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Leandro Vilar

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O problema dos mitos políticos

Na década de 1980, o historiador francês Raoul Girardet (1917-2013) lançou um importante livro intitulado Mitos e Mitologias Políticas, obra a qual era resultado de anos de debates, pesquisas e estudos envolvendo o imaginário e a cultura política, no intuito de perceber como ao longo da História, as pessoas criaram concepções pessimistas, otimistas e até mesmo idílicas e utópicas associadas aos seus governantes e propostas de governo. Girardet influenciado pelas crises políticas da Europa Entre guerras (1919-1938) e pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e posteriormente da Guerra Fria (1945-1991), redigiu essa obra pautada em quatro grandes mitos políticos por ele sugerido: a conspiração, o salvador, a idade de ouro e a unidade

A proposta não é fazer uma análise propriamente do livro de Girardet, mas comentar com base na sua concepção e de outros autores, como estas categorias de mitos políticos ainda hoje são impactantes nas atuais sociedades do século XX, e como elas ajudam a construir imagens distorcidas, equivocadas, preconceituosas e utópicas de determinados políticos e políticas, ao ponto de que as pessoas se digladiam verbalmente nas redes sociais, defendendo seus mitos como verdades inquestionáveis. E isso não é postura apenas de leigos ou ignorantes no assunto, mesmo historiadores, sociólogos, cientistas políticos, filósofos etc., aderem a estes embates. Neste casos as pessoas não debatem para desconstruir o imaginário encantado destes mitos, mas apenas para mostrar que o seu mito é melhor do que o do outro. Na prática, cada um se agarra com seu mito político, e o põe sobre um pedestal, e ainda diz que está sendo neutro e imparcial. 

O que é mito político?

Hoje em dia convencionou-se associar a palavra mito com a ideia de mentira, falso, ilusão, fantasia. Todavia, mito não se limita apenas a tal sentido. Essa palavra é bem mais abrangente e possuis distintos sentidos. Mito consiste em narrativas que buscam explicar as origens, propósitos e finalidades de algo (mundo, animais, plantas, fogo, chuva, sentimentos, saberes etc.) ou de alguém (deuses, espíritos, pessoas, gigantes, semideuses etc.), ou contam jornadas, buscas, desafios e problemas que possam servir de fator moral, educativo e até mesmo para entretenimento, por consistirem de histórias que em alguns casos envolvam ação, drama, suspense, terror, amor, tragédia, comédia etc. Por esse conceito simplista, o mito não seria uma mentira, mas a representação de uma realidade, de uma perspectiva de visão de mundo.

Mas há alguns poréns. Os mitos apesar de apresentarem noções de mundo, especialmente cosmogônica, teogônicas, antropogônicas, escatológicas etc., não podem ser considerados "falsos" (ou insignificantes), pois consistem no entendimento de determinados povos e suas culturas acerca da origem do mundo, dos deuses, dos seres humanos etc., mesmo que cientificamente não se tem como comprová-los. Todavia, no caso dos mitos políticos a situação é mais delicada. 

Os mitos políticos consistem em concepções imparciais, em conjecturas, expectativas, idealizações, demonizações, preconceitos, juízos de valor etc. Porém, o mito político diferente de outros mitos, está sujeito a ser contestado, verificado, criticado e questionado pela História, Sociologia, Ciência Política, Ciências Jurídicas, Economia etc. No caso, os mitos políticos se referem a formas de governo ou aos governantes. Com isso, temos mitos políticos sobre monarquias, democracias, repúblicas, oligarquias, anarquias, ditaduras etc. Temos mitos políticos sobre reis, presidentes, ditadores, chefes, governadores, líderes em geral. 

As categorias de Girardet: 

a) o mito da conspiração

Como este estudo se pautou na obra dele, se faz necessário apresentar, mesmo que de forma breve as quatro categorias por ele propostas, para depois eu poder utilizá-las em meus próprios exemplos. A primeira categoria que Girardet propôs trata-se do mito da conspiração. Para exemplificar este mito ele citou três narrativas as quais foram escritas na Europa, durante o século XIX: o complô judaico, o complô jesuítico e o complô maçônico. Tais supostas conspirações que alegavam consistir em golpes de Estado pelo controle do Ocidente, adveio da literatura e do jornalismo sensacionalista de países como França, Alemanha, Rússia e Inglaterra. 

Girardet (1986, p. 32-33) comenta que apesar de se tratarem de complôs fictícios criados por escritores ou outras pessoas que visam criar polêmicas, ou que apresentavam alguma antipatia ou revolta contra os judeus, a Companhia de Jesus e a Maçonaria, tais histórias foram publicadas ou lançadas em jornais e revistas, e acabaram ganhando adeptos que realmente passaram a acreditar que aquelas narrativas fossem reais. Que realmente em algum lugar da Europa rabinos, padres jesuítas e grão-mestres maçons estivessem tramando algo tenebroso. 

No entanto, como salientava o próprio autor, não foi apenas a difusão de tais histórias que contribuíram para que as mesmas obtivessem credibilidade. A Europa do XIX era um período de transformações. O continente fervilhava por movimentos políticos, revoltas, guerras, golpes etc. Além disso, a desconfiança com os judeus remonta desde a Antiguidade, tendo vivenciado crises durante a Idade Média em países como a França e Itália, e na Idade Moderna temos casos de expulsões de judeus de Portugal e Espanha. Já Companhia de Jesus também era vista com desconfiança em algumas partes do continente. em Portugal, a mando do Marquês de Pombal, então primeiro-ministro do país, a companhia foi banida do reino e de suas colônias em 1757. Por sua vez, a Maçonaria por ser uma sociedade secreta (ou com segredos, como sugerem alguns), também era vista com desconfiança. Seu extremo sigilo e o fato de muitos maçons estarem envolvidos com a política e a economia, reforçava boatos conspiratórios. É válido lembrar que alguns dos Pais Fundadores dos Estados Unidos foram maçons. Até o primeiro imperador do Brasil, D. Pedro I era maçom. Logo, havia uma suspeita que os maçons tentavam dominar o mundo. 

Raoul Girardet (1987, p. 42-46) comenta que o mito da conspiração está associado a determinados grupos marginalizados como nos três exemplos por ele citados, os quais além de sofrerem preconceito, acabaram sendo taxados como corruptos, inescrupulosos, perigosos, malvados, imorais, mentirosos etc., os quais pretenderiam instituir planos diabólicos para abalar a ordem vigente, fomentar guerras, calamidades ou instituir governos tirânicos e ditatoriais. Tal mito se pauta bastante na angústia, no pânico, na paranoia e no medo de inimigos que tramam as escondidas e a qualquer momento irão tomar o controle de uma cidade ou país. 

b) o mito do salvador:

A segunda categoria por ele sugerida é bastante polêmica, trata-se do mito do salvador. Aqui a ideia de salvador não é tratada num sentido religioso, de referir-se ao homem que ir salvar almas, mas sim num sentido político: a pessoa responsável por salvar a nação, o país, a cidade, o estado, província etc. Neste caso, Girardet (1987, p. 63) cita o exemplo de Antoine Pinay (1891-1994), eleito primeiro-ministro por um mandato breve entre 1952-1953, atestado por alguns como o "homem que salvaria a França de seus problemas". O autor compara a rápida ascensão política de Pinay e as grandes expectativas que parte do povo francês tinham por ele, com o herói da peça Tête d'Or (1890), escrito por Paul Claudel

Girardet é sagaz ao utilizar como elemento de comparação uma obra romanceada sobre a ascensão política de um homem comum, até se tornar mártir de sua pátria, para dialogar a realidade que o povo francês da década de 1950 vivenciava. Para o autor o mito do salvador necessita de um cenário problemático ou de crise para que assim torne-se propício o estabelecimento da ideia de "salvação" ou "única solução". O salvador nesse sentido é comparado a um herói literalmente. Ele será aquele homem que aparentemente é a única solução viável e existente para sanar os problemas que uma cidade, estado ou país vivencia. Ele necessariamente não precisa ser um prefeito, governador, primeiro-ministro, presidente ou rei, ele pode ser um ministro, senador, deputado, militar, militante, sindicalista etc. 

Nesse ponto, Girardet elencou quatro modelos de salvadores. Cada modelo expressa algumas características particulares destes supostos heróis. 
  • Herói da normalidade: trata-se de um homem que dedicou a vida pelo seu país, em geral na carreira política ou militar, mas que com a chegada da velhice, retirou-se para a aposentadoria. Porém, quando a crise se instaura e torna-se forte, a solução é convocar esse velho herói aposentado, para retornar ao combate, para salvar o país mais uma vez. Girardet (1987, p. 72-73) cita alguns exemplos, entre eles o do general Charles de Gualle (1890-1970), veterano da I e II Guerras, convocado em 1958 para salvar a França de uma profunda crise política, que inclusive repercutiu na elaboração de uma nova constituição. Para alguns De Gualle foi um herói militar e político, mas para outros seu governo de dez anos (1959-1969) foi uma ditadura. 
  • Herói da exceção: trata-se do homem da imagem do jovem herói que busca aventura, fama, poder e glória. Que através de sua bravura, dedicação e visionarismo procurava lutar pelo seu país, pelo seu povo. Girardet cita que o melhor exemplo desse modelo era o próprio Napoleão Bonaparte (1769-1821). De carreira prodigiosa no Exército, tornou-se ainda aos vinte e poucos anos um coronel renomado. Apoiou ideias liberais e republicanas, apesar que contraditoriamente tenha governado como ditador e depois tornado-se imperador. (GIRARDET, 1987, p. 75-77).
  • Herói providencial: esse trata-se de um modelo sui generis. Tal herói geralmente é um homem maduro, mas pode ser também velho, possuindo um passado de feitos e conquistas, ou não. Mas em geral esse herói é comparado a ideia do legislador, aquele preocupado em reestruturar a administração e gestão do Estado, não necessariamente em se tornar um novo conquistador, ou viver dos auspícios de suas glórias passadas. Girardet (1987, p. 77-78) cita aqui o caso do Marechal Pétain, presidente da França entre 1940 e 1944, e do próprio De Gaulle em 1958. 
  • Herói da profecia: neste ponto a religião agora adentra o debate político de Girardet. O herói da profecia consiste particularmente naquele tipo de homem que advém ou das camadas inferiores ou superiores, mas que acaba ganhando uma aura religiosa ou mística, associando-o ou não a uma suposta profecia antiga de algum líder glorioso que irá surgir para sanar os problemas do seu povo. Mas no caso francês, Girardet (1987, p. 78-79) cita Napoleão e De Gaulle. Apesar de não haver profecias sobre os dois, ambos em certa época eram vistos quase como profetas de novos tempos. No entanto, Girardet comenta que outra característica do herói da profecia é sua grande eloquência, e a capacidade de ser admirado, amado e de convencer a multidão. Para Girardet, Lênin, Mussolini e Hitler detinham tais características, e de fato, representavam-se quase como "arautos de novos tempos". 
O que se nota nessa categoria do mito do salvador, é que em geral determinadas figuras públicas advindas geralmente do espaço da política e das forças armadas, tornam-se heróis (mesmo que em muitas vezes não tenham feito nada de heroico, e inclusive governado de forma sanguinária), por supostamente atenderem expectativas e clamores de uma população iludida, desconfiada, cansada, revoltada, perplexa e vulnerável. Alguns desses salvadores se aproveitam dessas fraquezas para conseguir lançar suas candidaturas como solução final para os problemas da nação. (GIRARDET, 1987, p. 86-87). 

c) o mito da idade de ouro

Esse consiste em um dos mitos políticos bastante poderosos. Diz respeito ao imaginário que se tem que determinadas épocas e governos que foram ideias ou perfeitos. É comum ouvir de algumas pessoas dizerem que "no tempo do presidente tal... havia emprego para todos, as ruas eram seguras, não havia corrupção, não havia pobreza etc", "na época dos meus pais, a vida era melhor, os políticos eram justos etc". Normalmente a visão de "idades de ouro" está relacionada a nostalgia, a memória individual, a opinião alheia de familiares e amigos, e a uma forte propaganda manipuladora que idealizava o governo. Isso é bastante comum em ditaduras e tiranias, as quais para ocultar seus escândalos, excessos, crimes, censura, desmandos etc., investiam massivamente na propaganda política de que tudo estava bem. 

Girardet (1987, p. 99-101) que essas "idades de ouro" podem ser até mesmo contraditórias. Ele cita casos de autores franceses que falavam do "bom século das Luzes", mas outros já citavam o governo da Revolução Francesa (1789-1799), outros comentavam o reinado de Napoleão (1804-1814), alguns preferiam o mandato de Gualle (1959-1969) etc. 

Em suma, o autor comenta que o mito político da "idade do ouro" é uma construção continua, ou seja, ele começa durante sua época, mas continua mesmo após o término daquele governo. E é nas reelaborações posteriores que em alguns casos esses mitos políticos se tornam ainda mais fortes, quando usados em apelo a nostalgia, ou a discursos conservadores, nacionalistas, extremistas que pautam-se no jargão de dizer que "naquele tempo era bom, tudo dava certo, mas hoje tudo está errado". (GIRARDET, 1987, p. 103-105). 

d) o mito da unidade

A última categoria comentada por Raoul Girardet diz respeito ao imaginário envolvendo ideias de nacionalismo, patriotismo, ufanismo, ordem nacional, harmonia, paz, progresso etc. Tais mitos geralmente são pautados em expectativas e idealizações de pensadores e políticos, os quais escreveram acerca, ou tentaram implantar governos por eles considerados justos com o povo. Girardet comenta as falas do historiador Jules Michelet e do político e advogado Georges Danton, onde ambos defendiam o fim dos preconceitos, e das desigualdade sociais etc. 

Todavia, Girardet (1987, p. 144-145) assinala que as ideias de unidade variam bastante, pois a forma como alguns pretendiam criar um Estado unificado, pode prover de diferentes maneiras de governar, fosse através de democracias justas, oligarquias, monarquias ou até mesmo ditaduras. Em cada contexto, apelasse para determinadas ações e posturas para se construir a ideia de unidade, apesar que nem sempre essa unidade na prática existisse, mas poderia ser uma mera invenção. Um discurso propagandístico divulgado pelo governo central ou alas destes, ou por movimentos revolucionários ou sociais, na ideia de criar um fortalecimento determinados segmentos da sociedade. A Revolução Francesa (1789-1799) é um bom exemplo, como comentado por Girardet. Nela construiu-se todo um imaginário de que realmente o povo francês estava unido para por fim a monarquia e instaurar a república, mas na prática não foi bem assim que aconteceu. 

Alguns mitos políticos do século XX e XXI: 

Nesta última parte do ensaio comentarei um pouco a respeito de alguns mitos políticos vigentes no século XX, que ainda hoje no século XXI causam problemas. Neste caso passarei pelas quatro categorias de Girardet, mas sem me aprofundar, pois isso é tema de um livro, mas aqui optei apenas por fazer um ensaio de reflexão. Sendo assim, começando pelo mito da conspiração, dois deles foram bastantes poderosos no século XX, cada um durante uma metade daquele século. 

O primeiro grande mito da conspiração que acometeu parte do mundo, especialmente a Europa, na primeira metade do século XX, foi o antissemitismo, especialmente oriundo da Alemanha. Apesar de discursos antissemíticos remontarem séculos na Europa, durante o século XIX ele voltou a ficar a tona como comentado por Girardet, mas também motivado pelo racismo científico, o qual pautado no evolucionismo darwiniano e algumas pseudociências da época, voltou a reafirmar a ideia de existência de raças humanas, e a supremacia de determinadas raças sobre outras. Quando chegamos a década de 1920, época que Adolf Hitler (1889-1945) estava preso pela tentativa de golpe de Estado promovida em 1923, em Munique

Ele ao escrever seu livro Minha Luta (Mein Kampf), defendia o discurso político do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, apelidado posteriormente de Partido Nazista, assim como, atacava o marxismo, o socialismo e o comunismo, apesar que nessa época o comunismo ainda não era um "grande mal" que viria a se tornar durante a Guerra Fria. Porém, além desses ataques a ideologias políticas de esquerda, Hitler também apoiou-se no racismo científico para fundamentar sua teoria da raça ariana e seu desprezo pelos judeus, os quais eram acusados por ele de terem conspirado pela derrota da Alemanha, durante a Primeira Guerra (1914-1918), e de outros males pelo qual o país vivenciava. 

O discurso de ódio de Hitler aos judeus não era novidade, mas ganhou com ele evidência e grande apoio, principalmente após assumir como Chanceler da Alemanha em 1933. Durante seu governo totalitário, Adolf Hitler decretou caça aos judeus, no que veio a se tornar o Holocausto, um dos maiores genocídios (extermínio de um povo) dos últimos cem anos. Mesmo em países que não haviam aderido a essa suposta conspiração judia, mas ao se aliarem ao governo nazista ou por ele passarem a ser dominado, contribuíram para fomentar a morte aos judeus. 

Mas ainda falando sobre o nazismo, ele por si só concentrou todas as quatro categorias de mitos políticos proposta por Girardet. Temos a conspiração por parte dos judeus, temos o mito do salvador com o próprio Adolf Hitler, que se encaixa no modelo do "herói da profecia", sugerido por Giradert. Pois Hitler apresentava-se como o único capaz de guiar e governar a Alemanha, restaurando sua grandeza (mito da idade de ouro), e construindo uma pátria firme e sólida (mito da unidade). Tais mitos políticos foram tão poderosos que Hitler era amado por grande parte da população alemã, inclusive muita gente nem sabia que o Holocausto era na verdade, e achavam que a guerra que estava sendo feita, era justa e digna de ser lutada. 

Com a queda do regime nazista em 1945, pelo menos nos 20 anos seguintes, a população ainda ficou incrédula quando descobriram as fraudes, mentiras e horrores que o pacífico, próspero e grandioso Estado alemão do Terceiro Reich havia deliberadamente ocultado. Tentar convencer principalmente aqueles que viam o Führer como um herói, um salvador, um líder perfeito, foi difícil, pois tendemos a nos tornar incrédulos quando descobrimos que nossos heróis eram monstros. A negação é uma das primeiras reações, depois vem o silenciamento e depois o esquecimento como comentaram Michael Pollak (1989) e Paul Ricoeur (2007). 

Mas não foi apenas os alemãs que vivenciaram isso. Os italianos passaram pelo mesmo com a queda do Fascismo em 1945, e os russos com a morte de Stálin em 1953. Mencionando a Rússia, passemos para comentar a respeito de seus mitos políticos. Depois retomo o caso do fascismo que ainda hoje gera polêmica. 

O Comunismo apesar de ser uma doutrina político-social-econômica que remonta desde o século XVIII, embora foi melhor formalizada no século XIX, tendo como algumas figuras centrais o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), na prática nunca foi implantado segundo a teoria marxista, acabou sendo deturpado por outros autores e políticos, e por fim, tornou-se um grande vilão. Como dito um pouco acima, dois grandes mitos de conspiração marcaram o século XX, o primeiro foi a conspiração judia que desembocou no famigerado Holocausto dos nazistas, o segundo, trata-se da suposta conspiração comunista para dominação global. Mito esse tão forte que ainda hoje em 2017 ele é sentido. 

O comunismo somente começou a ganhar destaque mundialmente a partir da Revolução Russa de 1917, onde os revolucionários Vladimir Lênin (1870-1924) e Leon Trotsky (1879-1940), só para citar os principais, pois havia outros, no caso tentaram por meio da luta armada instaurar as bases de um "novo comunismo", já que a doutrina proposta por Lênin e Trotsky divergiam em alguns pontos da teoria descrita por Marx. Com a queda da monarquia russa, um governo revolucionário foi instaurado, vindo a originar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que perdurou de 1922 a 1991, com mudanças na sua forma de governo. 

Com a morte de Lênin em 1924, Trotsky passou a disputar com Jósif Stalin (1878-1953) o comando da URSS. Stalin que era de caráter mais irascível, megalomaníaco e radical ameaçou Trotsky de morte, o que o obrigou a deixar a Rússia, com isso Stalin assumiu o cargo de Primeiro-Ministro, vindo a governar como um ditador totalitário. Sua visão de comunismo e socialismo eram bem deturpadas, pois enquanto Lênin e Trotsky eram estudiosos e possuíam conhecimento de ciência política, Stalin foi um militante exaltado e egocêntrico. Acreditava que a única forma de poder implantar sua visão de comunismo era através da força.

Durante seu longo governo de 1922 a 1953, tendo assumido distintos cargos, apesar que na prática governou como um ditador totalitário, Stalin também construiu a imagem dos quatro mitos políticos aqui estudados. Ele se mostrava como o salvador do povo russo e das demais repúblicas soviéticas, defendia uma idade de ouro que não estava no passado, mas que estava sendo construída; alegava que os nazistas conspiraram para derrubá-lo, assim como, alegava que os EUA conspiravam para sufocar seu próspero e generoso governo. Defendia a unicidade ao expandir a URSS para outros países. 

Devido a rivalidade política, econômica, militar e tecnológica da URSS com os EUA durante a Guerra Fria (1945-1991), o governo americano e outras nações capitalistas decidiram criar o mito da conspiração comunista. Pautado em calúnias, fraudes e nas atrocidades cometidas pela ditadura stalinista, a propaganda anticomunismo deturpava as doutrinas comunistas propostas por Marx, Lênin, Trotsky e outros teóricos, tornando-a apenas sinônimo de ditadura totalitária. O stalinismo que foi um tipo de governo social-comunista, acabou tornando-se modelo para toda as outras doutrinas comunistas, e assim, foi objeto de ódio, aversão, difamação e um monstro que deveria ser combatido. As propaganda anticomunistas foram massivas sobre vários cantos do mundo, especialmente na Europa e na América Latina. 

A ideia de que viver sob um governo comunista era viver como pobre, ignorante e escravo foi tamanha que muita gente realmente acreditava que isso fosse verdade, apesar que a URSS pôs Stalin começou a mudar sua posição política. Por outro lado, o fato de que outras ditaduras comunistas foram implantadas como o governo de Mao Tsé-tung (1949-1976) na China, o de Ho Chi Min (1945-1979) no Vietnã, o governo de Fidel Castro (1959-2008) em Cuba, o de Kim Il-sung (1948-1994) e do seu filho Kim Jong-il (1994-2011) na Coreia do Norte, contribuíram para tornar ainda mais manchada a imagem do comunismo, o que o fez não apenas tornar-se um mito de conspiração que ameaçava "corromper, desvirtuar e destruir o mundo", mas torná-lo um monstro que deveria ser combatido a todo custo. 

A imagem do comunismo deixou de ser o conspirador para se tornar o "mito do grande inimigo", algo que Girardet não comentou em seu livro, mas basicamente se trata na concepção de tornar algo abominável, diabólico, imprestável, perturbador, ao ponto de ser temido, e com isso desenvolver-se discursos de repulsa, desaprovação e até mesmo de ódio. Tais características foram tão fortes e verdadeiras que foram usadas como pretexto para se instaurar ditaduras militares e civis na América Latina e na África. Países como o Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Peru, Bolívia e Equador foram regidos por ditaduras militares que alegavam combater a ameaça comunista que pairava para tomar as nações latino-americanas. Tal ameaça havia se apossado de Cuba, havia ameaçado El Salvador e o Chile, e agora tentava promover um suposto golpe de Estado generalizado pela América do Sul. 

A questão do mito do comunismo como "inimigo do mundo" foi tão severa, que ainda hoje no Brasil, há gente que diz que a ditadura militar (1964-1985) evitou do país ser governado por comunistas, apesar que as Forças Armadas nunca apresentaram provas concretas de uma suposta invasão cubana-russa ou golpe de Estado interno, de guerrilhas treinadas e armadas por Cuba e a Rússia. Sem contar que a maioria das guerrilhas que foram caçadas e destruídas pelo Exército, atuaram por poucos anos entre 1965 e 1970, consistindo em geral de grupos mal treinados, mal equipados, descentralizados e despreparados. Ora, se havia todo um complô gigantesco com direito a apoio, armamento, suprimentos, homens e logística externa, onde estava isso na hora da ação? Por que não encontramos relatos, provas, evidências, testemunhos de todo essa aparato gigantesco? Por que o Exército nunca se posicionou oficialmente acerca de como sabiam que havia uma ameaça de golpe comunista em 1964?

Todavia, mesmo a Guerra Fria tendo terminado em 1991, uma suposta ameaça comunista ainda paira por partes do mundo, especialmente na América Latina. Apesar que haja hoje poucos países de ideário comunista como Cuba e Coreia do Norte, já que a China e o Vietnã se apresentam como governos socialistas, mas de economia de mercado aberto (uma predisposição capitalista), ainda assim, países socialistas como Bolívia, mas mais recentemente Venezuela, são vistos como ameaças. Há quem diga que Evo Morales e Nicolas Maduro tenham planos secretos para expandir o "comunismo maléfico" ao lado de Raul Castro, sobre a América Latina. Sem contar que as ameaças e blefes do atual governante da Coreia do Norte, Kim Jong-un contra o Japão e os Estados Unidos, novamente reacende esse mito de conspiração em alguns casos, mas também o mito do grande inimigo, que se encontra mais em voga. 

No entanto, não é apenas o comunismo que se tornou vítima do "mito do grande inimigo", o capitalismo passa pelo mesmo. No caso é comum ouvir gente falar que "o capitalismo financia as guerras para vender armas e para roubar recursos", "que o capitalismo fomenta a fome no mundo, por não tornar os alimentos acessíveis a preços baixos para populações carentes", "que o capitalismo financia as doenças, ao negar-se lançar curas para a AIDS, cânceres e outras doenças", "o capitalismo selvagem ignora o bem-estar do trabalhador, passando a atuar como um sanguessuga" etc. 

Aqui nos deparamos com dois problemas graves: a discórdia e a negação. Em geral quem é adepto de ideias socialistas, marxistas e comunistas defende que sua doutrina é perfeita, que é isenta de falhas, que é a única solução para os males do mundo. No outro lado, quem defende ideias liberais, nacionalistas, nacionais-sociais, capitalistas etc., também dizem o mesmo, ou seja, que suas doutrinas são perfeitas, são isentas de falhas, que são as únicas soluções para os problemas do mundo. E se os problemas existem não são culpa do capitalismo ou das ideologias de direita. 

Logo, quando jogamos isso para o debate político, ambos os lados se tornam gladiadores fanáticos e sedentos de sangue, recusando a todo custo que estejam errados, e defendendo com unhas e dentes que são a certeza absoluta. Com isso os adeptos das doutrinas de direita e de esquerda, acabam adquirindo essa discórdia, e contribuem para espalhá-la e torná-la ainda mais grave. Tal desentendimento me faz lembrar de uma frase de Winston Churcill o qual disse que "A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes". 

Assim o problema da direita e da esquerda hoje em dia é resultado de dois mitos políticos que não foram comentados por Girardet; o "mito do grande inimigo" como eu sublinhei, e agora o "mito da doutrina perfeita", que basicamente resume-se a dizer que uma determinada doutrina seja ela de caráter político, econômico, social, moral, religioso, cultural e legal, apresenta-se aos olhos de seus adeptos e defensores como perfeita, sem falhas, como sendo a única solução viável. 

Isso caros leitores é algo muito perigoso, pois beira o fanatismo político. Inclusive é tão sério que é comum ver gente tentando distorcer os fatos históricos para justificar seus pensamentos ideológicos e doutrinários, como tentar dizer que o Nazismo e o Fascismo eram ideologias de esquerda, mas na prática eram de extrema-direita, pois a ideia é preservar a direita como pura e santa, mas jogar na esquerda essas duas ideologias, como forma de corroborar sua perversidade, insanidade e crueldade. Aqui novamente caímos na problemática do "mito da doutrina perfeita". "Minha ideologia e doutrina política nunca fez isso. Só pode ser culpa da esquerda, pois todo "esquerdista" é alienado e fanático", ou por outro lado, "O mundo está pobre e miserável por causa do capitalismo ganancioso e explorador. Toda direita é tola, ignorante e fanática". 

Mas além desse maniqueísmo político entre Direita e Esquerda, para ver quem é mais vilão ou mais perfeito, os mitos da idade de ouro, do salvador e da unidade também estiveram e estão bem-vivos. Citarei alguns casos brasileiros devido a proximidade que possuo. 

Apesar de a Ditadura Militar ou Civil-Militar ter terminado em 1985, ainda hoje é comum ouvir pessoas defendendo aqueles 21 anos como a melhor época do país, pois não houve nenhum problema. No caso, a ditadura militar brasileira ainda perdura após esses 32 anos como sendo um mito da idade de ouro. Em geral as Forças Armadas se mantém silenciosas sobre o assunto. Porém, é comum encontrar saudosistas ou adeptos de ditaduras alegar que aquele governo não foi ditatorial, e não teve problemas, nesse ponto eles tomam a postura ainda de negação, como comentado anteriormente. 

Com isso é fácil encontrar nas redes sociais pessoas pedindo intervenção militar, dizendo que não houve ditadura, que todos os males e problemas ali ocorridos como: censura, perseguição política, assassinatos, sequestros, tortura, campos de concentração indígena, espionagem, invasão de privacidade, desaparecimentos, subtração dos direitos civis e jurídicos, violência legitimada etc., não passam de invenção, especialmente acusam a "Esquerda" disso. Novamente se percebe aqui a Esquerda surgindo como o demônio que atenta contra o mito da "idade de ouro" da ditadura que não foi ditadura. 

Ainda neste exemplo, a condição de ter gente que ignora ou nega a realidade política daqueles 21 anos de governo e atualmente no cenário de crise político-social que o Brasil vivencia, não é incomum ver pessoas conclamando os militares como "salvadores" e "restauradores da unidade nacional". Percebe-se assim três mitos políticos comentados por Girardet os quais confluem num mesmo exemplo. E o curioso não é o fato apenas de muita gente que pede isso não conhecer mais a fundo os tempos da ditadura, mas não entender nem se quer o papel constitucional das Forças Armadas, pedindo coisas que não são funções ou atribuições delas. 

Todavia, esses mitos da "idade do ouro" e da "unidade" não são vistos apenas no Brasil, até mesmo no Estados Unidos, o atual presidente Donald Trump durante sua campanha utilizou o slogan "Make America Great Again", evocando aqui ambos os mitos supracitados, defendendo restaurar um período áureo para o país, o qual vivenciou a pior crise econômica da sua história recente entre 2008 e 2011, além de defender um nacionalismo conservador e um patriotismo hostil. Para Trump a "unidade nacional" só poderá ser preservada dificultando a migração, nacionalizando ainda mais a economia, dificultando o emprego para estrangeiros que residem no país, e até mesmo rompendo acordo unilaterais e bilaterais com velhos aliados. Sua ideia é manter o povo americano em primeiro lugar, mesmo que isso signifique segregar quem seria o "povo americano" e ter que passar por cima dos outros. 

Mas caminhando para o fim desse texto, um mito de conspiração que tem crescido na última década, diz respeito a tentativa de islamização da Europa. Se no começo do século passado os judeus sofreram perseguições, discriminação e hostilidade por supostamente tramarem derrubar governos e impor sua fé e costumes, atualmente são os muçulmanos que vivenciam isso. A crescente migração legal e ilegal de populações oriundas de nações islâmicas da Ásia e África, fugindo por causa da miséria, fome e da guerra, levou algumas pessoas a suscitarem que o Islã esteja planejando tomar o controle do continente europeu. 

E a situação piora devido aos atentados terroristas de grupos como o Estado Islâmico, e a propaganda hostil de xenofobia e de intolerância religiosa. Isso é tão sério que em países como Grécia, França, Alemanha, Suécia e Noruega já houve conflitos com migrantes muçulmanos acusados de serem terroristas, ou de tentarem "doutrinar" a população. E a situação está longe de acabar. O partido fascista grego Aurora Dourada já se declarou contra a migração de muçulmanos, e inclusive de propor proibição do islã no país. Por sua vez, mais recentemente o Partido Alternativa para Alemanha, de postura de extrema-direita conquistou vagas no parlamento alemão, o Bundestag. O Alternativa para Alemanha se apresenta como nacionalista conservador, e inclusive é acusado de ser de tendência xenofóbica e racista, por algumas declarações feitas. E um dos alvos do partido são os imigrantes muçulmanos. 

Considerações finais:

Nesse ensaio de poucas páginas apresentei alguns aspectos da teoria de Rauol Girardet a respeito dos mitos políticos, quatro em questão: conspiração, salvador, idade do ouro e unidade. Assim como, completei essas categorias com meus próprios exemplos, como os mitos do grande inimigo e da doutrina perfeita. 

O que deixo como reflexão final é que não tem como extinguir os mitos políticos. Eles existem há séculos em diferentes sociedades, e em determinadas épocas alguns estão mais em evidência do que outros. Mas há momentos que todos estão coexistindo e até mesmo podem apontar para o mesmo referencial. Isso se deve a condição de que o ser humano necessita crer em algo, mesmo que signifique crer em mentiras, boatos ou histórias sem fundamento ou com teor distorcido. 

Os mitos políticos são construções partidárias, ideológicas, parciais pautadas em interesses, sendo estes os quais podem promover elementos positivos e construtivos, ou elementos negativos e destrutivos. Nenhum mito político está isento de crítica histórica, social, política etc. Mesmo que não saibamos que sejam seus idealizadores ou quando exatamente e onde começaram, todo o mito político tem um objetivo: promover algo, seja para benefício ou malefício. É um jogo de interesses que mexe com expectativas, oportunidades, emoções, decisões, sentimentos, crenças. 

Tais mitos podem ser a inspiração ou esperança de alguns, mas também podem servir de fator para a repulsa, a descrença, o ódio, a discriminação. Esses são os problemas dos mitos políticos. Tentar desconstruí-los não é fácil e é algo delicado. Quanto mais enraizado, influente e forte for um mito político, haverá muitos obstáculos para desmascará-lo ou pelo menos tentar convencer seus adeptos de que ele não é tão correto assim. 

Com isso o problema dos mitos políticos é o fato de que cada um que crer em algum tipo destes mitos, dificilmente está sujeito a deixar sua zona de conforto, preferindo negar, silenciar, esquecer, omitir ou atacar. Em geral hoje em dia, a negação e o ataque são as decisões mais escolhidas. É preferível crer cegamente que seu mito esteja totalmente certo, do que parar para avaliar no que você está crendo cegamente. Em alguns casos você pode ser um fanático político e nem ao menos se dar conta. Ou por outro lado, você pode está aí propagando e defendendo mitos políticos que se baseiam em informações erradas, distorcidas, falsas, manipuladas, mas que você propaga como verdades absolutas. 

A condição das pessoas não aceitarem que seus mitos políticos possam ser construídos em mentiras, em falseamentos e manipulações contribui para a discórdia, a violência, o ódio, o preconceito, a discriminação, que diariamente são propagados pela mídia, mas especialmente pelas redes sociais, meio pelo qual a maioria das pessoas em muitas países tem acessos a distintas informações. Sem contar que existem blogs, jornais, revistas e grupos nestas redes sociais, especializados em causar polêmica, em fomentar discussões fúteis, em promover informações deturpadas apenas para reiterar seus mitos políticos. Esses são alguns dos problemas dos mitos políticos hoje em dia, a falta de bom senso, autocrítica, ponderação e sabedoria. Estamos num ponto que debater política já não é mais falar de política, mas da luta entre o Bem e o Mal, como ver em obras de ficção. 

Referências bibliográficas:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução de Alfredo Bosi. São Paulo, Martins Fontes, 2007. 
BOBBIO, Norbert; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfraco (orgs.). Dicionário de política. 11a ed. Tradução de Carmen C. Varriale [et. al]. Brasília, Editora da UnB, 1998. 2v
GIRARDET, Raoul. Mito e Mitologia Políticas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo, Companhia das Letras, 1987. 
SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. 2a ed. São Paulo, Contexto, 2005. 

Links relacionados:
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O que é o fascismo?
Os movimentos nazi-fascistas e a eclosão da II Grande Guerra
A Ditadura Militar Brasileira (1964-1985) foi realmente uma ditadura?




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nota sobre o ato de celebrar o 7 de setembro

No Brasil, o dia 7 de setembro se comemora a Independência do Brasil, ou seja, a separação político do Reino do Brasil do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1816-1822), que fomentou o surgimento de um Estado-nação regido por um governante próprio, que no caso foi o imperador D. Pedro I e sua corte, estabelecida no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Todavia, Portugal negou-se a reconhecer essa independência que era vista como um golpe de Estado, uma rebelião, revolta, uma afronta. 

Parte da população das capitanias da Bahia, Pernambuco, Ceará, Piauí e Maranhão se manifestaram contrários a independência. As outras capitanias também se manifestariam depois. Essa oposição se deveu ao fato de que alguns defendiam a permanência do Brasil no reino unido, outros por sua vez, queriam a fundação de uma grande república, ou repúblicas regionais. Somando a essas dissidências havia o fato de que os indígenas e negros não eram cidadãos, mesmo durante a colônia, e com o advento do Estado-nação do Império do Brasil, não ganharam nenhuma promoção, continuaram a serem deixados de lado da vida política, e até da dignidade social. E para completar, D. Pedro I de 1823 e 1825 ordenou campanhas militares para derrotar e silenciar os focos de oposição e resistência, de forma a consolidar o processo de emancipação político de Portugal. 


Entretanto, se de fato sabemos que a Independência do Brasil foi um movimento orquestrado pelas elites especialmente do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, que almejavam uma ruptura de dependência político-econômica com Portugal, pois na prática, manter-se como reino unido, a vista deles não estava sendo favorável para seus negócios, seria válido celebrar essa data que marca o nascimento do conceito de pátria brasileira?

Na presente data de hoje, fui confrontado de forma até mesmo afrontosa por outros historiadores que me acusaram de celebrar o 7 de setembro, pois fazer isso era celebrar um golpe de Estado; era celebrar a escravidão; era celebrar a opressão; era celebrar a monarquia; era compactuar com a manutenção de práticas coloniais desumanas; além disso, era ser imparcial, tolo, ignorante, alienado, pois o historiador antes de celebrar algo deve ser crítico, e quando for, não deve tomar partido. Deve manter-se neutro. Essas últimas palavras soaram da boca de alguém que diz que a monarquia não prestou e não merecia nem se quer ser lembrada. Mas isso não é tomar partido? Onde está a neutralidade?

Fiquei espantado com o nível e conservadorismo desses historiadores em dizer que o 7 de setembro não teve nenhuma utilidade histórica! Foi um golpe para criar uma monarquia escravocrata. Nesse ponto, a neutralidade do historiador torna-se hipocrisia, e aqueles que não dizem ter preconceitos, revelam os seus, como feras raivosas para rasgar a garganta daquele que quer cantar o hino nacional, ou participar do desfile cívico, ou dizer para o filho que somos hoje um país independente, com uma constituição, com leis, com tradições, com símbolos nacionais, com costumes, com culturas, como problemas etc., mas ainda sim, somos um país livre. Mesmo que a nossa liberdade, nosso Estado de direito, tenham começado sobre os ombros da escravidão, de genocídios, do colonialismo, do mercantilismo, de revoltas e guerras. 

Mas me indago: que país no mundo nasceu de forma pacífica? Que país do mundo não possui em sua história momentos de violência, ódio, sangue, morte, guerra, desordem, miséria, corrupção, desigualdade, crise? Israel, uma nação criada em 1948 é reflexo de três mil anos de conflitos! Embates estes que ainda hoje continuam, mas para muitos que ali vivem, é o seu lar, sua identidade, sua pátria, sua esperança, seu sonho, suas tragédias, seus pesadelos. E no âmbito religioso é um lugar santo!

Seria demasiadamente querermos sermos utópicos em pensar que o Brasil se não tivesse se tornando independente em 1822, poderia anos depois ter se tornado uma honrada e justa república? Nunca saberemos. A história não é feita de projeções futuras. 

Independência ou Morte, Pedro Américo, 1888. Neste quadro o pintor paraibano retratou de forma romanceada a proclamação da independência. Segundo alguns historiadores isso é a representação de um golpe fomentado pelas elites cariocas, paulistas e mineiras, sem a participação de outros segmentos da sociedade, e sem levar em consideração os escravizados. 
De fato, a monarquia brasileira não foi aquilo que milhões de brasileiros esperavam. A monarquia não aboliu a escravidão logo de início; manteve o poder moderador, ao invés de tê-lo suprimido; D. Pedro I não foi um bom governante, D. Pedro II foi um governante razoável até certa época; não houve desenvolvimento industrial, tecnológico, educacional, científico, social como esperado de outras monarquias da época. A pátria brasileira nasceu em berço de ouro, mas cresceu de forma mimada. 

Diante de tudo isso, poderíamos dizer que é inválido celebrar a nossa independência? E segundo, querer celebrá-la é compactuar com a monarquia, com a escravidão, com o colonialismo explorador? Se for assim, celebrar o 14 de julho na França, data de início da Revolução Francesa (1789-1799) não é apenas defender a democracia, o republicanismo, os direitos civis, a constituição, a modernidade etc., mas também é compactuar com o autoritarismo dos revolucionários, a arbitrariedade nos julgamentos, os complôs, as traições, os crimes, as perseguições políticas, a violência, as execuções em massa nas guilhotinas, a manutenção de colônias e da escravidão. 

Celebrar o 4 de julho de 1776, Independência dos Estados Unidos não é apenas comemorar a origem de uma república, a formação de uma nação, a criação de uma constituição, mas também é compactuar com a guerra, o genocídio indígena, as perseguições, complôs, traições e até mesmo com a escravidão negra, afinal, essa somente foi abolida em 1865. E nesse ponto é algo curioso, pois os historiadores que me disseram que não era válido celebrar o 7 de setembro, por ser um golpe de Estado, que legitimava um governo monárquico escravocrata, dizem que o 4 de julho foi uma revolução digna, e revoluções devem ser celebradas. Então eu me pergunto: mesmo revoluções que perpetuam a escravidão? O problema era a escravidão (que realmente é algo terrível), ou o problema é não ter sido uma república revolucionária?

Declaração de Independência dos Estados Unidos, John Trumbull, 1818. Segundo os historiadores que condenam a Independência do Brasil,  por ter sido fruto de um golpe que instaurou uma monarquia escravocrata, no caso americano, isso foi um ato revolucionário que contou com a participação de vários segmentos da sociedade. Mas nessa pintura só vemos a elite branca reunida, sem contar que neste momento, não houve abolição da escravidão. Os EUA nasceram como uma república escravocrata. O problema era só a escravidão ou foi o Brasil ter surgido como uma monarquia?
Acredito que devemos sim celebrar o 7 de setembro, tenha sido ele um triunfo, ou um golpe, ou uma farsa, ou um complô ou uma discórdia. Devemos celebrá-lo mesmo que ele não tenha sido a esperança que se esperou na época, mesmo que ele tenha mantido em funcionamento desigualdades, preconceitos, injustiças, opressões, sistemas políticos-econômicos-sociais-ideológicos que hoje são abomináveis e não deveriam voltar a se repetir. Porém, cada tempo é único. O nascimento do Brasil é fruto de sua época. Uma época em vários aspectos ainda em desenvolvimento e de transformações sociais, científicas, religiosas, morais, culturais, econômicas etc. 

Seria demasiadamente prepotência nossa condenar o surgimento da nação brasileira, por discordamos de como ela surgiu e como ela se manteve? Eu também não concordo como a independência foi feita, ou muito menos concordo com certas decisões, políticas e escolhas que foram feitas e mantidas durante o império. Mas é preciso reconhecer que a História não é um conto de fadas que mesmo com os perigos e problemas, nos aguarda com um final feliz e reconfortante. Se queremos aceitar o 7 de setembro, que o aceitemos junto aos seus horrores, e não negá-los, porque eles nos incomoda. Agir assim é similar a aqueles que dizem que a Ditadura Militar (1964-1985) não teve problemas e não foi um período ruim, mas tempos dourados de imaculada justiça e democracia. É querer enxergar apenas um lado, no caso, aquele que lhe convém, que lhe conforta, o seu "conto de fada". 

Por mais que você diga que não concorde com a independência feita por D. Pedro e os demais, com a criação do império e suas políticas, isso é direito seu. Mas dizer que devemos ser neutros, mesmo que você já tenha claramente tomado seu partido, e ainda mais, dizer que não tomou partido, mas condena aquele que o fez, é ser no mínimo hipócrita, desonesto. É mais sensato dizer que você odeia a colônia e o império, mas louva a república (mesmo com seus problemas), do que falar que está sendo neutro, imparcial, crítico. Ou é mais sensato dizer que você admira o império (mesmo como seus problemas), mas não gosta da atual república brasileira de hoje. 

Por fim, eu digo, se queres celebrar o 7 de setembro, celebre-o, mas seja bravo suficiente para aceitar toda a bagagem histórica que essa data, esse marco histórico traz consigo. Não queira entoar o hino e achar as mil maravilhas, negando que o país nasceu sobre genocídio de povos indígenas, a escravidão negra e indígena, guerras, invasões, revoltas, conspirações, traições, corrupção, crimes e outros problemas sociais. Seja valente em querer erguer a bandeira verde e amarela é dizer que "o meu país passou por terríveis momentos, tanto na época da colônia, do império e da república, mas é meu dever lutar por um presente e um futuro melhores, que as tragédias e horrores do passado não voltem a ocorrer!". 

Penso que isso seja ser patriota, e não ficar tentando esconder a sujeira debaixo do tapete como alguns fazem, ou ficar de verborragia contra aqueles que denunciam as mazelas, ou ser hipócrita, dizendo que não toma partido, se já o fez desde o início. Reconhecemos nossa história e lutemos para fazer um país melhor e não ficar em aporia porque o passado foi assim, e não do jeito que eu queria. 








quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Referências em Game of Thrones

A popular série de fantasia medieval Game of Thrones, exibida e produzida pelo canal HBO, baseada na série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo de George Raymond Richard Martin, definitivamente já é um fenômeno internacional, e uma das séries mais caras, assistidas e premiadas da história da teledramaturgia. Nos últimos anos têm se escrito sobre os livros e o seriado, artigos, livros, postagens em blogs etc. Todavia, também surgiram em alguns debates pela internet a dúvida acerca das referências históricas que aparecem nos livros e na série: seriam os Greyjoy uma referência aos vikings? Na Idade Média havia realmente essa disputa pelo trono? Os nobre viviam realmente em gigantescos castelos? As relações de vassalagem e suserania como são mostradas na série, correspondem a realidade? Havia comércio durante o feudalismo? 

Essas entre outras perguntas marcam presença nas pautas destes debates, apesar de que haja gente que diga que pelo fato da história possuir dragões, magia, mortos-vivos etc., isso a torne uma fantasia, sem conexão nenhuma com a realidade. Não é assim. O próprio autor George Martin em algumas entrevistas, já declarou que se baseou em acontecimentos históricos para conceber elementos de sua trama. Logo, a proposta deste texto é comentar a respeito de algumas referências históricas, mas também geográficas, mitológicas, lendárias etc., que se encontram presentes no universo fantástico das Crônicas de Gelo e Fogo. Para isso, optei em dividir em tópicos o assunto, a fim de facilitar a leitura. 

A Muralha:

No primeiro livro Guerra dos Tronos (Game of Thrones) e na primeira temporada da série, somos apresentados a Muralha (The Wall), uma gigantesca construção de gelo maciço, com 500 km de extensão e 200 metros de altura, construída 8 mil anos antes do presente dos acontecimentos da trama, por Brandon Stark, o Construtor, para proteger o Reino do Norte da ameaça dos Selvagens, Gigantes, Caminhantes Brancos entre outras feras que habitam aquelas hostis terras congeladas do extremo norte do continente de Westeros

Mas apesar de se tratar de uma construção fantástica que possui um importante papel na narrativa das Crônicas, pois é o local onde se desenrolam momentos cruciais, envolvendo a relação da Patrulha da Noite com os Selvagens, e no caso do seriado, o conflito com a mortífera ameaça do Rei da Noite e os Caminhas Brancos, a Muralha foi baseada numa construção real. No caso já li gente dizendo que devido as dimensões dela, a Muralha foi inspirada na Grande Muralha da China, mas não é bem assim. Martin não foi até o outro lado do mundo para colher inspiração, ele foi num lugar mais próximo, na Inglaterra, onde existem duas muralhas bem antigas, as quais serviram de inspiração. 

Ilustração da Muralha vista a partir do território selvagem. 
No século I d.C, dois imperadores romanos construíram no norte da Bretanha (atual Inglaterra), muralhas para proteger a fronteira, mas também evitar que os "bárbaros" Pictos descessem para saquear as terras do império. Pelo fato de que nem mesmo as poderosas legiões romanas conseguiram enfrentar o frio e o rigor das terras escocesas, o imperador Adriano (117-138) ordenou que uma longa muralha fosse construída para proteger seu império naquela parte do mundo. 

A construção se iniciou no ano de 122, tendo sido construída as pressas pelas legiões romanas. Em 126 ou 128 ela foi oficialmente concluída, possuindo na época 118 km de extensão. Mas diferente a muralha de Westeros, a Muralha de Adriano era algo bem mais simples, inclusive, o sucessor de Adriano, o imperador Antonino Pio (138-161), ordenou a construção de uma nova muralha, 160 quilômetros ao norte da fronteira estabelecida por seu antecessor. A Muralha de Antonino apesar de ser mais curta, possuindo 63 km de extensão, era em alguns trechos mais alta e melhor fortificada. Foi concluída por volta de 142. 

Porém, a influência as muralhas romanas para a obra de George Martin, fica mais clara quando olhamos o mapa de Westeros e Essos e os comparamos com a geografia real da Terra, algo que será comentado no próximo tópico. 

Mapa-múndi:

Nas Crônicas de Gelo e Fogo nos são apresentados mapas do continente Westeros, onde ocorre a maior parte da trama, do continente de Essos, onde acontecem vários acontecimentos importantes, especialmente relacionados com a trajetória de Daenerys Targaryen, além de ser mostrado também ilhas e silhuetas dos continentes e Sothoryos e Ulthos. Todavia, apesar do mapa de Westeros e Essos nos fascinar por seus detalhes geográficos, especialmente o primeiro, onde se notou mais esmero do autor em detalhar a geografia daquele continente. No entanto, Westeros não é fruto totalmente da mente de Martin, o escritor americano se baseou na geografia do Reino Unido para criar Westeros. 

Neste caso, o Reino Unido é formado pela Inglaterra, Escócia, País de Gales e a região norte da Irlanda, além de uma série de ilhas. Porém, Martin considerou utilizar os mapas da Inglaterra, País de Gales, Escócia (que se situam na ilha da Bretanha) e toda a ilha da Irlanda em si, não apenas a porção norte. Na imagem comparativa abaixo, podemos ver como o mapa da Bretanha e da Irlanda serviram de inspiração para a criação do continente fantástico de Westeros. Ao mesmo tempo percebe-se que a Muralha de Adriano, fica situada numa faixa de terra bem similar A Muralha de Westeros, além do fato de que a Escócia representa a terra congelada e hostil em Westeros. 



É evidente que mudanças climáticas foram feitas, pois a Escócia apesar de fria, ainda assim não é um deserto gelado como o norte para além da Muralha de Westeros. Não obstante, o norte da Irlanda, que foi invertido, tão pouco é uma região de clima quente com direito a deserto, como é o caso de Dorne, no sul de Westeros. Apesar que Dorne foi inspirada na Península Ibérica e o norte do Marrocos. Inclusive os dorneses lembram em alguns aspectos físicos e culturais a cultura moura que se estabeleceu em Portugal e Espanha ao longo do medievo. De qualquer forma nota-se as semelhanças geográficas entre os dois mapas. Mas e quanto a Essos, Sothoryos e Ulthos?

O mapa do continente de Essos consiste numa adaptação do sul da Europa, já Sothoryos seria o norte da África, e Ulthos que se encontra no extremo oriente do mundo, equivale a Ásia. Neste caso, Sothoryos e Ulthos para os habitantes de Westeros, responsáveis pelo mapa-múndi mostrado nos livros e na série, consistem em terras exóticas e pouco conhecidas, daí nos seus mapas, estes continentes estarem incompletos.  


Os continentes e Westeros, Essos, Sothoryos e Ulthos, em mapa feito especialmente para o livro The Lands of Ice and Fire, 2012. 
Se comparado ao mapa da Europa, Essos, representa a porção sul do continente, englobando países como França, Itália, Grécia e a região do Bálcãs. Neste caso, as terras da Antiga Valíria, são similares a Grécia, inclusive a Baía de Escravos foi baseada no Mar Egeu e no Mar Negro, assim como, as cidades de Nova e Velha Ghis, Astapor, Yunkai, Meereen e a região de Qarth, são uma mistura da Ásia Menor, do Levante (Síria, Líbano e Israel) e do Egito (principalmente por causa das pirâmides e grandes monumentos). 


Mapa comparativo entre os territórios de Valíria e as terras da Baía dos Escravos, com o mapa da Grécia, o Mar Egeu e a Turquia. 
Alguns estudos apontam que as regiões de Westeros foram baseadas nas nações europeias: O norte para além da Muralhe geograficamente é a Escócia; Dorne foi inspirada em Portugal e Espanha, Jardim de Cima seria uma referência a França, o Vale seria a Suíça, Correrio e a região entorno do Tridente, uma alusão a Holanda e Bélgica, o Norte uma referência a Alemanha, as cidades livres de Essos seriam referências as cidades-Estados italianas, Valíria seria um misto de Grécia e Roma etc. De fato Martin não confirmou isso, apesar de dizer que realmente há influência em alguns casos.

O Longo Inverno:

Saindo um pouco da história, e agora adentrando o campo da mitologia, nos livros e no seriado, a Casa Stark tem como lema "O inverno está chegando". Desde o primeiro livro e da primeira temporada o lema é apresentado, e Ned Stark apresenta preocupação que os longos invernos que duram anos estejam perto de acontecer. Martin não explica porque existem verões e invernos que duram anos, simplesmente eles ocorrem há milhares de anos. O Norte devido a sua localidade, constantemente convive com a neve, pois mesmo nos verões frios chega a nevar um pouco. Todavia, quando se fala do "Longo Inverno", até mesmo as terras ao sul do Tridente (marco de divisão entre o Norte e o Sul), chega a nevar. Dorne pelo que parece fica livre disso. 

De qualquer forma, essa ideia de longos invernos que durariam anos interruptos encontra um respaldo na mitologia nórdica. Em alguns mitos é dito que um dos sinais para o Ragnarök seria a chegada de um rigoroso inverno chamado Fimbulvertr (literalmente longo inverno), o qual duraria três anos consecutivos, lançando o mundo no frio e na escuridão. Pelo fato da mitologia nórdica ser baseada na geografia e no clima escandinavo, lá durante o inverno os dias são curtos e as noites são longas, daí se falar que no Fimbulvertr praticamente não haveria dia, apenas noite. 

Entretanto, os mitos informam que ao término do Fimbulvertr, o mundo estaria desolado, e os humanos que sobrevivessem a este, testemunhariam o confronto final entre os deuses e os gigantes, pois é dito que um dos sinais para o começo do Ragnarök é a condição do gigante Loki se libertar de sua prisão, e com isso ele decide convocar os mortos de Hel e os gigantes, para marchar contra os deuses. No caso das Crônicas de Gelo e Fogo sabe-se que os Caminhantes Brancos são a grande ameaça do Norte, isso mais do que os selvagens e os gigantes, pois eles conseguem transformar os mortos em zumbis. Isso de certa forma lembra a mitologia nórdica, principalmente em Game of Thrones onde o Rei da Noite tornou-se figura de destaque e a maior ameaça de todas desde a quinta temporada. O fato do Rei da Noite liderar um exército de mortos-vivos e que incluem alguns gigantes, lembra o que Loki faz no mito, apesar de ambas as figuras serem totalmente diferentes. 

Ilhas de Ferro e a pirataria:

Ainda é comum esse debate se os Greyjoy e a população das Ilhas de Ferro seriam inspiradas de fato nos vikings, ou trata-se apenas de um exagero por parte dos fãs dos livros e da série. Neste caso, tal povo que consistia em um dos antigos Sete Reinos é conhecido por sua marcialidade, arrogância e rudeza. Vivem basicamente da pilhagem, assaltando navios e outros territórios de Westeros e de outros lugares. Ou seja, são piratas natos e devotos. O próprio lema da Casa Greyjoy "Nós não semeamos", apresenta essa percepção de que eles não estão interessados na agricultura, pastoril, manufatura ou comércio, o negócio deles é tomar os outros para poder sobreviver. Porém, é informado que um dos fatores para essa vida e pilhagens se deva a condição que o solo das ilhas de Ferro seja pobre e em alguns lugares até mesmo infértil, o que forçaria seus habitantes a procurar comida em outro lugar.


O kraken é o brasão da Casa Greyjoy. 
Agora vamos as comparações. Muitos alegam que o fato de os vikings terem sido um povo bravo, rude e guerreiro é a principal semelhança que se encontram com a população das Ilhas de Ferro, algo que inclusive alude a severidade aquele território e sua gente. Todavia, essa noção é pautada principalmente no estereótipo do viking, cuja imagem vem sendo desenvolvida desde o século XIX. Apesar de os vikings realmente terem sido guerreiros, exploradores e conquistadores, levando guerra para várias regiões da Europa, eles não era um povo exclusivamente marcial e pirata. 

Diferente dos homens das Ilhas de Ferro os quais se dedicam a guerra e a pilhagem, relegando demais afazeres aos escravos, os vikings para além de guerreiros, eram agricultores, pastores, caçadores, pescadores, construtores, artesãos, comerciantes etc. Não havia uma força armada oficial e tão pouco nacional antes do século XI, além do fato que os homens não viviam o tempo todo ocupados com ofícios militares. Quanto a pilhagem, isso ocorreu, mas nota-se que em determinadas épocas era mais recorrente que outras, diferente do estereótipo de que os vikings saiam todo ano para saquear. Outro fato importante a salientar é que os vikings também foram exímios comerciantes, tendo criado rotas comerciais da Suécia a Constantinopla (atual Istambul na Turquia), e até mesmo encontram-se relatos de comerciantes vikings negociando com mercadores árabes na região do Mar Cáspio. Entre os séculos VIII e XI algumas cidades norueguesas, suecas e dinamarquesas prosperaram com base no comércio regional e continental.

Martin conta que os habitantes das Ilhas de Ferro adoram principalmente uma divindade, que é o Deus Afogado. O qual possui um salão submarino para onde vão os mortos beber cerveja, a qual é servida por belas sereias. Os vikings eram povos politeístas, cultuavam vários deuses e possuíam várias crenças acerca de mundos da morte. Curiosamente existia uma deusa chamada Rán, a qual possuía um salão submarino, que acolhia aqueles que morriam em naufrágios ou no mar. Em seu salão as pessoas beberiam cerveja. Nota-se aqui uma semelhança entre Rán e o Deus Afogado, apesar que na mitologia nórdica não existam sereias, elemento este que Martin acrescentou, além do fato que Rán é uma divindade de pouca expressividade nos mitos e no que se conhece da religião nórdica antiga. 

Outro fato interessante é que as Ilhas de Ferro possuem uma assembleia chamada Kingsmoot, convocada quando se existe uma crise para se definir a sucessão real. Tal assembleia para definir o próximo rei das Ilhas de Ferro é descrita no quarto livro, O Festim dos Corvos e é retratada na sexta temporada. Com a morte de Balon Greyjoy, o trono por direito passa para seu filho Theon, mas este não se encontra presente no arquipélago (na série ocorre o contrário, ele participa apoiando sua irmã). Devido a sua ausência, sua irmã Asha (Yara no seriado) lança sua candidatura ao trono, porém, dois de seus três tios, Euron e Victarion também entram na disputa. Além dos três Greyjoy, outros nobres do arquipélago também participam do Kingsmoot (isso no livro). No final, Euron vence a disputa. 

No caso dos vikings não havia assembleias como essa. Os reis vikings antes do século XI, quando os reinos da Dinamarca, Suécia e Noruega finalmente se estabilizam, vivenciavam confrontos entre as dinastias que ambicionavam o controle do maior número de terras. A Dinamarca vivenciou menos estes conflitos, porém, a Noruega e a Suécia vivenciaram várias guerras entre casas nobres que disputavam os pequenos reinos. Não havia uma assembleia para definir quem seria o próximo rei, havia acordos, alianças militares e matrimoniais para assegurar o poder. 

Em linhas gerais os habitantes das Ilhas de Ferro não seriam propriamente baseados nos vikings, mas inspirado no estereotipo de piratas, pois muito do comportamento mostrado por este povo, lembra o que os piratas do Caribe faziam: viver como foras da lei, não obedecer ou reconhecer outros governos, vivendo sob sua própria conduta e liderança; não cultivarem a terra, ou criar animais, ou fazer comércio, mas viver basicamente do saque, roubos, assaltos e contrabando. Levarem uma vida severa e rude. 

Dothraki e a influência mongol:

Os dothraki são um povo de cavaleiros que habitam as grandes planícies do centro de Essos, as quais eles chamam de "Mar de Grama". Eles possuem uma capital sagrada chamada Vaes Dothrak "Cidade dos Montadores", mas as tribos vivem de forma nômade, praticando a pecuária extensiva, mas sobretudo vivem da pilhagem e em alguns casos atuam como mercenários. No primeiro livro e na primeira temporada vemos o príncipe Viserion Targaryen negociando com um chefe dothraki chamado Khal Drogo, para que este lutasse por ele no intuito de reconquistar o Trono de Ferro. Viserion oferece a própria irmã Daenarys em casamento, como parte do acordo. 

Nos livros é dito que os dothraki se dividem em khalasar, que é comandado pelo guerreiro mais forte, o qual recebe o título de khal. Sua esposa é chamada e khaleesi. Os khalasar costumam se reunir em sua capital para participar e algumas celebrações religiosas, levar escravos, oferendas e presentes, além do fato de que um novo khal deve se apresentar publicamente ao seu povo, para legitimar seu comando. Na cidade vivem as viúvas que um dia foram khaleesi, elas formam as Dosh Khaleen, e são obrigadas a jamais abandonarem a cidade, além de serem submetidas a levar uma vida de exclusão do restante da sociedade. 



Daenarys (Emília Clarke) como prisioneira dos dothraki, em cena da sexta temporada e Game of Thrones
Os dothraki são descritos como sendo selvagens cavaleiros, demasiadamente agressivos e de hábitos rudes e animalescos, verdadeiros bárbaros no melhor sentido da palavra. Porém, tudo isso não é fruto apenas da imaginação fértil de George Martin, algumas coisas associadas a este povo das estepes de Essos advém de um povo real, os Mongóis. 

Os mongóis entraram mais especificamente na História no século XIII, quando seu maior líder, o imperador Genghis Khan (c. 1160-1226) unificou os clãs mongóis e foi proclamado primeiro imperador de uma Mongólia unificada, dando início a uma série de longas guerras que fundaram as bases de um império continental. Em termos sociais os mongóis por séculos foram um povo nômade, vivendo do pastoril, coleta, caça e pesca e da agricultura quando possível. Era comum entrarem em conflito com outros clãs e até fazerem expedições de saque a povos vizinhos, especialmente os chineses, por serem os vizinhos mais prósperos. Tanto para os povos asiáticos quanto europeus, os mongóis ficaram conhecidos como bárbaros cruéis. Os chineses que se consideravam bastante civilizados, os viam como selvagens. Os europeus os consideravam monstros, devido a sua aparência, roupas, gritos e forma de lutar. De fato Martin soube usar isso ao criar os dothraki. 

Além de tais características outras podem ser citadas: a palavra khalasar é inspirada em canato (domínio de um khan). Por sua vez, khal é inspirado em khan (senhor). A cidade de Vaes Dothrak é inspirada em Caracórum, antiga capital do Império Mongol, que possuía papel mais de caráter político e religioso, do que ser um centro urbano. Uma cidade sem muros e basicamente formada por várias tendas. Algo que se assemelha com a descrição de Vaes Dothrak. Além dessas características citadas, dothrakis e mongóis prezavam muito pelos cavalos, mas enquanto para os dothrakis tais animais são sagrados e até mesmo divino, pois existe o Grande Garanhão, que é o principal deus deles, os mongóis cultuavam distintos deuses, sendo que um dos mais referenciados era Tengri, o senhor do trovão e do céu. Além de que os cavalos não eram vistos como sagrados ou divinos. 

Percebe-se que em termos comportamentais, sociais, estilo de vida etc., os dothraki são parecidos com os mongóis. Apesar que eles usem pouca roupa, diferente dos mongóis que devido ao clima frio das estepes, tinham que se agasalhar bem. E quanto os dothraki homens tem o hábito de deixar os cabeços e barba crescerem, os mongóis não possuíam isso, preferindo optar no lugar da barba, por um bigode e cavanhaque. 

O Titã de Bravos:

O Titã de Bravos consiste numa grande estátua de um guerreiro trajando armadura, e armado com espada e escudo, que guarda a entrada do porto da cidade livre e mercantil de Bravos na costa ocidental de Essos. Bravos é descrita como uma cidade mercantil bastante importante por abrigar o poderoso Banco de Ferro, mas apesar dessa concentração de dinheiro, a cidade é subdesenvolvida em vários bairros. Além disso, conta-se que seus fundadores foram escravos e gente pobre migrada do Império Valiriano após a destruição de sua capital. 

Mas voltando ao Titã, este consiste numa gigantesca estátua de granito e bronze erguida na entrada da cidade, cuja aparência é de um guerreiro trajado com armadura e elmo, e armado com espada e escudo. No livro não há uma descrição clara da estátua, mas na série ele lembra muito um hoplita grego. O propósito dessa grande estátua seria servir de sistema de defesa, pois lendas contam que caso a cidade fosse ameaçada, a colossal estátua ganharia vida para destruir os inimigos. Todavia, é revelado que luzes são acesas em seus olhos, assim como, fazem-se barulhos dentro de sua cabeça oca, dando a impressão que realmente a estátua estivesse a gritar ou a olhar. 


Cena da quarta temporada de Game of Thrones, mostrando o Titã de Bravos. 
A ideia como dita é inspirada no Colosso de Rodes, estátua de mais de 30 metros de altura erguida em local incerto na cidade de Rodes, capital da ilha homônima, no ano de 280 a.C. A grande estátua diferente de ser um mecanismo de intimidação e supostamente de defesa como o Titã de Bravo, o Colosso de Rodes possuía um aspecto político e religioso. Consistiu na estátua do titã Hélios, senhor do sol, antiga divindade solar cultuada pelos gregos até que o deus Apolo assumiu suas funções. Mas além de ser a estátua de um deus, o monumento foi erguido pelo rei de Rodes para celebrar a vitória contra a invasão macedônica ocorrida em 305 a.C. 

Todavia, as semelhanças entre Bravos e Rodes se encerram por aí. No caso, a geografia de Bravos com suas ilhas e canais lembra muito Veneza, a qual foi uma notória cidade mercantil desde o medievo. 

Joffrey e Sansa da vida real?

No segundo livro, e na segunda e terceira temporada, vemos a tentativa dos Lannister de unir a Casa Baratheon com a Casa Stark, ao tentar casar Joffrey Baratheon, então rei, com Sansa Stark, uma das herdeiras de Winterfell. No desenrolar da trama, na qual Sansa de início se mostrava apaixonada e encantada por Joffrey, a quem ela via como um "príncipe encantado", deixa de lado tudo isso, quando ele manda matar seu pai. Sansa passa a nutrir repulsa e ódio do jovem rei. Porém, mantida como prisioneira real na Fortaleza Vermelha, Sansa se vê no risco e ter que casar com Joffrey, apesar que isso não acabou ocorrendo. 

Todavia, o pretenso casal teve seus nomes inspirados num casal real, Joffre Bórgia (1482-1518) e Sancha de Aragão (1478-1506). Todavia esse casamento não ocorreu por uma relação de amor ou de ódio, mas e interesses políticos. Joffre era o caçula de quatro filhos de Rodrigo Bórgia (então papa Alexandre VI) e de sua amante Vannozza dei Cattanei, a qual era mãe também de Juan, César e Lucrécia. Enquanto os filhos de Rodrigo e Vannozza eram bastardos, pois um clérigo não poderia se casar, no caso de Sancha a situação era similar, pois ela era filha bastarda de Afonso II, rei de Nápoles. O casamento foi promovido por interesses políticos, cujo propósito era unir o papado com o reino napolitano. 

Na prática os dois personagens só compartilham o nome mesmo, pois Joffre não foi um homem sádico como o rei Joffrey. Assim como, Sancha não foi uma mulher frágil como Sansa, inclusive boatos diziam que ela traia o marido. Mas para encerrar, vejamos as comparações dos retratos dos dois personagens históricos com os atores do seriado. Curiosamente eles são bem parecidos!


Na esquerda Sophie Turner como Sansa Stark. Ao lado um retrato de Sancha de Aragão. Assombrosamente essa imagem de perfil é bem parecida.
Na esquerda o retrato do jovem Joffre Bórgia. A direita o ator Jack Gleeson como Joffrey Baratheon. 
Mortos-vivos, gigantes e dragões: 

Entre os seres fantásticos que se destacam nos livros e no seriado estão os gigantes, seres que aparecem a partir do terceiro livro, e ganham destaque na quarta, quinta e sexta temporadas da série, especialmente pelo gigante Wun Weg Wun Dar Wun, que acaba tornando-se no seriado mais importante do que nos livros. No caso os gigantes aparecem pouco nos livros e no seriado, são os sobreviventes de uma antiga raça que resistiu ao frio das terras congeladas para além da Muralha, como também aos conflitos com os selvagens, os Caminhantes Brancos e seus exércitos de mortos-vivos.

No caso dos Caminhantes Brancos, também conhecidos como Outros, são humanoides que aparentam ter a pele congelada ou seriam feitos de gelo. O principal traço que os destacam são seus frios olhos azuis, que proporcionam um olhar profundo e assustador. Nos livros pouco foi dito sobre essas estranhas criaturas que assombram todos aqueles que vivem para além da Muralha. A primeira menção aos Outros ocorre ainda no primeiro livro, apesar que eles se tornaram mais recorrentes através da série, onde aparecem mais vezes, além de que seu líder nomeado Rei da Noite, tornou-se o atual antagonista da trama, já que no livro, oficialmente este personagem não deu as caras ainda, é apenas mencionado como se fosse uma antiga lenda. Inclusive a origem do Rei da Noite no seriado é diferente da versão contada no livro. 


Cena da quinta temporada apresentando o Rei da Noite diante de seu exército de mortos-vivos. 
De qualquer forma, os Outros são responsáveis por trazer de volta a vida os mortos, tornando-os mortos-vivos ou zumbis (utilizando um termo mais corriqueiro hoje em dia). No caso, não se sabe ao certo como isso acontece. Provavelmente trata-se de algum tipo de magia, porém, todo aquele que é morto para além da Muralha ou assassinado por um zumbi, torna-se um morto-vivo. As únicas forma de mata-los é com fogo, vidro de dragão ou aço valiriano. 

Entretanto, das criaturas fantásticas dos livros e do seriado as que atraem mais atenção do público são os dragões. Em vários momentos é dito que a Dinastia Targaryen os criava aos montes, ao ponto de haver um local próprio para manter tais monstros. Alguns spin-off escritos por Martin, comentam mais a respeito dos dragões dos Targaryen, os quais trouxeram essas criaturas aladas consigo quando vieram de Valíria para conquistar Westeros. Mas enquanto esses dragões do passado não nos são apresentados nas Crônicas de Gelo e Fogo em Game of Thrones, nos resta acompanhar os três filhos de Daenarys, os dragões Drogon, Rhaegal e Viserion, nomes dados em homenagem respectivamente ao seu marido e irmãos, os quais todos acabaram morrendo. 

As feras aladas aparecem ainda como ovos no primeiro livro e na primeira temporada, e ao longo do desenrolar da história vamos acompanhando seu rápido crescimento. No quinto livro os três animais já estão consideravelmente grandes e causam problemas em Meereen. No caso do seriado, a presença dos dragões e o uso deles em ataques e na guerra é mais recorrente, inclusive rouba a cena várias vezes, ainda mais devido aos acontecimentos da sétima temporada, envolvendo eles. 


Daenarys em companhia de seus dragões Drogon (preto), Viserion (branco) e Rhaegal (verde), em cena da terceira temporada e Game of Thrones
Todavia, alguns devem está se perguntando: por que o autor decidiu comentar a respeito dessas criaturas? Já que eles são seres fantásticos e não existem? O que teria haver comentar essas referências? Como os livros e o seriado são baseados em alguns aspectos da Idade Média europeia (476-1453), é preciso saber que as pessoas daquela época realmente acreditavam que monstros fossem reais. Existem relatos orais, escritos e iconográficos que representavam histórias sobre gigantes, mortos-vivos e dragões. 

Na Alemanha, Inglaterra e Escandinávia era comum ouvir histórias de gigantes, (inclusive os gigantes povoam as mitologias de vários povos do mundo), e que em determinadas épocas do ano, especialmente entre os meses de outubro e janeiro, os mortos saiam de seus túmulos em forma física tendo o corpo normal, ou apodrecido, ou só em ossos ou como fantasma. Algumas dessas narrativas eram chamadas de caçada selvagem, marcha dos mortos, noite dos fantasmas etc. Diziam que estes espíritos retornavam ao mundo dos vivos para visitá-los, para se divertir, para se lamentar, para caçar, para viajar ou para assombrar e castigar os vivos. A coisa era tão séria que as autoridades civis e eclesiásticas recomendavam cautela nas noites em que se acreditavam que as fronteiras entre a Terra e o Inferno (pois os mortos que foram ao Paraíso, não voltavam) sumiam. 

Logo, a ideia de um exército e mortos-vivos, algo mais perceptível no seriado do que nos livros, realmente alude as crenças que os povos europeus do medievo acreditavam ser reais. A ideia que hoje possuímos que o natural e o sobrenatural sempre foram facilmente desassociáveis, não é exata. Por outro lado, não eram apenas os gigantes, zumbis e fantasmas que preocupavam os vivos, dragões também eram tidos como criaturas reais, que habitavam cavernas, e lugares ermos, os quais poderiam nadar ou voar e cuspiriam fogo. Os bestiários, enciclopédias sobre animais fantásticos e reais, dedicavam páginas a falar sobre dragões, além disso, tais criaturas eram pintadas e esculpidas mesmo nas igrejas, pois dragões simbolizavam o mal e Satanás. 

Fogo-vivo x Fogo-grego:

Uma das armas secretas usada por Aerys II Targaryen, o "Rei Louco", era o chamado fogo-vivo, um líquido altamente volátil e inflamável, cujas chamas são de um verde brilhante. Este líquido consegue queimar sobre a água e é difícil de ser apagado. Essa poderosa e perigosa substância foi desenvolvida há muito tempo por piromantes da Guilda dos Alquimistas, mas sua fórmula foi guardada em segredo. Inclusive o Rei Louco cogitou incendiar todo Porto Real (capital de Westeros), em um de seus surtos. Apesar de tal atrocidade não ter ocorrido, o fogo-vivo foi usado algumas vezes nos livros e na série. Os momentos mais memoráveis são a destruição da frota de Stannis Baratheon na Batalha da Água Negra, que é descrita no segundo livro e na segunda temporada, e no caso específico da série, o incêndio do Grande Septo, o maior templo de Porto Real. 


O incêndio de fogo-vivo sobre a frota de Stanni Baratheon, durante a Batalha da Água Negra. Cena do último episódio da 2 temporada de Game of Thrones
Todavia, essa poderosa arma química não é coisa da ficção, mas baseada numa arma real, o chamado fogo-grego. Não se sabe exatamente quando tal substância inflamável foi criada, mas atribui-se sua origem aos bizantinos por volta do século VII, os quais desenvolveram uma potente arma química que conseguia queimar intensamente e se espalhava com facilidade. O fogo-grego poderia ser usado como napalm, ou através de um lança-chamas, o quais espirrava chamas ou jogava o líquido volátil sobre as tropas ou embarcações inimigas, em seguida incendiado. 

A fé militante:

Há dois anos George Martin em uma entrevista, confirmou que sua inspiração para a Fé Militante, termo usado para designar a milícia sob comando do Alto Septão, o líder máximo da Fé dos Sete, foi inspirado nos cruzados e nas inquisições. No caso a Fé Militante foi instituída há muitos séculos em Westeros para promover a conversão a força das regiões que ainda não eram devotas dos Setes Deuses. No caso, a Fé Militante era dividida em dois segmentos: os Filhos do Guerreiro, grupo formado apenas pela nobreza, onde os cavaleiros lembravam muito as ordens militares religiosas surgidas na Idade Média no tempo das Cruzadas (XI-XIII). 

O segundo grupo tratava-se dos Pobres Companheiros e como o nome sugere, eram homens oriundos da plebe, os quais ajudavam os Filhos do Guerreiro, mas também exerciam outras funções de apoio, vigilância, fiscalização, perseguição, aprisionamento e execução. No caso, os Pobres Companheiros lembram os familiares que trabalhavam para as Inquisições, pessoas que se voluntariavam para ajudar nos afazeres dos tribunais eclesiásticos, cujo intuito era combater a propagação de heresias diversas. 

Os Pobres Companheiros em uma cena da quinta temporada de Game of Thrones. 
Nos livros e na série, os Pobres Companheiros tem mais destaque, pois a Fé Militante quando fugiu de controle, foi perseguida e banida pela Dinastia Targaryen, com isso eles deixaram de existir por mais de 200 anos. Todavia, Cersei Lannister para ganhar apoio para sua família e o governo de seu filho Tommen Baratheon, elege novo Alto Septão e restitui a Fé Militante, especialmente os Pobres Companheiros, algo que ocorre no quarto livro e na quarta temporada. Apesar que na série, essa milicia foi mais explorada. 

NOTA: Apesar de os Greyjoy usarem um kraken, uma criatura fantástica de origem escandinava, curiosamente nos mitos nórdicos da Era Viking, o kraken não é citado. Essa criatura é apenas mencionada em lendas e no folclore escandinavo séculos depois da Era Viking. 

Fontes:
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Guerra dos Tronos, vol. 1. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2010. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Fúria dos Reis, vol. 2. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2011. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Tormenta das Espadas, vol. 3. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2011. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: O Festim dos Corvos, vol. 4. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo, Leya, 2012. 
MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Dança dos Dragões, vol. 5. Tradução de Marcia Blasques. São Paulo, Leya, 2012.

Referências bibliográficas: 

BUTTERWORTH, Alex. Adriano, o injustiçado. Tradução de Ana Ban. Revista História BBC, v. 3, 2009, p. 26-33. 
DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
FRANCO JÚNIOR, Hilário. Idade Média: nascimento do Ocidente. 2a ed. São Paulo, Brasiliense, 2001.
LANGER, Johnni (org.). Dicionário de mitologia nórdica: símbolos, mitos e ritos. São Paulo: Hedra, 2015.
LOYN, H. R (org.). Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990.
RUNCIMAN, Steven. A civilização bizantina. 2a edição, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1977.

Referências da internet:
Hadrianus
O legado bizantino
Os mongóis
As inquisições
A saga viking
César Bórgia: o homem que inspirou o Príncipe de Maquiavel
Mitos e verdades sobre a "Idade das Trevas"