Fundada em 1923 os estúdios Disney somente começaram a ganhar destaque nos Estados Unidos entre os anos de 1927 e 1928, quando lançaram dois de seus mais famosos personagens iniciais, Oswaldo e Mickey, os quais foram responsáveis por tornar Walt Disney nacionalmente conhecido e mais tarde com o Mickey, sua fama se espalhar para outros países. O presente texto conta um pouco do início do estúdio e a importância desses personagens para a consolidação da empresa, em uma época que ela era focada em animações de curta-metragem em preto e branco e sem dublagem.
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| Oswaldo e Mickey |
Em 16 de outubro de 1923 os irmãos Walt (1901-1966) e Roy Oliver (1893-1971) fundaram a Disney Brothers Cartoon Studios na Califórnia. Ambos já vinham trabalhando nos últimos anos no ramo da ilustração e da animação, o qual era considerado bastante promissor. Walt Disney inclusive em 1922 tinha criado um personagem chamado Julius, o Gato (parecido com o Gato Félix), que fez participações especiais em alguns filmes na fase inicial.
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| Os irmãos Walt e Roy Oliver Disney na década de 1920. |
Assim, entre 1923 e 1927 foram produzidos 57 filmes curtas-metragens que ficaram conhecidos como Alice Comedies, mostrando a grande popularidade da personagem nos primórdios da Disney. Basicamente essa série live-action com animação foi quem conseguiu sustentar a empresa em seus primeiros anos. Quatro atrizes interpretaram Alice nesse período: Virginia Davis (1923-1925), Margie Gay (1925-1927), Dawn O'Day (1925) e Lois Hardwick (1927).
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| Cena do filme Alice's Egg Plant (1925), mostrando Julius the Cat e Alice. |
No ano de 1926 a empresa mudou de endereço em Los Angeles, assim como se reorganizou. Walt ficou centrado na parte da produção dos filmes, enquanto Roy focou na administração da empresa. Por sua vez, a empresa mudou de nome para Walt Disney Studios, nome que manteve até 1986. De qualquer forma, a mudança também marcou o crescimento do estúdio, ampliando seu número de funcionários e recursos disponíveis. Condição essa que a popularidade alcançada com os filmes da Alice, atraiu a atenção de grandes estúdios.
Oswaldo, o Coelho Sortudo (1927)
As animações da Walt Disney Studios atraíram a atenção da Winkler Pictures e da Universal Pictures. A primeira empresa queria produzir filmes animados, mas não tinha experiência no ramo, já a segunda ficou responsável por distribuir os filmes nos cinemas. Assim, Walt Disney apresentou alguns de seus desenhos, como o do gato Julius (1922-1927), todavia, ele não foi considerado promissor já que era parecido com o Gato Félix (1919), personagem que a Winkler já tinha trabalhado. Então ele solicitou que fosse apresentado um projeto novo e inovador. Walt Disney em parceria do desenhista Ub Iwerks (1901-1971), o qual trabalhava com Disney desde 1919, o ajudou nessa empreitada. Em algumas semanas eles apresentaram Oswaldo, o Coelho Sortudo (Oswald the Lucky Rabbit).
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| Cena de abertura de Trolley Troubles (1927), o primeiro filme de Oswaldo. |
O contrato havia tido um começo promissor, mas com as infames cláusulas em letras miúdas. Com isso a empresa começou a produzir os filmes seguintes, totalizando 27 produções. Mas nesse ponto ocorreu um problema nessa parceria. Diante da popularidade de Oswaldo, o Coelho Sortudo, a Winkler Pictures e a Universal Pictures ficaram interessadas cada vez mais na marca, a ponto de se valerem de uma artimanha para tirar de Walt Disney o controle do personagem.
Quando Walt assinou o contrato em 1927, as cláusulas em letras miúdas determinavam que a Winkler e a Universal deteriam os direitos autorais do personagem, pois financiavam sua produção e a distribuição dos filmes. Como Walt Disney necessitava de dinheiro para a companhia, acabou aceitando o acordo. Em 1928 ele viajou a Nova York para renegociar o contrato, solicitando mais dinheiros para se fazer mais filmes, além de reaver os direitos autorais, mas as duas empresas se negaram a fazer isso e pressionaram Walt Disney a trabalhar com um orçamento menor, ele se recusou, então foi retirado do projeto.
A partir de setembro de 1928 os filmes de Oswaldo passaram a serem produzidos pela Winkler Pictures, tendo Walter Lantz (1899-1994) na supervisão deles. O fato é que Oswaldo continuou sendo popular ao longo de 1929, levando Lantz a negociar com a Universal Pictures a obtenção dos direitos de produção do personagem, assim, ainda em 1929, Oswaldo foi removido da Winkler Pictures e passado para Walter Lantz Studio, que controlou os direitos do personagem até 1938, tendo produzido mais de cento e cinquenta filmes dele. No fim, a Disney e a Winkler saíram perdendo, ou quase isso.
Mickey Mouse (1928)
Tendo perdido os direitos autorais sobre Oswaldo e sendo removido da produção de seus filmes, Walt e Roy se viram à beira do desespero, pois não tinham mais financiadores e contratos para manter a renda do estúdio, assim, Walt em parceria com Ub Iwerks trataram de pensar num novo personagem que pudesse atrair investidores, após dias de trabalho eles criaram um camundongo chamado Mickey e fizeram um filme intitulado Plane Crazy (1928). Após exibições testes com investidores da Metro-Goldwyn-Mayer Cartoon Studios (MGM), esses não tiveram interesse no filme, alegando dificuldades de exibi-lo nos cinemas e teatros.

Cartaz do filme.
Em Plane Crazy somos apresentados a Mickey Mouse e sua namorada Minnie, além de outros personagens figurantes que ajudam Mickey a construir um avião funcional, já que os anteriores sempre davam problemas. O filme original era mudo, mas foi relançado em 1929 com áudio. Contudo, apesar da recusa da MGM, Walt Disney seguiu apostando em Mickey, produzindo seu segundo filme intitulado Steamboat Willie (1928), dessa vez mostrando o protagonista pilotando um barco, o retorno de Bafo, mas o destaque por ser uma animação com trilha sonora. O resultado é que Steamboat Willie foi um sucesso imediato, tendo sido distribuído pela Celebrity Productions, que decidiu apostar no novo desenho de Walt Disney.
Com o sucesso do novo filme, Walt Disney fechou parceria de um ano com a Celebrity Productions, resultando no lançamento de 15 filmes curtas-metragens, o que definitivamente estabeleceu Mickey Mouse e sua turma como personagens populares. A partir de 1930 o estúdio passou a ter seus filmes do Mickey distribuídos pela Columbia Pictures, uma empresa maior e com mais reconhecimento e alcance, o que potencializou a difusão de Mickey Mouse pelos Estados Unidos.
Outra característica a ser sublinhada é que nessas produções iniciais dos filmes do Mickey, tivemos o estabelecimento de alguns personagens clássicos: Minnie (1927), vaca Clarabelle (1927), o retorno do Bafo (1928), Horace Horsecollar (1929), Pluto (1930), Pateta (1932) e Pato Donald (1934). O sucesso de Mickey Mouse foi tremendo, que em 1938, dez anos após ter sido inventado, o personagem possuía 103 filmes curtas-metragens lançados.
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| Evolução do visual do Mickey Mouse. |
NOTA: Oswaldo teve 190 filmes lançados entre 1927 e 1938. Embora apareceu em alguns comerciais e fez participações especiais em outras produções também.
NOTA 2: Oswaldo ganhou uma namorada inicialmente chamada Bunny Lou ou Fanny, mas ela acabou não conquistando o público, mais tarde em 1928 surgiu a gatinha Ortensia, que se tornou sua namorada oficial e até esposa em algumas narrativas.
NOTA 3: Em 2006 a Disney iniciou o processo para reaver os direitos de Oswaldo, finalmente ele voltou a aparecer como parte da Walt Disney a partir de uma parceria com a Nintendo para se criar jogos exclusivos para seus consoles, resultando na trilogia Epic Mickey (2010), Epic Mickey 2: The Power of Two (2012) e Epic Mickey: The Power of Illusion (2012). Um remake do primeiro jogo foi intitulado Epic Mickey: Rebrushed (2024), saindo para outros consoles.
NOTA 4: Walter Lantz, responsável por popularizar Oswaldo nos anos 1930, também é o criador do Pica-pau (1940).
NOTA 5: Atualmente as versões originais de Oswaldo e Mickey estão em domínio público desde 2024.
Referências bibliográficas:
BARRIER, Michael. The Animated Man: A Life of Walt Disney. Los Angeles, University of California Press, 2007.
GABLER, Neal. Walt Disney: The Triumph of America Imagination. New York, Vintage Books, 2007.


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