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Leandro Vilar

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Rei-sol

Alguns de vocês já devem ter ouvido falar no rei Luís XIV de França, o qual ficaria conhecido como o Rei-sol. Luís XIV ficaria conhecido na História como sendo um dos maiores representantes dos monarcas absolutistas da Europa e até mesmo do mundo. Durante a Idade Moderna em meio ao período das Monarquias Absolutistas, Luís XIV se tornaria uma referência tanto para a nobreza como para a elite francesa e de outros países. Tal fama não se deve ao fato de ter sido um dos melhores governantes da História, mas sim por sua prepotência e soberba exagerados. Sendo assim, falarei um pouco deste curioso homem que ousou se autoproclamar o Rei-sol, e em determinado ponto em dizer que "L'État c'est moi" (O Estado sou eu). 

Reinado:

Luís XIV nasceu em 1638, fora o primeiro filho do rei Luís XIII, o Justo (1601-1643) e da rainha Ana de Áustria (1601-1666), após mais de vinte anos de casamento (especula-se que Luís não fosse filho do rei, mas de um amante da rainha). De qualquer forma quando Luís nasceu foi recebido com grande entusiasmo por seus pais, a ponto de estes o batizarem com o nome de Louis-Dieudonné ("Luís, o presente de Deus").

Pintura retratando o jovem Luís XIV, entre o seu pai Luís XIII, sua mãe Ana de Áustria. O homem a esquerda do rei é o Cardeal de Richelieu, primeiro-ministro, e a mulher a direita da rainha é a Duquesa de Chevreuse. 
Posteriormente o casal teve um segundo filho, batizado de Filipe I, o qual acabou se tornando duque. Em 1643 o rei Luís XIII veio a falecer, e a rainha Ana assumiu como regente, porém durante este período que os príncipes ainda eram jovens para assumirem seus cargos sua mãe governou a França com o apoio do cardeal italiano Giulio Mazarino (1602-1661), o qual continuaria no seu cargo mesmo durante o início do reinado de Luís XIV. Mazarino era um homem com muitos inimigos políticos, e os seus atos de se tentar centralizar todo o poder nas mãos da Coroa acabou gerando conflitos internos, no que levou a Guerra Civil de Fronda (1648-1653)

Retrato do Cardeal Giulio Mazarino. Philippe de Campaigne, séc. XVII.
Tais fatos seriam grandes problemas os quais Luís XIV enfrentaria em seu governo. Em 1651 aos 13 anos, Luís assumiu o trono, e deste ponto em diante travaria sua luta para poder sustentar um Estado a beira de um colapso. A guerra civil ainda perduraria por mais dois anos, o Tesouro Real estava quase que esgotado e para piorar a situação, o rei era conhecido por ser um grande esbanjador, então gastava muito com artigos de luxo e de arte. De certa forma fora ele com este dinheiro que patrocinou alguns pintores de renome na época, e também reformou o Palácio do Louvre (atual museu) e também iniciou a construção do Palácio de Versalhes, o qual seria a sede da Coroa francesa de 1682 até 1789, quando ocorreu a Revolução Francesa (1789-1799). Ele também ordenou a construção do Hôtel des Invalidesum palácio-hospital construído para abrigar os soldados feridos durante a guerra.

O Hôtel des Invalides em Paris, visto da esplanada.
"Versailles, por exemplo, serviu ao rei como um cenário para a ostentação e seu poder. O acesso ao monarca era cuidadosamente controlado e comportava uma série de etapas. Os visitantes passavam de pátios externos e pátios internos, subiam escadas, esperavam em antecâmaras etc., antes que lhes fosse permitido vislumbrar o rei". (BURKE, 1994, p. 19).

Vista aérea do complexo palaciano de Versalhes. 
Jean-Baptiste Colbert
Em 1665 o rei elege Jean-Baptiste Colbert (1619-1683), para chefiar as finanças do Estado. Graças a esta escolha a França conseguiu se recuperar de sua crise, e de alguns de seus problemas econômicos e comerciais, além de ter dado um salto "tecnológico", devido ao fato de Colbert ter incentivado a construção de indústrias de manufatura pelo país e de ter empreendido reformas nas estradas, aquedutos e em outros prédios públicos. Por outro lado além das reformas empreendidas por Luís XIV, sobre a supervisão de Colbert, sua história também ficou marcada por sua influência em vários conflitos e guerras que se estenderam durante seu governo. Além da guerra contra a Espanha por causa de alguns territórios, Luís XIV participou de várias outras conflitos. Dentre eles estava a invasão francesa aos territórios espanhóis na região dos Países Baixos, nos quais deram origem a Guerra de Devolução (1667-1668). 


Onde Luís entra em conflito com a Espanha sobre o pretexto de que o dote de seu casamento com sua esposa Maria Teresa de Espanha não fora pago. Neste caso o próprio rei chegou a participar em pessoa da guerra, como mostra a figura ao lado. No fim ambas as nações assinam um tratado de paz, onde a França entrega o território de Franco Condado, e a Espanha permite que os franceses fiquem com alguns outros territórios, a exemplo de FlandresPorém a investida de Luís XIV, não acabaria por aí, sem seguida ele acaba entrando em confronto com os estados germânicos do Sacro Império Romano-Germânico. Durante este conflito acaba se criando a Liga de Habsburgo, onde os estados do Sacro Império entraram em conflito contra os franceses, e mais tarde contra os espanhóis e suecos que entraram na batalha.

Além do problema de que os franceses conquistaram algumas terras pertencentes ao Sacro Império, havia o fato de que além deste motivo havia a questão da luta religiosa no meio. A maioria dos Estados do Sacro Império eram protestantes e quanto aos franceses e espanhóis, estes eram católicos, e se revivendo o velho conflito das Guerras Religiosas, a batalha se tornou mais acirrada. Por outro lado Luís XIV contava com duas ajudas, a primeira era o fato de que o exército francês era um dos mais bem equipados, treinados e poderosos da época, e a outra ajuda viria de seu primo o rei Jaime II, rei da Grã-Bretanha. Mas está ajuda não acabou vindo, devido a Revolução Gloriosa (1685-1689), na qual depôs o rei Jaime II e pôs em seu lugar o rei Guilherme III, que não era muito "chegado" a Luís XIV. Com tal acontecimento a guerra sofrera uma reviravolta; Guilherme III acabou se unindo ao Sacro Império, formando a Liga da Grande Aliança, que acabou gerando a Guerra dos Nove Anos (1688-1697), a qual terminou sobre muitas vitórias dos franceses, e com a assinatura do Tratado de Ryswick (1697). Com isso França, Inglaterra e as demais nações entram em um consenso, e cada um acaba devolvendo alguns dos territórios tomados um dos outros.

Mas neste ponto a série de guerras ainda não acabou, havia outro problema adiante a ser resolvido, o problema da sucessão real da Espanha. Em 1700 o rei espanhol Carlos II, veio a falecer, e como não deixou herdeiros, vários nobres espanhóis, germanos, austríacos, italianos e o próprio Luís XIV estavam disputando a vaga do trono. Por fim, o rei deixara como herdeiro escolhido Filipe, Duque de Anjou (neto de Luís XIV), o qual se tornou o rei Filipe V de Espanha. Mas foi neste ponto que se desenrolou a Guerra de Sucessão Espanhola (1702-1714). 

O rei Luís acabou quebrando o acordo com o Guilherme III e este lhe declarou guerra por tal ofensa, e para completar novamente o Sacro Império voltava a fazer aliança com os ingleses. Neste ponto os franceses se aliam aos espanhóis e ao Estado da Baviera, para confrontar a aliança formada pelos ingleses, pelo Sacro Império, Portugal, Reino da Dinamarca e Noruega, República Unida dos Países Baixos e o Ducado de Sabóia. Durante os Idos do século XVIII a Europa se encontrou em uma verdadeira confusão de conflitos entre estas nações, o qual só veio a se resolver a partir de 1714, quando França e Inglaterra assinam o Tratado de Utrecht e depois com o Sacro Império, pondo fim aos conflitos. França e Espanha saíram perdendo muito com este tratado, principalmente territórios na África e na América.

"A situação interna da França nos fins do reinado do Rei-Sol era desoladora. A opressão do absolutismo e as guerras ruinosas tinham completado sua obra. O famoso engenheiro, marechal Vauban, escrevia que uma décima parte do país era formada por mendigos, cinco décimos "estão no umbral" da mendicância", três décimos vivem "de Seca a Meca" e somete uma décima parte encontra-se no bem-estar e na abundância. A população tinha diminuído, aproximadamente, de um milhão de habitantes". (KOSMINSKY, 1963, p. 253).

Se em vida o governo de Luís XIV foram esplendorosos, em seu fim este se tornou uma grande ruína.

As representações do rei. O Rei-sol:

Mas por fim, depois desta longa narração de guerras, falta dizer porque o rei se chamar de o Rei-sol? Este motivo se deve ao fato de que o Sol simboliza a vida, a criação, o renascimento, o poder, a glória, a supremacia. Deste ponto, Luís XIV se considerava o próprio Sol da França.

"Luis era encarado com um soberano sagrado, e sua corte era vista como um reflexo do cosmo. Este era o sentido das muitas comparações entre o rei e Júpiter, Apolo e o Sol". (BURKE, 1994, p. 21).

A mais famosa representação de Luís XIV. Bastante vaidoso, o monarca sempre se vestia bem, e tinha apresso pelo uso de perucas para esconder sua calvície, e usava sapatos com salto para disfarça sua estatura. 
"O rei era visto pela maioria de seus contemporâneos como uma figura sagrada. Atribuíam-lhe o poder de curar os que sofriam de doenças de pele graças a seu "toque real"". (BURKE, 1994, p. 20).

"Em geral, Luis era qualificado de augusto, belo, brilhante (como o sol), constante, iluminado, ilustre, generoso, glorioso, heroico, imortal, invencível, justo, laborioso, magnânimo, munificente, piedoso, triunfante, sábio e vigilante. Numa palavra, era 'grande', adjetivo oficialmente adotado em 1671. LOUIS LE GRAND - era assim, em letras maiúsculas, que seu nome figurava frequentemente em textos de caixa baixa". (BURKE, 1994, p. 47).

Luis XIV fora um dos monarcas da História que mas fez uso da sua própria imagem. Centenas de obras de arte fora feitas sobre sua ordem para representá-lo nos mais diferentes aspectos de sua vida. Sendo em alguns casos a representação do rei, quase como se fosse em pessoa. Pelo fato de inexistir uma tecnologia que facilitasse a representação do monarca em todo o país, algo hoje possível com a televisão e a internet, as pinturas e esculturas eram as melhores formas das pessoas conhecerem seu rei. Havia procissões pelo país, onde tais imagens eram enviadas para que a população prestasse suas homenagens ao monarca

"A cultura francesa no reinado e Luis XIV - Para dar maior brilho ao seu reinado, Luis XIV favorecia as artes, a literatura, a ciência. Os pintores, escritores e sábios deviam enaltecer seu poderio. Uma arquitetura brilhante e rebuscada, a pomposa e caríssima decoração interior dos palácios maravilhavam os estrangeiros. Os grandes e pequenos soberanos da Europa procuravam imitar esse estilo, inatingível para eles". (KOSMINSKY, 1963, p. 250).

"Dar as costas ao retrato era uma ofensa tão grave quanto dar as costas ao rei. Outros retratos, presidiam festividades, em homenagem ao rei nas províncias. Ocorria-lhes até ser carregados em procissão, como a imagem de um santo". (BURKE, 1994, 20).

"Havia imagens visuais de Luís em pintura, bronze, pedra, tapeçaria (ou, mais raramente, em pastel, esmalte, madeira, terracota e até cera)". (BURKE, 1994, p. 28).
Estátua equestre de Luís XIV na Praça Vendôme. François Giardon, 1692. 
"A imagem do rei era associada ainda aos heróis do passado. Ele foi proclamado um novo Alexandre (a comparação que mais lhe agradava, pelo menos na década de 1660), um novo Augusto (que encontrou uma Paris de tijolos e deixou-a de mármore), um novo Carlos Magno, um novo Clóvis, um novo Constantino, um novo Justiniano (ao codificar as leis), um novo são Luis, um novo Salomão, um novo Teodósio (ao destruir a heresia dos protestantes como este destruíra a dos arianos)". (BURKE, 1994, p. 47).

Luís XIV representado como Alexandre, o Grande. Pintura de Charles Le Brun, 1700. 
Mesmo tendo levado uma vida de festas (ele era um homem que gostava muito de dançar e de promover bailes), de gastar muito, de ter possuído muitas amantes e de ter passado longos anos desfrutando das melhores comidas, e quanto o seu povo passava fome, ele ainda é lembrado como sendo um grande monarca de seu tempo. De certa forma ele queria se ver não somente como o Sol que brilha na França, mas como o Sol que iluminaria o mundo, mesmo que não tivesse chegado perto disto.

Por fim em 1 de Setembro de 1715, próximo de completar 77 anos e após ter governado por 72 anos (soma-se o tempo em que sua mãe governou até ele assumir oficialmente o trono), Luís XIV o Rei-sol veio morrer de gangrena, e foi sucedido por seu bisneto Luís XV, fato este devido que a maioria dos filhos de Luís morreram durante a infância e somente um ou dois deles chegaram a fase adulta (sendo estes filhos com amantes, logo eram bastardos). De qualquer forma seu bisneto Luís XV passaria a governar a França.

NOTA: As reformas exercidas por Colbert em sua administração lhe renderam a elaboração da metodologia do Colbertismo. Também chamado de o Mercantilismo industrial francês.
NOTA 2: Luis XIV, ficou conhecido por ter lançado algumas modas em sua época. A primeira fora a moda das perucas. Pelo fato do rei ser calvo, passou grande parte de sua vida usando perucas. E logo isso virou sinonimo de riqueza e luxo. Sendo assim a nobreza e a elite usavam perucas. Quanto aos pobres, este não tinha dinheiro para comprar-las.
NOTA 3: Outro moda lançada pelo rei fora o uso de sapatos com salto alto. Antes dele os reis já utilizavam sapatos de salto alto. Mas na figura de Luis XIV tal prática se tornou mais glamurosa. O fato de se usar salto alto era pela questão do rei ser baixo. E nessa época, ser alto era indicação de superioridade. Sendo assim o rei para parecer mais alto e "superior", usava sapatos com salto alto.
NOTA 4: Em sua época muitos homens ilustres falaram bem do rei. Tais como: Bossuet, Saint-Simon, o filósofo Voltaire o qual escreveu a obra O Século de Luis XIV; artistas como Racine e Benini fizeram esculturas e quadros do rei, dentre outros poetas e escritores que elaboraram obras que exaltavam a imagem do rei (algo comum na época).
NOTA 5: Luis XIV chegou a criar uma moeda com sua efigie, o louis. Em sua época o louis de ouro valia cerca de 15 libras.
NOTA 6: Luís XIV é personagem dos romances Vinte anos depois (1845) e Visconde de Bragelonne (1847-1850), ambos escritos por Alexandre Dumas, pai, os quais também perfazem as continuações de Os Três Mosqueteiros (1844) a obra mais famosa dessa trilogia. No caso do primeiro livro, o pai e a mãe de Luís estão entre os protagonistas. 

Referências Bibliográficas:
BURKE, Peter. A fabricação do Rei. Rio de Janeiro, Zahar, 1994.
PIERRE, Goubert. Mazzarino. Milão, Rizzoli, 1992.
KOSMINSKY, E. A. História da Idade Média, Rio de Janeiro, Editorial Vitória, 1963.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, São Paulo, Nova Cultural, 1998.

LINKS:
Cardeal Jules Mazarin, Giulio Raimondo Mazzarino, ou Cardeal Mazarino
Fotos do Palácio e Jardins de Versalhes
Guerra de Sucessão Espanhola
Pinturas de Luís XIV

4 comentários:

witna disse...

nossa linda historia

vamoshistoriando disse...

Ow, cara, muito legal seu blog. Vamos trocar links (e acrescentar os respectivos links nos blogs um do outro), tenho uma proposta próxima a sua e trato dos mesmos assuntos referentes a história. Só clicar no link!
Abraços

João Paulo Ap. Leme disse...

Cara parabéns pelo blog, vi que ainda continuou postando em 2017, espero que continue. Gostei bastante do resumo sobre a vida de Luís XIX, citando várias vezes o Burke. Estou fazendo um trabalho na faculdade, sou graduando em História, e tive que ler o livro do Burke fabricação do rei, mas precisava de mais algumas coisas sobre o rei e encontrei aqui. É mais um obrigado mesmo, pois é difícil de se encontrar páginas na internet tão completas e inclusive com citações e fontes confiáveis!

Leandro Vilar disse...

Obrigado, João Paulo. O blog continua em funcionamento normal. Todavia, tem meses que estou atarefado com a universidade, então posto pouca coisa, mas mensalmente sempre está tendo publicações novas.