Durante o período medieval e moderno a Itália testemunhou o surgimento de talassocracias que foram influentes no Mar Mediterrâneo. Cidades-estados que fundaram impérios mercantes e colônias, que ditaram as regras econômicas, alianças políticas e declarações de guerra em determinadas épocas. O presente artigo conta um pouco sobre as repúblicas marítimas da Itália, governos talassocráticos.
A ideia de que na Idade Média europeia o comércio esteve restrito ao sistema feudal, funcionando de forma local ou regional, é ultrapassada e até desmentida nos livros didáticos atuais, contudo, no imaginário de alguns, ele ainda persiste. Saliento que o feudalismo não imperou sobre toda a Europa, mas em determinadas regiões e épocas. No caso da Península Itálica, ainda não existia um país unificado chamado Itália como hoje conhecemos, mas um conjunto de cidades-estados, reinos, ducados e principados. O que significa que o território italiano estava dividido em pequenos países, os quais ora eram aliados, rivais econômicos e até inimigos.
Assim, algumas dessas cidades-estados eram repúblicas medievais, as quais desenvolveram toda uma política ligada ao mar, algo conhecido como talassocracia. Essa consiste em um sistema político que engloba o controle de rotas marítimas, áreas de pesca, fiscalização de portos, desenvolvimento de marinhas etc., o que permite que determinadas cidades ou países exerçam influência direta ou indireta sobre territórios distantes, sendo eles ilhas, colônias ou partes de continentes. Sublinha-se que a talassocracia pode agir sobre territórios situados no mesmo mar ou até mesmo em outros oceanos, isso dependerá dos meios e recursos pelos quais o governo dominante conseguirá impor sua presença em tais localidades.
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| Localização das repúblicas marítimas italianas. |
Por sua vez, Amalfi fica situada no sudoeste do país, tendo ganhado relevância a partir do século X, quando era o então Ducado de Amalfi, conhecido na época por negociar com mercadores árabes, estreitando os negócios com o Oriente Médio sem os atravessadores bizantinos. Já o Ducado de Gaeta esteve sob domínio bizantino por bastante tempo, começando a romper com ele no século IX. A cidade fica situada na costa ocidental, ao norte de Amalfi, tendo sido no passado um importante porto romano.
No século XI a República de Gênova despontou como um porto importante, além de possuir uma marinha influente, atuando nas guerras contra a pirataria no Mar Trirreno e nas campanhas para se expulsar os árabes das ilhas da Córsega e da Sardenha. Por essa época a cidade de Noli no noroeste da Itália, situada hoje na Riviera Italiana, importante rota turística litorânea, tornou-se uma cidade conhecida pelo seu porto, alcançando a condição de figurar entre as repúblicas marítimas.
Dessa forma, no começo do século XI, já tínhamos quatro repúblicas marítimas. Mas outras três se uniram a essas, a primeira é Pisa, hoje é conhecida por sua torre inclinada (embora somente concluída no século XIV), no entanto, o território dessa cidade era bem mais extenso, incluindo uma área costeira, que hoje corresponde a Livorno e cercanias. A segunda consiste em Ancona, uma antiga cidade romana situada na costa da região de Marche, nas águas do Mar Adriático. Por fim, completando as novas repúblicas estava Ragusa, uma cidade medieval situada na bela costa da região da Dalmácia, com suas águas azuis cristalinas, concentrado as rotas comerciais que vinham do interior dos Bálcãs. Na época o território tinha bastante influência dos italianos e bizantinos, embora hoje ele pertença a Croácia.
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| A cidade de Ragusa em 1667, antes do terremoto que a destruiu. |
Assim, no começo do século XII passamos a possuir sete repúblicas marítimas, as quais as vezes eram aliadas políticas ou rivais, mas até então nenhuma estava em guerra entre si.
No entanto, a realidade mudou um pouco quando Amalfi e Gaeta na década de 1130 perderam suas independências, sendo conquistadas por principados locais. Mesmo não tendo mais autonomia política, ainda continuaram como importantes portos e rotas de comércio. Isso permitiu que as demais repúblicas ganhassem mais território e espaço, destacando-se o crescimento de Gênova e Veneza entre os séculos XIII e XIV, tornando-se importantes intermediários no comércio de tecidos e especiarias pelo Mediterrâneo.
Ademais, Veneza despontou consideravelmente durante a Quarta Cruzada (1206), quando ocorreu o saque de Constantinopla, então capital do Império Bizantino. Isso permitiu obter muita riqueza, mas também estender a influência da república sobre antigos territórios bizantinos, que se tornaram colônias ou clientes.
No século XV as mudanças políticas e econômicas na Europa, norte da África e Oriente Médio impactaram as rotas comerciais. Noli que cresceu havia crescido nos últimos duzentos anos, perdeu grande força na acirrada disputa do mercado marítimo italiano, abandonando aos poucos os investimentos no comércio de longa distância, preferindo se centrar no comércio regional na pesca. Por sua vez, Pisa, em 1406, foi conquistada pela República de Florença, mas embora tenha mantido seus direitos sobre o porto, perdeu investimentos quanto ao comércio marítimo, já que Florença estava mais interessada em assuntos terrestres.
Por sua vez, entre a Idade Média e a Idade Moderna, Veneza, Gênova, Ancona e Ragusa, eram as únicas repúblicas marítimas que mantiveram seus negócios internacionais, centrando-se no comércio de especiarias asiáticas, pelas quais atuavam como intermediários e revendedores na Europa. Isso tornou a quatro repúblicas bastante ricas durante o século XV, já que não tinham outros concorrentes. E mesmo com a queda do Império Bizantino em 1453, sendo substituído pelo Império Otomano, os italianos souberam como se adaptar isso, para não manter suas posições e acesso as especiarias e outras mercadorias orientais.
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| Vista da cidade de Gênova, por volta de 1481. |
No ano de 1492 o navegador Cristóvão Colombo retornou a Espanha com a notícia de ter encontrado uma rota alternativa para as Índias. Já em 1499 foi a vez de Vasco da Gama voltar a Portugal, tendo vindo de uma viagem a Calicute na Índia, seguindo rota contornando a África. Os dois feitos realizados em fins do século XV, abalariam a hegemonia econômica das repúblicas marítimas no século seguinte, pois os espanhóis começariam a explorar o Caribe, as Antilhas e o México, enquanto Portugal investiria no seu Caminho das Índias, esse apesar de mais demorado, permitiu trazer muitas especiarias, evitando atravessadores, o que rompeu o domínio sobretudo de Veneza e Gênova em controlar o comércio de especiarias.
Dessa forma, no século XVI, em 1532, a República de Ancona foi derrotada e anexada pelos Estados Papais, restando apenas Veneza, Gênova e Ragusa. Cada uma teve que se readaptar a mudança geopolítica e econômica internacional desenvolvida naquele século.
Os venezianos passaram a investir nas artes, cartografia e cultura, se tornando um polo cultural do Renascimento, além de abrir rotas de comércio terrestre para o interior da França, Suíça e Alemanha. Como reforçaram sua presença na Dalmácia, sul da Grécia e na ilha de Chipre. E continuaram como principais contatos dos otomanos, como também estenderam seus negócios para o Mar Negro. Já Ragusa consolidou-se como um dos principais portos dos Bálcãs, assegurando sua posição por mais de duzentos anos. Por fim, Gênova ainda manteve contato com os otomanos, mas também passaram a se tornar clientes dos espanhóis e portugueses, revendendo suas mercadorias e até explorando algumas ilhas atlânticas os Açores.
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| Os domínios venezianos entre 1340 a 1509. |
Essas mudanças foram importantes para assegurar que tais repúblicas se mantivessem independentes até o começo do século XIX, apesar de perderem seus postos como potências marítimas tanto no comércio quanto na guerra. Ainda assim, esses pequenos países sobreviveram até foram conquistados pelo império de Napoleão Bonaparte, perdendo sua independência.
Apesar disso, nota-se que algumas dessas repúblicas, chegaram a estar nos centros das atenções por quase mil anos, como os casos de Veneza, seguida por Racusa e Gênova. O que revela a grande capacidade de adaptação a diferentes momentos históricos, mudanças econômicas e culturais, crises e guerras.
Referências bibliográficas:
BENVENUTI, G. Le Repubbliche Marinare. Amalfi, Pisa, Genova, Venezia. Roma, Newton & Compton Editori, 1998.
FRUGONI, A. Le Reppubliche Marinare. Torino, ERI, 1958.


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