Pesquisar neste blog

Comunicado

Comunico a todos que tiverem interesse de compartilhar meus artigos, textos, ensaios, monografias, etc., por favor, coloquem as devidas referências e a fonte de origem do material usado. Caso contrário, você estará cometendo plágio ou uso não autorizado de produção científica, o que consiste em crime de acordo com a Lei 9.610/98.

Desde já deixo esse alerta, pois embora o meu blog seja de acesso livre e gratuito, o material aqui postado pode ser compartilhado, copiado, impresso, etc., mas desde que seja devidamente dentro da lei.

Atenciosamente
Leandro Vilar

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O problema dos mitos políticos

Na década de 1980, o historiador francês Raoul Girardet (1917-2013) lançou um importante livro intitulado Mitos e Mitologias Políticas, obra a qual era resultado de anos de debates, pesquisas e estudos envolvendo o imaginário e a cultura política, no intuito de perceber como ao longo da História, as pessoas criaram concepções pessimistas, otimistas e até mesmo idílicas e utópicas associadas aos seus governantes e propostas de governo. Girardet influenciado pelas crises políticas da Europa Entre guerras (1919-1938) e pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e posteriormente da Guerra Fria (1945-1991), redigiu essa obra pautada em quatro grandes mitos políticos por ele sugerido: a conspiração, o salvador, a idade de ouro e a unidade

A proposta não é fazer uma análise propriamente do livro de Girardet, mas comentar com base na sua concepção e de outros autores, como estas categorias de mitos políticos ainda hoje são impactantes nas atuais sociedades do século XX, e como elas ajudam a construir imagens distorcidas, equivocadas, preconceituosas e utópicas de determinados políticos e políticas, ao ponto de que as pessoas se digladiam verbalmente nas redes sociais, defendendo seus mitos como verdades inquestionáveis. E isso não é postura apenas de leigos ou ignorantes no assunto, mesmo historiadores, sociólogos, cientistas políticos, filósofos etc., aderem a estes embates. Neste casos as pessoas não debatem para desconstruir o imaginário encantado destes mitos, mas apenas para mostrar que o seu mito é melhor do que o do outro. Na prática, cada um se agarra com seu mito político, e o põe sobre um pedestal, e ainda diz que está sendo neutro e imparcial. 

O que é mito político?

Hoje em dia convencionou-se associar a palavra mito com a ideia de mentira, falso, ilusão, fantasia. Todavia, mito não se limita apenas a tal sentido. Essa palavra é bem mais abrangente e possuis distintos sentidos. Mito consiste em narrativas que buscam explicar as origens, propósitos e finalidades de algo (mundo, animais, plantas, fogo, chuva, sentimentos, saberes etc.) ou de alguém (deuses, espíritos, pessoas, gigantes, semideuses etc.), ou contam jornadas, buscas, desafios e problemas que possam servir de fator moral, educativo e até mesmo para entretenimento, por consistirem de histórias que em alguns casos envolvam ação, drama, suspense, terror, amor, tragédia, comédia etc. Por esse conceito simplista, o mito não seria uma mentira, mas a representação de uma realidade, de uma perspectiva de visão de mundo.

Mas há alguns poréns. Os mitos apesar de apresentarem noções de mundo, especialmente cosmogônica, teogônicas, antropogônicas, escatológicas etc., não podem ser considerados "falsos" (ou insignificantes), pois consistem no entendimento de determinados povos e suas culturas acerca da origem do mundo, dos deuses, dos seres humanos etc., mesmo que cientificamente não se tem como comprová-los. Todavia, no caso dos mitos políticos a situação é mais delicada. 

Os mitos políticos consistem em concepções imparciais, em conjecturas, expectativas, idealizações, demonizações, preconceitos, juízos de valor etc. Porém, o mito político diferente de outros mitos, está sujeito a ser contestado, verificado, criticado e questionado pela História, Sociologia, Ciência Política, Ciências Jurídicas, Economia etc. No caso, os mitos políticos se referem a formas de governo ou aos governantes. Com isso, temos mitos políticos sobre monarquias, democracias, repúblicas, oligarquias, anarquias, ditaduras etc. Temos mitos políticos sobre reis, presidentes, ditadores, chefes, governadores, líderes em geral. 

As categorias de Girardet: 

a) o mito da conspiração

Como este estudo se pautou na obra dele, se faz necessário apresentar, mesmo que de forma breve as quatro categorias por ele propostas, para depois eu poder utilizá-las em meus próprios exemplos. A primeira categoria que Girardet propôs trata-se do mito da conspiração. Para exemplificar este mito ele citou três narrativas as quais foram escritas na Europa, durante o século XIX: o complô judaico, o complô jesuítico e o complô maçônico. Tais supostas conspirações que alegavam consistir em golpes de Estado pelo controle do Ocidente, adveio da literatura e do jornalismo sensacionalista de países como França, Alemanha, Rússia e Inglaterra. 

Girardet (1986, p. 32-33) comenta que apesar de se tratarem de complôs fictícios criados por escritores ou outras pessoas que visam criar polêmicas, ou que apresentavam alguma antipatia ou revolta contra os judeus, a Companhia de Jesus e a Maçonaria, tais histórias foram publicadas ou lançadas em jornais e revistas, e acabaram ganhando adeptos que realmente passaram a acreditar que aquelas narrativas fossem reais. Que realmente em algum lugar da Europa rabinos, padres jesuítas e grão-mestres maçons estivessem tramando algo tenebroso. 

No entanto, como salientava o próprio autor, não foi apenas a difusão de tais histórias que contribuíram para que as mesmas obtivessem credibilidade. A Europa do XIX era um período de transformações. O continente fervilhava por movimentos políticos, revoltas, guerras, golpes etc. Além disso, a desconfiança com os judeus remonta desde a Antiguidade, tendo vivenciado crises durante a Idade Média em países como a França e Itália, e na Idade Moderna temos casos de expulsões de judeus de Portugal e Espanha. Já Companhia de Jesus também era vista com desconfiança em algumas partes do continente. em Portugal, a mando do Marquês de Pombal, então primeiro-ministro do país, a companhia foi banida do reino e de suas colônias em 1757. Por sua vez, a Maçonaria por ser uma sociedade secreta (ou com segredos, como sugerem alguns), também era vista com desconfiança. Seu extremo sigilo e o fato de muitos maçons estarem envolvidos com a política e a economia, reforçava boatos conspiratórios. É válido lembrar que alguns dos Pais Fundadores dos Estados Unidos foram maçons. Até o primeiro imperador do Brasil, D. Pedro I era maçom. Logo, havia uma suspeita que os maçons tentavam dominar o mundo. 

Raoul Girardet (1987, p. 42-46) comenta que o mito da conspiração está associado a determinados grupos marginalizados como nos três exemplos por ele citados, os quais além de sofrerem preconceito, acabaram sendo taxados como corruptos, inescrupulosos, perigosos, malvados, imorais, mentirosos etc., os quais pretenderiam instituir planos diabólicos para abalar a ordem vigente, fomentar guerras, calamidades ou instituir governos tirânicos e ditatoriais. Tal mito se pauta bastante na angústia, no pânico, na paranoia e no medo de inimigos que tramam as escondidas e a qualquer momento irão tomar o controle de uma cidade ou país. 

b) o mito do salvador:

A segunda categoria por ele sugerida é bastante polêmica, trata-se do mito do salvador. Aqui a ideia de salvador não é tratada num sentido religioso, de referir-se ao homem que ir salvar almas, mas sim num sentido político: a pessoa responsável por salvar a nação, o país, a cidade, o estado, província etc. Neste caso, Girardet (1987, p. 63) cita o exemplo de Antoine Pinay (1891-1994), eleito primeiro-ministro por um mandato breve entre 1952-1953, atestado por alguns como o "homem que salvaria a França de seus problemas". O autor compara a rápida ascensão política de Pinay e as grandes expectativas que parte do povo francês tinham por ele, com o herói da peça Tête d'Or (1890), escrito por Paul Claudel

Girardet é sagaz ao utilizar como elemento de comparação uma obra romanceada sobre a ascensão política de um homem comum, até se tornar mártir de sua pátria, para dialogar a realidade que o povo francês da década de 1950 vivenciava. Para o autor o mito do salvador necessita de um cenário problemático ou de crise para que assim torne-se propício o estabelecimento da ideia de "salvação" ou "única solução". O salvador nesse sentido é comparado a um herói literalmente. Ele será aquele homem que aparentemente é a única solução viável e existente para sanar os problemas que uma cidade, estado ou país vivencia. Ele necessariamente não precisa ser um prefeito, governador, primeiro-ministro, presidente ou rei, ele pode ser um ministro, senador, deputado, militar, militante, sindicalista etc. 

Nesse ponto, Girardet elencou quatro modelos de salvadores. Cada modelo expressa algumas características particulares destes supostos heróis. 
  • Herói da normalidade: trata-se de um homem que dedicou a vida pelo seu país, em geral na carreira política ou militar, mas que com a chegada da velhice, retirou-se para a aposentadoria. Porém, quando a crise se instaura e torna-se forte, a solução é convocar esse velho herói aposentado, para retornar ao combate, para salvar o país mais uma vez. Girardet (1987, p. 72-73) cita alguns exemplos, entre eles o do general Charles de Gualle (1890-1970), veterano da I e II Guerras, convocado em 1958 para salvar a França de uma profunda crise política, que inclusive repercutiu na elaboração de uma nova constituição. Para alguns De Gualle foi um herói militar e político, mas para outros seu governo de dez anos (1959-1969) foi uma ditadura. 
  • Herói da exceção: trata-se do homem da imagem do jovem herói que busca aventura, fama, poder e glória. Que através de sua bravura, dedicação e visionarismo procurava lutar pelo seu país, pelo seu povo. Girardet cita que o melhor exemplo desse modelo era o próprio Napoleão Bonaparte (1769-1821). De carreira prodigiosa no Exército, tornou-se ainda aos vinte e poucos anos um coronel renomado. Apoiou ideias liberais e republicanas, apesar que contraditoriamente tenha governado como ditador e depois tornado-se imperador. (GIRARDET, 1987, p. 75-77).
  • Herói providencial: esse trata-se de um modelo sui generis. Tal herói geralmente é um homem maduro, mas pode ser também velho, possuindo um passado de feitos e conquistas, ou não. Mas em geral esse herói é comparado a ideia do legislador, aquele preocupado em reestruturar a administração e gestão do Estado, não necessariamente em se tornar um novo conquistador, ou viver dos auspícios de suas glórias passadas. Girardet (1987, p. 77-78) cita aqui o caso do Marechal Pétain, presidente da França entre 1940 e 1944, e do próprio De Gaulle em 1958. 
  • Herói da profecia: neste ponto a religião agora adentra o debate político de Girardet. O herói da profecia consiste particularmente naquele tipo de homem que advém ou das camadas inferiores ou superiores, mas que acaba ganhando uma aura religiosa ou mística, associando-o ou não a uma suposta profecia antiga de algum líder glorioso que irá surgir para sanar os problemas do seu povo. Mas no caso francês, Girardet (1987, p. 78-79) cita Napoleão e De Gaulle. Apesar de não haver profecias sobre os dois, ambos em certa época eram vistos quase como profetas de novos tempos. No entanto, Girardet comenta que outra característica do herói da profecia é sua grande eloquência, e a capacidade de ser admirado, amado e de convencer a multidão. Para Girardet, Lênin, Mussolini e Hitler detinham tais características, e de fato, representavam-se quase como "arautos de novos tempos". 
O que se nota nessa categoria do mito do salvador, é que em geral determinadas figuras públicas advindas geralmente do espaço da política e das forças armadas, tornam-se heróis (mesmo que em muitas vezes não tenham feito nada de heroico, e inclusive governado de forma sanguinária), por supostamente atenderem expectativas e clamores de uma população iludida, desconfiada, cansada, revoltada, perplexa e vulnerável. Alguns desses salvadores se aproveitam dessas fraquezas para conseguir lançar suas candidaturas como solução final para os problemas da nação. (GIRARDET, 1987, p. 86-87). 

c) o mito da idade de ouro

Esse consiste em um dos mitos políticos bastante poderosos. Diz respeito ao imaginário que se tem que determinadas épocas e governos que foram ideias ou perfeitos. É comum ouvir de algumas pessoas dizerem que "no tempo do presidente tal... havia emprego para todos, as ruas eram seguras, não havia corrupção, não havia pobreza etc", "na época dos meus pais, a vida era melhor, os políticos eram justos etc". Normalmente a visão de "idades de ouro" está relacionada a nostalgia, a memória individual, a opinião alheia de familiares e amigos, e a uma forte propaganda manipuladora que idealizava o governo. Isso é bastante comum em ditaduras e tiranias, as quais para ocultar seus escândalos, excessos, crimes, censura, desmandos etc., investiam massivamente na propaganda política de que tudo estava bem. 

Girardet (1987, p. 99-101) que essas "idades de ouro" podem ser até mesmo contraditórias. Ele cita casos de autores franceses que falavam do "bom século das Luzes", mas outros já citavam o governo da Revolução Francesa (1789-1799), outros comentavam o reinado de Napoleão (1804-1814), alguns preferiam o mandato de Gualle (1959-1969) etc. 

Em suma, o autor comenta que o mito político da "idade do ouro" é uma construção continua, ou seja, ele começa durante sua época, mas continua mesmo após o término daquele governo. E é nas reelaborações posteriores que em alguns casos esses mitos políticos se tornam ainda mais fortes, quando usados em apelo a nostalgia, ou a discursos conservadores, nacionalistas, extremistas que pautam-se no jargão de dizer que "naquele tempo era bom, tudo dava certo, mas hoje tudo está errado". (GIRARDET, 1987, p. 103-105). 

d) o mito da unidade

A última categoria comentada por Raoul Girardet diz respeito ao imaginário envolvendo ideias de nacionalismo, patriotismo, ufanismo, ordem nacional, harmonia, paz, progresso etc. Tais mitos geralmente são pautados em expectativas e idealizações de pensadores e políticos, os quais escreveram acerca, ou tentaram implantar governos por eles considerados justos com o povo. Girardet comenta as falas do historiador Jules Michelet e do político e advogado Georges Danton, onde ambos defendiam o fim dos preconceitos, e das desigualdade sociais etc. 

Todavia, Girardet (1987, p. 144-145) assinala que as ideias de unidade variam bastante, pois a forma como alguns pretendiam criar um Estado unificado, pode prover de diferentes maneiras de governar, fosse através de democracias justas, oligarquias, monarquias ou até mesmo ditaduras. Em cada contexto, apelasse para determinadas ações e posturas para se construir a ideia de unidade, apesar que nem sempre essa unidade na prática existisse, mas poderia ser uma mera invenção. Um discurso propagandístico divulgado pelo governo central ou alas destes, ou por movimentos revolucionários ou sociais, na ideia de criar um fortalecimento determinados segmentos da sociedade. A Revolução Francesa (1789-1799) é um bom exemplo, como comentado por Girardet. Nela construiu-se todo um imaginário de que realmente o povo francês estava unido para por fim a monarquia e instaurar a república, mas na prática não foi bem assim que aconteceu. 

Alguns mitos políticos do século XX e XXI: 

Nesta última parte do ensaio comentarei um pouco a respeito de alguns mitos políticos vigentes no século XX, que ainda hoje no século XXI causam problemas. Neste caso passarei pelas quatro categorias de Girardet, mas sem me aprofundar, pois isso é tema de um livro, mas aqui optei apenas por fazer um ensaio de reflexão. Sendo assim, começando pelo mito da conspiração, dois deles foram bastantes poderosos no século XX, cada um durante uma metade daquele século. 

O primeiro grande mito da conspiração que acometeu parte do mundo, especialmente a Europa, na primeira metade do século XX, foi o antissemitismo, especialmente oriundo da Alemanha. Apesar de discursos antissemíticos remontarem séculos na Europa, durante o século XIX ele voltou a ficar a tona como comentado por Girardet, mas também motivado pelo racismo científico, o qual pautado no evolucionismo darwiniano e algumas pseudociências da época, voltou a reafirmar a ideia de existência de raças humanas, e a supremacia de determinadas raças sobre outras. Quando chegamos a década de 1920, época que Adolf Hitler (1889-1945) estava preso pela tentativa de golpe de Estado promovida em 1923, em Munique

Ele ao escrever seu livro Minha Luta (Mein Kampf), defendia o discurso político do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, apelidado posteriormente de Partido Nazista, assim como, atacava o marxismo, o socialismo e o comunismo, apesar que nessa época o comunismo ainda não era um "grande mal" que viria a se tornar durante a Guerra Fria. Porém, além desses ataques a ideologias políticas de esquerda, Hitler também apoiou-se no racismo científico para fundamentar sua teoria da raça ariana e seu desprezo pelos judeus, os quais eram acusados por ele de terem conspirado pela derrota da Alemanha, durante a Primeira Guerra (1914-1918), e de outros males pelo qual o país vivenciava. 

O discurso de ódio de Hitler aos judeus não era novidade, mas ganhou com ele evidência e grande apoio, principalmente após assumir como Chanceler da Alemanha em 1933. Durante seu governo totalitário, Adolf Hitler decretou caça aos judeus, no que veio a se tornar o Holocausto, um dos maiores genocídios (extermínio de um povo) dos últimos cem anos. Mesmo em países que não haviam aderido a essa suposta conspiração judia, mas ao se aliarem ao governo nazista ou por ele passarem a ser dominado, contribuíram para fomentar a morte aos judeus. 

Mas ainda falando sobre o nazismo, ele por si só concentrou todas as quatro categorias de mitos políticos proposta por Girardet. Temos a conspiração por parte dos judeus, temos o mito do salvador com o próprio Adolf Hitler, que se encaixa no modelo do "herói da profecia", sugerido por Giradert. Pois Hitler apresentava-se como o único capaz de guiar e governar a Alemanha, restaurando sua grandeza (mito da idade de ouro), e construindo uma pátria firme e sólida (mito da unidade). Tais mitos políticos foram tão poderosos que Hitler era amado por grande parte da população alemã, inclusive muita gente nem sabia que o Holocausto era na verdade, e achavam que a guerra que estava sendo feita, era justa e digna de ser lutada. 

Com a queda do regime nazista em 1945, pelo menos nos 20 anos seguintes, a população ainda ficou incrédula quando descobriram as fraudes, mentiras e horrores que o pacífico, próspero e grandioso Estado alemão do Terceiro Reich havia deliberadamente ocultado. Tentar convencer principalmente aqueles que viam o Führer como um herói, um salvador, um líder perfeito, foi difícil, pois tendemos a nos tornar incrédulos quando descobrimos que nossos heróis eram monstros. A negação é uma das primeiras reações, depois vem o silenciamento e depois o esquecimento como comentaram Michael Pollak (1989) e Paul Ricoeur (2007). 

Mas não foi apenas os alemãs que vivenciaram isso. Os italianos passaram pelo mesmo com a queda do Fascismo em 1945, e os russos com a morte de Stálin em 1953. Mencionando a Rússia, passemos para comentar a respeito de seus mitos políticos. Depois retomo o caso do fascismo que ainda hoje gera polêmica. 

O Comunismo apesar de ser uma doutrina político-social-econômica que remonta desde o século XVIII, embora foi melhor formalizada no século XIX, tendo como algumas figuras centrais o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), na prática nunca foi implantado segundo a teoria marxista, acabou sendo deturpado por outros autores e políticos, e por fim, tornou-se um grande vilão. Como dito um pouco acima, dois grandes mitos de conspiração marcaram o século XX, o primeiro foi a conspiração judia que desembocou no famigerado Holocausto dos nazistas, o segundo, trata-se da suposta conspiração comunista para dominação global. Mito esse tão forte que ainda hoje em 2017 ele é sentido. 

O comunismo somente começou a ganhar destaque mundialmente a partir da Revolução Russa de 1917, onde os revolucionários Vladimir Lênin (1870-1924) e Leon Trotsky (1879-1940), só para citar os principais, pois havia outros, no caso tentaram por meio da luta armada instaurar as bases de um "novo comunismo", já que a doutrina proposta por Lênin e Trotsky divergiam em alguns pontos da teoria descrita por Marx. Com a queda da monarquia russa, um governo revolucionário foi instaurado, vindo a originar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que perdurou de 1922 a 1991, com mudanças na sua forma de governo. 

Com a morte de Lênin em 1924, Trotsky passou a disputar com Jósif Stalin (1878-1953) o comando da URSS. Stalin que era de caráter mais irascível, megalomaníaco e radical ameaçou Trotsky de morte, o que o obrigou a deixar a Rússia, com isso Stalin assumiu o cargo de Primeiro-Ministro, vindo a governar como um ditador totalitário. Sua visão de comunismo e socialismo eram bem deturpadas, pois enquanto Lênin e Trotsky eram estudiosos e possuíam conhecimento de ciência política, Stalin foi um militante exaltado e egocêntrico. Acreditava que a única forma de poder implantar sua visão de comunismo era através da força.

Durante seu longo governo de 1922 a 1953, tendo assumido distintos cargos, apesar que na prática governou como um ditador totalitário, Stalin também construiu a imagem dos quatro mitos políticos aqui estudados. Ele se mostrava como o salvador do povo russo e das demais repúblicas soviéticas, defendia uma idade de ouro que não estava no passado, mas que estava sendo construída; alegava que os nazistas conspiraram para derrubá-lo, assim como, alegava que os EUA conspiravam para sufocar seu próspero e generoso governo. Defendia a unicidade ao expandir a URSS para outros países. 

Devido a rivalidade política, econômica, militar e tecnológica da URSS com os EUA durante a Guerra Fria (1945-1991), o governo americano e outras nações capitalistas decidiram criar o mito da conspiração comunista. Pautado em calúnias, fraudes e nas atrocidades cometidas pela ditadura stalinista, a propaganda anticomunismo deturpava as doutrinas comunistas propostas por Marx, Lênin, Trotsky e outros teóricos, tornando-a apenas sinônimo de ditadura totalitária. O stalinismo que foi um tipo de governo social-comunista, acabou tornando-se modelo para toda as outras doutrinas comunistas, e assim, foi objeto de ódio, aversão, difamação e um monstro que deveria ser combatido. As propaganda anticomunistas foram massivas sobre vários cantos do mundo, especialmente na Europa e na América Latina. 

A ideia de que viver sob um governo comunista era viver como pobre, ignorante e escravo foi tamanha que muita gente realmente acreditava que isso fosse verdade, apesar que a URSS pôs Stalin começou a mudar sua posição política. Por outro lado, o fato de que outras ditaduras comunistas foram implantadas como o governo de Mao Tsé-tung (1949-1976) na China, o de Ho Chi Min (1945-1979) no Vietnã, o governo de Fidel Castro (1959-2008) em Cuba, o de Kim Il-sung (1948-1994) e do seu filho Kim Jong-il (1994-2011) na Coreia do Norte, contribuíram para tornar ainda mais manchada a imagem do comunismo, o que o fez não apenas tornar-se um mito de conspiração que ameaçava "corromper, desvirtuar e destruir o mundo", mas torná-lo um monstro que deveria ser combatido a todo custo. 

A imagem do comunismo deixou de ser o conspirador para se tornar o "mito do grande inimigo", algo que Girardet não comentou em seu livro, mas basicamente se trata na concepção de tornar algo abominável, diabólico, imprestável, perturbador, ao ponto de ser temido, e com isso desenvolver-se discursos de repulsa, desaprovação e até mesmo de ódio. Tais características foram tão fortes e verdadeiras que foram usadas como pretexto para se instaurar ditaduras militares e civis na América Latina e na África. Países como o Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Peru, Bolívia e Equador foram regidos por ditaduras militares que alegavam combater a ameaça comunista que pairava para tomar as nações latino-americanas. Tal ameaça havia se apossado de Cuba, havia ameaçado El Salvador e o Chile, e agora tentava promover um suposto golpe de Estado generalizado pela América do Sul. 

A questão do mito do comunismo como "inimigo do mundo" foi tão severa, que ainda hoje no Brasil, há gente que diz que a ditadura militar (1964-1985) evitou do país ser governado por comunistas, apesar que as Forças Armadas nunca apresentaram provas concretas de uma suposta invasão cubana-russa ou golpe de Estado interno, de guerrilhas treinadas e armadas por Cuba e a Rússia. Sem contar que a maioria das guerrilhas que foram caçadas e destruídas pelo Exército, atuaram por poucos anos entre 1965 e 1970, consistindo em geral de grupos mal treinados, mal equipados, descentralizados e despreparados. Ora, se havia todo um complô gigantesco com direito a apoio, armamento, suprimentos, homens e logística externa, onde estava isso na hora da ação? Por que não encontramos relatos, provas, evidências, testemunhos de todo essa aparato gigantesco? Por que o Exército nunca se posicionou oficialmente acerca de como sabiam que havia uma ameaça de golpe comunista em 1964?

Todavia, mesmo a Guerra Fria tendo terminado em 1991, uma suposta ameaça comunista ainda paira por partes do mundo, especialmente na América Latina. Apesar que haja hoje poucos países de ideário comunista como Cuba e Coreia do Norte, já que a China e o Vietnã se apresentam como governos socialistas, mas de economia de mercado aberto (uma predisposição capitalista), ainda assim, países socialistas como Bolívia, mas mais recentemente Venezuela, são vistos como ameaças. Há quem diga que Evo Morales e Nicolas Maduro tenham planos secretos para expandir o "comunismo maléfico" ao lado de Raul Castro, sobre a América Latina. Sem contar que as ameaças e blefes do atual governante da Coreia do Norte, Kim Jong-un contra o Japão e os Estados Unidos, novamente reacende esse mito de conspiração em alguns casos, mas também o mito do grande inimigo, que se encontra mais em voga. 

No entanto, não é apenas o comunismo que se tornou vítima do "mito do grande inimigo", o capitalismo passa pelo mesmo. No caso é comum ouvir gente falar que "o capitalismo financia as guerras para vender armas e para roubar recursos", "que o capitalismo fomenta a fome no mundo, por não tornar os alimentos acessíveis a preços baixos para populações carentes", "que o capitalismo financia as doenças, ao negar-se lançar curas para a AIDS, cânceres e outras doenças", "o capitalismo selvagem ignora o bem-estar do trabalhador, passando a atuar como um sanguessuga" etc. 

Aqui nos deparamos com dois problemas graves: a discórdia e a negação. Em geral quem é adepto de ideias socialistas, marxistas e comunistas defende que sua doutrina é perfeita, que é isenta de falhas, que é a única solução para os males do mundo. No outro lado, quem defende ideias liberais, nacionalistas, nacionais-sociais, capitalistas etc., também dizem o mesmo, ou seja, que suas doutrinas são perfeitas, são isentas de falhas, que são as únicas soluções para os problemas do mundo. E se os problemas existem não são culpa do capitalismo ou das ideologias de direita. 

Logo, quando jogamos isso para o debate político, ambos os lados se tornam gladiadores fanáticos e sedentos de sangue, recusando a todo custo que estejam errados, e defendendo com unhas e dentes que são a certeza absoluta. Com isso os adeptos das doutrinas de direita e de esquerda, acabam adquirindo essa discórdia, e contribuem para espalhá-la e torná-la ainda mais grave. Tal desentendimento me faz lembrar de uma frase de Winston Churcill o qual disse que "A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes". 

Assim o problema da direita e da esquerda hoje em dia é resultado de dois mitos políticos que não foram comentados por Girardet; o "mito do grande inimigo" como eu sublinhei, e agora o "mito da doutrina perfeita", que basicamente resume-se a dizer que uma determinada doutrina seja ela de caráter político, econômico, social, moral, religioso, cultural e legal, apresenta-se aos olhos de seus adeptos e defensores como perfeita, sem falhas, como sendo a única solução viável. 

Isso caros leitores é algo muito perigoso, pois beira o fanatismo político. Inclusive é tão sério que é comum ver gente tentando distorcer os fatos históricos para justificar seus pensamentos ideológicos e doutrinários, como tentar dizer que o Nazismo e o Fascismo eram ideologias de esquerda, mas na prática eram de extrema-direita, pois a ideia é preservar a direita como pura e santa, mas jogar na esquerda essas duas ideologias, como forma de corroborar sua perversidade, insanidade e crueldade. Aqui novamente caímos na problemática do "mito da doutrina perfeita". "Minha ideologia e doutrina política nunca fez isso. Só pode ser culpa da esquerda, pois todo "esquerdista" é alienado e fanático", ou por outro lado, "O mundo está pobre e miserável por causa do capitalismo ganancioso e explorador. Toda direita é tola, ignorante e fanática". 

Mas além desse maniqueísmo político entre Direita e Esquerda, para ver quem é mais vilão ou mais perfeito, os mitos da idade de ouro, do salvador e da unidade também estiveram e estão bem-vivos. Citarei alguns casos brasileiros devido a proximidade que possuo. 

Apesar de a Ditadura Militar ou Civil-Militar ter terminado em 1985, ainda hoje é comum ouvir pessoas defendendo aqueles 21 anos como a melhor época do país, pois não houve nenhum problema. No caso, a ditadura militar brasileira ainda perdura após esses 32 anos como sendo um mito da idade de ouro. Em geral as Forças Armadas se mantém silenciosas sobre o assunto. Porém, é comum encontrar saudosistas ou adeptos de ditaduras alegar que aquele governo não foi ditatorial, e não teve problemas, nesse ponto eles tomam a postura ainda de negação, como comentado anteriormente. 

Com isso é fácil encontrar nas redes sociais pessoas pedindo intervenção militar, dizendo que não houve ditadura, que todos os males e problemas ali ocorridos como: censura, perseguição política, assassinatos, sequestros, tortura, campos de concentração indígena, espionagem, invasão de privacidade, desaparecimentos, subtração dos direitos civis e jurídicos, violência legitimada etc., não passam de invenção, especialmente acusam a "Esquerda" disso. Novamente se percebe aqui a Esquerda surgindo como o demônio que atenta contra o mito da "idade de ouro" da ditadura que não foi ditadura. 

Ainda neste exemplo, a condição de ter gente que ignora ou nega a realidade política daqueles 21 anos de governo e atualmente no cenário de crise político-social que o Brasil vivencia, não é incomum ver pessoas conclamando os militares como "salvadores" e "restauradores da unidade nacional". Percebe-se assim três mitos políticos comentados por Girardet os quais confluem num mesmo exemplo. E o curioso não é o fato apenas de muita gente que pede isso não conhecer mais a fundo os tempos da ditadura, mas não entender nem se quer o papel constitucional das Forças Armadas, pedindo coisas que não são funções ou atribuições delas. 

Todavia, esses mitos da "idade do ouro" e da "unidade" não são vistos apenas no Brasil, até mesmo no Estados Unidos, o atual presidente Donald Trump durante sua campanha utilizou o slogan "Make America Great Again", evocando aqui ambos os mitos supracitados, defendendo restaurar um período áureo para o país, o qual vivenciou a pior crise econômica da sua história recente entre 2008 e 2011, além de defender um nacionalismo conservador e um patriotismo hostil. Para Trump a "unidade nacional" só poderá ser preservada dificultando a migração, nacionalizando ainda mais a economia, dificultando o emprego para estrangeiros que residem no país, e até mesmo rompendo acordo unilaterais e bilaterais com velhos aliados. Sua ideia é manter o povo americano em primeiro lugar, mesmo que isso signifique segregar quem seria o "povo americano" e ter que passar por cima dos outros. 

Mas caminhando para o fim desse texto, um mito de conspiração que tem crescido na última década, diz respeito a tentativa de islamização da Europa. Se no começo do século passado os judeus sofreram perseguições, discriminação e hostilidade por supostamente tramarem derrubar governos e impor sua fé e costumes, atualmente são os muçulmanos que vivenciam isso. A crescente migração legal e ilegal de populações oriundas de nações islâmicas da Ásia e África, fugindo por causa da miséria, fome e da guerra, levou algumas pessoas a suscitarem que o Islã esteja planejando tomar o controle do continente europeu. 

E a situação piora devido aos atentados terroristas de grupos como o Estado Islâmico, e a propaganda hostil de xenofobia e de intolerância religiosa. Isso é tão sério que em países como Grécia, França, Alemanha, Suécia e Noruega já houve conflitos com migrantes muçulmanos acusados de serem terroristas, ou de tentarem "doutrinar" a população. E a situação está longe de acabar. O partido fascista grego Aurora Dourada já se declarou contra a migração de muçulmanos, e inclusive de propor proibição do islã no país. Por sua vez, mais recentemente o Partido Alternativa para Alemanha, de postura de extrema-direita conquistou vagas no parlamento alemão, o Bundestag. O Alternativa para Alemanha se apresenta como nacionalista conservador, e inclusive é acusado de ser de tendência xenofóbica e racista, por algumas declarações feitas. E um dos alvos do partido são os imigrantes muçulmanos. 

Considerações finais:

Nesse ensaio de poucas páginas apresentei alguns aspectos da teoria de Rauol Girardet a respeito dos mitos políticos, quatro em questão: conspiração, salvador, idade do ouro e unidade. Assim como, completei essas categorias com meus próprios exemplos, como os mitos do grande inimigo e da doutrina perfeita. 

O que deixo como reflexão final é que não tem como extinguir os mitos políticos. Eles existem há séculos em diferentes sociedades, e em determinadas épocas alguns estão mais em evidência do que outros. Mas há momentos que todos estão coexistindo e até mesmo podem apontar para o mesmo referencial. Isso se deve a condição de que o ser humano necessita crer em algo, mesmo que signifique crer em mentiras, boatos ou histórias sem fundamento ou com teor distorcido. 

Os mitos políticos são construções partidárias, ideológicas, parciais pautadas em interesses, sendo estes os quais podem promover elementos positivos e construtivos, ou elementos negativos e destrutivos. Nenhum mito político está isento de crítica histórica, social, política etc. Mesmo que não saibamos que sejam seus idealizadores ou quando exatamente e onde começaram, todo o mito político tem um objetivo: promover algo, seja para benefício ou malefício. É um jogo de interesses que mexe com expectativas, oportunidades, emoções, decisões, sentimentos, crenças. 

Tais mitos podem ser a inspiração ou esperança de alguns, mas também podem servir de fator para a repulsa, a descrença, o ódio, a discriminação. Esses são os problemas dos mitos políticos. Tentar desconstruí-los não é fácil e é algo delicado. Quanto mais enraizado, influente e forte for um mito político, haverá muitos obstáculos para desmascará-lo ou pelo menos tentar convencer seus adeptos de que ele não é tão correto assim. 

Com isso o problema dos mitos políticos é o fato de que cada um que crer em algum tipo destes mitos, dificilmente está sujeito a deixar sua zona de conforto, preferindo negar, silenciar, esquecer, omitir ou atacar. Em geral hoje em dia, a negação e o ataque são as decisões mais escolhidas. É preferível crer cegamente que seu mito esteja totalmente certo, do que parar para avaliar no que você está crendo cegamente. Em alguns casos você pode ser um fanático político e nem ao menos se dar conta. Ou por outro lado, você pode está aí propagando e defendendo mitos políticos que se baseiam em informações erradas, distorcidas, falsas, manipuladas, mas que você propaga como verdades absolutas. 

A condição das pessoas não aceitarem que seus mitos políticos possam ser construídos em mentiras, em falseamentos e manipulações contribui para a discórdia, a violência, o ódio, o preconceito, a discriminação, que diariamente são propagados pela mídia, mas especialmente pelas redes sociais, meio pelo qual a maioria das pessoas em muitas países tem acessos a distintas informações. Sem contar que existem blogs, jornais, revistas e grupos nestas redes sociais, especializados em causar polêmica, em fomentar discussões fúteis, em promover informações deturpadas apenas para reiterar seus mitos políticos. Esses são alguns dos problemas dos mitos políticos hoje em dia, a falta de bom senso, autocrítica, ponderação e sabedoria. Estamos num ponto que debater política já não é mais falar de política, mas da luta entre o Bem e o Mal, como ver em obras de ficção. 

Referências bibliográficas:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução de Alfredo Bosi. São Paulo, Martins Fontes, 2007. 
BOBBIO, Norbert; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfraco (orgs.). Dicionário de política. 11a ed. Tradução de Carmen C. Varriale [et. al]. Brasília, Editora da UnB, 1998. 2v
GIRARDET, Raoul. Mito e Mitologia Políticas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo, Companhia das Letras, 1987. 
SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. 2a ed. São Paulo, Contexto, 2005. 

Links relacionados:
Bem-vindo a Utopia
O que é o fascismo?
Os movimentos nazi-fascistas e a eclosão da II Grande Guerra
A Ditadura Militar Brasileira (1964-1985) foi realmente uma ditadura?




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nota sobre o ato de celebrar o 7 de setembro

No Brasil, o dia 7 de setembro se comemora a Independência do Brasil, ou seja, a separação político do Reino do Brasil do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1816-1822), que fomentou o surgimento de um Estado-nação regido por um governante próprio, que no caso foi o imperador D. Pedro I e sua corte, estabelecida no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Todavia, Portugal negou-se a reconhecer essa independência que era vista como um golpe de Estado, uma rebelião, revolta, uma afronta. 

Parte da população das capitanias da Bahia, Pernambuco, Ceará, Piauí e Maranhão se manifestaram contrários a independência. As outras capitanias também se manifestariam depois. Essa oposição se deveu ao fato de que alguns defendiam a permanência do Brasil no reino unido, outros por sua vez, queriam a fundação de uma grande república, ou repúblicas regionais. Somando a essas dissidências havia o fato de que os indígenas e negros não eram cidadãos, mesmo durante a colônia, e com o advento do Estado-nação do Império do Brasil, não ganharam nenhuma promoção, continuaram a serem deixados de lado da vida política, e até da dignidade social. E para completar, D. Pedro I de 1823 e 1825 ordenou campanhas militares para derrotar e silenciar os focos de oposição e resistência, de forma a consolidar o processo de emancipação político de Portugal. 


Entretanto, se de fato sabemos que a Independência do Brasil foi um movimento orquestrado pelas elites especialmente do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, que almejavam uma ruptura de dependência político-econômica com Portugal, pois na prática, manter-se como reino unido, a vista deles não estava sendo favorável para seus negócios, seria válido celebrar essa data que marca o nascimento do conceito de pátria brasileira?

Na presente data de hoje, fui confrontado de forma até mesmo afrontosa por outros historiadores que me acusaram de celebrar o 7 de setembro, pois fazer isso era celebrar um golpe de Estado; era celebrar a escravidão; era celebrar a opressão; era celebrar a monarquia; era compactuar com a manutenção de práticas coloniais desumanas; além disso, era ser imparcial, tolo, ignorante, alienado, pois o historiador antes de celebrar algo deve ser crítico, e quando for, não deve tomar partido. Deve manter-se neutro. Essas últimas palavras soaram da boca de alguém que diz que a monarquia não prestou e não merecia nem se quer ser lembrada. Mas isso não é tomar partido? Onde está a neutralidade?

Fiquei espantado com o nível e conservadorismo desses historiadores em dizer que o 7 de setembro não teve nenhuma utilidade histórica! Foi um golpe para criar uma monarquia escravocrata. Nesse ponto, a neutralidade do historiador torna-se hipocrisia, e aqueles que não dizem ter preconceitos, revelam os seus, como feras raivosas para rasgar a garganta daquele que quer cantar o hino nacional, ou participar do desfile cívico, ou dizer para o filho que somos hoje um país independente, com uma constituição, com leis, com tradições, com símbolos nacionais, com costumes, com culturas, como problemas etc., mas ainda sim, somos um país livre. Mesmo que a nossa liberdade, nosso Estado de direito, tenham começado sobre os ombros da escravidão, de genocídios, do colonialismo, do mercantilismo, de revoltas e guerras. 

Mas me indago: que país no mundo nasceu de forma pacífica? Que país do mundo não possui em sua história momentos de violência, ódio, sangue, morte, guerra, desordem, miséria, corrupção, desigualdade, crise? Israel, uma nação criada em 1948 é reflexo de três mil anos de conflitos! Embates estes que ainda hoje continuam, mas para muitos que ali vivem, é o seu lar, sua identidade, sua pátria, sua esperança, seu sonho, suas tragédias, seus pesadelos. E no âmbito religioso é um lugar santo!

Seria demasiadamente querermos sermos utópicos em pensar que o Brasil se não tivesse se tornando independente em 1822, poderia anos depois ter se tornado uma honrada e justa república? Nunca saberemos. A história não é feita de projeções futuras. 

Independência ou Morte, Pedro Américo, 1888. Neste quadro o pintor paraibano retratou de forma romanceada a proclamação da independência. Segundo alguns historiadores isso é a representação de um golpe fomentado pelas elites cariocas, paulistas e mineiras, sem a participação de outros segmentos da sociedade, e sem levar em consideração os escravizados. 
De fato, a monarquia brasileira não foi aquilo que milhões de brasileiros esperavam. A monarquia não aboliu a escravidão logo de início; manteve o poder moderador, ao invés de tê-lo suprimido; D. Pedro I não foi um bom governante, D. Pedro II foi um governante razoável até certa época; não houve desenvolvimento industrial, tecnológico, educacional, científico, social como esperado de outras monarquias da época. A pátria brasileira nasceu em berço de ouro, mas cresceu de forma mimada. 

Diante de tudo isso, poderíamos dizer que é inválido celebrar a nossa independência? E segundo, querer celebrá-la é compactuar com a monarquia, com a escravidão, com o colonialismo explorador? Se for assim, celebrar o 14 de julho na França, data de início da Revolução Francesa (1789-1799) não é apenas defender a democracia, o republicanismo, os direitos civis, a constituição, a modernidade etc., mas também é compactuar com o autoritarismo dos revolucionários, a arbitrariedade nos julgamentos, os complôs, as traições, os crimes, as perseguições políticas, a violência, as execuções em massa nas guilhotinas, a manutenção de colônias e da escravidão. 

Celebrar o 4 de julho de 1776, Independência dos Estados Unidos não é apenas comemorar a origem de uma república, a formação de uma nação, a criação de uma constituição, mas também é compactuar com a guerra, o genocídio indígena, as perseguições, complôs, traições e até mesmo com a escravidão negra, afinal, essa somente foi abolida em 1865. E nesse ponto é algo curioso, pois os historiadores que me disseram que não era válido celebrar o 7 de setembro, por ser um golpe de Estado, que legitimava um governo monárquico escravocrata, dizem que o 4 de julho foi uma revolução digna, e revoluções devem ser celebradas. Então eu me pergunto: mesmo revoluções que perpetuam a escravidão? O problema era a escravidão (que realmente é algo terrível), ou o problema é não ter sido uma república revolucionária?

Declaração de Independência dos Estados Unidos, John Trumbull, 1818. Segundo os historiadores que condenam a Independência do Brasil,  por ter sido fruto de um golpe que instaurou uma monarquia escravocrata, no caso americano, isso foi um ato revolucionário que contou com a participação de vários segmentos da sociedade. Mas nessa pintura só vemos a elite branca reunida, sem contar que neste momento, não houve abolição da escravidão. Os EUA nasceram como uma república escravocrata. O problema era só a escravidão ou foi o Brasil ter surgido como uma monarquia?
Acredito que devemos sim celebrar o 7 de setembro, tenha sido ele um triunfo, ou um golpe, ou uma farsa, ou um complô ou uma discórdia. Devemos celebrá-lo mesmo que ele não tenha sido a esperança que se esperou na época, mesmo que ele tenha mantido em funcionamento desigualdades, preconceitos, injustiças, opressões, sistemas políticos-econômicos-sociais-ideológicos que hoje são abomináveis e não deveriam voltar a se repetir. Porém, cada tempo é único. O nascimento do Brasil é fruto de sua época. Uma época em vários aspectos ainda em desenvolvimento e de transformações sociais, científicas, religiosas, morais, culturais, econômicas etc. 

Seria demasiadamente prepotência nossa condenar o surgimento da nação brasileira, por discordamos de como ela surgiu e como ela se manteve? Eu também não concordo como a independência foi feita, ou muito menos concordo com certas decisões, políticas e escolhas que foram feitas e mantidas durante o império. Mas é preciso reconhecer que a História não é um conto de fadas que mesmo com os perigos e problemas, nos aguarda com um final feliz e reconfortante. Se queremos aceitar o 7 de setembro, que o aceitemos junto aos seus horrores, e não negá-los, porque eles nos incomoda. Agir assim é similar a aqueles que dizem que a Ditadura Militar (1964-1985) não teve problemas e não foi um período ruim, mas tempos dourados de imaculada justiça e democracia. É querer enxergar apenas um lado, no caso, aquele que lhe convém, que lhe conforta, o seu "conto de fada". 

Por mais que você diga que não concorde com a independência feita por D. Pedro e os demais, com a criação do império e suas políticas, isso é direito seu. Mas dizer que devemos ser neutros, mesmo que você já tenha claramente tomado seu partido, e ainda mais, dizer que não tomou partido, mas condena aquele que o fez, é ser no mínimo hipócrita, desonesto. É mais sensato dizer que você odeia a colônia e o império, mas louva a república (mesmo com seus problemas), do que falar que está sendo neutro, imparcial, crítico. Ou é mais sensato dizer que você admira o império (mesmo como seus problemas), mas não gosta da atual república brasileira de hoje. 

Por fim, eu digo, se queres celebrar o 7 de setembro, celebre-o, mas seja bravo suficiente para aceitar toda a bagagem histórica que essa data, esse marco histórico traz consigo. Não queira entoar o hino e achar as mil maravilhas, negando que o país nasceu sobre genocídio de povos indígenas, a escravidão negra e indígena, guerras, invasões, revoltas, conspirações, traições, corrupção, crimes e outros problemas sociais. Seja valente em querer erguer a bandeira verde e amarela é dizer que "o meu país passou por terríveis momentos, tanto na época da colônia, do império e da república, mas é meu dever lutar por um presente e um futuro melhores, que as tragédias e horrores do passado não voltem a ocorrer!". 

Penso que isso seja ser patriota, e não ficar tentando esconder a sujeira debaixo do tapete como alguns fazem, ou ficar de verborragia contra aqueles que denunciam as mazelas, ou ser hipócrita, dizendo que não toma partido, se já o fez desde o início. Reconhecemos nossa história e lutemos para fazer um país melhor e não ficar em aporia porque o passado foi assim, e não do jeito que eu queria.