Em vária de suas obras Victor Hugo abordou a França como palco de suas elaboradas e dramáticas narrativas, das quais muitas inspiradas em acontecimentos históricos ou pautadas na realidade e época em que ele viveu. No caso de O Corcunda de Notre-Dame, esse livro consiste numa exceção, já que a narrativa se passa no ano de 1482, durante o reinado de Luís XI (1423-1483), o qual reinou de 1461 a 1483. Hugo conta que teve a ideia para o livro, após visitar a bela Catedral de Notre-Dame de Paris, então teve a ideia de escrever uma narrativa cujo majestoso templo, situado no centro de Paris, fosse palco dos amores, dramas e tragédias de seu romance
Em si, O Corcunda de Notre-Dame (1831) é um romance, ora considerado como dramático ou até mesmo considerado como um romance gótico, por esse tom sombrio no sentido de não mostrar o sobrenatural, mas de mostrar toda a dinâmica de uma Paris que ainda conservava traços de uma cidade medieval, com suas ruas estreitas, tortuosas e escuras, com suas praças abandonadas ou ocupadas pelos moradores de rua, como mendigos, ladrões, prostitutas e ciganos. Neste caso, Victor Hugo como marco de sua escrita, sempre gostou de mostrar esse contraste entre as várias classes da sociedade francesa, indo dos miseráveis a realeza.
E ele utiliza esse seu interesse pelo lado social, mundano e cotidiano para embasar o cerne de seu romance, que não consiste num triângulo amoroso, mas em um quinteto amoroso. Uma mulher cobiçada por quatro homens bem diferentes. A protagonista da trama é a jovem cigana Esmeralda, com seus 16 anos, que cresceu nas ruas parisienses. A bela garota ganha a vida dançando e fazendo truques com sua cabra Djali, em troca de moedas. Ela é considerada uma mulher charmosa e bela, apesar de sua cor escura e sua origem cigana, que naquele tempo conotava preconceito. Mas entre os vários admiradores da cigana Esmeralda, quatro deles se destacam na trama.
O jovem poeta Pierre Gringoire, o qual é um artista desafortunado e após uma confusão com bandidos, por um triz não foi enforcado. Ele como foi salvo pela intervenção de Esmeralda, possui uma dívida com ela, e a convivência com sua amiga e salvadora, lhe desperta o amor, apesar que a cigana não dê atenção para ele.
O segundo pretendente da cigana é o galante capitão Phoebus de Châuteaupiers, o qual é noivo, mas isso não impede de cortejar Esmeralda, se aproveitando de sua ingenuidade e juvenil paixão por ele. O terceiro pretendente, que consiste no vilão da narrativa, é o arquidiácono Claude Frollo. Clérigo austero e arrogante, que vive e trabalha em Notre-Dame.
Frollo é tomado por luxúria ao ver Esmeralda dançando na praça em frente a catedral, então a deseja. Como Esmeralda o repudia, ele passa a nutrir ódio pela cigana. Por fim, o quarto pretendente é o corcunda Quasímodo, abandonado na porta de Notre-Dame e adotado por Frollo, Quasímodo é o elemento feio e ingênuo da narrativa, que acaba se relacionado com Esmeralda, numa relação estilo a “bela e a fera”.
Esse quinteto amoroso se desenvolve ao longo de muitas páginas, porém, o foco de nosso estudo foi perceber o elemento da bruxaria presente nessa narrativa. E esse elemento somente surge próximo a metade do livro, quando Esmeralda após demonstrar repúdio e nojo pela lascívia de Claude Frollo, foge dele. O arquidiácono indignado e revoltado por ter sido destratado por uma cigana, decide se vingar naquele estilo “se ela não pode ser minha, então não será de nenhum outro homem”. Assim, Frollo arma um ardil para incriminar Esmeralda, quando descobre que ela tem um caso com o capitão Phoebus. Frollo tenta matar o capitão e pôr a culpa em Esmeralda, mas vendo que somente isso não seria suficiente, pois os dois eram amantes ocultos, ele decide acusar Esmeralda de bruxaria, abrindo denúncia contra ela no tribunal local.
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| Claude Frollo arrastando Esmeralda em cena de O Corcunda de Notre-Dame (1939). |
Alguns aspectos conceituais sobre a bruxaria
O conceito de bruxaria está intrinsicamente associado com o de magia e de feitiçaria, porém, existe diferenças entre eles. Nem todo praticante de magia pode ser chamado de bruxo ou de bruxa, pela condição deste conceito ter alguns aspectos imprescindíveis para compreender sua origem e concepção. Em si, feiticeira e feiticeiro são termos usados para se referir ao praticante de magia. Outros termos são: mago, maga, mágico, xamã, curandeiro, vidente, adivinha, etc. (HANCIAU, 2009). Mas no caso do termo bruxa, esse surge no final do medievo europeu, pautado no contexto de demonização das práticas mágicas.
Os fatores que levaram ao surgimento
dessa demonização da magia e seus praticantes foi um processo que percorreu
alguns séculos, e variando de acordo com o lugar, como sugerido pelo
historiador Carlo Ginzburg (1991). No caso, Ginzburg assinalou que episódios de
paranoia, xenofobia, intolerância religiosa, superstição e perseguições contra
grupos marginalizados, dentre os quais: judeus, muçulmanos, ciganos, leprosos e mendigos, que habitavam países como França, Alemanha, Suíça e Itália; essas perseguições e imaginário nocivo foram sendo
ressignificados desde pelo menos o século XII ao XV, gerando na sociedade uma
percepção de antipatia quanto ao uso da magia.
Levack (1988) e Mainka (2002)
salientaram que além desses problemas apontados por Ginzburg, é necessário
destacar o desenvolvimento de leis e preceitos jurídicos que designavam a magia
como algo criminoso. Neste ponto, Mainka e Levack apontam o surgimento de
decretos papais para taxar determinadas práticas mágicas como heréticas e
perniciosas. Em 1232 o papa Gregório IX, emitiu a bula Vox in Rama, decretando que os padres e bispos alemães tivessem
mais empenho em combater denúncias de práticas mágicas nefastas. Anos depois, São
Tomás de Aquino em seu livro De Malo (1275),
confirmava o que já era assinalado na Bíblia:
a adivinhação e a magia eram pecados. Eram frutos das artimanhas de Satanás.
Apesar da bula papal de 1232 e do sermão de Aquino em 1275, isso não impediu que a magia deixasse de ser praticada nas nações cristianizadas, já que a Igreja Católica não possuía meios de fiscalizar isso. Quase um século depois, no ano de 1326, o papa João XXII emitiu a bula Super Illius Specula, decretando que a feitiçaria era uma prática diabólica. Aqui temos um dado novo e interessante. Anteriormente a magia era criticada como prática herética, mas necessariamente não estava associada com o diabo. Até então, São Tomás de Aquino era quem havia comentado isso em um sermão, décadas antes. Entretanto, o papa João XXII via que os feiticeiros e as feiticeiras não apenas estavam a cometer crime, por se valer do uso da magia, mas por supostamente estarem trabalhando com demônios.
Essa ideia de “magia diabólica” foi sendo desenvolvida pelo clero católico nos séculos XIV e XV, até culminar na concepção de bruxaria. Gerhild Williams (2013), salienta que foi no século XV que surgiu a demonologia, o estudo dos demônios, uma pseudociência que procurava catalogar as várias raças de demônios, mas também de identificar as formas e meios pelos quais os demônios por ordem do diabo, agiam para enganar e corromper as pessoas. E no século XV foram publicados alguns livros que abordavam a influência desses demônios para a magia. Williams cita algumas obras como o Flagellum Maleficorum (1462), Quaestio de Strigis (1470) e o Formicarius (1475). Nesses três livros já se encontravam referências as bruxas, na época chamadas por termos diferentes como maleficarum e strigi. Nessas obras sublinha-se que a “magia negra” praticada pelas bruxas, era oriunda de um pacto diabólico, inclusive o Formicarius, escrito pelo padre Johannes Nider, falava sobre um ritual satânico que ficaria conhecido como sabá (sabbat).
Entretanto, outros dois documentos foram essenciais para decretar a existência desse pacto diabólico entre bruxas e demônios, e dar início a caça às bruxas. O primeiro documento foi a bula Summis Desiderantes Affectibus (1484), decretada pelo papa Inocêncio VIII, a qual determinava a existência da bruxaria, prática até então considerada de caráter duvidoso, pois alguns alegavam que se tratava de boatos, paranoia ou crendices, porém, o papa afirmou com base em sua autoridade que a bruxaria e as bruxas existiam e deveriam ser tratadas como hereges e apóstatas, sendo julgadas por seus crimes e pecados. Nessa bula o papa também solicitou que dois eruditos dominicanos, Heinrich Kramer e Jacob Sprenger, redigissem um manual explicando o que era a bruxaria, como o pacto diabólico era feito, como identificar as bruxas, como encontra-las e julgá-las. Essa obra publicada em 1487, foi o Martelo das Bruxas (Malleus Maleficarum). (OBICI; SKALINSKI, 2003).
Por mais que a trama de O Corcunda de Notre-Dame de Paris se passe no ano de 1482, ou seja, antecedendo a publicação da bula papal e do Martelo das Bruxas, ainda assim, a noção de bruxaria já existia naquela época, já delineada e comentada em outras obras, das quais, algumas por nós citadas, anteriormente.
Não obstante, a própria inquisição desde 1376 já possuía em seu manual, recomendações para se investigar e punir crimes relacionados com o uso da “magia negra”. Sendo assim, Victor Hugo não cometeu anacronismo histórico quanto ao julgamento de Esmeralda ter sido possível naquela época, pois já existia elementos suficientes para permitir isso. E sobre o seu julgamento, o veremos a seguir.
O julgamento de Esmeralda
Anteriormente dissemos que entre os
homens apaixonados pela bela cigana dançarina, estava o traiçoeiro Claude
Frollo, o qual após ser rechaçado por Esmeralda, decidiu se vingar, armando um
ardil para incriminá-la. Frollo de início tramou assassinar Phoebus e
incriminar Esmeralda, mas só essa acusação não deu certo, pois o capitão
sobreviveu a tentativa de homicídio, então Frollo abriu uma denúncia no
tribunal de Paris, denunciando Esmeralda como bruxa. O tribunal decidiu
investigar o caso e reuniu algumas evidências: Esmeralda era cigana, sua cabra
Djali fazia truques, a beleza da cigana parecia enfeitiçar os homens, inclusive
Frollo alega que ela tentou seduzi-lo, e por fim, ela vivia entre os párias da
sociedade parisiense. Tais elementos são interessantes para compreender o local
social que a personagem estava inserida.
Historicamente como comentado por
Ginzburg (1991) e Mainka (2003), os ciganos foram um dos povos no contexto
europeu que em determinadas ocasiões, foram alvos de acusações de que fariam
uso de “magia negra” ou de “bruxaria”. Isso especialmente na figura das
mulheres, pois, ainda hoje, o estereótipo da cigana advinha, da cigana que ler
a sorte na palma da mão, que joga tarô, ou que usa bola de cristal, ainda
perdura, e naquele tempo já existia. A condição de Esmeralda pertencer aos
ciganos já conotava um preconceito social de desconfiança com aqueles
estrangeiros que eram ditos terem vindo do Egito, terra que no medievo era
associada com praticantes de magia.
Esmeralda dançando em cena de O Corcunda de Notre-Dame (1996).
Não obstante, a cabra Djali a qual
sabia fazer truques como dançar e contar, foi encarada após a denúncia de
Frollo, como sendo algo abominável. Aquilo não era natural. Aquilo era fruto de
“magia negra”. Nesse ponto chamamos atenção para a condição que a cabra, mais
especificamente o bode, consistia em um dos animais associados com a bruxaria.
Assim, observamos que a condição de Victor Hugo escolher esse animal para
acompanhar Esmeralda, provavelmente partiu dessa associação diabólica que já
existia na época. Além de ter podido ser uma maneira de não cair na escolha de
colocar um cachorro preto ou gato preto, animais que ainda hoje mantém essa
associação com a bruxaria. De tal forma, Hugo para evitar esse “clichê”, optou
por outro animal. E adiante veremos uma justificativa para isso.
E quanto a beleza de Esmeralda, a
qual Frollo denunciou ser algo suspeito e até mesmo ter sido usada para
seduzi-lo, citamos O Martelo das Bruxas (1997),
em cuja obra assinalava que entre uma das formas das bruxas conseguirem
corromper os cristãos, era através do uso da sedução. Embora a obra não
confirme que todas as bruxas seriam belas ou velhas, ela aponta que os homens
deveriam ter cuidado com elas, pois elas faziam uso da luxúria para
deprava-los. Tal elemento é observado na obra de Victor Hugo, onde ele aplica
essa noção do período, para endossar a acusação de Claude Frollo. Não obstante
é preciso salientar que em vários casos, as acusações de bruxaria, eram
baseadas em boatos, mentiras ou por desavenças pessoais, que levava algumas
pessoas a quererem se vingar. (MANDROU, 1979).
Tais elementos se encontram presentes na narrativa de O Corcunda de Notre-Dame, e por essas condições, foi dada voz de prisão a Esmeralda. O interrogatório dela ocupa poucas páginas do capítulo 1 do livro VIII, onde Esmeralda diante do tribunal é confrontada com uma série de perguntas. No caso, sublinhamos que no livro Victor Hugo não fez uso de um tribunal inquisitorial, mas de um tribunal civil, que contou com representantes leigos e clericais para julgar Esmeralda. Apesar que desde o século XII os tribunais inquisitoriais tenham sido instituídos para tratar de crimes contra a fé, na ausência destes, tribunais civis poderiam julgar alguns casos de heresia. (LEVACK, 1988).
No exemplo do livro, Esmeralda foi julgada por um tribunal misto, pois ela primeiro era acusada por crime de homicídio, depois por crime de heresia e bruxaria. Inclusive durante seu julgamento, a cabra Djali foi convocada para ser observada, e ao realizar seus truques, os juízes consideraram aquilo como manifestação diabólica. Um dos juízes proferiu a seguinte sentença contra Esmeralda:
"Filha, a senhorita é de raça boêmia, que é dada a malefícios. Com a cumplicidade da cabra enfeitiçada, implicada no mesmo processo, feriu e apunhalou, na noite de 29 de março último, em combinação com as potências das trevas e ajudada por encantos e gestualidade, um capitão dos arqueiros da ordenança do rei, Phoebus de Châteaupers. Persiste em negar?" (HUGO, 2015, p. 388).
Evidentemente que Esmeralda negou tais acusações, pois sabia que era inocente e até mesmo disse que isso era um ardil do “padre malvado”, o Claude Frollo. Entretanto, o júri não aceitou sua fala como verídica, acusando-a de estar omitindo a verdade e mentindo, assim, foi decretado que ela fosse enviada a interrogatório. O interrogatório de Esmeralda é narrado no capítulo 2. No caso, tratou-se de sessões de tortura.
O
uso da tortura para se conseguir obter confissões de bruxas, não foi algo
instituído por causa da bruxaria, mas já era aplicado eventualmente pelas
inquisições desde o século XIII. Além disso, a tortura não era aplicada a todos
os casos, e havia situações nas quais aplicava-se o uso de ordálios[2]
para se obter a confissão da suposta bruxa. (LEVACK, 1988).
Apesar que não ter sido uma generalização o emprego da tortura nos tribunais inquisitoriais como sugere o senso comum, mas para fins mais trágicos, Victor Hugo optou em mostrar Esmeralda sendo torturada num borzeguim, instrumento no qual os braços e pernas do réu eram esticados gradativamente, gerando desconforto e fortes dores. Esmeralda após algum tempo sendo torturada dessa forma, acabou confessando os crimes que jamais cometeu.
Jacques Charmolue
ergueu a voz.
— Escrivão,
registre! Jovem cigana, confessa sua participação em ágapes, sabás e malefícios
do inferno, com larvas, máscaras e estriges? Responda.
— Confesso — ela
respondeu, tão baixo que a voz se perdia na respiração.
— Confessa ter
visto o bode que Belzebu faz surgir nas nuvens, chamando para o sabá, e que só
as feiticeiras veem?
— Confesso.
— Confessa ter
adorado as cabeças de Baphomet, aqueles abomináveis ídolos dos templários?
— Confesso.
— E ter tido
convívio habitual com o diabo, sob a forma de uma cabra doméstica, incluída no
processo?
— Confesso.
— Confessa,
finalmente, que com a ajuda do demônio e do fantasma vulgarmente denominado
monge-papão, feriu e assassinou, na noite de 29 de março último, um capitão
chamado Phoebus de Châteaupers?
— Confesso. (HUGO,
2015, p. 395-396).
A confissão de Esmeralda sob tortura, necessita ser analisada brevemente de duas formas: a primeira a respeito da confissão por tortura; e a segunda sobre o teor das perguntas feitas pelo inquisidor.
No tocante a tortura, curiosamente o próprio Martelo das Bruxas recomendava-se ter cautela com essa forma de obter confissão, pois sob forte pressão e dor, a ré para se livrar daquele sofrimento, poderia mentir. Nesse ponto o manual recomendava-se não tomar falso testemunho. Não obstante, havia a alegação que os demônios em convívio com as bruxas, desejavam que elas fossem torturadas, então, as faziam ficar caladas, fazendo os inquisidores optarem pela tortura. Mas embora houvesse essas recomendações por parte dos manuais de caça às bruxas e até manuais inquisitoriais, a tortura não deixou de ser aplicada, e inclusive falsos testemunhos foram tomados como verdadeiros, como no caso de Esmeralda.
Mas a respeito do conteúdo das
perguntas feitas pelo inquisidor Jacques Charmolue, ele aponta uma série de
características já associadas com o imaginário da bruxaria naquele período:
ágapes e sabás eram termos usados para se referir ao sinistro ritual praticado
pelas bruxas, algo já citado no Formicarius
(1476). Belzebu é um dos nomes de demônios famosos no período, as vezes
retratado com a cabeça de bode, como Baphomet. Ambos são citados na fala de
Charmolue. A associação da cabra com o demônio, algo comentado anteriormente. A menção ao crime de idolatria praticado pelos Templários, os
quais em 1304 foram decretados como heréticos pelo papa Clemente V. Nota-se
pela fala do inquisidor, que Victor Hugo inseriu no personagem o imaginário do
sabá, o qual já existia no período e estava se expandido.
De qualquer forma, a confissão de Esmeralda em se reconhecer como bruxa, em ter usado “magia negra” para tentar matar Phoebus, em participar do sabá, em ter contato com demônios e cultuá-los, já eram evidências suficientes para decretar sua pena de morte na forca. Pois diferente do que se pensa, as bruxas necessariamente não eram queimadas. O uso de fogueiras era algo trabalhoso, sujo e muito impactante. Em geral as bruxas eram enforcadas, decapitadas ou garroteadas. Além de haver a condição que havia casos que a bruxa nem pegava pena de morte, mas poderia ser presa ou enviada para exílio. (LEVACK, 1988).
Nesse caso, o advogado enviado para defender Esmeralda pretendeu que a cigana pagasse uma multa e fosse enviada para exílio, porém, o júri considerou a pena demasiadamente branda, e mantiveram a pena de morte. No desenrolar da história, Esmeralda é salva da forca por Quasímodo, que a esconde na catedral de Notre-Dame. Phoebus que era dado como morto, aparece e corrobora que Esmeralda não havia tentado matá-lo, ainda assim, os crimes de bruxaria contra ela não foram removidos, ao mesmo tempo em que, Frollo organizou uma força-tarefa para caçar a cigana foragida, mesmo que isso significasse ter que confrontar o seu protegido, o corcunda Quasímodo.

O enforcamento de Esmeralda (Salma Hayek) em cena do filme O Corcunda de Notre-Dame (1997).
Considerações finais
A execução de Esmeralda tendo sido enforcada como uma bruxa, reflete o contexto francês da época, pois bruxas e feiticeiras foram realmente executadas pela inquisição ou por tribunais civis. Ciganas, parteiras e curandeiras foram acusadas de feitiçaria e bruxaria, tendo passado pelas mãos de tribunais ou sofrido linchamentos pela população motivada por paranoias ou fanatismo. Houve casos de mulheres que foram inocentadas da acusação de bruxaria, pois julgou-se que as evidências eram escassas, e a acusação parecia proceder de mentiras, desavenças e intrigas. A caça às bruxas somente teve início propriamente a partir do século XVI na França.
Por mais que o foco do livro de Victor Hugo foi mostrar todo o drama a respeito dos amores não correspondidos pelos pretendentes de Esmeralda, além dos problemas atrelados com a raiva e a inveja de Frollo, a parte referente a bruxaria é bem interessante, pois enquanto adaptações da obra, tendem a amenizar esse trecho ou removê-lo, isso acaba afetando a percepção dos leitores quanto a condição de que O Corcunda de Notre-Dame trata-se de um romance dramático, inclusive com um final triste.
Referências
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Clavería Ibáñez. Barcelona: Muchnik Editores S.A, 1991.
HANCIAU, Nubia. O
universo da feitiçaria, magia e variantes. Letras
de Hoje, v. 44, n. 4, out/dez 2009, p. 75-85.
HUGO,
Victor-Marie. O Corcunda de Notre-Dame.
Tradução de Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.
KRAMER, Heinrich;
SPRENGER, James. O Martelo das
Feiticeiras. Tradução de Paulo Fróes. 12. ed. Rio de Janeiro: Record, 1997.
LEVACK, Brian P. A caça às bruxas: na Europa no limiar da
Idade Moderna. Tradução de Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Campus, 1988.
MAINKA, Peter
Johann. A bruxaria nos tempos modernos: sintoma de crise na transição para a
modernidade. História, Questões &
Debates, n. 37, 2002, p. 111-142.
MAINKA, Peter
Johann (org.). Mulheres, bruxas,
criminosas: aspectos da bruxaria nos tempos modernos. Maringá, Eduem, 2003.
MANDROU, Robert. Magistrados e feiticeiros na França do
século XVII. São Paulo, Editora Perspectiva S.A. 1979.
OBICI, Giuliano
Lamberti; SKALINSKI JÚNIOR, Oriomar. Os fundamentos teóricos da bruxaria: a
doutrina católica. In: MAINKA, Peter (org.). Mulheres, bruxas, criminosas: aspectos da bruxaria nos tempos
modernos. Maringá, Eduem, 2003.
WILLIAMS, Gerhild Scholz. Demonologies. In: LEVACK, Brian P (ed.). The Oxford Handbook of Withcraft in Early
Modern Europe and Colonial America. Oxford:
Oxford University Press, 2013.
[1] Originalmente o livro se chamava Notre-Dame de Paris. Apenas em 1833, com
a primeira edição em língua inglesa é que ele recebeu a palavra corcunda no
título.
[2] Prova judiciária usada durante o
medievo e a modernidade para se avaliar se o réu estava falando a verdade. Havia
diferentes formas de se aplicar o ordálio, algumas bem estranhas, como segurar
barras incandescentes, pôr a mão em água fervente, ser jogada no rio com os
braços amarrados, fazer duelo, etc. Acreditava-se que caso o réu fosse
inocente, ele não se queimaria, não afundaria, não perderia o duelo. O ordálio
baseava-se numa suposta intervenção de Deus, o qual protegeria os inocentes.


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