Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) a Marinha Alemã criou o projeto naval da Classe Bismarck, grandes e poderosos encouraçados, cujo objetivo era serem imbatíveis contra as forças navais britânica e americana. Antevendo que uma guerra em breve eclodiria, os alemães planejaram preparar vários desses navios, apesar que o tempo e os recursos somente deram para produzir dois deles: o Bismarck e o Triptz. Apesar disso, ambos se tornaram os maiores navios de guerra construídos durante o governo nazista. Não obstante, o Bismarck ganhou mais fama do que seu irmão, devido aos seus feitos e dificuldade de ser afundado, apesar de ter tido uma carreira breve.
O grande navio de guerra
Em sua política armamentista selvagem, de se criar uma poderosa força militar, os alemães do Terceiro Reich iniciaram uma série de projetos de se construir super-armas, o que incluiu o projeto da Classe Bismarck, iniciado em 1936 com a construção de um grande encouraçado, o maior já feito até então na história alemã. O projeto e o nome do navio foram dados em homenagem ao chanceler Otto von Bismarck (1815-1898), poderoso governante de mãos de ferro, que governou a Alemanha e a Prússia por quase vinte anos. Os feitos de Bismarck na política e nos tempos de guerra, o tornaram um símbolo de liderança entre os alemães. Assim, os nazistas procurando resgatar essa ideia de forte líder patriota, nomearam seu projeto naval em sua homenagem.
O encouraçado Bismarck levou dois anos para ser construído, as obras foram responsáveis pelo Blohm & Voss (1877-presente), um dos mais importantes estaleiros da Alemanha. O navio foi lançado ao mar no começo de 1939, contando com uma cerimônia como de costume, na qual participou Dorothee von Löwenfeld, uma bisneta de Otto von Bismarck, representando sua família e a memória de seu bisavô. O navio foi equipado e armado, ingressando na nova Marinha Alemã (Kriegsmarine) somente em 1940.
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| Lançamento do Bismarck em 14 de fevereiro de 1939, após ter sido concluído. |
Em quesito de armamento, o Bismarck possuía 8 poderosos canhões SK C/34 de 380 mm, 12 canhões C/26 de 150 mm, 16 canhões Flak 38 antiaéreos de 105 mm, 16 SK C/30 de 37 mm e 12 Flak 30 antiaéreos de 20 mm. Todo esse poderio combinava canhões de grosso calibre, com canhões de médio calibre e metralhadoras. Sua tripulação era de 2.200 homens, somados ao transporte de 4 hidroaviões.
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| O Bismarck fotografado em algum momento de 1940. |
Além disso, os testes navais foram realizados no Mar Báltico, nas baías de Kiel e de Gdánsk, região considerada mais segura, pois aquele mar estava praticamente sob controle alemão. A Suécia se manteve neutra, enquanto a Noruega e a Dinamarca foram ocupadas pelas forças nazistas. A Polônia também estava ocupada. Por sua vez, a Finlândia, a Estônia, a Lituânia e a Letônia, estavam ocupadas pela URSS. Sendo assim, o Bismarck estava em águas seguras para ser testado. No entanto, a tripulação notou problemas de mobilidade do grande navio, o qual apresentava dificuldade para fazer curvas. Ao retornar para Hamburgo ainda em fins de 1940, tentou-se corrigir esse problema nas hélices e leme do navio, mas os consertos não solucionaram totalmente isso.
O navio permaneceu semanas no porto de Hamburgo até ser autorizado navegar de volta a Baía de Kiel para refazer os testes. No caminho foi escoltado por aviões e outros navios, incluindo um quebra-gelo, pois a região estava congelada no caminho. Além disso, o Bismarck chegou a encalhar temporariamente em março durante sua viagem até Gotenhafen (atual Gdynia na Polônia), importante porto alemão na região, onde ele aguardaria suas novas ordens. Na ocasião, esperava-se que o navio Tirpitz, o irmão do Bismarck, pudesse lhe fazer companhia, mas suas obras atrasaram, adiando seu ingresso na Marinha para o ano seguinte.
Operação Rheinübung (1941)
Em maio de 1941, Adolf Hitler viajou até Gotenhafen para ver o Bismarck e repassar os planos da Operação Rheinübung, inspirada na Operação Berlim, que havia ocorrido entre janeiro e março daquele ano, resultando no ataque ao comboio de suprimentos enviado dos Estados Unidos para os Aliados na Europa. Vale lembrar que os EUA ainda não tinham entrado formalmente na guerra, mantendo-se na defensiva, apenas fornecendo suprimentos. Sendo assim, Hitler estava confiante de que o Bismarck faria um excelente desempenho em afundar alguns navios do próximo comboio de ajuda, o que prejudicaria as tropas Aliadas.
No caso, além do Bismarck, seguiria também o cruzador Prinz Eugen, com seus 212 metros de comprimento. Embora fosse trinta metros menor do que o Bismarck, ele possuía maior capacidade de manobrar, além de ser mais leve também. Ambos os navios atuariam em dupla para realizar aquela próxima operação, a qual teve início em 18 de maio, quando eles deixaram o porto de Gotenhafen no norte da Polônia, seguindo em direção a saída do Mar Báltico, de onde passaram por Bergen na Noruega, para uma parada técnica, depois continuaram viagem rumo ao Norte, contornando a Islândia, adentrando as águas do Estreito da Dinamarca, que apesar de levar esse nome, ele separa a Groenlândia da Islândia.
No dia 24 de maio de 1941, no Estreito da Dinamarca, os dois navios alemães estavam sendo aguardados pelos britânicos, os quais enviaram o HMS Hood e o HMS Prince of Wales, os quais aguardavam reforços de dois destroyers que levariam mais algumas horas para chegar. O Hood era veterano dos mares, já estando a duas décadas em operação, já o Prince of Wales era um navio novo, recentemente entrado em atividade. De qualquer forma, a Marinha Real Britânica acreditava que ambos os cruzadores conseguiriam manter os couraçados alemães ocupados, enquanto reforços estavam a caminho.
A Batalha do Estreito da Dinamarca teve início por volta das 5 horas da manhã horário local, resultou no afundamento do Hood e do Prince of Wales, ambos os cruzadores não foram páreos para o poderio esmagador e assombroso do Bismarck, o qual com seus poderosos canhões de SK C/34 de 380 mm, conseguiu perfurar a blindagem dos dois navios britânicos. No caso do Hood, a tragédia foi bem maior: dos 1.418 tripulantes e oficiais, apenas três conseguiram sobreviver. Já o Prince of Wales teve sua ponte avariada e perdeu alguns homens, entã́o decidiu recuar, conseguindo escapar.
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| Fotografia feita do Prinz Eugen, mostrando o Bismarck confrontando o Prince of Wales, em 24 de maio de 1941. |
A caçada ao Bismarck
Embora o Bismarck e o Prinz Eugen tenham conseguido vencer aquela batalha, ambos os navios saíram avariados. O HMS Hood e o HMS Príncipe de Gales eram potentes cruzadores, apesar de menores, nem por isso tão fracos assim. No caso, o Bismarck saiu daquela batalha avariado, tendo entrado água, não a ponto de afundá-lo, mas de deixá-lo lento. Entretanto, tal condição foi crucial para a vindoura derrota desse colosso naval.
A batalha do Estreito da Dinamarca findou-se entre as 6h e 7h, no restante do dia, os britânicos já tinham emitido ordens para mobilizar várias embarcações num raio de 400 milhas náuticas para se dirigirem à caça do Bismarck e do Prinz Eugen. Ao todo foram mobilizados 6 couraçados, 6 cruzadores de batalha, 2 porta-aviões, 13 cruzadores menores e 21 contra-torpedeiros.
Os reforços ainda demorariam algumas horas ou dias para chegar, contudo, o Príncipe de Gales em sua fuga foi encontrado pelos cruzadores Suffolk e Norfolk, os quais tinham sido enviados para apoiá-los na batalha daquela manhã, mas como estavam distantes, não chegaram a tempo. Contudo, por volta das 18h, os três navios britânicos voltaram a confrontar o Bismarck, disparando de longe, mas sem conseguir atingi-lo.
O Prinz Eugen foi ordenado a deixar a formação e seguir de volta ao continente para fazer reparos, a mesma ordem foi dada ao Bismarck. Que embora fosse mais pesado e tivesse entrado água, ainda assim, seus poderosos motores conseguiam mantê-lo numa velocidade alta para um navio daquele tamanho. O Prinz Eugen optou por uma rota mais longa, mas que evitaria encontrar navios britânicos, contudo, o capitão do Bismarck escolheu uma rota mais curta e mais perigosa para se dirigir até a base aliada na costa francesa. Apesar de navegar em alta velocidade, isso não poderia ser mantido por dias, além de que a marinha britânica estava principalmente atrás dele.
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| Em vermelho as rotas do Bismarck e do Prinz Eugen, em amarelo as rotas de algumas embarcações britânicas, entre os dias 18 e 27 de maio de 1941. |
Na madrugada do dia 25 de maio, o Bismarck saiu do alcance dos radares do Suffolk, do Norfolk e do Prince of Wales. O sinal de alerta foi emitido, pois não se poderia deixar aquele perigoso navio escapar. A chance de poder afundá-lo era aquela, enquanto ele estava sozinho e longe do suporte de aliados. Os britânicos perderam o Bismarck de vista por quase dois dias, mas sua localização somente foi conseguida graças a terem interceptados transmissões de rádio, embora que na primeira tentativa errou-se a localização do navio, mas na segunda tentativa, conseguiu-se detectar mais ou menos onde ele estaria. Na ocasião, o Bismarck rumava para o porto de Brest no noroeste da França, distando mais de 700 km dele.
Vários navios procuravam pelo Bismarck entre os dias 25 e 26, sua possível localização foi achada da noite do dia 26 de maio, sendo encontrado pelo HMS Sheffield e um avião do porta-aviões Ark Royal. Determinada a localização do leviatã de aço, emitiu-se o aviso para todos os navios nos arredores seguirem para as coordenadas repassadas, era o momento de se confrontar o Bismarck mais uma vez. Mas enquanto os reforços não chegavam, o Sheffield abriu fogo contra o navio alemão, mas o contra-ataque foi violento, penetrando a blindagem do convés, deixando vários feridos e alguns mortos, levando o capitão do navio britânico a recuar.
Enquanto o Sheffield recuava, alguns aviões do Ark Royal disparavam torpedos contra o Bismarck, mas eram rechaçados por sua artilharia antiaérea. No entanto, dois torpedos conseguiram atingir o navio alemão, um deles emperrou o leme bombordo (lado esquerdo), o que prejudicou o controle da embarcação. O capitão Lütjens comunicou ao comando que o navio estava com dificuldades de manobrar. A situação piorou nas horas seguintes, pois com o leme emperrado, o navio ficou a navegar em círculos, permitindo que as embarcações britânicas pudessem chegar.
Devido a escuridão, o ataque principal foi adiado para o dia seguinte, nesse período, o Bismarck passou à noite rodando em círculos, enquanto era atacado por contra-torpedeiros que tentavam fazer algum dano em seu casco. Mas a falta de visibilidade prejudicou acertarem o alvo. Na manhã do dia 27, decidiu-se enviar um avião do Bismarck com informações importantes, mas a catapulta de lançamento tinha sido danificada e ficou inoperante. O intento foi abandonado. O capitão Lütjens passou a ordem para se preparem para a batalha, pois agora com o raiar do dia, todas as embarcações britânicas e aliadas em volta, iriam atacar com força total.
As 8h43 o HMS King George V e o HMS Rodney iniciaram os ataques. Posteriormente os cruzadores Norfolk e Dortsetshire se uniram ao ataque. O Bismarck revidava impetuosamente, mas um dos disparos inimigos atingiu a ponte, tendo matado parte do pessoal de controle, possivelmente o próprio capitão Lütjens.
As 10h o Bismarck praticamente estava derrotado. Os quatro navios britânicos dispararam mais de mil projéteis contra ele, a ponto de que o navio alemão estava em chamas e já tombando para o bombordo. Diante dessa situação, o Rodney se aproximou mais para realizar os disparos finais, mas não conseguindo acertar, recuou devido a estar com pouco combustível, mas enquanto isso ocorria, o primeiro oficial que assumiu o comando com a morte do capitão, ordenou a evacuação do navio e seu afundamento. A ideia não era permitir que os britânicos conseguissem se apossar do Bismarck e rebocá-lo.
Enquanto o Dortsetshire seguia disparando torpedos, as 10h35 bombas explodiram no interior do Bismarck, acelerando seu afundamento. 400 homens pelo menos pularam ao mar, a maioria morreu. O Dortsetshire e o Maori conseguiram resgatar 111 desse total. Outros cinco sobreviventes foram encontrados por um u-boat alemão, os quais conseguiram sobreviver num bote salva-vidas. No entanto, por volta das 11h do dia 27 de maio, o Bismarck praticamente tinha afundado, vitimando mais de dois mil tripulantes.
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| Fotografia mostrando sobreviventes do Bismarck sendo resgatados pela tripulação do Dortsetshire, em 27 de maio de 1941. |
O Bismarck nos apresenta uma história famosa, não por ter sido gloriosa, mas ao contrário, por ter sido desastrosa. Ele foi o mais caro, maior e mais poderoso navio construído pelos alemães na década de 1930, apesar do altíssimo investimento, sua atuação foi um fiasco estrondoso. O Bismarck esteve em atividade por menos de um ano, conseguiu abater apenas um navio inimigo, embora tenha danificado outras embarcações. Além disso, ele em sua missão de estreia a Operação Rheinübung, falhou em cumpri-la.
Embora tenha conseguido resistir por várias horas entre os dias 26 e 27, é fato que uma combinação de fatores tornou o Bismarck num gigantesco fiasco. O navio em suas operações de teste apresentou falhas no leme, tendo que ser consertado, a soberba alemã nazista de achar que apenas dois navios conseguiriam atacar um comboio naval, era o suficiente, a falta de experiência do capitão Lütjens, afastado da vida marítima após anos de serviços burocráticos. Soma-se também a condição de que a blindagem do Bismarck não era tão superior quanto os alemães acreditavam ser, além do azar que um dos lemes quebrou e emperrou, impossibilitando ele de escapar.
Na época em que ele afundou, relatos ingleses informavam que seu naufrágio se deveu aos torpedos disparados pelo Dortsetshire, no entanto, foi uma combinação do dano causado pelo bombardeio de quatro navios que o atacavam e os explosivos usados pela própria tripulação para acelerar o processo. Além disso, entre os alemães correu o relato de que o Bismarck teria antes de ser derrotado, afundado um navio inglês e cinco aviões, algo que foi desmentido mais tarde.
Por fim, a trajetória do Bismarck revela que mesmo grandes armas de guerra não necessariamente são infalíveis, assim como, podem se revelar como um desastre gigantesco mediante a incompetência de comando, falhas estruturais e a arrogância de subestimar o inimigo e as adversidades.
NOTA: Embora o Bismarck e o Triptz medissem em torno de 250 metros de comprimento, os japoneses chegaram a fazer navios de guerra ainda maiores, sendo eles o Musashi com 263 metros e o Yamato com 260 metros. Além de serem mais compridos, esses tinham um poder de fogo superior, com canhões de calibre maior, além de terem causado problemas aos americanos na guerra no Pacífico.
NOTA 2: A história do Bismarck levou o escritor C. S. Forester a publicar o livro Last Nine Days of Bismarck (1959). A obra foi adaptada ao cinema com o nome de Sink the Bismarck! (1960)
NOTA 3: Os destroços do Bismarck foram localizados em 1989, pelo oceanógrafo Robert Ballard, o mesmo que localizou o Titanic. O naufrágio do Bismarck está situado na encosta de um vulcão submarino a mais de quatro mil metros de profundidade e uma distância de mais de 650 quilômetros de Brest, porto para qual ele se dirigia.
Referências bibliográficas
WILLIAMSON, Gordon. German Battleships 1939–45. Oxford: Osprey Publishing, 2003.
ZETTERLING, Niklas; TAMELANDER, Michael. Bismarck: The Final Days of Germany's Greatest Battleship. Drexel Hill: Casemate, 2009.






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