O estereótipo de piratas com perna de pau, que se popularizou na literatura, cinema e desenhos, teve uma influência real. No século XVII um almirante holandês que também atuou como corsário, era conhecido pelo apelido de Houtebeen (Perna de Pau), devido a ter perdido um desses membros e colocado um pedaço de madeira no local para poder andar. Apesar da sua deficiência, ele seguiu comandando expedições e liderando esquadras em batalhas.
O passado de Cornelis Corneliszoon Jol (1597-1641) é pouco conhecido, sabe-se que veio de uma família pobre do distrito Scheveningen, em Haia, localidade conhecida por morarem vários pescadores e marinheiros, assim, logo cedo foi aprendendo os ofícios marítimos. No ano de 1626 ele ingressou na Marinha da Companhia das Índias Ocidentais (West-Indische Compagnie - WIC), fundada em 1621, sendo a segunda companhia das Índias a ser fundada na Holanda. No caso, tratava-se de uma empresa de capital misto com sociedade anônima, que possuía privilégios monopolistas concedidos pelo governo para fundar colônias, explorar rotas comerciais e produtos pela região do Oceano Atlântico, o que incluía as Américas e África.
Jol ingressou na WIC por volta de seus 29 anos e em poucos anos foi ganhando renome e destaque na companhia. Na época em que entrou para a companhia ele já tinha perdido uma das pernas durante uma batalha. Os detalhes sobre o conflito são desconhecidos, mas ele contava que perdeu a perna devido a ter sido atingido por um tiro de canhão. Contudo, ele passou a usar uma prótese de madeira, que lhe rendeu o apelido de houtebeen (perna de pau). Apesar de andar mancando, Jol era respeitado como capitão e líder.
Embora não tenha participado do ataque a Salvador no Brasil em 1624-1625, no ano de 1628 ele foi enviado ao Brasil na esquadra do almirante Dirck Symonsz. van Uytgeest, tido como herói de guerra. A respeito, o historiador holandês Joannes de Laet, que foi funcionário da Companhia das Índias Ocidentais, relatou o seguinte:
"Otter, 19 lastos, 16 colubrinas, 71 homens, capitão Cornelis Cornelisz. Jol, notável pela sua bravura, também conhecido por Perna de Pau, por haver perdido uma perna em combate naval, andando tão bem com outra de madeira que mal se percebia o defeito, e era tão ágil a bordo como qualquer". (LAET, 1915, p. 13).
A esquadra de Uytgeest era formada por navios das Câmaras de Amsterdã e Mosa, totalizando mais de doze embarcações, embora nem todas zarparam ao mesmo tempo. Parte da esquadra deixou o porto de Texel a 24 de janeiro de 1628, incluindo o navio Otter (Lontra), capitaneado por Cornelis Jol, com destino as Ilhas Canárias, chegando ali a 24 de fevereiro, depois seguiram viagem até Cabo Verde, onde fundearam a 2 de março e aguardaram o restante da esquadra. A espera durou quase um mês. Em 20 de abril a esquadra já reunida encontrava-se na altura da costa da Capitania do Rio Grande do Norte, quando atacaram três navios portugueses, que estavam carregados com açúcar. O iate comandado por Jol foi responsável por assaltar uma dessas embarcações. Apesar do feito bem sucedido, o almirante Uytgeest mudou os planos, designando o Otter, Wind-Hondt (Galgo) e o Ter Veere a retornarem a Holanda, levando o butim conseguido. Assim, Jol passou pouco tempo no Brasil. (LAET, 1915).
No ano de 1629, Cornelis Jol continuava como capitão do Otter, agora sendo designado novamente para retornar ao Brasil, dessa vez compondo a armada que iria invadir a Capitania de Pernambuco, formada por mais de sessenta embarcações. Seu navio e outros foram enviados na frente para sondar o caminho. No caso, Jol participou do ataque em dezembro daquele ano a ilha de Fernando de Noronha, tentando capturá-la. Os holandeses conseguiram invadi-la, mas foram expulsos. No ano seguinte a poderosa armada holandesa atacou Olinda e Recife, conseguindo ocupar as duas vilas. (COSTA, 1983).
Cornelis Jol ainda em 1630 não permaneceu em campanha pelo Brasil, mas foi enviado a outros capitães para as Antilhas e Caribe. O que incluía agir como corsário. Sobre isso, é importante salientar que o corsário seria um "pirata legalizado", o qual através de uma carta de corso era autorizado pelo governo a cometer alguns atos como assalto e invasão, desde que fossem exercidos contra nações inimigas. Contudo, os corsários costumavam serem considerados piratas de qualquer forma, pois também assassinavam, extorquiam, sequestravam e contrabandeavam. Por conta de suas ações de corso pelo Caribe, região na época dominada pelas colônias espanholas, os espanhóis se referiam a Jol como sendo um pirata.
Cornelis Jol ficou conhecido pelos espanhóis como "piel de palo", também sendo referido como o "pirata da perna de pau", já que passou a década de 1630 cometendo atos de corso pelo Caribe, o que gerou má fama. Ele ao lado de Diego, o Mulato, um corsário à serviço da WIC, realizaram ataques pelo Panamá, México, Guatemala, Cuba e outras localidades entre em 1633 a 1635, que lhe rendeu prestígio. Ainda em 1635 foi capturado por um corsário em Dunquerque na Alemanha, tendo sido feito prisioneiro por alguns meses até pagar o resgate. (LAET, 1915).
No ano de 1638 nas cercanias de Cuba, ele tentou capturar alguns navios da frota do tesouro, nome que designava as embarcações que carregavam ouro, prata e outros produtos da América Central para a Espanha. Jol acabou falhando no intento e até foi dado como morto. No entanto, no ano seguinte ele voltou a confrontar os espanhóis na Batalha Naval de Las Dunas (1639) em que comandou sete navios da frota holandesa contra a frota espanhola liderada pelo almirante Antonio de Oquendo. (RAULT, 2002).
O conflito ocorreu no Canal da Mancha em que os holandeses pretendiam desbaratar uma frota espanhola de reforço enviada a Flandres (atualmente na Bélgica). A frota holandesa era liderada pelo almirante Marteen Tromp. Os holandeses obtiveram vitória, causando várias baixas aos espanhóis. A atuação de Jol foi elogiada, lhe rendendo a promoção a patente de almirante. (RAULT, 2002).
Após a vitória em Las Dunas (ou Downs), Cornelis Jol foi enviado ao Brasil, levando suprimentos e fazendo alguns assaltos a embarcações portuguesas que achasse. Ele aguardou algum tempo em Pernambuco até ser enviado para liderar o ataque a Luanda em Angola, obtendo vitória em conquistar aquela cidade em 1641. Ainda no mesmo ano, durante sua campanha para se conquistar as ilhas de São Tomé e Príncipe, Jol contraiu malária e faleceu em 31 de outubro de 1641, aos 44 anos. (RATELBAND, 1941).
Cornelis Jol teve uma carreira de destaque pela WIC entre 1626 e 1641, ingressando na companhia como marinheiro e falecendo como almirante, tendo obtido algumas vitórias em batalhas, em destaque a captura de Luanda, porém, foi mais lembrado por sua atuação como corsário no Caribe, apesar que para espanhóis e portugueses ele fosse visto como um pirata traiçoeiro. Jol por conta de usar uma perna de pau inspirou o estereótipo popular até hoje.
Primeiramente cito o caso do livro Moby Dick (1851) em que o capitão Ahab tem uma perna de pau. Embora não seja um pirata, mas um baleeiro, tal característica era marcante na apresentação do personagem, que perdeu uma das pernas devido a um ataque da cachalote branca. Contudo, o imaginário de pirata com perna de pau surgiu décadas depois com o livro A ilha do tesouro (1881) em que temos o pirata John Long Silver, que atuava como cozinheiro num navio pirata e depois se tornou um capitão famoso e temido. A popularidade dessa obra ajudou a difundir o imaginário do pirata de perna de pau que foi passado para desenhos, filmes, ilustrações e jogos.
Referências bibliográficas
COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos: 1591-1634. 2a ed. Recife: Diretoria de Assuntos Culturais, 1983.
LAET, Joannes de. Historia ou Annaes dos Feitos da Companhia Privilegiada das Indias Occidentaes desde seu começo até o fim do anno de 1636, vol. V-VII. Traduções de José Hygino Duarte Pereira e Pedro Souto Maior. In: Annaes da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, n. 33, [1911]. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Bibliotheca Nacional, 1915. 13v
RATELBAND, K. De expeditie van Jol naar Angola en Sao Thomé. 30 Mei 1641-31 Oct. 1641. New West Indian Guide, v. 24, n. 1, 1941, p. 321–344.
RAULT, Didier. La información y su manipulación en las relaciones de sucesos Encuesta sobre dos relatos de batallas navales entre españoles y holandeses (1638). Criticón, n. 88, 2002, p. 97-115.
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