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Leandro Vilar

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Jacob Fugger, o Rico

No século XVI um dos homens mais ricos da Europa, não era um rei e nem nobre, mas um burguês alemão do ramo bancário e mercantil, que se tornou tão rico, que diziam que sua fortuna era superior a de alguns monarcas europeus. E ele a usou para crescer na vida, conquistando autoridade, dinheiro, influência e poder. Chamado por alguns de "o homem mais rico do mundo", ou o "homem mais rico da Europa", ou "o banqueiro dos reis e papas", Fugger ao longo de sua carreira como mercador, empresário e banqueiro contribuiu não apenas nas finanças, mas em assuntos de ordem política e militar. Nesse texto, comentei um pouco a respeito de alguns momentos importantes da sua vida. Além disso, os dados biográficos sobre sua vida pessoal são escassos. Muito que se sabe da sua história tem relação com sua carreira como banqueiro e mercador. 


Retrato de Jacob Fugger II, o Rico. Século XVI. 
Introdução: 

Os Fugger eram uma próspera família de comerciantes de tecidos, que viviam na cidade Augsburgo, na província da Baviera. Um dos estados que formavam na época o Sacro Império Romano-Germânico. No século XV, Augsburgo apresentava-se como um polo econômico promissor, especialmente para negócios de tecidos e roupas, do qual faziam parte os Fugger. Estes compravam a matéria-prima de fazendeiros e artesãos das vizinhanças e os vendiam em feiras em Frankfurt, Colônia e até mesmo os exportavam para as regiões alpinas e Veneza. O negócio de tecidos da família teve início por volta de 1379, quando Hans Fugger, o qual já vivia na cidade desde 1367, decidiu abrir uma loja de tecidos. O negócio deu certo e seus filhos e netos deram continuidade. (STEINMETZ, 2015, p. 12-14).


Jacob Fugger I, o Velho
Jacob Fugger II nasceu em 6 de março de 1459, sendo o décimo filho que o casal Jacob Fugger I, o Velho (1398-1469) e Barbara Bäsinger Fugger (1419-1497) tiveram. Jacob era comerciante de tecidos, seguindo o ofício do pai. Por sua vez, Barbara era filha de Ulrich Bäsinger, um próspero ourives e vendedor de prata. (GRAULAU, 2008, p. 556). O casal Jacob I e Barbara tiveram sete homens e três mulheres. Dos filhos homens, dois morreram ainda jovens, mas os demais chegaram a fase adulta, destacando-se Ulrich, Peter e George nos negócios, e Markus como padre. Quando completou dez anos de idade, Jacob, o Velho faleceu. Os negócios da família passaram a ser administrados por sua esposa. Como Jacob II era o mais novo de sete homens, sua mãe decidiu dar outro rumo a ele. Enquanto seus irmãos cuidavam dos negócios comerciais da família, Barbara queria que o filho caçula seguisse carreira na Igreja. (STEINMETZ, 2015, p. 12, 16).

Apesar de não querer se tornar padre, Jacob II nada pode fazer nada a respeito. Foi enviado para estudar num seminário beneditino, na vila de Herredien, perto de Nuremburgo. Um dos seus irmãos, Markus Fugger era clérigo também, logo, esperava-se que ele seguisse os passos desse irmão, porém, Jacob tinha seus próprios interesses. E sua mãe percebeu isso. Após cerca e dois anos estudando no seminário de Herredien, Barbara Jacob desistiu da ideia da carreira clerical, então enviou o filho para Veneza, onde se encontravam seus irmãos Ulrich (1441-1510) e George (1453-1506), que trabalhavam lá como revenderores de tecidos importados. (STEINMETZ, 2015, p. 17). 

Na época, a cidade de Veneza já possuía uma população acima dos 200 mil habitantes, o que tornava Augsburgo numa cidadezinha. Mas além da grande população para a época, a cidade era polo financeiro e comercial do sul da Europa. Mercadorias vindas da África e Ásia passavam por ali. Vinhos franceses, italianos, portugueses, brocado persa, seda chinesa, marfim de elefantes, joias, ébano, especiarias árabes e indianas, ouro, prata, cobre, ferro, armas, pólvora, etc. Devido a essa profusão de mercadorias, Veneza também era o local que não apenas circulava o dinheiro, mas interesses, luxo, poder e contatos. Os irmãos Fugger, Ulrich e George souberam usar isso bem. Em 1473, os Fugger conseguiram fechar alguns contratos com a poderosa família real dos Habsburgs da Áustria. O êxito nesses acordos, renderam aos Fugger um brasão familiar. 


Brasão de armas dos Fugger.
As minas de prata de Tirol: 

Enquanto seus irmãos mais velhos dirigiam os négocios de família, Jacob estudava finanças, matemática e comércio. Porém, ainda na adolescência começou a se envolver no comércio de tecidos da família. Aprimorando sua experiência nos anos seguintes, já que viveu em Veneza até 1487, antes de retornar para Augsburgo. Na década de 1480 um plano ousado foi posto em prática pelos irmãos Fugger, o investimento no ramo minerador. A Europa daquele tempo estava expandindo-se, era necessário metais para suprir essa demanda. No caso, haviam regiões do continente que possuíam estes metais, embora ainda fossem pouco exploradas. Os Fugger começaram a comprar pequenos lotes de terras. Primeiro nas regiões independentes da Saxônia, Tirol e Boêmia, onde diziam haver minas de prata e cobre. Posteriormente compraram terras nas Montanhas dos Cárpatos, em território eslovaco e polonês. Nessa região encontraram mercúrio e cinabarita (sulfeto de mercúrio), usada para fabricar pigmentos vermelhos. Algo útil na indústrial têxtil para o tingimento. (GRAULAU, 2008, p. 556). 


Sigismundo de Tirol
Mas o grande negócio de mineração para os Fugger estava centrado em Tirol. O senhor daquele Estado, o arquidueque Sigismundo de Tirol (1427-1496) era chamado de Duque das Minas. A região possuía minas de prata, cobre e até mesmo de óleo bruto. Mercadores judeus austríacos e alemães, além de mercadores venezianos já investiam em Tirol há alguns anos. A situação complicou-se quando em 1484, o arquiduque Sigismundo tentou controlar o direito de mineração em suas terras. Isso desagradou principalmente os venezianos por terem muitas propriedades e dinheiro investido ali. Em 1487 houve uma revolta contra o duque, temendo que se torna-se uma guerra civil, Sigismundo solicitou do papa Inocêncio VIII um acordo de paz. Os mercadores venezianos aceitaram em não mais se revoltar e mudar os termos de exploração e tributos exigidos pelo arquiduque, mas sob a compensação de que ele os pagasse uma indenização de 100 mil gulden (bastante dinheiro na época). Sigismundo não tinha esse dinheiro, então teve que recorrer a um empréstimo. 

Naquele ano surgiu uma solução para o arquiduque Sigismundo. Os Fugger que estavam encaminhando no ramo bancário, se ofereceram em emprestar o dinheiro. O empréstimo foi feito em florins, em duas parcelas, totalizando mais de 170 mil florins. O arquiduque teria cinco anos para quitar a dívida. Fora isso, o contrato exigiu calções, como as minas de Schwaz e impostos mais baratos sobre a prata de Tirol. Isso favoreceu os Fugger, pois passaram a comprar prata mais barata para revender. Na ocasião desse acordo, Jacob Fugger II estava presente, inclusive se mudou de Veneza para Tirol, para poder administrar mais de perto os negócios nas minas. Cinco anos se passaram e o arquiduque não quitou o empréstimo, porém, o direito de compra mais barato da prata de Tirol, já havia compensado isso. Além da condição que os Fugger compraram pequenas empresas e minas, expandindo sua influência no Tirol. (GRAULAU, 2008, p. 557).


Imperador Maximiliano I
A fortuna adquirida com a mineração de prata, cobre e mercúrio, aumentaram consideravalmente as posses dos Fugger. Na década de 1490, o imperador Maximiliano I (1459-1519), governante do Sacro Império Romano-Germânico, estava com o intuito de retomar territórios de seu império, no norte da Itália, que haviam sido conquistados pelos franceses. Além disso, corriam boatos que talvez o imperador organizasse uma cruzada contra os Otomanos. De qualquer forma, a cruzada nunca ocorreu, mas o embate para reaver territórios perdidos foi algo que aconteceu. Mas para se fazer guerra é necessário ter dinheiro. O imperador que estava no trono sem ter sido coroado oficialmente, não dispunha de prestígio de parte de seus vassalos, assim, era necessário ter dinheiro para contratar mercenários, armar camponeses e patrocinar seus vassalos, lhes fornecendo recursos. Para isso, o imperador Maximiliamo recorreu ao Banco Fugger. Na época Jacob que vivia no Tirol, mais próximo da corte do imperador, organizou os tramites do empréstimo, sendo emprestado uma quantia de 121.600 florins. O acordo foi fechado em 1496. (GRAULAU, 2008, p. 558).

Nos anos seguintes Jacob Fugger continuou a manter acordos com o imperador, incluindo a condição de se tornar quase que seu banqueiro exclusivo, além de ter ganho direitos e benefícios para exploração de jazidas e minas de prata e cobre em seu império, o que continuou a fazer o negócio minerador crescer. Após a morte de Jacob II, seus sobrinhos deram segmento a administração das minas e do mercado de prata e cobre por vários anos depois. 

O negócio das Índias: 

Após o estabelecimento da Rota das Índias, feito realizado pelo capitão Vasco da Gama e sua tripulação entre 1497-1499. O acesso as especiarias orientais agora poderia ser feito por via marítima, não mais dependendo do monopólio de importação controlado pelos árabes, turcos e venezianos. Embora fosse uma viagem mais longa, demorada e arriscada, os riscos valiam apena. O lucro obtido por Gama ao retornar com apenas um navio abarrotado de especiarias foi astronômico na época. 


“Na primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, os lucros atingiram a 6.000o%! Pouco surpreende que os outros navios tenham empreendido a mesma perigosa e lucrativa viagem. O comércio se intensificou aos saltos. Se Veneza comprava 420 mil libras de pimenta por ano ao sultão do Egito, agora um único navio, em sua viagem de regresso a Portugal, transportava um carregamento de 200 mil libras! Não mais importava que a antiga rota para o Oriente tivesse sido conquistada pelos turcos; não mais importava que os venezianos cobrassem preços exorbitantes; o caminho para o Oriente, via Cabo da Boa Esperança, tornou os mercadores independentes da benevolência com que os turcos os tratavam e rompeu o monopólio veneziano”. (HUBERMAN, 1981, p. 84-85).

“Modificou-se, então, a direção das correntes de comércio. Se anteriormente a posição geográfica de Veneza e das cidades do Sul da Alemanha lhes proporcionava vantagens sobre os demais países situados mais a oeste, agora eram esses países da costa atlântica que contavam com vantagens. Veneza e as cidades que a ela se ligavam comercialmente passam, então, a ficar de fora da principal via de comércio. O que antes constituía estrada principal agora não é senão um atalho. O Atlântico tornou-se a nova rota mais importante, e Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra e França ascenderam à eminência comercial”. (HUBERMAN, 1981, p. 85).

Pela condição de que no começo do século XVI, Portugal e Espanha eram os pioneiros nas navegações pelo Atlântico, fosse para as Américas ou para a Ásia, Jacob Fugger decidiu instalar contatos e negócios nesses dois reinos.  No caso português, o então rei D. Manuel I (1469-1521), foi procurado por mercadores, empresários e investidores alemães, principalmente de Nuremburgo e Augsburgo, o que incluiu os Fugger. A petições iniciadas por volta de 1502, clamavam do monarca direito de investimento e patrocínio nas expedições portuguesas. A ideia era fornecer recursos, navios e se fosse o caso, tripulantes, para armar navios e os enviá-los às Índias. O rei Manuel I decidiu acatar a proposta, desde que parte dos lucros fosse revertida a ele. Isso gerou o Privilégio dos Alemães (1503-1511). 

Retrato de D. Manuel I, rei de Portugal entre 1495 e 1521. 
“D. Manuel I era-lhes muito favorável, sabendo que estes mercadores-banqueiros alemães poderiam desempenhar um papel fundamental como investidores e fornecedores de metais, sobretudo em relação à prata e ao cobre. Estes metais eram imprescindíveis para efetuar as trocas comerciais em África e na Índia. O denominado Privilégio dos Alemães, que contemplava os privilégios que lhes foram concedidos pelo rei de Portugal entre 1503 e 1511, evidencia o estatuto excecional que as empresas alemãs possuíam em terras portuguesas. Tornaram-se, temporariamente, a par dos mercadores-banqueiros italianos, nos parceiros comerciais mais relevantes da monarquia portuguesa. O Privilégio dos Alemães superou os direitos e liberdades outorgados a comerciantes de outras nações estabelecidas em Portugal e foi, como salientaram Virgínia Rau e Maria Valentina Cotta do Amaral, o mais cobiçado por mercadores estrangeiros no século XVI. Virgínia Rau sublinha que, através dos privilégios concedidos, a Coroa portuguesa visava atrair os mais poderosos banqueiros e mercadores europeus de modo a que se integrassem no projeto expansionista e, ainda, garantir a presença de várias nações mercantis concorrentes na praça comercial de Lisboa”. (POHLE, 2015, p. 22).

Porém, Jacob Fugger II não chegou de imediato a Portugal. Os alemães já faziam negócios com os portugueses há mais de um século. Antes de Fugger chegar, outros mercadores e banqueiros já estavam por lá como Lucas Rem, Sebald Kneussel, representantes das famílias Welser, Imhoff, entre outros. A casa comercial dos Welser em fevereiro de 1503 havia enviado um representante, Simon Seitz, para negociar com o rei D. Manuel I. As negociações foram produtivas, e o rei criou o privilégios para os alemães. No mesmo ano, os Fugger sabendo disso, decidiram correr atrás, enviando representantes e conquistando o mesmo direito, o qual predizia que: 

“Tinham, portanto, o direito de fazer negócios em Portugal e no ultramar português. Os privilegiados encontravam-se isentos de pagar tributos e impostos pela prata que trariam. Em relação a outros produtos importados, como cobre, latão, vermelhão, mercúrio, mastros, pez, alcatrão e munições, pagavam apenas a dízima. Além disso, foram dispensados de «colacoenz ou pagamentos de peitas ou pedidos, que pellos Reynos ou Prouincias se costumão muitas pedir e por». Tinham o direito de assentar casa dentro e fora dos muros de Lisboa para armazenar mercadorias. Estas deveriam ser preferencialmente despachadas nas alfândegas e na Casa da Moeda pelos funcionários reais. Aqueles mercadores que investissem na construção naval em Portugal deviam receber privilégios alargados. A carta de privilégio de 1503 teve um prazo de 15 anos e valia em princípio para todas as empresas e mercadores alemães que estivessem dispostos a investir em Portugal um mínimo de 10.000 cruzados. No que respeita à compra dos produtos ultramarinos por parte dos alemães, os Welser deveriam pagar inicialmente um tributo não superior a 5%, enquanto os restantes mercadores tinham de pagar 10% de sisa”. (POHLE, 2015, p. 23). 

Os Welser e os Fugger conquistaram esse direito em 1503, nos anos seguintes outras famílias alemães como Höchestetter e  os Hirschvogel aderiram ao privilégio. E além dos alemães, italianos também se interessaram pelos negócios dos portugueses. No caso, vale sublinhar que o Privilégio dos Alemães garantia não apenas a exploração de produtos e negócios na Ásia, mas também na África, que já contava com várias feitorias e algumas colônias portuguesas. No tocante a América Portuguesa, representada pelo Brasil, a exploração de pau-brasil ainda era exclusiva dos portugueses, embora os franceses agissem ilegalmente na região, contrabandeando a preciosa madeira. De qualquer forma, o acordo com os banqueiros e mercadores alemães foi bom para o desenvolvimento econômico de Portugal, mas atiçou a concorrência e conflito entre os alemães que tentavam desbancar seus concorrentes e conquistar monopólio. 


“Na altura em que Sebald Kneussel se encontrava em Lisboa, a colónia dos mercadores alemães passou por uma fase muito complicada, repleta de conflitos internos66. Existiram várias razões por detrás das discordâncias, que inquietaram a vida dentro da nação mercantil. Segundo Kneussel, as inimizades tinham começado em 1511, quando chegou à cidade do Tejo Hans von Schüren, o designado feitor da célebre casa comercial dos Fugger, para substituir Marx Zimmermann. Este último recusou-se a entregar a feitoria a Hans von Schüren e foi apoiado na sua disputa privada por Calixtus Schüler e outros colegas estabelecidos há mais anos na capital portuguesa. Jacob Fugger reagiu e colocou, na pessoa de Jörg Herwart, um segundo responsável no topo da feitoria lisboeta até à solução dos problemas com Marx Zimmermann”. (POHLE, 2015, p. 31). 

Mesmo com o término do Privilégio aos Alemães em 1511, os Fugger mantiveram negócios em Portugal nos anos seguintes, inclusive durante a vigência do privilégio, a tentativa de controlar a colônia alemã em Lisboa, gerou conflito com as outras casas mercantis. Porém, se comparado a influência ocorrida na Espanha, os Fugger tiveram um papel mais determinante no reino espanhol, do que no português. 

O preço de um rei: 

Assim como ocorreu em Portugal, com a exploração das rotas comerciais marítimas, os espanhóis também fizeram o mesmo, e os Fugger chegaram a investir dinheiro nesse comércio ultramarítimo. Porém, o grande destaque da influência dessa família na Espanha, girou em torno na crise sucessória do trono do Sacro Império Romano-Germânico. O imperador Maximiliano I faleceu em 1519. Seu filho Filipe, o Belo (1478-1506) havia morrido em 1506, porém, ele em seu casamento com Joana I de Castilla, legou descendência de 4 filhas e 2 filhos. Sendo o filho varão Carlos (1500-1558), o herdeiro legítimo. No entanto, um outro pretendente ao trono alemão surgiu, tratava-se do rei da França, Francisco I (1494-1547). Entronado rei da França em 1515, ainda recente no trono, ambicionava conquistar para si o Sacro Império. 

Embora Carlos fosse o herdeiro legítimo, ele teria que disputar com Francisco I o direito ao trono. Para isso era necessário muito dinheiro para poder assegurar a posse de um império. O dinheiro valeria a afirmação de sua autoridade frente os príncipes alemães, frente os credores, o papa Leão X, e asseguraria poder financiar uma guerra pelo trono, caso fosse necessário. Como o jovem rei Carlos I da Espanha necessitava de dinheiro, ele decidiu procurar um dos banqueiros de seu avô, Jacob Fugger II. 

Em 1520 o monarca espanhol viajou para o Sacro Império a fim de tratar da sua sucessão. Como o Tirol, região que era o polo das minas de prata da Europa, e estava praticamente sob monopólio dos Fugger, era território de Maximiliano I, agora passaria a ser de seu neto. Além disso, os Fugger já mantinham negócios com Maximiliano há vários anos, e tinham negócios em Espanha também. Jacob viu que o mais viável era apoiar Carlos I e não Francisco I. Naquele ano de 1520 Jacob Fugger emprestou ao jovem rei uma volumosa quantia de 543 mil florins. O restante necessário foi conseguido pelo rei a partir de outras fontes, totalizando 850 mil florins. Todavia, mais da metade desse valor foi emprestado apenas pelo Banco Fugger. (HUBERMAN, 1981, p. 87-88). 


O rei Carlos I da Espanha, e Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico. 
“Jacob Fugger, o homem por trás dos bastidores, pelo tom de uma carta que escreveu a Carlos quando este atrasou o pagamento da dívida. E apenas devido ao tremendo poder que lhe provinha de sua fortuna, teve Fugger a audácia de escrever tal carta: ... Além disso, adiantamos aos emissários de Vossa Majestade uma grande quantia, parte da qual nós mesmos tivemos que levantar, através de amigos. É bem sabido que Vossa Majestade Imperial não teria obtido a coroa do Império Romano sem a minha ajuda, e posso prová-lo com os documentos que me foram entregues pelas próprias mãos dos enviados de Vossa Majestade. Neste negócio, não dei importância à questão de meus próprios lucros. [Não acredita nisso!] Porque, tivesse eu deixado a Casa da Áustria e me decidido em favor da França, muito mais teria obtido em dinheiro e propriedades, tal como, então, me ofereceram. Quão graves desvantagens teriam, nesse caso, resultado para Vossa Majestade e a Casa da Áustria, bem o sabe Vossa Real Inteligência”. (HUBERMAN, 1981, p. 88). 


“Pouca coisa de importância se passou no século XVI, sem que a sombra dos Fuggers se projetasse, de uma forma ou de outra. Iniciaram seus negócios no século XV com um estabelecimento comercial de lã e especiarias. Mas foi como banqueiros que fizeram fortuna. Emprestavam capital a outros mercadores, a reis e príncipes e, em troca, recebiam proventos de minas, de especulações comerciais, de terras da coroa, de praticamente todo tipo de empreendimento que desse lucro. Quando os empréstimos não eram repostos tornavam-se donos de propriedades, minas, terras - o que tivesse sido dado como garantia. Até o papa devia dinheiro aos Fuggers. Estes tinham ramificações e agentes em toda parte. O balancete dos Fuggers, em 1546, mostra débitos do imperador alemão, da cidade de Antuérpia, dos reis da Inglaterra e Portugal, e da Rainha da Holanda. Seu capital, naquele ano, se elevou a 5 milhões de florins. A História que datasse esse período, não como o reinado do rei Fulano de Tal, mas como a Idade dos Fuggers, estaria muito mais próxima da verdade”. (HUBERMAN, 1981, p. 88).

O empréstimo dado pelo Banco Fugger ao rei Carlos I de Espanha deu certo. Em 26 de outubro de 1520, o papa Leão X reconheceu o rei espanhol como novo monarca dos alemães, coroando como Carlos V do Sacro Império.  O novo monarca permaneceu no Sacro Império até 1522, quando retornou a Espanha, deixando seu irmão Fernando como co-imperador. Anos depois Fernando assumiria exclusivamente o governo do Sacro Império. Todavia, a vitória de Carlos V lhe rendeu uma volumosa dívida com Jacob Fugger, a qual seria incessantemente cobrada nos anos seguintes. A carta citada acima revela a cobra do banqueiro alemão. Mas apesar da sua fala em dizer que teria ganho mais em supostamente ter apoiado o rei francês, na prática, os rendimentos de Fugger cresceram muito devido aos cauções dados pelo rei Carlos I (V).

O fim de um banqueiro: 

Jacob Fugger II dedicou sua vida aos negócios. Após a morte de seus irmãos Ulrich e Georg em 1510, ele comandou os negócios da família sozinho, embora contasse com a ajuda de primos e sobrinhos, para questões burocráticas, diplomáticas, etc. mas a frente das decisões era dele. No caso, na década de 1520, devido a prosperidade alcançada pelo Banco Fugger e outros negócios realizado pela família, ele já era reconhecido como Jacob, o Rico. 

Jacob casou-se com Sibylla Artzt (1480-1546), filha de William Artzt e Sibylla Artzt Sulzer. Os Artzt eram bastantes ricos, apesar que nem de longe chegavam perto da fortuna de Fugger. Ainda assim, eles possuíam ligações na política e no exército, algo que interessava Jacob, pela condição de eles pertencerem a algumas das tradicionais famílias burguesas de Augsburgo. O interesse se devia ao fato que os Fugger embora ricos, não eram uma família tradicional. Eles poderiam ter enriquecido com o comércio de tecidos e de metais, mas não possuíam terras, imóveis, títulos, ou terem exercido cargos públicos ou reais. Por outro lado, a riqueza e contatos de Fugger interessavam bastante os Artzt, logo, era um casamento economicamente bem vantajoso. O casamento ocorreu em 9 de janeiro 1498, na época Fugger tinha 39 anos e Artzt estava com seus 18 anos. (STEINMETZ, 2015, p. 46-47). 


Retrato de Jacob Fugger II e sua esposa Sibylla Fugger. 
Embora tenham passado 27 anos casados, o matrimônio não gerou herdeiros. Os motivos não são claros. Além disso, a vida do casal é pouco conhecida. Sabe-se que Fugger comprou joias para a esposa, e até construiu um palacete para morarem. Mas embora ela fosse uma das suas herdeiras, sete meses após o falecimento dele, em 30 de dezembro de 1525, Sibylla casou-se com Konrad Rehllinger (1470-1556), rico mercador que era amigo de Fugger, que na época estava viúvo. Ao se casar com Rehllinger ela perdeu o direito a herança. Logo, o restante da fortuna foi em boa parte transmitida para Anton Fugger (1493-1560), sobrinho predileto de Jacob, sendo Anton o terceiro filho de Georg. Jacob Fugger II faleceu aos 66 anos de causas imprecisas, tendo deixado talvez a maior fortuna da Europa em seu tempo. (STEINMETZ, 2015, p. 48).

Anton Fugger casou-se em 1527 com Anna Augsburger, com quem teve dez filhos, quatro homens e seis mulheres. Ele ao lado dos irmãos, sobrinhos e filhos deram continuidade ao Banco Fugger e seus negócios. Anton como herdou a maior parte dos negócios e investimentos do tio, por vários anos comandou o banco, os negócios em Portugal, Espanha e no Tirol, além de prestar dinheiro para o rei Carlos V, o irmão dele Fernando I, e outros nobres. Anton Fugger foi cognomado o "Príncipe dos Mercadores"


Anton Fugger, sobrinho herdeiro de Jacob Fugger II. 
NOTA: Jacob Fugger II patrocinou a reforma da Igreja do Salvador, em Asunción de Calatrava, Espanha. Como ele manteve negócios naquele país e até ajudou o rei Carlos I a ser coroado imperador do Sacro Império, decidiu reformar essa igreja, e ainda deixar uma dedicatória em agradecimento a Deus, por ele, seus irmãos e sobrinhos. As obras somente foram concluídas após sua morte. 
NOTA 2: Embora tenha ganho o brasão familiar em 1473, Jacob Fugger e os irmãos nunca receberam títulos de nobreza. 
NOTA 3: Durante a gestão de Anton e seus irmãos, sobrinhos e filhos, os negócios dos Fugger se expandiram para as Américas e a Ásia. 
NOTA 4: Após a morte de Anton Fugger em 1560, os negócios da família começaram a desandar, em parte atrapalhados pela má gestão, rixas familiares, devedores que não pagavam, guerras, revoltas, etc. No século XVII os Fugger quase faliram algumas vezes. Após a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), os negócios da família com tecidos, especiarias, exploração colonial e o banco quase faliram de vez. Muita coisa foi vendida para quitar dívidas. Mas os Fugger ainda se mantiveram graças as suas minas, e por terem ingressado na nobreza e na política. A família Fugger ainda hoje existe. 
NOTA 5: Os Fugger ainda possuem um banco atualmente, apesar de ser um banco pequeno, chamado Fürst Fugger Privatbank, fundado em 1954, em Augsburgo. 

Referências bibliográficas: 

GRAULAU, Jeannette. Finance, Industry and Globalisation in the Early Modern Period: the Example of the Metallic Business of the House of Fugger. RSPI, n. 300, v. 4, 2008, p. 554-598. 

HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. 16a ed. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981. 
POHLE, Jürgen. Rivalidade e cooperação: algumas notas sobre as casas comerciais alemãs em Lisboa no início de Quinhentos. Cadernos do Arquivos Municipal, 2 série, n. 3, jan/jun, 2015, p. 19-38. 
STEINMETZ, Greg. The richest who ever lived: the life and times of Jacob Fugger. New York, Simon & Schuster, 2015. 


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