quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

As corridas de cavalo no Império Bizantino

Se no Império Romano (27 a.C. - 476 d.C) os jogos de gladiadores foram populares ao longo de séculos, os bizantinos a quem herdaram a cultura romana, trocaram as areias manchadas de sangue, pelas pistas empoeiradas; trocaram os gritos de furor e dor dos gladiadores e prisioneiros executados, pelos gritos de adrenalina dos condutores e o relincho dos cavalos. A arena foi substituída pelo hipódromo, o qual era maior e proporcionava tanta emoção quanto. Assim, pelo Império Bizantino (395-1453) por muito tempo as corridas de cavalos foram o esporte nacional daquele povo, tal qual as lutas de gladiadores tinham sido na Roma Antiga. 

Introdução 

A palavra hipódromo vem do grego hippodromos (percurso de cavalos), termo usado para designar uma pista de corrida para cavalos, fosse eles montados pelos cavaleiros, ou conduzindo bigas. A ideia de hipódromo surgiu na Grécia Antiga em data incerta, todavia, no século VII a.C., nos Jogos Olímpicos já haviam disputas de corridas de cavalos e bigas em hipódromos em Olímpia, a cidade que tradicionalmente celebrava tais jogos. 

Os hipódromos na Grécia Antiga não foram tão populares como os estádios, usados nas corridas a pé, ainda assim, existiam em algumas cidades para realizar corridas de bigas (carroça puxada por dois cavalos) e quadrigas (carroças puxadas por quatro cavalos). Tal cultura esportiva foi legada aos romanos, que também se interessaram por essas corridas, além do atletismo e das lutas. 

Vaso grego representando uma caçada com duas quadrigas. 

Assim, por volta do século VI a.C., os romanos começaram a construir um hipódromo no centro de Roma, entre as colinas Aventino e Palatino, nos séculos seguintes a estrutura foi reformada e ampliada até se tornar a maior da Roma Antiga, chamada de Circo Máximo, um hipódromo de 600 metros de comprimento e 140 metros de largura, com capacidade estimada para 150 mil espectadores. Depois do Coliseu, o Circo Máximo era o centro esportivo mais popular de Roma, onde a população ia assistir as corridas de cavalo com bigas e quadrigas, mas também desfiles, apresentações teatrais e outras celebrações. 

As ruínas do Circo Máximo em Roma, em fotografia de 1978. 

As corridas nos hipódromos gregos costumavam durar 12 voltas, sendo elas marcados por objetos como globos de madeira ou pedra e estatuetas, os quais eram colocados pelos árbitros num marcador no centro da pista para que o público visse a quantidade de voltas que tinham sido dadas e restavam. No caso bizantino em determinadas épocas usou-se ovos ornamentados e avestruzes. 

Devido aos riscos em que era comum acidentes de colisão entre os competidores ou cavalos quebrando as patas, costumava-se dividir a quantidade de competidores em grupos ou séries. Dependendo de quantos inscritos havia, essa divisão poderia ser feita pelos árbitros ou por sorteio. Geralmente evitava-se colocar mais de seis competidores por vez, especialmente nas corridas de quadriga, em que cada carro era puxado por quatro cavalos. 

Dividindo o número e competidores por séries, havia um sistema de classificação simples, em que os primeiros colocados eram classificados para as corridas seguintes, até que no final os cinco ou seis melhores disputassem a última prova. Dependendo da quantidade de corredores, as corridas poderiam durar o dia todo ou até mesmo durando mais de um dia. 

Os romanos mantiveram essa característica, mas deixaram de foram as corridas montadas a cavalo, mantendo apenas as corridas de bigas e quadrigas. Por sua vez, eles reduziram o número voltas, variando de 5 a 7 voltas por corrida. O sistema de pontos foi mantido, mas acrescentou-se também espetáculos para entreter a plateia durante os intervalos e a criação de equipes e times para a competição. 

As arquibancadas eram longas e divididas em fileiras assim como visto nos estádios, arenas e teatros. Todavia, os nobres e ricos possuíam seus lugares reservados. Já o monarca ou autoridade política, dispunham de um camarote. No caso de Constantinopla o camarote do imperador chamado catisma, que possuía um túnel que a ligava até o palácio imperial, permitindo acesso exclusivo e direto do soberano, família e convidados. Na imagem abaixo vemos que o camarote real ficava situado no lado oposto aos portões. 

Reconstituição de como seria o Circo Máximo em Roma, o qual serviu de modelo para os hipódromos romanos e bizantinos. 

A popularidade das corridas de cavalo entre os bizantinos

O hipódromo de Constantinopla foi concluído em 203 por ordem do imperador romano Septímio Severo, na época em que a cidade se chamava Bizâncio ainda. Mais de um século depois o imperador Constantino, o Grande realizou reformas na cidade entre 324 e 330, atribuindo-a o título de "Nova Roma". O hipódromo foi uma das estruturas reformadas, passando a ter 450 metros de comprimento e 130 metros de largura (menor do que o de Roma), mesmo assim, tornou-se o mais importante hipódromo do Império Bizantino.  

O restante da estrutura do hipódromo seguia os padrões greco-romanos sendo uma pista em formato de U alongado, tendo arquibancadas de ambos os lados e uma divisão ao meio da pista, contendo muretas, estátuas, colunas e obeliscos. Inclusive várias estátuas de bronze em tamanho real de atletas e cavalos ornamentavam o hipódromo. Quatro cavalos de bronze construídos no século IV a.C, foram instalados no hipódromo por ordem do imperador Constantino, porém, em 1204, durante a Quarta Cruzada, que resultou no saque e Constantinopla, essas estátuas foram roubadas e levadas para Veneza, onde permanecem até hoje. 

Esses quatro cavalos de bronze ornamentaram o hipódromo de Constantinopla por séculos até serem roubados em 1204 e levados para a Basílica de São Marcos em Veneza, onde permanecem desde então. 

Se os romanos adoravam os jogos de gladiadores, os bizantinos tinham a mesma reação pelas corridas de cavalo, evento que mobiliza todo um comércio e apostas em Constantinopla e nas cidades em que existiam hipódromos. Os dias de corrida tornavam a cidade bastante movimentada, as vezes atraindo espectadores de outras cidades e partes do império na época dos grandes torneios. 

As cercanias do hipódromo em Constantinopla ficavam lotadas de espectadores, comerciantes e gente que estava de passagem. Além da estrutura da longa pista em si, havia salas diversas no estádio para atender os espectadores VIPs, as comitivas das equipes, os atletas, os corredores restritos para os cavalos, carroças e funcionários. Vale lembrar que nos arredores do hipódromo ficavam lojas de comida, bebida e outros produtos, pois durante os intervalos as pessoas podiam ir ali para comprar algo para comer ou beber, ou comprar algum artigo relacionado as corridas, além de se fazer apostas, embora não houvesse casas oficiais de apostas, sendo essas feitas de forma informal. Domicílios e outras lojas também se encontravam por seus arredores. 

Nos intervalos das corridas apresentações de música, dança, canto, malabarismo, teatro e até de animais selvagens domados, eram realizadas para entreter o espectadores. Exemplo disso é a condição de que a imperatriz Teodora (527-548) era filha de um domador de ursos e de uma dançarina e atriz. Seus pais trabalhavam no hipódromo, inclusive ela quando jovem também atuou por lá até cair nas graças do imperador Justiniano I (c. 482-565), vindo a ser despojada por esse e gerando grande alarde na época por conta de sua origem pobre e suspeita (boatos diziam que ela seria uma prostituta também). 

Os bizantinos mais ricos patrocinavam equipes, atletas e haras. No caso de Constantinopla havia quatro equipes (facções) ou demoi, as quais eram identificadas por suas cores, sendo referidas como Azuis (Venetii), Verdes (Prasinoi), Vermelhos (Rousioi) e Brancos (Leukoi). Cada um dos demoi eram patrocinados por políticos, militares e ricos comerciantes, que investiam pesadamente, pois os prêmios dos campeonatos eram vultuosos. As quatro equipes competiam regularmente entre si para provar quem era a melhor do império. Os próprios imperadores também tinham interesse no patrocínio dessas equipes, chegando a treinar atletas e cavalos ou investindo dinheiro nelas. Vale lembrar que o esporte entre os bizantinos também era um campo de disputas políticas. 

Os quatro times de corrida de Constantinopla eram bem populares, equivalendo a grandes times de futebol, basquete e beisebol e hoje em dia, em que as torcidas se mostravam leais, criavam hinos, cantos, debatiam, apostavam e até brigavam por conta dos resultados das corridas ou ofensas. 

Pintura e uma corrida de bigas em um hipódromo. 

A Revolta de Nica (532)

O acontecimento mais chocante envolvendo as corridas de cavalos no Império Bizantino, ocorreu no ano de 532, durante um dia comum de disputa entre os times, quando os Azuis e os Verdes chegaram a final, porém, houve um tumulto quanto ao resultado da corrida, em que a plateia apontava que os Verdes tinham vencido. Os árbitros não conseguiram conter os protestos pedindo para rever quem chegou em primeiro e os pontos somados. A plateia dos Verdes gritava nica (vitória). Então o imperador Justiniano I foi convidado a dar um voto de minerva. O monarca disse que a equipe vencedora foram os Azuis, seu time favorito, isso iniciou uma revolta generalizada entre os torcedores dos Verdes que acabou levando a brigas e atos de vandalismo. 

No entanto, os historiadores avaliam que a Revolta de Nica não teve como principal catalizador a dúvida quanto a vitória do time Verde e Azul, na verdade isso teria servido apenas de bode expiatório para opositores do imperador Justiniano I incitarem uma revolta contra ele. Já que em outros momentos da história bizantina revoltas na capital levaram ao destronamento de imperadores ou até mesmo suas mortes. 

Embora Justiniano I tenha sido lembrado como um dos mais influentes e poderosos imperadores bizantinos, seu governo vivenciava uma crise já algum tempo, envolvendo aumento dos tributos, crescimento da miséria, fome e doenças. Tais fatores vinham irritando a população de Constantinopla desde os mais pobres aos mais ricos comerciantes que não queriam pagar mais impostos. Tudo isso foi sendo combinado num ardil político dos opositores do monarca e estourou na briga iniciada no hipódromo. 

A Revolta de Nica se espalhou de volta violenta, havendo saques e depredações. A Igreja Hagia Sophia chegou a ser incendiada parcialmente e o palácio real foi invadido. O imperador Justiniano I cogitou abandonar a cidade, temendo ser morto, porém, a imperatriz Teodora tomou controle da situação, convocando os generais leais ao seu marido, assim, ela enviou Belisário e Narsés para negociar com os revoltosos, convocando-os de volta ao hipódromo para negociar o fim da revolta e o reconhecimento da vitória dos Verdes. Todavia, aquilo foi um engodo. Os revoltosos foram trancados no hipódromo e executados. Segundo relatos exagerados da época, 30 mil pessoas morreram naquele dia, deixando as areias da pista de corrida encharcadas de sangue. 

Após esse massacre, Justiniano I recuperou o controle da cidade e governou com mãos de ferro para evitar novas revoltas. Ele não aboliu as corridas, já que as adorava, mas reforçou a guarda no hipódromo, também mandou perseguir opositores envolvidos que sobreviveram ao massacre, além de reformar prédios danificados por incêndios criminosos durante o protesto. Assim, a Revolta de Nica foi o acontecimento mais violento e sangrento envolvendo as populares corridas de cavalo no Império Bizantino. 

Mapa mostrando a localização do hipódromo, o palácio real, a Hagia Sophia, alguns palácios menores e banhos públicos. A Revolta de Nica em 532 ocorreu pelas ruas dessa área. 

Considerações finais

Após o saque cometido na Quarta Cruzada (1204), várias estátuas e outros objetos luxuosos do hipódromo de Constantinopla foram roubados, isso também se estendeu a igrejas, palácios, casarões, lojas e prédios do governo. A estrutura do hipódromo chegou a ser vandalizada, mas continuou operante até 1453 quando a cidade foi conquistada pelo sultão turco Mehmet II, o Conquistador. Assim, Constantinopla passou para nova administração, tendo seu nome alterado para Istambul, o qual conserva até hoje. 

Os turcos não se interessavam por aquelas corridas, então elas deixaram de serem realizadas e o hipódromo passou a ser utilizado para outras funções, servindo de quartel e depósito. Com os séculos ele foi ruindo. Atualmente a Praça Sultão Ahmed se situa onde anteriormente existiu o mais famoso hipódromo do Império Bizantino. 

Praça Sultão Ahmed onde anteriormente ficava o hipódromo de Constantinopla. O obeslico ao centro da imagem foi trazido do Egito, tendo pertencido ao faraó Tutmés III.

NOTA: O filme Ben Hur (1959) retratou as corridas de quadrigas em um hipódromo romano. Na época a pista foi construída e os atores tiveram que treinar para fazer as cenas de ação. 

NOTA 2: No jogo Assassin's Creed Origins (2017) há um hipódromo em Alexandria onde é possível participar de corridas de quadriga. 

Referências bibliográficas

GIORDANI, Mario Curtis. História do império bizantino. 3a ed, Petrópolis, Vozes, 1992.

O Império Bizantino. Madrid, Folio S. A, 2008. (Coleção Grandes Civilizações do Passado). 

RUNCIMAN, Steven. A civilização bizantina. 2a ed, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1977.

Links relacionados:

O legado bizantino

Os bizantinos

Hagia Sophia: o grande templo

Olímpia e os Jogos Olímpicos

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