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Leandro Vilar

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Medo do Escuro

Hoje falar em medo do escuro pode soar um tanto estranho, o que isso tem haver com História? Ter medo do escuro é coisa de criança como muitos pensam. Entretanto, o medo do escuro, é um dos medos mais antigos que acompanham a humanidade desde os tempos de sua origem. Na prática, temer a escuridão não é apenas um medo restrito as crianças, mas um medo natural e cultural. 


Essencialmente o ser humano como muitos outros animais, dependem principalmente da visão para reconhecer o mundo que o cerca e sobreviver nesse meio. Porém, aos homens não fora dado a capacidade de possuir uma melhor visualização em baixa luminosidade, ou enxergar com mais "clareza" no escuro, assim como alguns animais o fazem. Logo, diante da escuridão, o ser humano se sente impotente, vulnerável a armadilhas no terreno ou ao ataque de outros animais, e até mesmo ao fato de poder se perder. Assim, ter medo do escuro é algo natural, um mecanismo de alerta, que diz ao cérebro que fique em atenção, por que possamos está correndo perigo, logo isso tudo remete ao ato de preservação e sobrevivência. 

"Marc Oraison conclui que o homem é por excelência "o ser que tem medo". No mesmo sentido, Sartre escreve: "Todos os homens têm medo. Todos. Aquele que não tem medo não é normal, isso nada tem a ver com a coragem". A necessidade de segurança é portanto fundamental, está na base da afetividade e da moral humanas". (DELUMEAU, 1989, p. 19). 

Obviamente a tendência a temer a escuridão varia de pessoa para pessoa, normalmente crianças tem maior medo do escuro, pelo fato de que os adultos ou crianças mais velhas costumam contar histórias de terror e de monstros que vivem no escuro, isso contribui para ampliar o medo nas crianças, e alguns casos podem gerar traumas levando ao individuo mesmo adulto, ter acluofobia ou escotofobia, ou seja, medo exagerado do escuro.

Porém, para nós, habitantes do século XXI, que possuímos a dádiva da disponibilidade da energia elétrica para iluminar nossos lares, ruas e cidades, temer o escuro já não é algo tão alarmante assim; pelo contrário, nas grandes cidades, existe a chamada "vida noturna", pessoas que vão aos supermercados fazer compras, vão academias, shoppings, cinemas, teatros, restaurantes, lanchonetes, bares, estádios, casas de show, etc. Em algumas cidades, há estabelecimentos que ficam abertos até altas horas da madrugada, e não se deve se esquecer, que estabelecimentos de utilidades públicas, como hospitais, delegacias de polícia, corpo de bombeiro, entre outros chegam a ficarem 24 horas abertos. Dessa forma, a noite já não é um empecilho como outrora fora, mas um prolongamento da vida cotidiana.

No entanto, até o começo do século XIX, a situação não era bem assim. Antes da invenção da lâmpada elétrica por Thomas Edison, da utilização de gás para iluminar os postes das ruas e alguns lares, muitas cidades estavam limitadas ao uso de óleo para manter as chamas de alguns postes acesas em algumas ruas; mas em geral o resto da cidade ficava na escuridão. E embora que algumas pessoas só fossem dormir lá pelas 21h, 22h ou até mesmo de madrugada, elas o faziam presas em suas casas. Sair de noite aquela hora era perigoso e não era bem visto para um cidadão.

Assim, farei a seguir uma viagem pela história, explorando entre diferentes épocas, povos e culturas a visão que estes possuíam acerca do medo do escuro. E nesse caso, a noite esteve e ainda está intimamente ligada a esse medo.

Para os antigos egípcios, esses acreditavam que todas as noites o deus-sol , realizava uma viagem de volta para o Oriente, local onde o sol nasce. Logo, tal viagem era feita no Mundo Inferior, porém, Rá nessa sua jornada, era ameaçado por vários inimigos que tentavam impedir seu renascimento no Oriente, e entre seus inimigos o mais temível era a gigantesca serpente Apep ou Aphopis, a qual toda a noite tentava devorar o deus, impedindo que o dia nascesse novamente. Assim, alguns egípcios tinham o costume de orar ao anoitecer o durante a noite para que o deus Rá conseguisse voltar a salvo e trazer o dia novamente, evitando que o mundo caísse nas trevas eternas. No caso, de quando acontecia um eclipse, era entendido que Apep havia conseguido abocanhar Rá e agora tentava engoli-lo. Em várias culturas ao redor do mundo, ao longo da História, os eclipses eram vistos como sinas de mau agouro, mensageiros de maus presságios. 

Papiro retratando o deus Rá em seu barco, enquanto o deus Seth combatia a serpente Apep.
Os antigos maias e astecas também compartilhavam algo similar a crença dos egípcios. Esses por sua vez acreditavam que o seus deuses do sol, Kukulcán para os maias e Quetzacóalt para os astecas, também tinham que enfrentar batalhas durante a noite, contra outros deuses e criaturas que tentavam evitar que o sol voltasse a nascer. Porém havia uma diferença na forma de como eles tentavam ajudar tais deuses. Os maias e astecas acreditavam que seus deuses necessitavam de sangue humano para recobrarem suas forças, logo realizavam sacrifícios humanos diariamente, no intuito de oferecerem o sangue das vitimas aos deuses para que esses conseguissem vencer as batalhas nas trevas e voltassem a surgir na manhã seguinte, trazendo luz, calor e vida. 

O deus-sol maia Kukulcán
Para os japoneses, existe uma antiga história que conta que houvera um tempo que a deusa-sol Amaterasu costumava viver em uma caverna, e todos os dias pela manhã ela saia da caverna para levar sua luz ao mundo, e se recolhia para essa durante a noite. Porém, num certo dia, um de seus irmãos, o deus dos mares e tempestades, Susanoo, realizou uma travessura na caverna da irmã que ridicularizou a deusa e suas criadas, assim revoltada com o irmão, Amaterasu disse que nunca mais sairia da caverna e se trancou nesta. Logo todo o mundo fora tomado pela escuridão, as pessoas começaram a ficar com medo, não saíam mais de casa, os animais eram atacados pelas feras noturnas; as flores não desabrochavam; as árvores não cresciam e o frio tomava conta de tudo. Logo os deuses perceberam a gravidade desse problema e pediram que Amaterasu saísse da caverna, a deusa continuou a recusar o pedido. Então os deuses tiveram uma ideia e chamaram a deusa Uzume, a qual começou contar piadas e fazer brincadeiras, diante da caverna de Amaterasu, enquanto os demais deuses se encontravam ali reunidos, "morrendo de rir", curiosa a deusa decidiu ver o que estava acontecendo, quando retirou a pedra da entrada avistou a imagem de uma bela mulher, então percebeu que era ela mesma refletida em um espelho. Assim, ela deixou a caverna, recebeu o espelho de presente e prometeu nunca mais se esconder novamente.

A deusa-sol Amaterasu deixando a caverna
Os árabes pré-islâmicos e os antigos persas, temiam viajar durante a noite, por que acreditavam que demônios e outras criaturas rondavam pelas estradas e capturavam os vivos os matando. Entre algumas dessas criaturas estava o ghoul (pl. ghilan), os quais seriam criaturas semelhantes a zumbis que devoravam os vivos, e comumente vagavam por cemitérios e ruínas. 

Vários outros povos como os gregos, romanos, assírios, babilônios, chineses e indianos, também contam histórias de criaturas que vagam a noite, histórias sobre o medo do escuro. Acreditava-se que durante a noite, o Mundo dos Mortos estava mais próximo do Mundo dos Vivos, possibilitando a abertura de "caminhos" entre esses, daí, ocasionalmente, a maioria das aparições de fantasmas e espíritos malignos, transcorra a noite.

Entretanto, quando chegamos a Idade Média europeia, o medo do escuro ainda é bem presente e agora reforçado pela crença do Cristianismo unida com o folclore e lendas.

"A Bíblia já expressara essa desconfiança em relação às trevas comum a tantas civilizações e definira simbolicamente o destino de cada um de nós em termos de luz e de escuridão, isto é, da vida e da morte. [...]. O próprio Cristo precisa atravessar a noite de sua paixão. Chegada a hora, entrega-se às ciladas da escuridão (João 11: 10), na qual se entranha Judas (13, 30) e se dispersam os discípulos". (DELUMEAU, 1989, p. 97).

Embora Deus tenha criado a luz e a escuridão, Jesus era dito no Novo Testamento como sendo o "Filho da Luz" enquanto o diabo é retratado como o "Príncipe das Trevas", logo a escuridão, a noite em si, passaram a serem associadas ao diabo, o período do dia, em que seus servos tinham maior poder em amedrontar, desvirtuar e tentar as pessoas. 

Na Europa medieval, grande parte da população vivia em feudos, vilas e vilarejos, estando mais sujeitas as mudanças da natureza e a vida selvagem. Enquanto as cidades eram muradas, nos feudos, geralmente apenas o castelo ou a fortaleza o era, as vilas e vilarejos não possuíam muros ou cercas, isso contribuía ainda mais para a insegurança, já que ao longo do período medieval fora constante a ocorrência de guerras e invasões.

Se tomarmos o fato de que nas vilas medievais as pessoas viviam em casas de um só cômodo, dividiam uma grande cama, onde dormiam cinco ou seis pessoas, entre adultos e crianças; tinham a lareira como principal fonte de luz, e lá fora todo o resto estava na escuridão, logo todo local era propício para incitar a imaginação acerca do que poderia está lá fora. A noite era o período do dia consagrado aos monstros e aos marginais, logo, ladrões, assassinos e bruxas, eram principalmente as pessoas que aproveitavam a noite para cometer seus crimes, se valendo do medo alheio, embora que eles próprios também possuíssem medo de outras coisas. 


Exemplo de uma casa de vila medieval na Europa.
O uivo de lobos, o pio de corujas, o som do vento fazendo as árvores farfalharem, fazendo portas ou janelas baterem; o relincho de cavalos, o mugido de vacas, o latido de cães e o miado de gatos entre o som de outros animais durante a noite, levava a desconfiança, de que alguém ou algo estava espreitando a casa. Era comum as pessoas dessa época, manterem facas, porretes entre outras armas próximas, a fim de se protegerem de algum ladrão que tentasse invadir a casa. Além disso, também era comum, especialmente entre a população rural, manter consigo amuletos e outros objetos ditos protetores, como cruzes, água benta, "breves" (trechos dos evangelhos), etc., os quais manteriam fantasmas, vampiros, lobisomens e outras criaturas noturnas afastadas de seus lares e de suas famílias.


Gravura alemã do século XV, retratando um vampiro atacando um cristão. Diferente da concepção atual de vampiros como pessoas belas e atraentes, até o século XIX, os vampiros eram criaturas feias e puramente malévolas. 
"Enfim, o desaparecimento da luz nos confina no isolamento, nos cerca de silêncio e portanto nos "desassegura". (DELUMEAU, 1989, p. 99). 

Mas, embora a noite trouxesse esses medos, diferente do que se imagina, nessa época, as pessoas viajavam durante a noite. Geralmente eram viagens curtas, feitas nas cercanias da vila, feudo ou da cidade, voltando para casa ou indo coletar um pouco de lenha nas proximidades. No entanto, tais viajantes, andavam armados e com amuletos, a fim de se protegerem de algum mal que aparecesse. Além do mais, em alguns locais, salteadores espreitavam nas estradas esperando a próxima vítima, e até mesmo se valia do medo, para apavorá-las ainda mais. 

Porém, viajar a noite tinha um preço. As pessoas poderiam acabar se perdendo ou serem raptadas, violentadas e até mesmo mortas. Dependendo do terreno, poderia-se cair e torcer um tornozelo, quebrar a perna ou bater com a cabeça, poderia-se ser atacado por lobos ou um urso, ou abordado por algum monstro? 

Não obstante, no período medieval e até mesmo depois, as pessoas temiam outras criaturas sombrias, além de lobisomens, fantasmas, vampiros e bruxas. Haviam duendes que invadiam as casas para roubar ou fazer travessuras; demônios como os íncubos e as súcubos, que sugavam a força vital através do ato sexual, matando as pessoas.


Gravura retratando um homem sendo tentado por uma súcubo.
Dependendo do país as histórias sobre monstros que vagavam pela escuridão variavam. Na Alemanha, Dinamarca, Suécia e Noruega, era comum se dizer que se você viajasse de noite poderia ser capturado ou atacado por um troll ou um ogro; no Leste europeu, era muito comum falar de vampiros e lobisomens, mas do que outras criaturas; na França, se falava de pequenos diabretes chamados quaquemaires, conhecidos hoje mais pelo nome de pesadelo (nightmare em inglês). Logo, acreditava-se que quando uma pessoa tinha um pesadelo, era essa criatura que o estava causando, daí algumas pessoas terem medo de dormir em plena escuridão, por que acreditava que isso facilitaria a aproximação de tal criatura.


O Pesadelo (Qauquemaire), pintura de Henry Fuselli, 1790-1791.
Durante a Idade Moderna, tais crenças não se findaram, mesmo com as mudanças culturais e de pensamento surgidas com o Renascimento, a Revolução Científica e o Iluminismo. Ainda no século XIX, as pessoas temiam vampiros, lobisomens entre outras criaturas que vagavam pela escuridão. Entretanto, o medo do escuro, a partir do século XV começou a mudar, especialmente nas cidades, as quais voltaram a crescer e prosperar.

O homem do campo e o homem da cidade, viam o escuro de formas diferente na Europa moderna. Para o camponês, esse estava mais suscetivo aos animais selvagens e ao fato de viver próximo de florestas, pântanos, montanhas, etc., locais tidos como esconderijos para criaturas da noite. Porém, os habitantes das cidades, começaram a não mais dar tanta atenção a tais lendas. Nas cidades grandes, começou a surgir a "vida noturna", principalmente ligada as festividades e diversão. Claro, que o grau do medo variava de pessoa para pessoa. Um camponês poderia ser mais corajoso em andar de noite em sua vila ou campo do que um cidadão, fazer o mesmo pelas ruas de sua cidade. 

"As cerimônias de Natal e as fogueiras de São João, as "noitadas" dos camponeses bretões, as algazarras que marcavam as noites de bodas, os tumultos, as reuniões de peregrinos vindos de muito longe e que, chegado o fim da jornada, esperavam a aurora na - ou nas proximidades da - igreja que era o objetivo de sua viagem: todas essas manifestações coletivas constituíam uns tantos exorcismos dos terrores da noite. Além disso, a Renascença viu aumentar, na camada social mais elevada, o número de festas que se desenrolavam após o fim do dia". (DELUMEAU, 1989, p. 103).

Durante a noite, pessoas se dirigiam para festas, homens iam para prostíbulos, tabernas ou casa de jogos; amantes se encontravam na calada da noite; reuniões secretas eram feitas. De fato, guardas noturnos patrulhavam as ruas escuras, para manter a ordem e a paz, já que embora algumas pessoas se aventurassem durante a noite para se divertirem, outras aproveitavam o momento para cometer crimes. 

"De todo modo, a noite é suspeita, tendo pacto com os debochados, os ladrões e  os assassinos. Assim, punia-se de maneira mais rigorosa aqueles que haviam ataco alguém após o fim do dia ou em um lugar afastado, pois então a vítima podia defender-se menos bem e mais dificilmente obter socorro". (DELUMEAU, 1989, p. 103).

Mesmo os habitantes das cidades não temessem o ataque de vampiros, lobisomens, entre outras criaturas, era comum sempre que amanhecia, encontrar-se um cadáver pela rua, vítima da noite passada. Em cidades, como Roma, Londres e Paris, praticamente todo o dia, se encontrava algum corpo largado no rio, assassinado na noite anterior. Ao mesmo tempo, além do medo desses criminosos, que afetava a segurança pública, também fora na Idade Moderna, que cresceu o número de casos de bruxaria, vampirismo e licantropia. 

"Por tanto não é por acaso que, na virada dos séculos XVI e XVII, os demonólogos franceses dissertaram abundantemente sobre a licantropia e os tribunais tanto condenaram feiticeiros acusados de canibalismo. Homens podiam, transformar-se em lobos devoradores? Ou estes tornavam-se objeto de uma possessão demoníaca? Ou ainda, feiticeiros tomavam, graças ao diabo, uma aparência de lobos, saciando então seus instintos sanguinários?" (DELUMEAU, 1989, p. 74). 


Gravura francesa do século XVIII retratando o ataque de um lobisomem a uma mulher.
Do século XV ao XVIII milhares de mulheres foram caçadas, condenadas por bruxaria e queimadas vivas, além de várias outras pessoas condenadas pelas Inquisições, por serem supostamente vampiros e lobisomens. Em algumas vilas e pequenas cidades, foram encontrados corpos sepultados com estacas no coração, cravejados com pregos; decapitados; e em alguns casos, se colocava uma pedra bem pesada sobre o peito desse, para evitar que saísse do túmulo, tal crença perdurou até o século XIX.  


Kit para matar vampiros de 1840, fabricado em Boston, Estados Unidos.
No século XVI e XVII houve um surto de supostos ataques de vampiros em Veneza; em Londres, corriam boatos de fantasmas que vagavam em certas áreas da cidade; em Portugal, Espanha e França, várias mulheres supostamente bruxas foram condenadas. Nesse caso, se a pessoa costumasse a sair de noite sozinha, furtiva, poderia ser um indício de que tinha ou um amante, ou iria cometer algum crime, ou poderia ser uma bruxa ou bruxo, já que a noite era associada a bruxaria e a magia negra. Na França em meados do século XVIII, houve um polêmico caso conhecido como "A besta de Gévaudàn" onde atribuiu-se a morte de mais de cem pessoas ao ataque de um suposto lobisomem.

Na Holanda, Grã-Bretanha e Irlanda, as pessoas que viviam próximas ao mar, evitavam sair a noite, pois acreditavam que fantasmas de marinheiros vagavam pelas praias, enseadas, rochedos e até mesmo sobre as ondas. Entre os holandeses havia também histórias sobre navios-fantasmas, que eram vistos durante a noite ou durante tempestades. 

Com o advento da energia elétrica e sua difusão ao longo do século XX, a escuridão fora cada vez mais sendo iluminada, e o medo do escuro fora caindo gradativamente com o tempo, principalmente nas cidades, já que em algumas vilas e vilarejos a luz elétrica ainda demorou anos para chegar. Mas, embora que a revolução tecnológica tenha "clareado" o mundo, muitas pessoas ainda vivem em condições precárias e/ou distantes dos grandes centros, e em alguns casos, não possuem energia elétrica, sendo assim, ainda são suscetíveis ao medo do escuro como visto no passado. 

Em alguns lugares do mundo, ainda existem pessoas que acreditam que lobisomens, vampiros, fantasmas, demônios entre outras criaturas vagam pela noite, especialmente em locais distantes das cidades. Tal fato pode ser comprovado, bastando você conversar com pessoas do interior de seu país, especialmente as mais velhas, as quais uma ou outra lhe dirão histórias que aconteceram na família, ou com amigos ou conhecidos. Já ouvi algumas histórias desse tipo.

O psicólogo francês J. Boutonier apontou uma vez em um estudo, a importância de se separar o medo do escuro e o medo na escuridão. Para ele, o medo na escuridão, era o que os primeiros homens sentiam, em estarem vulneráveis ao ataque de feras, já que necessariamente não era a noite em si que temiam, mas sim o que se escondia nessa. Ele também diz, que a imaginação é um dos principais desencadeadores para transformar o escuro em um local sinistro, nesse caso, ele aponta as crianças, quando as mesmas acordam de um pesadelo, e passam a ficarem com medo de dormir no escuro ou sozinhas, acreditando que algo que ela sonhou ou viu, poderia estar presente em seu quarto. De fato, alguns adultos costumam contar histórias de bichos-papão, que se escondem no armário ou debaixo da cama e aparecem de noite. 

Tal fato também é visto entre os adultos, quando se assisti filmes de terror ou se joga jogos de terror, algumas pessoas tem maior facilidade de ficarem com medo naquele momento, mesmo estando dentro da própria casa. 

Boutonier, também diz, que quanto mais uma pessoa sofre influência de histórias de monstros que andam a noite, mais ela estará subjetivamente sujeita a ter medo na escuridão, e não propriamente medo do escuro. Logo, hoje em dia, o mais sensato seja dizer que tememos mais o medo na escuridão do que o medo do escuro, já que embora não sejamos atacados por monstros enquanto andamos pela rua, podemos ser atacados por outros humanos. 

Logo, ao longo da história, grande parte da humanidade tivera mais medo do escuro, não pela escuridão em si, embora seja um medo natural, mas pelo o que poderia estar escondida nessa, sendo assim, a humanidade temeu em grande parte o imaginário do que o real.

NOTA: As histórias de vampiros passaram a ficarem mais populares no final do século XVIII, quando começaram a serem escritas e vendidas como contos e livretos. 
NOTA 2: A ideia de que a prata era letal para os lobisomens fora uma invenção tardia, possivelmente surgida no século XV ou XVI, embora que tais criaturas já existissem muito antes. 
NOTA 3: Bram Stoker em o Drácula (1897) deu uma nova roupagem ao vampiro. O conde Drácula, é retratado como sendo um nobre cavalheiro, educado, culto, galanteador e misterioso. Embora ainda preservar-se sua sede de sangue e fosse malévolo. 
NOTA 4: Os incubus e as succubus, eram personificações da luxúria, e em alguns casos, a vitima não chegava a morrer de imediato mais ficava gravemente debilitada. Porém, sua alma ficava amaldiçoada ao inferno.

Referência Bibliográfica:
DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 1989. (Capítulos 1 e 2).

Link relacionado:
O medo da peste negra

2 comentários:

sonia regina martins ferreira disse...

Amei a matéria .

Alex Brito disse...

Muito bom.
Parabéns por melhorar a qualidade do conteúdo da Internet com essa matéria.