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Leandro Vilar

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Uma nota sobre as fortalezas modernas

A existência de fortificações é algo que remonta milhares de anos, com a construção de muros, muralhas, fossos, torres, cidadelas, trincheiras, cercas, paliçadas, etc. Os próprios castelos eram essencialmente um tipo de fortaleza antes de ganharem novos contornos e estilos, influenciado pelos palácios. Em essência o papel de uma fortificação é promover estruturas que sirvam para a defesa de uma localidade, seja um forte, um acampamento, base, vila, cidade, posto, assentamento etc. Mas quando se fala em defesa, não significa excluir a possibilidade de atacar, pois tais estruturas possuíam funções diferentes, por exemplo, trincheiras serviam para retardar e dificultar o avanço de tropas, mas também eram pontos para proteger terreno e gerar contra-ataque. Já um muro essencialmente serve para proteger, sendo uma barreira que dificulte que forças inimigas tenham acesso fácil. Porém, o muro por si só não é suficiente, por isso, desenvolveu-se torres, torreões, seteiras, ameias etc. para que soldados ali posicionados, pudessem contra-atacar os invasores. 

No entanto, o objetivo desse breve texto foi comentar um pouco sobre as fortificações militares surgidas a Idade Moderna, na Europa, os chamados fortes abaluartados, forte com bastião, traço italiano, fortificação com pontas, fortaleza-estrela, são alguns nomes dados para um tipo de arquitetura militar que se tornou padrão na Europa dos séculos XV ao XVIII, inclusive tendo sido influenciada devido as formas de como se fazer guerra e a introdução da pólvora e de armas de fogo no continente europeu, o que levou os engenheiros militares a reformular as estruturas defensivas, pois as antigas não eram adequadas para resistir a cercos ou assaltos promovidos com artilharia.

O traço italiano

No século XV os turcos haviam difundido no Oriente Médio e no leste europeu o uso de canhões, inclusive a conquista de Constantinopla em 1453, deveu-se em parte graças ao uso de enormes canhões que bombardearam a capital bizantina por quase dois meses. Mesmo seu sistema triplo de muralhas não barrou o avanço da nova arma de cerco (RUNCIMAN, 1977, p. 232).

Quando os canhões começaram a se difundir pela Itália, os arquitetos militares tiveram que repensar a forma de como projetar as fortalezas e muralhas, e dessa forma surgiram as fortificações com novas estruturas as quais tinham que aguentar o dano explosivo e de impacto dos projeteis das armas de fogo, entre outras características. Com isso originou-se uma nova forma de fortificações com baluartes ou bastiões. Os quais foram uma estrutura da arquitetura militar surgida na Itália, no século XV, sendo aprimorada nos dois séculos seguintes. Os baluartes consistiam em estruturas geralmente com três pontas, as quais se projetavam dos ângulos de uma fortificação. Os baluartes permitiam ampliar os ângulos de ataque, como também gerava reforço para defender os muros em caso de cerco. (TALLET, 1992, p. 34).


Forte de Jaca, Espanha. Um exemplo de fortificação com cinco baluartes. 

“A fortaleza com bastião era uma construção “científica”, o que significava que seu projeto era feito com base em cálculos matemáticos para minimizar da melhor maneira a área da muralha que o tiro podia atingir. Portanto, o ataque tinha de ser “científico” também”. (KEEGAN, 1995, p. 337). 

“Assim, uma bala disparada (em função de determinado ângulo) na direcção do horizonte seguiria inicialmente em linha recta; o projéctil iniciaria depois uma trajectória curva em função do decréscimo do ímpeto aplicado pela carga explosiva, para na terceira e última fase terminar o seu percurso segundo uma trajectória rectilínea na direcção do solo”. (SOUSA, 2013, p. 59).

“O novo sistema de fortificação teria de incorporar características que resistissem ao bombardeio e, ao mesmo tempo, mantivessem a infantaria do inimigo à distância. A solução para esse problema de diminuir a altura e aumentar a espessura foi o bastião angular, que se projetava dos muros, dominava o fosso e era suficientemente forte para não ser destruído por uma concentração de fogo inimigo”. (KEEGAN, 1995, p. 334).

Além do bastião, a arquitetura moderna também empregou novas e velhas estruturas que passaram a complementar a defesa, como hornaveques, coroas, revellins, fossos, escarpas, trincheiras, etc. cujas estruturas garantiam que os disparos viessem a ricochetear, como também serviriam de reforço para muralha, além de minimizar os “ângulos mortos”, locais que apresentavam fraqueza na estrutura (SOUSA, 2013, p. 80). No caso dos fossos, escarpas e das trincheiras, consistiam em formas antigas de manter o exército invasor à distância, inviabilizando a tentativa de se escalar os muros.

Projeto das defesas do Forte da Vila de Santos, no Brasil. 

O modelo italiano ou “traço italiano” como ficou conhecido, tornou-se referência para a construção de fortificações na Europa Ocidental. Ao invés de se fazer um forte ou fortaleza quadrangular como antes, agora fazia-se em disposição geométrica mais variada: pentágono, hexágono, heptágono, etc. Os chamados “fortes estrelas”, nome devido às suas várias pontas. Por sua vez, o bastião não apenas apresentava-se como uma estrutura de defesa nas pontas da muralha, mas também era uma estrutura na qual se armavam baterias para o ataque. Assim, ele tornava-se uma estrutura defensiva e ofensiva ao mesmo tempo (PARKER, 1994, p. 8-9). 

“O pentágono, uma vez mais, permitiria chegar a um equilíbrio entre aquilo que era preconizado pela teoria e as possibilidades militares pragmáticas, alcançando-se assim uma economia de esforços. Os cinco lados permitiam construir plataformas de tiro mais espaçosas em número superior à forma quadrada, evitando-se o excesso decorrente de um circuito com seis ou oito lados que obrigaria a um maior espaçamento entre os bastiões para optimizar as linhas de fogo, aumentando a escala da cidadela para as proporções de uma cidade”. (SOUSA, 2013, p. 84).


Esse fator “científico” foi um ponto que levou, nos séculos XV e XVI, a uma “revolução militar”, no sentido de como se passou a travar as guerras dali em diante. A geometria, a matemática, a perspectiva, a física e a cartografia tornaram-se ciências que passaram a acompanhar não apenas os arquitetos e engenheiros militares que projetavam as fortificações, mas tornaram-se saberes necessários para os artilheiros poderem posicionar os canhões e assim efetuarem os ataques. Dessa forma surgia à balística, ciência que estuda o movimento dos projéteis. 

Fortaleza de Santa Catarina, Cabedelo, no Brasil. Foto de Daniell Mendes. Essa fortificação erguida no final do século XVI, apresenta atualmente quatro baluartes e dois meio-baluartes. 

A Guerra de Flandres

Flandres é uma região atualmente situada no norte da Bélgica, fazendo fronteira com o sul da Holanda (ou Países Baixos). Todavia, a quinhentos anos, esse território foi alvo de disputas entre a República Unida dos Países Baixos contra o Império Espanhol, pois anteriormente o território das Províncias Batavas, pertencia a Espanha, e com a rebelião de sete províncias, as quais formaram uma república, popularmente chamada de Holanda, isso resultou na Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), fator esse, que o governo espanhol de Carlos I e seus sucessores, por vários anos tentaram retomar o controle daquelas províncias, originando a guerra de flandres, que ficou conhecida por ter influenciado na arquitetura militar e nas táticas de batalha. 

“O que se entendia por guerra de Flandres, isto é, a guerra dos Países Baixos entre a Espanha e as Província Unidas, não esgotava obviamente as formas de conflito bélico na Europa da primeira metade do Seiscentos. A guerra de sítio das posições estratégicas constituía o privilégio das áreas mais desenvolvidas, como os citados Países Baixos ou a Lombardia, que eram também os pontos quentes do equilíbrio continental. Representando seu mais sofisticado modelo, a guerra de Flandres foi uma guerra pelo controle das praças-fortes ao longo dos eixos fluviais que sulcam a região; e sua arma fundamental: a artilharia e a minagem”. (MELLO, 2007, p. 247). 

O aumento na quantidade de fortalezas e cidades fortificadas levou os exércitos europeus, principalmente em Flandres, França e na Lombardia, a mudarem suas táticas de batalha, variando de acordo com o contexto bélico. Nesse sentido, Parker (1994, p. 12-13) diz que em fins do século XVI começou a surgir duas formas de combate: as escaramuças promovidas por pequenos grupos (esquadrões) para se efetuar assaltos, emboscadas, encontros ocasionais, ataques rápidos, etc; e os cercos, os quais requeriam maior número de envolvidos e uma estratégia mais elaborada, pois os cercos poderiam durar dias, semanas e até meses.

No entanto, não foi apenas isso que mudou, a própria organização das companhias militares também sofreram mudanças, e na vanguarda dessa “revolução militar”, estiveram os próprios holandeses sob o comando de Maurício de Nassau, o qual reformulou a organização da infantaria.

“Maurício alterou a disposição das tropas em combate. Em vez de falanges de 40 ou 50 filas frontais de lanceiros usadas nas guerras do século XVI, colocou os seus homens em 10 filas. A força de choque das suas formações, mais pequenas, provinha mais do poder de fogo do que das cargas dos lanceiros. [...]. O exército holandês aperfeiçoou sobretudo a técnica do fogo de fileira: a primeira linha descarregava simultaneamente os mosquetes sobre o inimigo, depois parava para recarregar as armas enquanto as outras nove linhas iam ocupando o seu lugar, criando assim uma cortina de fogo constante”. (PARKER, 1994, p. 52).

Formação de mosqueteiros espanhóis no século XVII. Acima a formação adotada para a Batalha de Nordlingen (1634). Abaixo, um esquema tático da fila de mosqueteiros e piqueiros. Ilustração de Gerry e Sam Embleton, 2012. Publicado no livro López e López, The Spanish Tercios: 1536-1704, 2012, p. 29.  

Tal “revolução militar” começou ainda no século XVI, mas foi apenas na segunda metade do século XVII que ela se consolidou no sentido de que, a infantaria passou predominantemente a usar armas de fogo, até lá, a presença de piqueiros era recorrente. Por exemplo, as capitanías, formação usada pelos espanhóis na Itália no século XVI, cujo modelo ainda permaneceu em uso até o final do século, era composta por 500 homens, sendo 200 piqueiros, 200 espadachins e 100 arcabuzeiros. Por sua vez, dez capitanías somadas a duas companhias de piqueiros, formavam uma coronélia, totalizando um regimento com cerca de 6 mil homens, dos quais, 10% seriam arcabuzeiros (LÓPEZ; LÓPEZ, 2012, p. 5).

Por mais que no século XVII o uso de armas de fogo tenha crescido em comparação ao seu emprego no século XV, ainda assim, não foi incomum soldados usarem espadas, lanças e punhais.

“No início do século XVII, à metade, grosso modo, dos soldados de infantaria deviam ser fornecidos piques de treze pés (cerca de quatro metros) e couraças; a outros deviam ser fornecidos mosquetes de mecha (com cinco pés – metro e meio – de comprimento) com as respectivas forquetas de apoio (ou arcabuzes, mais curtos e leves), e também recipientes para a pólvora, balas e mechas de combustão lenta; às tropas de cavalaria, uma meia armadura, pistolas e lanças; e a todos os soldados, elmos e espadas”. (PARKER, 1994, p. 48).

A tomada de Breda, Diego de Velázquez, c. 1634-1635. Nota-se a presença de piques e alabardas. 

Tallet (1992, p. 24) aponta que foi a partir do século XVII que começou a se inverter a proporção de soldados munidos com armas de fogo. Até o final do XVI as infantarias europeias ainda eram formadas na sua maioria por falanges de piqueiros, sendo apoiadas por soldados munidos de armas de fogo. No século seguinte os valores se invertem devido ao crescimento das fábricas de armas, e as mudanças nas táticas de batalha, as quais passaram a se usar mais formações de mosqueteiros em detrimento dos piqueiros.

Essa mudança em parte se deu pelo fato de que a cavalaria bastante poderosa no medievo foi na modernidade perdendo sua ação tática devido ao uso de armas de fogo, canhões, paliçadas e trincheiras. Por outro lado, as batalhas campais começaram a diminuir em detrimento de batalhas entre trincheiras e no cerco de praças-fortes. Se antes presava-se pela força bruta do homem sobre o cavalo, agora passou a se prezar pela força bruta do poder explosivo da pólvora, mas com o diferencial de que ao invés de ser um conflito corpo-a-corpo, os soldados se combatiam a distância.

“A maneira quase universal de alcançar a vitória numa batalha medieval consistia em obter a superioridade no corpo-a-corpo. Os vencedores desta confusa troca de golpes a curta distância deveriam perseguir o inimigo batido, mantendo a pressão de forma a provocar a debandada geral do exército adversário. Em termos de opções tácticas, era uma situação algo limitada; com as principais linhas de batalha empenhadas, qualquer movimento de envolvimento era difícil, para não dizer impossível. No final, a vantagem militar cabia ao general que utilizava em último lugar as suas reservas”. (SOUSA, 2013, p. 119).

Logo, se antes falanges eram eficazes contra a cavalaria a qual era a principal força de combate em batalhas campais, com a diminuição de seu uso, em substituição pelas infantarias artilheiras, e a adoção de um conflito a longa distância e estratégico, já não era mais viável manter uma grande quantidade de piqueiros, pois se tornaram alvos fáceis aos artilheiros, embora que seu emprego se manteve como forma de proteger a artilharia do ataque de soldados com espadas.

Por tal motivo, na segunda metade do XVII o número de piqueiros nos exércitos foi diminuindo cada vez mais. Entretanto, mesmo tendo ocorrido essa mudança na configuração das forças armadas europeias, não significa que a cavalaria caiu em desuso; essa ainda continuou a ser usada ao longo do século XVII e até nos séculos seguintes, embora que numa fração bem menor.

“É certo que, nos primeiros decénios do século, a cavalaria representava menos de 10% da maior parte dos exércitos da Europa Ocidental; em 1635, quando a França declarou guerra à Espanha, foram recrutados 132 000 infantes e apenas 12 400 cavaleiros. [...]. Com o aumento das dimensões dos exércitos europeus e com o aumento proporcional da cavalaria, que na segunda metade do século atingiu 20% do total de um exército, os criadores de cavalos passaram a dispor de um mercado florescente”. (PARKER, 1994, p. 48).

Parker (1994, p. 42), assinala que na primeira metade do século XVII, os exércitos europeus, na maioria das vezes sempre levavam um exército com homens em excesso, pois na maioria dos casos, a deserção era o principal motivo que levava a diminuição dos efetivos militares.

“Um dos motivos por que se tentava recrutar mais homens do que os que teoricamente eram necessários era o facto de os novos recrutas depressa se arrependerem de se terem alistado. Sobretudo na primeira metade do século, as deserções, embora comportassem a pena de morte, eram um grave problema para todos os exércitos, em especial durante os prolongados cercos que constituíam o ponto fulcral das operações militares da época barroca. Em 1622, o exército espanhol da Flandres que cercava Bergen-op-Zoom perdeu cerca de 40% dos seus 20 600 soldados, muitos dos quais por deserção. Das muralhas de Bergen, as sentinelas viam os inimigos abandonar furtivamente os seus postos, fingindo que iam buscar lenha ou legumes, afastar-se a pouco e pouco das trincheiras, e fugir”. (PARKER, 1994, p. 42).

“No exército francês, durante a primeira metade do século, sabia-se que, se se queria levar 1200 homens para a frente de batalha, tinha que se recrutar 2000, porque era normal perder-se 40% dos soldados nos primeiros meses, por deserção e doença. Assim, em 1635, primeiro ano de guerra aberta contra a Espanha, decidiu-se recrutar 145 000 homens para se manter na frente uma força efectiva de apenas 69 000”. (PARKER, 1994, p. 43).

“A fortaleza não é um lugar simplesmente de proteção contra um ataque, mas também de defesa ativa, um centro onde os defensores estão protegidos da surpresa ou da superioridade numérica e uma base da qual podem fazer surtidas para manter os predadores à distância e impor controle militar sobre a área por que se interessam”. (KEEGAN, 1995, p. 155).

 “O assalto de infantaria a um bastião, por mais que este tivesse sido danificado, era sempre um negócio desesperado. Uma prática defensiva universal mandava ter à mão materiais – cestas cilíndricas para encher de terra, chamadas de gabiões, postes, trilhos e barricadas de madeira – com os quais fosse possível improvisar uma defesa interna atrás de uma brecha, ao mesmo tempo em que mosqueteiros e canhoneiros de um bastião vizinho podiam sempre atirar sobre grupos de assalto que atravessassem o fosso ou mesmo chegassem à esplanada inclinada do lado de fora”. (KEEGAN, 1995, p. 337).

Cerco de Goenlo, em 9 de novembro de 1606. Nota-se que a cidade além de ser fortificada, contava com três fortes de suporte. A pintura também mostra batalhões de mosqueteiros, grupos de piqueiros e até cavalaria. 

“A guerra de assédio era demorada e trabalhosa porque os meios de trazer fogo suficiente para acossar uma fortaleza com bastião exigiam um enorme esforço de escavação. A fortaleza com bastião era uma construção “científica”, o que significava que seu projeto era feito com base em cálculos matemáticos para minimizar da melhor maneira a área da muralha que o tiro podia atingir. Portanto, o ataque tinha de ser “científico” também. Os engenheiros de assédio logo estabeleceram os princípios. Era preciso cavar uma trincheira paralela a um dos lados do traçado do bastião, onde se pudessem colocar canhões para iniciar o bombardeio. Sob a proteção desse fogo, trincheiras “de aproximação” eram então cavadas adiante, até que uma nova “paralela” mais próxima pudesse ser cavada, para onde eram levados os canhões, a fim de continuar o bombardeio a distância mais curta”. (KEEGAN, 1995, p. 337).

NOTA: Para Geoffrey Parker (1996, p. 21) os principais marcos da “revolução militar” da Idade Moderna foram: a criação e desenvolvimento das fortificações com baluarte; o emprego recorrente das armas de fogo; o desenvolvimento de uma indústria da guerra; diminuição do uso da cavalaria em detrimento de uma infantaria armada com lanças e mosquetes; reformulação na organização das tropas; mudança nas táticas de batalha; surgimento de escolas militares; aumento na quantidade de soldados nos exércitos.

NOTA 2: Não confundir com João Maurício de Nassau-Siegen (1604-1679), o qual se tornou governador da Nova Holanda. Maurício de Nassau (1567-1625) foi um proeminente stadholder (líder político e militar) durante a Guerra dos Oitenta Anos.

Referências bibliográficas: 

KEEGAN, John. Uma história da guerra. Tradução de Pedro Soares Maia. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda restaurada: guerra e açúcar no nordeste, 1630-1654. 3. ed. São Paulo: Ed. 34, 2007.

PARKER, Geoffrey. The Military Revolution: military innovation and the rise of the West, 1500-1800. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.

PARKER, Geoffrey. O Soldado. In: VILLARI, Rosario (dir.). O homem barroco. Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo. Lisboa: Editoria Presença, 1994.

RUNCIMAN, Steven. A civilização bizantina. Tradução de Waltensir Dutra. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977. 

SOUSA, Luís Filipe Guerreiro Costa e. Escrita e Prática de Guerra em Portugal: 1573-1612. 2013. 844 f. Tese (Doutorado em História dos Descobrimentos e Expansão) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2013.

TALLETT, Frank. War and Society in early modern Europe, 1495-1715. New York/London: Routledge, 1992. (Collection War in context).




domingo, 21 de junho de 2020

Uma história do macarrão

O macarrão, pasta, noodle é um dos alimentos mais versáteis e fáceis de ser preparado (não me refiro a ser fabricado), consistindo basicamente numa massa geralmente feita de farinha de trigo e outros ingredientes, a qual possui diversos formatos, e tornando-se a base para diversas receitas, podendo ser consumido quente, frio, cozido, frito, etc. Embora a Itália seja popularmente reconhecida como o "país do macarrão", não foram os italianos que inventaram esse alimento, porém, não podemos negar que eles criaram vários tipos de massa e popularizam o macarrão no Ocidente. Neste texto conheceremos a respeito da história do macarrão, em mais uma postagem sobre a história dos alimentos. 

Origem e difusão:

Diferente de outros alimentos visto nos artigos sobre a história dos alimentos que venho postando neste blog, já alguns anos, o macarrão não é um alimento encontrado na natureza, mas um alimento fabricado, assim como o açúcar e chocolate. Logo, enquanto em outros estudos eu iniciava falando das plantas que originam o açúcar como a cana de açúcar, ou cacau para o chocolate, ou até mesmo escrevi sobre o cafeeiro, o arrozal e o pé-de-milho, aqui não falarei sobre o trigo, já que este ficará para outra história devido a suas várias utilidades. 

Neste caso, a origem do macarrão é atribuída aos chineses, embora que não se saiba quando ele exatamente tenha sido inventado. Os relatos escritos mais antigos que se conhecem sobre o macarrão na China, datam da Dinastia Han (206 a.C - 220 d.C), o que sugere que o macarrão já fosse conhecido dos chineses a mais de dois mil anos atrás. Consistindo numa massa feita a base de farinha trigo ou de farinha de milhete, sendo cortada em fios e deixada para secar. Após secar, a massa era cozida em água fervente e os demais ingredientes são acrescentando na mesma panela ou colocados depois no preparo do prato. Todavia, escavações arqueológicas chegaram a encontrar fios de macarrão com milhares de anos. (SERVENTI; SABAN, 2003, p. 4). 

Restos de macarrão datados de 4.000 mil anos atrás. Encontrados em 2005 nas escavações de Laija, em Qinghai, na China. Tal descoberta consiste no indício mais antigo conhecido da existência do macarrão. 

A partir da China o macarrão espalhou-se para a Coreia, Mongólia, Japão, Tailândia, o Sudeste asiático, Índia, e com os persas, árabes e outros povos da Ásia Central, foi sendo disseminado até o Oriente Médio

Shelke (2016, p. 18) comenta que os judeus do século V d.C. já tinham conhecimento de um tipo de macarrão, chamado de itriyah, palavra que vinha do grego itrion. Esse macarrão é citado nos debates sobre que tipos de comidas os judeus poderiam ou não consumir. No caso, não se sabe se esse macarrão seria uma receita advinda da China ou surgida em outra região, pois Shelke assinala que embora os exemplares mais antigos de macarrão datem da China, os chineses não foram os únicos a inventarem receitas de macarrão. Gregos e romanos já faziam isso, algo que comentarei adiante, além de que os persas teriam difundido receitas de macarrão pela Ásia Central, séculos antes dos judeus se indagarem quanto a validade de consumi-lo ou não.

De qualquer forma, no século IX encontram-se registros de tipos de macarrão sendo consumidos no norte da África, na ilha da Sicília e na península ibérica sob ocupação moura. Através dos árabes, o macarrão deixou o Oriente Médio e foi exportado para regiões na África e Europa. A Sicília sob ocupação islâmica tornou-se referência no consumo de macarrão no medievo até mais ou menos o século XIII, quando essa comida começa a ser espalhada por outros Estados italianos e a ganhar admiradores. (SHELKE, 2016, p. 18). 

No caso da Itália, até o século XX, creditou-se a lenda que o viajante Marco Polo (1254-1324) teria trazido a receita do macarrão após ter retornado da China, onde viveu pelo menos quinze anos. De fato, em seu livro Polo cita o macarrão entre os alimentos consumidos pelos chineses, apesar que na obra ele não dê um nome específico para a comida, mas diz se tratar de fios de massa, acompanhados por vários condimentos como carnes, legumes e molhos, sendo bastante apreciado pelos chineses. A questão é que não há evidência que apontem que Marco Polo tenha disseminado o macarrão na Itália, até porque a receita do macarrão chegou antes dele. (SERVENTI; SABBAN, 2003, p. 10). 

Kantha Shelke (2016, p. 15-16) trabalha com a perspectiva que o macarrão no sentido de massa feita de trigo com diferentes formas, sendo acompanhada por molhos, carnes e legumes, já existia entre os antigos gregos e romanos. O que teria vindo da China foi a receita de fazer macarrão em fios, pois os gregos e romanos comeriam macarrão de outra maneira. 

Sobre isso, Shelke (2016, p. 16-17) comenta a existência de palavras gregas como laganon, uma massa feita de farinha, em tiras achatadas. A palavra laganon era conhecida dos romanos e o próprio Marco Túlio Cícero, famoso político e escritor, cita no século I a.C. a existência desse alimento, o qual já era consumido em Roma e chamado de laganum. Além de Cícero, o poeta Ovídio menciona em Sátiras, que ele gostava de comer um prato feito de frango e acompanhado de laganum. Posteriormente Marcus Gavius Apicius em seu livro de culinária intitulado De re coquinaria (século I d.C), menciona uma receita chamada patina quotidiana, a qual lembra uma espécie de lasanha, sendo recheada com carnes, frutos do mar ou legumes. Além disso, a autora também sublinha que outros tipos de macarrão já haviam chegado através de comerciantes árabes, venezianos, genoveses e de outras procedências, muitas décadas antes de Marco Polo ter nascido. 

Nomenclaturas

Os antigos chineses chamavam o macarrão de mei, mian, entre outras palavras. No Japão o macarrão é conhecido normalmente como men, udon, soba, embora haja outras palavras para se referir a alguns tipos específicos de macarrão e massas. 

No caso da palavra macarrão, essa é de origem italiana, remontando desde a Idade Média, onde encontram-se referências a macaroni, embora que atualmente em italiano a palavra seja escrita como maccheroni. Tal palavra é uma variação do grego makaria, termo usado para um tipo de massa servida durante o luto. Todavia, entre 1500 e 1800, a palavra vermicelli também foi usada como sinônimo de macarrão. Porém, perdeu seu uso devido a sua etimologia está associada com palavra verme. Embora que atualmente seja mais comum usar as palavras spaghetti ou pasta. (SHELKE, 2016, p. 29). 

Por sua vez, a palavra pasta que é usada em vários países europeus como sinônimo de massas alimentícias, geralmente associadas ao macarrão, essa palavra é de origem latina, sendo uma latinização da palavra grega pásti, que era usada para se referir a uma massa feita de farinha. Desde então tal conceito é até hoje empregado no Ocidente. 

Mas além da palavra macarrão ser de origem italiana, outras palavras italianas para diferentes tipos de macarrão também se popularizaram como: spaghetti (que é utilizada como sinônimo de macarrão em alguns países), tagliarini, lasagna, raviolli, fusili, capeletti, fettucine, penne etc. Tais nomes se devem por duas condições principais: o formato da massa e os tipos de prato feitos com elas. 

Alguns tipos de macarrão. Estes são de origem italiana, mas dependendo do país, existem palavras locais para nomeá-los. 

Atualmente em língua inglesa vem se usando a palavra noodle, a qual advém do alemão nudel, termo do século XVIII, usado também para se referir a macarrão de fios. No caso atual, se usa especificamente noodle para se referir aos macarrões de fios finos da cozinha oriental (principalmente a culinária japonesa e chinesa). Inclusive no Japão e Coréia do Sul, a palavra já é empregada também como sinônimo de macarrão de fios, inclusive tornando-se até referência para o macarrão instantâneo vendidos em copos, fato esse que existe a marca Cup Noodles, famosa nesse ramo alimentício. 

Os espanhóis passaram a chamar o macarrão com o qual tiveram contanto no sul da Itália, de fidelini (que significa fio), que tornou-se fideo. Ainda hoje se encontra tal palavra na Espanha e nos países hispânicos na América Latina, empregando o termo fideo para macarrão, apesar que se use pasta mais normalmente. 

A Itália: "o país do macarrão"

Embora a Itália seja conhecida hoje como "país do macarrão", por séculos esse alimento não foi um símbolo nacional, além de estar restrito a Sicília e algumas cidades do sul da Itália, sendo até mesmo desconhecido em outros países europeus. No século XII quando os normandos (advindos do noroeste da França) invadiram a Sicília para conquistá-la, algo que realmente ocorreu, na época a ilha que era governada pelos árabes, lá já se comia macarrão. Os normandos tiveram contato com esse alimento.

No século XIV já encontravam-se máquinas para se fazer macarrão. Basicamente consistia num cilindro com furos em uma das pontas. O recipiente era preenchido com a massa fresca, então colocava-se uma alavanca para torção, com isso ia torcendo-se a alavanca, forçando a massa sair pelos orifícios, e dessa forma formava-se os fios de macarrão. Tais máquinas foram chamadas em algumas épocas de madia, ou gramola, ou bigolaro, e já eram conhecidas dos padeiros, que as usavam para preparar alguns tipos de massas para pães, bolos e doces. Já outros formatos de macarrão eram feitos com outras máquinas ou manualmente, moldando-os com fôrmas e outros instrumentos. (SHELKE, 2016, p. 51-52). 

Um bigolaro contemporâneo, usado para se fazer macarrão caseiro ou artesanal. 

A partir da Sicília o macarrão foi aos poucos sendo difundindo pela península Itálica. No século XIV, o famoso poeta Boccaccio (1313-1375) escreveu um elogio a essa comida. Em um dos 100 contos que formam O Decamerão, o poeta fala de uma terra da comida chamada Bengodi, onde havia uma montanha coberta de queijo parmesão, onde as pessoas que ali viviam, criavam galinhas gordas e comiam delicioso macarrão e ravioli. (SHELKE, 2016, p. 19). 

No livro de culinária De Arte Coquinaria per Vermicelli e Maccaroni Siciliani, datado do século XV e atribuída a autoria ao mestre Martino da Como, esse livro apresenta algumas receitas específicas para se fazer macarrão e aletria (vermicelli), sendo que a aletria é parecido com um espaguete de fios bem finos, embora seja usado para se fazer doces e não apenas comida salgada. De qualquer forma, o interessante é que já no século XV, percebe-se como o macarrão estava difundido pela Itália, havendo até livros de culinária trazendo receitas sobre ele. Além disso, observa-se que o macarrão ainda estava associado a Sicília, local de sua difusão na península Itálica. (SHELKE, 2016, p. 21). 

Já em outros países europeus, o macarrão era desconhecido ou pouco conhecido, sendo considerado até mesmo uma iguaria italiana. Pessoas que viajavam para a Itália tinham contato com essa comida, algumas até chegavam a levar a receita para seus países. Nos séculos XVI e XVII, o macarrão começou lentamente a ser levado para outros países europeus, chegando como uma iguaria italiana, principalmente através de nobres italianos que casavam-se com nobres espanhóis, franceses, alemães e ingleses. Um exemplo é o caso da rainha Catarina de Médici (1519-1589), que nasceu em Florença, e ainda jovem casou-se com o rei Henrique II da França, se mudando para o reino de seu marido. Catarina levou entre seus funcionários, alguns cozinheiros para preparar comida italiana, incluindo macarrão. Apesar de macarrão ser provado por parte da corte francesa, o alimento não se difundiu na França, ainda. 

Por volta do século XVI ou XVII, surgiram na Itália as chamadas bottega di vermicellaio ou cantinas, restaurante especializados na produção de massas. Tais restaurantes se popularizaram rapidamente e até geraram em alguns problemas. Devido a grande demanda de farinha de trigo, os padeiros entraram em conflito com os vendedores de macarrão, gerando desavenças e brigas. As autoridades em algumas cidades tiveram que intervir sobre a produção de trigo para poder atender os dois ramos alimentícios. Além desse caso, em 1641, nos Estados Papais, o papa Urbano VIII expediu um decreto, decretando que as cantinas deveriam se encontrar a pelo menos 23 metros de distância uma da outra, pois estava ocorrendo brigas para se conseguir clientes, pois havia casos que numa mesma rua chegava a ter várias cantinas. (SHELKE, 2016, p. 22-23). 

No século XVIII a cidade de Nápoles era uma referência na produção e consumo de macarrão. Entre 1700 e 1785 o número de cantinas quadruplicou, existindo mais de 300 dessas na cidade. (SHELKE, 2016, p. 24). 

Devido a ocupação espanhola de Nápoles desde o século XVI, os espanhóis introduziram massivamente o uso do tomate na culinária italiana, popularizando-o. Como o tomate é de origem americana, foi graças aos espanhóis que esse fruto foi levado a Europa e África, sendo disseminado por estes continentes. Na Itália devido ao clima quente do sul, o tomate conseguiu se adaptar de forma satisfatória e tornou-se um fruto bastante utilizado na culinária sulista. Foi no antigo Vice-Reino de Nápoles (1505-1707) que o uso de molho de tomate no pratos de massas, se difundiu. Surgindo a pasta a pomodoro (macarrão ao molho de tomate). (CIVITELLO, 2008, p. 265). 

O macarrão ao molho de tomate teria surgido no sul da Itália, possivelmente em Nápoles. Atualmente esse prato é um dos mais comuns consumidos na Itália e em restaurantes italianos em outros países. 

No século XIX, Nápoles era referida como a "cidade das massas" devido a grande quantidade de restaurantes e cantinas que vendiam o produto, além de vendedores ambulantes que vendiam até mesmo macarrão artesanal para ser preparado. Tais vendedores de macarrão literalmente vendiam o produto pendurados em varais. Onde as pessoas compravam pelo peso. Os varais não apenas ajudavam a exibir os produtos, mas facilitavam na hora de cortar os fios para serem vendidos e também eram úteis para secar a massa, o que lhe aumentava o tempo de conservação. (CIVITELLO, 2008, p. 266). 

Vendedores de macarrão em Nápoles, no século XIX. O macarrão estava posto em varais para secar. Fonte: CIVITELLO, Linda. Cuisine and Culture, 2008, p. 266. 

O macarrão seguiu se popularizando na Itália e nos séculos XVIII e XIX. Nesse período, a comida já era encontrada em outros países europeus e até nas Américas, mas ainda restrita a um pequeno público. Somente no século XIX quando as fábricas de macarrão se tornaram mais comuns, este alimento se popularizou no Ocidente, diferente do Oriente, que desde a Antiguidade já era bastante apreciado em alguns países. 

Macarrão industrializado

Ainda no século XVIII difundiu-se as fábricas de macarrão na Itália. O produto ainda era manufaturado, mas já se notava uma produção em larga escala. Na província de Savona e Portomaurizio em meados do XVIII, já contava com 148 fábricas de macarrão, que produziam anualmente 30 toneladas do produto, segundo estimativas da época. No entanto, Savona e Portomaurizio e as cidades vizinhas tornaram-se por longos anos, referência na produção fabril de macarrão. (SERVENTI; SABAN, 2003, p. 115). No século XIX, Nápoles e Gênova se tornaram novamente o polo manufatureiro de macarrão, concentrando em suas regiões a maioria das fábricas. 

No século XIX surgiu a primeira fábrica mecanizada de macarrão, mas não foi na Itália, mas nos Estados Unidos. Em 1848, foi fundada no Brooklyn, pelo empresário francês Antonie Zerega, que era descendente de italianos. Zerega mudou-se para Nova York, onde fundou a Zerega's Sons Inc, a primeira fábrica de macarrão dos Estados Unidos. (SERVENTI; SABAN, 2003, p. 191). 

A Zerega foi a primeira fábrica de macarrão nos Estados Unidos.

O macarrão começou a se popularizar nos Estados Unidos na segunda metade do século XIX, surgindo fábricas em outros estados. Nos idos do XX, foi fundada National Association of Macaroni and Noodle Manufacturers em 1903. Revelando que esse alimento vinha conquistado o gosto americano, apesar que somente após a Grande Guerra (1914-1918) é que a venda de macarrão disparou, motivada tanto por causa da guerra e pela Grande Depressão (1929-1939), devido a ser um alimento barato e rápido de ser preparado. (SERVENTI; SABAN, 2003, p. 192). 

Já no século XX com as melhorias tecnológicas a produção de macarrão intensificou-se e surgiu o macarrão industrializado que hoje consumimos. Se anteriormente o macarrão mesmo em algumas fábricas era colocado ao sol para secar, passou-se a usar-se aquecedores e estufas para desidratar o macarrão, deixando com um aspecto duro e quebradiço, como costumamos ver nos pacotes que compramos no mercado. A desidratação da massa permite que sua conservação se estenda por meses ou um ano. 

Atualmente é comum comprar macarrão industrializado, devido a condição de isso prolongar sua conservação. Além disso, basta colocá-lo em água fervente, que em poucos minutos ele cozinha. 

A partir da década de 1970 com a popularização do forno de micro-ondas nos Estados Unidos e em alguns outros poucos países, começaram a surgir as comidas congeladas, já prontas, as quais eram cozinhadas ou esquentadas nestes fornos. Dentre os alimentos surgidos estavam pratos de macarrão e outras massas como lasanha, capeletti, ravioli, pizza, nhoque, etc. 

O Top Ramen da Nissin, foi introduzido nos Estados Unidos em 1970, sendo uma das primeiras marcas já dirigidas para o uso de fornos de micro-ondas.

Macarrão instantâneo

Conhecido popularmente no Brasil como miojo, o nome se deve a marca Myojo lançada pela Nissin no final dos anos de 1950. O macarrão instantâneo é atualmente bastante consumido em vários países do mundo, por ser um produto industrializado relativamente barato e de fácil e rápido preparo. Sua fórmula deve-se a origem a Momofuku Ando (1910-2007), nascido em Taiwan, mudou-se em 1933 para Osaka no Japão, abrindo uma loja de tecidos, ramo que pertencia sua família. Motivado em ajudar a população japonesa e taiwanesa após a tragédia da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Ando disse que compadecido ao ver pessoas passando fome, decidiu investir no ramo alimentício e fundou a Nissin em 1948

Dez anos depois de ter fundado sua nova empresa, Ando desenvolveu a receita do macarrão instantâneo. Lançado inicialmente apenas no Japão, em 1958, o chikin ramen, consistia num macarrão estilo lámen, pré-frito e desidratado, o qual vinha com tempero artificial sabor galinha, bastando ser colocado em água fervente, por três a cinco minutos e já estaria pronto para consumo. O produto era fácil de ser produzido, pois a ideia de Ando na época era criar um alimento barato para atender a população de baixa renda. Vários anos depois, em 1971, Ando inventou o Cup Noodles, uma outra forma de macarrão instantâneo, que ao invés de ser vendido em pacotes, era vendido em copos, os quais podiam ser enchidos com água quente e ali mesmo o macarrão era cozido. Não necessitando o uso de panelas para isso. (ISHIGE, 2011, p. 253). 

Exemplo de macarrão instantâneo do tipo lámen. 

Na década de 1970 a Nissin chegou aos Estados Unidos, o chikin ramen foi nomeado lá como Top Ramen (nome que ainda conserva), e posteriormente o Cup Noodles chegou também, e em poucos anos se popularizou o macarrão instantâneo por lá. Posteriormente na década de 1990, o produto já era encontrado em vários países do mundo, e outras empresas também passaram a produzir suas próprias versões. Atualmente o consumo de macarrão instantâneo é bastante comum em alguns países, onde há necessidade de ingerir alimentos de forma rápida e fácil. Mesmo que o valor nutritivo desses macarrões instantâneo seja bastante questionável. Ainda assim tal alimento industrializado é tão popular no Japão, que é até culturalmente associado ao país. (ISHIGE, 2011, p. 253). 


O chikin ramen, o primeiro macarrão instantâneo inventado, e ao lado, seu inventor, Momofuku Ando. 

O macarrão pelos países

Itália

Muitas das receitas de macarrão consumidas na Europa, Américas, parte da África, Austrália e Nova Zelândia, advém da culinária italiana. Devido a grande variedade de receitas italianas vou citar algumas gerais que são comumente difundidas nos restaurantes.
  • Macarrão a molho de tomate: consiste numa das receitas mais comuns, que basicamente é comer macarrão de diferentes tipos, acompanhado de molho de tomate. 
  • Macarrão à carbonara: acompanhado de bacon picado, creme de ovos ou creme de leite.
  • Macarrão à putanesca: acompanhado com azeitonas cortadas, molho de tomate, manjericão e anchovas. 
  • Macarrão à bolonhesa: outra receita bem comum, que é a base de carne moída, apesar que o molho leve diferentes tipos de condimentos. 
  • Macarrão a alho, óleo e pimenta: para quem não gosta de pimenta, tem a versão sem essa, que também é bastante consumida. 
  • Macarrão ao molho de manjericão: com gosto forte do manjericão, é acompanhado também de pimenta, pinhão e queijo parmesão. 
  • Macarrão com queijo e pimenta: é diferente da versão americana.
  • Macarrão com almôndegas: acompanhado por molho de tomate, manjericão, parmesão ralado e por almôndegas geralmente feitas de carne bovina. 
Além dessas receitas básicas citadas acima, os italianos também popularizaram o uso do queijo ralado para compor o molho do macarrão, seu consumo com carne, geralmente bovina, e de alguns legumes, os quais geralmente são usados no molho. Porém, os italianos também popularizaram outras massas de macarrão como a lasanha, o capeletti e o ravioli. Sublinha-se que os dois últimos sejam macarrões recheados, geralmente com carne bovina, frango ou suína, mas há receios vegetarianos também. 

À esquerda capeletti e à direita ravioli. Alguns consideram como sendo tipos de macarrão recheado, já que comumente é considerado como fazendo parte das pastas ou massas. 

Japão 

No Japão há vários tipos de macarrão, mas todos seguem o modelo de fios, variando sua espessura, densidade e formas de preparo. Mas as receitas mais comuns são o yakisoba ("macarrão de sobá frito"), o lámen e o udon

O yakisoba é bastante consumido no Japão e se popularizou em outros países no mundo, graças aos restaurantes japoneses e chineses. Apesar que no Brasil não seja difícil encontrar esse prato em restaurantes self-service. A origem dessa receita não é precisada, mas já era vendido nas ruas há bastante tempo. Basicamente o yakisoba consiste em macarrão frito acompanhado de carnes e legumes, os quais podem ser fritos a parte ou junto com o macarrão. Mas dependendo da receita, os legumes e as carnes (bovina, frango, porco e camarão) podem ser cozidas e não fritas. O macarrão usado no Japão é do tipo soba ou lámen, embora que em outros países utilizem-se de tipos similares, que apresentam fio grosso ou no formato de talharim. 

Um exemplo comum de yakisoba

O yakisoba é tão apreciado pelos japoneses que por volta da década de 1950 surgiu um sanduíche inusitado, o chamado pão de yakisoba. Não se sabe exatamente quem teve essa ideia, mas ela começou a se espalhar em pouco tempo. Atualmente é comum encontrar esse sanduíche em lojas de conveniência, mercados e padarias. Entre os estudantes esse tipo de sanduíche é apreciado como lanche escolar, algo até visto em mangás e animes sobre o assunto. Basicamente o pão de yakisoba é um pão longo parecido com o de cachorro-quente, e no qual é recheado com yakisoba. 

Um pão de yakisoba. Esse tipo de sanduíche é bastante comum no Japão, sendo desconhecido em outros países e até considerado algo exótico ou estranho. 

Outra receita bastante consumida no país é o lámen (ramen em japonês), que consiste numa espécie de sopa de macarrão, baseada numa receita chinesa. Não se sabe quando o lámen surgiu, pois alguns estudiosos apontam a segunda metade do século XIX, quando imigrantes chineses foram para o Japão e começaram a preparar suas sopas de macarrão, que vieram a ser chamadas de lámen. Outros estudiosos sugerem que tal prato tenha começado a se difundir no país no começo do século XX, mas somente se popularizando após a Segunda Guerra. (ISHIGE, 2011, p. 252). 

O lámen é feito de macarrão do tipo lámen de fios mais finos e cacheados, ou macarrão do tipo sobá. O lámen é preparado com caldo de frango, de porco ou bovino, algumas receitas usam caldo de camarão ou de peixe. O prato é acompanhado de pedaços de carne, legumes, ovos, brotos de bambu, algas, cogumelos etc. Tais acompanhamentos variam de acordo com a receita e a localidade, onde se tem preferência para determinados sabores e ingredientes. 

Um exemplo de lámen

Um terceiro tipo de macarrão japonês que cito é o udon. Esse macarrão de fios mais grossos pode ser usado para vários tipos de receitas, sendo consumido como sopa, com molho, carnes e legumes, podendo ser até consumido em receitas frias. Segundo uma antiga lenda, o udon teria sido trazido da China no século X, pelo monge Kukai (774-835). Outros apontam que a receita teria chegado posteriormente. O udon possui uma variedade de ingredientes que variam de acordo com gostos locais. Seu molho faz uso de shoyu ou de molhos de carnes, peixes e legumes. (ISHIGE, 2011, p. 249). 

Um prato de Udon. Visualmente ele é parecido com o lámen, mas mudando os ingredientes, forma de preparo e tipo de macarrão usado. 

Brasil

Com a imigração italiana chegada ao Brasil a partir da década de 1870, o macarrão foi sendo difundido pelo país através dos italianos. Mais de um século depois o macarrão é um alimento bastante apreciado pelos brasileiros e comum nos restaurantes e nos lares. No caso, o tipo mais consumido são o espaguete, seguido do talharim e depois da lasanha. As variedades como penne, parafuso, cabelo de anjo, fettucini, ravioli, capeletti, são encontradas em mercados para preparo e em alguns restaurantes. 

No Brasil é muito comum o consumo de macarrão ao molho de alho e óleo, molho de tomate ou molho à bolonhesa (embora leve condimentos próprios da culinária brasileira como ervilhas, milho verde, creme de leite, pimenta, etc.), o qual é conhecido popularmente como macarronada ou macarrão com carne moída. Já o segundo prato de massa mais consumido é a lasanha à bolonhesa, que é também bastante apreciada no país, ao lado das receitas com quatro queijos, queijo e frango e outras variedades próprias como lasanha de berinjela e lasanha de espinafre

Sopa de macarrão também é uma receita comum no Brasil, mas essa versão do prato é diferente da vista em outros países. Geralmente as sopas brasileiras de macarrão levam batata e cenoura, podendo ser acompanhadas ou não de pedaços de carne ou de frango. Um outro hábito comum do brasileiro é o consumo de macarrão acompanhado com arroz e feijão, combinação bastante popular no país. Inclusive há pessoas que até consomem estrogonofe acompanhado de macarrão. 

Um exemplo típico brasileiro, um prato com macarrão, arroz, feijão e farofa. Soma-se a ele algum tipo de carne, batata frita, ovo cozido, ovo frito, salada de alface e tomate. Embora possa ser consumido dessa forma também, sem acompanhamentos. 

Estados Unidos

Nos Estados Unidos o macarrão chegou através dos ingleses, italianos e chineses. Mas em geral a população americana consome pouco macarrão apesar da antiguidade desse produto no país, mas uma receita bem popular é o macarrão com queijo (macaroni and cheese ou mac 'n' cheese). A receita já era conhecida dos americanos desde 1769, pelo menos, tendo sido levada talvez pelos próprios ingleses. Uma lenda credita ao presidente Thomas Jefferson (1743-1826) a introdução dessa receita em 1802. No livro de culinária The Virginia Housewife (1824) já constava uma receita de macarrão com queijo. Todavia, esse prato somente se popularizou no país, durante o século XX. (RHODES, 2011). 

Foi durante a Grande Depressão (1929-1939), que a empresa alimentícia Kraft Foods Inc, começou a vender macarrão com queijo em caixinhas ou vasilhas em 1937, a um baixo custo. Devido a crise econômica que o país vivenciava, muitos tralhadores mal tinham dinheiro para comer, optando geralmente em almoçar sanduíches por serem baratos, então o macarrão vendido pela Kraft era uma alternativa bem-vinda naquele cenário precário. (RHODES, 2011). 

A partir da década de 1950 a receita foi se popularizando no país. No caso o macarrão com queijo consiste em cozinhar espaguete, talharim, penne ou outro tipo de macarrão, misturá-lo com manteiga, ovos batidos, leite com sal, queijo cheddar e mostarda, sendo em seguida levado ao forno. Outras receitas acrescentam outros tipos de queijo, cubinhos de bacon e outros condimentos. O resultado é um macarrão cremoso com forte gosto de queijo. Atualmente os Estados Unidos é o país onde mais se consome esse tipo de prato. 

Exemplo de macarrão com queijo, bastante apreciado nos Estados Unidos. 

NOTA: No mangá/anime Naruto, o protagonista Naruto Uzumaki é fã de lámen. Inclusive a palavra naruto é o termo usado para uma pasta de peixe com uma espiral rosada ao centro, usada como acompanhamento em algumas receitas de lámen e udon. 
NOTA 2: Em 25 de outubro comemora-se o Dia Mundial do Macarrão
NOTA 3: Em 1887 o italiano Adolpho Selmi fundou uma das primeiras fábricas de macarrão no Brasil, inaugurando na cidade de Santos. A companhia Selmi ainda hoje existe. 
NOTA 4: No século XVIII, os ingleses passaram a usar a palavra macaroni como gíria para se referir a homens de comportamento afeminado, que se vestiam de forma pomposa e usavam perucas extravagantes. O termo originou-se a partir do Macaroni Club, surgido em 1760, e que curiosamente servia macarrão em algumas de suas refeições. E parte dos membros desse clube vestiam-se de forma extravagante, por isso a associação com o macarrão. 
NOTA 5: No século XV ou XVI surge o chamado latim macarrônico, um termo cômico para se referir a brincadeiras poéticas ou musicais, onde se misturava o latim com outros idiomas como o italiano, francês, espanhol e inglês, inventado palavras que não existiam no latim, mas que soavam de forma poética ou engraçada. A palavra macarrônico advém de macorini, fazendo alusão a algo "misturado". 
NOTA 6: O termo macarrônico ficou tão marcado e associado com a Itália, que nas décadas de 1960 e 1970 o cinema italiano começou a produzir suas versões de filmes de faroeste. As quais ficaram conhecidas como faroeste macarrônico ou spaghetti western
NOTA 7: O Pastafarianismo é uma sátira religiosa surgida em 2005 com Bobby Henderson, nos Estados Unidos, para criticar o criacionismo cristão que queria ser imposto nas escolas americanas. Desde então o movimento satírico cresceu e se espalhou por alguns poucos países. Nessa crença inusitada, o seu deus é o Monstro de Macarrão Voador
NOTA 8: No Japão também existe o omu-sobá, um omelete feito de yakisoba.
NOTA 9: A cidade de Okinawa é famosa por suas receitas de sobá. Inclusive essa comida é um prato típico dessa pequena ilha ao sul do Japão.  

Referências bibliográficas: 

CIVITELLO, Linda. Cuisine and Cultury: a history of food and people. 2. ed. New Jersey, Wiley, 2008. 
ISHIGE, Naomichi. History and Culture of Japanese Food. London/New York, Routledge, 2011. 
SERVENTI, Silvano; SABBAN, Françoise. Pasta: the story of a universal food. Translated by Antony Shugaar. New York, Columbia University Press, 2003. 
SHELKE, Kantha. Pasta and Noodles: a global history. London, Reaktion Books, 2016. 

Referências online:
RHODES, Jesse. Marvelous Macaroni and Cheese. 2011. Disponível em: https://www.smithsonianmag.com/arts-culture/marvelous-macaroni-and-cheese-30954740/

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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Odisseu e o mito de fundação de Lisboa

Desde a Idade Média existe uma história que diz que a cidade de Lisboa teria sido fundada pelo herói grego Odisseu, ou Ulisses como era conhecido pelos romanos. Alguns poetas e escritores nos séculos XVI e XVII citaram tal mito e até escreveram poemas em homenagem a essa lendária fundação. Neste texto procurei contar um pouco de onde teria vindo essa relação com o mítico Odisseu e a fundação de Lisboa, adiantando que essa ideia de associar um herói como fundador de uma cidade era uma tradição vista entre os antigos gregos e romanos.

Odisseu: o sagaz e desafortunado 

Antes de adentrar ao mito da visita de Odisseu as terras que hoje perfazem território português, é preciso apresentar um pouco de sua história para saber como ela se encaixaria nesse mito de fundação. No caso, Odisseu era filho do rei Laerte e da rainha Anticleia, os quais governavam a pequena ilha de Ítaca na costa ocidental do Peloponeso. Sendo ele filho único, herdou o trono do pai. Já moço, Odisseu foi um dos pretendentes de Helena, mas como tantos outros, acabou perdendo para Menelau, a quem se casou com ela, considerada a mais bela das mulheres. Por sua vez, Odisseu casou-se com Penélope, com quem teve um filho chamado Telêmaco. 

Helena após decidir fugir com o príncipe Páris, para Troia, isso levou Menelau a pedir ajuda ao seu irmão mais velho Agamemnón, e assim iniciaram a Guerra de Troia. Como Odisseu havia juramentado em proteger Helena e possuía aliança com Menelau, decidiu ajudá-lo a reaver sua esposa infiel. 

No caso, a história de Odisseu é narrada principalmente em dois poemas épicos, a Ilíada e a Odisseia, ambos atribuídos ao poeta Homero. No primeiro poema, ele aparece como personagem coadjuvante, sendo um dos generais gregos que participou dos longos dez anos de conflito para se conquistar Troia. Odisseu é lembrado por ter sido o autor do plano do cavalo de madeira gigante que foi usado como ardil para se enganar os troianos. Com êxito do plano do cavalo, o qual originou até mesmo a expressão "presente de grego", os gregos conseguiram invadir Troia, saqueando-a, destruindo-a e escravizando seu povo. Helena foi recuperada por Menelau, mas outros importantes heróis gregos e troianos pereceram durante a guerra ou na invasão. Todavia, Odisseu e seus homens sobreviveram e na jornada de volta para casa, Odisseu esnobou-se perante os deuses, gabando-se de sua sagacidade principalmente para Poseidon, o deus dos mares, o que o enfureceu e amaldiçoou ele, dizendo que este jamais retornaria para Ítaca. 

Odisseu e seus marinheiros em um mosaico romano. 

A Odisseia narra a história do retorno de Odisseu, mas de forma não linear, já que em dados momentos ela se passa em Ítaca, acompanhando a rainha Penélope e seu jovem filho Telêmaco, os quais tem que lhe dar com os pretendentes que cobiçam casar com Penélope, tida como viúva, em outro momento a narrativa se passa no Reino dos Feácios, última parada de Odisseu, onde ele narra suas aventuras ao rei Alcínoo. A partir da conversa do herói com o rei feácio, vai se desenrolando a narrativa da jornada de dez anos que Odisseu levou para retornar para casa. Todavia, ele não passou estes dez anos perdido como as vezes se pensa, na verdade nos três primeiros anos ele navegou por vários lugares do Mediterrâneo, encontrando o ciclope Polifemo, os monstros Caríbdis e Cila, as sereias, a feiticeira Circe e outros personagens, porém, no quarto ano de sua jornada ele foi acolhido pela ninfa Calipso na ilha de Ogigia, onde viveu ali por sete anos. Após isso ele chegou ao reino dos Feácios, de onde consegue ajuda para retornar a Ítaca, lutar contra os senhores que cobiçam seu reino e finalmente reencontrar sua esposa e filho. 

O interessante de citar esse breve relato da Odisseia é que em meio a estes dez anos que Odisseu e parte de sua tripulação esteve perdida (essa esteve presente em cerca de quatro anos, pois Odisseu chegou sozinho a Ogigia), outros poetas inventaram novas narrativas apontando outros territórios pelos quais Odisseu teria visitado durante esse período. Tal prática não era incomum, até porque o Ciclo Troiano que consiste nos poemas que narram os acontecimentos da Guerra de Troia, não se limita apenas a Ilíada, mas existem outras narrativas que falam sobre seus antecedentes, conflitos paralelos e até o que aconteceu com outros personagens após essa guerra. Logo, dentre as narrativas de outras viagens que Odisseu teria realizado, encontra-se uma que ele teria fundado a cidade de Lisboa. 

Lusitânia e Olisipo

Não se sabe exatamente quando a cidade de Olisipo foi fundada, porém, foram os romanos que deram este nome a ela, devido a condição de que aquela pequena urbes teria sido fundada pelo herói Odisseu. Além do nome Olisipo, a cidade também foi referida como Ulisipo ou Ulisseia. O ano de fundação da cidade como dito, é desconhecido, e quem teria sido seus fundadores também é algo não concreto; teorias sugerem que a cidade teria sido fundada pelos fenícios, cartagineses, turdúlos, célticos, lusitanos ou pelos próprios romanos

A cidade situada a beira do rio Tejo, era conhecida pelos romanos desde o século II a.C, o que sugere que sua fundação tenha que ter sido anterior a isso. Os romanos começaram a invadir a Península Ibérica em retaliação aos cartagineses que controlavam parte daquelas terras e estavam a vários anos em guerra contra Roma. A medida que as tropas romanas iam progredindo pelo interior da península, chegaram até o território dos lusitanos, o qual corresponderia a região central da atual Portugal. Os lusitanos não aceitaram a dominação romana iniciando vários anos de guerra indo de 194 a.C a 138 a.C, nesse período houve algumas batalhas e tréguas, mas os intentos da República Romana de conquistar a península nunca foram abandonados. (GRIMAL, 1988). 

Em 138 a.C o cônsul Décimo Júnio Bruto comandou legiões para conquistar os lusitanos e os galaicos que viviam mais ao norte, no que hoje é a Galiza na Espanha. Nessa época os habitantes de Olisipo aliaram-se aos romanos, principalmente pelo fato de que o grande líder lusitano, Viriato (181-139 a.C), havia falecido meses antes. Viriato dedicou a vida a assegurar a independência de seu povo, mas tendo sido assassinado, parte dos lusitanos optaram em se aliar aos vencedores. Após essa aliança em 138 a.C, o povo de Olisipo seguiu colaborando com os romanos nas décadas seguintes, inclusive recebendo benefícios políticos e legais por parte de Roma. (GUERRA; FABIÃO, 1992, p. 14-15). 

A conquista da Lusitânia foi efetivada em 30 a.C, e no ano seguinte a região tornou-se a Província da Lusitânia, em referência aos lusos ou lusitanos, o povo mais expressivo daquela localidade. Ao anexarem aquelas terras ao seu império, cuja capital da província ficava situada em Emerita Augusta (atual Mérida na Espanha). (GRIMAL, 1988). 

Mapa do Império Romano com suas províncias em 117. Em amarelo a localização da província da Lusitânia. 
Dessa forma Olisipo tornou-se parte dos domínios romanos recebendo elementos que caracterizavam urbanisticamente as cidades romanas naquele tempo, como um teatro, termas, aquedutos, cloacas, prédios públicos, fortificações etc. Mas se até aqui vimos um pouco da história de como Olisipo passou das mãos dos lusitanos para as dos romanos, os quais a renomearam com este nome, como citado anteriormente, de onde eles haviam tirado a ideia de que tal cidade havia sido fundada por Odisseu? 

O mito de fundação de Olisipo

Como assinalado anteriormente, outros poetas escreveram sobre viagens que Odisseu teria realizado durante os dez anos que levou para retornar à Ítaca. Embora não se saiba exatamente quando surgiu a história sobre a fundação de Olisipo. 

O famoso geógrafo grego Estrabão (64-24 a.C) autor da monumental obra, intitulada Geografia, cita no volume I, cap. 2, est. II, cita que Odisseu teria viajado pela Ibéria. (FONSECA, 2014, p. 187). Posteriormente no volume III, cap. 3, ele descreve a Lusitânia e até mesmo a foz do rio Tejo, todavia, ele não cita a cidade de Olisipo. Embora essa já fosse conhecida dos romanos naquele tempo. Porém, existe um trecho incompleto no volume III, no capítulo 3, onde o autor diz que o cônsul Décimo Júnio Bruto havia recebido reforços de uma cidade situada no Tejo. Os geógrafos e historiadores interpretam isso como podendo ser uma referência a Olisipo. Porém, é interessante que nesse ponto, Estrabão não cite o nome da cidade e nem associe ela com Odisseu. 

No século IV o escrito romano Caio Júlio Solino (?-400), autor de uma coletânea de vários assuntos, intitulada Do mundo maravilhoso (De mirabilus mundi), também chamada de Coletânea de Fatos Memoráveis (Collectanea rerum memorabilium) e de Polistória, cita no capítulo XXIV sobre a Hispânia, o mito de que Odisseu teria fundado Olisipo. (SOLINO, 1847, p. 186). 

Outro escritor romano, dessa vez Marciano Capela (IV-V), escreveu um livro emblemático por misturar prosa, poesia, sátira, mitologia e intuitos didáticos. Seu livro foi chamado Núpcias de Mercúrio e de Filologia, mas também é conhecido como As Sete Artes Liberais, por ele propor algumas disciplinas que deveriam ser ensinadas para se ter uma boa formação, e também foi chamado de Satiricon, evidentemente por seu teor satírico. De qualquer forma, neste longo livro, Capela cita que Lisboa teria sido fundada também por Odisseu. (CAPELA, 1836, 308). 

No século VII o doutor da Igreja e bispo, São Isidoro de Sevilha (c. 560-636), escreveu sua coletânea enciclopédica intitulada Etimologias. No volume XV, item 70, onde ele se propôs a falar do nome de algumas cidades e lugares e sua ligação com os romanos e gregos, ele cita que Lisboa teria sido fundada por Odisseu. (ISIDORO, 2006, p. 306). 

Observa-se nos relatos de Solino, Capela e Isidoro a condição que ambos citam o mito de fundação de Lisboa, tendo a cidade de Olisipo recebido esse nome em homenagem ao seu fundador, o herói grego Odisseu. Porém, nenhum destes autores comentam tal mito. Nem o próprio Estrabão que séculos antes deles, citou que Odisseu teria passado pela Ibéria, também comenta tal história. Logo, não se sabe como teria sido essa narrativa da visita de Odisseu a Lusitânia, se é que haveria alguma narrativa, ou apenas seria um dado sem uma narrativa que a embasa-se. 

De qualquer forma, essa história da mítica fundação de Olisipo que veio a ser Lisboa, manteve-se. No século XII um suposto cruzado inglês de nome Raul, escreveu para Osberto de Baldresia, informando que Lisboa teria sido fundada pelo herói Odisseu há muitos séculos. Outros cruzados de nome Vinando, Duodequino e Arnulfo, que foram auxiliar na conquista de Lisboa pelos portugueses, pois a cidade estava em mãos dos mouros, relataram também ter ouvido que a cidade teria sido fundada por Odisseu. Puga (2011, p. 152) sugere que a menção a essa lenda por tais cruzados de origem inglesa, normanda e franca, possivelmente tenha se difundindo não por coincidência, mas como parte de uma "propaganda política" promovida para exaltar a conquista de Lisboa ocorrida em 1147. A cidade estava nas mãos dos mouros já a séculos, e os portugueses não apenas tomaram aquela cidade que alegavam pertencer aos seus antepassados lusitanos, mas também contribuíram com a expulsão dos muçulmanos da região (embora que ainda hoje existam mesquitas em Lisboa e uma comunidade islâmica). 

Ainda no medievo outros autores citarão o mito de Odisseu e Olisipo. Como na Crônica Geral de Espanha de 1344, onde Puga (2011, p. 153) comenta que nessa obra temos mais informações sobre como Odisseu chegou as antigas terras que um dia seriam Portugal, inclusive menciona-se que ele teria tido uma filha chamada Boa (uma associação com Lisboa) e um neto chamado Odisseu também. Além disso, nessa crônica diz que o herói chegou a costa lusa, após ser arrastado ali por uma tempestade. Inclusive essa ideia de tempestade é vista em outras versões do mito. 

Porém, a partir do século XVI essa narrativa começou a se destacar principalmente devido ao momento dos Descobrimentos Portugueses, e vários autores se reportaram a esse mito e inclusive até mesmo acrescentando novas histórias e criando suas próprias versões. Puga (2011, p. 152-154) enumerou alguns dos autores entre os séculos XVI e XIX, escreveram sobre o mito de Odisseu e a fundação de Lisboa. 
  • Partida de Évora (1572) de Diogo Mendes de Vasconcelos
  • Os Lusíadas (1572) de Luís Vaz de Camões
  • De Rebus Hispaniea (1592) de Juan de Mariana
  • Monarquia Lusitana (1597) de Frei Bernardo de Brito
  • Ulisseia ou Lisboa Unificada (1636) de  Gabriel Pereira de Castro
  • Ulyssipo: poema heroico (1640) de Antônio de Sousa Macedo
  • Primeira Parte da Fundação, Antiguidades e Grandeza da insigne cidade de Lisboa e seus Varões Ilustres (1652) de Luís Marinho de Azevedo
  • Notícias de Portugal (1655) de Manuel Severim de Fari
  • História de Santarém Unificada (1740) de Inácio de Piedade e Vasconcelos
  • Emília e Leonildo, ou, os Amantes Suevos: o poema (1836) de José Maria da Costa e Silva
  • Os Portugueses Perante o Mundo (1856) de Alexandre de Morais
  • História Insulana das Ilhas sujeitas a Portugal no Oceano Ocidental (1866) de Antônio Cordeiro
Das obras citadas acima, algumas se destacam como o poema Ulisseia ou Lisboa Unificada, que segundo Fonseca (2015, p. 188) tal obra inspirou-se bastante na estrutura da Odisseia, e nesse ponto, seu autor, Gabriel Pereira de Castro teve pretensões de criar uma versão de uma "Odisseia à la portuguesa".  De fato, a obra que conta com mais de 400 páginas no original, consiste num longo poema que reimagina toda a trajetória e aventuras de Odisseu em uma Portugal mítica. 

O livro Os Portugueses Perante o Mundo (1856), obra que consiste numa tentativa de escrever a história não apenas de Portugal, mas de outras localidades europeias, associando-as ao período mitológico da Grécia Antiga e da Roma Antiga. Nesse sentido o livro procurou conceder cronologicamente datas para acontecimentos que são míticos, nesse caso, o autor Alexandre de Morais, sugeriu que Odisseu teria chegado a costa lusitana antes de 1081 a.C. Ali ele adentrou pelas águas do Tejo e fundou a cidade de Olisipo, erguendo um templo para Atena e depois casou-se com uma princesa chamada Calipso (aqui nota-se que a ninfa Calipso agora era filha de um rei local). (MORAIS, 2013, p. 22).

Morais (2013, p. 23-24) também salienta que outros marujos da tripulação de Odisseu vieram com ele, e estes fundaram outras cidades e regiões, indo povoar o Minho e o Entre-Douro, inclusive descendentes desses gregos fundaram a cidade de Porto. Por sua vez, Odisseu regressou para Ítaca e deixou seu filho Abidis no comando, o qual fundou a cidade de Santarém e outras localidades. Morais assinala que foi o rei Abidis que civilizou aqueles bárbaros, dando origem aos lusitanos e hispânicos. Nota-se aqui a ideia do herói civilizador, sendo esse herói fruto direto da cultura grega, considerada a primeira grande civilização europeia. De qualquer forma, a obra de Morais é interessante, pois embora conte pouco sobre a presença de Odisseu em Portugal, ele salienta que não foi apenas Lisboa a ser fundada, mas outras cidades também como Porto e Santarém. Percebe-se aqui uma ampliação desse antigo mito. 

Breve consideração final

Não se sabe quando o mito de que Odisseu teria fundado Olisipo (atual Lisboa) surgiu. Talvez possa ter sido uma invenção dos romanos e não necessariamente dos gregos. Em um dos relatos mais antigos que se conhece sobre a Lusitânia, como a Geografia de Estrabão, não menciona a fundação dessa cidade pelo herói, embora que diga que ele teria estado na península Ibérica. Por outro lado, nos séculos IV e V, nas obras de Solino e Capela já encontramos menções a tal mito, embora não haja descrições de sua narrativa. 

Somente na Baixa Idade Média (XI-XV) é que aparecem algumas crônicas comentando passagens da presença de Odisseu na antiga Lusitânia, embora que tecnicamente a Lusitânia nem existiria na época que o herói teria passado por ali, mas isso consistia numa construção mítica da Lusitânia, como forma de endossar eles como sendo os ancestrais do povo português, algo que o próprio Camões reafirma em seu poema-mor. 

Todavia, é somente no século XVII em diante que surgem os grandes poemas que recontam a história de como Odisseu chegou a antiga Portugal, fundou Olisipo e até outras localidades. Cada um desses poemas incluem ou removem personagens, alteram personagens citados na Odisseia, dando novas versões para essa história. E por fim, resta ainda a falta de informações de quando realmente Lisboa teria sido fundada. 

Reconstituição de como teria sido Olisipo na época romana.

Referências bibliográficas: 
CAPELLA, Martiano. De nuptiis, philologiae, et Mercurii, et de septem artibus liberalibus libri novem. Frankfurt, Moenum Varremtrep, 1836. 
FONSECA, Rui Carlos. Da queda de Troia à fundação de Lisboa ou de como Gabriel Pereira de Castro espera "cantar de Ulisses, imitando a Homero". In: MORÃO, Paulo; PIMENTEL, Cristina (coords.). Matrizes Clássicas da Literatura Portuguesa: uma (re)visão da literatura portuguesa das origens à contemporaneidade. Lisboa, Campo de Comunicação, 2015. 
GRIMAL, Pierre. A civilização romana. Lisboa, Ed. 70, 1988. 
GUERRA, Amílcar; FABIÃO, Carlos. Viriato: genealogia de um mito. Penélope, n. 2, 1992, p. 9-23. 
ISIDORE of Seville. The Etymologies. Translated, introduction and notes by Stephen A. Barney [et. al]. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. 
MORAIS, Alexandre J. de Melo. Os Portugueses Perante o Mundo. 2013. Versão online: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/portuguesesmundo.pdf.
PUGA, Rogério Miguel. A odisseia de um mito: diálogos em torno da fundação de Lisboa por Ulisses nas literaturas anglófonas. Ágora, n. 13, 2011, p. 145-175. 
SOLINO, Caius Julius. Polyhistor. Edição bilíngue em latim e francês. Paris, C. L. F. Panckoucke, 1847. 

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