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Leandro Vilar

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A realidade dos Contos de Fadas: Uma análise social

Quando ouvimos falar de contos de fadas, pensamos em crianças, histórias sobre princesas, fadas, anões, bruxas, animais falantes, etc. Histórias contadas pelos pais durante a noite, ou nas escolas. Histórias que viraram clássicos pela mãos de Walt Disney. Contudo tais histórias, a princípio sem nenhum contexto mais importante, escondem um passado sombrio de uma realidade de vida miserável e cruel. Se vocês tem crianças em casa, não contem para eles o que será dito aqui, deixe que a fantasia destes contos os encantem e os alegrem por enquanto.

Os principais contos de fadas que conhecemos no Ocidente, como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Cinderela, O Pequeno Polegar, O Gato de Botas, Barba-azul, Os contos da Mamãe Ganso, etc., tiveram suas origens em tempos remotos que se perdem na história. Tais histórias se originaram em parte na Idade Média europeia e em outra parte, vieram do Oriente, possuindo diferentes versões. Histórias como da Branca de Neve e Cinderela possuem várias versões ao longo da Idade Média até o século XX, de fato as versões da Disney são as mais famosas e conhecidas no mundo.

Chapeuzinho Vermelho: 

Comecemos a tratar da realidade destas histórias a partir de agora, começando com a clássica história da Chapeuzinho Vermelho. Essa história ainda possui suas origens desconhecidas, mas os relatos mais antigos são encontrados na França, posteriormente outras versões deste conto surgiram na Inglaterra e na Alemanha, em especial na Alemanha temos a versão dos famosos Irmãos Grimm (Jacob e Wilhem). 

Ilustração de Gustavo Doré, XIX. 
Em resumo, a história da Chapeuzinho Vermelho, narra a aventura de uma jovem menina, as vezes descrita como uma criança entre seus dez e doze anos ou uma adolescente entre seus 14 e 16 anos, a qual viaja por uma sombria floresta a fim de visitar sua avó doente e lhe levar comida e remédios, mas no caminho ela se depara com um grande e feroz lobo que a engana, lhe apontando um suposto atalho que na realidade era um caminho mais longo. O lobo aproveita e corre para a casa da avó dela, e a devora. Depois engana a jovem garota com aquelas famosas perguntas. Porém nas versões que vemos hoje, no final da história a vovozinha e a Chapeuzinho são retiradas da barriga do lobo por um bondoso lenhador. Contudo nas versões mais antigas, esta história não possuía um final feliz. Devemos nos lembrar que o propósito destas histórias não eram meramente entreter as crianças, mas lhe ensinar lições de moral e alertar sobre alguns perigos.

Assim, a viagem pela floresta, o lobo mau, eram na realidade mecanismos metafóricos utilizados pelos adultos, para dizer que as crianças deveriam ficar longe da floresta, a qual era um lugar perigoso tanto para crianças como para adultos. Na Idade Média e Moderna, em algumas regiões, bandos de lobos vagavam pelas campos causando perdas aos rebanhos de pastores, e gerando medo nas pessoas (em alguns casos, estas invasões de lobos, era consideradas como obras de bruxas e de lobisomens). Mas, a moral da história fica em se dizer que tenha cuidado com a floresta, não ande sozinho e cuidado com os estranhos. Nas versões mais antigas, tanto a Chapeuzinho como a sua avó, morriam no final. Há outras interpretações para esta história, mas me reterei a ficar apenas nessa.

Barba Azul: 

Ilustração de Gustavo Doré, XIX. 
Outro conto com um tema sombrio é o conto do Barba-azul (La Barbe Bleue), escrito por Charles Perrault (1628-1703), publicado nos Contos da Mamãe Gansa em 1697. Nessa história, uma mulher se torna noiva de um rico viúvo chamado Barba-azul, contudo este sombrio homem guardava um segredo tenebroso. Sua noiva ficara sabendo que seu marido já havia tido seis mulheres, as quais misteriosamente haviam morrido; a trama se desenvolve entre a curiosidade da mulher em saber o que se encontraria atrás de uma porta que ficava sempre trancada. Num dia ela consegue pegar a chave do noivo e abre a porta, ao entrar no cômodo, ela se depara com os cadáveres das ex-esposas pendurados nas paredes. Em si este conto tenebroso procurava alertar as mulheres e os pais para terem cuidado com os maridos que estes procuravam para suas filhas, e além disso, em outra interpretação, temos também uma crítica para a "curiosidade feminina", tenha cuidado no que você procura, por que a verdade pode ser cruel.

"Na Itália, Barba Azul é um demônio, que atrai uma sucessão de moças camponesas para o inferno, contratando-as para lavar sua roupa e, depois, tentado-as com o truque habitual da chave da porta proibida". (DARNTON, 1986, p. 67).

"Longe de ocultar sua mensagem com símbolos, os contadores de histórias do século XVIII, na França, retratavam um mundo de brutalidade nua e crua". (DARNTON, 1986, p. 29).

Cinderela: 

No conto da Cinderela, o seu famoso sapato de cristal se tornou parte de uma das versões deste conto para dar um final feliz a protagonista, que nem sempre vivenciou algo do tipo. A história da Cinderela é bem antiga, versões deste conto foram encontrados na China antiga, no século IX.  


“A exaltação da pequenez do pé feminino, em torno da qual gira a trama de Cinderela, foi associada ao hábito, característico das classes altas na China, de amarrar bem apertado, desde a primeira infância, os pés das mulheres. Trata-se de uma conjetura plausível. Por outro lado, sabe-se que a mais antiga dentre as versões conhecidas da fábula de Cinderela foi redigida por um erudito funcionário, Tuang Ch'eng-Shih (800-863), que a ouvira de um de seus servos, originário da China meridional. Juntando os ossos de um peixe milagroso, morto pela madrasta, a protagonista - Sheh-Hsien - obtém um par de sandálias de ouro e um vestido de penas de alcione, com o qual vai à festa em que encontrará o rei”. (GINZBURG, 1991, p. 225-226). 

Contudo as versões de Perrault, dos Grimm e da Disney são as mais conhecidas e famosas. A Cinderela também pode ser encontrada sob o nome de a Gata Borralheira, a qual narra a história de uma jovem e bonita mulher sofredora, que procura a felicidade.

"Num dos primeiros contos do ciclo de Cinderela, a heroína torna-se empregada doméstica, a fim de impedir o pai de forçá-la a se casar com ele. Em outro, a madrasta ruim tenta empurrá-la para dentro de um fogão, mas incinera, por engano, uma das mesquinhas irmãs postiças". (DARNTON, 1986, p. 28).

“Na versão européia mais remota, Cinderela, a enteada maltratada, não pode ir ao baile porque a madrasta a impediu (proibição); recebe o vestido, os sapatos etc. (doação dos instrumentos mágicos pelo ajudante); dirige-se ao palácio (superação da proibição); foge, perdendo o sapato, que depois consegue, a pedido do príncipe, calçar (tarefa difícil que conduz ao reconhecimento da heroína), enquanto as meias-irmãs tentam inutilmente fazer o mesmo (o falso herói manifesta pretensões infundadas); desmascara as meias-irmãs antagonistas; casa com o príncipe. O enredo, como se vê, repete o esquema que foi identificado nas fábulas mágicas. Uma de suas funções - a marca impressa no corpo do herói ou da heroína - é facilmente reconhecível no detalhe crucial do sapato perdido. O monossandalismo de Cinderela é o sinal de quem foi ao reino dos mortos (o palácio do príncipe)”. (GINZBURG, 1991, p. 221). 

Ilustração de Gustavo Doré, XIX. 
Em algumas das versões europeias do conto, a Cinderela era uma jovem que passa a viver com a família da sua madrasta após a morte de seu pai, contudo sua madrasta e suas três filhas eram mulheres cruéis com Cinderela, a maltratando com profundo desprezo. Ela passa a viver como uma empregada ou uma serviçal no contexto da época. Tal história procurava retratar a realidade de algumas filhas que passavam a viver com suas madrastas, já que nesta época o índice de mortalidade era grande, sendo assim era comum haver muitos viúvos e viúvas, e nem sempre estes homens e mulheres eram gentis com os filhos de seus cônjuges. Assim, o incremento da fada, do sapato de cristal, do baile, do príncipe encantado, se tornou meios para que a protagonista pudesse ter a esperança de que a vida poderia ficar melhor, ter um sonho pelo qual lutar. 

“Até aqui, consideramos Cinderela uma unidade compacta, negligenciando as variantes, que são muito numerosas. Examinemos aquelas que se referem à figura do ajudante mágico, de quem a heroína obtém os objetos que lhe permitem dirigir-se à festa no palácio. Na versão de Perrault, a ajudante é uma fada, madrinha de Cinderela. Com mais freqüência, as mesmas funções são desempenhadas por uma planta ou um animal - uma vaca, uma ovelha, uma cabra, um touro, um peixe - que a heroína protege. Por esse motivo, é morto ou tem a morte determinada pela madrasta, Antes de morrer, confia à heroína os próprios ossos, pedindo-lhe para recolhê-los, enterrá-los e aguá-los. Em alguns casos, os ossos transformam-se magicamente nos objetos presenteados; em outros, a heroína encontra os objetos no túmulo, sobre o qual às vezes cresceu uma árvore. Em três versões, o animal-ajudante - uma ovelha ou um carneiro na Escócia, uma vaca ou um peixe na Índia - ressuscita dos ossos e entrega à heroína os presentes mágicos”. (GINZBURG, 1991, p. 221). 

Independente da forma como a Cinderela adquire seu vestido, sapatos de cristal ou sandálias, ela o ganha de alguma forma mágica, que por sua vez proporciona o meio pelo qual ela poderá ter acesso a uma "zona de conforto", ou seja, o baile, no qual ela conhecerá o amor de sua vida. Por sua vez, o sapato ou a sandália, é o objeto pelo qual o príncipe irá reconhecê-la posteriormente, por não saber sua verdadeira identidade. A ideia da Cinderela além de mostrar esse ponto negativo o qual muitas mulheres realmente estiveram sujeitas, também proporciona a esperança de que talvez a vida possa melhorar ao encontrar seu "príncipe encantado", no caso antigo, literalmente. 

Tais ideais são visíveis em outros contos como da Bela Adormecida (Dornöschen) e a Bela e a Fera (La Belle et la Bête), contos que de início possuíam um cenário sombrio, marcado por mortes, medo, traição e até mesmo estupros; mas, para se contornar tão sombria realidade, novos finais foram acrescidos as antigas histórias. Em uma das versões da Bela Adormecida, essa era enganada pelo príncipe o qual a engravida e posteriormente a abandonava. Em algumas versões da Bela e a Fera, a Fera tenta violentar a Bela, em outras ela chega a se casar com a Fera que volta se tornar um homem normal, mas os dois vivem um péssimo casamento, pois o príncipe era um homem rude. Em ambos os casos a moral da história era se alertar as mulheres as falsas promessas que os homens faziam para conquistá-las.

Pequeno Polegar: 

Ilustração de Gustavo Doré, XIX. 
No conto o Pequeno Polegar (Le Petit Poucet), história que se perde no tempo, tendo a versão de Charles Perrault como sendo a mais conhecida, narra a história de uma pequena criança chamada de Polegar, devido a sua diminuta estatura. Polegar era um dos sete filhos de um lenhador, o qual em um período de fome, decide abandonar os filhos para tentar salvá-los e a salvar a si mesmo e a sua esposa. Não irei relatar a história em si, mas o conto diz que o Pequeno Polegar e seus irmãos acabaram chegando no castelo de um ogro, onde tentaram sobreviver a sua voracidade, neste caso o final da história é feliz. Contudo tal conto expressa uma realidade dura dos europeus e especialmente neste caso dos franceses: a fome. Na França desde a Idade Média até o século XVIII, períodos de longos invernos e de longas secas, pragas, falta de técnicas melhores para aumentar-se a produção de alimentos, geravam más colheitas, logo a escassez de alimentos, em especial o trigo com o qual se fazia a farinha, logo o pão de cada dia, principal alimento da população.

"Durante quatro séculos - dos primeiros estragos da Peste Negra, em 1347, até o primeiro grande salto da população e produtividade, por volta de 1730 - a sociedade francesa permaneceu aprisionada em instituições rígidas e condições maltusianas". (DARNTON, 1986, p. 41).

Para tentar salvar a vida dos filhos, algumas famílias expulsavam os mais velhos para fora de casa, para que estes procurassem seguir seu próprio rumo, em alguns casos, as crianças mais novas eram deixadas nas portas de mosteiros e de igrejas, ou eram dadas ou vendidas para famílias ricas para que pudessem criá-las, e logo as salvassem. Em casos mais extremos, ocorria o infanticídio.

"Cerca de 45 por cento dos franceses nascidos no século XVIII morriam antes da idade dos dez anos". (DARNTON, 1986, p. 44).

A comida passou a ser um assunto recorrente em alguns contos conhecidos e outros desconhecidos, o sonho de se ter uma mesa farta era para muitas pessoas sua maior realização.

"Comer até se encher, comer até a exaustão do apetite (manger à sa faim), era o principal prazer que tentava a imaginação dos camponeses e que eles raramente realizavam em vida". (DARNTON, 1986, p. 53).

O Gato de Botas: 

Ilustração de Gustavo Doré, XIX. 
O Gato de Botas (Le Maítre chat ou le Chat botté) foi escrito por Perrault e lançado no livro os Contos da Mamãe Gansa em 1697. Nessa história um moleiro no fim de sua vida deixa sua herança para três filhos. Para o mais velho ele lhe deixa o moinho, para o do meio, um burro, e para o caçula um gato. O filho mais jovem fica decepcionado em ter recebido um gato, o qual não lhe tinha utilidade nenhuma, pelo menos o burro poderia carregar algo. Mas, logo o gato se mostrou ser uma criatura especial, ele passou a andar sobre as patas traseiras, a usar botas e a falar, o gato se mostrou astuto, e disse que poderia ajudar seu dono. Na história o gato engana um poderoso rei, que tinha o poder de se transformar em qualquer animal, o rei assumiu a forma de um poderoso leão, contudo o Gato de Botas o desafiou, dizendo que ele não conseguiria se transformar num pequeno rato, o rei aceitou o desafio para esbanjar seus poderes, e se transformou num rato, então o gato o devorou e assim seu dono se tornou o novo rei.

"O Gato de Botas italiano, como o francês, mas ao contrário do alemão, é uma raposa que brinca com a vaidade e a credulidade de todos em torno dela, para conseguir um castelo e uma princesa par seu dono". (DARNTON, 1986, p. 67).

A busca por riqueza, a fuga da pobreza, da extrema miséria, tornou-se um sonho recorrente em contos como este e em vários outros. Contudo nem sempre a comida representou a salvação, ela em algumas histórias simbolizava perigo, como a maçã envenenada da Branca de Neve, ou a casa de doces em João e Maria.

João e Maria: 

No conto de João e Maria (Hänsel und Grutel), tem sua versão mais conhecida pelas mãos dos Irmãos Grimm, já que tal história tem sua origem perdida no tempo. Em suma, nesta história as duas crianças os irmãos João e Maria estão perdidos em uma floresta, o caminho que eles haviam marcado com migalhas de pão, havia sido devorado por um corvo, deixando as crianças perdidas. Vagando pela floresta os dois encontram uma casa feita de doces, onde vivia uma velha bruxa, que planejava engordar as crianças para comer-las. 

Ilustração do conto de João e Maria feita por H. J. Ford em 1889, para o livro The Blue Fairy Book, editado por Andrew Lang. 
Em outras versões, não era uma bruxa, mas um ogro, e em outras versões não havia uma casa de doces, mas uma mesa farta em comida, de qualquer forma, o vilão sempre procurava devorar as crianças. E em algumas versões, os dois irmãos não triunfavam ao final da história, mas acabavam eventualmente sendo mortos. Sonhar com comida, como já foi visto, era um desejo procurado pelas pessoas nos tempos de fome, mas em alguns casos, a cobiça poderia ser traiçoeira.

João e o pé-de-feijão: 


Outra história que envolve comida, aventuras e perigos se encontra em João e o Pé de Feijão (Jack and the Beanstalk). Neste conto de origem inglesa, tendo a versão mais conhecida datada de 1890, por Joseph Jacobs, consiste numa adaptação de histórias bem mais antigas. Em suma o conto narra a história de João e sua mãe, ambos pobres, que num dia não tendo mais o que comer em casa, a mãe de João pede que ele levasse a vaca ao mercado para trocar por comida, pois se matar a vaca seria um erro, já que não haveria formas de conservar a carne a longo prazo. Embora que pudesse deixá-la para secar ao sol ou defumá-la, mas no conto tais alternativas não existem. 


No caminho ou no mercado, João conhece um misterioso homem que o engana e o faz trocar a vaca por feijões mágicos. Ao voltar para casa, a mãe de João fica indignada com o erro do filho, contudo João planta os feijões no quintal, e no dia seguinte ele descobre que um pé-de-feijão gigantesco que subia pelo céu, se encontrava por ali. No topo do pé-de-feijão ficava um castelo onde vivia um gigante e sua esposa (em algumas versões a esposa do gigante não aparece). 

Contudo o foco da história consiste nas artimanhas de João como ladrão, o que o leva a roubar os tesouros do gigante, tesouros estes que em algumas versões apontam para uma gansa que colocava ovos de ouro, e uma harpa de ouro mágica, contudo se pensarmos bem, o vilão da história não é o gigante, mas sim o próprio João. 

Se pensarmos atentamente veremos todos os indícios que pesam contra a imagem de "bom moço" de João. Ele invade o lar do gigante; engana a esposa dele, e com isso rouba seus tesouros. No fim, o gigante zangado pelo crime de João vai atrás dele para reaver seus pertences e puni-lo, mas João corta o pé-de-feijão, fazendo o gigante cair e vir morrer. Moral da história: João é um ladrão, mentiroso e assassino. 

Se isso pareceu violento para um conto de fadas, saibam que em parte a história de João e o Pé de Feijão se baseia num conto inglês mais antigo, chamado de João o Matador de Gigantes (Jack the Giant Killer), tal história faz parte das chamadas lendas arturianas, histórias que envolvem o lendário rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda

Nesse caso João era um dos cavaleiros de Arthur, o mais versátil caçador de gigantes, mesmo com o tom violento e adulto, tal história é tida como um conto de fadas. Nas histórias de João o Matador de Gigantes ele caça e mata muitos gigantes pela Bretanha, Irlanda e Escócia, dentre os gigantes mais famosos que João matou estava Thunderdell, um gigante de duas cabeças. 

João, o Matador de Gigantes e Thunderdell. 
Na história, Thunderdell se mostra bem difícil de ser morto, então João consegue uma capa da invisibilidade, contudo o gigante percebe que há alguém com ele pelo cheiro e diz: "Fee-fi-fo-fum, sinto o cheiro do sangue de um inglês. Seja ele vivo, seja ele morto. Eu vou moer os ossos dele para fazer o meu pão". Mesmo tendo notado João, ele consegue surpreender o gigante e lhe cortar as duas cabeças. Neste ponto, a versão infantil do pé-de-feijão ainda conserva alguns traços do Matador de Gigantes: o fato de João se valer da astúcia para matá-los. 

Branca de Neve: 

Por fim um último conto que abordarei aqui, é o conto da Branca de Neve (Schneewittchen), um conto da tradição oral alemã, tendo uma versão bem difundida pelos Irmãos Grimm. Na versão de Walt Disney, a Branca de Neve conta com a ajuda de simpáticos e engraçados sete anões, contudo em algumas versões alemãs desta história, não há anões, os quais são substituídos por sete ladrões, em outras versões, os anões não são mineiros, mas ladrões, e existem versões que falam em dragões nessa história e até mesmo de uma irmã da Branca de Neve, chamada Rosa Vermelha. Nessa história também escrita pelos Irmãos Grimm, Branca de Neve é bem diferente da versão tradicional, e as duas irmãs vivem outras aventuras.

Branca de Neve na floresta. Ilustração de Franz Jüttner, 1910. 

Basicamente na história de Branca de Neve a moral gira entorno de uma crítica a vaidade, a inveja, a cobiça; de se ter cuidado com estranhos e com o que eles lhe oferecem (a maçã envenenada personifica isso); a amizade e a união, ambos personificados pelo companheirismo dos sete anões ou dos sete ladrões, etc.

Se até aqui estes contos pareceram sombrios para alguns saibam que nem todos eram assim, isso dependia também da região e do país, em certos lugares as pessoas preferiam uma história com a temática mais voltada para a comédia e outras para o medo.

"Enquanto os contos franceses tendem a ser realistas, grosseiros, libidinosos e cômicos, os alemães partem para o sobrenatural, o poético, o exótico e o violento. Naturalmente, as diferenças culturais não podem ser reduzidas a uma fórmula - astúcia francesa contra crueldade alemã - mas as comparações possibilitam que se identifique o tom peculiar que os franceses davam às suas histórias; e a maneira como eles contam histórias fornece pistas quanto à sua maneira de encarar o mundo". (DARNTON, 1986, p. 75).


NOTA: Charles Perrault (1628-1703), foi um importante escritor e poeta francês que contribuiu para a popularidade dos contos de fadas e da literatura infantil.
NOTA 2: Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), foram importantes escritores, contistas, linguísticas e folcloristas alemãs, que contribuíram para o estudo da tradição oral das antigas histórias alemãs compiladas em contos de fadas em suas próprias versões. Eles também contribuíram para a elaboração de um dicionário da língua alemã.
NOTA 3: Walt Disney lançou em 1937 sua versão animada de Branca de Neve, chamada de Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and Seven Dwarfs). Em 1950, foi a vez de Cinderela. Em 1959, A Bela Adormecida (Sleeping Beauty) e em 1991, sua versão de A Bela e a Fera (Beauty and the Beast). Contudo outros contos foram adaptados por Disney, mas reterei-me a estes que citei ao longo do texto.
NOTA 4: Os Irmãos Grimm também escreveram Branca de Neve e Rosa Vermelha (Schneewittchen und Rosenrot).
NOTA 5: Hoje pode-se encontrar novas versões destas histórias com temáticas mais cômicas, satíricas e até mesmo violentas e adultas.
NOTA 6: A série Sherk baseada no livro homônimo, perfaz uma miscelânea dos contos de fadas, especialmente nos filmes que abrangem o universo do livro.
NOTA 7: O seriado Grimm retrata as aventuras e investigações de Nick Burkhardt entre outros parceiros seus. Nick descobre que é descendente de uma elite de caçadores de monstros chamados Grimms. A história do seriado gira em torno das missões e Nick e seus companheiros em se caçar os Wesens, designação dada aos monstros dos contos de fadas. Embora não tenha uma ligação direta com os Irmãos Grimm o seriado os tem como inspiração. 
NOTA 8: O filme os Irmãos Grimm (2006) traz os dois irmãos como sendo falsos caçadores de monstros, porém os mesmos acabam se deparando com perigos reais. A história não se baseia nos contos dos verdadeiros Irmãos Grimm, mas faz alusão a seus autores. 
NOTA 9: O filme A Garota do Capuz Vermelho (Red  Riding Hood) de 2011, traz uma nova versão do conto da Chapeuzinho Vermelha, onde na história a mesma é uma adolescente e o Lobo mau é um lobisomem. 
NOTA 10: O filme Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman) de 2012, traz uma Branca de Neve valente e guerreira. 
NOTA 11: O filme João e Maria: Caçadores de Bruxas (Hansel and Gretel: Witch Hunters) de 2013, amplia a história de João e Maria, contando que após sobreviverem ao cativeiro na Casa dos Doces, eles decidiram se tornar caçadores de bruxas. 
NOTA 12: O filme Jack, o Caçador de Gigantes (Jack the Giant Slayer) de 2013, consiste numa adaptação que mistura aspectos do conto de João e o Pé-de-Feijão e João, o Matador de Gigantes. 
NOTA 13: A série Once Upon a Time criada em 2011, se passa na ficcional cidade de Storybrooke, onde personagens de contos de fadas são transportados para o mundo real devido a uma maldição, e por sua vez a protagonista, Emma Swan é levada para o mundo destes contos, e tenta quebrar a maldição. A série mescla personagens e aspectos destes contos em sua trama. Uma série derivada intitulada Once Upon a Time in Wonderland, segue o conceito proposto da série original, mas só que agora misturando elementos das histórias de Alice e o País das Maravilhas

Referência Bibliográfica:
DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos: e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro, Graal, 1986. (Capítulo I: Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso).
GINZBURG, Carlo. História noturna. Tradução de Nilson Moulin Louzada. 2a ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1991. (Parte III, capítulo 2: ossos e pele). 

7 comentários:

Beatriz Xavier disse...

Não conhecia o fundamento de cada conto, esse site foi de grande utilidade acadêmica.

Leandro Raliv disse...

Obrigado. Recomendo ler O grande massacre de gatos, mais especificamente o capítulo 1. Além disso, há outros trabalhos que abordam com maior número de detalhes a história por trás dos contos de fadas.

Letícia Simão disse...

Nossa, eu achei esse texto muito bom. Obrigada, ajudou muito

Leandro Vilar disse...

Obrigado pela apreciação, Letícia. Pretendo voltar a esse tema, encontrei alguns novos dados com os quais pretendo atualizar o texto.

Adriana Tomaz Seno disse...

Como faço para encontrar os livros dos contos antigos?

Leandro Vilar disse...

Adriana Tomaz, dependendo do tipo de conto que você queira ler, não é difícil de encontrar. Se você se referir a Chapeuzinho Vermelho, Bela Adormecida, Branca de Neve, A Bela e a Fera, Cinderella, Rapunzel, o Gato de Botas, o Pequeno Polegar, João e Maria, etc.

No Brasil existem edições dos Contos da Mamãe Gansa, escrito por Charles Perrault em 1697.

Temos também o livro dos Irmãos Grimm, chamados de Contos dos Irmãos Grimm. A obra original foi publicada em 1812 e recebeu outras edições até o fim da vida deles. No Brasil não sei se traduziram a obra completa, pois os Grimm catalogaram mais de cem contos; todavia, normalmente você encontra livros com os mais famosos.

Já histórias como Os Três Porquinhos, João e o Pé-de-feijão, podem ser encontradas em outros livros, principalmente do escritor Joseph Jacobs, o qual escreveu alguns livros de contos. Mas neste caso, eles são mais difíceis de serem achados aqui no Brasil.

Pinóquio, Peter Pan, Alice são contos autorais, ou seja, foram criados por um autor, diferente de Perrault, os Grimm e Jacbos que não escreveram aqueles contos, mas apenas os anotaram.

Se você tiver interesse em contos árabes das Mil e Uma Noites, também não é difícil de achar a versão de Antoine Galland, embora haja outras traduções.

Todavia, caso for comprar alguns destes livros, recomendo ter cautela em escolher a edição: se você quiser comprar tais livros para ler para crianças, então existem dezenas de versões; porém, se for para ler os contos no original como escritos por seus autores e organizadores, então deve-se dar uma pesquisada, pois normalmente se vende mais versões infantis, pois embora os Contos da Mamãe Gansa sejam uma literatura infantil, o contexto moral, social e cultural do século XVII é diferente de hoje.

Suzi disse...

Nossa, obrigada por suas pesquisas! Adorei! Agora eu posso finalizar meu trabalho sobre os Grimm com riqueza de curiosidades.