sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Taj Mahal, um monumento ao amor

Embora seja referido por alguns como um lindo palácio branco, na verdade o Taj Mahal consiste em um suntuoso mausoléu construído para uma imperatriz indiana, como símbolo do grande amor de seu marido por ela. 


Introdução: Os Mogóis

A ideia para se construir imponente mausoléu adveio do imperador Shan Jahan I (1592-1666), quinto soberano da Dinastia Mogol (1526-1848) que governou parte da Índia por séculos. Os mogóis (ou mughals) se diziam descendentes de Genghis Khan e de Tamerlão, dois poderosos conquistadores medievais, condição essa que o primeiro imperador mogol, Babur (1483-1530) dizia descender de ambos monarcas. Embora haja dúvidas quanto a tais genealogias, é fato que Babur conseguiu invadir o norte da Índia e fundar um reino ali, originando o que viria ser o Império Mogol. 

Babur governou por pouco tempo, apenas quatro anos, mas seu filho Humayun (1508-1556)  conseguiu manter-se no trono por vinte anos, legando o poder a seu filho Akbar, o Grande (1542-1605), o maior dos imperadores mogóis, o qual em seu longo reinado de 49 anos estabilizou o império e o fez prosperar, algo legado ao seu filho Jahangir (1569-1627), que manteve a prosperidade do pai, passando a investir nas artes. Contudo, revoltas eclodiram, levando ele e seus filhos a atuarem para contê-las. 

Seu herdeiro foi seu terceiro filho, Shan Jahan I, que saiu vitorioso contra as revoltas dos clãs Rajaputes e Lodis, além de que enfrentou seu irmão mais novo Sharyar Mirza, que tentou-lhe usurpar o trono. Assim, com tais vitórias, Shan Jahan pôde governar por trinta anos. Permitindo se dedicar ao mecenato de artistas e investir em obras públicas, já que era um grande admirador de palácios e jardins. 

Uma história de amor

Shan Jahan casou-se ainda na época que era príncipe, sendo seu primeiro casamento ocorrido em 1610, com Kandahari Begum (c. 1593-16??), na época com seus 16 anos, vindo a dar uma filha para ele. Contudo, ele precisava de um herdeiro varão. Assim, dois anos depois ele despojou Arjumand Banu Begum (1593-1631), filha de Abul Haçane Khan, um nobre de origem persa que trabalhava na corte. Ademais, o casamento foi arranjado também, pois Arjumand era sobrinha da imperatriz Nur Jahan, vigésima esposa do pai de Shan Jahan.

Relatos dizem que Arjumand tinha sido prometida a Shan Jahan anos antes, mas por ser nova, tiveram que adiar o casamento, condição que quando ela se casou com o príncipe, ela possuía seus 19 anos de idade. Arjumand passou a viver no palácio com seu marido e sua outra esposa, já que todos eram muçulmanos, prática comum naquela religião, além de que na própria Índia, a poligamia também fosse comum.  

Pintura retratando o imperador Shan Jahan e a imperatriz Mumtaz Mahal. Autoria desconhecida, século XVII. 

Mais tarde Arjumand foi apelidada de Mumtaz Mahal ("Excelência do palácio"). Apelido dado a condição de ela ser bastante bela e simpática. Por ser muçulmano, Shan Jahan casou-se várias vezes ao longo da vida, mas sua esposa preferida foi Mumtaz Mahal, com que teve 14 filhos ao longo de 19 anos de casamento, sendo oito meninos e seis meninas, embora que sete crianças vieram a falecer ainda prematuras, devido as sucessivas gestações da princesa. 

Embora tenha contraído matrimônio outras vezes, Shan Jahan teve poucos filhos com suas outras esposas, condição essa que designou seus principais herdeiros ao trono, os filhos que teve com Mumtaz, além de ter a escolhido para ser sua consorte principal, após assumir o trono em 1627. Dessa forma, Mumtaz Mahal se tornou imperatriz entre 1628 e 1631, seu reinado foi breve, pois ela faleceu aos 38 anos, após dar à luz a seu décimo quarto filho, uma menina. Na ocasião, o imperador estava em campanha militar quando sua esposa faleceu, abalando-o profundamente. 

O mais belo mausoléu da Índia

Mumtaz Mahal foi sepultada inicialmente em Gauhara Begum, onde Shan Jahan estava em guerra, depois ele mandou transferir o corpo da imperatriz para o cemitério real. Contudo, isso não foi o suficiente, ele estava decidido a prestar uma grande homenagem ao amor de sua vida, para isso, decidiu construir um mausoléu, prática até comum entre os governantes mogóis. No caso, os mausoléus consistem em tumbas de origem persa, as quais eram conhecidas por serem grandes, parecendo casas ou palacetes, para abrigar um ou mais restos mortais de alguém rico. A partir da Pérsia, outros povos adotaram a prática dos mausoléus. Sendo assim, Shan Jahan no ano de 1632 mandou iniciar as obras de um mausoléu para a imperatriz Mumtaz Mahal, mas que fosse o mais belo que existiria na Índia. 

O mausoléu feito de mármore branco consiste numa combinação de elementos da arquitetura mogol, islâmica e indiana. No entanto, além do mausoléu em si, todo o local ao redor também foi planejado, pois construiu-se um jardim e dois portões imponentes. Assim, em 1632, próximo ao rio Yamuna, nas terras da cidade de Agra. Inclusive é possível avistar o mausoléu a partir do Forte de Agra, principal fortificação militar da região, que abrigou imperadores mogóis por algum tempo. 

Planta do complexo do Taj Mahal. 

O complexo ocupa 17 hectares de área, estando dividido em seis áreas principais:
  1. O Jardim do Luar (Methab Bagh): situado na margem oposta do Yamuna, seguindo o padrão dos jardins islâmicos, com divisão em quatro quadrantes e uma grande fonte. 
  2. O terraço principal onde fica o mausoléu, uma mesquita e uma casa de hóspedes. 
  3. O Jardim Charbargh, novamente baseado em estilo islâmico, dividido em quadrantes, mas com canais e uma fonte ao centro dessa vez. Fica situado a frente do mausoléu. 
  4. O Naubat Khana (Casa do Tambor), um pavilhão situado depois do jardim central de Charbargh. O local era usado para festejos, cerimônias e pronunciamentos do monarca. Atualmente é um museu. 
  5. O Jilaukhana (Pátio Frontal), no qual ficava os aposentos da guarda e dos criados, além de dois túmulos menores. 
  6. O Taj Ganji, área que acomodava um bazar e recebia caravanas de mercadores e viajantes, hoje não existe mais. 
Ilustração do jardim principal do complexo do Taj Mahal. Aos lados do mausoléu estão a mesquita e a casa de hóspedes. 

A mesquita do Taj Mahal, construída em arenito vermelho. Diferente de outras mesquitas, ela não possui minaretes, pois esses foram construídos ao redor do mausoléu. 

O Naubat Khana, pavilhão de celebrações do Taj Mahal. 

As obras do complexo iniciaram em 1632, mas devido a vários fatores como redução de verbas, guerras e complexidade do projeto, demoraram para serem concluídas, sendo finalizadas apenas em 1653. Durando cerca de 21 anos. 

A arquitetura do mausoléu como salientado, é uma combinação de estilos arquitetônicos, como uma grande cúpula central em formato de cebola que é de origem islâmica, contendo um pináculo que carrega o símbolo do Império Mogol, além de decorações em formato de flor de lótus. Em seguida temos pequenas cúpulas do tipo amrud, também em estilo islâmico. Temos arcadas em estilo persa, balaustradas, chattri (pavilhões semiabertos) e cenefas (painéis esculpidos) em estilo indiano. Para completar os elementos exteriores dispomos de quatro minaretes, as tradicionais torres islâmicas encontradas em mesquitas. 

Detalhe da cúpula central e de duas cúpulas menores com seus chattris. Pode-se observar os motivos decorativos de origem indiana e persa. 

Tradicionalmente os mausoléus mogóis eram construídos de arenito vermelho e outras rochas, porém, Shan Jahan queria algo mais impactante, e decidiu que o mausoléu de sua esposa preferida fosse feito de mármore branco, mesmo que significasse ter que transportá-lo de longe, principalmente do Rajastão, a mais de 300 quilômetros de distância. Mas além do emprego do mármore, a estrutura também contém em sua ornamentação de flores o uso de pedras semipreciosas como o lápis-lazúli, jaspe e jade. 

O interior do mausoléu não possui várias câmaras ou salas como se imagina, mas concentra-se em uma grande câmara onde ao centro estão os cenotáfios da imperatriz Mumtaz Mahal e de seu marido Shan Jahan. Já os corpos dos mesmos, estão sepultados abaixo, numa câmara não acessível ao público. Ademais, o interior do mausoléu apresenta motivos de decoração floris e de origem islâmica e persa, contendo as arcadas decoradas e grandes janelas. A área dos túmulos é cercada por paredes de muxarabi, conhecidas por serem abertas, permitindo a passagem de luz e vento. Além disso, é preciso encontrar também citações do Corão

Os túmulos de Mumtaz Mahal e Shan Jahan dentro do Taj Mahal. 

Além do emprego de materiais nobres, o mausoléu também chama atenção por suas dimensões, grandes até mesmo para esse tipo de estrutura fúnebre. A ponta de seu pináculo fica a 73 metros de altura. Os quatro minaretes possuem cerca de 40 metros de altura. Os lados do mausoléu medem 58 metros, já a base onde ele foi construído, possui 95 metros de comprimento, também sendo feita de mármore. Por sua vez, o Jardim Charbargh possui 300 x 140 metros. Além de possuir poucas árvores e de pequeno porte para não ofuscar a beleza do Taj Mahal, que deveria ser contemplado de várias direções. 

Considerações finais

Shan Jahan passou vários anos obcecado com o projeto do Taj Mahal, ignorando outras necessidades do governo, mas principalmente ignorando a criação e educação dos próprios filhos. Em 1657, quando ficou bastante doente, ele nomeou seu filho mais velho Dario Shikoh (1615-1659) como seu legítimo herdeiro, já temendo que viesse a morrer. Na época ele possuía muitos filhos, mas optou em privilegiar os nascidos de Mumtaz. Entretanto, outro dos filhos dele com Mumtaz, não concordou com a decisão do pai, no caso, o príncipe Muhi al-Dim ou Auranguezebe (c. 1618-1707), que era um general talentoso, decidiu confrontar o irmão, aproveitando que o pai estava doente. 

Em um ato de traição, Auranguezebe derrotou as tropas do irmão em 1658, e o condenou a execução no ano seguinte. Por sua vez, ele alegou incapacidade do pai em governar, mandando transferi-lo para a Fortaleza de Agra, onde permaneceu o restante da vida, como um prisioneiro do próprio filho. Consequentemente o príncipe assumiu o trono, mudando seu nome para Alanguir I

Quando seu pai faleceu em 1666 aos 74 anos, ele decidiu cumprir o último desejo desse, o qual pediu que fosse sepultado ao lado de Mumtaz Mahal. Por ela ser a mãe de Alanguir, esse concordou em atender o desejo de seu velho pai. Apesar de ter traído a confiança do pai, o novo imperador ordenou que ninguém mais fosse sepultado no Taj Mahal, sendo aquela tumba única para seus pais. 

NOTA: Em 2007 a fundação suíça New7Wonders Foundation, escolheu as novas Sete Maravilhas do Mundo. O Taj Mahal foi um dos vencedores. 

NOTA 2: O escritor francês Jean Baptiste-Tavernier, em 1665, popularizou o suposto projeto do Taj Mahal preto, o qual seria idêntico ao original, mas construído no lado oposto do rio Yamuna, para abrigar os restos mortais do imperador Shan Jahan. Apesar da ideia curiosa, trata-se de uma invenção de Tavernier para atrair leitores. 

NOTA 3: Alguns autores antigos dizem que mais de 20 mil trabalhadores atuaram na construção do complexo do Taj Mahal, que também fez uso de mil elefantes. É sabido que o complexo foi bastante caro, se desconhecendo seu real valor, no entanto, os números apresentados tendem a serem exagerados. 

Referências bibliográficas

CONRAD, Phillipe. As civilizações das Estepes. Rio de Janeiro, Editions Ferni, 1976. 

DUTEMPLE, Lesley A. The Taj Mahal. Minneapolis, Twenty-First Century Books, 2003. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário