Deficiências podem ser um problema gravíssimo para muitas pessoas, inclusive impossibilitando-as de terem uma vida mais normal e até mesmo prosseguir com seus estudos e trabalho, porém, há casos de homens que mesmo deficientes de alguma forma (fossem deficiências mais leves ou pesadas), ainda assim, decidiram serem artistas ou cientistas. E alguns desses homens se tornaram bastante importantes na História. O presente texto conta um pouco sobre a história deles.
Luís de Camões (c. 1524-1582) - cego de um olho
O famoso poeta português, considerado o grande nome da poesia clássica portuguesa, por volta de seus 25 anos em 1549, época em que servia como soldado em Ceuta, numa batalha contra mouros, Camões foi ferido no olho direito, ficando cego desse. Posteriormente ele pediu baixa do serviço militar e voltou a Lisboa, onde não conseguiu um bom emprego e acabou arranjando problemas quando tentou matar o noivo da mulher por quem era apaixonado. O homem era funcionário do paço real e foi ferido à espada, mas sobreviveu. Contudo, isso rendeu a ida de Camões à prisão em 1553. Depois em 1555 ele foi enviado para exílio nas Índias, onde passou vários anos e começou a escrever poemas, dos quais sua obra mais famosa Os Lusíadas (1572), consagrada como o grande poema épico a língua portuguesa. Apesar de cego de um olho, tendo sido vítima de deboches por conta da sua condição física e envolvimento com dívidas, Camões seguiu escrevendo seu grande poema na esperança de receber reconhecimento. Ao voltar a Portugal, dedicou a obra ao rei D. Sebastião I, que lhe rendeu uma pensão modesta, que permitiu Camões viver o restante da vida. O poeta caolho somente conquistou sua almejada fama após a morte.
Miguel de Cervantes (1547-1616) - mão esquerda inutilizada
O famoso escritor espanhol quando jovem seguiu carreira militar, tendo se mudado por volta de 1569 para a Itália, vindo a participar da Batalha de Lepanto (1571) onde quase morreu. Na ocasião foi ferido com tiros no peito e na mão esquerda. Sua couraça lhe protegeu o tórax, mas sua mão foi gravemente ferida, afetando os tendões provavelmente, já que ele não conseguia mais utilizá-la de forma correta, o que lhe rendeu o apelido de "maneta de Lepanto". Em 1575 quando voltava para a Espanha, levando cartas de recomendações de mercê, ele e seu irmão foi capturados por piratas argelinos. Cervantes ficou cinco anos preso, embora tenha conseguido ajudar seu irmão a escapar, mas falhou em conseguir o mesmo. Depois desse período ele foi resgatado e viajou para Lisboa, onde passou algum tempo tentando conseguir espaço na corte, fracassado o intento, voltou para a Espanha em 1584, dedicando-se ao teatro. Apesar da mão esquerda debilitada, o que lhe impedia de realizar outros ofícios, Cervantes decidiu se dedicar a carreira das letras pela dramaturgia, mas suas peças não fazem interesse, levando-o a voltar ao exército, mas não tendo capacidade de segurar armas de fogo foi destacado para cargos de controle de abastecimento. Depois disso ele deixou a carreira militar novamente e trocou de ofício nos anos seguintes sem sucesso, contrariando dívidas e até sendo preso temporariamente por conta disso. Somente em 1605 ele publicou a primeira parte de seu livro mais famoso: O engenhoso Dom Quixote de La Mancha, obra que o consagraria, tornando-se um dos mais famosos romances da História. A partir daí conseguiu se estabelecer como escritor e poeta.
John Milton (1608-1674) - cego
Formado na Universidade de Cambridge como intelectual, Milton exerceu alguns ofícios menores ao longo dos anos, além de chegar a viajar pela Europa. Tornou-se poeta e funcionário público por longos anos até que em 1654 ficou totalmente cego. As causas de sua cegueira são desconhecidas, mas Milton queixava-se de dores nos olhos e de cabeça, hoje cogita-se que pudesse ter tido glaucoma. Tendo se tornado cego, ele ainda manteve-se no seu cargo público até ser demitido, considerado incapaz de continuar nele. Aquilo o abalou bastante e comprometeu sua renda familiar. Milton estava na casa dos quarenta anos na época. Apesar disso, nunca desistiu da literatura; com a ajuda da filha e de assistentes, ele ditava seus livros de poesia. Já estando cego compôs Paraíso Perdido (1667), poema épico de temática bíblica, se tornando sua mais famosa obra. Alçando-o ao posto de grandes poetas da língua inglesa.
Ludwig van Beethoven (1770-1827) - surdo
Embora tenha se tornado um dos maiores compositores e músicos de música clássica da História, Beethoven não nasceu como prodígio. Ele ralou duro por pressão do pai para seguir carreira como pianista, somente depois dos 23 anos começou a ganhar reconhecimento no meio musical, aparecendo como um músico promissor no cenário alemão-austríaco. Contudo seus sonhos de sucesso foram abalados quando ele contava com seus 30 anos, reclamando aos médicos que estava perdendo a audição constantemente. Na época ele cogitou se matar, pois não via esperança na carreira musical pela condição de estar ficando surdo. No entanto, ele desistiu do suicídio e decidiu se dedicar a compor até os últimos dias de sua vida. Com isso, suas mais famosas sinfonias foram sendo compostas à medida que ele ia ficando cada vez mais surdo. Sua famosa Nona Sinfonia (1822-1824) foi concluída quando ele tinha 44 anos, época que já estava surdo, tendo usado seu talento e as vibrações do piano para compor essa sinfonia magistral. Apesar da fama naquele momento da sua vida, ainda assim, Beethoven foi acometido por depressão somada ao alcoolismo nos últimos anos de sua vida.
Louis Braille (1809-1852) - cego
Filho de um fabricante de selas e arreios para cavalos, Louis por volta dos três enquanto brincava na oficina de seu pai, feriu os olhos, o que o acabou deixando-o cego logo cedo. Aos 10 anos de idade foi enviado ao Instituto Real de Jovens Cegos de Paris, onde começou a estudar. Ali ele teve contato com o experimento de leitura para cegos desenvolvido pelo professor Valentim Haüy (1785-1822), então presidente do instituto. Contudo, seu método de leitura era lento e pouco prático, baseado no alfabeto comum, o que era difícil de ser aprendido pelos cegos. Contudo, dois anos depois, o capitão Charles Barbier visitou o instituto e ensinou as crianças e adolescentes acerca do Serre, um código militar noturno, o qual fazia uso de quadrados com inscrições em alto-relevo. Braille se interessou por aquilo e aperfeiçoou aquela tecnologia desenvolvendo o Código Braille aos 15 anos de idade, tendo incluído letras e notações musicais. Braille passou o restante da vida lecionando outras crianças cegas e aperfeiçoando seu código, até hoje utilizado mundialmente.
Lév Pontriáguin (1908-1988) - cego
O proeminente matemático russo ficou cego aos 14 anos quando seus olhos foram queimados durante a explosão de um fogão. Sua mãe decidiu dedicar-se para educar o filho em casa, lendo livros e artigos para ele. Pontriáguin como tinha uma excelente capacidade de memorizar apenas ouvindo, conseguiu aprender rapidamente, se interessando por matemática, o que levou a ingressar na Universidade de Moscou, onde se destacou por sua capacidade de calcular mentalmente. Sua mãe, amigos e professores passaram a ajudá-lo nos estudos e pesquisas, redigindo os artigos dele. Pontriáguin fez importantes colaborações nos campos da álgebra, da probabilidade, no estudo de números abstratos, na coomologia etc.
John Conforth (1917-2013) - surdo
O químico australiano ainda na juventude desenvolveu otosclerose, um crescimento anormal dos ossos no ouvido, que gera surdez por bloquear a passagem do som. Apesar da deficiência, não desistiu dos estudos e entrou na Universidade de Sydney, onde graduou-se em química. Conseguindo cargo de professor e pesquisador, dedicou-se ao estudo da ação de alguns medicamentos e ações para produzir remédios, o que em conjunto com Vladimir Prelog, lhe renderam o Prêmio Nobel de Química em 1975.
John Forbes Nash Jr (1928-2015) - esquizofrenia
Ainda jovem se interessava por ciências e permanecer isolado. Entrou na Universidade de Carnegie Mellon na Pensilvânia, onde inicialmente começou a estudar engenharia química, mas aconselho de seus professores, mudou para matemática, área a qual realmente lhe interessava. Graduou-se e fez mestrado nesse curso, concluindo-o em 1948, aos 20 anos de idade. Recebeu convites de bolsas de doutorado, vindo a realizá-lo na Universidade de Princenton, trabalhando com a teoria dos jogos, que lhe rendeu reconhecimento no meio acadêmico e uma indicação a professor no MIT. Onde conheceu sua esposa Alícia López-Lardé, com que se casou em 1957. Contudo, foi em 1958 que ele descobriu que era esquizofrênico. Na época seu filho tinha nascido e ele em meio a crise, por sugestão da esposa, foi internado em 1959 para começar a tratar sua doença, diagnosticada como esquizofrenia paranoide somada a um quadro de depressivo. Nash passou a década seguinte fazendo mais vários tratamentos e sendo internado algumas vezes em clínicas psiquiátricas. Sua esquizofrenia piorou nos primeiros anos, havendo a suspeita de que poderia ter enlouquecido completamente. Contudo na década de 1970 ela foi estabilizada. Ele voltou a atuar e recebeu importantes prêmios matemáticos por suas pesquisas.
Ray Charles (1930-2004) - cego
De família pobre, Ray Charles ficou cego aos sete anos de idade por motivos inconclusivos, já que nem ele sabia explicar ao certo como aconteceu. Ainda assim, foi enviado para estudar na Escola de Cegos e Surdos na Flórida, ali se alfabetizou-se e aprendeu música, arte que demonstrava grande interesse e facilidade em aprender. Na época de sua formação escolar, seus pais faleceram tornando-o órfão junto as suas irmãs. Para ajudar a prover o lar, Ray começou a tocar piano (instrumento no qual se especializou) em bares e clubes ainda na adolescência. Eventualmente participava de corais gospels. A fama começou a vir somente na década de 1950, quando o rock n' roll, o soul, o blues e o jazz estavam em alta, consagrando Charles como um pianista proeminente apesar de cego.
Stephen Hawkings (1942-2018) - esclerose lateral amiotrófica
O proeminente físico teórico ainda na adolescência se interessava por matemática e física, posteriormente por astronomia. Concluiu sua graduação em física no University College em 1962, depois terminou o doutorado em Trinity Hall em 1966, passando a ser professor universitário nos anos seguintes. A carreira de Hawkings na física teórica e astronomia se mostrava promissor para um doutor de 24 anos, contudo aos 21 anos ele tinha descoberto que possuía esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença degenerativa que compromete a movimentação, mas não a capacidade cognitiva. Apesar do grande choque, Hawkings decidiu não desistir e se dedicou ao trabalho de cientista. Com os anos a doença foi progredindo e ele acabou tendo que ficar de cadeira de rodas pelo resto da vida, tendo seu corpo levemente contorcido, além de desenvolver dificuldades na fala. Mesmo assim, Hawkings se tornou um notório cientista ao combinar a teoria da relatividade geral e a mecânica quântica para estudar elementos do universo.
Referências bibliográficas
BATTERSBY, Sir Alan R; YOUNG, Douglas W. Sir John Warcup Cornforth AC CBE. 7 September 1917 – 8 December 2013. Biographical Memoirs of Fellows of the Royal Society, v. 62, 2015, p. 19–57.
BICKEL, Lennard. Triumph Over Darkness: The Life of Louis Braille. Leicester, Ulverscroft, 1989.
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. São Paulo, Abril Cultural, 1981.
CHARLES, Ray; RITZ, David. Brother Ray. New York: Da Capo Press, 1992.
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FERGUSON, Kitty. Stephen Hawking: His Life and Work. London, Transworld, 2011.
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NASAR, Svlvia. A beautiful mind: the life of mathematical genius and Nobel Laureate John Nash. New York, Simon & Schuster Paperbacks, 2011.
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Referência da internet
Lev Semenovich Pontryagin - MacTutor




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