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Leandro Vilar

domingo, 3 de abril de 2016

Uma história sobre a Ordem dos Assassinos (1090-1273)

A Ordem dos Assassinos é bastante antiga, datando de meados do medievo como veremos adiante no texto, todavia, nos últimos anos ela voltou a ficar em evidência devido da série de videogames e livros Assassin's Creed, criada e produzida pela Ubisoft a partir de 2007. Anteriormente no século XX, a ordem era conhecida nos quadrinhos da DC Comics, através da Liga dos Assassinos ou Liga das Sombras (1971), organização de assassinos liderada por Ra's al Ghul, inspirada na Ordem dos Assassinos. Por sua vez, no século XIX, o livro História dos Assassinos (1818) do orientalista austríaco Joseph von Hammer, foi uma obra bastante popular por difundir a história dos Assassinos pela Europa. 

Todavia, seja nos videogames, nos quadrinhos e na literatura, os Assassinos acabaram sendo retratados de forma romanceada e até mesmo equivocada, não necessariamente em seus atos, mas em sua identidade. Neste texto procurei contar acerca da história real por trás dessa curiosa e polêmica seita que se especializou em promover uma "missão" na Ásia central e no Oriente Médio, exterminando alvos, geralmente políticos, para fins próprios ou para segundos. 

1) Relatos europeus sobre os Assassinos: 

Por mais que a obra de Joseph von Hammer tenha contribuído para a difusão sobre essa seita medieval, os relatos sobre os Assassinos e sua Ordem datam do século XII, pelo menos em escritos europeus. Em 1167, o judeu-espanhol Benjamin de Tudela que realizou uma viagem a Pérsia (atual Irã), naquelas terras ele menciona em suas memórias, um lugar chamado de "Distrito de Mulhet", onde os persas diziam que viviam "hereges" em fortalezas nas montanhas e serviriam um líder conhecido como o Velho. (LEWIS, 2003, p. 16). 

De 1175, data uma carta escrita por um emissário do imperador alemão Frederico Barbarossa, o qual anos depois participou da Terceira Cruzada (1189-1192). Naquela data, seu emissário que se encontrava na Síria, relatou acerca de um grupo de "sarracenos" (termo genérico para se referir aos muçulmanos) que habitavam as montanhas, e eram foras da lei:

"Observe que nos confins de Damasco, da Antioquia e Alepo, há certa raça de sarracenos nas montanhas, que em seu próprio vernáculo são chamados Heyssessini e em romano signors de montana. Essa casta de homens vive fora da lei; eles comem carne de porco, contra a lei dos sarracenos, e fazem uso de todas as mulheres, sem distinção, inclusive mães e irmãs. Vivem nas motanhas e são quase inexpugnáveis, pois se recolhem em castelos bem fortificados". (LEWIS, 2003, p. 13). 

bispo Guilherme de Tiro (c. 1130-1185), importante figura religiosa da região, além de ter sido cronista das Cruzadas, falou acerca dos Assassinos, dizendo que na província de Tiro, na antiga Fenícia (hoje no Líbano), os Assassinos possuiriam em Tortosa, pelo menos dez castelos. Lá eles receberiam ordens de seus líderes para executar assassinatos, normalmente matando homens ricos e ligados ao poder e ao governo. Eles eram conhecidos pelo termo Assassini

Em 1192, o rei Conrado de Montferrat (c. 1140-1192), soberano do Reino Latino de Jerusalém, pequeno reino fundado após a Primeira Cruzada (1096-1099), foi assassinado dias depois de ser coroado rei de Jerusalém. Na época atribuiu-se a morte deste cavaleiro cruzado e nobre italiano, tendo sido realizada pela Ordem dos Assassinos. Antes disso já haviam suspeitas de que os Assassinos tivessem atacado outros cruzados, porém, a morte do rei Conrado abalou a população cristã da região, mas não ao ponto de eclodir em retaliação, pois de acordo como o bispo Guilherme de Tiro, Conrado de Monteferrat conhecia a Ordem dos Assassinos e haveria tentando negociar com eles. Não se pode confirmar se houve tal tentativa, no entanto, sabe-se que houve negociações diplomáticas com os Assassinos. 

No ano de 1238, o historiador Mateus de Paris relatou acerca de uma missão diplomática de alguns governantes muçulmanos, chegada naquele ano a capital francesa. Mateus assinala em seu relato que um dos embaixadores era representante de um líder conhecido como o "Velho da Montanha", termo pelos quais reconhecia-se o líder da Ordem dos Assassinos. As embaixadas seguiram a Paris, com o intuito de solicitar apoio dos franceses para combater os mongóis que expandiam seus domínios na Ásia Central e avançavam pelo Oriente Médio. (LEWIS, 2003, p. 16). 

No ano de 1253, o padre flamengo Guilherme de Rubruck, foi enviado pelo rei Filipe III da França, em missão diplomática ao Oriente. O objetivo do padre era viajar até Karakorum, capital da Mongólia, e negociar pessoalmente com o imperador mongol, Mongke Khan (neto de Genghis Khan). Lembremos que os mongóis estavam expandindo seus domínios pela Ásia central à caminho do Oriente Médio, o que teria levado governantes da região a procurar apoio na Europa. Sendo assim, o rei francês temendo que os mongóis (considerados para os europeus da época, bárbaros sanguinários), pudessem conquistar a Terra Santa e talvez tentar invadir a Europa.

Em sua passada pela Pérsia, o padre Rubruck comentou em suas memórias acerca dos Assassinos e suas fortalezas na região. Quando finalmente ele chegou a Karakorum, em 1255, ele relata que o imperador mongol havia reforçado sua guarda pessoal, pois havia ouvido boatos de que os Assassinos pretendiam matá-lo. De fato, os mongóis declarariam guerra a Ordem dos Assassinos e levariam a cabo tal campanha nos anos seguintes. 

Por volta dos primeiros anos do século XIV, Marco Polo (1254-1324) em sua viagem realizada à China, em 1273, passou com seu pai Nicolau e seu tio Maffeo, pela Síria e a Pérsia. Na ocasião ele ficou sabendo sobre os Assassinos, e relatou isso em seu livro anos depois. O relato de Polo sobre a Ordem, foi um dos primeiros a serem publicados no século XIV, nos fornecendo mais detalhes sobre esse misterioso grupo. Sobre seu relato voltaremos a comentar adiante. 

Nos séculos seguintes, mais e mais relatos (muitos romanceados e inverídicos) sobre os Assassinos, passaram a circular no Oriente Médio e em partes da Europa. Inclusive foram usados como tema para poemas e contos, alguns de origem italiana e francesa. Apenas no século XVII, o estudioso Denis Lebey de Batilly (1551-1607), publicou o livro Traicté de l'origine des anciens Assasins porte-couteaux (1603), considerada a primeira obra de caráter historiográfico, no intuito de compreender a origem e verdadeira história sobre esse grupo ou seita, como também era referido na época. (LEWIS, 2003, p. 21). 

Após o trabalho pioneiro de Denis Lebey, nos dois séculos seguintes, outros estudiosos escreveriam a respeito da Ordem dos Assassinos, inclusive usando fontes de origem árabe, síria e persa, embora que obras romantizadas ainda continuariam circulando. 

2) Hassan ibn Sabbah: o fundador da Ordem dos Assassinos: 

Até aqui vimos alguns dos vários relatos sobre o credo dos Assassinos, mas agora conheceremos quando ele surgiu e quem foi seu idealizador, e por quais motivos este homem decidiu criar tal grupo ou seita. 


O fundador da ordem foi Hassan ibn Sabbah (?-1124), nascido na cidade de Cumm, na Pérsia (hoje Irã), importante local de difusão da doutrina do xiismo dos Doze, algo que comentaremos adiante. Muitos aspectos da sua vida são desconhecidos e questionáveis. Embora saiba-se que tenha escrito uma autobiografia, parte dela se perdeu no tempo. Hassan posteriormente se mudou para Raii, próximo de Teerã (atual capital do Irã), onde realizou seus estudos. De acordo com sua autobiografia, ele pretendia naquela época de sua infância e adolescência, torna-se um erudito, assim dedicou-se aos estudos. Anos depois já adulto, por volta de 1072, Hassan prestou seu juramento ao imame fatímida, e foi feito da'ai (missionário ou pregador). Lhe foi orientado viajar ao Egito para exercer sua função, pois naquele tempo, o mundo islâmico estava fragmentado. 

O Iraque e a Pérsia eram predominantemente xiitas, e estavam ligados ao Egito, a Líbia, a Tunísia e o Marrocos, por sua vez, as Arábias (refere-se ao território da península arábica), a Síria, o Líbano, Israel, a Armênia e a Turquia, eram predominantemente sunitas, estando sob o governo do Califado Omíada. Pelo fato dos xiitas serem opositores dos sunitas, as terras sob seu domínio não reconheciam a autoridade da Dinastia Omíada, daí a Pérsia reconhecer a autoridade do Califa Fatímida, o qual governava no Egito, sendo este um xiita. 

Todavia, segundo Hassan, apenas em 1076, foi que ele deu início a sua viagem. Primeiro viajou para Isfaham, depois seguiu para o norte, até o atual Azerbaidjão, onde viveu algum tempo em Maiiafariqin, mas acabou sendo expulso da cidade, por discordar do cádi (juiz), o qual era sunita. Com isso, ele atravessou o Iraque e viajou até a Síria, indo morar em sua capital, Damasco, a qual curiosamente era sede do Califado Omíada. Se desconhece quanto tempo permaneceu na capital síria, no entanto, viajou até Beirute (atual capital do Líbano), e de lá pegou um navio para o Egito, chegando ao Cairo em 30 de agosto de 1078. (LEWIS, 2003, p. 53). 

"Hasã-i Sabá permaneceu no Egito por cerca de três anos, primeiro no Cairo e depois em Alexandria. Segundo alguns relatos, entrou em conflito com o comandante dos exércitos, Badr al-Jamali, por seu apoio a Nizar, sendo aprisionado e em seguida deportado do país. O motivo apresentado para o conflito deve ser um embelezamento posterior, já que a disputa sobre a sucessão ainda não começara nessa época, mas um choque entre o ardente revolucionário e o ditador militar está longe de ser impossível". (LEWIS, 2003, p. 53).

Segundo alguns relatos de origem persa-árabe, Hassan antes de chegar ao Egito, já conhecia Nizan al-Mulq (1020?-1092), o qual tornou-se vizir do califa do Egito. Seguindo tais relatos, Hassan teria viajado ao país das pirâmides para conseguir trabalho e desenvolver sua vida. Nizan teria proposto o cargo de administração nas províncias, mas Hassan teria recusado tal cargo em províncias distantes, querendo trabalhar na capital, na corte. 

Isso teria levado a desentendimentos entre os dois amigos. Na verdade não se sabe os reais motivos que levaram Hassan a ser preso. Teria sido um desentendimento com o seu amigo, o vizir (primeiro-ministro) Nizan? Um desentendimento com o general Badr al-Jamali? Ou outra causa? Todavia, o que parece é que o motivo não agravou tanto a amizade entre Nizan e Hassan, pois anos depois, Hassan apoiaria o amigo para assumir o trono do Egito. 

Havendo malogrado o envio de Hassan ibn Sabbah para a prisão, pois o navio que o levava, acabou naufragando, e Hassan e os demais sobreviventes foram resgatados por um navio franco, sendo levados a Síria. Agora um homem livre e supostamente morto no naufrágio, Hassan decidiu retornar para casa. Nunca mais voltaria ao Egito. 

Em 1081, ele estava de volta a Pérsia, onde decidiu exercer suas funções como pregador (da'ai). Inicialmente ele era um xiita da congregação dos Doze, mas acabou aderindo a congregação xiita dos ismaelistas. Essa mudança foi bastante importante, pois daqui para a frente, Hassan focaria em difundir o xiismo ismaelita, o que o levaria a entrar em confronto com outros ramos do xiismo, ao mesmo tempo em que ele viria a fundar sua própria "seita", a qual originaria os Assassinos. Mas antes de chegarmos a este ponto se faz necessário comentar um pouco da questão religiosa que o Islã vivenciava no século XI, como essas seitas puderam surgir e seu contexto histórico que permitiram seu surgimento. 

a) O ismaelismo: 

O fundador do Islã foi o profeta Mohammed (570-632), mais conhecido no Ocidente como Maomé, o qual recebeu de Deus (Alá) ou por intermédio do anjo Gabriel (Jibreel), as palavras do Senhor, as quais foram escritas no Alcorão. Mohammed embora não tenha sido um árabe cristão e nem judeu, mas estava familiarizado com tais religiões, além de outros pensamentos religiosos como o zoroastrismo, o maniqueísmo, o politeísmo árabe, o masdeísmo, etc. Incumbido por Alá, Mohammed decidiu pregar a palavra do Senhor aos árabes de Meca, cidade onde morava, o que deu início ao seu ministério. Os anos se passaram e o profeta conseguiu adeptos, aliados e também inimigos, todavia, a palavra do Corão se espalhava pelas Arábias. 

Com sua morte em 632, ele não havia designado sucessor para continuar sua missão de espalhar a palavra de Deus, então seu fiel amigo, Abdullah ibn Abi Qhuhafah (c. 570-632), mais conhecido como Abu Bakr ou Abu Becre, foi feito califa (sucessor). De acordo com aqueles que defendiam Abu Bakr, Mohammed em seu último sermão o havia nomeado seu sucessor. Os filhos varões de Mohammed haviam falecido ainda na infância, restando suas filhas, mas estas não tinham direito de serem suas sucessoras, pois as mulheres não possuíam direito e "competência" para a política e a religião. No entanto, o profeta possuía outros parentes, sendo o mais próximo, seu primo Ali ibn Abib Talib (600-661), o qual tornou-se genro de Mohammed, e foi até considerado por alguns como "filho adotivo". (WELLS, 1988, p. 17).


Cerimônia de investidura de Ali (direita) como califa. Ilustração persa, do livro Chronology of Ancient Nations, c. 1307.  
Pelo fato dos árabes prezarem pelo núcleo familiar, os laços de sangue, a hereditariedade masculina, Ali deveria ter sido o califa de direito e não Abu Bakr. Isso acabou gerando desavenças entre os muçulmanos. Todavia, as desavenças só se tornaram uma cisão propriamente falando, no ano de 661, quando Ali foi assassinado. Neste caso, ele havia sido califa de 656 a 661, tendo sido assassinado a mando de Muawiya, seu opositor, o qual ambicionava o posto de califa, o qual havia se tornado o equivalente a rei e sumo pontífice. Com o assassinato de Ali, Muawiya assumiu o título de califa, e transferiu a sede do califado de Meca para Damasco, na Síria, onde contava com maior autoridade, proteção e apoio. (MANTRAN, 1973, p. 61-62).

Os defensores de Ali e da família de Mohammed, se rebelaram contra a atrocidade cometida por Muawiya, e isso levou ao surgimento dos Xi' atu'Ali ("o partido de Ali"), o qual ficou conhecido como Xi'a, e na ocidentalização do termo, virou xiita. (LEWIS, 2003, p. 32). Originalmente os xiitas eram aqueles que defendiam o direito de Ali ter sido califa, algo que de fato ele conseguiu ser em 656, mas também defendiam que seu assassinato foi abominável, assim como, Muawiya e seus sucessores eram indignos de serem califas, devendo tal título por direito pertencer aos descendentes de Ali. 

Essa desavença fez surgir nos anos seguintes dois grupos políticos, os xiitas que defendiam a linhagem de Ali como digna de direito a assumir o posto de califa, e os sunitas, os quais defendiam que o califado não era obrigatoriamente hereditário, e Abu Bakr e os califas que o sucederam tiveram direito para isso. Naquele momento, a grande questão entre os sunitas e os xiitas era de ordem política, com o passar do tempo, surgiu os motivos religiosos. Hoje os xiitas são considerados ortodoxos (conservadores) e até mesmo "radicais" em comparação aos sunitas. Mas isso não é unânime. Alguns sunitas foram bem conservadores e radicais. 

Todavia, do século VII ao IX, a instabilidade do Islã levaria ao surgimento de seitas e ramificações divergentes. Inicialmente surgiram os sunitas e os xiitas, depois começaram a surgir os carijitas, os ibaditas, os Doze, os ismaelitas, etc. O xiismo foi a vertente que mais sofreu ramificações internas, sendo a seita dos Doze e a seita de Ismael, oriundas da tradição xiita. Neste ponto se faz necessário comentar sobre isso para entender a origem propriamente do ismaelismo, seita a qual Hussan ibn Sabbah adotou e passou a pregar seus ensinamentos. 

Após o assassinato do califa Ali, seus filhos, filhas, genros, amigos e seguidores decidiram derrubar a Dinastia Omíada, e entronizar um dos herdeiros de Ali, como verdadeiro califa, assim conflitos e guerras começaram a surgir ainda no final do século VII, mas estendendo-se pelo século seguinte. Os xiitas começaram a proclamar os herdeiros de Ali, com o título de imam, imã, imame ("aquele que guia"). Segundo a tradição, houve Doze Imames que sucederam Ali, pois o décimo segundo acabou sendo morto ou teria desaparecido, e isso interrompeu a linha de sucessão. O Décimo Terceiro Imam é chamado de Mahdi ("o líder justo"), o qual segundo a tradição dos Doze, seria designado por Deus como o verdadeiro califa, e está para aparecer, sendo este considerado uma espécie de "messias". 

Essa defesa dos imames levou a uma ramificação do xiismo, no que resultou no surgimento da "seita dos Doze Imames". Na prática, o imam é um homem religioso, que possui funções de dirigir e pregar a fé. O sunitas em alguns momentos utilizaram o termo para se referir aos califas, porém, para alguns xiitas, os imames tornaram-se "homens santos" (LEWIS, 2003, p. 36). No Islã não há ideia de santos, e nem todo os profetas possuíam dons. O próprio profeta Mohammed não realizou milagres, embora o profeta Isa (Jesus), Musa (Moisés) e Suleyman (Salomão), sejam conhecidos por terem realizados milagres e possuírem poderes mágicos. 

Neste caso, a seita dos Doze, começou a atribuir valores mágicos e sagrados aos imames, os quais supostamente seriam os herdeiros por direito de Ali, e os verdadeiros "califas". O problema é que nem todos os imames eram parentes de Ali, alguns homens se diziam ser sobrinhos ou primos de seus filhos ou netos. Ainda assim, essa seita xiita ganhou muitos adeptos, e se tornou influente no Iraque, Pérsia e no Egito. Não sento a toa que quando Hassan passou a ser doutrinado, ele tenha se tornado um xiita dessa seita. 

Entretanto, alguns membros dessa seita acabaram descordando acerca da sucessão do sexto imam, chamado Jafar as-Sadiq, o qual teve dois filhos: Ismael e Musa. De acordo com uma vertente da história, Ismael por ser o mais velho, foi nomeado sucessor de seu pai, logo, tornaria-se o Sétimo Imam, porém, ele acabou falecendo, e assim, a sucessão coube ao seu irmão Musa. 

No entanto, alguns amigos e adeptos de Ismael consideraram que sua morte foi uma fraude, que na verdade ele estava vivo, e Musa tomou seu lugar de direito. Assim, surgiu uma nova cisão entre os xiitas da seita dos Doze Imam. Os que acreditavam que Ismael estivesse vivo ou foi assassinado, passaram a apoiar sua família, o que incluiu defender o direito de que o filho de Ismael, Mohammed, fosse o Sétimo Iman. Tais adeptos passaram a ser chamados de ismaelitas ("os do partido de Ismael"). (HOURANI, 1991, p. 53-54).  


Símbolo caligráfico do Ismaelismo, em formato de leão. 
O ismaelismo surgiu no século VIII, inicialmente como um pequeno grupo, influenciado por ideias neoplatônicas e gnósticas, o que introduziram sentidos filosóficos a doutrina religiosa do islã de vertente xiita, daí ser um motivo a mais para desenvolver rixas entre eles e os outros xiitas. Somente a partir do século X, foi que o ismaelismo tornou-se uma seita poderosa, pelo fato de que os califas do Califado Fatímida na África, eram ismaelitas, e por sua vez expandiram sua autoridade sobre o Egito, a Síria, a Palestina e o sul da Arábia. Posteriormente, na Pérsia. (FILORAMO, 2004, p. 206-207). 

Pelos anos que Hassan ibn Sabbah conviveu no Egito, ele teve contato com a doutrina ismaelita e sua filosofia de vida, e isso o influenciou ao ponto de se tornar um xiita ismaelita. Logo, quando retornou a Pérsia em 1081, decidiu pregar a palavra de Deus, a partir da visão de fé e vida dessa seita que se originou de sucessivos cismas dentro do islamismo. 

b) O Ninho da Águia: 

De volta a Pérsia, Hassan se dirigiu para o norte do país, onde exerceria seu serviço de pregação e difusão da palavra de Alá. Neste caso, em alguns locais da Pérsia, as pessoas ainda não eram muçulmanas, mas mantinham suas crenças nas antigas religiões persas como o zoroastrianismo e o masdeísmo. Por outro lado, os que eram muçulmanos eram na sua maioria xiitas, mas não ismaelitas, logo, não bastava converter novos crentes para a fé de Alá, mas era necessário "converter" os que já eram crentes para a doutrina dos ismaelitas, além de também disso possuir um fator político, pois a região escolhida por Hassan, era politicamente instável; já contava com focos de pregação ismaelita, e os camponeses estavam descontentes com o governo dos sultões turco-persas da Dinastia Seljúcida

"Foi entre os povos do Norte, predominantemente xiitas e já intensamente infiltrados pela propaganda ismaelita, que Hasã-i Sabá fez o seu trabalho mais importante. Para os habitantes das montanhas de Dailã e Mazandarã, belicosos e descontentes, seu credo militante possuía atrativo poderoso. Evitando as cidades, progrediu através dos desertos do Cuzistão para o Mazandarã oriental, estabelecendo-se finalmente em Danghã, onde permaneceu por três anos". (LEWIS, 2003, p. 54).


Localização da cidade de Danghã, no Irã. Neste local, Hassan ibn Sabbah iniciou sua pregação.
No tempo que esteve em Danghã, ele controlou um grupo de da'is (missionários), para realizar a pregação nas cercanias, sendo o foco a população rural. Todavia, as autoridades acabaram não gostando, então o vizir ordenou que Hassan fosse preso, mas ele conseguiu fugir antes de ser capturado. Ele passou os meses seguintes de forma nômade, indo de cidade em cidade com seus seguidores, aproveitando para pregar a palavra, como também tentar fazer aliados. Devido a ameaça de está sendo perseguido, evitava de permanecer muito tempo em algum local. 

Todavia, as andanças acabaram se cessando quando ele teve a ideia de que o melhor era conseguir uma fortaleza ou castelo, pois ali estaria seguro de seus inimigos e poderia dar continuidade ao seu trabalho. 

"Sua escolha por fim recaiu sobre o castelo de Alamut, construído no pequeno cume de um penhasco no coração dos montes Elburz, dominando um vale fechado e cultivado, com cerca de 48 km de extensão e quase 5 km de largura o ponto mais espaçoso. Com quase 2.000m de altura acima do nível do mar, o castelo estava a mais de 120m acima da base do penhasco, só podendo ser alcançado por uma trilha estreita, íngreme e tortuosa. O acesso ao pesnhacos era através do estreito desfiladeiro do rio Alamut, entre rochedos perpendiculares e às vezes ameaçadores". (LEWIS, 2003, p. 55). 


Ruínas do castelo de Alamut, Irã. Situado nos Montes Elburz, ao sul do Mar Cáspio, e acerca de 100 km de Teerã. De 1090 a 1257, foi a sede da Ordem dos Assassinos.
Não se sabe quando o castelo foi construído, mas ele já era antigo na época que Hassan teria o comprado. Segundo alguns relatos, ele pagou 3.000 dinares de ouro pelo castelo, mas outros sugerem que a fortificação tenha sido tomada a força ou de outra forma (LEWIS, 2003, p. 56). O que se sabe é que por volta do ano 1090, Hassan e seus seguidores já estavam ali estabelecidos. Posteriormente trouxeram suas famílias, e passaram a controlar o vale, no qual haviam povoados e fazendas. Alamut ("Ninho da Águia"), seria o seu lar pelos próximos 35 anos. 

c) Criando uma ordem: 

Nos primeiros anos que se sucedem ao estabelecimento de Hassan, em Alamut, ele tratou de conseguir mais aliados. Neste ponto, ordenou que seus missionários e mensageiros, continuassem a pregar a palavra do Senhor, mas que também procurassem chefes e homens dispostos a lutar por sua causa, em combater a opressão do governo persa. Um dos objetivos iniciais também, foi tentar conseguir o controle das regiões vizinhas do chamado distrito de Rudbar e do leito do rio Xá Rud, além de conseguir outras fortalezas e até mesmo montar uma tropa. 

"Hasã envidou todo esforço para tomar os lugares adjacentes a Alamut ou sua vizinhança. Onde fosse possível, ele os conquistava com os ardis de sua propaganda, quando não era possível conquistava-os com morticínio, raptos, pilhagem, derramamento de sangue e guerra. Tomava tantos castelos quantos podia e onde quer que encontrasse um rochedo apropriado construía um castelo em cima". (LEWIS, 2003, p. 56). 

As missões de recrutamento e expansão de sua autoridade, acabaram chamando a atenção do governo. Em 1091, um grupo de 18 ismaelitas foram presos. Posteriormente alguns ismaelitas assassinaram um muezim (responsável por convocar os fiéis para orar. Normalmente ele fica em um dos minaretes (torre) da mesquita, e pronuncia o canto de convocação) que vivia em Isfahan. Segundo o historiador Ibn al-Mulq, o muezim haveria negado-se a se tornar um ismaelita e por isso foi assassinado. O vizir Nizan al-Mulq revoltado com tal afronta, mandou perseguir tais assassinos e os condenou a morte. Lewis (2003, p. 58), salienta que de acordo com Ibn al-Mulq esses teriam sido os primeiros incidentes contra os Assassinos. 

E isso levou no ano de 1092, o sultão Maliq Xá a declarar guerra a Hassan e seus seguidores (os quais ainda não se chamavam de Assassinos). Duas frentes de batalha foram organizadas pelo sultão: uma enviada para o Cuistão, região fortemente aliada de Hassan; a segunda frente foi encaminhada a fortaleza de Alamut. Os dois conflitos fracassaram na tentativa de derrubar os aliados de Hassan e de tomar a fortaleza. 

Todavia, Hassan decidiu que deveria haver retaliação, então um de seus seguidores, chamado Bu Tahir Arrani, em 16 de outubro de 1092, disfarçado de sufi (membro da seita esotérica do sufismo), Bu Tahir Arrani conseguiu se aproximar da tenda onde estava o vizir Nizan al-Mulq, o qual assistia um espetáculo na ocasião. Lá Bu Tahir o apunhalou no peito, todavia, não conseguiu fugir, sendo morto no local. O primeiro assassinato da Ordem, havia sido cometido. 

A morte de Bu Tahir o fez torna-se um mártir para a causa religiosa e política de Hassan ibn Sabbah e sua seita ismaelita, a qual a partir de tal acontecimento tomaria um novo rumo, passando a empregar o assassinato como forma de alcançar seus planos. Seus seguidores eram chamados de fida'i ("quase-devoto"), embora que entre seus membros, usassem o termo khafi ("companheiro"). No próximo tópico comentaremos acerca da nomenclatura envolvendo a palavra assassino, mas por hora continuaremos com a história de Hassan e sua ordem. 

Os anos que se seguiram, novos assassinatos foram sendo realizados, tornando Hassan e seus fida'i pessoas temidas, respeitadas e odiadas. 

"Para sua vítimas, os Assassinos eram criminosos fanáticos, empenhados em conspiração sanguinária contra a religião e a sociedade. Para os ismaelitas, eram um corpo de elite na guerra contra os inimigos do imame. Abatendo opressores e usurpadores, davam a prova suprema de sua fé e lealdade, ganhando a imediata e eterna bem-aventurança". (LEWIS, 2003, p. 60).

Nas décadas seguintes, Hassan ibn Sabbah focou em desenvolver e expandir a sua Ordem de Assassinos, recrutando órfãos, pobres, marginais, homens sem esperança, os quais passariam a ter esperança nas palavras de seu líder, quando ingressassem na Ordem. Com isso, os Assassinos conseguiram conquistar outros castelos nas montanhas e expandir seus domínios. Na prática, Hassan passou a governar um pequeno território incrustado no norte da Pérsia, possuindo uma rede de informantes, que asseguravam estar a par de quase tudo que se sucedia na política persa, o que era útil para que planejasse suas ações e incumbisse seus homens de executarem os assassinatos. 

Em maio de 1124, em seu leito de morte, Hassan nomeou seu leal comandante Buzurgumid, senhor do castelo de Lamsar, o qual o servia há mais de 20 anos, para ser seu sucessor. Os filhos de Hassan eram jovens e inexperientes, então ele preferiu nomear um de seus comandantes veteranos. Hassan faleceu em 23 de maio de 1124, com idade indeterminada, mas provavelmente, com mais de 60 anos. 

3) O desenvolvimento da Ordem na Pérsia: 

Buzurgumid liderou os Assassinos de 1124 a 1138, até a sua morte. Neste tempo ele teve sérios problemas com o sultão Sanjar, o qual estava determinado a exterminar os Assassinos, obtendo êxito onde seus antecessores falharam. Em 1126, ele declarou guerra a ordem. Alamut e as demais fortalezas não conseguiram ser conquistadas, mas muito sangue foi derramado. Todavia, dois Assassinos decidiram matar o vizir do sultão Sanjar, chamado Mu'in al-Din Cáxi, peça-chave na organização das campanhas do sultão contra os Assassinos. Matar o vizir desestabilizaria sua campanha. O vizir foi morto em casa em 16 de março de 1127, e seus algozes conseguiram escapar. (LEWIS, 2003, p. 78). 

Com a vitória sobre o sultão Sanjar, este recuou, dando espaço para que Buzurgumid pudesse prosseguir com seus planos de expansão dos domínios da ordem, para o oeste e o leste do país. Com a morte de Buzurgumid em 9 de fevereiro de 1138, o seu filho, Mohammed ibn Buzurgumid (ou Mohammed I) pôde assumir o controle da ordem. 

Em 6 de junho de 1138, o ex-califa al-Raxid, outrora soberano do Califado Abássida, havia sido deposto por não estar agindo de maneira condizente com seus deveres, então um grupo de juristas e juízes decretaram sua abdicação. al-Raxid desgostoso deixou Bagdá (na época, capital do califado), e se mudou para Isfaham, na Pérsia. No dia 6 de junho, foi assassinado em sua casa. O primeiro assassinato cometido no governo de Mohammed ibn Hassan foi algo bastante comemorado, pois matou-se um homem que havia sido califa, embora um péssimo califa, ao ponto de ter sido "demitido". É preciso lembrar que nessa época, há vários anos, os Assassinos já executavam seus crimes por contrato. As pessoas já o recrutavam para matar desavenças.

"O rol de honra para o reinado de Muhammad relaciona um total de 14 assassinatos. Além do califa, a vítima mais notável foi o sultão seljúcida Da'ud, morto por quatro Assassinos sírios em Tabri, em 1143. Afirmou-se que os assassinos foram envidados por Zangi, soberano de Mosul, que estava expandindo o reino até a Síria e temia que Da'ud pudesse ser mandado para substituí-los. [...]. Outras vítimas incluem um emir da corte de Sanjar e um de seus aliados, um príncipe da casa dos corazmxás, governantes locais da Geórgia (?) e Mazandarã, um vizir e o cádi do Cuistão, Tiflis e Hamadã, que autorizara ou instigara a eliminação de ismaelistas". (LEWIS, 2003, p. 83). 

Mohammed I foi um líder poderoso na Ordem, e bastante conservador e bruto, tendo ordenado torturas, castigos e execuções daqueles que questionavam suas ordens ou as desobedeciam. Seu governo foi bastante severo em termos disciplinares e beirou o fanatismo religioso, devido a suas interpretações quanto ao papel do ismaelismo na ordem. Para Mohammed I claramente eles serviam ao imam oculto, termo pelo qual se dava ao sucessores de Ismael.

Todavia, surgiu um sério problema para Mohammed I, alguns dos fida'i começaram a alegar que seu filho, Hassan II fosse o próximo imam oculto. Mohammed I enfurecido com aquilo, pois via isso cegueira religiosa, pois ele e seu pai, nunca se consideraram imames, logo, era intolerável deixar que alguns defendessem seu filho como sendo um descendente de Ismael, pois na prática eles não eram. Pelo contrário, eles defendiam a causa dos herdeiros de Ismael. Isso levou pai e filho a brigarem, mas também levou o Mohammed I a decretar a punição e execução daqueles que difundiram tais ideias. (LEWIS, 2003, p. 84-85).


Os pontos vermelhos marcam a localização das fortalezas dos Assassinos, na época de seu auge, na segunda metade do século XII. 
Mohammed I faleceu em 1162, sendo substituído por seu filho Hassan ibn Mohammed, mais conhecido como Hassan II. Passados dois anos após ter sido feito líder da Ordem, Hassan II contrariando os desígnios de seu pai, decidiu se reconhecer como o "prometido", o "enviado de Alá". Ele retomou a ideia daqueles que achavam que ele seria o verdadeiro "imam oculto", mas neste caso, não assumiu tal título, mas adotou o título de Ca'im (título que designava o "escolhido")

Hassan II passou a atuar como um "profeta", dizendo que os tempos da Ressurreição (qiiama) haviam chegado. A ideia de Ressurreição para os ismaelitas não deve ser confundida com a ideia cristã para isso. Para os ismaelitas, Ressurreição referia-se a uma época na qual, o mundo passaria por mudanças, o que anunciaria a chegada do Juízo Final. Os devotos em Alá seriam salvos. 

Hassan II começou a pregar uma visão distorcida sobre o Juízo Final, alegando que a sharia (conjunto de leis islâmicas), não precisava ser obedecida. Os homens deveriam apenas adorar a Alá, sem necessidade de etiqueta e de seguir as regras ritualísticas e de culto. Com isso, Hassan II dispensava seus homens da obrigatoriedade de rezar cinco vezes ao dia, de ir a mesquita e realizar outros ritos islâmicos, como também passou a inculcar a ideia de que aqueles que estivessem o servindo, estavam servindo a Deus. (LEWIS, 2003, p. 87). 

Nem todos concordaram com as diretrizes tomadas pelo "escolhido" Hassan II, e isso gerou desentendimentos entre a ordem, o que incluiu alguns de seus parentes, mas isso não impediu que Hassan mandasse os executá-los. Sua retaliação fanática levou a um cisma na Ordem, que culminou em seu assassinato em 9 de janeiro de 1166, tendo sido morto por seu cunhado. No entanto, seu herdeiro, Mohammed II, na época com 19 anos, decidiu manter o legado messiânico do pai, e se apresentou como descendente de Nizar do Egito, o mesmo que Hassan ibn Sabbah havia sido amigo, o qual foi considerado herdeiro do califado fatímida, por sua vez, descendente (não necessariamente por via sanguínea), do imam Ismael. 


Ruínas do Castelo de Lambesar, a segunda mais importante fortificação dos Assassinos, na Pérsia. Alguns dos líderes como Buzurgumid, Mohammed II e Hassan III, governaram a partir deste castelo. 
Mohammed II teve um logo mandato, governando de 1166 a 1210. Mas curiosamente poucos dados foram encontrados acerca de seu longo governo de 44 anos. Quase meio século de informações perdidas. Mohammed II foi possivelmente envenenado, tendo morrido em 1 de setembro de 1210, sendo sucedido por seu filho Jalal al-Din Hassan, o qual ficou conhecido como Hassan III

Hassan III tratou de restituir os antigos ritos da sharia, suspensos desde a época de seu avô, como também começou a abandonar a crença na Ressurreição (qiiama), o título de Ca'im e até de imam. Para Lewis (2003, p. 92-93) tal fato tenha ocorrido devido a influência de sua mãe, a qual era uma sunita devota, além do fato, de que Hassan III nunca foi um filho próximo de seu pai. Talvez devido a tais condições ele decidiu renunciar o legado místico e teológico de seu pai e avô. 

Após Hassan III, mais dois líderes o sucederam até o final da Ordem, algo que será comentado no final. 

4) A Ordem na Síria: 

Ainda na época do governo de Hassan I (1090-1124), alguns Assassinos foram enviados a Síria, a fim de montar uma nova base de operações. Por mais que os Assassinos viessem a atuar no Afeganistão, Iraque, talvez na Arábia e no Egito, essencialmente seu centro de atuação foi a Pérsia, e depois a Síria. Sendo na Síria, local onde a Ordem encontrou meios para se firmar e expandir sua doutrina e influência política. 

"O Iraque, imediatamente a oeste da Pérsia, oferecia poucas oportunidades. Havia, sem dúvida, simpatizantes nas cidades iraquianas, mas os vales planos dos rios apresentava-se como campo limitado para a estratégia ismaelita de penetração, entrincheiramento e ataque. Com a Síria, porém, a coisa era diferente. Entre o Tautro e o Sinai, uma acidentada paisagem de montanhas, vales e desertos abrigava uma população de grande diversidade, com fortes tradições locais de independência. Ao contrário das sociedades vizinhas nos vales fluviais do Iraque e do Egito, a Síria raramente conhecera a unidade política. Seu modelo era o da fragmentação, de particularismo sectários e regional, ou de conflito e mudança que sempre se repetiam". (LEWIS, 2003, p. 112).

Embora Damasco, a capital síria tenha abrigado a sede do Califado Omíada (661-750), desde meados do século VIII, o Califado Abássida (750-1299), o qual o sucedeu, transferiu a capital para Bagdá. Se antes havia uma quantidade grande de sunitas na Síria devido ao califado, com sua remoção do país, os xiitas aproveitaram para se espalhar por aquelas terras. Quando os primeiros Assassinos chegaram a região no final do século XI, a maioria da população era de xiitas e suas ramificação, algumas regionalistas, ou seja, somente existiam naquele local. E algumas dessas seitas eram extremistas e defendiam o uso da força e das armas para alcançar seus ideais. Logo, essas seitas extremistas acabaram se identificando com os Assassinos, mas isso não significou um apoio imediato. 

Os Assassinos levaram três décadas para se estabelecer com segurança na Síria. Nos idos da década de 1100, os Assassinos realizaram seu primeiro trabalho importante na Síria. Eles haviam sido contratados pelo xeque ("governante") Riduan, o qual governava em Alepo. Na época a Síria, era um território fragmentado, no qual príncipes e governadores disputavam o controle da região. Neste caso o xeque Riduan estava com desavenças com Janá al-Daula, prefeito de Homs, então contratou os Assassinos para se livrar do prefeito. 


Mapa da Síria mostrando as cidades de Alepo e Damasco. 
Este foi assassinado numa sexta-feira, 1 de maio de 1103, no momento que o prefeito como muçulmano de costume, realizava a prece na mesquita. O xeque Riduan também estava presente, então deu a ordem para que agissem. Alguns dos Assassinos morreram na ocasião, mas o alvo e parte de sua guarda, foram eliminados. Com o sucesso da missão, o xeque decidiu fornecer abrigo a Ordem em Alepo, tornando-se seu protetor. 

O acordo de proteção com Riduan durou dez anos, quando em 10 de dezembro de 1113, ele faleceu. Seu filho Alp Arslã ainda manteve o apoio, por poucos anos, depois rompeu com a Ordem, por considerar seus adeptos hereges e traidores. Assim os Assassinos ficaram desamparados na Síria, pois ainda não haviam conseguido capturar nenhuma fortaleza ou montar uma base de resistência propriamente falando. (LEWIS, 2003, p. 118). 

Todavia, a Ordem ainda continuou a atuar na Síria nos vinte anos seguintes. Contando com outros de seus aliados. Apenas na década de 1130, foi que finalmente os Assassinos conseguiram suas tão esperadas fortalezas. Entre 1132-33, o governante de al-Cahf vendeu uma fortaleza situada em Cádmus. Entre 1136-37, a Ordem conseguiu expulsar os franceses, e assumiram o controle de uma fortificação em Qhariba. Em 1140-41, finalmente eles conquistaram o castelo de Masiaf, na época em posse de Banu Munqidh, o qual foi derrotado. Masiaf tornaria-se a principal fortificação da Ordem, na Síria. 


Ruínas do Castelo de Masiaf. Sede da Ordem dos Assassinos, na Síria. 
Nos anos seguintes, outros castelos foram conquistados e com isso, a Ordem finalmente consolidou sua autoridade na região. Na segunda metade do século XII, Sinan ibn Salman ibn Mohammed (c.1131-1192), tornou-se o líder da Ordem na Síria, passando a assumir o nome de Rashid ad-Din Sinan. Foi o mais importante e poderoso líder dos Assassinos sírios. Foi em sua época que os europeus começaram a se referir a ele como o "Velho da Montanha"

Durante seu governo de cerca de três décadas, Rashid conseguiu consolidar seu controle na parte oeste da Síria, onde se situava Masiaf e as demais fortificações, o que assegurava acesso a costa, permitindo enviar mensagens e Assassinos para Chipre, a Palestina e até o Egito. Embora não se saiba em detalhes como foram essas missões externas, pois essencialmente Rashid mobilizou as ações da Ordem dentro de território sírio (o qual também englobava o atual território libanês na época).

Todavia, em seu longo governo dois acontecimentos se destacaram: o conflito dos Assassinos com os Cruzados e conflito contra o sultão Saladino. Desde após o término da Primeira Cruzada (1096-1099), os cruzados haviam fundado reinos latinos na Palestina, e tais reinos ainda continuaram a existir até fins do século XII. Inclusive a Segunda Cruzada (1147-1149) e a Terceira Cruzada (1189-1192), ocorreram nessa época que a Ordem já estava atuando na Síria. A documentação é muito escassa e não informa até onde os Assassinos tiveram participação nas duas Cruzadas, embora que a sua participação na Terceira parece ter sido maior. 

No entanto, o grande problema da Ordem não foram os Cruzados, pois a "guerra santa" que eles pregavam contra os muçulmanos, não chegou a ameaçar tanto os objetivos da Ordem, porém, o grande adversário deles foi Saladino (c.1138-1193) proeminente líder militar de vertente sunita, que ganhou fama com suas campanhas no Egito, o que o fez se tornar sultão. Após consolidar seu controle sobre a terra das pirâmides, Saladino decidiu ampliar seus domínios, conquistando posteriormente a Síria, o noroeste do Iraque e as terras em torno dos Reinos Latinos dos cruzados, começando a pressioná-los, para que assim tomasse para si a Palestina. 


Saladino retratado em um manuscrito árabe de cerca de 1185.
Quando o sultão Saladino chegou a Síria, logo ele entrou em desacordo com os Assassinos. Fervoroso sunita, ele não reconhecia os Assassinos como xiitas, mas sim como membros de uma seita herética (ismaelismo), os quais deturpavam as Sagradas Escrituras do Corão, os ensinamentos legados pelo Profeta Mohammed e a Palavra de Deus. Assim, Saladino ordenou que a Ordem fossem eliminada, pois causava terror na região e propagava sua heresia por aquelas terras. Diante dessa declaração de guerra, Rashid Sinan decidiu agir, então ordenou o assassinato do poderoso sultão. 

"O primeiro atentado dos Assassinos contra a vida de Saladim ocorreu em dezembro de 1174 ou janeiro de 1175, enquanto ele estava sitiando Alepo. Conforme os biógrafos de Saladim, Gümüxtigin, que governava a cidade em nome do menino zangida que era o governante titular, enviou mensageiros a Sinã, oferecendo-lhes terras e dinheiro em troca do assassinato de Saladim. Os emissários designados entraram no acampamento em um dia frio de inverno, mas foram reconhecidos pelo emir de Abu Cubais, próximo dali. Ele os interrogou, sendo imediatamente morto. No tumulto que se seguiu, muitas pessoas foram mortas, mas o próprio Saladim saiu ileso. No ano seguinte, Sinã resolveu levar a efeito outro atentado e, a 22 de maio de 1176, Assassinos disfarçados de soldados do seu exército o atacaram com facas, enquanto ele sitiava Azaz. Graças à armadura, Saladim só recebeu ferimentos superficiais e os agressores se houveram com seus emires, entre os quais vários pereceram na luta". (LEWIS, 2003, p. 129).

Após dois atentados em menos de dois anos, Saladino redobrou sua guarda e segurança, não aceitando que nenhum guarda desconhecido o vigiasse, assim como, jamais ficava sozinho na presença de estranhos. Mas além dessas medidas de segurança, ele decidiu atacar por conta própria os Assassino. Em agosto de 1176, os exércitos de Saladino cercaram o Castelo de Masiaf, todavia, neste ponto, as fontes são bem divergentes, em explicar o que realmente houve. Saladino acabou desistindo de manter o cerco Masiaf, pois aceitou um acordo, porém não se sabe ao certo se foi ele que propôs o acordo, ou foi Rashid, ou foi alguns de seus conselheiros, chefes militares ou governantes, os quais estavam envolvidos naquela batalha.

O que se sabe é que um acordo foi feito. Saladino desistiu de destruir a Ordem, e os Assassinos desistiram de matá-lo. Eles não voltariam a intervir nos assuntos um dos outros. Assim o sultão deixou de lado essa desavença com os Assassinos e tratou de prosseguir com sua conquista da Síria e a guerra contra os cruzados. No caso dos Assassinos eles continuaram com suas missões, assassinando por escolha do chefe ou por contrato alvos políticos locais. Todavia, o grande feito dessa fase do governo de Rashid, foi o assassinato do rei Conrado de Montferrat, ocorrido em 28 de abril de 1192, como já comentado neste trabalho. 

Com a morte de Rashid (O Velho da Montanha), o governo foi sucedido por Nasr, oficial enviado de Alamut para assumir o controle na Síria. No governo de Nasr a Ordem sofreria mudanças de administração. Hassan III designou que Nasr, construísse mesquitas, delegasse os homens voltarem a prestar as orações e seguir a sharia. Mandou proibir o consumo de bebidas alcoólicas, de drogas, a prostituição, entre outras coisas. Decretou que a Lei Sagrada deveria ser obedecida e o jejum praticado quando fosse a época. Nota-se que as mesmas mudanças empregadas por Hassan III na Pérsia, foram válidas para a Síria. As ações dos Assassinos sírios ainda continuaram até meados do século XIII. 


Mapa com algumas cidades persas, iraquianas e sírias, mas em destaque, os castelos ocupados pelos Assassinos. 
5) Alguns aspectos da Ordem dos Assassinos:

Os Assassinos não foram nem a primeira e última organização cujo intuito era o assassinato político. Bernard Lewis (2003, p. 142-143) assinala que já haviam grupos extremistas de origem sunita, mas principalmente de origem xiita, os quais praticavam assassinatos. Mas eles não possuíam uma organização concreta, uma ideologia ou um credo. De fato, os Assassinos não seriam mercenários, pois mercenários não trabalham especificamente para uma organização, mas oferecem seus serviços a quem lhe pagar melhor. Todavia, eles podem ser considerados "assassinos de aluguel", pois se sabe que seus serviços chegaram a serem requisitados. Todavia, essencialmente os Assassinos na prática foram uma seita religiosa extremista e fanática em dados momentos.

a) a nomenclatura: 

Embora os termos Assassino e Velho da Montanha sejam bastante conhecidos, nem sempre eles foram usados, inclusive o emprego de tais termos adveio mais da Ordem na Síria do que na Pérsia. 

Na Pérsia, a população que era contrária a Ordem, se referiam a estes os chamando de mulhet (corruptela do árabe mulhid), que significava herege, traidor. Embora boa parte da população persa fosse xiita, mas o ismaelismo era uma seita divergente do tronco xiita, era visto por alguns como uma seita herética, daí o emprego desse termo para se referir aos Assassinos, mas também aos ismaelistas e outros seguidores de seitas de origem xiita. 

Todavia, os Assassinos usavam o termo fida'i, ou fidaui ou fidauiiia ("quase-devoto"), para se referir aos seus membros, embora que entre si, fosse habitual usar o termo khafi ("companheiro"). Em alguns relatos persas encontram-se o uso do termo fida'i para se referir aos Assassinos. Na época do governo de Mohammed I e Hassan II, os dois também adotaram o termo Ca'im ("líder escolhido"). 

Na Síria, encontramos o emprego do termo xaíqh ("velho"), o qual originou a expressão "Velho da Montanha" (xaíqh al-jabal). Era costume entre os muçulmanos ismaelistas usar a palavra xaíqh para se referir aos seus chefes e anciãos, num sentido de respeito. Na Pérsia, parece que esse termo não foi comumente empregado, embora que na língua persa seja Pir ("velho").

A palavra fida'i, em sua forma fidauiiia também foi usada na Síria para designar os Assassinos, inicialmente. Historiadores árabes como Ibn Khaldun, Qhalil al-Zahiri e Marqrizi utilizaram tal termo para se referir aos membros da Ordem dos Assassinos. (LEWIS, 2003, p. 20). Apenas depois é que começou a se usar o termo al-haxixiia, o qual originou a palavra assassino. 

Haxixiia, heyssessini, hassashini, ashishin, haxixi (haxixiiin no plural), são variações da palavra árabe haxixi, que de acordo com Bernard Lewis (2003, p. 23), significava pastagem seca. Posteriormente, essa palavra originou o termo haxxax, palavra usada para se referir ao usuário de haxixe (ou maconha). No final do medievo começou a correr a história de que os Assassinos recebiam este nome, pois eram drogados, eram dependentes químicos de haxixe. Hoje se questiona isso, pois sabe-se que o consumo de haxixe no mundo islâmico nunca foi algo ilegal e incomum. 

Alguns homens tinham o hábito de fumar haxixe, outros usavam como medicamento. Dizer que os Assassinos receberam esse nome por serem consumidores de tal erva, não faz sentido, pois outras pessoas também consumiam tal planta (LEWIS, 2003, p. 24). Além disso, durante o governo de Hassan I, Buzurgumid e Mohammed I, o consumo de drogas e bebidas alcoólicas eram proibidos, porém Mohammed II e Hassan II, liberaram o consumo, o qual voltou a ser barrado por Mohammed III, Hassan III e Ruqn al Din. Logo, não se pode dizer que foi uma prática comum. Os Assassinos poderiam até consumir tais drogas quando estivessem em viagem, mas em boa parte da história da Ordem na Pérsia e na Síria, lhe foi restringido fazer uso de drogas nos castelos. 

No entanto, há possibilidade que palavra árabe haxixiia possa ser uma corruptela da palavra persa assas, que significava "fundação", aqui no sentido de devoção aos princípios da fé. Lembremos que Hassan ibn Sabbah quando fundou a Ordem, tinha como objetivo expandir o ismaelismo e combater o sunismo. Hassan I se considerava um devoto aos princípios do Islã, os quais segundo ele, foram desvirtuados com o assassinato de Ali, e a negação de seus herdeiros como sucessores de direito ao califado. 

Neste caso, assas seria uma referência a fida'i, pois algumas obras apontam que Hassan I chamasse seus seguidores de asasiyun ("devotos a fundação" ou "devotos aos princípios"). Em ambos os casos, as duas palavras diriam respeito a devoção, algo que faz sentido se pensarmos que a Ordem dos Assassinos era uma seita religiosa, e normalmente os membros de uma seita são chamados de devotos.  

E tal característica é reforçada pela interpretação europeia. Quando os cruzados passaram a ouvir o termo assassino e o levaram a Europa, junto com a história da Ordem, os poetas italianos e franceses, os quais foram os primeiros a escrever sobre o tema, ironicamente, empregavam o termo assassino no sentido de fidelidade e lealdade. 

"A princípio, foi a fidelidade, mais do que a ferocidade dos Assassinos, que surpreendeu a imaginação cristã. Na virada do século XIII, os poetas provençais, talvez inspirados pelas narrativas amplamente divulgadas de um atentado dos Assassinos, em 1192, contra a vida do rei Filipe Augusto da França, compararam sua própria devoção a suas mulheres com lealdade do Assassino do Velho. "Tens-me mais fortemente em teu poder", diz um trovador provençal à sua dama, do que "o Velho tem seu Assassino, que vão matar-lhe os inimigos mortais...", "De modo como servem os Assassinos a seus amos, inabalavelmente", diz um outro, "assim servi ao Amor, com imperturbável lealdade". (LEWIS, 2003, p. 15).

A partir do século XIV, na Itália e na França, já encontramos a palavra assassino, não mais no sentido de lealdade e fidelidade, mas no sentido de crime, de morte, de homicídio. 

b) O modus operandi

Nos jogos Assassin's Creed, vemos que os Assassinos usam trajes em geral da cor branca, com várias camadas de tecido, usam capuzes, portam lâminas ocultas, num mecanismo que fica oculto sob as mangas; além de possuírem distintas habilidades de combate corpo a corpo e no uso de espadas, lanças e machados, arcos, balistas, etc. Como também serem exímios escaladores, gatunos, e saberem como andar sorrateiramente. A realidade não foi bem assim. Os Assassinos não possuíam um uniforme propriamente falando. Alguns relatos dizem que nos castelos eles usavam túnicas brancas, amarradas na cintura com um laço vermelho. Mas não se pode confirmar se sempre foi assim. 

Todavia, os relatos são unânimes em dizer que os Assassinos usavam disfarces para realizar suas missões. Nos relatos comentados neste texto, vimos casos deles se disfarçarem para executar os assassinatos, e em geral eles acabavam sendo mortos na tentativa de fugir. Nos jogos, o Assassino deve cometer o assassinato sem ser visto pela vítima ou alertar sua guarda, e de preferência sair sem ser percebido, mas na vida real não é algo tão fácil assim. Em Alamut havia um registro com o nome dos Assassinos que morreram durante suas missões. 

Outra questão a se observar, é que na maioria dos relatos conhecidos, os Assassinos usavam adagas para cometer o crime. Quando Saladino foi alvo de duas tentativas de assassinato, os Assassinos portavam adagas. O primeiro assassinato registrado que se tem conhecimento, ocorrido em 1092, executado pelo Assassino Bu Tahir Arrani, o qual matou o vizir Nazan al-Mulq na Pérsia, Bu Tahir o executou com uma adaga. Os relatos árabes, sírios e persas sugerem que a arma escolhida pelos Assassinos era a adaga, sua "lâmina oculta".

Outra característica a ser mencionada, diz respeito ao recrutamento. Normalmente se diz que recrutavam-se órfãos, criminosos foragidos, marginais, etc. No entanto, o recrutamento não visava apenas tais pessoas, qualquer membro da sociedade que se mostrasse fiel a aderir a causa da Ordem, poderia ingressar nesta e participar do treinamento para se tornar um Assassino, embora se desconheça como seria esse treinamento. O que unia essas pessoas era sua crença na ideologia criada por Hassan I. 

"Obviamente, os Assassinos, servos devotos de uma causa religiosa, não eram meros degoladores com adagas de aluguel. Tinham seu próprio objetivo político, o estabelecimento do imamato verdadeiro, não tendo sido provavelmente nem eles, nem seus dirigentes instrumentos das ambições de outros homens". (LEWIS, 2003, p. 148).

"Para os próprios Assassinos, o cálculo era muito mais simples. Seu objetivo era dilacerar e destruir a ordem sunita. Se alguns líderes sunitas podiam ser induzidos ou aterrorizados a ajudá-los, tanto melhor. Mesmo nos dias de fúria inicial, os dirigentes dos Assassinos nunca desprezavam a ajuda de outros, quando disponível. Mais tarde, ao se tornarem governantes territoriais de fato, eles ajustaram suas políticas, com facilidade e perícia, ao complexo mosaico de alianças e rivalidades do mundo muçulmano". (LEWIS, 2003, p. 149).

Inicialmente a missão dos Assassinos era aumentar a quantidade de ismaelitas, combater a opressão da Dinastia Seljúcida na Pérsia, lutar contra o sunismo, e reivindicar o direito de Nizar do Egito ao trono do Califado Fatímida, daí eles ficarem conhecidos como nizaristas ("os do partido de Nizar"). Posteriormente, a Ordem ganhou novos objetivos. Quando o líder dos Assassinos, Hassan II passou a pregar que ele seria o "imam oculto" e o "escolhido de Deus", para promover a renovação no mundo, a ideologia religiosa ganhava novos patamares. 

Os Assassinos tornava-se senhores de uma "guerra santa" para derrubar o "califado impostor", o qual era legado do assassinato do califa Ali, que por sua vez, seus descendentes, os imames, seriam os verdadeiros governantes de direito dos muçulmanos. Daí eles passaram a pregar a ideia de criar um imamato, tentar derrubar o sunismo e tornar o ismaelismo, a principal vertente do Islã. 

c) Ideologia e fanatismo: 

Nos primeiros relatos europeus do século XII, os cronistas já reconheciam os Assassinos como sendo membros de uma seita de fanáticos. Os próprios persas se referiam a eles como hereges (malhet). Na Síria, Saladino os considerou uma seita de hereges e fanáticos religiosos, os quais promoviam assassinatos e outros crimes, além de deturparem a palavra do Profeta e de Alá, e viveram de forma contrária a sharia, além de acreditarem em ilusões e falsas promessas de seu líder, o Velho da Montanha. Um cronista cristão de 1175, não identificado, escreveu o seguinte sobre o fanatismo dos Assassinos:

"Esses jovens aprendem com seus professores, desde ainda muito novos até a completa maturidade, que têm de obedecer ao senhor de sua terra em todas as suas palavras e ordens; e que, se assim o fizerem, ele, que tem poder sobre todos os seres vivos, lhes dará a alegrias do paraíso. Aprendem, ainda que não poderão ser salvos se contrariarem a vontade dele em qualquer coisa. Observe que, desde a época em que foram recolhidos como crianças, eles não viram ninguém além de seus professores e chefes, e não receberam nenhuma outra instrução até serem chamados à presença do príncipe, estes lhes pergunta se estão dispostos a obedecer às suas ordens, de modo que ele possa conceder-lhes o paraíso". (LEWIS, 2003, p. 13).

Sobre essa ideia de que o Velho da Montanha induzisse seus devotos a acreditarem que ele possuísse o "poder" de salvar suas almas, Marco Polo escreveu o seguinte: 

"O Velho era chamado, em sua língua, aloadin. Ele obrigara a fecharem certo vale entre duas montanhas e o transformara em um jardim, o maior e mais belo já visto, repleto de todas as variedades de fruta. Foram ali erigidos os pavilhões e palácios os mais elegantes que se possa imaginar, inteiramente cobertos de pintura embelezadora e excelente. E também havia riachos, correndo livremente com vinho e leite e mel e água; e numerosas damas e donzelas das mais lindas do mundo, que podiam tocar todos os tipos de instrumento, e cantadas [sic] mais docemente, e dançavam de uma forma que era encantador apreciar. Pois o Velho desejava fazer seu povo acreditar que ali era de fato o paraíso". (POLO, 2009, p. 74). 


Detalhe de uma pintura persa do século XVI, mostrando um príncipe em meio a um belo jardim, cercado por seus cortesões e cortesãs. A ideia dos jardins do Velho da Montanha, se assemelham a essa representada na pintura, um tema bastante comum na arte islâmica, além do fato de que realmente haviam jardins desse tipo nas cortes. 
"Assim, quando o Velho tinha de matar algum príncipe, dizia a um desses jovens: "Vai tu e mata Fulano; e, quando retornares, meus anjos te levarão para o paraíso. E, se acaso morreres, não obstante, ainda assim enviarei meus anjos para carregar-te de volta para o paraíso." Fazia-os, assim, acreditar; e, desse modo, não havia nenhuma ordem dele que, para executar, eles não enfrentassem qualquer perigo, pelo grande desejo que tinham de voltar para o seu paraíso". (POLO, 2009, p. 75).

O relato de Marco Polo, o qual viajou pela Síria e a Pérsia, de onde ficou sabendo sobre a Ordem dos Assassinos, consiste em relatos fantasiosos que já circulavam na época; sendo que quando Polo viajou por tais regiões na década de 1270, a Ordem já havia acabado, porém, histórias fantasiosas ainda circulavam, e havia quem disse que alguns Assassinos continuavam a atuar. No entanto, não podemos confirmar o relato de Marco Polo, sobre a existência de belos jardins e rico palácios, pois quando olhamos a geografia na qual situavam os castelos dos Assassinos, eram regiões montanhosas, frias e semi-áridas. Dificilmente haveria jardins por lá, e muito menos palácios, já que seus líderes e comandantes habitavam em geral os castelos montanheses. 

No entanto, Polo também menciona a presença de vinho, mulheres, entretenimento e fumo. Neste caso, isso possa ter sido mais plausível. Durante o governo de Hassan II e Mohammed II eles liberaram seus devotos da necessidade de cumprir a regra islâmica, o mesmo foi válido para a Síria, daí encontrarmos reclamações de Hassan III, criticando os comandantes de terem se deixado influenciar por tais ordens, permitindo a bebedeira, a libertinagem e a vadiagem em alguns castelos. De fato, relatos externos tanto de origem cristã e muçulmana consideravam os Assassinos homens libertinos e depravados (LEWIS, 2003, p. 12-13).


Segundo Marco Polo e outros cronistas medievais, os Assassinos fariam uso de haréns para proporcionar aos seus seguidores, um vislumbramento do que os aguardaria no Paraíso.
Provavelmente tais relatos sejam demasiadamente tendenciosos para difamar a memória da Ordem, pois em geral os comandantes não permitiam mulheres nos castelos, e diferente dos jogos de Assassin's Creed, até onde se sabe, não havia Assassinas. A Ordem não recrutava ou aceitava mulheres. No caso dos Assassinos que tivessem esposas e filhos, estes viviam nas aldeias governadas pela Ordem. Em alguns casos, o comandante mantinha sua família em seu castelo, mas sendo exclusivo para ele. 

No entanto, um outro fator preponderante que explica o fanatismo religioso de tais homens, advém da interpretação do Corão. Algumas pessoas dizem que o Islã é uma religião que prega a violência, na verdade aquela frase: "as religiões pregam o bem", é uma enorme falácia. Na História houve centenas de religiões, e em muitas delas havia divindades associadas a guerra, pois a guerra era algo comum em várias culturas. Deuses da guerra, nunca pregaram a paz. Dizer que todas as religiões pregam a paz, não é bem assim. 

No caso do Islã, há passagens do Corão, no qual declara a guerra contra aqueles que não acreditam em Alá: no Surata 9:15, é dito que os idólatras devem ser mortos e perseguidos, caso se arrependessem e jurassem se converter e pagar o zakat (o equivalente do dízimo dos muçulmanos), seriam poupados. Os judeus e cristãos também não estavam livres dessa perseguição, sendo cobrados deles pagar o imposto (jizya). (Surata: 9:29). 

No Surata 9:111 é cobrado que os muçulmanos se dedicassem a causa de Alá, pois o Senhor cobrará de seus fiéis o seu sacrifício, e caso este seja feito, será recompensado com a salvação, mas caso desobedeçam a ordem de Deus, perecerão no Inferno. 

Nessas citações vemos que no próprio Islã havia essa ideia de se sacrificar pela fé e pregar a palavra de Deus. Isso poderia ser empregado de forma distorcida, abrindo espaço para fanatismos, como no caso dos Assassinos, os quais procuraram se sacrificar a Alá, não combatendo povos de outras religiões, mas combatendo os próprios muçulmanos, sendo estes sunitas.

Alguns poderão dizer que nestes casos o Islã não pregaria a paz, mas sim a guerra e a violência. Entre o que está escrito e o que fazer, há uma grande diferença. De acordo com Wilfred Smith (2006, p. 163-164), existe diferença no que ele chamou de "fé de caráter" e "fé moral". Ele assinalava que algumas religiões possuem uma conduta moral, um código, um conjunto de regras que estabelecessem normas para a conduta e a vida em sociedade e o trato com seus membros e membros de outras comunidades e povos. Isso seria a "fé moral". No entanto, dependendo do caráter da pessoa, o indivíduo poderá seguir arrisca, em parte ou recusar totalmente essas regras, e até mesmo agir de forma contrária. Isso seria a "fé de caráter". 

Não obstante, Smith também chama a atenção que religião é diferente de fé, que neste caso, as pessoas possuem distintas formas de compreender a fé a religião, mas em geral o que designamos como religião, consiste nas estruturas. O Islã possui distintas estruturas, as quais foram interpretadas e modificadas de acordos com alguns interesses, o mesmo é válido para outras religiões como o Cristianismo. 

No Cristianismo, a Igreja Católica utilizou sua autoridade para promover as Cruzadas, alegando que aqueles que participassem daquela "guerra santa", teriam seus pecados perdoados, e já garantiriam sua salvação. Isso não difere tanto do que os Assassinos andaram praticando na mesma época. 

Além do mais, existem algumas passagens bíblicas que falam de combater os outros que não são judeus/cristãos, e levar a eles através da força a palavra do Senhor. Em Coríntios 2, 10:3-5, é dito que aqueles que creem em Deus, estarão de posse de "armas divinas", as quais são poderosas para derrubar "fortalezas". Então os judeus/cristãos deverão combater aqueles que são contrários a Palavra do Senhor, e levá-los a crer em sua palavra. 

Em Êxodo 17:16, os hebreus juraram em nome de Deus, que fariam guerra contra os amalequitas, povo que havia invadido parte do território de Canaã. Então os hebreus juram que iriam fazer guerra contra eles em cada uma de suas gerações. Em Números 31:3, ainda na época que os hebreus tentavam retomar Canaã, Moisés incentivou seu povo a pegar em armas para lutar contra os medianitas e executar a vingança de Deus. 

Em Deuteronômios 20:1, é dito que o povo de Deus, quando for para a guerra, não tenha medo, pois Deus estará com eles. Também no livro dos Deuteronômios 20:11-13, recomenda-se que uma proposta de paz fosse oferecida, caso o inimigo a recusasse, a guerra deveria ser mantida. Quando a vitória fosse alcançada (graças a Deus), os homens deveriam ser mortos e as mulheres e crianças, deveriam ser escravizados, e seus bens pilhados.

Ainda em Deuteronômios 20:14-18, Deus designava que todas as cidades de terras distantes recebessem a mesma conduta que ele recomendou: primeiro proponha a paz, caso essa seja rejeitada, mantenha a guerra até conquistar a vitória, então massacre a população masculina adulta, pilhe a cidade e escravize os demais. Nestes versos também, Deus recomendou aos hebreus, que declarassem guerra total aos hititas, amorreus, cananeus, ferezeus, heveus e jebuseus. Guerra total, significa exterminar uma povo. 

Diante dessas citações da Bíblia, vemos que não é apenas no Corão que Deus, ordenou que se fizesse guerra contra aqueles que não o adoravam e não criam em sua Palavra. Judeus, cristãos e muçulmanos guerrearam para levar a palavra de Deus aos outros, fazendo isso através da força, mesmo que no cristianismo, Jesus tenha recomendado que a pregação fosse feita com amor, não significa que as pessoas fizeram dessa forma.. Sendo assim, com base e tais relatos, não é de se estranhar que houve "fanáticos" que decidiram por em prática tais "recomendações divinas". 


6) A Fúria Mongol: o fim da Ordem na Pérsia:

A Ordem dos Assassinos na Pérsia e na Síria haviam perdurado por mais de cem anos, e neste tempo eles enfrentaram persas, árabes, sírios, palestinos, egípcios, turcos, franceses, ingleses, italianos, alemãs, bizantinos, no entanto, mesmo os ardilosos e afamados Assassinos não estavam preparados para enfrentar uma força sem precedentes e que dominava o Extremo Oriente: os mongóis, os senhores das estepes. 

A Mongólia era uma região sem cidades, sem leis escritas, sem governo central, sem Estado. Os mongóis viviam em aldeias e vilas, vivendo uma vida semi-nômade ou nômade. Suas leis eram passadas através da fala e seu governo era individual, cada clã tinha um chefe, mas reconhecia-se o poder e autoridade de chefes mais fortes, além de se reconhecer um conselho de tribos. Mas tudo isso mudaria quando um homem tornou-se o "senhor dos senhores", seu nome era Temudjin (c.1167-1226). 

No ano de 1196, Temudjin perante o Conselho das Tribos Mongóis (Quriltay), recebeu o título de Khan (senhor, líder), então ele adotou o nome de Genghis Khan ("O Grande Senhor"). A partir deste ponto a história mongol mudou totalmente. Nos dez anos seguintes, Genghis Khan unificou as tribos mongóis e fundou um império, sendo ele proclamado imperador (kagan). (CONRAD, 1976, p. 60). 


Estátua de Genghis Khan, na capital da Mongólia. 
Nos vinte anos seguintes, Genghis Khan empreenderia uma série contínuas de campanhas que o levaria a fundar o mais extenso império territorial contínuo que o mundo havia visto. No ano de 1220, suas campanhas o levaram a chegar as fronteiras orientais da Pérsia. Todavia, o Grande Khan acabou tendo que recuar devido a problemas internos em seu império e depois optou em tentar conquistar a China. Genghis Khan faleceu em 1226 ou 1227, ainda de causas não definitivas. Todavia, sabe-se que os Assassinos tentaram matá-lo por volta de 1224. 

Porém, os filhos e netos de Genghis continuaram com a expansão do Império Mongol. E nas três décadas seguintes o gigantesco império dos mongóis estava formalizado. Os Assassinos estavam encurralados em seus castelos montanheses na Pérsia e na Síria, sem qualquer chance de reagir a um inimigo implacável. Entre 1256 e 1258, Hulagu Khan (1217-1265), um dos netos de Genghis, empreendia suas campanhas na Pérsia, para consolidar o domínio daquela região. 

Hulagu era budista e sua esposa era cristã nestoriana. O khan nutria ódio aos muçulmanos extremistas, principalmente os de vertente xiita e suas seitas. E devido a tal postura seus objetivos eram claros: extirpar o extremismo islâmico das suas terras, pois naquela época, o império estava fragmentado, e Hulagu buscava criar seu Canato (reino). E o Iraque e a Pérsia eram umas das regiões que ele estava investindo, porém os governantes, os príncipes, o califa abássida e os Assassinos eram entraves para sua conquista, assim ele decidiu primeiro extirpar as ameaças.

Entre 1254 e 1256, os persas procuraram negociar com Hulagu Khan, mas as negociações não progrediram bem nestes dois anos. O khan ordenou que deixaria os Assassinos partirem, caso eles destruíssem seus castelos e os abandonassem. Mas a Ordem simulou isso, algo que foi descoberto e irritou bastante Hulagu. Então no ano de 1256, o khan avançou com seu exército para Rudbar, destrito controlado pelos Assassinos. Na época o então líder Ruqn al-Din procurou negociar uma saída pacífica. 

Após a conversa derradeira com Ruqn, este optou pela rendição. Mayum Diz, Alamut e outros castelos foram evacuados, e os mongóis os saquearam e destruíram. Todavia, nem todos os comandantes decidiram seguir a escolha de seu líder. Os comandantes de Lamsar e Girdcu optaram pela resistência. Lamsar resistiu até 1258, mas Girdcu, conquistou a proeza de resistir até 1270, quando finalmente sem mais recursos e homens, foram derrotados. Assim, todos os castelos da Ordem dos Assassinos da Pérsia, foram capturados pelos mongóis. (LEWIS, 2003, p. 109). 


Pintura persa do século XV, retratando a captura do Castelo de Alamut, pelos mongóis, ocorrido em 1256. 
Com a queda de Lamsar e Girdcu, a Ordem perdia seus castelos, estava desmoralizada e enfraquecida. Ruqn al-Din foi traído por Hulagu, o qual ordenou seu assassinato ainda em 1256. Tendo ele e seus familiares sendo mortos na estrada. Com a morte do último líder da Ordem, Hulagu ordenou que os demais membros fossem perseguidos e executados. Alguns foram mortos e outros adotaram a clandestinidade, todavia, a Ordem havia perecido, mesmo que o Castelo de Girdcu tenha resistido até 1270, autoridade central e a estrutura da seita, haviam se desmantelado. 

7) A conquista e Baibars: o fim da Ordem na Síria:

No caso da Síria, o destino não foi diferente, apenas tardou mais tempo a chegar. Enquanto a Ordem na Pérsia se desmantelou na década de 1250, na Síria, a Ordem ainda resistiria por quase vinte anos. 

"Na Síria, como era de se esperar, os Assassinos se juntaram com outros muçulmanos na resistência à ameaça mongol e procuraram ganhar as boas graças de Baibars, enviando-lhe missões diplomáticas e presentes. Baibars, de início, não mostrou nenhuma hostilidade aberta contra eles e, ao conceder uma trégua aos hospitalários, em 1266, estipulou que estes renunciassem ao tributo que estavam recebendo de várias cidades e distritos muçulmanos, inclusive os castelos dos Assassinos, cujo tributo uma fonte egípcia afirma ter sido de 1.200 dinares e cem cotas de trigo e cevada. Os Assassinos, prudentemente, enviaram emissários a Baibars, oferecendo-lhe o tributo que anteriormente haviam pago aos francos para ser usado na guerra santa". (LEWIS, 2003, p. 137-138). 

Baibars (c. 1223-1277), foi sultão do Egito e da Síria, tendo seguido os passos de Saladino, o qual havia sido senhor deste dois países. Quando tornou-se sultão da Síria na década de 1260, sua missão era expulsar de uma vez os cruzados, os quais ainda ocupavam cidades na Palestina e na Síria. Baibars não era favorável aos Assassinos, mas soube tirar proveito da instabilidade da Ordem. Notícias de que a Ordem na Pérsia, haviam sucumbido a Hulagu Khan, haviam se espalhado, Baibars decidiu negociar com os Assassinos sírios, estes foram obrigados a se tornarem seus tributários, e assim poderiam manter seus castelos, aldeias e autoridade nas terras que haviam conquistado há décadas. 


Estátua de Baibars, sultão do Egito e da Síria, de 1260 a 1277. 
No ano de 1270, insatisfeito com o Velho da Montanha, Najm al-Din, o sultão ordenou que ele renunciasse a chefia, então nomeou Sarim al-Din Mubáraq, um Assassino que governava a cidade de Ulaica, para assumir a chefia da Ordem. No entanto, o novo chefe da Ordem não agradou o sultão, e este foi retirado do poder e enviado para o Cairo, onde foi executado. Reconhecendo seu erro, o sultão reintegrou Najm al-Din ao cargo. 

Tal acontecimento mostra a fragilidade da Ordem, a qual já beirava seu fim, pois havia se tornado serva dos interesses do sultão Baibars, o qual mandava e desmandava. Em 1273, o sultão havia se apossado de todos os castelos sírios dos Assassinos, e continuou a controlar a Ordem até a sua morte em 1277. A independência e missão da Ordem dos Assassinos, já havia se perdido. 

Para alguns historiadores como Bernard Lewis (2003), o ano de 1273, marca o fim da Ordem dos Assassinos na Síria, pois em si, a seita tornou-se um joguete nas mãos do sultão, já não dispondo mais de autonomia, e mesmo em seu controle, ele não conseguiu impedir o avanço dos mongóis sobre suas terras. Posteriormente, os mongóis do Ilkanato (fundado por Hulagu Khan) e da Horda Azul (fundado por Batu Khan), entrariam em conflito para disputar a Síria.

Considerações finais: 

Após este texto acredito que tenha ficado mais claro a história da Ordem dos Assassinos, uma seita religiosa surgida no final do século XI, criada pelo pregador Hassan ibn Sabbah, homem visionário, cujo objetivo era defender o ismaelismo, mas para isso optou pelo caminho do sangue, da guerra e do assassinato, e assim conseguiu reunir um grupo de fiéis devotos e criar um credo, pelo qual estes homens alguns muito jovens ou já mais velhos, eram doutrinados a lhe servir piamente, pois estariam supostamente lutando contra a tirania dos Seljúcidas, mas depois contra a tirania do Califado Abássida e de outros governantes e chefes sunitas, os quais eram rivais do xiismo.

Além do desenvolvimento da história da Ordem, vimos algumas de suas características na Pérsia e na Síria, sendo que foi na Síria que advieram os termos Velho da Montanha e Assassino, pelos quais aquele credo ficou mais conhecido na História. 

Não obstante, não podemos negar que os Assassinos foram fanáticos religiosos, os quais embora não tenham se intrometido em assuntos alheios ao Islã, inclusive se conhece pouco de sua participação nas Cruzadas, sabe-se que a Ordem, tinha com um dos objetivos desestruturar os governos de vertente sunita, e assim abrir espaço para a criação de governos ismaelistas e um possível imamato no lugar do califado.

Todavia, alguns governantes sunitas e xiitas se valeram dos artifícios traiçoeiros dos Assassinos e passaram a lhes fornecer recursos e contratá-los para executar seus próprios interesses. Devido a tais acordos, a Ordem conseguiu recursos e homens e assim conseguiu se manter por quase duzentos anos. Embora que grande parte de sua história seja pouco conhecida, pois os seus documentos se perderam, e o ódio que eles legaram, levou as pessoas a destruírem qualquer coisa que estivesse relacionada com seu credo. 

Em termos históricos, a Ordem dos Assassinos pertenceu a aquela fase conturbada da história cristã-islâmica, a qual entre os séculos XI e XIII surgiram seitas heréticas, algumas extremistas e até fanáticas, as quais desafiaram no caso dos cristãos, a Igreja Católica, e no caso dos muçulmanos o Califado Abássida. 

A ideia de que os Assassinos pretendiam "salvar o mundo", não era bem assim. Eles queriam através da violência instaurar sua ordem nas terras islâmicas, e controlar as nações muçulmanas, o resto não lhe interessava. Para os Assassinos em sua época mais fervorosa, eles eram os emissários da "Ressurreição", os proclamadores da salvação eterna de Alá. 

NOTA: O popular "salto de fé" visto na série Assassin's Creed, é baseado numa lenda, na qual diz que um dos líderes da Ordem, para mostrar a um visitante o qual seus homens eram fiéis e obedientes, ordenou que alguns deles saltassem das muralhas do castelo; saltando para a morte. Este líder teria dito que aqueles homens estavam preparados para morrer, pois sabiam que o Paraíso lhes esperava. 
NOTA 2: Na série Assassin's Creed é dito que a Ordem não chegou ao fim no século XII, mas até hoje continua a existir. Tal história é bem antiga, pois há relatos de pouca credibilidade, os quais alegam que os Assassinos ainda estavam em operação no século XIII e XIV. 
NOTA 3: No seriado Marco Polo (2014), produzido pelo Netflix, no quinto episódio, da 1a temporada, alguns Assassinos tentaram matar Kublai Khan, então Marco decidiu viajar a Pérsia, para negociar com o Velho da Montanha, para que desistisse de matar Kublai. Até onde se sabe na época do reinado de Kublai, a Ordem não existia nem na Pérsia e nem na Síria.
NOTA 4: Outros grupos procuram usar a fama dos Assassinos e se passaram por eles, pois era um termo que causa medo. O escritor Dan Brown em seus livros Anjos e Demônios (2000) e O Símbolo Perdido (2009), utiliza a palavra Hassassini para designar os assassinos de suas histórias.  

Referências Bibliográficas: 
CONRAD, Phillipe. As civilizações das Estepes. Rio de Janeiro, Editions Ferni, 1976. (Coleção Grandes Civilizações Desaparecidas). 
FILORAMO, Giovanni. Las religiones de salvación: monoteísmo e dualismos. In: FILORAMO, G; Massenzio, M; RAVERI, M; SCARPI, P. História de las religiones. Tradución Maria Pons. Barcelona, Crítica, 2000. (Capítulo XIII: Islam). 
HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo, Companhia de Bolso, 1991. 
KIRK, George E. História do Médio Oriente: desde a Ascensão do Islã até a Época Contemporânea. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1967. (Capítulo II: Ascensão e Declínio da Civilização Muçulmana (610-1517)). 
LEWIS, Bernard. Os Assassinos: os primórdios do terrorismo no Islã. Tradução de Mauro Gama. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003.
MANTRAN, Robert. La expansión musulmana (siglos VII al XI). Barcelona, Editorial Labor S.A. 1973. (Coleção Nueva Clio: la historia y sus problemas).  
MIQUEL, André. O Islame e a sua civilização: séculos VII-XX. Tradução de Francisco Nunes Guerreiro. Lisboa/Rio de Janeiro, Edições Cosmos, 1971. 
POLO, Marco. O livro das Maravilhas: a descrição do mundo. Traução de Elói Braga Júnior. Porto Alegre, L&PM, 2009. 
SMITH, Wilfred Cantwell. O sentido e o fim da religião. Tradução de Geraldo Korndörfer. São Leopoldo, Sinodal, 2006. 
WELLS, H. G. História universal, vol. 3. São Paulo, Editora Egéria S.A. 1966. (Capítulo XXXII: O grande império de Genghis Cã e seus sucessores). 7v

Links relacionados: 
A história por trás de Assassin's Creed
As Viagens de Marco Polo
Os Mongóis
A expansão islâmica: VII-XII

2 comentários:

diversao120 disse...

obrigado mais um excelente post...Era mais fácil ler com o fundo branco amigo fica a dica..parabéns

Leandro Vilar disse...

Obrigado, Diversão120. Ainda vou fazer uma revisão neste texto, e talvez acrescentar algo mais futuramente. Quanto a dica da cor, vou segui-la, pois outros haviam comentado acerca.