado e expulso. Napoleão foi novamente capturado e enviado para a prisão. Com isso, uma junta formada por militares e maçons, se formou para tentar promover a recuperação de Portugal, ainda militarmente gerida pela Inglaterra, aliada do país. Além dessa questão, com o término das guerras napoleônicas, as quais foram o motivo para a Corte portuguesa ter se mudado para o Brasil, vários portugueses acreditavam que tendo se findado aquele conflito, em breve o rei D. João VI retornaria para o país, mas um ano se passou e depois outro ano, e em 1817, o general maçom Gomes Freires de Andrade (1757-1817) tentou promover um golpe de estado em Lisboa, para implantar um governo provisório republicano e liberal, já que ele estava insatisfeito pelo fato do rei português ainda morar no Brasil. O general Andrade e seus cúmplices foram condenados a pena de morte por crime de lesa-majestade. 

Dom João VI estava acostumado com a vida no Rio de Janeiro, além disso, acordos políticos com os ingleses o também obrigavam a manter um protetor inglês para cuidar da política do país. Não obstante, D. João VI nunca foi um monarca exemplar no sentido de ter esmero, tato e visão pela política. Fato esse que se tornou cômodo permanecer governando a partir do Brasil. 

Além dessa questão política com o término da guerra, o protetorado britânico e o descaso do monarca português, outro fator que contribuiu para a revolução de 1820, foi de caráter econômico, pois anteriormente os portos brasileiros estavam praticamente restritos a fazer comércio com Lisboa e o Porto, porém, com a política da Abertura dos portos em 1808, as duas cidades portuguesas perderam seu monopólio e isso gerou prejuízos grandes para os mercadores que dependiam dele. E passados mais de uma década os prejuízos não tinham sido sanados, com isso, juntas mercantes defendiam a revogação desse decreto. 

Apesar de frustrada a Conspiração de Lisboa em 1817, as ideias liberais e conspiratórias tinham se espalhado pelo país e voltaram a eclodir em 1820 através dos militares e maçons, depois ganhando apoio do clero, da nobreza e de outros segmentos da sociedade portuguesa. Na ocasião daquele ano, o lorde protetor de Portugal, o conde William Carr Beresford viajou ao Rio de Janeiro para tratar de assuntos políticos com D. João VI, na sua ausência, os conspiradores iniciaram a revolução no Porto, a qual se espalhou rapidamente. (MORAIS, 2006). 

Em setembro grande parte de Portugal havia aderido ao projeto da Constituinte, e em janeiro de 1821, a junta provisória do supremo governo se reuniu em Lisboa, criando um governo regencial provisório para iniciar a escrita da Constituição Portuguesa, tendo como base o modelo espanhol. Por sua vez, foi exigido o retorno imediato de D. João VI para deliberar assuntos políticos urgentes. 

Reunião das Cortes de Lisboa em janeiro de 1821. Oscar Pereira da Silva, 1922. 

A contragosto e sob pressão, o rei D. João VI teve que acatar a convocação das Cortes de Lisboa, inclusive sob risco de haver um golpe de estado a favor do republicanismo, pois até então, os revolucionários aceitaram manter a monarquia, mas limitando sua autoridade através de uma constituição, como os ingleses e espanhóis tinham feito. D. João VI a fim de não sofrer um golpe de estado e perder a coroa, partiu para Portugal no final de abril, mas deixou seu filho mais velho, Pedro como regente no Brasil. 

Gravura representando o retorno de Dom João VI à Portugal, após 13 anos distante do país. 

Revoltas no Brasil (1820-1821)

Tendo o rei D. João VI e parte da corte retornado a Lisboa, Dom Pedro continuava no Rio de Janeiro como regente, entretanto, as Cortes de Lisboa queriam que o príncipe voltasse também para seu país, pois consideravam que ele pudesse aderir ao movimento separatista que voltou a se difundir em algumas capitanias a partir de 1820. De fato, o temor das cortes lisboetas estava certo, naquela altura o príncipe Pedro já se engajara no movimento pela independência do Brasil. No entanto, a notícia não agradou a todos os brasileiros, alguns ainda mantinham-se juramentados ao governo português, enquanto outros declaravam apoio ao jovem príncipe. 

Ainda em 1820, panfletos defendendo a Revolução do Porto, mas também pedindo a independência do Brasil, começaram a circular em cidades como Salvador e Rio de Janeiro, em que se registraram discussões em algumas ruas e praças a favor ou contra. Nesse ponto a maioria dos portugueses que viviam no Brasil passaram a apoiar a revolução, o que incluiu também luso-brasileiros e até brasileiros, os quais consideravam que seria melhor o Brasil permanecer como parte do reino unido, do que tentar sua independência. Por outro lado, a maioria dos brasileiros eram a favor da independência e até mesmo alguns portugueses. 

Assim, capitanias como Bahia, Pará, Piauí e Maranhão se tornaram redutos de apoio a Portugal, por sua vez, a maioria da população do Rio de Janeiro, sobretudo, na capital, era a favor da independência. Em Recife e Olinda, foi promovido a Convenção de Beberibe (1821), em que publicamente várias pessoas decretaram apoio ao príncipe regente. Em Santos, os soldados brasileiros do 1o Batalhão de Caçadores entraram em conflito com soldados portugueses, havendo brigas ao longo de um mês. (DONATO, 1987). 

Todavia, um caso atípico nessa onda de manifestações ocorreu em Minas Gerais, onde em junho de 1821 eclodiu a breve Revolta dos Escravos das Lavras, em que milhares de escravizados e alguns abolicionistas chegaram a pegar em armas para confrontar as autoridades, defendendo apoio em Portugal, na vã ilusão de que aprovada a Constituição portuguesa, a escravidão teria fim. A revolta acabou sendo contida, mas se desconhece o número de feridos e mortos. (DONATO, 1987). 

Em setembro de 1821 uma carta das Cortes de Lisboa exigia que o príncipe Dom Pedro retornasse a Portugal imediatamente. No entanto, naquela altura, o regente já havia aderido ao movimento de independência, negando-se a acatar a ordem de retorno. Um de seus principais conselheiros o padre Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio (1778-1830), um dos nomes pouco conhecidos do grande público, o qual teve papel importante no processo de independência do Brasil, redigiu em dezembro daquele ano, o Manifesto do Fico, que foi lido no Rio de Janeiro, em 29 de dezembro. Nesse ato, Dom Pedro comprometia-se em não ir à Portugal e lutaria pela independência do Brasil. 

Dia do Fico e o governo provisório (1822)

O chamado Dia do Fico ocorreu onze dias após a leitura do Manifesto do Fico, em que novamente o príncipe regente Dom Pedro de Alcântara, sua esposa, Dona Leopoldina da Áustria, e os ministros e conselheiros como José Bonifácio, o padre Sampaio, além de militares, maçons, políticos, padres e outros apoiadores, se reuniram no Paço Real no centro da cidade do Rio de Janeiro, para redigir novo manifesto chamado de Termo de Vereação, o qual legitimava o compromisso do príncipe em permanecer no Brasil para defender a independência. (OLIVEIRA, 2018). 

Na ocasião, o príncipe discursou para a multidão que se reuniu ali, e posteriormente o ato foi publicado nos jornais e sendo difundido nas semanas seguintes pelo restante do reino. Mais tarde a segunda reposta de recusa de Dom Pedro, chegou à Lisboa, enfurecendo os membros das Cortes, que consideraram nova afronta do regente brasileiro. Tal atitude acirrou os ânimos entre os dois reinos. 

Retrato de D. Pedro I em 1822, aos 24 anos. 

No dia 11 de janeiro, o general português Jorge de Avilez, que se encontrava a serviço no Rio de Janeiro, reuniu uma tropa e ocupou o Morro do Castelo e outras localidades da cidade, no intuito de promover intimidação a Dom Pedro, ameaçando-o de aceitar ir à Portugal. Todavia, os cariocas indignados com a traição do general português pegaram em armas e se reuniram no Campo de Santana, onde o tenente-general Joaquim Xavier Curado assumiu o comando da força brasileira para fazer frente a ameaça do general Avilez. (GARCIA, 2012).

Avilez estava em menor número e sua posição de vantagem rapidamente mudou diante a adesão dos cidadãos cariocas à força de resistência para proteger o príncipe regente. Assim, o general Curado ofereceu uma saída pacífica, decretando que até o dia 8 de fevereiro, Avilez e sua tropa deixassem o Brasil. Mas o general português recusou a abandonar seu posto, com isso, no dia 9 de fevereiro, Dom Pedro lhe enviou uma carta dizendo que se ele não obedecesse a ordem, perderia quartel e apoio em qualquer lugar do Brasil, sendo considerado inimigo público. No dia seguinte, Avilez e seus homens começaram a embarcar em Praia Grande, partindo cinco dias depois. (GARCIA, 2012).

Resolvido o problema contra a traição do general Jorge de Avilez e sua tentativa de incitar uma revolta e conflito na capital, Dom Pedro em 16 de janeiro, tratou de montar um governo provisório, instituindo ministros para poder preparar os documentos para a proclamação da independência que ainda levaria alguns meses para ocorrer. 

“O príncipe regente dom Pedro forma o seu primeiro ministério do período da Independência, com José Bonifácio de Andrada e Silva (ministro do Reino), Miranda Montenegro, depois marquês da Vila Real da Praia Grande (Fazenda), o general Oliveira Álvares (Guerra) e o chefe de esquadra Farinha, conde de Sousel (Marinha). A pasta do Reino compreendia também então os Negócios Estrangeiros e os da Justiça. Em 4 de julho, criou-se o Ministério da Justiça, para o qual se passou Montenegro, sendo Martim Francisco nomeado ministro da Fazenda, e sucedendo o general Nóbrega a Oliveira Álvares. Assim continuou o gabinete até 28 de outubro, em que se retiraram todos os ministros, reorganizando-se dois dias depois o governo com José Bonifácio, Martim Francisco e Montenegro, nas mesmas repartições que haviam deixado (Império, Fazenda e Justiça), e com Vieira de Carvalho (depois general e marquês de Lages) e Cunha Moreira (ulteriormente almirante e visconde de Cabo Frio) nas da Guerra e Marinha”. (GARCIA, 2012, p. 60-61). 

Em reação ao governo provisório instituído em janeiro de 1822, as capitanias começaram a adotar medidas similares, destituindo governadores que eram a favor de Portugal ou do Brasil, instituindo juntas provisórias. Basicamente em quase todas as capitanias tais juntas surgiram, algumas inclusive duraram meses, sendo depostas em seguida e substituídas por outra junta. A rixa política entre apoiadores da revolução contra apoiadores da independência só havia começado.

O governo de Minas Gerais foi um dos quais se rebelou contra a regência, o que levou Dom Pedro e uma comitiva a viajar para aquela capitania em abril. O príncipe visitou Ouro Preto, Barbacena e São João del'Rei, e na base da diplomacia chegou a um acordo com os apoiadores que assumiram o governo provisório de forma pacífica. Em São Paulo também ocorreu desentendimentos quanto a destituição e nomeação de alguns militares e políticos, no caso, José Bonifácio a partir de algumas cartas tratou do ocorrido para evitar uma revolta no local. (OLIVEIRA, 2018). 

A Guerra de Independência (1822-1824)

A repercussão do Dia do Fico ainda se espalhava pelo reino, entretanto, ela não tardou a chegar em Salvador, antiga capital do Brasil. Condição essa que a situação na capital baiana se acirrou drasticamente em fins daquele mês. No caso, é preciso salientar que Salvador desde 1820 vivenciava uma disputa política efervescente, pois ainda naquele ano se formaram grupos políticos de liberais, conservadores, republicanos e monarquistas. Alguns desses grupos apoiavam a revolução portuguesa, defendendo a manutenção do reino unido, mas outros chegavam a defender o retorno do Brasil a condição de colônia. Na oposição tínhamos os defensores da independência e de uma monarquia constitucionalista, embora um menor número defendesse a independência, desde que criasse uma república. 

Tais grupos desde 1820 se confrontavam em geral através de panfletos e artigos de jornais, trocando insultos e deboches, as vezes alguma briga ocorria, mas nada de agravante como ocorreu em Minas Gerais em 1821, porém, a situação na Bahia mudou a partir de 19 de fevereiro em 1822, quando o general português Inácio Luís Madeira de Melo (1755-1833) decidiu agir, promovendo uma intervenção militar, tomando o controle da cidade, embora que isso não ocorreu de forma pacífica. Na manhã do dia 19, o brigadeiro Freitas Guimarães mobilizou uma tropa para resistir a ação autoritária de Madeira de Melo, iniciando combates pelas ruas de Salvador, o que levou Freitas Guimarães e seus homens se refugiarem no Forte de São Pedro. (GÁRCIA, 2012, p. 153). 

Portão do Forte de São Pedro, em Salvador, um dos palcos do início da guerra de independência brasileira. 

A batalha se desenrolou ao longo do dia, havendo dezenas de mortos e feridos. No entanto, os soldados portugueses se excederam no ataque, chegando a atacar civis e até invadir casas, lojas e um convento de freiras na Lapa. A abadessa e o capelão foram mortos no ataque. Mais tarde Madeira de Melo repudiou o ocorrido e puniu alguns daqueles soldados por sua truculência. Todavia, o brigadeiro Freitas Guimarães e sua tropa somente resistiram por pouco tempo, pois os soldados brasileiros começaram a desertar e fugiram, obrigando o brigadeiro a fazer o mesmo, com isso o forte foi ocupado pelo exército português. A guerra de independência havia iniciado. 

Salvador foi mantida sob guarda do general Madeira de Melo, e como o Brasil não dispunha de um Exército nem de uma Marinha, pois o grosso de suas tropas eram formadas por portugueses, Dom Pedro teve que pedir ajuda, no caso, ele recorreu ao general francês Pierre Labatut (1776-1849), veterano das Guerras Napoleônicas, que tinha participado de campanhas na América Latina, o qual vivia no Brasil desde 1819. Assim, Dom Pedro e seus ministros trataram de providenciar navios e o recrutamento voluntário, formando milícias para poderem lutar, sobretudo, na Bahia, a qual foi a província que mais concentrou batalhas na guerra de independência. 

O general Pierre Labatut, o qual liderou o Exército brasileiro na Bahia. 

Como Labatut já se encontrava no Rio de Janeiro, o general francês foi enviado com um exército pequeno para à Bahia ainda em abril, unindo forças com o coronel José de Barros Falcão de Lacerda (1775-1851), então principal liderança das forças brasileiras naquela província. No começo de maio, Labatut entrou em atividade. Em fins de junho, a Vila de Cachoeira na Bahia, foi palco de uma pequena batalha, em que os coronéis José Garcia Pacheco e Rodrigo Antônio Falcão Brandão se rebelaram contra o governo e decretaram apoio ao príncipe regente e a futura independência. Isso levou um navio português que estava ancorado no porto da vila a bombardeá-la, iniciando um conflito que durou mais alguns dias, porém, a adesão de voluntários a milícia liderada por Pacheco e Brandão se espalhou por outras vilas e fazendas, levando outros rebeldes a aderirem a guerra, indo apoiar o general Labatut nas cercanias de Salvador ou servindo em milícias espalhadas pelo Recôncavo baiano. (GARCIA, 2012). 

Em setembro ocorreu o recrutamento voluntário pelas províncias para alistar homens dispostos a irem lutar na Bahia, entretanto, uma mulher de vinte anos chamada Maria Quitéria de Jesus (1792-1853), disfarçada de homem, alistou-se no Batalhão dos Periquitos (ou Batalhão do Príncipe), atuando em Cachoeira e outras localidades baianas em 1822 e 1823. Maria Quitéria foi na época a única mulher oficialmente registrada no Exército brasileiro, embora outras mulheres foram voluntárias durante a guerra, atuando informalmente e não tendo o mesmo reconhecimento que Maria Quitéria, que chegou a ser condecorada pelo imperador. 

Maria Quitéria de Jesus imaginada por Domenico Failutti, 1920. 

Distintos pequenos conflitos ocorridos em campos e fazendas se sucederam na Bahia, embora que as principais batalhas foram travadas em Salvador, na ilha de Itaparica e na própria Baía de Todos os Santos. A Batalha do Pirajá ocorrida em 8 de novembro de 1822 (ou seja, depois da proclamação da independência) na cidade de Salvador, foi um dos principais conflitos da guerra. Embora em menor número, o exército brasileiro se saiu melhor, tendo poucas baixas e forçando os portugueses a recuarem em suas posições. Apesar do êxito, a capital baiana ainda seguia sob controle português, fato esse, que Labatut e os demais comandantes passaram meses sem ter um progresso real para libertar a cidade do jugo lusitano. (DONATI, 1998). 

Chegado o ano de 1823, tendo passado meses desde a Proclamação da Independência, a guerra na Bahia ainda continuava. As forças baianas receberam reforços do Rio de Janeiro, Alagoas, Pernambuco e Paraíba, endossando suas frentes de batalha. 

"O exército sitiador compunha-se então de 9.515 homens, sendo 7.973 de infantaria, 1.289 de artilharia e 253 de cavalaria. Eram da Bahia 7.072 homens, do Rio de Janeiro 1.344, de Pernambuco e da Paraíba 979 e de Alagoas 120. Além dessas forças, tínhamos na ilha de Itaparica 2.547 homens de infantaria e artilharia, sob o comando do tenente-coronel Antônio de Sousa Lima, depois brigadeiro honorário, e 710 marinheiros formavam a guarnição da flotilha de Itaparica, comandada pelo capitão-tenente João Francisco de Oliveira Botas. Subiam, pois, a 12.772 homens as forças brasileiras diante da Bahia, sem contar a esquadra comandada por lorde Cochrane. O general tinha na cidade 10.500 homens, apoiados por uma esquadra numerosa, mas já então a escassez de víveres ia tornando insustentável a sua posição". (GARCIA, 2012, p. 323). 

Em janeiro daquele ano, os portugueses falharam em tomar a Ilha de Itaparica, a qual fica situada diante de Salvador, na entrada da Baía de Todos os Santos, era um importante ponto estratégico. Várias tentativas de tomar a ilha ocorreram ainda em 1822, mas os portugueses fracassaram. Entre 7 e 9 de janeiro de 1823 ocorreu a Batalha de Itaparica, que marcou uma das piores derrotas para a marinha portuguesa, pois embora estivessem com mais navios de guerra, eles não conseguiram suplantar as defesas de Itaparica, que contou com a participação de civis, incluindo de mulheres, que serviram em combate. 

A ilha de Itaparica hoje compreende os municípios de Itaparica e Vera Cruz. Entre 1822 e 1823 a ilha foi cobiçada pelos portugueses durante a guerra de independência do Brasil, mas eles falharam em conquistá-la. 

Todavia, não foi apenas na Bahia que a guerra ocorreu, outras províncias como Maranhão, Piauí e Pará também contou com batalhas que tiveram início principalmente em 1823 devido a recusa de que algumas vilas e autoridades políticas e militares se negaram a reconhecer a independência brasileira. 

Na Província do Piauí, algumas vilas litorâneas ou próximas ao litoral, reconheceram a independência, porém, a então capital Oeiras e várias outras vilas do interior, ainda se mantinham leais a Coroa portuguesa. O major João José da Cunha Fidié (?-1856) era o governador de armas da província, por ser de origem portuguesa e contrário a independência brasileira, promoveu um golpe político, iniciando uma revolta. O governo brasileiro ordenou o envio de reforços para o Piauí, sendo enviado soldados do Maranhão e do Ceará, os quais se reuniram as tropas piauienses. 

A Batalha de Jenipapo travada em 13 de março de 1823, em Vila de Campo Maior, no Piauí, foi o maior conflito naquela província, contando com mais de duzentos mortos e mais de 500 prisioneiros. O exército português acabou vencendo na ocasião. 

Pintura retratado a Batalha de Genipapo. 

Apesar do envio de maranhenses para lutar no Piauí, a Província do Maranhão também tinha se rebelado contra a independência. A junta provisória do governo provincial se recusou a reconhecer o governo de D. Pedro I, porém, militares e políticos de outras vilas do Maranhão reconheciam o monarca, isso iniciou um levante, levando a guerra. A vila de Caxias se tornou um reduto para os portugueses insurretos. O próprio major Fidié marchou para lá para fornecer seu apoio, mas em abril de 1823, ele acabou sendo capturado pelos brasileiros. Apesar da derrota de Fidié em Caxias, a revolta no Maranhã ainda duraria mais alguns meses.

No Pará, a crise eclodiu em abril de 1823, quando o brigadeiro português José Maria de Moura (1772-1836) chegou aquela província para assumir o governo das armas, mas ele era apoiador da Coroa portuguesa, rebelando-se ao governo brasileiro. Um protesto popular ocorreu na capital Belém, defendendo a independência e a legitimidade do imperador D. Pedro I, mas Moura ordenou que a polícia sufocasse o protesto. Devido a guerra na Bahia que era prioridade, a ajuda para conter a revolta no Pará e Maranhão demorou mais algum tempo, no entanto, ela contou com a chegada do almirante Thomas Cochrane (1775-1860).

Retrato de Thomas Cochrane, primeiro-almirante do Brasil, na guerra de independência. 

Mais conhecido nos documentos do XIX como Lorde Cochrane, o então conde inglês estava em missão no Chile, sendo um veterano de guerra. Por intermédio de José Bonifácio que buscava um chefe para a Marinha brasileira que ainda estava sendo criada, cartas foram enviadas ao Chile. Cochrane aceitou o pedido e viajou ao Rio de Janeiro. Ele chegou ao Brasil em 13 de março, sendo posteriormente nomeado Primeiro-Almirante, título excepcional concedido a um estrangeiro. No começo de abril Cochrane zarpou com uma pequena esquadra rumo a Salvador para ajudar o general Labatut na libertação da capital baiana. Naquela altura o próprio Labatut estava desmoralizado e desacreditado, sofrendo inclusive traição de seus subordinados que o destituíram. 

Todavia, graças a esquadra de Cochrane, apesar de inferior numericamente a esquadra portuguesa, mas devido ao seu comando e bravura de seus homens, a esquadra forneceu apoio suficiente para ajudar na derrota portuguesa. Em 4 de maio de 1823 ocorreu a Batalha Naval de Olaria, em que os brasileiros conseguiram derrotar os portugueses e asseguram o controle das águas em torno de Itaparica. Após essa vitória, a Marinha forneceu apoio ao Exército nos meses seguintes. Em terra o Exército conseguiu ganhar algumas batalhas empurrando os portugueses para dentro de Salvador, até que finalmente em 2 de julho o Exército Libertador venceu. 

O general Madeira de Melo se rendeu, com isso, recebeu o direito de ir embora. Nos dias seguintes a esquadra portuguesa embarcou os seus soldados e oficiais e zarparam, sendo escoltadas até certo ponto por navios brasileiros. As embarcações portuguesas que se desviaram do caminho, foram atacadas, sendo aprisionadas. Dos 71 navios portugueses que deixaram a Baía de Todos os Santos, 40 retornaram a Portugal, os outros 30 foram capturados e 1 foi destruído. Mais de 2 mil portugueses foram feitos prisioneiros. (GARCIA, 2012). 

A libertação de Salvador foi um grande marco da Guerra de Independência, condição essa que 2 de julho é feriado local, em que se comemora efetivamente a a adesão da Bahia em reconhecer a independência brasileira. Não obstante, Cochrane tendo obtido vitória na guerra baiana, ele foi enviado para o Maranhão. Ainda em julho a esquadra brasileira chegou a São Luís, capital maranhense, em que Cochrane desembarcou tropas e bloqueou o porto da cidade, sob ameaça de abrir fogo contra os redutos portugueses. Ele convidou a junta provisória para negociar sua rendição e reconhecer a independência brasileira em 26 de julho. A junta acabou concordando com os termos. Por não ter derramado sangue ao liberar o Maranhão, Dom Pedro I concedeu a Cochrane o título de Marquês do Maranhão

John Pascoe Grenfell

Lorde Cochrane permaneceu em São Luís para cuidar que a notícia de rendição se espalhasse pela província, com isso, ele enviou o primeiro-tenente John Pascoe Grenfell (1800-1869) para tratar da pacificação do Pará. Grenfell agiu com autoritarismo e violência para conter a revolta, inclusive matando alguns supostos rebeldes, ameaçando de morte outros. Porém, o maior problema de sua ação ocorreu na tragédia do brigue Palhaço em outubro de 1823. No dia 16 uma desordem de civis e militares levou a briga entre portugueses e brasileiros, em que Grenfell ordenou a prisão arbitrária de todos os homens que estavam na rua, naquela noite. Mais de 250 homens foram presos. Cinco foram fuzilados no dia 17, o restante foi enviado para o porão do brigue Palhaço no dia 20, onde foram colocados em condições desumanas e morreram por falta de ar no dia 22, totalizando 252 vítimas. Apenas um homem sobreviveu. Após esse incidente a revolta no Pará foi encerrada de forma brutal. Dessa forma o Pará foi a última província assegurada, ou quase isso, pois, em 1823 o Brasil possuía um território extra, chamado Província da Cisplatina, o atual Uruguai. Sendo assim, a Cisplatina foi a última província brasileira a ser pacificada, já que a guerra ali somente se encerrou em 1824, mas vejamos um resumo desse conflito. 

A revolta na Cisplatina teve início ainda em janeiro de 1823, em que o general português Álvaro da Costa de Sousa de Macedo (1789-1835) negou-se a reconhecer a independência e tomou o controle de Montevidéu, em resposta o também general Carlos Frederico Lecor (1764-1836) - futuro Visconde da Laguna -, declarou Costa traidor e iniciou a mobilização de tropas para confrontá-lo. Observa-se que Lecor era português, apesar disso, ele foi a favor da independência. 

Lecor mobilizou sua tropa e afrontou Costa, todavia, o cerco a Montevidéu se estendeu por meses devido a falta de pessoal e o risco de destruir a cidade por conta disso. Com isso, optou-se por uma guerra lenta de desgaste. Mas nesse tempo, Lecor enviou tropas para desbaratar os portugueses insurretos em outras localidades da Cisplatina. Mas vendo que Álvaro da Costa não se deixou se intimidar por isso, pois confiava que os brasileiros não iriam invadir a Montevidéu, Lecor decidiu mudar de estratégia e forçar um bloqueio naval. 

“No dia 11 de outubro, chegou da Colônia do Sacramento uma divisão naval brasileira, que deu começo ao bloqueio do porto. Era comandada pelo capitão de mar e guerra Pedro Antônio Nunes, depois chefe de divisão, e compunha-se dos navios seguintes: corveta Liberal, navio chefe (22 bocas de fogo), do comandante Antônio Salema Garção; brigues Cacique (18, do comandante Antônio Joaquim do Couto), Guarani (16, do comandante James Nicholl) e Real Pedro (14, do comandante Francisco Bibiano de Castro); escunas Leopoldina (12, do comandante Francisco da Silva Lobão) e Seis de Fevereiro (uma peça, do comandante Francisco de Paula Osório). Total de seis navios, montando 83 peças e caronadas”. (GARCIA, 2012, p. 595). 

O bloqueio naval impediria o envio de suprimentos para a capital, assim como, as estradas para ela, também foram bloqueadas. Álvaro da Costa de imediato acreditou que isso poderia ser revertido por ações terrestres ou a marinha brasileira acabaria recuando, mas passados dez dias isso não ocorreu, então foi ordenado que seis navios portugueses, os: Conde dos Arcos, Restauradora, Fausto e Maria Teresa tentassem romper o bloqueio, assim, ocorreu uma batalha naval no dia 21 de outubro, resultando na vitória brasileira. Nenhum navio foi afundado de ambos os lados, mas alguns ficaram avariados, e, no caso, o Fausto chegou a encalhar para não afundar. 

Apesar da vitória brasileira, Costa ainda não se deu por vencido, com isso, o bloqueio permaneceu. Mais de duas semanas depois ele decidiu finalmente negociar. Emissários dos dois generais trataram dos termos de armistício em 18 de novembro, em que Álvaro da Costa apresentou a proposta de poder voltar para seu país com seu exército e liberaria a cidade nos próximos meses. A decisão foi aceita, mas a saída dele somente ocorreu definitivamente em março de 1824. Dessa forma, a Cisplatina foi a última província rebelde a ser pacificada. 

Proclamação da Independência (1822)

Das várias datas que marcaram o processo de independência do Brasil, a mais famosa consiste no 7 de setembro, dia simbólico para se celebrar a ruptura com o governo português. E digo simbólico, pois oficialmente a ruptura já tinha começado desde fevereiro de 1822, quando D. Pedro I instituiu seu governo provisório e isso gerou a guerra comentada acima. 

Em 6 de agosto foi publicado o Manifesto aos Povos do Brasil e as Nações Amigas, em que novamente Dom Pedro defendia a independência, a oposição portuguesa, o início de conflitos na Bahia, além de convocar o apoio do povo brasileiro e de outras nações a serem solidários a essa causa. Mas para evitar novas revoltas, Dom Pedro viajou para São Paulo, a fim de fechar acordos com a elite local, além de ver sua amante, a Marquesa de Santos. Na sua ausência, o ministro José Bonifácio, a princesa-regente Leopoldina e demais ministros finalizavam a documentação e cartas para anunciar a independência brasileira. (NOVAIS; MOTA, 1996). 

Dona Leopoldina em reunião com o Conselho de Ministros em 2 de setembro de 1822. Pintura de Georgina de Albuquerque, 1922. 

No dia 2 de setembro, a princesa-regente D. Leopoldina (1797-1829), reuniu o Conselho de Estado para declarar a independência do Brasil, já que a guerra na Bahia prosseguia, assim como, a ocupação na Cisplatina, além de que em outras províncias estavam ocorrendo tumultos que eclodiriam em revoltas nos próximos meses. Declarar a independência era crucial para confirmar aos apoiadores da corte e ao povo que realmente Dom Pedro estava fazendo valer sua autoridade como regente, embora que essa tenha sido contestada algumas vezes na ocasião. (NOVAIS; MOTA, 1996). 

Com a independência tendo sido aprovada pelo Conselho de Estado, um mensageiro foi enviado a São Paulo para comunicar Dom Pedro, que voltava de sua viagem a Santos. Assim, na noite de 7 de setembro, o príncipe-regente foi informado que sua esposa e ministros aprovaram a independência e ele a confirmou, originando o simbólico grito às margens do rio Ipiranga. Uma festa foi dada naquela ocasião e nos dias seguintes. Em 14 de setembro ele retornou ao Rio de Janeiro, em que também se comemorou sua volta e começou a se espalhar a notícia por panfletos e artigos de jornal que o Brasil havia rompido de vez com Portugal, se tornando uma pátria livre. (SOUZA, 2000). 

Dom Pedro anuncia a independência para uma multidão em São Paulo. Pintura de François-René Moreaux, 1844. 

Em retorno ao Rio de Janeiro, Dom Pedro decidiu providenciar os símbolos nacionais, para isso ele convidou o famoso pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), que residia no Brasil desde 1817 para esboçar o desenho da bandeira nacional. Debret inspirado nas cores e símbolos monárquicos, desenhou a primeira bandeira imperial, alterada posteriormente em 1853 e depois que serviu de modelo para atual bandeira republicana. Seu projeto foi aprovado em 18 de setembro de 1822. (LUZ, 2005). 

Primeira bandeira do Brasil como nação. Esteve em uso de 1822 a 1853. 

Embora a notícia da independência tenha se espalhado pelos meses seguintes, no entanto, como visto anteriormente, ela não teve um efeito imediato. A guerra na Bahia e na Cisplatina continuava, além de que revoltas ou recusas das juntas provisórias em reconhecer a independência. (SOUZA, 2000). 

Apesar do efeito lento provocado pelo 7 de setembro, o governo seguiu com suas atividades, marcando a coroação de Dom Pedro e Dona Leopoldina para dezembro daquele ano. E em 1823 o monarca convocou seus novos ministros (pois alguns se desentenderam com ele e pediram demissão ou foram demitidos), para se produzir uma constituição. 

A crise da primeira Constituição (1823)

A ideia para uma constituição brasileira tinha sido cogitada em 1822, mas devido ao processo de formalização da independência e a coroação do imperador, a proposta acabou sendo adiada para o ano seguinte. Assim, os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte começaram em 3 de maio de 1823, reunindo representantes das províncias. O projeto original era se inspirar na constituição portuguesa que tinha sido aprovada no ano anterior, de fato, algumas das ideias ali contidas foram mantidas para o modelo brasileiro em desenvolvimento. (NOVAIS; MOTA, 1996). 

A constituinte sofreu com vários desentendimentos em questões políticas e econômicas. De um lado havia os que defendiam um poder maior para o imperador, do outro tinha-se defensores de ideias liberais, sugerindo um Parlamento aos moldes britânico, e não um Senado como acabou sendo adotado. A adoção de uma monarquia parlamentarista diminuiria a autoridade do imperador, mas acabou se optando por manter a ideia do poder moderador, que permitia a intervenção política ordinária do monarca. 

De outro lado houve desentendimentos com questões econômicas envolvendo demarcação de propriedades, uma possível lei de terras (não seria uma reforma agrária), a manutenção da escravidão ou não (no fim, optou-se pela continuidade dessa), como elaborar o direito ao voto e a candidatura política com base em critérios econômicos; tributos, taxas e impostos etc. (NOVAIS; MOTA, 1996). 

Vale ressaltar que os membros da constituinte eram homens da elite e da burguesia, sendo formado por nobres, políticos, fazendeiros, ricos comerciantes, advogados, juízes e médicos, os quais eram de origem portuguesa ou brasileira. Isso gerou alguns desentendimentos, em que os brasileiros acusavam os portugueses de querem se favorecer da constituinte para beneficiar seus negócios e até emular a constituição de seu país. Por conta disso, surgiu um contra-projeto proposto por deputados influenciados pela Revolução Francesa, que acabou sendo recusado pela constituinte. 

Os meses foram se passando e nenhum consenso era chegado, até que em novembro ocorreu a chamada Noite da Agonia no dia 12. D. Pedro I insatisfeito com o desenvolvimento e atrasos da constituinte decidiu intervir, enviando o exército para interromper a assembleia e dando voz de prisão a alguns membros. Alguns deles de origem portuguesa foram deportados, incluindo José Bonifácio, que na época estava brigado com o imperador devido a desentendimentos quanto a direção que o governo deveria tomar. (NOVAIS; MOTA, 1996). 

A ação do monarca foi considerada ato autoritário, por não apenas intervir de forma arbitrária num processo democrático, mas de deportar e prender opositores, além de que destituída a constituinte, ele nomeou dez políticos de sua confiança para escrever uma nova proposta. Vale ressalvar que a assembleia de 1823 contava com mais de cem membros representando quatorze províncias. 

A proposta da Constituição de 1823 além de suas polêmicas para definir seu código, e a Noite da Agonia, ela também ficou conhecida pelo nome jocoso de "constituição da mandioca", termo usado por seus opositores para zombá-la, pois uma das propostas era definir que o direito ao voto somente seria concedido a homens que provassem uma renda mínima de 150 alqueires de mandioca, sendo a farinha de mandioca a base para alimentação dos escravos e empregados. Os opositores consideravam isso tremendamente injusto, pois somente alguns fazendeiros conseguiam produzir essa demanda, por outro lado, eles defendiam um sufrágio mais amplo, incluindo homens de diferentes camadas sociais. Mas a ideia acabou sendo recusada. 

A aprovação da Constituição (1824)

A nova constituição foi aprovada em 25 de março de 1824, tendo sido redigida por dez homens de confiança do imperador, sendo eles: João Severiano Maciel da Costa, Luiz José de Carvalho e Mello, Clemente Ferreira França, Marianno José Pereira da Fonseca, João Gomes da Silveira Mendonça, Francisco Villela Barboza, Barão de Santo Amaro, Antonio Luiz Pereira da Cunha, Manoel Jacintho Nogueira da Gama e José Joaquim Carneiro de Campos. 

Os quais influenciados pela Constituição Francesa de 1791, a Constituição Espanhola de 1812 e a Constituição Portuguesa de 1822, adotaram alguns premissas dessas cartas, mas mantendo a escravidão (a qual já tinha sido abolida nos outros três países citados), os latifúndios, o poder moderador, o voto restritivo apenas para homens sob determinadas condições, o Senado vitalício, o alistamento militar obrigatório, o Catolicismo como religião oficial do Estado, a hereditariedade monárquica, eleições para a Câmara, mas outros cargos políticos seriam indicados pelo monarca, entre outros preceitos. (NOGUEIRA, 2012). 

Capa da Constituição Brasileira de 1824. 

A constituição de 1824 possuía 179 artigos aprovados, diferente dos mais de 200 artigos propostos na versão anterior que foi rejeitada. Além disso, a nova constituição possuía um caráter flexível que permitia a votação de emendas para sua atualização, o que incluía até mesmo tocar em artigos sensíveis como organização política, eleições, jurisdição etc., fato esse que a a constituição permitia em tese haver uma votação para destituir a monarquia e adotar o republicanismo, pois ela não impedia esse tipo de conjectura. (NOGUEIRA, 2012). 

Essa flexibilidade foi utilizada para se aprovar atos constitucionais nos anos seguintes, mas isso é história para outra ocasião. O importante a saber que a Constituição de 1824 sofreu poucas alterações ao logo da vigência da monarquia, sendo abolida apenas em 1891, quando foi a aprovada a primeira constituição republicana do país. 

A Confederação do Equador (1824)

A aprovação da constituição não foi de agrado de parte da população, no entanto, a maior revolta contra ela ocorreu em Pernambuco. Insatisfeitos com a Noite da Agonia em 1823 e com a aprovação sem consulta da Constituição de 1824, o político Manoel de Carvalho Paes de Andrade (1774-1855) era o então governador de Pernambuco, de vertente liberal, ficou demasiadamente descontente com os rumos que o recente império estava tomando. Ele influenciado por Frei Caneca (1779-1825), religioso revolucionário que tinha participado da Insurreição Pernambucana de 1817, sugeriu o governador a protestar contra a aceitação da nova constituição. Manoel de Carvalho se cercou de outros participantes da insurreição e novos adeptos.

A Insurreição Pernambucana de 1817 defendia a independência regional, além do liberalismo e do republicanismo. Sete anos depois essas propostas foram retomadas pelos confederados, os quais adotaram o nome de Equador não em referência ao país, mas a Linha do Equador no intuito de promover que as províncias nordestinas e nortistas aderissem ao levante iniciado em Recife. Entretanto, a adesão não ocorreu como o esperado. Alagoas, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, que eram cotados como principais aliados, não aderiram a causa. Nas cidades da Parahyba e Natal, os políticos se manifestaram contrários a confederação, embora que em Fortaleza, houve manifestações a favor. Algumas dessas manifestações também ocorreram em vilas nesses estados, mas sem grande relevância. Além disso, alguns oficiais da Marinha dos Estados Unidos apoiaram a confederação. 

O imperador D. Pedro I enviou o capitão John Taylor (1808-1887), liderando os navios Niterói e Piranga, os quais chegaram ao Recife no final de junho, levando a mensagem para que o governador rebelde, Manoel de Carvalho renunciasse ao cargo e indicasse seu antecessor Paes Barreto para assumi-lo de forma interina. No entanto, Carvalho recusou-se, e os navios de Taylor nada podiam fazer, pois os fortes recifenses estavam apoiando a confederação. Qualquer ameaça de ataque, os canhões dos fortes retalhariam. Taylor partiu no dia 1 de julho, e no dia seguinte Manoel de Carvalho declarou a "independência de Pernambuco".

Mas a situação somente iria piorar para os confederados. O imperador indignado com aquela afronta enviou Lorde Cochrane com um exército, para tomar Recife e extirpar a revolta dos confederados. O monarca enviou Cochrane com três navios de guerra e dois navios de transporte, levando 1.200 soldados. Como seria difícil aportar no entorno do Recife, o almirante decidiu desembarcar o exército no Porto de Jaraguá (atualmente em Maceió), no dia 13 de agosto, de lá o general Francisco de Lima e Silva conduziu a tropa até Pernambuco, indo reunir forças com a milícia do ex-governador Paes Barreto, ordenado a reassumir seu cargo. (GARCIA, 2012).

Lorde Cochrane chegou a costa de Recife poucos dias depois, mantendo distância segura do alcance dos canhões dos fortes, além de ter enviado mensagem para que os confederados se rendessem. Entretanto, Manoel de Carvalho, Frei Caneca entre outros membros, se negaram a aceitar. No dia 28 de agosto o navio Leopoldina fez alguns disparos para intimidar os confederados, mas de nada adiantou. Por conta da resistência, Cochrane optou por um bloqueio naval. O bloqueio se estendeu pelos dias seguintes, até que em 10 de setembro, o capitão David Jewett chegou ao Recife com duas fragatas e um brigue, reforçando o bloqueio. (GARCIA, 2012).

No dia 12 de setembro teve início o cerco de Recife com a chegada do exército do general Lima e Silva, que foi confrontar a tropa do coronel José de Barros Falcão Lacerda que guarnecia a cidade. Ali teve início a Batalha do Recife, que contou com a atuação dos fortes do Brum e do Buraco, além de algumas escunas, as quais trocaram disparos com os navios do bloqueio naval. Em meio ao conflito, Manoel de Carvalho escapou na noite do dia 13, refugiando-se num navio inglês chamado Tweed. No dia 14, ele enviou uma carta ao capitão David Jewett, propondo termos de negociação, mas os termos foram recusados por ambos os lados. No dia 16 o capitão James Norton desembarcou em Recife com 300 homens para confrontar os rebeldes, conseguindo se apossar do Forte do Brum. Naquele mesmo dia, pela tarde, o general Lima e Silva capturou o Forte do Buraco e entrou com seu exército em Olinda. Os confederados tinham basicamente se rendido após quatro dias de conflito. (GARCIA, 2012). 

Combate do exército imperial contra o exército confederado no bairro de Afogados, no Recife, durante setembro de 1824. 

Apesar dos confederados no Recife terem se rendido ou foram presos, os confederados em outros estados ainda resistiram até novembro, quando a revolta foi definitivamente encerrada. Todavia, Manoel de Carvalho conseguiu se safar da pena de morte, porém, outros confederados foram condenados à forca. 

"Após alguns meses, a revolução foi vencida, tendo sido oito pessoas executadas no Recife, dentre elas Frei Caneca e o norte-americano Jones Heide Rodgers, mais seis revolucionários no Ceará e na Paraíba e três no Rio de Janeiro. À execução destes últimos, os republicanos e maçons Silva Loureiro, Metrovich e Ratcliff, seguiram-se manifestações de capitães de navios americanos, estacionados no porto, em homenagem aos mortos". (NOVAIS; MOTA, 1996, p. 59). 

A Confederação do Equador foi a última revolta que contestava a legitimidade do governo imperial no seu começo. Posteriormente teríamos outros conflitos como a Guerra da Cisplatina (1825-1828), mas esse motivado por outros fatores. 

Brasil reconhecido como independente (1825)

George Cunning

No ano de 1824 os Estados Unidos da América através da Doutrina Monroe (1823) a qual incentivava a independência das colônias na América Latina, reconheceu formalmente o governo de D. Pedro I, tendo sido a primeira nação a fazer isso. Em seguida a Inglaterra pretendeu fazer esse reconhecimento, mas por conta de ser aliada de Portugal, esse processo foi mais demorado, sendo principalmente coordenado pelo diplomata George Canning (1770-1827) na tentativa de levar a um consenso entre pai e filho. Apesar que a intriga nem fosse tanto entre D. João VI e seu filho, mas pela pressão das cortes e da constituinte serem contrárias a independência brasileira. No entanto, após as batalhas perdidas principalmente na Bahia e na Cisplatina, e os outros movimentos insurgentes no Rio de Janeiro, Maranhão, Piauí, Pará e Pernambuco terem falhado, Portugal não dispunha de condições militares para prolongar aquela guerra, já que a Bahia lhe custou muitos gastos e perdas. Com isso, em agosto de 1825, Canning conseguiu chegar a um acordo, em se pagar uma indenização para os portugueses e assumir a dívida deles. Mas isso não agradou Dom Pedro, pois o Brasil já tinha contraído empréstimos duas vezes com bancos ingleses em 1824 para pagar despesas oriundas dos danos causados pela guerra e o enfraquecimento econômico. Contrair um terceiro empréstimo e pagar a dívida dos outros, para ele e seu governo não era nada bom, mas naquele momento eles não tiveram outra opção. (FREIRE, 1987).

O novo valor proposto foi de 2 milhões de libras esterlinas, quantia muito alta para a época. Esse valor representava a quantia devida por Portugal a Inglaterra que era de 1,4 milhão de libras e 600 mil libras de indenização. Sem ter alternativa, o empréstimo de 2 milhões foi feito, tendo que se pagar 6,1 milhões nos próximos anos. Dessa forma, Portugal não saiu no lucro mesmo tendo recebido 600 mil libras, parte desse valor foi para pagar seus credores, e, por sua vez, o Brasil ficou endividado por mais de 30 anos com os bancos ingleses. (FREIRE, 1987). 

Dessa forma, a independência do Brasil foi consolidada em 1825 após o acordo de agosto em que se pagou indenização a Portugal e essa aceitou - mesmo que a contragosto - reconhecer a separação e formação do novo país. Por outro lado, os banqueiros ingleses saíram no lucro por terem emprestado dinheiro ao novo império sul-americano. Observa-se que o processo de independência foi conturbado, pois o país passou por uma guerra, crise econômica, instabilidade política e se emancipou-se definitivamente tendo contraído dívidas por vários anos. Apesar de todos esses problemas, a independência deu certo. 

NOTA: Em 1822 foram aprovados a bandeira nacional, o selo, o brasão de armas e outras insígnias imperiais. Todavia, o hino nacional somente foi criado em 1831.

NOTA 2: Em 1827 em acordo econômico com a Inglaterra, o Brasil favoreceu os ingleses com redução de impostos para poder manter o acordo e tentar aliviar a dívida. Por outro lado, eles exigiram o fim do tráfico negreiro e da escravidão, mas essa questão foi postergada por décadas. 

Fontes:

O Manifesto do Fico (1821)

Manifesto aos Povos do Brasil e as Nações Amigas (1822)

Constituição Brasileira de 1824

Referências bibliográficas:

COSTA E SILVA, Alberto da (org.). Crise colonial e independência: 1808-1830. Rio de Janeiro, Objetiva, 2011. 

FREIRE, Luiz. A questão da dívida externa. Correio Braziliense, 1 de abril de 1987. 

GARCIA, Rodolfo (org.). Obras do Barão do Rio Branco VI: Efemérides brasileiras. Brasília, Fundação Alexandre de Gusmão, 2012. 

LUZ, Milton. História dos símbolos nacionais. Brasília, Senado Federal, 2005. 

MORAIS, A. J. de Melo. A independência e o Império do Brasil. Brasília, Senado Federal, 2006. 

NOGUEIRA, Octaciano. Constituições Brasileiras, volume 1: 1824. 3a ed. Brasília, Senado Federal, 2012. 

NOVAIS, Fernando A; MOTA, Carlos Guilherme. A independência política do Brasil. São Paulo, Haucitec, 1996. 

OLIVEIRA, Marcelo França de. Diga ao povo que eu fico: os antecedentes da independência do Brasil. Rio de Janeiro, Casaletras, 2013. 

SODRÉ, Nelson Werneck. A razões da independência. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira S.A, 1965. 

SOUZA, Iara Lis C. A Independência do Brasil. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000. 

Links relacionados: 

200 anos do Dia do Fico (9 de janeiro de 1822)

As imperatrizes do Brasil

O que foi o 7 de setembro? (texto antigo que escrevi)