A chamada Casa da Sabedoria foi a mais importante biblioteca de Bagdá e uma das mais influentes do mundo islâmico durante o Califado Abássida (750-1258), mantendo-se como referência ao longo de séculos, além de seu enorme e precioso acervo de livros e documentos, o local também funcionava como escola de tradução e de poesia, além de servir de palco para que cientistas e eruditos apresentassem suas pesquisas. Por séculos a Casa da Sabedoria brilhou na Era de Ouro do Islão (VIII-XIII).
Introdução
Após a morte do profeta Mohammed (c. 570-632) seus parentes o sucederam como califas, todavia, isso gerou uma disputa gananciosa pelo poder, levando a traição e assassinato desses. Após a morte de Ali (c. 600-661), primo e genro de Mohammed, o califado entrou em crise, gerando uma profunda disputa pelo poder que resultou no cisma do Islão, originando os sunitas e os xiitas (partidários de Ali). Os primeiros defendiam manter-se a escolha dos califas independente de parentesco com o profeta, os segundos alegavam que o sucessor de Ali e verdadeiro califa era seu filho al-Hassan ibn Ali (625-670), todavia, baseando-se na posição dos sunitas, o governador da Síria Mu'awiya ibn Abi Sufyan (c. 597-680) tomou o poder e se declarou califa em Damasco, fundando a Dinastia Omíada (661-750).
Apesar da fundação de um califado na Síria que passou a governar parte do Oriente Médio, os xiitas recusavam reconhecer os califas omíadas, isso gerou conflitos que se estenderam por anos até que o comandante militar Al-Saffar (721-754) juntando apoio de antigos clãs persas, foi eleito califa em 750, marcando o fim do califado Omíada e iniciando a Dinastia Abássida (750-1258), que expandiu os domínios islâmicos definitivamente pelo Oriente Médio, Ásia Central, norte e leste da África e a Península Ibérica.
O sucessor de Açafá, o califa Al-Mansur (714-751) decidiu construir uma capital para o califado, assim, surgiu a cidade de Bagdá, a joia do Islão. Uma cidade circular e murada, com o palácio ao centro e os bairros residenciais e comerciais planejados ao seu redor, cercados por uma alta muralha, rodeada por fosso. Nos arredores ficavam as fazendas e pastos.
"Seguramente, esta ilha [de terra entre os rios], limitada a leste pelo Tigre e a oeste pelo Eufrates, provará ser a encruzilhada do universo. Navios no Tigre, vindo de Wasit, Basra, Obolla, Ahwaz, Fars, Omã, Yamama, Bahrein e países vizinhos, vão aportar e ancorar ali. É lá que a mercadoria vai chegar pelo Tigre vinda de Mosul, do Azerbaijão e da Armênia; que também será o destino dos produtos transportados por navio no Eufrates a partir de Rakka, na Síria, nas fronteiras da Ásia Menor, no Egito e no Magrebe. Esta cidade também estará na rota dos povos de Jebel, Isfahan e as províncias de Khorasan. Por Deus vou construir esta capital e viver nela toda a minha vida. Será a residência dos meus descendentes. Certamente será a mais próspera cidade do mundo". (MAROZZI, 2014, p. 44-45, traduzido).
Bagdá começou a ser construída em 762 do zero, já que o local era apenas povoado por comunidades rurais, não havendo um núcleo urbano anteriormente ali para ser expandido e usado. O califa teria investido pelo menos 4 milhões de dirrã para a construção básica da cidade, um valor astronômico para a época, mas que resultou numa cidade feita de pedra e tijolos de adobe, que depois foi crescendo e se expandindo para fora de suas muralhas nos reinados dos califas seguintes, até finalmente chegar ao governo de Arun al-Rashid (763-809), o quinto califa abássida e um homem culto.
A Casa da Sabedoria
Na época do califa Arun al-Rashid a cidade de Medina al-Salam ("Cidade da Paz") já era conhecida por seu nome persa Bagdá, sendo um próspero centro metropolitano em expansão, já que o comércio enriqueceria grandemente a cidade naquele século, tornando-a uma das mais ricas do mundo, inclusive descrita por alguns viajantes como uma das cidades mais belas que já viram, uma joia no meio do deserto iraquiano.
Não obstante, o califa al-Rashid era um homem afeito a guerras e a diplomacia, mas também interessado em poesia, literatura, artes plásticas, ciências e xadrez. Por conta de seu interesse literário, o califa mandou construir uma bela biblioteca que foi chamada de Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikmah), a qual influenciada por bibliotecas persas, atuava como centro de tradução e copista, ou seja, o califa incentivou a tradução de obras de diferentes idiomas, para isso reuniu tradutores experientes de distintas partes do império para irem morar em Bagdá e ajudar nessa missão de verter diversos manuscritos para a língua árabe. (BOBRICK, 2012, p. 44-46).
A biblioteca começou a se desenvolver durante o reinado do califa al-Ma'mun (786-833), um dos filhos de al-Rashid, sucedeu seu irmão al-Amin (787-813), que morreu aos 26 anos durante uma invasão a Bagdá. Todavia, al-Ma'mun conseguiu restabelecer a ordem na capital e governou por vinte anos. Nesse período ele desenvolveu o interesse do pai pela literatura e as ciências, levando-o a patrocinar tradutores e bancar viagens de eruditos a Pérsia, Índia, Egito e o Império Bizantino para comprar livros e manuscritos e entrar em contato com estudiosos, convidando-os para ir a Bagdá. 
Representação da Casa da Sabedoria no jogo Assassin's Creed Mirage (2023).
O califa também gostava de poesia, música e jogar xadrez, fato esse que uma de suas concubinas preferidas era Arib, uma escrava habilidosa no xadrez, na música e na poesia, inclusive ganhou a liberdade por conta de agradar o califa, tornando-se uma de suas concubinas mais influentes. (AS TERRAS DO ISLÃ, 2008, p. 66-67).
Além do elevado trabalho de tradução, a biblioteca também armazenava, catalogava, fazia cópias, mas sobretudo com o tempo se tornou uma instituição de pesquisa também. Os eruditos árabes foram responsáveis pelo desenvolvimento científico no Oriente Médio, tornando-se guardiães dos saberes dos gregos, egípcios, persas, indianos e chineses. Por conta disso, os árabes se interessaram por filosofia, medicina, farmácia, astronomia, matemática, física, anatomia, química, história, geografia, direito, teologia, botânica, zoologia etc. Seus estudos em astronomia eram primorosos, levando-os a aperfeiçoar o astrolábio, cartas celestes e bússolas. (AS TERRAS DO ISLÃ, 2008, p. 62-63).
"Também floresceu a vida intelectual. Os estudiosos de religião multiplicaram-se em todas as cidades de Samarcanda até a Península Ibérica, e o grande afã de conhecimento abrangeu a história, a literatura, a medicina e a matemática grega, que se desenvolveram até incluir a álgebra e a trigonometria; e a geografia, cuja variedade e âmbito revelavam a ampla visão da época". (ROBINSON, 2007, p. 23).
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| Uma aula em uma biblioteca abássida. Pintura do século XIII. |
Declínio e destruição
A Casa da Sabedoria viveu seu auge durante o século IX, quando alguns califas investiram bastante verbas no seu desenvolvimento e promoção de pesquisas e trabalhos. No século X isso começou a declinar, mas a biblioteca ainda era referência no mundo islâmico, posto que manteve por trezentos anos seguintes. Contudo, é difícil traçar a história dessa longeva biblioteca, pois muito da sua história foi perdida com a destruição da mesma.
No ano de 1206 o poderoso chefe Genghis Khan (c. 1162-1227) foi proclamado imperador dos mongóis e deu início as suas campanhas, fundando um vasto império a base de sangue, massacres e terror. Seus filhos e netos deram continuidade ao império que se estendia da China a Europa oriental. Mais de cinquenta anos depois do início do império mongol, um dos netos de Genghis chamado Hulagu Khan (1217-1265), decidiu fundar seu próprio império, assim como seus irmãos estavam fazendo. Com isso, Hulagu tornou a cidade de Tabriz, na Armênia, sua capital e de lá iniciou suas campanhas. Em 1256 ele conquistou a Pérsia, mas faltava a coroa ser conseguida, no caso, Bagdá.
A imponente cidade murada seria difícil de ser invadida devido as suas altas muralhas e o fosso. Por conta disso, Hulagu optou por um cerco. Ele tomou as fazendas, pastos e celeiros para si, dominou os subúrbios da cidade, colocou tropas para vigiar as estradas, fortificou seus acampamentos, ordenou que canais que abasteciam a cidade fossem bloqueados, mandou construir catapultas para demolir as muralhas, então aguardou. O cerco teve início em 29 de janeiro de 1258 e terminou em 10 de fevereiro do mesmo ano. (DUDI, 2008, p. 40).
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| Pintura persa representando o cerco mongol a Bagdá em 1258. |
O califa al-Musta'sim (1213-1258) decidiu negociar uma rendição pacífica, clamando a clemência de Hulagu, mas esse em resposta agiu com perversidade, ordenando o saque da cidade e o massacre do seu povo. O califa foi um dos milhares de mortos pelos mongóis durante os dias de invasão e rapina de Bagdá. Todos os palácios, palacetes, mansões, prédios do governo, mesquitas, bibliotecas, escolas, residências, lojas e oficinas foram saqueados por alguns dias. A cidade inclusive foi parcialmente incendiada também. (DURI, 2007, p. 40).
A Casa da Sabedoria foi saqueada da melhor forma que os mongóis fizeram. O local possuía obras de artes, tapetes caros, tapeçarias, objetos de luxo, mosaicos, depósitos etc., tudo foi alvo dos invasores. Quanto aos seus livros e manuscritos, muitos foram destruídos, sendo rasgados, queimados ou atirados nas águas do rio Eufrates. Relatos posteriores informavam (de forma exagerada) que milhares de livros foram atirados nas águas do rio, manchando-as com sua tinta e criando uma barragem.
Se desconhece quanto do acervo da biblioteca foi perdido. Historiadores relataram que coleções inteiras foram destruídas, obras raras, manuscritos únicos, trabalhos de tradução e pesquisas ainda em desenvolvimento, anotações etc., tudo foi destruído diante da fúria mongol. Embora que parte do acervo ainda conseguiu ser evacuada, mas o dano causado é imensurável. Alguns o comparam a destruição causada a Biblioteca de Alexandria, séculos antes, em que grande parte de seu acervo foi destruído.
NOTA: A Casa da Sabedoria é retratada no jogo Assassin's Creed Mirage (2023), onde é possível visitá-la e realizar algumas missões por lá, embora trata-se de uma representação com seus elementos fictícios, já que não dispomos da planta da mesma.
Referências bibliográficas
BOBRICK, Benson. The Caliph's Splendor: Islam and the West in the Golden Age of Baghdad. New York, Simon & Schuster, 2012.
DURI, A. A. Baghdad. In: BOSWORTH, C. Edmund (ed). Historic cities of the Islamic World. Leiden, Brill, 2007.
MAROZZI, Justin. Baghdad: City of Peace, City of Blood. Boston, Da Capo Press, 2014.
ROBINSON, Francis. O mundo islâmico: o esplendor de uma fé. Barcelana, Ediciones Folio, 2007.
AS TERRAS do Islã. Barcelona, Ediciones Folio, 2008.
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