quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A Casa da Sabedoria de Bagdá (IX-XIII)

A chamada Casa da Sabedoria foi a mais importante biblioteca de Bagdá e uma das mais influentes do mundo islâmico durante o Califado Abássida (750-1258), mantendo-se como referência ao longo de séculos, além de seu enorme e precioso acervo de livros e documentos, o local também funcionava como escola de tradução e de poesia, além de servir de palco para que cientistas e eruditos apresentassem suas pesquisas. Por séculos a Casa da Sabedoria brilhou na Era de Ouro do Islão (VIII-XIII).

Introdução

Após a morte do profeta Mohammed (c. 570-632) seus parentes o sucederam como califas, todavia, isso gerou uma disputa gananciosa pelo poder, levando a traição e assassinato desses. Após a morte de Ali (c. 600-661), primo e genro de Mohammed, o califado entrou em crise, gerando uma profunda disputa pelo poder que resultou no cisma do Islão, originando os sunitas e os xiitas (partidários de Ali). Os primeiros defendiam manter-se a escolha dos califas independente de parentesco com o profeta, os segundos alegavam que o sucessor de Ali e verdadeiro califa era seu filho al-Hassan ibn Ali (625-670), todavia, baseando-se na posição dos sunitas, o governador da Síria Mu'awiya ibn Abi Sufyan (c. 597-680) tomou o poder e se declarou califa em Damasco, fundando a Dinastia Omíada (661-750).

Apesar da fundação de um califado na Síria que passou a governar parte do Oriente Médio, os xiitas recusavam reconhecer os califas omíadas, isso gerou conflitos que se estenderam por anos até que o comandante militar Al-Saffar (721-754) juntando apoio de antigos clãs persas, foi eleito califa em 750, marcando o fim do califado Omíada e iniciando a Dinastia Abássida (750-1258), que expandiu os domínios islâmicos definitivamente pelo Oriente Médio, Ásia Central, norte e leste da África e a Península Ibérica

O sucessor de Açafá, o califa Al-Mansur (714-751) decidiu construir uma capital para o califado, assim, surgiu a cidade de Bagdá, a joia do Islão. Uma cidade circular e murada, com o palácio ao centro e os bairros residenciais e comerciais planejados ao seu redor, cercados por uma alta muralha, rodeada por fosso. Nos arredores ficavam as fazendas e pastos. 

"Seguramente, esta ilha [de terra entre os rios], limitada a leste pelo Tigre e a oeste pelo Eufrates, provará ser a encruzilhada do universo. Navios no Tigre, vindo de Wasit, Basra, Obolla, Ahwaz, Fars, Omã, Yamama, Bahrein e países vizinhos, vão aportar e ancorar ali. É lá que a mercadoria vai chegar pelo Tigre vinda de Mosul, do Azerbaijão e da Armênia; que também será o destino dos produtos transportados por navio no Eufrates a partir de Rakka, na Síria, nas fronteiras da Ásia Menor, no Egito e no Magrebe. Esta cidade também estará na rota dos povos de Jebel, Isfahan e as províncias de Khorasan. Por Deus vou construir esta capital e viver nela toda a minha vida. Será a residência dos meus descendentes. Certamente será a mais próspera cidade do mundo". (MAROZZI, 2014, p. 44-45, traduzido). 

Bagdá começou a ser construída em 762 do zero, já que o local era apenas povoado por comunidades rurais, não havendo um núcleo urbano anteriormente ali para ser expandido e usado. O califa teria investido pelo menos 4 milhões de dirrã para a construção básica da cidade, um valor astronômico para a época, mas que resultou numa cidade feita de pedra e tijolos de adobe, que depois foi crescendo e se expandindo para fora de suas muralhas nos reinados dos califas seguintes, até finalmente chegar ao governo de Arun al-Rashid (763-809), o quinto califa abássida e um homem culto. 

A Casa da Sabedoria

Na época do califa Arun al-Rashid a cidade de Medina al-Salam ("Cidade da Paz") já era conhecida por seu nome persa Bagdá, sendo um próspero centro metropolitano em expansão, já que o comércio enriqueceria grandemente a cidade naquele século, tornando-a uma das mais ricas do mundo, inclusive descrita por alguns viajantes como uma das cidades mais belas que já viram, uma joia no meio do deserto iraquiano. 

Não obstante, o califa al-Rashid era um homem afeito a guerras e a diplomacia, mas também interessado em poesia, literatura, artes plásticas, ciências e xadrez. Por conta de seu interesse literário, o califa mandou construir uma bela biblioteca que foi chamada de Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikmah), a qual influenciada por bibliotecas persas, atuava como centro de tradução e copista, ou seja, o califa incentivou a tradução de obras de diferentes idiomas, para isso reuniu tradutores experientes de distintas partes do império para irem morar em Bagdá e ajudar nessa missão de verter diversos manuscritos para a língua árabe. (BOBRICK, 2012, p. 44-46). 

Representação da Casa da Sabedoria no jogo Assassin's Creed Mirage (2023). 

A biblioteca começou a se desenvolver durante o reinado do califa al-Ma'mun (786-833), um dos filhos de al-Rashid, sucedeu seu irmão al-Amin (787-813), que morreu aos 26 anos durante uma invasão a Bagdá. Todavia, al-Ma'mun conseguiu restabelecer a ordem na capital e governou por vinte anos. Nesse período ele desenvolveu o interesse do pai pela literatura e as ciências, levando-o a patrocinar tradutores e bancar viagens de eruditos a Pérsia, Índia, Egito e o Império Bizantino para comprar livros e manuscritos e entrar em contato com estudiosos, convidando-os para ir a Bagdá. 

O califa também gostava de poesia, música e jogar xadrez, fato esse que uma de suas concubinas preferidas era Arib, uma escrava habilidosa no xadrez, na música e na poesia, inclusive ganhou a liberdade por conta de agradar o califa, tornando-se uma de suas concubinas mais influentes. (AS TERRAS DO ISLÃ, 2008, p. 66-67). 

Além do elevado trabalho de tradução, a biblioteca também armazenava, catalogava, fazia cópias, mas sobretudo com o tempo se tornou uma instituição de pesquisa também. Os eruditos árabes foram responsáveis pelo desenvolvimento científico no Oriente Médio, tornando-se guardiães dos saberes dos gregos, egípcios, persas, indianos e chineses. Por conta disso, os árabes se interessaram por filosofia, medicina, farmácia, astronomia, matemática, física, anatomia, química, história, geografia, direito, teologia, botânica, zoologia etc. Seus estudos em astronomia eram primorosos, levando-os a aperfeiçoar o astrolábio, cartas celestes e bússolas. (AS TERRAS DO ISLÃ, 2008, p. 62-63). 

"Também floresceu a vida intelectual. Os estudiosos de religião multiplicaram-se em todas as cidades de Samarcanda até a Península Ibérica, e o grande afã de conhecimento abrangeu a história, a literatura, a medicina e a matemática grega, que se desenvolveram até incluir a álgebra e a trigonometria; e a geografia, cuja variedade e âmbito revelavam a ampla visão da época". (ROBINSON, 2007, p. 23). 

Uma aula em uma biblioteca abássida. Pintura do século XIII. 

Durante o governo de al-Ma'mum e de seus sucessores até o final do século IX, a Casa da Sabedoria tinha se tornado um centro acadêmico, embora não funcionasse como uma escola ou universidade, ela abrigava escritores, poetas, filósofos, cientistas que estudavam distintas áreas do conhecimento. Palestras públicas e privadas para apresentar estudos, publicações de livros, descobertas eram realizadas quase que mensalmente. Saraus de poesia também eram regulares. Alguns dos mais eruditos homens de Bagdá e do império tinham escritórios na Casa da Sabedoria, realizavam suas pesquisas, promoviam palestras, davam aulas para discípulos escolhidos a dedo, participavam da vida intelectual e política da cidade. 

Declínio e destruição

A Casa da Sabedoria viveu seu auge durante o século IX, quando alguns califas investiram bastante verbas no seu desenvolvimento e promoção de pesquisas e trabalhos. No século X isso começou a declinar, mas a biblioteca ainda era referência no mundo islâmico, posto que manteve por trezentos anos seguintes. Contudo, é difícil traçar a história dessa longeva biblioteca, pois muito da sua história foi perdida com a destruição da mesma.

No ano de 1206 o poderoso chefe Genghis Khan (c. 1162-1227) foi proclamado imperador dos mongóis e deu início as suas campanhas, fundando um vasto império a base de sangue, massacres e terror. Seus filhos e netos deram continuidade ao império que se estendia da China a Europa oriental. Mais de cinquenta anos depois do início do império mongol, um dos netos de Genghis chamado Hulagu Khan (1217-1265), decidiu fundar seu próprio império, assim como seus irmãos estavam fazendo. Com isso, Hulagu tornou a cidade de Tabriz, na Armênia, sua capital e de lá iniciou suas campanhas. Em 1256 ele conquistou a Pérsia, mas faltava a coroa ser conseguida, no caso, Bagdá. 

A imponente cidade murada seria difícil de ser invadida devido as suas altas muralhas e o fosso. Por conta disso, Hulagu optou por um cerco. Ele tomou as fazendas, pastos e celeiros para si, dominou os subúrbios da cidade, colocou tropas para vigiar as estradas, fortificou seus acampamentos, ordenou que canais que abasteciam a cidade fossem bloqueados, mandou construir catapultas para demolir as muralhas, então aguardou. O cerco teve início em 29 de janeiro de 1258 e terminou em 10 de fevereiro do mesmo ano. (DUDI, 2008, p. 40). 

Pintura persa representando o cerco mongol a Bagdá em 1258. 

O califa al-Musta'sim (1213-1258) decidiu negociar uma rendição pacífica, clamando a clemência de Hulagu, mas esse em resposta agiu com perversidade, ordenando o saque da cidade e o massacre do seu povo. O califa foi um dos milhares de mortos pelos mongóis durante os dias de invasão e rapina de Bagdá. Todos os palácios, palacetes, mansões, prédios do governo, mesquitas, bibliotecas, escolas, residências, lojas e oficinas foram saqueados por alguns dias. A cidade inclusive foi parcialmente incendiada também. (DURI, 2007, p. 40). 

A Casa da Sabedoria foi saqueada da melhor forma que os mongóis fizeram. O local possuía obras de artes, tapetes caros, tapeçarias, objetos de luxo, mosaicos, depósitos etc., tudo foi alvo dos invasores. Quanto aos seus livros e manuscritos, muitos foram destruídos, sendo rasgados, queimados ou atirados nas águas do rio Eufrates. Relatos posteriores informavam (de forma exagerada) que milhares de livros foram atirados nas águas do rio, manchando-as com sua tinta e criando uma barragem. 

Se desconhece quanto do acervo da biblioteca foi perdido. Historiadores relataram que coleções inteiras foram destruídas, obras raras, manuscritos únicos, trabalhos de tradução e pesquisas ainda em desenvolvimento, anotações etc., tudo foi destruído diante da fúria mongol. Embora que parte do acervo ainda conseguiu ser evacuada, mas o dano causado é imensurável. Alguns o comparam a destruição causada a Biblioteca de Alexandria, séculos antes, em que grande parte de seu acervo foi destruído. 

NOTA: A Casa da Sabedoria é retratada no jogo Assassin's Creed Mirage (2023), onde é possível visitá-la e realizar algumas missões por lá, embora trata-se de uma representação com seus elementos fictícios, já que não dispomos da planta da mesma. 

Referências bibliográficas

BOBRICK, Benson. The Caliph's Splendor: Islam and the West in the Golden Age of Baghdad. New York, Simon & Schuster, 2012. 

DURI, A. A. Baghdad. In: BOSWORTH, C. Edmund (ed). Historic cities of the Islamic World. Leiden, Brill, 2007. 

MAROZZI, Justin. Baghdad: City of Peace, City of Blood. Boston, Da Capo Press, 2014. 

ROBINSON, Francis. O mundo islâmico: o esplendor de uma fé. Barcelana, Ediciones Folio, 2007. 

AS TERRAS do Islã. Barcelona, Ediciones Folio, 2008.

Links relacionados: 

Bagdá: a joia do Islão (VIII-XIII)

A expansão islâmica: VII-XII

Os mongóis

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