sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Territórios ultramarinos: as colônias no século XXI

O colonialismo europeu ultramarino ou ultramarítimo teve início no século XV no período das Grandes Navegações ou Era dos Descobrimentos, quando os reinos de Portugal e Espanha iniciaram suas navegações através do Oceano Atlântico para desbravar terras na África e nas Américas, vindo a fundar colônias. Mais tarde os franceses, ingleses e holandeses seguiram tal caminho. Por sua vez, no século XVI o expansionismo colonial europeu chegou aos oceanos Índico e Pacífico

Essa expansão colonial pelo mundo estendeu-se do século XV ao XX, perfazendo mais de quinhentos anos de colonização, que atingiram as Américas, a África, a Ásia e a Oceania. Por sua vez, no século XIX, o colonialismo entrou numa nova fase, agora não mais impulsionada pelo mercantilismo, mas pela revolução industrial, no que resultou no neocolonialismo e na política do imperialismo

A historiadora Alayne Azhalay (2024) define o imperialismo como um conjunto de práticas políticas, econômicas, sociais e culturais de caráter colonial, que vigoraram entre os séculos XIX e XX, motivados principalmente pelas grandes potências da época, no intuito de fundar ou manter colônias pelas Américas, África, Ásia e Oceania, sustentando práticas exploratórias, racistas, xenofóbicas e opressivas para poder se aproveitar dos recursos dessas colônias e de sua mão de obra barata (as vezes escrava também), o que ajudava a sustentar a economia capitalista industrial-colonial. 

Azhalay (2024) comenta que o imperialismo foi um forte entrave para inibir e atrasar a independência de territórios americanos, africanos e asiáticos, pois as nações colonizadoras se negavam a aceitar a emancipação de suas colônias, isso acarretou numa era de guerras, revoltas, genocídios, miséria e violência generalizada. Assim, as colônias americanas foram conquistar sua independência no século XIX, através de guerras. Já a África, a independência tardou bem mais, pois as últimas colônias foram emancipadas na década de 1970, apesar disso, o estrago feito gerou guerras civis em vários países. Na Ásia, territórios coloniais também somente foram emancipados no século XX, em diferentes épocas. 

O historiador Achille Mbembe (2022) salienta que o imperialismo aplicou práticas que ele chamou de brutalismo, conjunto de medidas autoritárias e opressivas, que perpassavam através da política, da economia, das leis e dos costumes. Dessa forma, o brutalismo do imperialismo manteve a escravidão e o tráfico negreiro (abolindo-os somente quando era conveniente), um pesado racismo estrutural, a desvalorização as culturas nativas em detrimento de forçar aculturação dos colonos, adotando idioma e costumes das nações colonizadoras; o roubo de artefatos, bens materiais e históricos para preencher os museus europeus e estadunidenses; a exploração desumana da mão de obra livre e pobre; o desenvolvimento industrial e tecnológico somente quando era conveniente para estabelecer estradas de ferro, rodovias, portos e pontes; danos ambientais graves causados pela mineração, o desmatamento e a caça predatória. 

Com base nessas práticas, as potências mundiais do período como as nações europeias do Reino Unido, FrançaAlemanha, Rússia, Portugal, Espanha, Itália e Bélgica, somadas aos Estados Unidos e as potências asiáticas da Turquia Otomana e do Japão Meiji, consistiram nos países que aplicaram o imperialismo e maior ou menor grau entre os séculos XIX e XX, destaque para o Reino Unido, que na época consistia o Império Britânico, o mais poderoso e rico império colonial do período. Inclusive várias narrativas de mundo perdido fazem referência a personagens britânicos que viajam pelo mundo. (HOBSBAWM, 2012). 

Dessa forma, o imperialismo rompeu com a hegemonia de dominação europeia, permitindo que nações como os Estados Unidos, Turquia e Japão pudessem entrar nessa disputa. Apesar disso, os dois últimos países perderam forças no século XX. A Turquia com o fim do Império Otomano, foi reduzida ao seu atual território na década de 1920, por sua vez, o Japão com o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), perdeu seus territórios ocupados na Coreia, na China e em outras ilhas. Ademais, países tradicionalmente colonizadores como Portugal e Espanha, também perderam suas colônias, o mesmo ocorreu com a Alemanha, a Rússia, a Itália e a Bélgica também perderam suas colônias. 

Na década de 1980, com a crescente difusão dos estudos pós-coloniais e mais tarde com o surgimento da teoria decolonial, manter colônias era algo considerado obsoleto, injusto e até desumano, pois os sistema colonial fomentava uma série de preconceitos e desigualdades sociais, além de outros tipos de violências legitimadas. Assim, os países imperialistas foram emancipando suas colônias na África e na Ásia, no entanto, algumas nações buscaram formas de contornar essa problemática. Uma delas foi abandonar o uso do termo colônia por território ou departamento ultramarino, além de conceder um pouco mais de "autonomia" a tais territórios para evitar revoltas e revoluções. 

Dessa forma, chegamos ao caso de que ainda no século XXI, alguns países mantém suas "colônias", agora repaginadas, recebendo legislações próprias, reconhecimento de cidadania, direito ao voto, mas sem serem anexadas aos seus países soberanos. Além disso, os territórios ultramarinos podem corresponder a ilhas, arquipélagos inteiros, cidades costeiras e até grandes regiões como o caso da Guiana Francesa, o único do tipo. 

Os território ultramarinos dos Estados Unidos 

Atualmente os Estados Unidos são a nação com mais territórios ultramarinos, totalizando 16 deles, o que inclui várias pequenas ilhas desabitadas. Os americanos começaram a conquistar território ainda na segunda metade do século XIX, quando estenderam sua influência sobre a América Central e o Caribe, disputando o controle de territórios com os espanhóis, ingleses, franceses e holandeses.  

Os territórios ultramarinos dos Estados Unidos. Em laranja e azul suas principais possessões, em verde suas ex-colônias e em vermelhos e roxo territórios menores. 

O primeiro território ultramarino americano importante foi o arquipélago das Ilhas Sandwich do Norte, conhecidas pelos povos nativos como Havaí. Por anos os americanos tentaram tomar aquelas ilhas, fazendo guerras e intrigas contra seus reis, até que finalmente um golpe de estado em 1893 derrubou a monarquia havaiana, estabelecendo um "protetorado" sobre o Havaí, até que em 1898 as ilhas foram oficialmente anexadas aos EUA, depois reconhecidas como seu quinquagésimo estado. 

No entanto, nesse mesmo período por conta da Guerra Hispano-Americana (1898), conflito entre Estados Unidos e Espanha pelo controle de Cuba e outros territórios sob domínio espanhol, os americanos acabaram vencendo, levando a assinatura do Tratado de Paris (1898), no qual os espanhóis cederam territórios aos americanos. 

O principal território ultramarino oriundo desse tratado, na atualidade é Porto Rico, o qual normalmente se pensa se tratar de um país, mas ele costuma ser confundido com a Costa Rica. No caso, Porto Rico é um arquipélago caribenho que foi colonizado pelos espanhóis e adquirido pelos americanos em 1898, desde então pertence ao governo americano, como uma "colônia". 

Os porto-riquenhos possuem direito de viajar aos Estados Unidos, até são reconhecidos como cidadãos americanos, fazem uso do dólar, podem eleger seu governador desde 1947, porém, não compreendem um estado americano, logo, não participam das eleições nacionais do país. Ou seja, os porto-riquenhos por serem "colonos" não podem votar em senadores e presidentes, apenas nos políticos do seu arquipélago. 

Localização de Porto Rico no Caribe. 

Outro aspecto a ser salientado é que desde a década de 1940 há medidas para se evitar protestos que lutem pela independência de Porto Rico, fato esse que o movimento emancipatório praticamente desapareceu. Em 2020 um referendo mostrou que 52% dos porto-riquenhos queriam que Porto Rico se torna-se um estado americano, enquanto o restante não opinou ou defendeu a independência do território. 

Ainda em 1898, além de obter Porto Rico, os americanos também conseguiram dos espanhóis pelos acordos do Tratado de Paris, a concessão de exploração das Filipinas, direito de explorar aquele vasto arquipélago que foi mantido por décadas. Todavia, os filipinos se opuseram a troca de subordinação, ocorrendo a Guerra Filipino-Americana (1899-1902). Apesar da revolta filipina, eles perderam o conflito e foram anexados como colônia. 

Os EUA somente desistiram das Filipinas devido ao contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) por conta da invasão japonesa ao arquipélago. Fato esse que os EUA decidiram emancipar as Filipinas em 1946, porém, mantiveram a ilha de Guam sob seu domínio, já que o território é bastante estratégico para fins militares naquela região do Pacífico, estando a meio caminho da China, Japão e Coreias. Ademais, Guam também é ponto turístico e se conecta com as Ilhas Marianas do Norte, arquipélago também habitado e controlado pelos americanos. 

Localização da Ilha de Guam, território americano no Pacífico Norte. 

A partir da dominação do Havaí, os Estados Unidos durante a Segunda Guerra tomaram outras ilhas mais afastadas do arquipélago, depois seguindo para o Sul, rumo a Oceania, ali os americanos chegaram a ocupar por algum tempo a Micronésia e as Ilhas Marshall, ambos ganharam independência na década de 1980, porém, outras ilhas continuam sob domínio americano, destacando-se o arquipélago a Samoa Americana

Neste ponto é preciso fazer uma distinção. As ilhas Samoa compreendem o território geocultural dos povos polinésios, além disso, existe o país Samoa, antiga colônia alemã e depois neozelandesa, que ganhou independência em 1962. No entanto, nem todas as ilhas samoanas conquistaram a soberania, a parte oriental do arquipélago foi ocupada pelos Estados Unidos na primeira metade do século XX e até hoje se mantém como seu território ultramarino. O idioma oficial é o inglês e lá se faz uso do dólar. Sua capital e maior cidade é Pago Pago

Localização da Samoa Americana e de Samoa.

No geral, a Samoa Americana é procurada por conta mais do turismo, já que se encontra dentro da área que compreende Polinésia, Samoa, Micronésia, Ilhas Marshall, Taiti, além de não estar tão distante da Nova Zelândia e da Austrália, o que favorece viagens áreas e de cruzeiros para lá. 

Os território ultramarinos do Reino Unido

Enquanto a maior parte dos territórios ultramarinos dos Estados Unidos se concentra no Oceano Pacífico, o Reino Unido possui o controle de ilhas e costas em diferentes localidades, totalizando 14 territórios ultramarinos sob sua jurisdição. A maioria fica situada no Caribe, resquício de suas colônias dos séculos XVIII e XIX por aquela região. Atualmente as ilhas Anguila, Ilhas Virgens Britânicas, Ilhas Cayman, Monteserrat, Ilhas Turcas e Caicos são as possessões britânicas no Caribe, que seguem habitadas por pequenas comunidades, vivendo principalmente do turismo. Vale ressalvar que o Reino Unido já teve mais territórios coloniais como Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e Índia. 

Territórios ultramarinos do Reino Unido.

Das ilhas caribenhas de posse do Reino Unido, a economicamente mais relevante são as Ilhas Cayman, que se tornaram conhecidas por suas belezas naturais, mas principalmente por virar um "paraíso fiscal" (offshore), que consiste num território com baixa tributação, sigilo bancário elevado, incentivos fiscais, regulamentação flexível etc., o que atrai investidores de diversos cantos do mundo. O governo britânico decidiu tornar as Cayman num "paraíso fiscal" como forma de conseguir investimentos para aquele arquipélago, diminuindo as despesas com sua manutenção, o que acabou dando certo, embora isso gere polêmicas também. Pois "paraísos fiscais" são alvos de negócios ilícitos como lavagem de dinheiro e outros crimes. Apesar disso, as Cayman seguem como um atrativo turístico e financeiro em alta. 

Além disso, a localização das Cayman é bastante favorável, estando situada entre Cuba, Jamaica, México, Guatemala e Nicarágua, tornando-a facilmente acessível de navio, barco e avião por esses países, além de rota de cruzeiros. A ilha é conhecida por ter vários hotéis e resorts, pois o turismo de luxo é um dos seu principais negócios. 

Localização das Ilhas Cayman no Caribe. 

Outras ilhas que se encontram em meio a polêmicas são as Falklands, conhecidas como Ilhas Malvinas, situadas a 483 km da costa da Argentina. O arquipélago foi visitado pela primeira vez pelos ingleses em 1690, mas esses não estabeleceram nenhuma colônia lá. Em 1764 os franceses estabeleceram um assentamento chamado Port Saint Louis e os ingleses fizeram o mesmo em outra das ilhas, fundando Port Egmont

Ambos os assentamentos seguiram coexistindo, mas poucos anos depois os franceses abriram mão de sua pequena colônia, passando-a para os espanhóis, mas os ingleses mantiveram a sua até 1774. Os espanhóis renomearam sua pequena colônia nas Malvinas para Puerto Soledad, mantendo-o operante até 1811, quando a entregaram a pescadores. Neste ponto começou a disputa pela ilha. Na década de 1820, os americanos estavam interessados naquelas ilhas por conta de sua posição estratégica nas rotas para caça a baleias e focas, só que os argentinos informalmente controlavam o arquipélago. Para piorar a situação vinte anos depois os britânicos voltaram a se interessar pelo arquipélago e alegavam que uma das ilhas era deles, pois tinha sido povoada em 1764. 

Os americanos optaram em desistir da disputa pelas Falklands, sobrando aos argentinos tentar ganhar o controle do arquipélago, o que acabou não dando certo, pois os britânicos gradativamente foram retomando o controle daquelas ilhas, estabelecendo novos assentamentos por lá. A culminância da disputa ocorreu na Guerra das Malvinas (1982), quando os britânicos derrotaram mais uma vez os argentinos e asseguraram o controle das Malvinas até hoje. Inclusive a população local prefere estar sob jurisdição britânica por uma série de vantagens, a começar pela condição de terem direito a cidadania britânica, havendo muitos escoceses e galeses vivendo no arquipélago; fazerem uso da libra e terem suporte da Marinha Real, diferente da economia argentina que está em crise a vários anos. Por outro lado, o isolamento da ilha atrasa a chegada de recursos, além de que a população tem envelhecido bastante, pois os jovens optam em ir para a Inglaterra ou para outros países. 

Localização das Falklands e sua capital Stanley. 

As Falklands (ou Malvinas) também servem de apoio para expedições as Ilhas Sandwich do Sul e Georgia do Sul, já que ambas são desabitadas por serem muito frias e hostis devido a proximidade com a Antártica. Tais ilhas costumam receber atualmente expedições científicas, mas no passado eram rotas de caçadores de baleias e focas. 

Outro território ultramarino britânico importante e polêmico é Gibraltar. Enquanto outros territórios aqui comentados são ilhas, Gibraltar é uma porção de uma península encrustada no sul da Espanha. Geograficamente o Estreito de Gibraltar é a conexão entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. Um local bastante estratégico por conta disso, mas também por ser o lugar com menor distância entre a Europa e a África. Assim, devido a tal valor estratégico de estar na porta de entrada de um oceano com um mar, e na rota mais estreita entre dois continentes, controlar o estreito gerou guerras ao longo da História. 

Porém, por muito tempo os espanhóis mantiveram ele sob seu controle, apesar da ameaça de árabes, franceses, marroquinos, ingleses etc. No entanto, a realidade mudou após o término da Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1714), longo período de conflito para assegurar a nova dinastia espanhola, no que resultou na intromissão de países como França, Inglaterra, Portugal, Países Baixos, Áustria e Sacro Império, os quais cada um reivindicava o direito de sugerir o próximo rei da Espanha ou firmar acordo de casamento com o novo monarca. De qualquer forma, o término do conflito chegou com a assinatura do Tratado de Utrechet (1713-1715), em que vários acordos envolvendo territórios coloniais foram negociados, além de acordos comerciais e diplomáticos. No caso da Inglaterra, essa obteve os territórios de Gibraltar, a ilha de Minorca e a Nova Escócia

No caso de Gibraltar, a Espanha posteriormente tentou reaver o território, os franceses também tentaram conquistá-lo na época das Guerras Napoleônicas (1804-1815), mas falharam. Atualmente Gibraltar consiste em uma cidade que conta com aeroporto, porto, base da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), agências, escritórios etc. Gibraltar foi crucial para as atividades militares britânicas durante as Guerras Mundiais, embora tenha perdido bastante importância desde a década de 1950. 

Vista da cidade de Gibraltar. 

Os gibraltinos dispõe de cidadania britânica, possuem prefeitura e governo local. Porém, fazem uso da libra esterlina e o euro, mas não possuem assento no Parlamento Britânico, como os habitantes das Falklands. Mas diferente desse arquipélago no Atlântico Sul, Gibraltar não vive isolada, se mantendo pelo turismo, atividades portuárias e rota de conexão marítima e aérea. 

Outros territórios ultrmarinos britânicos importantes são as três ilhas que formam Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha. No passado tais ilhas quase no meio o Atlântico Sul, foram descobertas pelos portugueses, mas os ingleses as colonizaram, mantendo-as sobre controle estratégico para abastecimento de rotas marítimas, até hoje. Inclusive Santa Helena ficou historicamente famosa por ser a prisão-domiciliar de Napoleão Bonaparte, deposto em 1815, onde residiu na ilha até sua morte em 1821. 

Os território ultramarinos da França

O Império Francês também teve suas possessões marítimas, tendo ocupado várias ilhas, embora perdido alguns territórios importantes como o Canadá e a Indochina. Atualmente a França possui 12 territórios ultramarinos, a maioria são pequenas ilhas pelo Caribe como São Martinho, São Bartolomeu, Guadalupe e Martinica, sendo ainda habitada, reflexo das Antilhas Francesas; no Oceano Índico temos Reunião e Maiote. Tais ilhas foram o que restou da dominação francesa sobre Madagascar e as Ilhas Maurícia. No entanto, sua "colônia" mais famosa é a Guiana Francesa. 

Os territórios ultramarinos franceses. 

Nos tempos coloniais houve três Guianas: a Guiana Inglesa (que virou Guiana), Guiana Holandesa que virou o Suriname e a Guiana Francesa. Essa terceira colônia foi visitada pelos franceses em 1503, mas sua colonização somente começou mais tardiamente em meados do século XVII, quando se estabeleceu fazendas de cana de açúcar e a mão de obra escrava. Nos dois séculos seguintes os franceses disputaram suas fronteiras contra os holandeses, ingleses, portugueses e brasileiros. 

Em 1946 a Guiana Francesa perdeu seu status de mera colônia e foi elevada ao de departamento ultramarino, passando a ter mais alguns "privilégios", como cidadania francesa, mais tarde passou a usar o euro e pertencer a União Europeia e a Zona do Euro. A Guiana Francesa também detém direito a representação na Câmara Federal e no Senado, tendo dois deputados e dois senadores que representam os interesses desse departamento, diferente do caso de Porto Rico, das Falklands e outros territórios ultramarinos britânicos, onde não há representação política. 

Apesar disso, a Guiana Francesa segue como um território de grande desigualdade social, legado dos tempos da escravidão e dos sistema colonial da plantation, o país também carece de infraestrutura adequada, moradia e trabalho. A população que tem dinheiro, opta em se mudar para França, ou cruza a fronteira para ir trabalhar no Suriname ou no Brasil. Assim, a Guiana Francesa é a última "colônia" em terras continentais na América do Sul, já que as outras são ilhas. 

Mapa da Guiana Francesa. 

O outro território ultramarino francês mais importante consiste no arquipélago da Polinésia Francesa, situado no Pacífico Sul, numa região com milhares de ilhas. No século XVI, portugueses e espanhóis passaram pelo arquipélago da Polinésia, habitado a séculos por povos polinésios. No século XVIII, franceses, ingleses e holandeses começaram a mapear o vasto arquipélago, reivindicando para si o direito de colonização daquelas ilhas. Os franceses saíram mais beneficiados após anos de contatos e acordos com a monarquia local, até que em 1842, parte da Polinésia se tornou protetorado francês, se tornando colônia em 1880, e mais tarde em 1946 foi feito departamento ultramarino. De qualquer forma, desde o começo do século XXI, alguns polinésios franceses tentam reivindicar a independência do território, ainda mais depois do aumento de autonomia concedido pelo governo francês em 2003 e 2004. 

A Polinésia francesa é formada por cinco grandes arquipélagos: Austrais, Gambier, Marquesas, Sociedade e Tuamotu, totalizando mais de 118 ilhas, sendo a maior delas o Taiti, onde fica situada a capital Papeete. A economia da Polinésia Francesa gira entorno do turismo, já que muitas das ilhas são tidas como paradisíacas, atraindo turistas de diversas partes do mundo. O aeroporto de Papeete possui voos para a América do Norte, Ásia, Austrália e Nova Zelândia, além de haver também rotas de cruzeiros. Próximo a Polinésia Francesa estão outros domínios franceses, sendo as Ilhas de Nova Caledônia, Wallis e Futuna.

Mapa da Polinésia Francesa. 

Outro conjunto importante de territórios ultramarinos franceses, fica situado no Oceano Índico, entre Madagáscar e as Ilhas Maurícia. Ali se situam Reunião no Arquipélago das Mascarenhas e Maiote no Arquipélago das Comores. É preciso salientar que ambos os arquipélagos não estão sob controle de um único país. Suas ilhas foram divididas entre distintas nações, no caso da França, eles conseguiram Reunião e Maiote, sendo que a ilha de Reunião é uma das mais prósperas da região por conta de fazer uso do euro, sendo colônia francesa desde o século XVII, servindo de base de apoio para as expedições ao Índico. 

Atualmente Reunião ainda conserva uma economia baseada em seu legado colonial, produzindo açúcar, rum e algumas especiarias. A pesca também tem espaço importante ao lado do turismo. A população atual de Reunião é de cerca de 900 mil habitantes, composta por africanos de distintos países da costa oriental, por franceses, indianos e gente de outros países asiáticos. Todos detém cidadania francesa e o governo pode enviar representantes para o Senado Francês.  

Localização da ilha de Reunião. 

Os território ultramarinos dos Países Baixos

Durante os séculos XVII e XVIII os Países Baixos, ou popularmente chamados de Holanda, foram uma potência econômica mundial. Através de suas companhias de comércio, se conquistou colônias pelas Américas, África e Ásia, destacando-se a colonização de parte da Indonésia (especialmente da ilha de Java), da África do Sul, do Nordeste do Brasil e de Nova Amsterdã (atual cidade de Nova York). Mas enquanto essas colônias foram perdidas com o tempo, os holandeses mantiveram o controle de pequenas ilhas no Caribe. 

As ilhas que já foram chamadas de Antilhas Holandesas, terminologia que caiu em desuso somente em 2010. Apesar disso tais ilhas ainda seguem vinculadas ao Reino dos Países Baixos, sendo elas Aruba, Curaçao e Bonaire (as três estando próximas da Venezuela), São Martinho, Santo Eustáquio e Saba, localizados no norte das Pequenas Antilhas. Dessa forma, os territórios ultramarinos holandeses são divididos por duas siglas: ABC em referência as três primeiras ilhas e SSS, em referência as demais ilhas, as quais são menores. 

Mapa mostrando os territórios ultramarinos holandeses. Em laranja Aruba; em azul Curaça; em vermelho Santo Martinho; o verde inferior Bonaire, os verdes superiores Saba e Santo Eustáquio. 

Dessas seis ilhas, as duas mais importantes e conhecidas são Aruba e Curaçao, famosos destinos turísticos caribenhos por conta de seu clima ensolarado o ano todo, praias paradisíacas, mar de águas azul-turquesa e cristalinas, resorts luxuosos, passeios aquáticos, além de possuir aeroportos e estar na rota de cruzeiros. Por sua vez, a cultura dessas duas ilhas é miscigenada, combinando costumes holandeses, caribenhos, venezuelanos e indígenas, já que na ilha se fala o holandês, inglês e espanhol. A mesma condição vale também para Curaçao, sua ilha vizinha. Mas um caso curioso é a ilha de Santo Martinho, a qual é dividida em duas áreas: a parte norte é controlada pela França e a porção sul pertence aos Países Baixos. 

Os território ultramarinos da Espanha

No passado colonial a Espanha já foi detentora de vários territórios ultramarinos, destacando-se Cuba, Jamaica, Hispaniola (Haiti e República Dominicana), Porto Rico etc. Todavia, outros territórios como as Ilhas Canárias, foram incluídas na divisão oficial do país, sendo uma região autônoma ("província de além-mar"). Sendo assim, atualmente a Espanha possui poucos territórios ultramarinos (chamados de plazas de soberania), que incluem pequenas ilhas no Mediterrâneo, já que suas ilhas na Oceania foram vendidas aos alemães em 1899. Porém, seus dois territórios mais importantes são duas pequenas cidades situadas na costa do Marrocos. 

Territórios ultramarinos espanhóis no Mediterrâneo, chamados de plazas de soberania. 

A primeira cidade que é a mais conhecida, trata-se de Ceuta, uma cidade fundada por fenícios, depois conquistada por gregos, romanos, vândalos, bizantinos e árabes. Após a conquista árabe em 709, a cidade permaneceu sob controle muçulmanos por séculos, sendo conquistada pelos portugueses em 1415, marco do início das Grandes Navegações. Com isso, a cidade permaneceu como colônia portuguesa até 1680, quando foi negociada sua troca com a Espanha, a qual teve que protegê-la dos ataques marroquinos ao longo de muito tempo, além das investidas dos ingleses e franceses, já que Ceuta é um ponto estratégico importante no Mediterrâneo, próximo ao Estreito de Gibraltar e funcionando como a cidade de Gibraltar, só que do lado africano. 

Além da posição estratégica para assuntos militares no Mediterrâneo e na costa norte africana, Ceuta atua como zona franca, possuindo incentivos fiscais para investimentos locais, além de porta de entrada para imigrantes que buscam cidadania espanhola, quando passam a morar na cidade por alguns anos e depois migraram para a Espanha. A mesma situação vale para a cidade de Melilha, também situada no Marrocos, mais ao oeste de Ceuta. 

Localização de Ceuta e Melilha, cidades ultramarinas da Espanha. 

Territórios ultramarinos que foram incorporados aos seus países

Esses territórios deixaram de serem colônias para consistir em regiões especiais, estados, províncias, distritos etc., dos países-sede. Tal processo ocorreu entre os séculos XIX e XXI, marcando a fase de declínio da colonização europeia pelo mundo. 
  • Havaí - Estados Unidos
  • Madeira e Açores - Portugal
  • Canárias e Ilhas Baleares - Espanha
  • Córsega - França
  • Groenlândia e Ilhas Faroe - Dinamarca
  • Tasmânia - Austrália 
  • Ilha de Páscoa - Chile
  • Galápagos - Equador
  • Zanzibar - Tanzânia 
  • Socotra - Iêmen 
  • Andamão, Nicobar e Lakshadweep - Índia
NOTA: O Brasil não possui territórios ultramarinos, embora tenha ilhas marítimas habitadas, sendo as mais distantes Fernão de Noronha e Trindade. No entanto, tais ilhas compreendem o território de alguns estados brasileiros como Pernambuco e Espírito Santo, não sendo áreas autônomas. 
NOTA 2: Taiwan já foi um território ultramarino da China, mas desde 1950 age como uma nação independente, embora o governo chinês nunca reconheceu isso.

Referências bibliográficas 

ALDRICH, Robert; CONNELL, John. France's Overseas Frontier. New York, Cambridge University Press, 1992.
ALDRICH, Robert; CONNELL, JohnThe Last Colonies. New York, Cambridge University Press, 1998.
AZOULAY, Ariela Aïsha. História potencial: desaprendendo o imperialismo. São Paulo, Ubu, 2024. 
DROWER, George. Overseas Territories Handbook. London, The Stationarey Office, 1998. 
HOBSBAWM, Eric. A era dos impérios: 1875-1914. São Paulo, Paz & Terra, 2012. 
MBEMBE, Achille. Brutalismo. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo, N-1 Edições, 2022.
THE Overseas Territories: security, success and security. London, Foreign and Commonwealth Office, 2012. 

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