sábado, 4 de abril de 2026

Os zigurates: os grandes templos da Mesopotâmia

Os zigurates foram grandes templos feitos com milhões de tijolos, erguidos ao longo de mais de dois mil anos, sendo os mais antigos anteriores as pirâmides do Egito. Eram estruturas elevadas com santuários que permitiam a realização de cerimônias religiosas distintas, além de evocar o poder dos deuses, dos soberanos e dos sacerdotes. 

Origem e conceito

A origem das zigurates remonta a Suméria, região sul da Mesopotâmia, atualmente no Iraque. Os sumérios foram o primeiro povo mesopotâmico a se estabelecer em cidades estruturadas contendo um governo e uma administração pública, embora compartilhassem o mesmo idioma, crenças e costumes, a Suméria nunca foi um território unificado sob um comando apenas, ao contrário, ela era politicamente dividida em cidades-estados, cada qual governada por um rei, sua corte e funcionários públicos. 

Os sumérios começaram a desenvolver cidades por volta do Período de Uruk (4000-3100 a.C.), surgindo cidades como Uruk, Ur e Eridu. Foi nessa época que os primeiros zigurates foram construídos, partindo de templos menores construídos de forma elevada em terraços artificiais ou colinas. O chamado Zigurate de An, erigido em Uruk, consistia num templo (o Templo Branco) retangular sobre uma colina artificial, trata-se do zigurate mais antigo conhecido, sendo sua datação estimada entre 4000 a.C. a 3500 a.C. 

"No Templo Branco havia uma mesa para sacrifícios e um altar, característicos dos templos mesopotâmicos, embora neste caso o altar fosse acrescentado posteriormente, visto que bloqueava uma entrada na parede do fundo. O tempo foi erigido em uma plataforma com rampa. De altura de cerca de 13 m, a plataforma significativamente mais alta que a os templos de Ubaid em Eridu. O Templo Branco foi um dos primeiros antecessores do zigurate, que nos três milênios seguintes dominou o horizonte das cidades mesopotâmicas". (ROAF, 2004, p. 60). 

Maquete digital de como poderia ter sido o Zigurate de An, em Uruk, um dos primeiros zigurates construídos que se conhece. 

Pela representação digital acima nota-se que os primeiros zigurates seriam menos complexos, mais baixos, consistindo numa estrutura elevada com um templo em cima, por conta disso a palavra zigurate significar "algo elevado". 

"O nome [zigurate] deriva do verbo zaqâru que significa construir em altura. Os mesopotâmios designavam desta maneira as torres por andares em cujos topos se construíam os santuários. A sua origem é controversa. Segundo André Parrot, a zigurate procedia dos templos de terraço. Desde o IV milénio, numerosos templos foram erguidos sobre altos terraços artificiais, os quais teriam sido concebidos para que as habitações dos deuses ficassem ao abrigo das inundações. A raridade deste tipo de arquitectura obriga a dar primazia a uma explicação de carácter místico ou religioso. Parrot constatou que desde o fim do IV milénio e o início do milénio seguinte, se acentuou a elevação, vendo-se uma nova etapa na torre por andares no templo de Uqair onde o santuário é erguido sobre um segundo terraço em detrimento da plataforma principal". (SANTOS, 2003, p. 189-190). 

Construir templos em locais mais elevados não era prática apenas dos sumérios, mas de vários povos pelo mundo e ao longo da História, os motivos variavam, mas alguns em comum se dava como forma de aproximar a edificação do céu, local atribuído como morada dos deuses em várias religiões, mas também sua altura diferenciada servia como indicativo de respeito, destaque e imponência. Quanto mais grandioso o templo, isso repercutia na percepção do poder dos deuses, dos governantes que mandavam construí-lo e da classe sacerdotal que administrava aquele espaço. Ademais, o templo deveria ser facilmente localizado no perímetro urbano ou em outra localidade. A forma mais fácil para isso era colocar torres, telhados mais altos, símbolos sobre esses, ou construí-lo numa área elevada. Dessa forma, os zigurates seguiram tais premissas, se tornando com o tempo em grandes construções e níveis, destacando-os na paisagem, assim como, colocando o santuário na parte mais elevada, mais próxima do contato dos deuses.

"Unger definiu três grandes tipos de zigurates que contudo possuíam algumas excepções: tipo sumério, rectângular na base com o acesso assegurado através de escadas, que encontramos no sul da Mesopotâmia; tipo assírio de base quadrada e rampas de acesso que evoluem em torno do monumento, situados no norte da Mesopotâmia; e o tipo misto ou combinado, de base quadrada, mas cujo acesso se faz através de escadas nos andares inferiores e por rampas nos andares superiores, sendo o mais notável dos monumentos deste tipo o grande zigurate de Babilónia". (SANTOS, 2003, p. 190, grifos meu). 

Ruínas reconstruídas do zigurate de Ur, no Iraque, datado de 2100 a.C., um exemplo de zigurate do tipo sumério, com sua base retangular. 

Dessa forma, nota-se que os primeiros zigurates teriam sido construções mais simples, basicamente um grande terraço elevado com um templo no topo. Mais tarde em data incerta, os zigurates se tornaram pirâmides de degraus, passando a serem mais altos e com uma arquitetura mais elaborada. Mas para se construir tais edificações maiores seria necessário pedras? Como visto em outros lugares do mundo. Na verdade a resposta foi outra. 

Diferente do que se pensa, os zigurates não foram construídos essencialmente com pedras, mas com tijolos crus (adobes) ou tijolos cozidos. Assim, diferente do Egito em que abundavam localidades com pedreiras, o que foi fundamental para a construção das pirâmides, templos e palácios, na Mesopotâmia a existência de boas pedreiras era mais limitada, o que levou os povos mesopotâmicos a terem que produzir sua estrutura de construção, no caso, o tijolo. O qual foi possível devido a grande disponibilidade de argila ao longo dos cursos dos rios Eufrates e Tigres e de seus afluentes, sendo combinado com palha e cascas para conceder ligadura. 

"As zigurates eram construídas em bases sobrepostas de tijolos crus, entre os quais se intercalavam em intervalos regulares, camadas de caniços entrecruzados e, por vezes, fixações de baraços de canas entrelaçadas que reforçavam a coesão interna e a solidez da construção inseridas num encarceramento exterior de tijolos ornamentados de pilastras e de saliências, as quais podiam ser revestidas de uma camada de betume. Acedia-se ao topo através de escadas monumentais ou de rampas colocadas perpendicularmente à fachada ou pegadas ao monumento. Os escoamentos das goteiras eram verticais em tijolos cozidos e evacuavam as águas pluviais provenientes dos andares superiores". (SANTOS, 2003, p. 194). 

Graças a abundância de argila, os povos mesopotâmicos se especializaram na produção de tijolos e na olaria. Assim, suas casas, templos, palácios e demais edificações eram essencialmente construídos com esse material. Pedras eram reservadas a algumas construções e a madeira mais raramente empregada nesse quesito, sendo resguardada para móveis, utensílios e veículos. Embora possa parecer algo desconfiável, como grandes templos puderam terem sido construídos com tijolos, a questão é que isso foi capaz graças a combinação de conhecimento de engenharia civil e de engenharia de materiais. Os arquitetos, engenheiros e pedreiros sumérios possuíam noção de que diferentes tipos de tijolos eram mais recomendados para determinadas estruturas como fundações, colunas, revestimento externo e interno, paredes grossas, pórticos, piso, teto etc. 

Fotografia de 1991 mostrando arqueólogos nas ruínas do zigurate de Chogha Zanbil, construído por volta do século XIII a.C., no antigo território dos elamitas, hoje no Irã. 

A imagem acima nos permite observar os tijolos usados na construção dessa edificação. No caso, o zigurate e Chogha Zanbil, ele foi erguido seguindo um padrão misto, desenvolvido pelos babilônios, que combinava rampas e escadarias, contendo uma base retangular. Embora se desconheça qual seria sua altura total e como seria o santuário no topo, mas sabe-se que havia outras estruturas ao redor, incluindo um poço como se pode ver na imagem e câmaras internas também. (LEICK, 2003). 

De fato, nenhum zigurate encontrado até hoje conservou sua estrutura dos andares mais altos. Além disso, a maioria deles tinha o interior maciço, ou seja, não possuíam câmaras ou salas, embora alguns zigurates assírios e elamitas contivessem tais cômodos. Contudo, os zigurates mais antigos pelo que mostra as escavações arqueológicas eram essencialmente sólidos, concentrando o uso ritualístico no exterior. 

Uso religioso

Os povos mesopotâmicos como os sumérios, acádios, babilônios, assírios, caldeus e elamitas, eram politeístas, cultuando um panteão que em alguns casos era compartilhado, ou seja, alguns deuses possuíam nomes diferentes entre tais povos, enquanto outras divindades eram mais exclusivas e até de culto local ou regional. Além disso, as cidades-estados da Suméria possuíam seus deuses padroeiros, alguns dos mais importantes eram An, deus do céu; Enlil, deus dos ventos e da terra; Enki, deus da água doce e da sabedoria; Inanna, deusa do amor e da fertilidade; Utu, deus do sol; Nannar, deus da lua. Enquanto o império babilônico tinha em Marduk, a imagem de seu deus guardião. De qualquer forma, os deuses mais importantes recebiam templos pelos domínios da cidade, mas os principais tinham zigurates. (ROAF, 2004).

"No século XIX quando os arqueólogos começaram a estudar a região da Mesopotâmia e a Assiriologia tinha se desenvolvido, alguns dos primeiros estudiosos consideraram que os zigurates não fossem tão antigos quanto as pirâmides do Egito e poderiam ter sido influenciados por essas, incluindo a condição de poderem ter servido de tumbas para reis. Porém, ambas as teorias já foram descartadas. Os zigurates são anteriores as pirâmides egípcias e não surgiram como tumbas, mas como templos. 

"Um zigurate (pirâmide escalonada) era construído sobre uma plataforma elevada no centro da cidade, e este era cercado por um complexo de templos que incluía moradias para sacerdotes e outros funcionários religiosos. Há muita especulação sobre o motivo pelo qual os sumérios construíram pirâmides como forma de adorar seus deuses. Uma teoria é que esse povo originalmente veio de um país montanhoso, onde as próprias montanhas podem ter feito parte do sistema de adoração. Quando se mudaram para as planícies da Mesopotâmia, construíram pirâmides como montanhas artificiais em memória de sua terra natal. Essa teoria é apoiada pelo fato de que os caracteres sumérios para "país" e "montanha" são idênticos". (HOURLY HISTORY, 2018, p. 10, tradução nossa). 

Do final do século XIX até meados do século XX, historiadores e arqueólogos defenderam a teoria que o santuário no topo dos zigurates fosse usado para um ritual de hierogamia (casamento sagrado), em que o rei ou o sumo-sacerdote personificava alguma divindade e assim tinha relações sexuais com uma sacerdotisa. O ato faria parte de um rito sexual religioso para assegurar a fertilidade dos campos e dos animais e a prosperidade da cidade. No entanto, essa teoria passou a perder apoio na segunda metade do século XX, por falta de evidências concretas, já que não se sabe se teria sido uma prática comum, além de que zigurates foram construídos ao longo de séculos, período extenso que permite mudanças nas práticas religiosas (LEICK, 2003). 

Ilustração do Zigurate de Marduk, na Babilônia como poderia ter sido no século VII a.C., após ser reconstruído e ampliado. Contudo, esse templo dataria de séculos antes. 

Apesar de haver dúvidas de como eram os ritos religiosos executados nos zigurates é fato que eles serviram como grandes templos, em que cerimônias, oferendas e outros rituais eram realizados ao longo do ano, contando com a presença do rei, da corte e da classe sacerdotal. Inclusive dependendo do festejo em questão, a população poderia acompanhar a ritualística observando toda a encenação do cortejo sacerdotal subindo pelas rampas ou escadarias até o santuário no topo do zigurate. 

Michael Roaf (2004) salienta que nos templos mesopotâmicos encontravam-se estátuas dos deuses, as quais eram adornadas com trajes e joias, além de receberem oferendas em comida, incenso, dinheiro etc. Em alguns desses templos havia longas mesas de madeira ou pedra, usadas para se colocar as oferendas e objetos ritualísticos e até se realizar alguma sacrifício e animais, já que em alguns templos foram achados ossos de animais. O interior dos templos também poderia contar com decoração luxuosa, pois a riqueza deveria ser oferecida aos deuses. 

"Igualmente, o primeiro dever dos reis era o de construir, atribuir uma renda perpétua e embelezar um templo em reconhecimento dos serviços concedidos pelos poderes divinos. Tal facto conduziu à construção de santuários cada vez mais elaborados, com um equipamento complexo e oneroso que frequentemente revelava a sua santidade pela sua altura e designação, a casa alta ou a casa da montanha brilhante. A monotonia das grandes torres, dedicadas ao deus patrono, suavizava-se face aos frisos coloridos com que eram decoradas. A zigurate de Borsippa (Birs Nimrud), edificada por Nabucodonosor II, tinha sete pisos, cada um pintado com uma tinta especial. Os sete andares da zigurate de Borsippa foram consagrados aos sete planetas conhecidos dos mesopotâmios e pintados cada um de uma côr simbólica diferente: negro, laranja, vermelho, branco, azul, amarelo, dourado e prateado. Parece com efeito que a zigurate estava coroada por uma pequena capela onde habitaria a divindade, reforçando a sua leitura simbólica como montanha cósmica; trono divino de onde a divindade governava o universo; habitação da divindade". (SANTOS, 2013, p. 194). 

"Os zigurates assírios geralmente eram diretamente ligados a um “templo baixo”, enquanto os zigurates babilônicos eram independentes. Em geral, todas essas estruturas forneciam um palco elevado, uma espécie de escada para os deuses se aproximarem da Terra e para os sacerdotes se aproximarem dos céus. Eles também formavam marcos que eram visíveis de longe". (LEICK, 2010, p. 194, tradução nossa). 

Os babilônios adotaram a prática de construir zigurates isolados, embora algumas cidades sumérias e assírias estabeleceram zigurates conectados a outras estruturas religiosas, os quais formavam um complexo religioso contendo templos menores, celas dos sacerdotes, escritórios, oficinas e até depósitos onde se guardavam oferendas ou parte da colheita da cidade, para ficar sob proteção divina. Vale ressalvar que parte da classe sacerdotal na Mesopotâmia também exercia funções administrativas, alguns sacerdotes eram escribas, contadores e arquivistas. 

Considerações finais

Os zigurates foram templos comuns das culturas mesopotâmicas apresentando uma extraordinária permanência entre aqueles povos, já que eles foram construídos do século XL a.C. até VI a.C., o que perfaz mais de três mil anos de construções desses templos piramidais feitos de tijolos. 

Sendo os primeiros zigurates, terraços mais simples com um templo no topo, surgidos na Suméria, depois evoluindo para edificações maiores com escadarias, rampas e andares, modelo que se difundiu pela Mesopotâmia e mantido até o final do Império Neobabilônico (626-539 a.C.), período em que os últimos zigurates notáveis foram construídos, sendo mais altos e adornados com frisos e cerâmicas coloridas. 

Com a conquista persa da Babilônia empreendida por Ciro, o Grande, a era dos zigurates chegou definitivamente ao fim, pois para os persas aquele tipo de templo não seguia a ideia que eles possuíam para templos, então parou-se de construir zigurates e eles foram sendo abandonados, deixados para ruir. Estima-se que centenas deles foram construídos ao longo dos milênios, hoje se conhece apenas menos de trinta deles. 

Alguns zigurates famosos (as datas são aproximadas):

  • Zigurate de An em Uruk (4000-3500 a.C.)
  • Zigurate de Tepe Sialk (3500-3000 a.C.)
  • Zigura de Ur-nammu em Ur (2300-2100 a.C.)
  • Zigurate de Assur (1700-1600 a.C.)
  • Zigurate de Marduk na Babilônia (c. 1400-1300 a.C.)
  • Zigurate de Dur-Kurigalzu (1400-1300 a.C.)
  • Zigurate de Chogha Zanbil (1300-1250 a.C.)
  • Zigurate de Al-Untash-Napirisha (1250-1230 a.C.)
  • Zigurate de Borsippa (600-550 a.C.)

NOTA: O zigurate de Marduk, conhecido como Etemenanki, estava em seu esplendor após as reformas promovidas pelos reis Nabopolasar e Nabucodonosor II, que coincide com a época do Cativeiro da Babilônia (609-538 a.C.), quando milhares de hebreus foram capturados pelos babilônios e deportados para seu reino. Tal imponente torre teria inspirado o mito da Torre de Babel. 

Referências bibliográficas

HOURLY HISTORY. The Sumerians: A history from beginning to end. [s. l], Edition for Author, 2018. 

LEICK, Gwendolyn. Dictionary of Ancient Neart East Architecture. London, Routledge, 2003. 

LEICK, Gwendolyn. Historical Dictionary of Mesopotamia. 2. ed. Lanham, The Scarecrow Press, Inc, 2010. 

ROAF, Michael. Mesopotâmia. Londres, Ediciones Folio S.A, 2004. 

SANTOS, António Ramos dos. Um lugar de encontro entre o homem e os deusesRevista Portuguesa de Ciências das Religiões, ano II, n. 3/4, 2003, p. 189-196.

Links relacionados: 

Mesopotâmia: o berço das cidades

Os povos construtores de pirâmides

A Torre de Babel

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