Durante séculos um esporte singular surgido na América Central, se difundiu entre distintos povos indígenas, ganhando regras diferentes, mas mantendo aspectos em comum, incluindo sua dificuldade e conexão ritualística com crenças religiosas e alguns mitos.
![]() |
| Ilustração espanhola comentando sobre o jogo da bola visto entre os astecas. Christopher Weiditz, 1528. |
Não se sabe ao certo qual povo inventou esse esporte, mas as evidências arqueológicas mais antigas apontam a existência desse jogos para entorno de 1600 a.C., pelo menos, de onde encontrou-se ruínas de uma quadra, especialmente a localizada em Paso de La Amada, atualmente no México, datada de 1400 a.C. Por sua vez, foram encontradas bolas de borracha datadas de 1600-1500 a.C. em Vanati, também no México. (SCHEFFLER; REYNOSO; INZÙA, 1999).
Sabe-se que diferentes povos mesoamericanos como os olmecas, toltecas, maias, zapotecas, astecas etc., praticavam esse esporte ao longo de mais de mais de dois mil anos, o que revela como esse jogo foi bastante importante e influente nas culturas indígenas da América Central. Evidências arqueológicas apontam resquícios desse jogo do Arizona até a Nicarágua, mas os principais achados circulam no que hoje é o território sul do México, região inclusive onde cresce a árvore da borracha (Castilla elastica), uma planta distinta da seringueira (Hevea brasiliensis), sendo essa nativa da região amazônica na América do Sul, contudo, ambas produzem uma seiva com propriedades específicas, que permitem se produzir o látex e a borracha. (WEIGAND, 1991).
Sendo assim, os povos mesoamericanos em algum momento antes de 1600 a.C., já sabiam como produzir borracha, e assim passaram a confeccionar bolas para serem usadas em jogos, vindo a originar o jogo da bola, embora não se saiba como ele surgiu e por qual motivo. Porém, ele passou a ter um valor religioso também, como será explicado mais adiante. (WEIGAND, 1991).
O nome do esporte
Devido a distintos povos praticarem esse esporte ao longo de pelo menos dois mil anos, não temos um único termo para designá-lo. Fato esse que os historiadores e arqueólogos normalmente se referem a ele como "jogo da bola Mesoamericano", um termo genérico.
Os maias em determinadas épocas usavam a palavra pitzo, já os maias que viviam na Península de Yucatán, utilizavam o termo tlachtli advindo do idioma nahualt. Porém, em um dialeto local o jogo era chamado de poc-ta-tok, uma referência ao som da bola quicando. (SCHEFFLER; REYNOSO; INZÙA, 1999).
Já os zapotecas em seu idioma próprio falavam taladzi. Cuja palavra conservava parentesco com a anterior. Em ambos os casos, existe uma referência a borracha, material usado no fabrico das bolas.
Os astecas que constituíram um império entre os séculos XIV e XVI, chamavam esse esporte de ollamalistli ("caçar a borracha"), inclusive o nome Olmeca, que designa uma antiga civilização mesoamericana que viveu entre 1500-400 a.C., significa "povo da borracha". Os astecas diziam que eles tinham inventado esse jogo. (SCHEFFLER; REYNOSO; INZÙA, 1999).
O mito maia do jogo da bola
O livro do Popol Vuh ("Livro da Comunidade") consiste em uma obra de origem anônima, escrita por cronistas espanhóis em meados do século XVI, que coletaram os relatos mitológicos de povos falantes do quiché, um dos idiomas falados pelos antigos maias, por conta disso, tais mitos serem associados a civilização maia. De qualquer forma, o livro centra-se em vários mitos abordando a origem de alguns deuses, conflitos entre eles, lugares mitológicos com destaque para a descrição do submundo chamado de Xibalba; aventuras de heróis, mito da criação da humanidade etc.
Em meio aos mitos narrados no Popol Vuh está o do jogo da bola disputado pelos heróis gêmeos Hunaphú e Ixbalanqué, os quais eram deuses filhos de Hun-Hunaphú e Ixquic. Tudo começa quando o pai dos gêmeos viaja a Xibalba e se apaixona pela bela donzela Ixquic, filha de um dos Senhores de Xibalba (os deuses dos submundo). O casamento é vetado, pois Hun-Hunaphú e seu irmão Sete-Hunaphú eram forasteiros e não eram bem-vindos ali. Apesar disso, o deus acaba engravidando Ixquic, posteriormente ele e o irmão são convidados a uma disputa de jogo da bola contra os Senhores de Xibalba, mas esses trapaceiam, vencem e matam os dois. Ixquic, por sua vez, escapa para poder criar seus filhos, embora acaba morrendo posteriormente ao parto.
Muitos anos depois, os irmãos são informados por sua avó sobre como o pai deles e o tio foram mortos e a condição de que sua mãe era uma exilada e deserdada. Seguindo o preceito de vingar sua família e recuperar os restos mortais do pai, Hunaphú e Ixbalanqué viajam até Xibalba e desafiam os deuses da morte, os quais lhes submetem a partidas do jogo da bola, mas essas terminam em empates (mesmo os deuses tendo trapaceado, mas os gêmeos conseguem evitar a derrota), então os deuses furiosos, enviam os gêmeos para uma das "casas" de Xibalba para morrerem, mas eles conseguem sobreviver. Embora que ao chegarem na "sexta casa", habitada por ferozes morcegos, Hunaphú em um ato de vacilo, é decapitado por uma das criaturas, contudo, Ixbalanqué recupera a cabeça do irmão e leva-a consigo.
![]() |
| Os heróis gêmeos Hunaphú (esquerda) e Ixbalanque (direita), confrontando o deus Vucub Caquix, em um dos desafios no Reino de Xibalba. |
O mito dos heróis gêmeos mostra um uso mitológico do jogo da bola como uma forma de desafio entre senhores, inclusive passível de pena de morte. Além do mais, o mito também não nos fornece detalhes sobre as regras do jogo, já que em distintos momentos ocorrem trapaças, apesar disso, os gêmeos conseguem evitar serem derrotados como seu pai e tio, e levam até o fim seu plano mirabolante de vingança.
Contudo, é perceptível que entre os maias quiché o jogo da bola era um esporte tão importante que estava associado a todo um mito longo envolvendo aventura, trapaças, traições, reviravoltas, heroísmo e finalmente culminava no surgimento do Sol e da Lua, o que em parte torna esse mito uma narrativa cosmogônica (mito de origem).
As regras do jogo
As regras do jogo da bola variaram com o tempo e o povo. Embora hoje seja comum lermos que equipes de 3 x 3 se confrontavam dentro de uma quadra com paredes nas laterais, onde ficavam aros e acima dessas paredes estavam as arquibancadas, esse modelo de quadra se desenvolveu principalmente entre os maias, se tornando padrão para povos posteriores como os zapotecas, toltecas e astecas.
Não se sabe como as primeiras partidas eram jogadas, já que vestígios arqueológicos mais antigos encontrados de quadras, datam de 1400 a.C., o que sugere que antes dessas quadras de pedra terem sido construídas, o jogo era feito em campo de terra, o que também mudava sua dinâmica de ser jogado e suas regras. (SCHEFFLER; REYNOSO; INZÙA, 1999).
No entanto, o tamanho das quadras não apresentava uniformidade. Algumas partidas eram jogadas em campos de terra, não havendo aros para se marcar os pontos. A pontuação era calculada de outra forma, No caso desses campos, a área de atuação poderia passar dos 20 metros de largura como o caso do campo em Chichén Itzá, que era maior do que um campo de futebol atual e seu aro ficava a uma altura de seis metros. (TALADOIRE, 2001).
![]() |
| Um dos dois aros no campo de Chichén Itzá, México. |
![]() |
| Quadra do joga da bola na cidade maia de Zaculeu, atualmente na Guatemala. |
Tais quadras não seriam usadas apenas para a prática do esporte, mas também para reuniões, apresentações artísticas envolvendo música, dança e teatro, e até alguma cerimônia religiosa. (TALADOIRE, 2001).
Quanto a bola, essa também variou com o tempo não tendo um parâmetro claro para suas dimensões. Poucas dessas bolas foram encontradas, e as achadas foram encontradas em locais de oferendas, pois bolas de borracha tinham essa função também. Sendo assim, os arqueólogos põe em dúvida se aquelas bolas seriam usadas no esporte ou feitas para servirem como oferendas.
Diferentes estudiosos apontam que as bolas desse jogo teria um tamanho igual ou menor do que uma bola de futebol ou de vôlei. Outros sugerem que tais bolas poderiam ser maiores e mais pesadas como uma bola de basquete, podendo variar de 1,5 kg a 4 kg. Contudo, as dimensões da bola também variavam não apenas com a época, mas como a forma que tal jogo era jogado. Podendo ser maior ou menor e maciça. Mas é fato que ela conseguiria quicar. (SCHEFFLER; REYNOSO; INZÙA, 1999).
Na internet é comum encontrar que a regra de se jogar esse esporte era usando-se os quadris para golpear tais bolas, mas essa prática se popularizou com os maias tardios e os astecas, confirmado pelos cronistas espanhóis, que inclusive mencionam a presença de aros nas paredes, pelos quais a bola deveria ser atirada.
O problema é que tais cronistas não deixaram nenhum relato detalhado das regras desse jogo. Eles informaram que havia um sistema de pontuação, envolvendo jogar a bola em determinados lugares do campo adversário, não jogar para fora da quadra, passá-la por tais aros etc. Porém, não há detalhes de como a pontuação era marcada, se haveria faltas, arbitragem, tempo de duração, substituições, expulsões etc.
No caso do jogo disputado com os quadris, temos relatos escritos e evidências iconográficas mostrando jogadores usando saias acolchoadas para reforçar a proteção nos quadris, mas havia casos de vermos imagens de jogadores usando também braçadeiras e joelheiras, contudo, eles jogariam com pouca roupa e descalços, podendo também usar adornos como braceletes, colares e brincos. Há relatos que mencionam o uso de faixas, capacetes, coquares e até máscaras. Nesse caso, o uso da cabeça para se jogar não seria permitido.
Contudo, inscrições oriundas de cidades maias, olmecas e zapotecas, mostram jogadores usando as mãos, os braços, os pés e até pedaços de pau para jogar a bola. Alguns estudiosos apontam que poderiam ser outras formas de se jogar esse esporte, outros sugerem que se tratariam de esportes diferentes. O problema reside que antes do século XVI não temos relatos escritos desses jogos para atestar isso, apenas representações iconográficas sem explicações claras. Mesmo que povos como maias e astecas tivessem seus alfabetos, contudo, infelizmente muito de seus escritos foram perdidos ou destruídos nas primeiras décadas da colonização espanhola.
![]() |
| Mural em Teotihuacán mostrando um jogador com uma bola. A imagem transpassa a ideia de que o homem estaria chutando-a. |
- O ulama de quadril: jogado com equipes de 5 ou mais jogadores, em que se utiliza uma proteção para os quadris, pois as bolas pesam em torno de 3 kg e medem 20 cm de circunferência. Nessa modalidade não é obrigatório o uso dos aros.
- O ulama de braço: usando-se proteções para os braços, podendo usar apenas esses membros, para golpear bolas menores com 11 cm de diâmetro e com cerca de 500 gramas, sem precisar passá-las por aros. As equipes variam de 3 a 5 pessoas, podendo ter até mais gente.
- O ulama de taco: o qual se faz uso de tacos com duas mãos para golpear pequenas bolas com 500 gramas, parecidas com bolas de beisebol. As equipes podem ter 5 ou mais pessoas.






Nenhum comentário:
Postar um comentário